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sexta-feira, 2 de junho de 2023

Quadros de honra “para inglês ver”










Por
Ana Catarina Mesquita
Professora e Investigadora
Jornal PÚBLICO - 30.05.2023



A diminuição da exigência a que assistimos diariamente no ensino público conduz a situações, no mínimo caricatas, em que, em algumas turmas, chegamos a ter metade dos alunos no quadro de honra. Como é isto possível, pergunto-me? Temos 15 Einsteins numa turma e os outros 10 são os falhados?

Como é do conhecimento geral, os quadros de honra, de há uns anos a esta parte, constituem uma realidade de várias escolas/agrupamentos escolares, gerando polémica. Estes quadros têm como objetivo premiar a excelência, fomentando o empenho dos alunos e um aproveitamento excelente a todas as disciplinas.

Pergunto: mas os alunos têm mesmo de ser excelentes a tudo? Parece-me difícil… Um aluno que, por exemplo, seja ótimo na disciplina de português e exímio na matemática, mas não tenha aptidão para as artes, é menos digno de pertencer a um quadro de honra? Ou o contrário! Os alunos, por natureza, revelam tendência para determinada(a) área(s), sendo que muitos deles demonstram competências brilhantes a áreas específicas. Então, imaginemos que um aluno que redige textos brilhantes, os melhores daquela escola, ou um aluno que revela competências desportivas irrepreensíveis. Estes alunos devem ser excluídos do quadro de honra, porque não tem tão boas notas às restantes disciplinas?

Tudo isto goza, na verdade, de muito pouca lógica. Ou seja, estamos a premiar, no fundo, o quê? Um concurso para ver quem tira melhores notas a tudo? Com que objetivo? O que ganham os estudantes com isso? Definitivamente, acaba por ser fomentada uma competitividade não desejável entre os alunos. A competição connosco mesmo, dentro de limites racionais, pode ser algo ótimo, que nos impele a ir mais longe na conquista dos nossos sonhos e objetivos. Isso é positivo. Mas e a competição desenfreada com colegas, como se de rivais se tratassem? Julgo que só conduz a que se perca a cooperação entre os alunos.


Por outro lado, onde fica a valorização das atitudes diárias, o respeito pelos professores, pelos colegas, por funcionários, enfim, por toda a comunidade escolar? Um aluno que luta com dificuldades para ter boas notas, mas que não consegue a excelência a todas as disciplinas, sendo, no entanto, um exemplo de conduta, deve ser excluído de um quadro de honra, como se da ovelha negra se tratasse? Parece-me que a resposta é óbvia, pelo menos na minha ótica.

Outro aspeto a ser considerado é a existência de desigualdades sociais no acesso a recursos de educação fora do espaço escolar e que estes quadros de honra só evidenciam. Efetivamente, se uma disciplina for muito exigente ou um professor for menos competente, os alunos que tiverem condições financeiras para obter apoio fora da escola terão, certamente, mais facilidade em brilhar nessa área do conhecimento, sendo que os restantes ficarão, logicamente, mais para atrás. O que quero com isto afirmar é que estes quadros de honra acabam por não avaliar conhecimentos adquiridos apenas no espaço escolar, mas envolvendo valências que ultrapassam o mesmo.

Paralelamente, fomentam algo que considero perigoso para o futuro dos alunos: a ilusão de que já fizeram o suficiente e de que não é preciso trabalhar mais para atingir objetivos mais ambiciosos. Na verdade, hoje, em dia, a diminuição da exigência a que assistimos diariamente no ensino público, em relação ao que acontecia no passado, conduz a situações, no mínimo caricatas, em que, em algumas turmas, chegamos a ter metade dos alunos no quadro de honra. Como é isto possível, pergunto-me? Temos 15 Einsteins numa turma e os outros 10 são os falhados? Parece-me muito pouco verosímil… Além de se criar uma ideia errada do que é a excelência e do que a mesmo abarca, podemos levar os 10 alunos que ficaram de fora do quadro de honra a perderem confiança nas suas capacidades, como se valessem menos do que os outros, e isto é inconcebível.

