sábado, 30 de março de 2019

A vida dá muitas voltas... senhores governantes!


NOTA PRÉVIA


A Professora Sílvia Carvalho aceitou o "trabalhinho" e posicionou-se contra um Colega (baseando-se nos normativos, claro!!!). Esta a professora, agora com letra bem minúscula, "escrafunchou" papéis até encontrar alegados "ilícitos". Os resultados e o êxito da Escola pouco  ou nunca interessaram. Ninguém pode dormir descansado, digo eu, quando viola a consciência. Não pode. E por que a violou? 
Segundo julgo saber (e o secretário da Educação deveria abordar este assunto) nenhum dos inspectores com formação específica aceitou este vergonhoso "processo", pelo que terá sido necessário requisitar, fora da inspecção, aquela professora que, pasme-se, em tempos, na Escola do Carmo, viu-se a braços com um processo disciplinar. Entretanto, foi amnistiada. Sendo assim, o secretário da Educação e o director regional de Inspecção, por melhor que o "trabalhinho" tenha sido feito, obviamente, também não devem dormir descansados. Ou será que dormem, mesmo sendo cúmplices desta deriva? 
Na minha perspectiva, quando, neste caso, uma professora, por ninharias administrativas, aceita fazer parte desta encenação fantoche, não tem a qualidade necessária nem para ser docente nem Colega (aqui com C maiúsculo). Fica uma sugestão: que aproveite a embalagem e passe por todas as escolas da Região e analise, à lupa, quantos "ilícitos" são cometidos, semanalmente, mensalmente e anualmente! A fazer o "trabalhinho a pedido e bem feito", muitas escolas fechariam... Fui docente durante quatro décadas, em alguns casos "fizeram-me a folha" mas nunca tive conhecimento de um processo assim, caracteristicamente MALDOSO, ao ponto de uma sansão "roubar" 11.107,00 Euros a um Professor (aqui sim, com letra maiúscula). Ainda ontem, na TVI, a Educação foi falada pelos piores motivos. Lamento. 
Entretanto, no Jornal Público, li o texto que se segue da autoria da Jornalista Bárbara Reis.
A mensagem do ex-presidente do governo ao Professor Joaquim Sousa é significativa. O secretário da Educação que "desembrulhe"...

OPINIÃO
Bárbara Reis - Jornal Público

Os 12 crimes do professor Joaquim Sousa


Em vez de multarem o professor da Madeira, podiam criar um prémio de 11.107 euros para quem conseguir repetir o que Joaquim Sousa fez no Curral das Freiras.

Sílvia Carvalho é professora de Filosofia do ensino secundário na Madeira e foi requisitada para ser a instrutora do processo disciplinar que o governo regional abriu contra Joaquim Sousa. No continente, este é o homem conhecido por ser o professor que transformou uma das piores escolas do país numa das melhores e a seguir foi despromovido. Na Madeira, é conhecido por ser vaidoso, próximo do CDS e, agora, presidente da comissão política Aliança-Madeira. Respirei fundo e pus-me a ler os 388 artigos da “nota de culpa”. Deles, resultam 12 “ilícitos”.

Mas antes disso, duas notas. Uma sobre o fim da história. Joaquim Sousa foi castigado em duas coisas que doem: o prestígio e a carteira. Foi humilhado e não vai receber salário durante seis meses, um castigo de 11.107 euros. Outra para antecipar os comentários dos leitores: a professora Sílvia Carvalho limitou-se a cumprir a lei; “o mal deste país” é criticar as pessoas e não as políticas; fazer ataques pessoais é fugir à complexidade dos problemas estruturais; a intenção é prejudicar o PSD e ajudar a Aliança e assim ajudar o PS ou a esquerda em geral; os lisboetas adoram dizer mal da Madeira. Podem cansar-se à vontade.

Lêem-se os 388 artigos e no fim está escrito: “A instrutora Sílvia Carvalho.” Foi a professora Sílvia Carvalho quem dirigiu e assinou o processo disciplinar. Ignorar isso é atirar a autoria para a “entidade” — abstracta e genérica — e tratar os funcionários como seres incapazes de tomar decisões. Não foi o que aconteceu. A professora Sílvia Carvalho tomou 388 decisões. É dos “comportamentos do trabalhador arguido” Joaquim Sousa, como repete, que extraiu os 12 “ilícitos” que aqui vou tentar traduzir para português inteligível.

1. “Requisitar docentes para além das necessidades reais.” O “crime” foi pedir dois educadores de infância que a instrutora acha desnecessários. Esses educadores trabalharam um ano na Seara Velha, um lugar isolado dentro do isolado que é o Curral das Freiras — mais de meia hora a pé. Não sei se eram ou não necessários, mas pelo que percebi a escola tem hoje menos uma sala de pré-primária mas mantém o número de educadores, incluindo os dois do “crime”.

2. “Pôr em funcionamento cursos para os quais não tinha autorização.” “Cursos” significa turmas. Aqui há dois “crimes”. O primeiro foi não enviar a lista dos nomes dos alunos de três turmas do Curso de Educação e Formação de Jovens já autorizadas. O outro foi enviar para o Funchal os papéis de abertura de uma turma de ensino para adultos em Setembro em vez de em Julho.

3. “Não notificar formalmente os docentes dos seus horários semanais de trabalho e respectivas alterações.” “Crime”: distribuir os horários por email e na plataforma electrónica e não em papel. Isto não é uma piada.

4. “Elaborar horários semanais de trabalho dos docentes com irregularidades.” “Crime”: na primeira semana de aulas do ano, os horários eram marcados de forma provisória, sabendo todos que, depois de falarem com alunos e conhecerem as turmas, far-se-ia o horário definitivo.

5. “Não assegurar as aulas dos alunos em sede das matrizes curriculares.” “Matrizes curriculares” são conteúdos — a “matéria”. “Crime”: esperar pela resposta do Funchal antes de substituir uma professora que tinha partido o perónio.

6. “Distribuir serviço docente do 1.º ciclo do ensino básico recorrente a uma docente sem habilitação profissional para tal.” “Crime”: dar aos alunos uma professora com excesso de qualificações.

7. “Distribuir serviço docente em regime de coadjuvarão sem autorização da DRIG e da DRE.” “Crime”: 7 professores passaram duas horas por semana ao lado de alunos que precisavam de ajuda especial, como as crianças que tinham acabado de chegar da Venezuela, “traduzindo-lhes” as aulas em sussurro.

8. “Distribuir serviço docente com conteúdos funcionais que extravasam o plasmado no artigo 38.º do Estatuto da Carreira Docente da Região Autónoma da Madeira.” “Crime”: a escola criou os programas voluntários de Acolhimento e Prolongamento (45 minutos cada), para as crianças dos 4 meses aos dez anos não ficarem na rua à espera da abertura do portão. O mesmo à tarde. Na nota de culpa, a instrutora diz que os docentes tinham de “mudar fraldas”.

9. “Estabelecer regras no regime de assiduidade sem enquadramento legal.” “Crime”: os professores não registaram na plataforma digital os sumários sobre as suas actividades extra-lectivas, só os da matéria dada.

10. “Permitir a existência de horários dos alunos sem respeitar as matrizes curriculares.” “Crime”: a escola deu uma hora a menos de aulas de Matemática e Português do 5.º e 6.º ano e uma hora a mais de apoio a essas disciplinas.

11. “Distribuir serviço docente com horas extraordinárias não respeitando as normais legais.” “Crime”: seis professores foram compensados em tempo de descanso. A lei prevê e todos concordaram.

12. “Autorizar a anulação de matrícula de aluno dentro da escolaridade obrigatória.” “Crime”: aprovar a anulação da matrícula de um aluno que, tendo sido aceite em duas escolas, ficou na de Setúbal.

Em que cabeça é que isto vale 11.107 euros? Miguel Albuquerque bem podia agarrar nesse valor e criar um prémio para quem conseguir repetir o que o Joaquim Sousa fez no Curral das Freiras.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Por mais flexibilidade que exista, a avaliação tem de ter efeitos para os alunos


O projeto de autonomia e flexibilidade curricular, que este ano está já a ser aplicado em todas as escolas, “morrerá na praia se não houver consequências da avaliação” feita aos alunos. Esta é a convicção da professora da Universidade do Porto, Ariana Cosme, que tem sido a principal consultora do Ministério da Educação neste projeto lançado em 2017/2018, que tem na base dar às escolas a possibilidade de organizarem o currículo e o modo como ensinam em função das suas características e do meio em que se inserem. Falando numa conferência promovida nesta quarta-feira pela Fundação Belmiro de Azevedo com o tema Estão as escolas preparadas para a autonomia e a flexibilidade curricular, Ariana Cosme frisou que este é um projeto “criado para ajudar os alunos a aprender melhor” e que como tal não poderá ser compatível “com pautas recheadas de más notas”.

A professora da Universidade do Porto respondia assim a dúvidas levantadas por docentes presentes na sessão sobre se a avaliação tradicional não acabará por “atrapalhar” a possibilidade de os professores darem as suas aulas de modo diferente e também sobre o modo como esta avaliação deverá ser feita em áreas como a Cidadania e Desenvolvimento, que se pretende seja transversal a várias disciplinas.
Antes, o presidente da Associação Nacional de Diretores e Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, tinha já apontado que a conciliação do novo projeto com a realização dos exames nacionais foi um dos principais constrangimentos apontados pelas escolas, no que respeita à sua aplicação no ensino secundário. “Por causa do modelo de acesso ao ensino superior, as escolas continuam refém dos exames e isso é muito redutor”, frisou.

