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sábado, 1 de julho de 2023

Em dez anos a região perdeu 9 260 alunos

 

Obviamente que é grave assistirmos, em 10 anos, a um decréscimo do número de crianças e jovens (9 262 alunos). Ou porque se nasce menos, ou porque se emigra mais ou porque há cerca de 8 000 que não estudam nem trabalham. Seja como for, trata-se de uma diminuição que implicou menos 920 docentes e o encerramento de 93 estabelecimentos de aprendizagem. Obviamente que este facto não deve ser analisado de forma isolada, antes compaginada com muitos outros factores, entre outros, o económico. No essencial, para encontrar respostas às razões mais substantivas que conduziram a este decréscimo?



















Porque a minha formação não o permite, pois trata-se de um estudo que outros mais habilitados em várias ciências o devem fazer, resumo este meu texto apenas ao que à escola diz respeito, na perspectiva organizacional do sistema. E aí pergunto aos políticos responsáveis pela governação se dominam o conceito da designada "matriz swot" e, se o dominam, por que não o põem em marcha?

Não basta assumir, estatisticamente, que a região da Madeira dispõe de menos alunos, porventura para, sub-repticiamente, justificar o encerramento de estabelecimentos de aprendizagem. Simplesmente porque esta putativa "fraqueza" pode(ia) e deve(ia) constituir um "oportunidade". É, pois, no cruzamento das "forças" e "fraquezas", "oportunidades" e "ameaças" que se constroem novos paradigmas no quadro do desenvolvimento.

Ora, a diminuição significativa do número de alunos (uma fraqueza) de forma simples se compreenderá que o sistema podia encontrar nesse decréscimo uma grande oportunidade. Isto é, trata-se de uma conjuntura favorável ao estabelecimento de um novo, inteligente, consistente, eficiente e eficaz paradigma da aprendizagem de qualidade com repercussões no futuro. Concretamente, uma oportunidade para mudar a escola. Oportunidade, portanto, para debater, cientificamente, onde estamos, onde desejamos chegar e, finalmente, a definição dos passos que têm de ser dados para lá chegar. Se o sistema, tão ao gosto dos governantes, quedar-se pelo repetitivo choro da "fraqueza" e da "ameaça", jamais encontrará a "força" e a "oportunidade" que as mudanças exigem.

O habitual chorinho apenas serve a mediocridade de pensamento, a ausência de ambição, inovação e a criatividade e, no essencial, corresponde às medidas do tipo "penso rápido" que não resolvem os problemas de uma ferida profunda que, para já, não deixa de sangrar. O chorinho acaba por ser, claramente, a antítese do que se pretende de uma Autonomia político-administrativa pujante. Em suma, passaram-se 47 anos e ninguém é capaz de assumir uma estratégia política para a Educação. Ninguém é capaz de dizer para onde caminha.

Ora, para os estabelecimentos de aprendizagem, não é a diminuição do número de alunos que está em causa, mas sim a incapacidade de aproveitar o momento para transformar o que manifestamente, até no plano pedagógico, está errado. E não estou a pensar, apenas, nos currículos, programas e no estático "modelo" organizacional das escolas. Refiro-me, por exemplo, por uma questão de bom senso, se alguém minimamente integrado no sistema educativo, aceita como natural que um estabelecimento tenha 1 000, 1 500, 2 000, 2 500 alunos? Esses números jamais poderão caracterizar uma escola, talvez caracterizem uma fábrica da Sociedade Industrial! O espaço escola que devia ser de uma enorme afectividade transformadora, tornou-se num espaço impessoal, rotineiro e "chato".

Com números tão expressivos quanto aqueles, muito dificilmente os professores se conhecem e debatem a escola, os alunos da manhã não conhecem os da tarde, pelo que se tornam, grosso modo, peças de uma máquina que funciona formalmente (abertura e fecho, cumprimento de horários, transmissão de conteúdos, avaliações do "produto", relatórios e remessas (muitas) para o arquivo morto), numa irritante rotina completamente desfasada das necessidades do mundo real. Tendencialmente, a escola acaba por ser um espaço para não PENSAR, um espaço e um tempo de vida quase perdidos e de angústia para todos. Tenhamos presente o que os alunos dizem da escola e os números assustadores de "depressões" entre professores.

Senhores da política, pensem na matriz SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats) e deixem-se de lamechas!

Ilustração: Google Imagens

terça-feira, 28 de março de 2023

Ontem, os professores, hoje, os alunos!

 

Detesto ditadores e "ditadorzecos". Presumo que lá no fundo sejam pessoas infelizes, porque, no meio da sua voraz atitude diária de a todos controlar ou, então, de sentirem um imaginário poder sobre os outros, julgo que são capazes de terem alguns momentos de lucidez, sobretudo quando são confrontados olhos nos olhos. Como nada percebo, no plano científico, sobre os comportamentos, tudo resumo a uma endémica infelicidade. São assim!



Quando leio que o "lugar dos alunos é na escola" e que qualquer queixa "não é argumento para validar aquilo que reivindicam", presumo que a uma pessoa que assim se comporta, na escola por onde passou não conseguiu perceber o que é isso de formação democrática no quadro de uma cidadania activa. Depois, falam, porque dá jeito, de "convivialidade". Só que de sentido único, claro! Aliás, há muito que os professores reivindicam a Escola Democrática, inclusiva e de qualidade. Ora, o que aquelas declarações envolvem é uma descarada imposição do medo. Quem manda sou eu e ponto final. Quietinhos.

Visitei escolas democráticas onde até o regulamento da escola é definido pelos alunos. Onde, num determinado dia da semana fazem uma assembleia geral de escola, onde as regras nascidas de baixo, são debatidas e alteradas. Onde há audição dos problemas da comunidade escolar. E ali não deixa de existir disciplina, rigor e muita aprendizagem. Tornam-se adultos responsáveis.

Mas esta história tem antecedentes. Em 2019 o mal-estar na Escola de Hotelaria conduziu a um grave sobressalto entre os professores. Conduzi uma Assembleia Geral de Professores, no Sindicato de Professores da Madeira, e tenho bem presente o que escutei, no meio de um indisfarçável medo. Ouvi desabafos de gente com as lágrimas nos olhos, passei o meu olhar pela assembleia e vi-os apavorados com o dia de amanhã. A minha missão foi a de acalmá-los, compreendendo-os mas também incentivando-os no pressuposto que "só perde quem deixa de lutar". 