Pelas razões apontadas e por outras que poderiam ser referidas, não consigo encontrar razões sólidas que justifiquem a manutenção destes quadros de honra, que, na minha perspetiva, não apresentam critérios coerentes, apenas promovendo a competitividade e a ilusão, e não contribuindo em nada para a criação de valores realmente relevantes para a sociedade.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A Fúria Meritocrática



FACTO

Afirmou o secretário regional da Educação: "Por vezes, existem algumas reticências se devemos ou não reconhecer o mérito. Reconhecer o mérito é reconhecer os bons exemplos e nós necessitamos na nossa sociedade, na comunidade, mas também na escola, de termos bons exemplos para que possam ser seguidos" (...) Desta cerimónia sobressai ainda a entrega de dois outros ‘diplomas de mérito’, por parte do secretário com a tutela da Educação. "O primeiro, para os professores: sem o seu empenho, sem a sua dedicação e o seu trabalho não seria possível estarmos hoje aqui a distinguir os nossos jovens talentos. O segundo, para os pais/encarregados de Educação, por cá estarem e acompanharem o percurso dos vossos filhos/educandos”, afirmou, deixando os parabéns à Escola, aos alunos e respectivas famílias." - Fonte DN-Madeira.

COMENTÁRIO

Estas são as típicas cerimónias, algumas de encomenda que assumem uma característica claramente para a fotografia. Se assim não fosse não havia lugar a "algumas reticências" (!). Há muitos, muitos anos, não tinha ainda o secretário regional nascido, já existiam quadros de honra e, porém, o sistema educativo foi aquilo que se sabe. Não vou comparar os tempos históricos, pois seria um erro grosseiro, mas esta "fúria meritocrática" apenas está a servir para esconder ou varrer para debaixo do tapete um sistema completamente desadequado dos nossos dias, com taxas de abandono e de insucesso que deveriam envergonhar qualquer governante. E vai daí, entrega "diplomas" e faz um panegírico aos professores e encarregados de educação. "Gato escondido com o rabo de fora". Eu diria que faz parte do "modelo" retrógrado, agarrado a mais de duzentos anos com traves-mestras semelhantes. O Mundo avançou, mas o Sistema Educativo parou naquilo que é essencial. Então, há que disfarçar.
"Necessitamos de bons exemplos", é verdade que sim. Desde logo, de uma secretaria que deveria ter um olhar completamente diferente para os assuntos da Educação. E não tem. Esta secretaria gere, administrativamente, o sector, porque não tem uma ideia para o futuro. Esta é a realidade, que cansa os alunos, conduz os professores à exaustão, gera indisciplina e desinteresse. Para milhares, "a escola é uma seca", seria bom que o governante tomasse consciência!
Quando alguma coisa mudar, o primeiro diploma de "bom exemplo" deverá ser entregue pelos professores e pelos pais ao secretário que estiver a gerir esta importante pasta.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A ESCOLA E A NORMA DO MERCADO


A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.

Por António Guerreiro, 
in Público, 09/02/2018
Bem podem os críticos do ranking das escolas erguer publicamente os seus argumentos contra uma hierarquização obtusa que poderia figurar como um exemplo de idiotia da nossa época. Estarão sempre em desvantagem porque o exercício é excitante, funciona como um jogo e satisfaz uma pulsão escatológica infantil. E quando se passa para o plano da legitimação racional, o modelo do ranking aplicado às escolas está protegido pelo princípio supremo do mercado: a concorrência. No nosso tempo, ela é uma norma global, imposta a todas as actividades como solução universal para melhorar todos os serviços e para promover um aperfeiçoamento progressivo do indivíduo. A concorrência e a competição exaltam a ideia de mérito e, através de uma operação fraudulenta, fazem dele uma figura do poder chamada “meritocracia”.