O professor da Universidade de Lisboa João Barroso, que esteve na base do novo projeto de autonomia das escolas aprovado em 1998, lembrou a este respeito o que o próprio responsável da divisão de Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Andreas Schleicher, admitiu no ano passado em Lisboa que o “pior” do sistema de ensino português eram os exames.

“Toda a gente diz mal dos exames, mas ninguém consegue viver sem eles”, comentou este investigador, adiantando que a este respeito a administração educativa está a “dar com uma mão e a tirar com a outra”. Só que, alertou, “os exames só acabarão quando existirem condições nas escolas para se avaliar os alunos de outra maneira”.
E por falar de avaliação, Ariana Cosme deu conta de alguns resultados a que já chegou com o estudo avaliativo do primeiro ano do programa de flexibilidade curricular, em forma de projeto-piloto em que enfileiraram 235 escolas. “Há territórios e escolas que vão precisar de mais apoios do que outras”, disse a propósito das dificuldades que têm sido reveladas.
Há também um “grande desafio” que está colocado aos professores e que se prende com a sala de aula, adiantou. “Falei com muitos alunos e há um ponto comum que é o de gostarem da escola e dos seus professores. O problema é que não gostam das aulas”, descreveu. Porquê? “Dizem que eles [os professores] falam o tempo inteiro”.
Face a este estado das coisas, Ariana Cosme não tem dúvidas de que a oportunidade de flexibilidade curricular dada com o novo programa “tem de incidir sobretudo sobre as aulas”. Sendo que para já foi criada esta “grande oportunidade: as escolas estão autorizadas a pensar”.
Filinto Lima alertou que não existem garantias de que este seja um trabalho para durar já que cada novo Governo que toma posse tem por hábito mudar a educação. E apelou por isso, de novo, à necessidade de um “pacto alargado em torno do currículo e da avaliação externa dos alunos”.
Fonte: Público

terça-feira, 26 de março de 2019

"O MUNDO NEGRO DOS BUROCRATAS INVEJOSOS"


Este texto corresponde ao editorial de hoje do jornal Público, assinada por David Pontes, complementado por uma peça do jornalista Márcio Berenguer. 

"Perante a violência da sanção, num processo com contornos absurdos, já nada há a esperar da Secretaria Regional de Educação. Resta-nos esperar que a Justiça possa trazer alguma claridade que afaste o negro do mundo dos burocratas invejosos.

Não deve ser fácil morar dentro da pele de um burocrata. O cheiro a bafio, o pó dos papéis, as articulações a ranger de tantos procedimentos repetidos, o sufoco dos formulários para preencher sem rasura, as palpitações provocadas pelo aproximar das “data-limite”, a gordura acumulada das pendências e especialmente a penumbra em que é expectável que tudo se passe, para recato do burocrata.
A luz incomoda, a claridade perturba. Luz como a que emana deste parágrafo com que o PÚBLICO um dia anunciou ao mundo o estranho caso da Escola do Curral das Freiras: “Contra todas as probabilidades, uma escola no lugar mais isolado da Madeira teve a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. Tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro.”
Dizem que nós, jornalistas, não gostamos de dar boas notícias, mas enganam-se. Adoramos, como qualquer um, quando o herói é o menos provável, escrever, como o nosso correspondente Márcio Berenger, que eles não só eram bons em português, mas que “no exame de Matemática, embora menos brilhantes, os resultados foram igualmente surpreendentes. Os alunos do 9.º ano tiveram uma média de 3,6, colocando a escola no 12.º lugar do ranking”.
Com estes excelentes resultados, era de imaginar que o caso da Escola do Curral de Freiras fosse analisado e dele se retirassem as boas lições que nos tivesse para dar. Mas isso era num país em que os educadores falassem mais alto que os burocratas. Como noticiámos em Abril do ano passado, o homem por trás deste feito, o presidente do conselho executivo, Joaquim Sousa, foi alvo de 12 acusações assentes em 388 irregularidades por parte da Secretaria Regional de Educação e a “escola-modelo” deixou de existir ao perder a sua autonomia. A escola que em cinco anos tinha subido mil posições mereceu esta atenção, até porque, conforme escreveu Bárbara Reis, tinha um grave problema: “O professor Joaquim é muito vaidoso.”
A vaidade no burocrata é a das regras cumpridas e por isso, quando alguém contorna algumas regras, não importa os resultados, importa que não se saia da linha. Por isso Joaquim Sousa irá pagar com uma pena de seis meses (sim, leram bem) sem receber ordenado. Perante a violência da sanção, num processo com contornos absurdos, já nada há a esperar da Secretaria Regional de Educação. Resta-nos esperar que a Justiça possa trazer alguma claridade que afaste o negro do mundo dos burocratas invejosos."

sábado, 23 de março de 2019

SEIS MESES DE SUSPENSÃO. O QUE O CIÚME PROVOCA!


É incontornável o que de bom fizeram o Dr. Joaquim José de Sousa e os seus colegas da Escola do Curral das Freiras. São públicos os prémios conquistados e todo o reconhecimento ao nível nacional, pelo facto da escola ter passado de uma das piores do país, uma daquelas do final do "ranking", para uma das melhores nos exames nacionais. Já muito escrevi sobre este assunto e não quero regressar aos pormenores. Não resisto, porém, em transcrever uma parte de um texto que publiquei em Setembro de 2018: "(...) Há indícios de uma trama que não dignifica quem nela participa(ou). Dava para um episódio de uma novela de enredo empolgante. Há ciúme, traição, jogo duplo, perseguição, intriga, assassinato de carácter, difamação pública, linchamento profissional, medo, eu sei lá, um bom argumentista e um realizador, estou certo, tinham elementos para contar uma história subordinada ao título: "como matar, não matando".


O secretário da Educação levou a sua avante. Definiu um alvo, perseguiu e suspendeu o citado professor durante seis meses. Até às próximas eleições, melhor dizendo. É público e notório que o secretário nunca gostou que aquele estabelecimento de aprendizagem fosse diferente e que, tendencialmente, saísse da rotineira normalidade. E vai daí, por ninharias burocráticas, mandou o Professor "canas adentro". O percurso da escola, os resultados, o reconhecimento e os prémios de nada serviram. Tampouco o facto deste professor, nos últimos dez anos, ter recebido três louvores e três excelentes. A lógica parece ser esta: ou os docentes se subjugam ao "patrão", concedendo-lhe visibilidade pública ou o elástico tende a rebentar pelo lado "mais fraco". 
Ora bem, o que poderia e deveria ser motivo de reconhecimento do governo pelo trabalho realizado em uma das freguesias mais carenciadas da Região, não, deu lugar à perseguição; o que deveria ser resolvido pelo diálogo, as tais questões administrativas, não, a opção foi pela sansão. Que triste figura política está a fazer o secretário da Educação! Uma imagem de quero, posso e mando no quadro do que, inexplicavelmente, o ciúme provoca. Deveria estar agradecido, mas não, ficou enfurecido. Deveria exaltar os resultados da escola no seu todo, incentivando, mas não, preferiu acabar com sua autonomia fundindo-a com a escola de S. António/Funchal.

Do ponto de vista meramente político este secretário não tem ponta por onde se lhe pegue. Conheci muitos ao longo de 40 anos, mas este, politicamente, classifico-o como o pior de todos na administração da Educação. E sendo assim, reforço a minha posição, repito, de natureza política: este secretário não tem as mínimas condições para exercer tão importante cargo. 
Não apenas por este caso, mas pelo que de nada trouxe para um sistema portador de futuro. 
É a expressão máxima de um erro de "casting". 

Segundo informação que me chegou, foram ignorados documentos, o depoimento de alguns testemunhos (presidente da comunidade educativa, do pedagógico, vice-presidente e chefe de serviços administrativos e de outras figuras), o regimento interno que serviu para acusar mas não para responsabilizar a vice-presidente (testemunha chave da acusação - que também era presidente do conselho administrativo - que figura tão arrepiante!), correspondência nunca recebida mas que foi usada, até um aluno matriculado em escola privada do Continente, em aulas desde 11 de Setembro 2017, cujo encarregado de educação pediu anulação de matrícula em 10 de Novembro, tendo sido anulada por o aluno, comprovadamente, estar noutra escola, a acusação condena por permitir o abandono escolar...!
No essencial, aquilo que para mim é gravíssimo, o diálogo que seria tão importante e fundamental foi ignorado. Preferiu o secretário aplicar seis meses de suspensão, presumo, sem direito ao salário, a um professor casado e com duas crianças em casa. Que maldade! Diz a sabedoria popular: "não há bem que sempre dure nem mal que perdure" e "cá se fazem, cá se pagam". A vida dá muitas voltas e eu que entendo que a vingança é das piores armas do ser humano e que a nada conduz, oxalá que a Justiça acabe por repor a dignidade do Professor em causa, com a respectiva condenação de quem agora, levianamente, condena SEM DIREITO A RECURSO. Resta o Tribunal Administrativo, mas aí, pode levar alguns anos a estudar e decidir. Espero que não. Se fosse comigo pediria uma indemnização muito, muito alta.
E a classe dos professores, nada tem a dizer a isto? E os restantes directores de escola? Ainda existe classe? Dos seis mil e quinhentos professores no activo, todos passarão ao lado? E da parte dos Deputados na ALRAM? Estou revoltado.
Ilustração: Capa do JM, edição de hoje.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Secretaria da Educação na Região das Maravilhas...