Passados três anos, não são os professores, mas os alunos que se levantam contra alegadas prepotências. Não faço juízos de valor até porque não conheço o processo, mas insurjo-me contra declarações infelizes. O "lugar dos alunos é na escola", mas essa escola só existe porque há alunos. Certo? Então, pode deduzir-se que uns ali estão para uma aprendizagem que se deseja de qualidade, e outros, os que a dirigem, ali estão para garantir as condições básicas do seu funcionamento. No meio disto deve prevalecer o respeito bilateral. Está pois enganado quem pensa que qualquer queixa "não é argumento para validar aquilo que reivindicam". Até na Guiné, no mato, em tempo de guerra colonial, quando o "Homem-Grande" reunia os principais da aldeia, tinha o cuidado de os escutar, corrigir e propor soluções.

Não sei se se trata do Princípio de Peter ou do efeito Dunning-Kruger "que diz respeito a pessoas que acreditam cegamente que possuem uma preparação maior do que os outros para lidar com qualquer assunto. Dessa forma, o portador da síndrome de Dunning-Kruger costuma fazer escolhas ruins influenciadas pela sua arrogância. Consequentemente, o indivíduo alcança resultados insatisfatórios em tudo o que faz por insistir numa sabedoria que não possui".

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

O silêncio que mata


Quem governa não está acima da lei. Mas parece estar. O processo instaurado pelo secretário da Educação ao Dr. Joaquim José Sousa (Escola do Curral) continua a ser uma história de contornos politicamente tenebrosos. Fixo-me, apenas, neste dado que li: "Passaram-se 653 dias depois de ter pedido as atas da escola do Curral das Freiras ao Governo Regional da Madeira - mas "convenientemente" DESAPARECERAM e já passaram 222 dias desde que pedi para chamarem a polícia e apresentarem queixa no Ministério Público por roubo das mesmas".

Pelo que depreendi da leitura de todo o texto, as actas do Conselho Executivo e do Conselho da Comunidade Educativa são fulcrais para qualquer pessoa perceber os alegados erros cometidos ou a trama que envolveu uma punição previamente definida. Sem a sua leitura, independentemente de outros elementos, todo o processo apresenta-se inquinado, pois tais documentos retiram, claramente, a possibilidade de defesa de quem é acusado. Onde estão as actas? Não existem? Desapareceram? Sendo verdade, então, pergunto, se alguém foi visado pelo desaparecimento? Extraviaram-se, porquê, por quem e a mando de quem? 
Certo é que não foi realizada qualquer investigação e, apesar disso, condenaram o Professor a seis meses sem salário? Uma matéria que deve ser esclarecida. O silêncio mata. Da minha parte nunca haverá silêncio enquanto, neste caso, um professor for injustamente condenado por um político de turno.
Toda a história pode ser lida neste endereço. 

quarta-feira, 4 de março de 2020

A cidadania vive-se, não se aprende por discursos ou a estudar


Professor por inteiro e diretor da escola Tangerina todos os dias, Manuel Rangel nunca deixou de dar aulas desde que concluiu o curso do Magistério Primário, no Porto. Da formação de educadores e professores ao 1o Ciclo, ser professor foi o seu “múnus” e a Tangerina o projeto central da sua vida – que terminou apenas algum tempo depois desta entrevista, que seria a última. Recebeu a PÁGINA com o sorriso que era marca da sua imagem, e como tal irá perdurar na memória de tantos que com ele partilharam a construção de saberes. Até sempre! [1956 / 2015]

A Tangerina é um projeto que nasceu em condições muito especiais.

Sim. Era um projeto já antigo, de algumas pessoas. Há cerca de 20 anos, quando a escola foi fundada, não havia um espaço com um projeto educativo que, do ponto de vista da filosofia de base, fosse realmente diferente. O projeto acabou por nascer de uma forma um bocadinho diferente do que é costume, a partir dos próprios pais. Um grupo de professores estava a trabalhar numa escola, também privada, onde se começou a aplicar um programa de Matemática que acabou por ser um êxito, o Comprehensive School Mathematics Program. Os pais organizaram-se para avançar com uma escola onde se desse continuidade a esse programa, que é o que ainda usamos. Teve o lado bom de ter partido dos pais, mais ainda por ter começado pelo lado da Pedagogia, da Educação.

O que é que distingue esta escola das outras?

Isto não tem nada de especialmente novo. O que seguimos aqui são os princípios que há cento e tal anos se anda a dizer que deviam orientar a chamada Escola Nova. A grande questão é traduzir isso em mais do que declarações de intenção. Foram criados os chamados projetos educativos e aquilo é papel do princípio ao fim… Ou seja, são princípios, objetivos, intenções, e depois burocracia, caracterização pseudossociológica dos meios, mas não tem influência nenhuma sobre a ação. Costumo dizer que não temos nada de novo, a não ser tentar fazer o que está dito nesses princípios. O que tem sido difícil para a instituição Escola é encontrar em cada uma das disciplinas, em cada um dos conteúdos, e até na forma de estar, a tradução prática desses mesmos princípios no dia-a-dia, gesto a gesto. Acho que, em geral, as pessoas acreditam neles, mas depois vão trabalhar a Matemática e nem a Matemática é posta daquela maneira, nem os professores se colocam daquela maneira. Mas isto em tudo, mesmo na centralidade que é dada à criança. 

Vivemos anos quase disparatadamente pedocêntricos; a criança tornou-se a ‘rainha’, mas nas partes mais inúteis, fúteis e perigosas. As crianças têm tudo, é-lhes dado tudo, é-lhes proporcionado tudo. Não digo que seja universal, mas com frequência tornam-se chantagistas, birrentas... E os pais acabam por ceder. Mas depois, no essencial, e isso é muito nítido na Escola, elas não ocupam o centro, porque não lhes é reconhecido o estatuto de pessoa, de cidadania, de quem tem opinião.

Nas escolas, o foco pedagógico não está ‘bem direcionado’?

Não. Diz-se que a criança tem de ter opinião, mas depois isso não se traduz, sobretudo nas matérias. A Escola continua a querer as coisas fechadas e padronizadas. Por exemplo, o Português é dado com respostas fechadas e aquilo que no fundo se ensina às crianças é a responder ao que o professor quer. A criança preocupa-se mais em saber o que o professor quer que ela responda do que aquilo que ela acha. Não se lhe dá o estatuto de maioridade no pensamento. É evidente que não é de maturidade, mas é de maioridade. As crianças são pertinentes naquilo que dizem, têm um pensamento válido, são capazes de discutir entre elas. Nós vamos aplicando aqui esse programa da filosofia para crianças. No fundo, a intenção de explorar questões a partir do grupo. E com a convicção de que as crianças são capazes de fazer perguntas pertinentes, de discutir, de argumentar. Mas isto é uma aprendizagem que se faz. E o programa de Matemática é isto, também.