Mérito e meritocracia não são a mesma coisa. O desenvolvimento de qualidades e competências individuais (inatas ou alcançadas através do estudo, da disciplina e do esforço) que levam ao sucesso é, e sempre foi, digno de apreço. Chamamos-lhe mérito. A meritocracia é uma coisa diferente: é um instrumento político e de engenharia social, ao serviço de um projecto de selecção de poucos através da exclusão de muitos.

Atribui-se geralmente a um sociólogo e político inglês, Michael Young (1915-2002), a paternidade da palavra “meritocracia”, que surge como um significante-mestre num romance satírico que ele publicou em 1958, com este título: The Rise of Meritocracy. Nesse romance, um sociólogo narrador situado no ano de 2033 conta e comenta o extraordinário progresso conseguido no seu país ao longo dos últimos cinquenta anos, graças à superação das velhas ideologias igualitárias e graças ao triunfo da meritocracia.
A intervenção no campo da educação e das instituições escolares tinha desempenhado um papel crucial na grande transformação: primeiro, as escolas tinham simplesmente seguido a economia na luta pelos mercados, mas a certo ponto uma nova política tinha feito da escola o lugar de experimentação de estratégias mais eficazes e sistemáticas de separação dos inteligentes face aos estúpidos, um processo que depois se impôs com sucesso a outros sectores.
E, na fase mais avançada deste processo, as indústrias começaram a aplicar medidas selectivas com base no modelo da escola. No fim, até o exército tinha aprendido a lição escolar. O romance de M. Young é uma utopia negativa. E o seu autor cunhou a palavra “meritocracia” com uma evidente intenção crítica. Mas ela foi reciclada e passou a ter um significado plenamente positivo. E o processo descrito no romance para construir uma escola apta a transformar uma aristocracia de nascimento numa aristocracia de engenho parece ter inspirado a campanha dos rankings, que chega sempre à meia-noite, como o Pai Natal. Tal como no romance de M. Young, a escola “democrática” é assaltada pela lógica do clube selectivo que funciona por cooptação.
A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.
E se existe como um quase-mercado, ele não é fruto de uma lógica espontânea, não se faz naturalmente por obra das “leis imanentes” do capitalismo (como pretendem os partidários da lógica do mercado aplicada ao campo escolar), mas de uma construção política. E essa construção tem no ranking das escolas uma poderosa ferramenta.

sábado, 15 de julho de 2017

"AI SENHORITA, QUEM ME DERA TER OS PROBLEMAS QUE A SENHORA TEM!"


Um sistema, por pior que seja, produz sempre alguma qualidade. O antigo sistema educativo, anterior a 1974, também produziu licenciados e doutores em tantas áreas do conhecimento. Ao tempo, muitos, excelentes. Alguns foram, até, homens e mulheres de ciência que deixaram marcas ainda hoje reconhecidas. Portanto, não há que engalanar em arco com os resultados dos últimos exames finais nacionais do ensino secundário. Parece-me ridículo. Obviamente que, dentro do actual sistema, não há que diminuir ou ignorar o esforço e a dedicação de professores e alunos no sentido da obtenção de resultados ditos de "excelência". Pelo contrário, há que dar os parabéns. Mas isso não significa que o sistema, de alto a baixo, esteja adequado ao tempo que estamos a viver. A questão que se coloca é esta: quantos não teriam atingido tais resultados ou mesmo melhores seguindo caminhos distintos? E quem são e quais as origens familiares dos alunos? Seria interessante um estudo desta natureza.