FACTO

A Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de S. Roque “recebeu hoje a cerimónia de entrega de Kits de Robótica e Programação a todas as escolas de 2.º e 3.º ciclos da Região Autónoma da Madeira. Uma oportunidade que serviu para Jorge Carvalho, secretário regional da Educação, dizer que o uso de tablets na sala de aula poderá ser uma realidade no próximo ano lectivo, a partir do 5.º ano de escolaridade. O governante revelou que esta medida está a ser estudada em conjunto com as escolas para saber se estas estão preparadas. Jorge Carvalho referiu ainda que esta nova metodologia de trabalho seria também uma forma de aliviar o peso das mochilas”. Fonte: DN-Madeira.

COMENTÁRIO

É a velha história de Alice, neste caso, de um secretário na Região das Maravilhas: “(…) Alice se não sabes para onde vais, qualquer caminho serve”. É isso. A complexidade do sistema educativo é tal que deveria obrigar à necessidade de, respeitando o planeamento e a cadência no tempo, primeiro, saber onde se está, o que implica uma extensa caracterização; segundo, saber onde se quer chegar, para, finalmente, definir os passos a dar para lá chegar. É uma regra básica para administradores e gestores, públicos ou privados.
Ora, a mudança de um sistema não se faz por impulsos, hoje isto, amanhã aquilo, conforme o que ditam a comunicação social, as redes sociais e outros meios, como se o sistema pegasse de empurrão, antes concretiza-se de uma forma pensada, articulada e integrada. Portanto, fica um rasto de dúvida quando é dito que o “uso de tablets na sala de aula PODERÁ ser uma realidade (…) a partir do 5º ano” (porquê o 5º e não desde o 1º ano?), ao mesmo tempo que é dado um salto nas preocupações, através da entrega de “Kits de Robótica e Programação a todas as escolas de 2.º e 3.º ciclos”. Não existe a base, mas o estádio posterior é colocado na linha de partida. Dois exemplos: foi a “sala de aula do futuro” (uma, apenas), agora os “Kits de Robótica e Programação” (naturalmente, para poucos). Ininteligível. Isto demonstra que a secretaria da Educação alimenta-se do mediatismo, pouco se ralando com aquelas três perguntas essenciais: onde estou, onde quero chegar e que passos tenho de dar para lá chegar. 
Finalmente, o drama da aprendizagem é essencialmente de natureza organizacional, curricular, programática e PEDAGÓGICA, que envolve múltiplas disciplinas e variáveis, porém, fica o testemunho que nada disso constitui motivo de preocupação embora seja aí que resida o âmago de uma desejada mudança. Essa transformação exige uma verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, CONFIANÇA nos professores, dizer NÃO à centralização do sistema, um orçamento compatível, desburocratização, uma nova concepção da rede escolar, uma nova configuração arquitectónica das escolas e sobretudo que não se brinque, politicamente, com coisas muito sérias. O problema NÃO está só no "alívio do peso das mochilas”. É muito mais complexo desde que não se queira utilizar os "tablets" para repetir o manual ou para substituir os velhos diapositivos e acetatos.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Que Inclusão queremos?

PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

A Escola Pública para “todos” não deve, nem pode, aceitar “tudo”, nomeadamente ao nível dos procedimentos e imposições de modelos únicos, da gestão à pedagogia, assentes de forma paradoxal numa lógica relativista quanto ao valor do Conhecimento.


O grande desígnio aglutinador da retórica deste governo na Educação, mais do que a “flexibilidade” ou até o “sucesso”, centra-se num conceito peculiar de “inclusão”. A “flexibilidade” é, neste contexto, uma ferramenta para a “Inclusão”, a qual se torna o factor central da métrica do “sucesso”. Gostaria de deixar claro que a “inclusão” é um fim nobre, meritório em si mesmo e que nada me move contra tal desígnio. O que me deixa preocupado são os meios que têm sido mobilizados, como se tal fim justificasse de tudo um pouco, ao ponto de a “inclusão” ser feita com procedimentos e mecanismos que acabam por produzir fenómenos de exclusão. 
Por definição, qualquer conceito racional e razoável de “inclusão” deve orientar-se pelo princípio de procurar incluir todos e não apenas alguns, ou subordinando todos a uma das suas partes, em especial quando estamos a falar de uma Escola Pública universal e obrigatória. Até porque incluir “todos” não pode significar incluir “tudo”. 
Sim, claro, há a quem por preconceito social, forma de estar na vida ou por opção cultural, o ideal e a prática de uma Escola Pública para todos cause aversão. Posso discordar, após quase cinco décadas enquanto aluno, professor e encarregado de educação na Escola Pública, mas tenho de aceitar esse tipo de atitude, em especial se não vier acoplada com um pedido de cheque-ensino.
Só que, como ia escrevendo acima, a Escola Pública para “todos” não deve, nem pode, aceitar “tudo”, nomeadamente ao nível dos procedimentos e imposições de modelos únicos, da gestão à pedagogia, assentes de forma paradoxal numa lógica relativista quanto ao valor do Conhecimento. Há uma enorme diferença entre a “plasticidade” e a amplitude de soluções e propostas a acolher na Escola Pública, para que exista lugar para todos, e a aceitação de um relativismo cultural e ético como padrão de comportamento em nome de “boas intenções” ou de concepções ultrapassadas de um “século XXI” em que há muito vivemos. Porque isso acaba por provocar uma inevitável “repulsão” em quem encara a Escola Pública como referencial para a formação das “novas gerações” e não apenas como um albergue onde tudo vale o mesmo.
Passo a exemplificar um pouco do que não pode ser justificado com qualquer conceito de “inclusão” por mais pergaminhos que exibam os seus promotores, só faltando mesmo citarem a Magna Carta.
A “inclusão” e a “tolerância” não podem, desde logo, pactuar ou condescender com comportamentos que transformem os espaços escolares e as salas de aula espaços inseguros para alunos e docentes, seja do ponto de vista físico, seja moral. A relativização ou contextualização de comportamentos que agora se dizem “disruptivos” não pode atingir níveis que de tanto compreenderem os agressores, esqueçam as vítimas.
A necessária renovação curricular não pode passar por práticas de desvalorização do capital cultural ou conhecimento científico em favor de “saberes fazer” de duvidosa vantagem num presente que já é de híper-especialização e em que a flexibilidade apenas parece ser uma vantagem para quem vive da precarização da mão-de-obra. O novo lumpen terciarizado é intermutável mas um neurocirurgião nunca poderá ser trocado por um engenheiro informático.
A pedagogia para ser “autónoma” e “flexível” não pode ser de sentido único. Não pode enquistar-se nas crenças, quase ao nível da Fé que implica a aceitação sem crítica, deste ou aquele nicho académico ou grupo de interesses. Muito menos a profissionalidade dos docentes deve ser desqualificada, desvalorizando os seus saberes ou burocratizando de tal forma o seu exercício que se torna mais importante representar o acto pedagógico do que a sua efectiva prática.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
Transcrito do blogue: Educare

PAULO GUINOTE
Professor do Ensino Básico, Doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
01-03-2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

TUDO, EM APENAS UMA PERGUNTA...


FACTO

"Se é necessária toda uma aldeia para educar uma criança, por que as fechamos em salas? - Fonte: Dr. Carlos Andrade - DN-Madeira/Revista.