Como é ensinada-aprendida a Matemática?

No fundo, trabalhamos os mesmos conteúdos previstos no programa oficial do 1o Ciclo do Ensino Básico, mas com uma metodologia totalmente diferente, mais assente em conceitos do que em técnicas. A Escola em geral preocupa-se em ensinar rapidamente truques e técnicas às crianças, como se o 1o Ciclo fosse o fim da escolaridade obrigatória. Este programa é mais centrado em conceitos e, sendo da área da Matemática, reclama-se um programa socrático. Temos uns manuais que seguimos, onde os professores têm o que devem fazer aula a aula. E a coisa mais espantosa, que até assusta um bocadinho, é que, parecendo que o professor vai ter de estar condicionado àquilo, ao fim de algum tempo, percebemos que esses manuais são em si um instrumento de formação dos próprios professores, porque não há fala do professor que não acabe com um ponto de interrogação. Portanto, o que nós aprendemos com este programa é que até na Matemática, que parece distante, tudo pode ser tirado das próprias crianças.

O programa não dá margem aos professores?

A princípio é um bocadinho condicionante, porque os professores têm ali toda a aula, as situações e até as respostas possíveis dos alunos. Mas, no fundo, para condicionar o professor a que continue a fazer perguntas. O que acontece é que, ao fim de uns meses, ele vai-se libertando daquilo, vai adaptando aquela estrutura ao grupo, vai mudando a situação e o contexto, vai suprimindo aulas ou juntando aulas... Os professores são todos diferentes, mas todos usam o mesmo programa.

E os resultados?

De facto, o que é espantoso é o resultado. Porque ao fim destes anos, todos os dias temos dúvidas: se é este o caminho, se estamos a fazer bem, se podíamos ir mais longe... Acho que ter dúvidas é o que nos torna vivos. E nessa vigilância quotidiana nunca estamos muito seguros de que chegamos ao modelo final, mas o que nos dá mais gosto – e talvez seja a nossa maior vitória – é termos demonstrado nestes já quase 20 anos que é possível manter todos os princípios e ter bons resultados. O que se tem dito muito nos últimos anos é que nas escolas onde os alunos estão contentes, alegres, felizes, não se aprende e os resultados baixam. Parece que para haver bons resultados é preciso ser tudo uma chatice. E eu acho que aqui na escola o mais gratificante para nós é o feedback dado pelos pais, de que os alunos vivem bem aqui dentro, têm um grande à-vontade e depois têm muito bons resultados.

Não estamos aqui a trabalhar para o exame. A nossa preocupação vai muito mais longe...

Portanto, a escola segue os currículos e o que muda é o método?

Não diria que seguimos, mas temos como referência final os conteúdos. Por exemplo, em Estudo do Meio praticamente não seguimos o programa; trabalhamos por projetos e, portanto, é o que aparecer. Partimos do princípio inverso. Os conteúdos de Estudo do Meio nos quatro primeiros anos são, e bem, as coisas mais próximas da vida das crianças: elas próprias, o meio onde vivem, a família, o bairro… Os programas tentam dar uma visão enciclopédica do mundo que cerca as crianças. Nós chegamos lá de outra maneira, fazemos um bocadinho ao contrário: em vez de darmos no primeiro ano um bocadinho do corpo humano, da família, do bairro e das instituições, e no segundo ano outro bocadinho do corpo humano, um bocadinho do espaço, do meio... Deixamos que as coisas fluam, que eles peguem nos temas que lhes interessem e vão trabalhando e estudando, confiando que na maior parte das vezes vão ao encontro do que é pretendido. E o que nós, professores, temos de fazer é a leitura oposta, ou seja, eles já trabalharam isto, isto e isto. É certo que há coisas importantes a que não se chega, acontece muito no 4o ano, mas então nós acrescentamos isso. É isto que eu distingo entre ter como referência ou seguir o programa. E na Matemática é um bocado a mesma coisa.

E vão cumprindo as metas...

Temos de cumprir, até porque os nossos alunos são sujeitos a exame. Mas fazemos o nosso programa normalmente. Temos é de fazer um levantamento daquilo que está nas metas e não está no nosso programa e de chegar ao 3o e 4o anos e, consideremos absurdos ou não, acrescentar os pontos em falta. Temos essa preocupação, mas não deixamos que a pressão exterior estrague as nossas perspetivas. Uma coisa muito frequente – e é um dos problemas dos exames – é as pessoas estarem sempre a desculpar-se por não fazerem isto ou aquilo porque têm exames, porque têm muito programa para dar... O que nós temos vindo a provar é que podemos fazer aquilo em que acreditamos e que consideramos mais importante: que eles tenham a cabeça bem estruturada, que saibam pensar nas coisas. O resto torna-se mais fácil.

Valorizam muito os verbos “aprender” e “divertir”.

Sim. Uma coisa e outra não são inconciliáveis, pelo contrário.

E acham que essa conjugação se tem perdido nas escolas?

Sim. Sobretudo agora, com a competição que existe na entrada para as faculdades, as pessoas acham que tudo é decisivo desde os primeiros anos. E a história dos rankings veio agravar isso. As pessoas preferem os bons resultados académicos, embora isso, às vezes, nem traduza exatamente o bem-estar e o contentamento das crianças. Tenho dito a vários pais que talvez esta não seja a escola que procuram. Nem toda a gente educa da mesma maneira: há pessoas que são, de facto, rígidas, centradas no estritamente académico, nos resultados, e há outras que pensam um bocadinho mais longe. 

O que acontece muitas vezes é que os resultados são conseguidos a partir de sistemas muito estreitos, muito forçados, em vez de se pensar em alunos mais autónomos, mais interessados, capazes de se governarem a si próprios. Essa é a nossa preocupação. Nós não estamos aqui a trabalhar para o exame; a nossa preocupação vai muito mais longe. Para nós, é mais importante que eles se submetam a exame sem demasiado nervosismo, com alguma segurança, que façam o seu melhor e que percebam que quatro anos da sua vida não se resumem a um exame. Para nós, é muito mais importante que estejam emocionalmente bem, que gostem de vir à escola, que gostem de aprender, que sejam interessados por questões culturais. Gratifica-me mais saber que os nossos alunos são fabulosos num museu, enquanto outros acham uma seca. Para mim, o interesse cultural, o saber discutir um tema, é muito mais importante do que uma boa nota nos exames.

Eles são desafiados e estimulados para isso?