Aliás, ainda há poucos dias foi público, uma vez mais, o altíssimo e preocupante número de alunos que, na Região, "chumbaram" logo nos primeiros anos. A Madeira registou, em 2015/2016, 10,3% de retenções e/ou desistências no 3º ciclo do Ensino Básico. A pior taxa nacional. Mas apresenta tantos "vintes" no final do secundário. Esquisito ou talvez não. A peneira funcionou! Ora, não é pela minoria que apresenta "bons resultados" que este sistema, repito, este sistema, deve ser avaliado, mas pelos milhares que nunca lá chegarão. Interessa determinar quais as razões mais substantivas, a montante e a jusante do sistema que contribuem para o insucesso, o abandono e a falta de qualificações profissionais. Um sistema, que transporta a inflexibilidade, que continua a se basear na memorização e na reprodução do manual programático, é um sistema desconectado com o futuro, isto quando se sabe que uma larguíssima percentagem do que é referido como "aprendizagem" se destina ao esquecimento. Dir-se-á que nasce na aula, vive algum tempo até ser debitado em uma folha de exame e morre. Talvez em linguagem informática seja mais apropriado falar "reciclagem" ou "lixo". Delete!
Percorre-me a tristeza quando leio essa espécie de "guerra" entre escolas, porque uma teve mais vintes que a outra! Quem a promove faz por necessidade de afirmação, certamente, pressuponho que não pelo processo seguido. Simplesmente porque o processo, desde as primeiras idades, está inquinado, dizem-no tantos investigadores de várias áreas do conhecimento, autores, um sem número de dissertações e teses. E os adultos, governantes, direcções executivas e professores ficam felizes com os resultados, porque a tal excelência, no fundo, promove um apagão no mundo de desencantos, sentidos por alunos e professores. Nesta trágica sequência, ninguém fala, até, do matraquear até à exaustão das "explicações" particulares, o que me lava a concluir, se o sistema tivesse tanta excelência, naturalmente, os que podem, não se socorriam do trabalho extra! Ou não será assim?
Há uma pergunta que trago, diariamente, nas minhas reflexões: entre o "conhecimento" transmitido, aquele constante dos programas, e a resposta exemplarmente adequada à pergunta, a que consta do manual, o que resta de conhecimento relevante, aquele que pode ser retido, partilhado e com efeitos multiplicadores? Não é, certamente, um vinte a todas as disciplinas que torna um jovem globalmente desperto para a vida, verdadeiramente culto e disponível para cruzar os conhecimentos.
A este propósito, questionava-se Deborah Stipek, da Faculdade de Educação de Standford, em um estudo transversal realizado ao longo de 35 anos. A editorial da revista colocava em título: “A Educação não é uma corrida”. A investigadora é clara: “o sistema de exames produz especialistas em provas enquanto prejudica vidas que poderiam ser promissoras” (…) O sistema actual, baseado no desempenho em testes pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores” (…) “Este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes” (…) A maneira como a Educação está estruturada faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos antes mesmo do final da educação básica”. 
Finalmente, há dias, transcrevi partes de uma entrevista ao Professor Miguel Santos Guerra, Catedrático na Universidade de Málaga. Regresso a essa entrevista e a uma pergunta do Jornalista de A Página da Educação: "Esta edição inclui uma reportagem sobre a pobreza infantil. É um dos muitos problemas e das realidades sociais com que os professores se deparam. As escolas estão preparadas para lidar com estas questões?" Respondeu o Professor: "(...) Há aqui um problema - a Escola está separada da vida, está distante dos problemas da realidade. Eu vejo aí um problema: os livros, os conhecimentos inertes que, por vezes, não têm que ver com a realidade. A Escola não pode permanecer separada dos problemas da vida, porque a Escola é para a vida. Há um artigo que conta a história de uma professora de Biologia que pergunta a uma adolescente quantas patas tem um artrópode. E a adolescente, suspirando, diz-lhe: "ai senhorita, quem me dera ter os problemas que a senhora tem...". Pensemos nisto e não na guerra de quem teve mais vintes!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

PUBLICIDADE ENGANOSA QUE ESCONDE OUTRAS REALIDADES


Leio declarações de políticos embevecidos com alguns resultados académicos. O presidente do governo regional e o secretário regional da Educação aproveitaram a iniciativa da Escola Jaime Moniz para falar de mérito escolar e do "investimento" de 348 milhões de euros no sistema educativo. Confesso que este tipo de discurso tem o condão de me deixar triste, não só pela sua face repetitiva como também por aquilo que já alguém referiu: "se a educação é cara, experimentem a ignorância". O peso da Educação no conjunto do orçamento é significativo, de resto em qualquer país, tal como o é o sistema de Saúde. São pilares no campo civilizacional dos direitos humanos, pelo que se torna ridículo andar a repetir amiudadas vezes os respectivos encargos.