COMENTÁRIO

Sobre política educativa, nas reflexões que aqui vou publicando, muitas vezes tento desenvolver raciocínios mais ou menos elaborados, em uma ânsia de provar, por um lado, a minha angústia por não ver qualquer pontinha de desejo de mudança de um sistema reclamado pelas próprias crianças e jovens; por outro, pela necessidade de conduzir os políticos a repensarem processos que a ciência já os catalogou de anacrónicos. Escrevo tantas páginas quando, uma frase, que cabe em uma linha, diz tudo. Partindo de um provérbio africano o Dr. Carlos de Andrade, meu distinto Colega, compaginou-o e perguntou de forma sagaz: "Se é necessária toda uma aldeia para educar uma criança, por que as fechamos em salas?"
Exclamei para dentro: boa pergunta... é isso! A formação básica deveria ser suportada por um conhecimento distante da ideia ditada pelos manuais que, no seu conjunto, são enciclopédicos e apenas servem para ler, seguir, muitas vezes decorar, despejar nos testes e esquecer. 
Ora, um olhar interdisciplinar da vida, sublinho, VIDA, que está muito para além do manual, deveria constituir o alicerce consistente sobre o qual se edificariam os pilares de suporte do conhecimento, inclusive, os de natureza superior e especializada. Assim não acontece e, por isso, a escola, grosso modo, tornou-se uma "seca". É o que eles, genericamente, dizem. O que significa que falta mundo à escola, falta aldeia, capacidade para perceber que existe mais escola para além da escola e que, por conseguinte, os muros circundantes da escola não devem impedir de ver e experimentar o mundo. 
A escola está desconectada da vida real, teimosamente enredada no individualismo, em disciplinas sectoriais, extensos programas e na complexidade burocrática, quando a vida real pede globalidade, flexibilidade, pensamento crítico, permanente questionamento, trabalho em equipa e disponibilidade para desaprender. A vida pede exactamente o contrário da escola. Eu diria que falta à escola uma dimensão social do saber. Falta-lhe CULTURA.
O paradoxal desta situação é que, amiudadas vezes, não apenas os governantes, é certo, falam que vivemos, hoje, em "uma aldeia global", mas quando olham para o sistema educativo, nas suas "empoeiradas mesas de gabinete", comportam-se e legislam como se a escola fosse uma aldeia fechada ou com pequenas janelas, chamaria gretas, viradas para o exterior. 
Em 2016 li um estudo sobre a adolescência, da Organização Mundial de Saúde, tendo por base "inquéritos realizados a mais de 220 mil alunos, dos quais cerca de seis mil portugueses. Não será decerto, por acaso, que estes aparecem entre os que gostam menos da escola, colocando Portugal na 33.ª entre os 42 países e regiões analisados". E isto acontece porque “o sistema está orientado, de uma forma absolutamente excessiva para os resultados” — ou seja, para os exames e para as notas que neles se conseguem - Fonte: Público, texto de Clara Viana. Não está orientado para a sabedoria, porque lhe falta, repito, MUNDO. Falta-lhe a ALDEIA que não pode circunscrever-se ao rotineiro toca-entra-toca-sai!
Pois é, Caríssimo Dr. Carlos de Andrade, concordo, fechar as crianças em salas constitui o caminho mais certo para uma inadaptação a este mundo que exige sabedoria e disponibilidade para ver para além do horizonte.
Ilustração: Google Imagens

domingo, 10 de março de 2019

TUDO, APENAS EM UMA PERGUNTA...





"Se é necessária toda uma aldeia para educar uma criança, por que as fechamos em salas?
Dr. Carlos Andrade - DN-Madeira/Revista.

segunda-feira, 4 de março de 2019

APENAS UM FRAGMENTO DE UMA ENTREVISTA: "A ESCOLA TEM DE SE REMODELAR"



A edição de hoje do DIÁRIO traz uma interessante entrevista com o médico pediatra Mário Cordeiro. Ele é autor de vários livros, entre os quais destaco o último, "Pais apressados, filhos stressados". A determinada altura, a jornalista Ana Luísa Correia, questiona-o sobre o actual sistema educativo. A resposta, óbvia para quem pensa os assuntos da Educação, veio célere: 

"(...) Sou extremamente crítico relativamente ao sistema educativo. Não quero adiantar muito porque isso dava pano para mangas. A escola tem de se remodelar. Os objectivos de Passos Manuel, do Marquês de Pombal ou de João de Deus - escrever, ler e contar - já passaram de moda. Hoje a escola tem de dinamizar talentos; ensinar a arte, estética, ética; formar cidadãos, pessoas solidárias e empáticas, voluntárias, frugais; incentivar o relacionamento do aluno com o ambiente e com o espaço físico, dinamizar o corpo,  exercitar o raciocínio, o querer, a criatividade e a autonomia. As restantes matérias, ditas "académicas", virão por acréscimo. O sistema de educação em que, supostamente, alguém "abre" a cabeça do aluno e despeja matéria que, no fundo, só dura até ao teste seguinte, tem de ser substituído por um sistema educativo, pluridisciplinar, em que o aluno partilha o que sabe com os outros e o professor é um moderador do conhecimento, com alguma informação, obviamente, mas dando a sabedoria (que resulta da experiência), que só professor tem... apenas porque está cá há mais tempo. O sistema educativo tem de mudar. Uma hora e meia a ouvir uma "matraca" a despejar "matéria" é de fugir... e isso contribui para o desinteresse dos alunos relativamente à escola - o professor é uma "seca" e a escola só vale pelos amigos. É pena. Onde está a música, a arte, a pintura, a escultura, a ética, os debates e dilemas sobre o bem e o mal, o voluntariado, a cidadania? Onde? (...)"

O Dr. Mário Cordeiro é um Pediatra, mas é sobretudo um PENSADOR. Assume, publicamente, aquilo que, embora em vão, tantos andam a dizer há 50 anos. Estou a reler textos, por exemplo, os do Professor Sérgio Niza, que há meio século luta por uma aprendizagem assente em bases diferentes. Nesta entrevista, a jornalista, e muito bem, subtilmente, questionou a "utopia" das suas palavras. Uma palavra devidamente enquadrada para fazer soltar o seu pensamento. E ele, em síntese, exprimiu o pensamento que é transversal a tantos autores. Já aqui escrevi e, hoje, volto a repetir, o que escutei de um professor em uma aula de Psicopedagogia. Faz agora 50 anos: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O desencontro é inevitável". Cada vez mais o desencontro acontece. Infelizmente.
O problema é que a estrutura de governo não está para aí virada. Vive e sobrevive do mediático, de uma agenda política, enferma de um distúrbio que se designa por centralização: nós definimos e vocês obedecem, ou como disse o Professor Licínio Lima: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Depois vêm falar de robotização, de salas de aula do futuro e de outras paranóias quando o problema é, antes de tudo, organizacional, curricular, programático e pedagógico. 

NOTA

TPC para governantes: escrever 50 vezes a declaração do Dr. Mário Cordeiro. 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

FALAM DE SALAS DO FUTURO QUANDO O FUTURO COMEÇOU HÁ MUITO!


A secretaria da Educação continua a brincar com assuntos que são muito sérios. Hoje, "inauguraram", melhor dizendo, fizeram um número político, com aquilo que designam como "sala de aula do futuro" - Fonte DN. A foto mostra umas cadeiras desalinhadas, agora com rodinhas, um quadro interactivo e, lá ao fundo, à esquerda, pressuponho, a cadeira de "comando" do professor. Bom, eu não vou aqui, desenvolver o que deve ser um espaço (não estou a falar de sala) propício à aprendizagem. Vou, apenas, colocar uma questão tão comezinha, mas muito séria: para que servirá? 


Em 29 de Junho de 2009 escrevi, relembro, um artigo onde trouxe à colação Tony Bates (ex-vice-presidente executivo da Microsoft): "O bom ensino supera uma escolha tecnológica pobre, mas a tecnologia nunca salvará o mau ensino". Adiantei: "(...) não basta criar novos estabelecimentos de ensino, tampouco multiplicar as salas de informática ou substituir o quadro preto e o giz por quadros interactivos e multicolores". De nada valerá utilizar a tecnologia como substituição dos antigos acetatos copiados do manual. O que quero dizer com isto é que, ainda por cima, um espaço de aprendizagem não resolve rigorosamente nada, vale zero face ao número de salas existentes. Mesmo sem espaços coloridos e "mesa, cadeira com rodinhas", o problema é saber-se, prioritariamente, se alguém conhece ou se existe e, neste caso, qual o documento que sustenta um novo paradigma de aprendizagem. Por outras palavras, qual o PENSAMENTO PEDAGÓGICO desta equipa que governa a Educação? É que, segundo o que foi divulgado, a sala em questão assenta no pressuposto que um novo paradigma só é possível quando elas existirem, visando a consecução das várias "etapas do processo de estudo de um determinado conteúdo: pesquisa, aprofundamento do conhecimento sobre os dados recolhidos, apresentação e partilha de dados e conclusões, bem como de criação e desenvolvimento". Ora, isto, grosso modo, não é verdade.

É possível generalizar e dar asas a um novo paradigma de aprendizagem, em toda a Região, mesmo sem alta tecnologia nos espaços de aprendizagem. Se é desejável que ela exista, obviamente que sim, mas pode-se ganhar tempo, muito tempo, se outra for a mentalidade neste processo, sobre o que transmitir e como chegar ao verdadeiro conhecimento. Esperar pela generalização dos espaços de "aprendizagem do futuro" constitui um grosseiro erro político e pedagógico. 