Uma criança com a cabeça bem organizada faz a parte escolar, que é a mais simples. O resto é muito mais complicado: estudar, saber procurar, levantar questões, ir mais longe... A parte escolar é como os algoritmos na Matemática: se souberem os conceitos, os algoritmos são mais simples; se não perceberem o que estão a fazer, falham sistematicamente. E este é o erro do ensino mais tradicional, estar tão preocupado com um certo tipo de eficiência que queima etapas e portanto não lhes dá as armas para que percebam o que estão a fazer. Portanto, quando os pais põem aqui as crianças, têm de ter muito claro que o nosso trabalho não é para bons resultados traduzidos em questões académicas. Mas temos a segurança das notas dos nossos alunos serem muito boas no 5o ano, e tanto faz irem para o setor público ou continuarem no privado.

Há uma boa integração?

Há um choque na forma de estar, sobretudo. Uma mãe contou-me que há tempos foi chamada à escola e todas as queixas que lhe fizeram eram coisas que ela considerava boas: que o filho fazia muitas perguntas, que estava sempre a responder às questões, que tratava os professores com uma proximidade muito grande – tudo o que essa mãe sempre quis. Existe esse choque relativamente à forma de estar, mas as crianças têm uma grande capacidade de se adaptarem e de perceberem quais são as novas regras. E a verdade é que têm sucesso escolar, e isso dá-nos gozo. Embora não trabalhemos para a nota académica, é bom saber que aquilo que elas aprenderam aqui funciona como um bom suporte, mesmo no ensino mais tradicional. Acreditamos que, no fundo, estamos aqui para perceber o mundo e para colocar questões sobre o mundo. Nós estamos muito mais interessados nas perguntas dos miúdos do que nas respostas, e o ensino preocupa-se muito mais com o contrário: a resposta, o fechado, o tipificado, o estereotipado, o não questionar. É triste que a Escola se preocupe sempre mais com a avaliação do que com o ensino. Aliás, pouco se ensina para se avaliar imenso. A Escola devia estimular a linguagem, a expressão, o conhecimento, o contacto, a experiência.

A escola deve servir para as crianças perceberem o mundo e expressarem ideias e sentimentos sobre ele.

É necessário mais espaço para as expressões?

Os nossos dois pilares são as expressões e os projetos; são as nossas opções metodológicas instrumentais. A expressão é o que nos permite respeitar as crianças e dar um sentido correto ao trabalho que fazemos com elas; é pensar que toda a escola deve servir para as crianças entenderem o mundo e expressarem ideias e sentimentos sobre ele. E só podemos fazer isto se dermos uma importância grande à expressão. As pessoas reduzem as expressões a umas pinturinhas, a uns ‘macacos’ expostos na parede. Não é isso! É a centralidade da expressão efetiva das crianças! A primeira coisa que uma criança faz é exprimir-se por desenho, por gestos. E o que temos é de dar abertura e espaço para ela se exprimir, porque aos três, quatro anos é isso que ela tem de fazer: exprimir as suas preocupações, os seus medos, as suas ideias… Por outro lado, trabalhar as expressões é trabalhar diferentes linguagens. Aqui, as expressões são centrais e atravessam todas as áreas. São o reflexo do nosso olhar sobre o papel da escola, que é tornar a criança capaz de entender o mundo através de múltiplas linguagens, para depois saber exprimir o seu pensamento, as suas ideias e os seus sentimentos sobre o próprio mundo. Por isso, uma das nossas linhas é a Educação pela Arte. Esta é uma escola geral, mas a Arte é um instrumento fundamental, que valorizamos muito.

E relativamente aos projetos?

Os projetos são um instrumento que nos permite dar às crianças a noção do que é a escola, onde elas podem estudar o que quiserem saber. Esta é a diferença em relação ao Estudo do Meio – não é dar-lhes 20 aulas sobre o corpo humano, mais cinco sobre o espaço ou mais sete sobre História. Há coisas que nós sabemos, que são o nosso património cultural e histórico, que é importante passar, mas isso que venha delas, que venha a propósito das suas inquietações. Há algum tempo, entrei na sala dos quatro anos e vi que estavam a estudar Matisse. Estranhei, mas a educadora explicou-me que um dia estavam a fazer colagens e, ao ver um dos trabalhos, comentou que parecia um quadro de Matisse. Um dos miúdos perguntou quem era e ela explicou que era um pintor que trabalhou muito com recorte e colagem. E uma das crianças disse que esse podia ser um assunto a estudar. Isto é um pequeno exemplo. Aos 4 anos eles já tinham percebido para que deve ser a escola, que é para estudar aquilo que nos despertar a curiosidade.

Falemos da proximidade entre alunos e professores. Eles almoçam juntos nas salas de aula...

Sim. Nós temos, oficialmente, um espaço de cantina, mas este acaba por ser mais um momento de convívio muito importante. Cria responsabilidade e envolvimento. E para nós faz parte da educação. Em cada sala, temos equipas responsáveis por limpar a sala depois de trabalharem, ir buscar a louça e pôr a mesa e limpar no fim. Isto trabalha muito a questão dos papéis. Todos estamos ali, todos temos obrigação de fazer; se sujamos, temos de limpar. É a tal educação para a cidadania, uma expressão que, sinceramente, até me incomoda, porque não se traduz em nada. Há escolas que têm aulas de Educação para a Cidadania, mas depois estão organizadas de forma anti-cidadã. É mais um conteúdo que os alunos têm de decorar para ‘papaguearem e vomitarem’ nos testes. A cidadania não se aprende por discursos, por se dizer ou por estudar. A cidadania vive-se e só se aprende se se viver.

A Tangerina é o projeto da sua vida?

É um projeto central na minha vida. E continua a dar-me gozo vir para aqui todos os dias, reencontrar as crianças, e pensar no que fazemos. Tenho sempre uma grande inquietação, nunca estou satisfeito. Mas tenho um grande gozo nisto!

Maria João Leite (entrevista)
Ana Alvim (fotografia)

NOTA
Com a devida vénia, transcrito da Página da Educação.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Nem chumbar, nem passar. Nesta escola, a única alternativa é aprender


Quando for grande, a Laura bem pode ser a diretora desta escola. Tem 7 anos, está no 2.º ano e é mais desembaraçada do que muitos miúdos de 12. Com um brilho nos olhos, pergunta-nos se queremos fazer uma visita guiada pela Escola Básica de Fonte Santa, no agrupamento da Marinha Grande Poente. A resposta é afirmativa e Laura, vestindo a pele de anfitriã, mostra-nos tudo: o refeitório, a sala do pré-escolar, o sítio onde trocam os sapatos da rua pelas socas, os recantos do recreio, a horta do 1.º ciclo, a árvore onde costuma apanhar amoras — “Ou eram framboesas?” — e a sala da CAF. Não hesita quando lhe perguntamos o que quer dizer a sigla. “É a Componente de Apoio à Família, onde ficam as crianças até os pais as puderem vir buscar.”