Mas ao invés de ver o copo meio cheio, isto é, alguns resultados, poucos, que tapam a floresta dos desencantos, dos professores aos alunos, bom seria que o governo visse o copo meio vazio, isto é, os milhares que abandonam o sistema, os milhares com insucesso, as taxas que colocam a Madeira em lugares desprestigiantes no panorama nacional. Quando se olha, apenas, repito, apenas, para o mérito de uns (todos os sistemas, mesmo os estruturalmente maus, apresentam sempre, qual metáfora, uma ponta do icebergue fora de água que esconde a enorme parte submersa) e não se consegue ver os milhões de euros anuais perdidos no escândalo dos números das retenções, não se me afigura sério. Não disponho de números actualizados, mas há dois ou três anos, foi público que 6.000 repeti(r)am o ano. Ora, se cada aluno custa, anualmente, cerca de € 3.500,00 (para mais e não para menos), significa que vinte e um milhões foram ou são completamente desperdiçados. E são esses que nos devem preocupar, se em conta tivermos o que se sabe ao nível da impreparação profissional, a todos os níveis, que acabam por reflectir consequências gravosas no crescimento e desenvolvimento da Região. Os números da estatística provam-no. Por outro lado, ignoram que existem estudos sobre os efeitos de uma intervenção pedagógica precoce, compaginada com um outro paradigma de organização escolar, curricular e programática. Sabe-se, hoje, o que significa, no futuro, o efeito multiplicador de cada euro investido nas idades mais jovens.
Mas há mais, compaginado com este problema. Em 2008 disse-o na Assembleia Legislativa, perante um coro de protestos vindos do lado da maioria, que a Acção Social Educativa era "manifestamente indecorosa". E justifiquei à luz dos 30% de pobres da Região. Nove anos depois vem o governo, quase como dádiva, sublinhar que as famílias vão pagar menos 7,5% nas mensalidades das creches. Paulo Freire Freire (1921/1997) tinha razão. O texto aqui ao lado diz tudo, isto para não falar do que a Constituição da República assume quanto à gratuitidade do acesso ao sistema educativo. Aos olhos  da pobreza, dos baixos salários, do actual custo de vida, constitui uma ignomínia o governo falar de alívio dos encargos das famílias. Propositadamente, esquecem-se ou fazem-se esquecidos que a JUSTIÇA FISCAL faz-se em sede de IRS. Pagar IRS e, depois, pagar a acessibilidade a um sistema que deveria ser gratuito, é, repito, indecoroso, para além de ser passível de ser interpretado como uma dupla tributação.

Uma peça jornalística, publicada na edição do Dn-Madeira de 06 de Setembro de 2008, sublinhava o seguinte:

"Manifestamente indecorosa". É desta forma que o Grupo Parlamentar do PS define a Portaria da Secretaria Regional da Educação que regula os escalões da Acção Social Educativa. Referindo-se à notícia do DIÁRIO de que metade dos alunos matriculados na RAM beneficia de apoio público para alimentação, transportes e manuais, o PS refere que este número explica a dimensão do fenómeno da pobreza, "e a necessidade de políticas integradas de família que não podem se esgotar num apoio de natureza caritativa". Até porque nestes 47%, que beneficiam de apoio escolar, não estão contemplados os agregados familiares com um rendimento 'per capita' igual ou superior a 261 euros. Valor que, à luz do actual custo de vida das famílias, significa "um evidente estado de pobreza". Com estes indicadores, o PS considera que o governo mostra-se cego à realidade económica e social, preferindo distribuir umas migalhas aos pobres e excluídos. "O governo aposta na obra física, em estádios, naquilo que não é socialmente relevante, e deixa de lado a obra educativa que é a base do futuro da Região", salientam os socialistas. Recordam, a propósito, que sempre que o PS defende o princípio de políticas integradas, tal significa a necessidade de um novo olhar para a estrutura familiar, para o modelo económico vigente, para a segurança no trabalho, para a exigente educação dos valores e respectiva co-responsabilização no projecto educativo de longo prazo, para a legislação regional de combate ao consumo de álcool, para o rigor e disciplina que devem nortear as condutas gerais e específicas, criminalizando o que for de criminalizar.Entendem os socialistas que todos deverão estar em pé de igualdade no tiro de partida para a vida. Neste pressuposto, dizem ser indecoroso o governo apresentar uma tabela de Acção Social Educativa quando sabe que os rendimentos familiares são baixos face ao alto custo de vida, e face ao crescimento do número de desempregados. "Há muita miséria escondida ou disfarçada que condiciona o sucesso escolar. Há, no meio de uma aparente vitalidade e bem-estar que os mais distraídos podem ser levados a percepcionar nos pátios das escolas, muita carência a todos os níveis. O telemóvel e o vestuário que trazem no corpo nada significam em relação ao mundo de carências, afectivas, económicas, sociais e culturais que transportam", salientam os socialistas. E é partindo deste pressuposto que dizem ser necessário que o governo tenha em atenção que as crianças e jovens não têm culpa do seio familiar onde nascem. Por isso "devem estar em pé de igualdade quando partem, neste caso, para o conhecimento, e a escola pública existe para garantir essa igualdade de oportunidades. O PS defende, por isso, que a acção social educativa, mais do que um apoio à família, constitui um apoio directo no enquadramento formativo do jovem. E aqui, sublinham, não deve haver lugar a dúvidas por razões orçamentais. "Exige-se rigor na atribuição dos apoios, bons resultados escolares mas, simultaneamente, a convicção da importância do investimento junto de quem teve a pouca sorte de nascer pobre". O que actualmente acontece é que "o Governo está resignado a ver crianças e jovens a viver da esmola e da caridade". Exemplo disso, diz o PS, são as 73 instituições de solidariedade social espalhadas pela Região e que constituem a prova dos constrangimentos familiares que urge combater. "A continuar assim, com este olhar do governo sem contemplações para a pobreza, a Região caminha no sentido da tragédia: abandono escolar e precoce, insucesso, ausência de qualificação profissional, comportamentos desviantes, crime, enfim, insegurança".

NOTA
Em 2008 eram 47% os apoiados pela Acção Social Educativa. Hoje, diz o governo, que dois em cada três beneficia de tal apoio. Isto pode significar que a pobreza está a se tornar paisagem, com efeitos negativos no sucesso escolar.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MERITOCRACIA - FUI MEDIANO, GRAÇAS A DEUS!


A honra constrói-se na aprendizagem democrática, na solidariedade, nos princípios e valores humanistas que operam o crescimento interior, na cidadania, na cultura, no desporto, no respeito e na compreensão do saber estar com e não contra.