E pergunto, a título de exemplo: os novos estabelecimentos de aprendizagem do Porto Santo e da Ribeira Brava, quer do ponto de vista arquitectónico, quer sob o prisma do que pretendem que lá aconteça (espaços de aprendizagem), tiveram em consideração uma aprendizagem que NÃO seja para o futuro, mas para o presente? É claro que não. Vão continuar a aguardar pelas tais "salas do futuro"? Provavelmente que sim.
Aliás, no decorrer da inauguração, o presidente do governo disse que esta sala visa "ministrar aos nossos alunos o ensino de vanguarda, aberto ao futuro, às novas tecnologias, que vêm garantir que estamos em condições para enfrentar os grandes desafios do mundo". O objectivo, disse, é replicar a "Sala do Futuro" a, pelo menos, "mais três ou quatro", escolas. E sendo assim, digo eu, esperem sentadas as restantes escolas e os filhos dos actuais alunos. Um logro do tamanho da Região! 
Ora, isto significa que ao falarem de "ambientes inovadores de aprendizagem" (o que pretendem não tem nada de inovador), tal implicaria a necessidade de uma profunda (re)construção do sistema educativo, a concomitante descentralização, permitindo que as escolas se organizem por iniciativa própria, gerando as suas dinâmicas e que, desde logo, percebam a necessidade de acabar com a "tralha", alguns chamam "entulho", que os "benditos" programas apresentam; implicaria travar tantos "projectos" que enfeitam, mas não adiantam nem atrasam; implicaria reduzir a infernal burocracia ao MÍNIMO (tanto despacho, tanta circular, tanta portaria e tantos são os inquéritos e documentos a preencher); deixar que os alunos e professores passem a utilizar os equipamentos tecnológicos pessoais que trazem nas suas pastas; implicaria dizer, definitivamente, não aos manuais e acabar com a actual obsessão pela avaliação que se tornou em um caso doentio; implicaria centrar no aluno a aprendizagem, o que significa que o professor terá de optar por falar menos; implicaria reconfigurar a rede escolar, acabando com escolas com exagerado número de alunos (uma tem 2.500); colocar um ponto final nessa triste e medíocre meritocracia. Descentraliiiiiizem! Antes de tentarem "formar professores" através da sala agora "inaugurada", por favor leiam, visitem e aprendam com as muitas escolas que já funcionam um pouco por todo o país, onde existe tecnologia qb, que não usam manuais, algumas nem testes fazem, onde não há trabalhos para casa, nem sirenes para entrar e sair. E, não obstante isso, os alunos aprendem com gosto, com rigor e SABEM do que falam.
Afinal, para que serve a Autonomia Política e Administrativa? Se, ontem, as rédeas estavam algures em Lisboa, não faz sentido que, agora, estejam na Avenida Arriaga. Apenas mudou o centro de algumas decisões, embora seja evidente a existência de um cordão umbilical ligado à central de comando! Cortem o cordão e vivam uma nova etapa. É possível e não é a Constituição da República que a impede.
Ah, percebo a preocupação, devem partir do princípio que os professores não são capazes, sozinhos, de o fazer. Saibam que há bons e maus docentes como há bons e maus governantes. E que é mais fácil tornar um mau docente em um bom professor, do que transformar um mau governante em um bom governante. Da minha experiência resulta que a maioria sabe o que quer mas não pode, porque não lhes deixam fazer. Têm de pedir autorização ao "paizinho" por tudo e por nada. Roubaram-lhes os meios ao longo dos tempos e, claro, as escolas habituaram-se à (tóxico)dependência (dependência que é tóxica, porque é mais do mesmo), a uma linha hierárquica que, utilizando uma expressão popular, "lambe para cima e escouceia para baixo", portanto, acabam por dizer amén a tudo. O que são as reuniões do Conselho Pedagógico, as reuniões de Departamento e as reuniões de Grupo de Disciplina, senão uma exaustiva repetição de decisões que chegam do "vértice estratégico"?
Em síntese, por aquele caminho não chegam a parte alguma. Estão no cruzamento, incapazes de tomar um caminho possível. E o curioso disto é que a maioria dos alunos conhece o sentido e sabe mais de tecnologia que todo o governo junto.
Ilustração: Google Imagens + DN

NOTA
Este texto centra-se, para já, no Ensino Básico. Mas tenham em atenção que o Secundário vai mudar, terá de mudar. Basta ler a opinião publicada, no Público, pelo Professor Catedrático Domingos Fernandes.

Publicado no blogue
www.gnose.eu

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

QUEM É O CAMPEÃO?


ARTIGO DE MANUEL SÉRGIO
ESPAÇO UNIVERSIDADE 
25-02-2019 

Por muita gente que se rebelava, a cada instante, pelas misérias, designadamente políticas, do efémero quotidiano, os séculos XIX e XX projetam-se-nos em vivíssimos quadros de uma luta contra a religião – uma luta ferozmente anticlerical. Recordo os “mestres da suspeita”, no século XIX (e até o nosso Guerra Junqueiro) e, no século XX, estudam-na, como se estudam os quadros de pintores célebres, no sossego de um museu. Porém, este adormecimento da História movimenta-se e anima-se, de súbito, quando passou a ser “proibido proibir”, quando qualquer assomo de normatividade passou a entender-se como sinónimo de séria repressão. Enfim, o indivíduo vê-se coagido a transformar-se na sua própria norma. E, com algumas horas de jogging e uma “futebolada” semanal, o indivíduo “fica com uma saúde de ferro”, assim o garantem a rádio, a televisão, os jornais e até um ou outro entendido que sabe de tudo, menos de si mesmo. 

E, com uma incontestável pujança, dado que a lei suprema que nos governa é a mudança, a secularização apoderou-se da nossa vida pessoal, social e política. A secularização, quero eu dizer: a imanência sem transcendência, a razão sem a fé, o homem sem Deus. E, sem transcendência, sem fé, sem Deus, a “Náusea” de Sartre é o sentido de uma vida sem sentido. Alfredo Teixeira, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e um ensaísta de originais e eruditos trabalhos de investigação, no âmbito da teologia (e também um temperamento artístico de inconfundíveis feições) escreve, no seu livro Não sabemos já donde a luz mana (Edições Paulinas, 2004): “A religião na Europa moderna tem sido vista sob o signo da secularização, o que, como é sabido, se traduziu, com matizes regionais diversificados, numa diminuição da capacidade dessas igrejas influenciarem a sociedade e num aprofundamento da separação entre Igrejas e Estado (laicidade). O fenómeno tornou-se tão vasto, que afetou a própria fisionomia das igrejas; mais, elas próprias descobriram que o cristianismo trazia em si a semente dessa secularização” (p. 17).
Não sei se Heidegger, com o seu Sein und Zeit (traduzindo: Ser e Tempo) não quis também dizer que a noção de Ser mudava, de acordo com o tempo, com as idades. E assim a religião-superstrutura ser “capaz de sobreviver ao ocaso da religião infra-estrutura. A idade da religião como estrutura encontrou o seu termo, mas seria ingénuo pensar que o mesmo se poderia afirmar da religião como cultura” (Alfredo Teixeira, op. cit., p. 157). De facto, a religião como cultura é uma forma de consciência social, que se afirma sobre uma determinada base sócio-económica (este é um ponto nodal do legado de Marx). Neste momento, ocorre-me a frase de Gianni Vattimo, em tradução castelhana (Ediciones Península, Barcelona, 2002), do seu livro Le aventure della differenza: “La metafísica es historia de la diferencia, tanto porque es regida y hecha posible por la diferencia, como porque sólo en el horizonte de la metafísica de la diferencia permanece vigente y se da. Desde este punto de vista, olvido de la diferencia no es tanto perder de vista el hecho de la diferencia, sino olvidar la diferencia como hecho” (p. 120). Em Marx, tudo tem o seu radical fundante na economia e reside na economia a garantia da continuidade de tudo o que é humano. Enfim, porque o processo histórico é infinita e contínua diferença, o facto de a religião ser mais cultura do que estrutura e a própria virtude ser mais razão do que fé. E, assim, a religião não morre, mas deixa de ter suporte divino: já foi o proletariado; hoje, em época profundamente individualista, o culto hiperbólico do espetáculo desportivo, expresso pelos grandes fazedores de golos da atualidade, os Messis e os Ronaldos. Walter Hugo Mãe, nas “Correntes d’Escritas” do ano em curso, emocionou-se ao afirmar: “A alegria de ouvir as grandes vozes é privilégio que nos moverá sempre”. O adepto do futebol não sabe quem é o Luandino Vieira, o Pepetela, o Rubem Fonseca, a Lídia Jorge, o Miguel Real, o José Eduardo Franco e outros escritores de igual qualidade, mas sabe quem é o Bruno Fernandes, o João Félix, o Rui Patrício, o PIzzi, o Rafa e outros futebolistas que fazem obras-primas com uma bola de futebol. E que no tempo do “crepúsculo do dever” (Gilles LIpovetsky) são célebres pelas suas “performances” predominantemente físicas e, pelas quais, ninguém lhes recusa legítimo aplauso e gratidão. No entanto, o ser humano não é o “homem-máquina”…
A propósito do Bruno Fernandes, do João Félix, do Rui Patrício, do Pizzi, do Raffa (que acima citei e outros nomes poderia lembrar), todos eles são a “prova provada” de que o essencial, numa equipa de futebol, não é a tática, mas o homem-jogador: é o seu talento, ou o seu génio (e não tanto a tática) que resolvem os jogos de futebol. Há meia-dúzia de dias, recebi, em minha casa, um telefonema do António Simões, que eu sempre apreciei, como exímio jogador de futebol (ombreando, em habilidade, em arte, com o Albano e o Vasques dos “cinco violinos”, o João Alves e o Chalana do Benfica, o António Oliveira do F.C.Porto e do Sporting e o José Maria Pedroto do F.C.Porto) – que eu sempre apreciei como extraordinário jogador de futebol e que hoje aprecio também, pela coragem, pela dignidade, pela lucidez, como encara a vida e portanto o próprio desporto. Disse-me ele, procurando ser imparcial e sereno: “Quero imitar uma pessoa que não esqueço, porque muito admiro, o Sr. José Maria Pedroto, quando ele, pelo telefone lhe disse, segundo penso, há mais de 40 anos: Professor, preciso de falar consigo”. E acentuou: “Também eu preciso de falar consigo. Acabei de ler três livros da sua autoria e tenho perguntas a fazer-lhe. Há uma que já não faço, é que passei a entender agora porque afirma, há tantos anos, que o paradigma que fundamenta a prática desportiva é uma ciência humana”. E continuou, com a sua habitual visão harmoniosa e cimeira: “Só quem nunca jogou futebol pode discordar da sua tese”. Neste passo, atalhei: “Mas eu também nunca joguei futebol”. E ele: “Eu sei. Mas também é verdade que procurou aprender com treinadores que foram jogadores de excelente nível, a começar no Pedroto, no Fernando Vaz e no Artur Jorge”. O António Simões, o “irmão branco” do Eusébio, sempre subtil e profundo, no exame e observação do mundo, um homem a quem a mesquinhez de espírito indigna e sufoca…