O que vimos antes desta visita guiada, na escola que fica à beira de um pinhal, tem todos os ingredientes para ser uma receita de insucesso escolar. Antes do recreio, Laura partilhou uma sala de aula com mais 34 alunos, numa turma com crianças do 1.º ao 4.º ano. Na teoria, o cenário soa a péssimo. Na prática, não podia funcionar melhor. As estatísticas confirmam: por aqui, os chumbos são residuais e, garantem-nos os três professores permanentes daquela sala, isso só é possível porque as crianças, de facto, aprendem.
A Fonte Santa é uma das 10 escolas da Marinha Grande Poente, um dos sete agrupamentos do Projeto Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP), que, atualmente, tem 2800 alunos distribuídos entre a educação pré-escolar e o 12.º ano. Com esta experiência, um dos objetivos do Ministério da Educação é perceber se é possível chegar à taxa de retenção zero, como explicou o secretário de Estado da Educação ao Observador, João Costa, em dezembro passado. A alternativa a chumbar tem de ser sempre aprender e nunca uma subida artificial das notas. Mas para isso é preciso inovar e apostar na criatividade porque participar no projeto deu 100% de autonomia à escola, mas nem um recurso a mais.

“Aqui nunca pusemos a questão da retenção em cima da mesa, nunca me pareceu que fosse isso o fulcral. A nossa grande preocupação era a qualidade das aprendizagens dos alunos. A alternativa a chumbar tinha de ser aprender”, explica o diretor do agrupamento, Cesário Silva.

Os resultados estão à vista: “No último ano, no 1.º ciclo, houve sete retenções entre os cerca de 530 alunos. Em alguns casos, tivemos de perceber se a retenção significava um momento de aprendizagem, por exemplo, para alunos estrangeiros e para miúdos condicionais que entraram para a escola com 5 anos… No 2.º ciclo, tivemos apenas uma retenção em 350 alunos. No 3.º ciclo, ficámos nos 2%. E, praticamente, não temos abandono. Mas se me perguntar se fazemos o pino para os miúdos aprenderem, garanto-lhe que fazemos”, argumenta Cesário Silva.
Apresentada como “o problema mais grave do sistema de ensino em Portugal”, em 2015, a retenção dos alunos tem estado sempre no topo dos discursos de vários ministros da Educação. Naquele mesmo ano, o país estava no top 3 dos que mais chumbam na OCDE — sobretudo entre os alunos com mais dificuldades económicas e sociais. Todos concordam que é um erro simplesmente deixar passar os alunos, de forma administrativa. Mas é difícil encontrar a forma certa de conseguir que nenhum aluno tenha de reprovar, simplesmente porque aprendeu.

“Não é combater o insucesso, é promover o sucesso”

Quando começaram a olhar para o problema dos chumbos no agrupamento, onde, conta Cesário Silva, tanto andam os filhos dos operários das fábricas como os dos grandes industriais do concelho, perceberam que as soluções que ofereciam não passavam de remendos. “Antes de as dez escolas fazerem parte do mesmo agrupamento [em 2013], tínhamos um problema na escola secundária: os alunos chegavam ao 7.º ano com muitas lacunas que podiam ter sido resolvidas antes, de forma precoce. Mas não foram. A nossa atuação acabava por ser sempre remediadora.”
Já há muito tempo que o insucesso escolar preocupava Cesário Silva. Enquanto diretor da escola Secundária Engenheiro Acácio Calazans Duarte, uma escola independente por ser TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária), diminuir os chumbos era uma batalha antiga, que estava a ser ganha. Quando as dez escolas se uniram, e o carimbo TEIP se estendeu a todas, a possibilidade de melhorar aprendizagens interessava a todos, da pré ao secundário.
“Identificamos crianças que, logo no 1.º ano e algumas no pré-escolar, têm problemas. As educadoras queixam-se de que as crianças têm um vocabulário muito limitado e que têm de ser muito estimuladas. A nossa aposta começou aí: na comunicação. A intervenção começa no jardim de infância. Hoje estamos cada vez mais a deixar as medidas de remediação. Já tivemos cursos de formação e educação, já tivemos cursos vocacionais [permitem concluir a escolaridade obrigatória com percursos mais flexíveis] e deixámos de os ter porque não precisamos deles. Já não temos público”, sustenta o diretor.
Mesmo antes de integrarem o PPIP, a convite da Direção Geral de Educação, a retenção era cada vez mais residual, conta Cesário Silva. “Esse trabalho começou em 2013, com a entrada no novo agrupamento. O que fazemos não é combater o insucesso, é promover o sucesso. Combater o insucesso é a atitude remediadora. Não podemos perder sucessivas gerações de jovens porque todos falhámos, porque não estivemos atentos, porque não tínhamos recursos, porque a tutela nunca pensou que prevenir era mais barato e eficaz do que remediar. Sermos TEIP trouxe-nos este foco: detetar problemas, investir e ser criativos para os ultrapassar.”
A criatividade manifestou-se de várias formas. No ensino pré-primário e no 1.º ciclo, a grande aposta é na comunicação, garantindo que as crianças ganham gosto pela leitura e pela escrita, que adquirem vocabulário e são fortes na oralidade. As escolas tornaram-se espaços abertos de aprendizagem, onde os alunos também se ensinam uns aos outros.
“No nosso modelo de organização, o ensino pré-escolar funciona de uma forma deliciosa, são os espaços de maior aprendizagem. É ali que percebo que as nossas crianças são capazes de trabalhar de forma colaborativa, são capazes de negociar, de discutir, de correr riscos — nós, adultos, temos de perceber até onde podem ir e estar na retaguarda para os amparar. Temos salas heterogéneas e isso talvez seja um dos segredos: quando valorizamos a diferença, quando mostramos que aprendemos uns com os outros, as coisas funcionam”, explica o diretor.

Na Fonte Santa, a sala de Laura — e dos outros 34 colegas — tem três professores em permanência. Fernando Emídio, Geraldina Silva e Paula Botas têm turmas atribuídas no papel, mas, no dia a dia, as fronteiras diluem-se. “Aqui não há a minha sala, estamos todos juntos e vamos partilhando”, diz a professora Geraldina, que tanto pode estar a dar um conteúdo de 1.º como de 4.º ano. Da mesma forma, se um aluno do 2.º ano souber tudo o que há a saber sobre uma matéria, não há motivo para não poder avançar e até partilhar o que aprendeu com os mais velhos.