"Quadros de honra". Felizmente, não me lembro de ter pertencido a esse grupo de eleitos. Fui aluno mediano, graças a Deus! Algumas vezes abaixo da média. Participei, sim, em muitas outras situações informais e opcionais, as quais, hoje, reconheço a importância fulcral que tiveram na minha vida. Licenciei-me, fiz um Mestrado, trabalhei em diversos âmbitos, abracei a escola pública e sempre fui feliz. Esse percurso deu-me consistência, responsabilidade e abertura ao Mundo. Conheço tantos assim. Isto a propósito do que venho a assistir, sobretudo nos últimos anos, a essa proliferação de prémios a crianças por mérito escolar. Em alguns casos, até, pecuniários. Discordo. Que no final do secundário, já em uma condição de jovem-adulto, se distinga a capacidade técnica, científica, humana e cultural, aceito. Nas primeiras fases, em função de programas curriculares, não, obrigado. Não é da meritocracia que necessitamos. Nem entre crianças, nem entre escolas com os famigerados "ranking´s", tampouco entre professores através de um indecoroso, porque burocrático, pressionante e gerador de conflito, sistema de avaliação de desempenho!
Considero inaceitável que tragam para dentro da Escola, ou que dela façam o espelho das taras e doentias práticas empresariais. Esse mundo cão da competição desenfreada deve ficar à porta, como exemplo negativo de uma sociedade desestruturada que corre e corre não sabendo para onde. A escola não deve assumir uma concepção mercadológica, uma valorização precoce e obsessiva quando a perspectiva que a deve nortear é a da formação global, o gosto pelo conhecimento, a abertura ao pensamento universal e à descoberta. Não se constrói o futuro com prémios, mas com humildade e com uma permanente pedagogia pelo saber, rigor e responsabilidade. Está em causa a diversidade na origem das crianças, as culturas que chegam à escola, tudo quanto se esconde a montante, as questões económicas, financeiras e sociais. Portanto, a questão central está em perceber como se pode falar de uma escola integradora quando se percorre o caminho contrário. Ao mito do quadro de honra de uns opõe-se, parece-me óbvio, o quadro da desonra dos demais. Depois, queixam-se, entre múltiplas variáveis, é certo, do "bullying", porque uns são os dotados e outros os menos favorecidos. A honra constrói-se na aprendizagem democrática, na solidariedade, nos princípios e valores humanistas que operam o crescimento interior, na cidadania, na cultura, no desporto, no respeito e na compreensão do saber estar com e não contra. Por aí se percorre o caminho da excelência. 
Durante muitos anos, através da prática desportiva, cruzei-me com milhares de crianças e jovens. Nunca precisei de lhes facultar “incentivos”, quando, estando com os outros, dessem o melhor de si, respeitando-os. As internacionalizações e os Jogos Olímpicos foram atingidos com naturalidade e sem marginalizações. Esse o exemplo que incorporei e que transfiro para as etapas determinantes da motivação, o alicerce sobre o qual, a prazo, paulatinamente, se edificam os pilares e as traves-mestras dos andares superiores do conhecimento. Lamentavelmente, até já destacam o mérito escolar de crianças e jovens institucionalizados. A correria pela pseudo-excelência anda desenfreada: são entidades bancárias interessadas, são governos, são autarquias, são instituições diversas e são conselhos pedagógicos que se movimentam nesse sentido. Assisto, na competição desportiva com crianças e jovens, à reprodução de quadros contrários à educação para os mais estruturantes valores. Para que servirá essa desnorteada correria? Para as crianças nada, para o mediatismo dos adultos, certamente que sim. Vaidades que, em muitos casos, se pagam bem caro ao primeiro tropeção. Ocorre-me questionar: e quantos ditos "excelentes" se tornam em medianos profissionais, enquanto outros se afirmam pela diferença, pela criatividade e inovação? A vida, dizem-me os anos que transporto, é muito mais que currículos formatados, exaustivo cumprimento de programas, testes e prémios...

NOTA
Sou colaborador da revista A PÁGINA da Educação. Na edição de Inverno de 2016 que agora me chegou, publiquei um artigo baseado em um outro que escrevi este blogue, a 20 de Outubro, sobre os "prémios por mérito escolar". Peço desculpa aos leitores pela repetição do tema, todavia, com um novo olhar. 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

HÁ MUITO SILÊNCIO ENTRE OS PROFESSORES



Como é possível que não se entenda que não pode haver uma escola que ensine a todos a mesma coisa, ao mesmo tempo, da mesma maneira na uniformidade e na competição?

Pergunta formulada pela Doutora Ana Benavente, ex-Secretária de Estado da Educação, na sua página de facebook.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

PRÉMIOS DE MÉRITO ESCOLAR. A HONRA DE UNS CORRESPONDE À DESONRA DOS DEMAIS.