Quem é um campeão?... Um sobredotado e um supertreinado, com a força emocional e a psicológica suficientes às altas performances e à dramatização do espetáculo e ao, como diriam os franceses, “dépassement de soi”, ou a transcendência, como poderia dizer-se em português. O campeão, que atinge e conquista o esplendor supremo do espetáculo desportivo, é ainda um homem preparado para obedecer e sofrer. Isabelle Queval adianta, no seu livro S’accomplir ou se dépasser – essai sur le sport contemporain (Gallimard, Paris, 2004) que “o desporto de alto nível é um laboratório de melhoramento do humano, o espetáculo permanente dum evolucionismo simplificado, em que as “performances” não existem senão para ser ultrapassadas, em que as curvas estatísticas sobem sem descanso, em que a proeza de hoje supõe a proeza do dia seguinte – sempre em movimento, sempre em busca de novos recordes. 

A fascinação pelo progresso incessante anima o desporto de alto nível” (p. 205). Nietzsche sublinha que o corpo, o grande esquecido da filosofia e da cultura ocidentais, tem agora lugar de destaque, na vida de todos os dias dos europeus. Mas um corpo que, na expressão inesquecível de Teilhard de Chardin, “destila espírito”. O ADN já não pode considerar-se produto do acaso, pois que, nele, há a informação suficiente, que permite a ulterior evolução. E, se o corpo “destila espírito”, como diria depois M. Merleau-Ponty, “eu sou meu corpo”. E nem sempre o treino desportivo respeita o corpo que eu sou! Aliás, o desporto hodierno, já o digo há muitos anos, “reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista”. O “citius, altius, fortius” do olimpismo supõe, atualmente, tecnociência e tecnologia e medicina e cirurgia e apurada dietética e uma disciplina férrea e… a redução do ser a mercadoria! Nunca o efémero foi tão valorizado, como hoje. E é o efémero que demasiadas vezes se realça na vida de um campeão. Quem o vê, no quadro de um projeto humanista renovado? Quem é o campeão?
Quem é o campeão? Vejamos o mundo donde ele nasce: um mundo de verdades e meias-verdades, de adoração a Deus e da “morte de Deus”, do mais adiantado tecnocientismo e do mais bárbaro arcaísmo, em que os valores económicos não são da mesma ordem dos estéticos, éticos, ou espirituais, mas são eles os que parecem satisfazer plenamente o mercado e a concorrência. E, porque a sociedade é um grande mercado onde tudo flutua de acordo com os princípios da Bolsa, ele é a figura primeira da civilização do deus-lucro. A grande batalha, a grande guerra do século XXI será a batalha, a guerra entre o comércio, de um lado, e a cultura e o desporto, do outro. E uma questão se levanta, cortante: qual o futuro da cultura e do desporto, se for o comércio a defini-los e a guiá-los? Demais, ao contrário do que Marx pensava, nem sempre a economia é a infraestrutura. A Europa do carvão e do aço não foi suficiente para construir a Europa. Sou em crer que, desde a Idade Média, há uma cultura europeia, que se fundamenta na filosofia grega, no direito romano, na mensagem judaico-cristã e no espírito crítico do iluminismo. A encíclica “Rerum Novarum” de Leão XIII e a “Quadragesimo Anno” de Pio XI (que chegou a convidar um sociólogo jesuíta norte-americano a preparar-lhe uma encíclica de condenação aberta das ditaduras nazi e comunista); e as “Mater et Magistra” e “Pacem in Terris”, de João XXIII, o Papa do “Aggiornamento della Chiesa”; e todo o pontificado do Papa Francisco, que é cristão, nas palavras e nas obras – assim o registam e o comprovam. Por isso, o campeão desportivo não deve entender e viver a transcendência como uma prática, sem reporte a uma filosofia, a uma política, a uma religião. O campeão, habituado a transcender os outros, deve fazer da transcendência um “modo de vida”, que não seja tão-só um desenvolvimento quantitativo de marcas e recordes mas, sobre o mais, um desenvolvimento qualitativo, visando um humanismo integral… dos outros e de si mesmo! A mundialização do desporto não pode realizar-se apenas nos estádios e nos ginásios e nos pavilhões gimnodesportivos. O desportista, mormente o campeão do desporto, tem de concorrer ao nascimento de uma nova humanidade. Relembro a conhecida frase do pintor Klee: “a arte não reproduz o visível, torna visível”. Parafraseando: o desporto não reproduz o visível, tem de tornar visível um homem novo!

Manuel Sérgio 
Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
Artigo publicado no jornal A Bola

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Para a reconfiguração dos exames e do sistema de acesso ao ensino superior


Os exames, para muitas pessoas, podem ser uma boa estratégia para melhorar a qualidade da educação porque permitem verificar se determinados conteúdos previstos no currículo são ensinados e aprendidos pelos alunos; “pedir contas” aos professores e às escolas acerca dos resultados obtidos; certificar as aprendizagens e competências evidenciadas; e selecionar os alunos para determinados fins. Nesta perspetiva, os exames influenciam e determinam o que se ensina e como se ensina e o que se aprende e como se aprende.

Para muitos autores, os exames possuem vantagens tais como moderar as avaliações internas; induzir práticas inovadoras de ensino e de avaliação; dar a conhecer aos professores, aos alunos e às famílias o que é importante ensinar e aprender; e motivar os professores para a eventual necessidade de reverem os seus processos de trabalho.
Dir-se-ia que os exames podem ser utilizados com intenções e propósitos louváveis. Porém, os seus efeitos nefastos e indesejáveis estão largamente comprovados. O principal é o chamado “empobrecimento” do currículo, decorrente do facto de o ensino se concentrar no que “sai nos exames” ignorando tudo o mais (e.g., competências relacionadas com conteúdos específicos, aprendizagens de natureza social e emocional). Todas as disciplinas que não são objeto de exame perdem a sua relevância na formação dos alunos.
Por outro lado, os exames induzem práticas tais como: apostar mais nos alunos que se pensa poderem ter melhores resultados do que naqueles que, supostamente, não terão essa possibilidade; treinar respostas para certas questões; ensinar técnicas para rejeitar certas opções nas perguntas de escolha múltipla; e pressionar os alunos com mais dificuldades para desistirem. Temos assim um conjunto de efeitos indesejáveis que questionam frontalmente a natureza e a profundidade das aprendizagens assim supostamente desenvolvidas. A investigação tem evidenciado que os exames, por natureza, não contribuem para aprender melhor, com mais profundidade e compreensão. As avaliações internas, da responsabilidade dos professores, são as que podem melhorar substancialmente as aprendizagens de todos os alunos. Nestas condições, surgem desafios relativamente à forma, conteúdos e propósitos dos exames e também às suas relações com as avaliações internas, porque os seus efeitos nefastos superam, comprovadamente, os seus efeitos positivos.
Questiono-me se a atual configuração dos exames em Portugal, que está em vigor há cerca de 24 anos, ainda fará real sentido. Basta pensarmos nas profundas transformações que se verificaram no ensino secundário (e.g., alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano e perfil do aluno que a completa, expansão do ensino profissional, autonomia e flexibilidade curricular). Por outro lado, as instituições do ensino superior têm vivido desafios sem precedentes de natureza pedagógica decorrentes do processo de Bolonha. As preocupações com o ensino, a avaliação e as aprendizagens e com a qualidade da formação nada têm a ver com as que se preconizavam há 24 anos atrás.
Há algo que me parece evidente: os exames, nesta configuração, não avaliam o que são as competências consideradas mais relevantes e mais valorizadas para frequentar um curso superior. O atual sistema de acesso ao ensino superior é mau para o ensino secundário, impedindo-o de assumir plenamente a sua identidade, a sua natureza e os seus propósitos educativos e formativos. Mas também é mau para o ensino superior porque, para além de se desconhecer a validade preditiva dos exames, que muitos consideram baixa, a sua validade de conteúdo para os fins em vista é, presentemente, mais do que questionável. Além do mais, não tem em conta a imperiosa necessidade do ensino superior se abrir a novos públicos.
Julgo que chegou o tempo para pensar e criar um sistema de acesso ao ensino superior que permita melhorar substancialmente como se aprende e o que se aprende no sistema educativo português.