“Administrativamente, temos as turmas atribuídas, temos de ter, mas, na prática, elas não existem. Quando fazemos o grosso da planificação, não sabemos qual de nós vai trabalhar que matéria. Não temos essas tarefas definidas. Tem é de haver uma grande cumplicidade para as coisas funcionarem. Mas não estamos sempre de acordo: é a partir dessa discórdia que conseguimos criar mais alguma coisa, porque vamos descobrindo uns com os outros”, acrescenta Paula.
A turma de 35 alunos tanto pode estar toda junta, como tem momentos em que é dividida em grupos mais pequenos e que não têm necessariamente de estar relacionados com o ano que cada estudante se encontra a frequentar. É assim que o trabalho colaborativo passa também para os alunos. “Um dia por semana há o conselho de cooperação de turma, onde fazemos a reflexão semanal entre alunos e professores. Fica tudo registado em ata e eles já sabem como presidir uma reunião: há sempre um presidente e um secretário. É um momento muito importante da nossa semana”, conta Paula.
Outro momento alto é quando os mais velhos vão ensinar os mais novos, conta a educadora Aida Mira, responsável pela sala da pré. “O que mudou mais foi esta articulação entre os diferentes ciclos. Hoje vejo que os miúdos estão mais autónomos e com mais vontade de comunicar. Como os grupos não são homogéneos, aproveitamos os saberes dos mais velhos. Eles sentem-se importantes por estarem a explicar aos pequenos e ficam mais responsáveis.”
Cada ciclo de ensino tem as suas necessidades e não há receitas repetidas. Para o 5.º e o 6.º ano, porque se concluiu que a passagem de um professor para vários era um dos obstáculos às aprendizagens, reduziu-se o número de docentes. Em vez de se ter um professor por disciplina, diminuiu-se o conselho de turma: o professor de matemática passou a dar também ciências, o de português acumula com inglês ou história e geografia, e a educação visual e a tecnológica foram fundidas numa só disciplina.
“Foi fundamental para os professores poderem trabalhar melhor em equipa. Como tínhamos turmas com muitos alunos, decidimos criar as oficinas projetos — acabam por ser semelhantes aos DAC (Domínios de Autonomia Curricular) que a Flexibilidade Curricular trouxe mais tarde para as escolas”, detalha Cesário Silva.
Nesses momentos, as turmas são desdobradas e trabalha-se em grupos mais pequenos, normalmente com dois professores na sala. “A grande mais-valia de trabalhar por projeto é o trabalho colaborativo. É estar sempre a fazer ajustamentos. Os alunos planificam o trabalho, escolhem coisas difíceis e têm de ir arrepiando caminho, vão reajustando o trabalho até chegar a qualquer coisa palpável que vão produzir”, defende Maria Fernanda Cruz, coordenadora do projeto PPIP do 5.º e 6.º ano e que, na Marinha Grande Poente, envolve 16 turmas.
“Quando se apresenta um projeto, pratica-se a oralidade, o à-vontade e nota-se a diferença nos alunos. Estão mais libertos e mais seguros do que estão a fazer. Quando cá chegarem os que começaram com o PPIP logo no 1.º ano, acredito que se vai notar uma grande diferença”, acrescenta a professora de História e Geografia de Portugal.
“Se houvesse uma palavra para distinguir estes alunos dos outros, se fosse um sentimento, eu diria alegria. Até a relação com o professor é diferente e eu tenho 38 anos de serviço. Não são salas de aula silenciosas: se não estou a fazer uma ficha, se estou a fazer uma colagem, uma pintura, a preparar um cenário, é diferente. Até as crianças com necessidades educativas especiais permanentes brilham em coisas que não estávamos à espera. Saem delas talentos que não conhecíamos”, remata Maria Fernanda Cruz.
Nem tudo são mares de rosas, acrescenta. Entre o corpo docente, nem todos acreditam que este é o melhor caminho, nem todos têm a mesma filosofia ou visão de escola. Por outro lado, o PPIP não trouxe mais recursos, nem humanos nem materiais, e alguns espaços não acompanham o andamento do projeto. “É a queixa que mais ouço. Precisamos de mais pessoas, mais recursos, mais tecnologia. Apesar disso, isto não volta atrás. O caminho vai ser por aqui e, entre os sete agrupamentos, há até quem esteja a fazer percursos mais ambiciosos”, conta a professora.
O projeto piloto começou em 2016/2017, um ano zero que serviu para reflexão da equipa. No ano letivo passado, começou a funcionar nas turmas do 1.º ciclo e nas do 5.º ano. Este ano, estendeu-se ao 6.º e, pouco a pouco, ao 7.º ano. Falta chegar ao ensino secundário. Mas antes disso, Cesário Silva defende que há um longo caminho a fazer: o currículo está muito pulverizado e o foco continua a ser nos exames nacionais. (...)"

Fonte: Observador
Os interessados em ler todo o trabalho podem segui-lo AQUI.

NOTA

Se isto acontecesse na Região Autónoma da Madeira, provavelmente, já tinham retirado a autonomia à escola e o director tinha já um processo disciplinar que viria a resultar em, no mínimo, seis meses sem salário, tal como aconteceu com o Professor Joaquim José Sousa, da escola do Curral das Freiras. O secretário e o "inspector-mor" que leiam esta passagem: “Administrativamente, temos as turmas atribuídas, temos de ter, mas, na prática, elas não existem!"

quarta-feira, 20 de março de 2019

Secretaria da Educação na Região das Maravilhas...


FACTO

A Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de S. Roque “recebeu hoje a cerimónia de entrega de Kits de Robótica e Programação a todas as escolas de 2.º e 3.º ciclos da Região Autónoma da Madeira. Uma oportunidade que serviu para Jorge Carvalho, secretário regional da Educação, dizer que o uso de tablets na sala de aula poderá ser uma realidade no próximo ano lectivo, a partir do 5.º ano de escolaridade. O governante revelou que esta medida está a ser estudada em conjunto com as escolas para saber se estas estão preparadas. Jorge Carvalho referiu ainda que esta nova metodologia de trabalho seria também uma forma de aliviar o peso das mochilas”. Fonte: DN-Madeira.