Há muitos anos eram os "quadros de honra" que pontificavam. Felizmente, não me lembro de ter pertencido a esse grupo de eleitos. Fui mediano, graças a Deus. Algumas vezes abaixo da média. Participei, sim, em muitas outras situações que, ainda hoje, reconheço a importância que tiveram nas minhas opções de vida. Licenciei-me, fiz um Mestrado, trabalhei em diversos âmbitos e sempre fui feliz. Esse percurso de vida deu-me consistência, responsabilidade e abertura ao Mundo. Conheço tantos assim. Vem isto a propósito do que venho a assistir, sobretudo nos últimos anos, à atribuição a crianças de prémios por mérito escolar. Em alguns casos, até, prémios monetários. Tenho uma posição muito clara a este respeito: discordo. Que no final do secundário, já em uma condição de jovem-adulto, se distinga a capacidade técnica, científica, humana e cultural, aceito. Nas primeiras fases, não, obrigado. Não é da meritocracia que necessitamos. Nem entre crianças, nem entre escolas com os famigerados "ranking´s", tampouco entre professores através de um indecoroso sistema de avaliação de desempenho!


Considero errado que tragam para dentro da Escola, particularmente para o Ensino Básico, ou que dela façam o espelho das práticas correntes de natureza empresarial. Esse mundo cão da competição desenfreada deve ficar à porta, como exemplo negativo de uma sociedade desestruturada. A escola não deve assumir uma concepção mercadológica, uma valorização precoce e obsessiva quando a perspectiva que a deve nortear é a da formação global, o gosto pelo conhecimento, pelo pensamento universal que conduz à descoberta e pelo sentido da responsabilidade. Não se constrói o futuro com prémios, mas com humildade e com uma permanente pedagogia pelo saber. Não está em causa, apenas, a questão da diversidade na origem das crianças, as culturas que chegam à escola, tudo quanto se esconde a montante da escola, concretamente, as questões económicas, financeiras e sociais ou, ainda, os aspectos consequentes da diferenciação entre eleitos e os outros. A questão central está em perceber como se pode falar de uma escola integradora quando se percorre o caminho contrário. Ao mito do quadro de honra de uns opõe-se, parece-me óbvio, o quadro da desonra dos demais. Depois, entre múltiplas variáveis, o "bullying", porque uns são os dotados e outros os menos favorecidos. A honra constrói-se na aprendizagem democrática, na solidariedade, nos princípios e valores humanistas, na cidadania, na cultura, no respeito, no rigor de saber estar com e não contra. Por aí se percorre o caminho da  excelência. “Educar a mente sem educar o coração não é educação”- Aristóteles. Mas estas são considerações genéricas, não tão genéricas quanto isso, sublinho, quando o Básico constitui a etapa determinante da motivação, o alicerce sobre o qual, a prazo, paulatinamente, se edificam os pilares e as traves-mestras dos andares superiores do conhecimento. Lamentavelmente, até já destacam o mérito escolar de crianças e jovens institucionalizados. A correria pela pseudo-excelência anda desenfreada: são entidades bancárias interessadas, são governos, são autarquias, são instituições diversas e são conselhos pedagógicos que se movimentam nesse sentido. Para que servirá isso? Para as crianças nada, para o mediatismo dos adultos, certamente que sim. Vaidades que, em muitos casos, se pagam bem caro ao primeiro tropeção. Ocorre-me questionar: e quantos ditos "excelentes" se tornam em medianos profissionais, enquanto outros se afirmam pela diferença, pela criatividade e inovação? A vida é muito mais que prémios.
Relacionado com este tema, há dias, li um interessante texto no blogue "Ser mãe é tramado": "(...) O meu filho, assim como tantos outros miúdos, que até podem ter notas baixinhas, deviam estar no Quadro com Honra. Pelo esforço, pela evolução que se exigem, pela capacidade de se superarem e corrigirem os próprios erros, pela verdade, a sua verdade, pelo sentido crítico, pela imaginação. Enfim, pela capacidade de crescimento interior, social e humano. Mas isso é Honra que a escola não consegue ver, quanto mais reconhecer. Infelizmente vai-se ficando pelos quadros".
Pensemos nisto e debatamos isto.
Ilustração: Google Imagens.