Domingos Fernandes
Professor Catedrático da Universidade de Lisboa; ex-secretário de Estado da Administração Educativa no XIV Governo Constitucional
Fonte: Público

sábado, 23 de fevereiro de 2019

MUITO INQUIETANTE: METADE DOS ADOLESCENTES PESQUISAM CONTEÚDOS PERIGOSOS


Acabo de chegar à página 18 do Expresso. Li um trabalho, deveras inquietante, baseado em um estudo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Alguns números: em uma amostra de 2000 alunos, 46% adolescentes e pré-adolescentes admitiram terem visto imagens de violência contra pessoas e animais; 45% sobre processos de automutilação; 43% sobre mensagens de ódio e violência, baseadas na raça, religião e nacionalidade; um em cada três sobre droga e 29% acederam a páginas sobre formas de cometer o suicídio. 

Relativamente ao género constataram que os acessos são mais frequentes em raparigas do que em rapazes. Apesar de serem pré-adolescentes e adolescentes, curiosamente, o acesso a conteúdos sexuais diminuiu. Globalmente, concluíram, que os conteúdos inadequados estão a crescer exponencialmente. Todos estes dados estão em linha com o aumento dos casos que chegam aos pedopsiquiatras.
Muito inquietante. Está tudo online, desde como chegar à magreza extrema à violência gratuita. Pais e professores são determinantes na reconfiguração destas condutas. 
O problema é que temos escolas a tempo inteiro e pais a meio tempo; temos programas e conteúdos para decorar e esquecer e ausência de formação global do ser humano, o que implicaria substituir a "tralha e o entulho" dos programas para debitar em testes, por acções de contraponto à porcaria disponibilizada pela tecnologia.
Falta, enfim, pelo menos à nossa escala, reorganizar toda a sociedade, a montante da escola e na escola. Falta debate sério sobre estas questões, capaz de colocar um travão à crescente mentalidade de que tudo é livre e tudo é possível. 
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

As escolas boas e as escolas más


Há escolas boas e escolas más? Lá haver, há! Como há bons e maus governos, ministérios, hospitais, tribunais, oficinas, e sei lá mais o quê… Porém a questão não é essa. O problema está no critério da medida. Ou seja, no rigor dos indicadores objetivos que me levam a classificar os comportamentos, as atitudes e os desempenhos. Sem um critério universalmente válido e, por isso mesmo aceite, o resultado da medida não passa de uma apreciação subjectiva e, como tal, sujeita à divergência.


Vem isto a propósito de mais uma publicação de um suposto ranking das escolas portuguesas que, apressada e incorretamente, uma boa parte da comunicação social tem vindo a designar por “lista das melhores e das piores escolas”.
Concretamente o que se mediu nestas escolas? Respondemos: mediram-se resultados de aproveitamento escolar (académico) e, nunca, resultados de aproveitamento educativo. E mediram-se todos os resultados escolares? Não! Mediram-se os resultados nas provas que os alunos do ensino secundário efectuaram nos exames nacionais.
O que quer isto dizer? Vejamos um exemplo. A escola A tem alunos de classe média alta. São jovens com todas as condições de estudo, com excelente apoio e ambiente familiar. Os professores sentem que esses alunos aprendem a bom ritmo, e que com muita facilidade correspondem aos objetivos que lhes são solicitados. É uma das escolas que, habitualmente, obtém um bom posto no ranking nacional.
A escola B está situada num bairro muito problemático. As famílias são disfuncionais, há desemprego, muita miséria e o recurso a negócios menos claros. Os alunos não têm qualquer acompanhamento familiar, são nulas as condições de trabalho em casa, alguns têm mesmo carência de alimentos e de vestuário. Mesmo assim, os professores empenharam-se na motivação desses alunos para a frequência da escola, através de múltiplas atividades educativas de caráter interdisciplinar e, muitas delas, desenvolvidas extracurricularmente. Essa escola obteve um resultado educativo notável. Reduziu, significativamente, o abandono escolar, o absentismo às aulas, o insucesso académico e realizaram-se mesmo programas de apoio comunitário. Quanto aos resultados escolares nos exames nacionais… Bem, houve grandes progressos, mas não os suficientes para impedirem que a escola B ficasse no fim da lista do ranking nacional.
A escola A é boa e a escola B é má?
A diferença é que a escola A desenvolveu um esforço no sentido das aprendizagens do currículo formal e, aí, obteve resultados académicos muito satisfatórios. Já quanto à escola B, esta centrou as suas energias no alcance de objetivos educativos por parte dos seus alunos, apostou na transmissão de valores e na educação para a cidadania e, aí, obteve resultados considerados excelentes. Em que ficamos?
Quando olhamos para o ranking das escolas e, sobretudo, quando comparamos os resultados académicos dos alunos das escolas públicas, com os resultados académicos dos alunos das escolas privadas, temos que ter em atenção quais foram os indicadores de medida. Um indicador de medida vale o que vale. O metro padrão não pode medir um litro de leite, assim como se pode morrer afogado num rio que, em média, tenha apenas quarenta centímetros de profundidade…
Perverte-se a avaliação das escolas no momento em que se privilegiam apenas indicadores de medida e de progressão inerentes aos atos de aprendizagem do currículo formal. O que tem estado em causa para se alcançar uma valoração das escolas, tem sido o recurso à divulgação de rankings cuja elaboração se baseia apenas nos resultados académicos dos alunos. Para estes rankings pouco importam os resultados educativos globais da instituição escolar.
Há e sempre houve boas e más escolas. Há e sempre houve bons e maus exemplos de práticas educativas. Mas temos que saber relativizar os resultados em função dos indicadores de medida.
Termos em todas as nossa instituições escolares excelentes profissionais da educação que gostariam de ver reconhecido o seu esforço. Os professores estão habituados a fazer muito e bem. Mas não podem fazer tudo. Melhor diríamos: face às condições de trabalho em muitas das escolas portuguesas, é injusto e desmotivador que se lhes peça que façam mais.

João Ruivo
Fonte: Aceso via Facebook do autor do texto
Blogue: ver Incluso

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

EDUCAÇÃO - Há posições que não batem certo!


FACTO

Obviamente que não quero fazer juízos precipitados sobre a competência e o rigor das instituições que avaliam, neste caso, as taxas de abandono precoce e formação da Região da Madeira. Tenho por todas elas o maior respeito pela seriedade no tratamento dos dados. Porém, nos últimos dias, assisti a posições que não batem certo. Existe qualquer coisa de estranho. Sobre aquele matéria, o DIÁRIO é muito claro: "A metodologia do Instituto Nacional de Estatística (INE) não permite validar dados para a Região". Dias depois, a Direcção Regional de Estatística assume que "a taxa de abandono precoce de educação e formação de 2018 (expressa em média móvel de 3 anos - outro aspecto a esclarecer) fixou-se em 17,8%, registando uma redução de 3,4 pontos percentuais (p.p) face ao ano precedente". Baseado nisto, surgiram declarações do secretário, que visaram os "políticos que, por ignorância ou demagogia, insistem em referir como um dos problemas do nosso sistema educativo (...) a taxa de abandono precoce de educação e formação".

COMENTÁRIO
E PERGUNTAS


Sendo o Instituto Nacional de Estatística uma instituição Nacional, parece-me que faz todo o sentido que o protocolo de aferição seja NACIONAL. Sempre foi assim. No mínimo, é esquisito que "a metodologia do INE não permita validar dados para a Região". O que pode significar ou indiciar que existem dados e interpretações dos dados conforme os fregueses! 
Depois, "não bate a bota com a perdigota", quando, no início de Junho de 2018, foi publicado no DIÁRIO e transcrito no meu blogue que: "65% da população da Madeira, com 15 ou mais anos, tem apenas até o 9º ano de escolaridade. O valor está acima da taxa nacional que, no ano passado, ficou pelos 61%. A Madeira continua a estar pior do que a média nacional, naquela que é a taxa de abandono precoce de educação e formação (jovens dos 18 aos 24 anos que estão fora do sistema de ensino e sem o secundário): 23% na Região e 14% no País". Fonte - DN-Madeira/Pordata/Jornalista Ana Luísa.
A infografia apresentada pela secretaria mostra, agora, que a taxa é de 17,8%. Isto é, de 23% passou, em um ápice, para 17,8%. Parabéns ao secretário pelo MILAGRE! Cá fora estão os "ignorantes, demagogos" e os que manipulam dados.
De qualquer forma, pergunto, não será este um assunto a ser totalmente esclarecido?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Nunca o abandono escolar foi tão baixo


De 12,6% em 2017, Portugal conseguiu reduzir para 11,8% a taxa de abandono precoce da educação e formação, um valor nunca antes alcançado.
6 de Fevereiro de 2019
Público



Portugal reduziu, em 2018, a taxa de abandono precoce da educação e formação para um mínimo histórico. Os números foram divulgados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), colocando o abandono escolar nos 11,8%, o valor mais baixo de sempre. Em 2017, Portugal apresentava uma taxa de 12,6%
A taxa de abandono precoce de educação e formação mede a proporção da população dos 18 aos 24 anos que completou um nível e escolaridade correspondente, no máximo, ao 3º ciclo do ensino básico e que não recebeu nenhum tipo de educação na semana de referência ou nas três semanas anteriores.
O Ministério da Educação congratula-se, em comunicado, com a descida, "uma vez que o abandono escolar constitui uma das grandes vulnerabilidades do sistema educativo português, com impactos profundos também ao nível do crescimento económico e da igualdade de oportunidades".
O Governo garante que a redução deste indicador foi definida como "um dos principais objectivos para a actual legislatura" e que "estes resultados devem-se, em primeira instância, a todos os que trabalham diariamente nas escolas, comprometidos com o desígnio de construção de uma escola inclusiva, que garante acesso à educação e ao sucesso educativo".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

CONVIVIALIDADE... uma treta!