COMENTÁRIO

É a velha história de Alice, neste caso, de um secretário na Região das Maravilhas: “(…) Alice se não sabes para onde vais, qualquer caminho serve”. É isso. A complexidade do sistema educativo é tal que deveria obrigar à necessidade de, respeitando o planeamento e a cadência no tempo, primeiro, saber onde se está, o que implica uma extensa caracterização; segundo, saber onde se quer chegar, para, finalmente, definir os passos a dar para lá chegar. É uma regra básica para administradores e gestores, públicos ou privados.
Ora, a mudança de um sistema não se faz por impulsos, hoje isto, amanhã aquilo, conforme o que ditam a comunicação social, as redes sociais e outros meios, como se o sistema pegasse de empurrão, antes concretiza-se de uma forma pensada, articulada e integrada. Portanto, fica um rasto de dúvida quando é dito que o “uso de tablets na sala de aula PODERÁ ser uma realidade (…) a partir do 5º ano” (porquê o 5º e não desde o 1º ano?), ao mesmo tempo que é dado um salto nas preocupações, através da entrega de “Kits de Robótica e Programação a todas as escolas de 2.º e 3.º ciclos”. Não existe a base, mas o estádio posterior é colocado na linha de partida. Dois exemplos: foi a “sala de aula do futuro” (uma, apenas), agora os “Kits de Robótica e Programação” (naturalmente, para poucos). Ininteligível. Isto demonstra que a secretaria da Educação alimenta-se do mediatismo, pouco se ralando com aquelas três perguntas essenciais: onde estou, onde quero chegar e que passos tenho de dar para lá chegar. 
Finalmente, o drama da aprendizagem é essencialmente de natureza organizacional, curricular, programática e PEDAGÓGICA, que envolve múltiplas disciplinas e variáveis, porém, fica o testemunho que nada disso constitui motivo de preocupação embora seja aí que resida o âmago de uma desejada mudança. Essa transformação exige uma verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, CONFIANÇA nos professores, dizer NÃO à centralização do sistema, um orçamento compatível, desburocratização, uma nova concepção da rede escolar, uma nova configuração arquitectónica das escolas e sobretudo que não se brinque, politicamente, com coisas muito sérias. O problema NÃO está só no "alívio do peso das mochilas”. É muito mais complexo desde que não se queira utilizar os "tablets" para repetir o manual ou para substituir os velhos diapositivos e acetatos.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

INOVAÇÃO E LIDERANÇA. BEM PREGA FREI TOMÁS...



FACTO

O secretário da Educação da Madeira esteve presente na abertura de um encontro sobre "Inovação e Liderança Educacional". O secretário definiu a “inovação como a capacidade de correr riscos” e a liderança como a soma de “todos os processos que necessitam de visão” (...) e pediu aos professores: "tenham a capacidade de liderar essa mesma inovação”. Fonte: DN.

COMENTÁRIO
E PERGUNTAS

Frontalmente, não gosto de governantes faz-de-conta. Em todo o lado, sublinho. Não aprecio as frases feitas, muito menos quem apregoa uma coisa e pratica o contrário. De forma muito directa: nestes três anos de mandato, onde estão os factos que provam a inovação política no quadro do sistema educativo? 
E antes de mais, inovação prende-se com o processo criativo, transformador e de ruptura com o passado; a capacidade de correr riscos, neste contexto, tem um significado diferente. O que tem sido evidente é uma política de não querer enfrentá-los (os riscos) antes eliminá-los ou contorná-los.
Por outro lado, salientou, que é necessário ter "visão". Tê-la, significa possuir a capacidade para prognosticar o futuro, ser prospectivo e planear em função dos objectivos pretendidos. "Visão" não tem nada a ver com optometria! E aqui, pergunto: que objectivos inovadores quando não existe liderança capaz de os enfrentar? Só mais uma pergunta: como é possível pedir aos estabelecimentos de aprendizagem para que sejam inovadores, quando as "lideranças" estão, maioritariamente, sob controlo de uma enorme burocracia que impede que o "cordão umbilical" possa ser cortado, concedendo espaço à gestão e administração com liberdade e responsabilidade?
Ocorre-me "frei Tomás...". Tenho presente aquele estabelecimento de aprendizagem do Curral das Freiras que tentou a inovação com visão de futuro, porém, o que aconteceu foi a liquidação do processo de liderança. Morreu!
Por aqui fico, embora muito tivesse por escrever.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 2 de setembro de 2018

"SIM, NÓS PODEMOS SONHAR COM UM AMANHÃ MELHOR"


Dia 01 de Setembro, dia que os professores se apresentam para mais um ano escolar. Na perseguida Escola do Curral das Freiras (Câmara de Lobos), depois do sucesso alcançado, lamentável e inexplicavelmente, a secretaria da Educação acabou com a sua autonomia administrativa e gestionária, fundindo-a com uma escola do concelho do Funchal. Uma atitude que classifico de política de natureza rasteira, que ofendeu toda a comunidade educativa. Mas, enfim, os actos ficam com quem os pratica. Ontem, confesso, fiquei maravilhado com a carta aberta do Dr. Joaquim José Sousa, a figura que presidiu ao Conselho Executivo daquela escola. Transcrevo-a pela sua importância, pela humildade que transmite, envolvendo toda a comunidade educativa e porque, apesar do sucesso conseguido face à perseguição engendrada, continua a lutar por uma verdadeira ESCOLA DE APRENDIZAGEM.