FACTO

"As associações representativas da comunidade luso-venezuelana denunciam a existência de casos de xenofobia na Madeira, inclusive nas escolas. Tanto a Venecom como a Venexus mostram preocupação com os episódios com que são confrontadas. A secretaria da Educação desconhece as queixas".  Fonte: Jornal da Madeira, edição de hoje.


COMENTÁRIO

Pessoalmente, não estranho que assim aconteça. Lamento, mas as causas são muitas. O grave da situação é a secretaria da Educação assumir que desconhece as queixas. Não interessa conhecer, melhor dizendo. Como não interessa tantas outras situações, apesar de tudo o que mexe nas escolas ser logo do conhecimento da secretaria. 
Esta questão tem tanta maior relevância quanto foi a tão apregoada "Carta da Convivialidade Escolar" que, leio no sítio da Internet visava "proporcionar um ambiente escolar seguro, inclusivo, respeitador e propício às aprendizagens" (...) e "analisar a incidência e a natureza dos vários comportamentos antissociais que ocorrem em contexto escolar (...)". Então, com tanta propaganda em redor dessa "magna" carta e tendo o secretário a tutela das comunidades, são necessárias as associações divulgarem episódios que contrariam os princípios que a escola apregoa? 
Pois é, o problema vem de casa, está por fazer o trabalho a montante da escola e, no estabelecimento de aprendizagem, ao contrário de tanta tralha que os programas tentam impingir, melhor seria educar para os princípios e valores determinantes na conduta social. Concluo, então,que a "carta da convivialidade" é mais uma treta!

NOTAS

1. Acabo de ler, no JM de anteontem: "Um aluno da Escola Básica e Secundária de Santa Cruz terá protagonizado episódios de violência e destruição e terá ameaçado, este ano letivo, matar colegas, professores e funcionários." A notícia adianta que se trata de um aluno "problemático". Será que a secretaria também não sabe! 
2. Na edição de hoje do DN-Madeira, uma mãe queixa-se de "agressões à filha na escola do Porto Moniz". Será que a secretaria, que tudo controla, também não sabe! 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Perguntas, muitas perguntas...


Os excertos que ontem publiquei, a propósito do olhar de uma mãe, no decorrer de uma reunião na escola dos seus filhos, ainda ecoam na cabeça. Ela apenas transmitiu o que viu e eu diria, pela montra, facilmente adivinhou o que iria no armazém! A questão, agora, é outra. Aquela mãe, sensível ao desenvolvimento, olhou e terá suspirado fundo ao jeito de, não creio no que estou a ver! 


Então, a partir daí, creiam, não me sai da cabeça, o porquê de ser assim. Isto apesar das minhas convicções e do muito que tenho escrito sobre o assunto. Deixo aqui as interrogações que me envolvem.
Os professores não sentem aquilo? O secretário e os directores regionais, que são tantos, ninguém consegue ver que este sistema a nada conduz? Que desde a segunda metade do século XX o Mundo vive em uma constante aceleração tecnológica, onde a escola deveria estar na dianteira, enquanto resposta, porém, pelo contrário, fechou-se ao mundo, com pequenas alterações marginais e de circunstância? Os directores ou presidentes dos conselhos executivos não sentem que têm de dar um "grito de Ipiranga" nesta rotineira e doentia escola onde poucos são felizes? Ninguém vê que as crianças e jovens, de forma crescente, estão a detestar a escola, porque existe uma diferença abissal entre o que são, o que querem, o que trazem na "pasta" e o que a escola oferece? Ninguém vê isto? Ninguém vê que existe uma doentia OBSESSÃO pela avaliação e não pela verdadeira e duradoura aprendizagem? Ninguém toma consciência que não podem existir estabelecimentos de aprendizagem com mil, dois mil e até dois mil e quinhentos alunos? Ninguém, ainda, percebeu que o grande só acarreta problemas? Ninguém, ainda, entendeu que os conceitos de aula e de turma estão errados e que existem outros formados muito mais credíveis no quadro de uma aprendizagem motivadora e portadora de futuro? Ninguém, ainda, percebeu que mais tempo de escola não significa melhor escola e melhor aprendizagem? Ninguém, ainda, percebeu que a segmentação por disciplinas não se ajusta aos novos tempos, fundamentalmente, porque tudo está interligado, portanto, que existe uma complexidade e que essa é que deve ser trabalhada no quadro do futuro profissional? Ninguém, ainda, percebeu que os professores têm de falar menos e que são os alunos os actores do processo de conhecimento (mediados pelo professor) e que eles é que têm de "meter a mão na massa"? Ninguém, ainda, percebeu que os manuais não fazem sentido quando existem tantos meios tecnológicos? Ninguém, ainda, percebeu que basta uma palavra em qualquer motor de busca e logo aparecem centenas, milhares e milhões de hipóteses de consulta? Ninguém, ainda, percebeu que o excesso de burocracia dá cabo dos professores e da escola? Ninguém, ainda, percebeu que não é por se realizarem centenas de reuniões e elaboração de relatórios que a aprendizagem melhorará? Ninguém, ainda, percebeu que, relativamente aos tpc, se a escola não consegue resolver a aprendizagem depois de tantas horas, o problema está na escola e não na criança? Ninguém, ainda, percebeu que estão a gerar jovens cheio de ansiedade e que as escolas, do ponto de vista programático, estão cheias de "entulho"? Ninguém, ainda, percebeu que a centralização pune, severamente, a autonomia, a criatividade e  subjuga os professores? Ninguém, ainda, percebeu que se trata de um erro não pensar a sociedade a montante da escola? 
É óbvio que muitos, muitos mesmo, já perceberam, só que estão à "espera de um sinalzinho de cima". E, assim, tudo continua na paz do "senhor" governo! E como no pseudo vértice estratégico, ou não sabe ou não quer, obviamente, que não existe força interior para romper a lógica de uma escola que funciona de forma muito semelhante à fábrica da Sociedade Industrial. Toca-entra-toca-sai! Como disse o Psicólogo Eduardo Sá, esta escola está vocacionada para o "marrar, vomitar e esquecer". E ninguém vê isto?
Senhores governantes, se não sabem, vão à sua vidinha. É fácil. Terão um salário menor, é certo, o peito menos cheio de ar, mas talvez sejam mais felizes e responsáveis no que fizerem. Talvez passem a ser úteis à sociedade. Simplesmente, porque ninguém, sensato, deve assumir responsabilidades para as quais não está preparado. Certo?
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

"E nós, teimosos, insistimos em mais do mesmo"


"Há dias, numa reunião na escola de dois dos meus filhos, vivenciei um verdadeiro regresso ao passado. Sentada numa sala de aulas, de uma escola onde fui aluna, há mais de trinta anos, não consegui detectar uma única diferença material naquela sala. Impressionante. Como o tempo (ali) parou. 


Vou poupar-vos à descrição do que mudou à nossa volta em 30 anos. deixo-vos, apenas algumas palavras: internet, redes (sociais e não só), inteligência artificial, blockchain. E nós, teimosos, insistimos em mais do mesmo. Insistimos em ensinar como aprendemos. Os recursos, hoje, são abissalmente diferentes. As crianças são abissalmente diferentes. Os conhecimentos neurológicos sob a forma como aprendemos, trouxeram-nos dicas que devem ser postas em prática. E nós teimosos insistimos em mais do mesmo. Insistimos em ensinar como aprendemos. (...) Assumo que não nutro qualquer crença no sistema educativo atual (...) novas ideias precisam-se (...) novas capacidades precisam-se (...) sabemos que a evolução faz-se de mudança e reconstrução (...)" - Fonte: Revista do DN-Madeira/Domingo - 27 de Janeiro..

A autora destes excertos que aqui reproduzo chama-se Sara Reis Gomes, julgo que é Bióloga e fotografa - Would You Mum. A fisionomia desta Senhora não me é estranha. Tenho a impressão que foi minha aluna, no "século passado" (!), numa escola que fechou, exactamente, por ter a pretensão de ser diferente. Se foi, ainda mais feliz estou, apenas tenho que me desculpar de a não a reconhecer. As feições mudam, obviamente. Mas isso pouco interessa. Importante é que esta mãe de quatro filhos, escreveu um texto, sentido e assertivo, que me escorreu garganta abaixo como mel. Nada melhor que uma mãe, um pai, alguém que regresse à escola e, globalmente, deite um olhar crítico em redor e que se questione. 
Tem toda a razão, o mundo avançou e a escola (o sistema) fechou-se nos seus muros. Rotineiramente, ela funciona como uma máquina, embora desgastada no tempo, com parafusos soltos, mas funciona, abrindo, qual fábrica, às oito da manhã e fechando ao final da tarde. Sabe, Sara, vou aqui repetir, pela enésima vez, uma frase de um meu ex-professor, dita há quase cinquenta anos: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O desencontro é inevitável". É sobre esse desencontro que, cinquenta anos depois, a mãe Sara escreveu e MUITO BEM! Parabéns.