"Hoje é o primeiro dia dum novo recomeço.
Caros colegas, a Margarida e eu ficamos emocionados com todas as mensagens que recebemos nas últimas semanas. Mas hoje é minha vez de dizer obrigado. O ter falado com todos, não nas tascas nem em quaisquer patuscada, mas sim no posto de trabalho - foi o que me manteve fiel ao serviço público de educação com ética e elevação o respeito pelos direitos de todos e de cada um. Todos os dias, eu aprendi com vocês. Vocês, colegas (docentes e não docentes), pais e alunos fizeram de mim um melhor gestor, tornaram-me um homem melhor.
Eu vim para o Curral das Freiras há nove anos, cheguei com um sonho, acabar com uma taxa de abandono escolar altíssima, com uma taxa de conclusão miserável e para isso transportava um sonho utópico – no sítio mais difícil edificar a melhor escola pública de Portugal, uma escola que respondesse aos anseios de todos; e foi nestes corredores, entre estas montanhas que testemunhei o poder da escola e a dignidade tranquila dos pais diante das lutas e das perdas. Aqui eu aprendi que a mudança acontece quando as pessoas comuns se envolvem, quando acreditam, e vêm exigi-la.
Depois de nove anos como presidente do Conselho Executivo, eu ainda acredito nisso. E esta não é apenas a minha utopia. É o coração palpitante da nossa ideia de escola – da nossa experiência audaciosa de criar oportunidades para valorizar a importância de cada um para o sucesso de todos. É a convicção de que todos temos direito a um amanhã melhor, é o acreditar convictamente que a procura da felicidade é algo para todos e para a vida toda.
É verdade, o nosso desenvolvimento não foi tão harmonioso como queríamos. Em educação o trabalho sempre foi duro. Por cada passo em frente, muitas vezes parece que damos dois para trás. Sempre entendemos a educação como um movimento de futuro, um processo constante e sistemático para chegar a todos, e não apenas a alguns.
Eu disse-vos há nove anos que a escola do Curral das Freiras seria a melhor escola de Portugal, que formaríamos alunos de excelência – e eu sei que para a maior parte a nossa visão estava elevada demais.
Mas foi o que fizemos. Foi o que cada um de vós fez. Cada um de vós foi a mudança. Nós respondemos à esperança das pessoas, e porque cada um fez e fez bem o seu trabalho, as crianças que vos tiveram como professores estão mais capacitadas e terão maior confiança no futuro.
Afinal, é para isso que servimos - para melhorar a vida das pessoas, não para a piorar.
Ao longo destes nove anos, eu vi os olhares de desânimo passarem a olhares de esperança. Eu chorei com famílias aflitas, cujos maridos tiveram que emigrar, cujos conflitos ameaçavam a harmonia no lar ou cujos conflitos obrigaram à fuga pela sobrevivência. 
E foi essa esperança que com a vossa ajuda transmitimos aos nossos alunos e é gratificante sentir que o nosso trabalho foi recompensado de maneiras que eu não poderia ter imaginado.
A minha notável equipa: Nestes nove anos encontrei algumas pessoas fantásticas, bebi a vossa energia, alimentei-me do vosso saber e tentei refletir o que vocês exibem todos os dias: coração, caráter e idealismo. Eu vi-vos crescer, ter filhos, e começar novos projetos. Mesmo quando os tempos ficaram difíceis e frustrantes, vocês sempre deram aos alunos o vosso melhor. O que me deixa mais orgulhoso do que todo o bem que fizemos é o pensamento de que vamos poder replicar todas as coisas notáveis que vocês fizeram aqui.
Às famílias amáveis que nos acolheram, que nos confiaram os vossos filhos, cada um de vós com que tive o privilégio de trabalhar – vocês fazem parte dos melhores pais do mundo, e eu vou ser eternamente grato. Porque, sim, vocês mudaram o paradigma da escola.
Meninas e meninas - acreditem que podem fazer a diferença; Acreditem que podem fazer parte de algo maior do que vocês. A vossa geração, é maioritariamente - altruísta, criativa, empreendedora - eu vi isso em cada um de vós. Vocês acreditam numa sociedade mais justa e inclusiva; Vocês sabem que a mudança constante foi a marca da nossa escola, e isso nunca foi algo que tenhamos temido, mas que sempre abraçamos. Eu acredito porque vos conheço que o futuro está em boas mãos.
Caros colegas, pais e principalmente meus meninos, foi uma honra servir-vos. Eu não vou parar; Na verdade, eu estarei aqui com todos, como um cidadão. Deixo-vos com um último pedido - o mesmo pedido que eu fiz há nove anos.
Peço-vos que acreditem. Acreditem em vocês mesmos, não fui eu que mudei nada – foram vocês: colegas – pais – alunos.
Sim, é verdade nós fizemos a diferença.
Sim, nós podemos sonhar com um amanhã melhor.
Obrigado."

sábado, 30 de junho de 2018

ESCOLA DO CURRAL vs ESCOLA DE S. ANTÓNIO - PROFESSORES, LEMBREM-SE QUE ESTÃO EM CAUSA QUESTÕES ÉTICAS E DEONTOLÓGICAS


Nos últimos dias tenho andado a pensar sobre a posição dos professores da Escola de S. António, no Funchal, de aceitarem ou não, a anexação da Escola do Curral das Freiras. Já não falo das outras fusões, uma vez que não conheço os contextos. Sei que os sindicatos consideram que se trata de um processo muito mal gerido e ditatorial,  ignorando que há comunidades para além dos "cérebros" da secretaria. Estranho a generalidade das fusões, mas não comento. A do Curral das Freiras, uma escola com resultados e reconhecimento nacional, face ao número de alunos (253), à perseguição a uma direcção legitima e recentemente eleita, aí apetece-me tecer mais algumas considerações. O assunto está escalpelizado de onde resulta uma atitude de VINGANÇA, apenas porque aquele estabelecimento de aprendizagem tenta não seguir os cânones normais, sobretudo organizacionais e pedagógicos, impostos pela hierarquia. Por outro lado, parecem-me notórios três aspectos: primeiro, por parte do secretário, a ausência de um estado emocional que permita saber gerir os processos com tranquilidade, bom senso e equilíbrio. Pressinto a existência do medo de perder a mão sobre tudo quanto depende da sua esfera de influência e a confiança de quem fez o "casting"; segundo, naquela secretaria, todos se agacharem e ninguém lhe fazer a frente necessária, alertando-o e dizendo-lhe NÃO aos erros. Há um terceiro aspecto, o chefe do governo, ao deixar o marfim correr, ou anda distraído ou ainda não percebeu que o desprestígio político está frente aos seus olhos. 


Não domino as razões mais substantivas! Tenho alguns sinais que, talvez, me permitam dizer que percebo o alheamento. Desde logo tem tido um mandato muito atribulado e inconsequente. Substituiu dois secretários da Saúde; arriscou e perdeu na Inclusão e Assuntos Sociais; mandou embora o secretário dos Equipamentos e Infraestruturas; o secretário regional da Economia, Turismo e Cultura foi substituído por uma figura que ele próprio tinha dito, de forma pouco elegante, que andava a "dormir na forma", quando era presidente do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato; vários foram os directores regionais substituídos, enfim, de instabilidade governativa estamos conversados. Substituir mais um secretário seria complicado, embora todos os outros tenham menos "pecados políticos" que o da Educação. Por isso, para ele, presidente do governo, seja melhor manter a Educação ao ritmo de uma "morna".

A questão que agora se coloca, já não é tanto no plano político, mas no profissional. Interessante será perceber se os professores da escola de S. António aceitarão de bom grado a anexação da escola do Curral das Freiras. Se vão ou não na história de uma fusão que traz, inequivocamente, traços muito claros de vingança. Eu diria que até estão em causa questões éticas e deontológicas. 

Falo por mim. Se fosse membro na direcção da escola de S. António nunca aceitaria, demitia-me se insistissem, por respeito aos colegas do Curral. Não me demitia por questões de aumento do trabalho, mas, fundamentalmente, analisado o contexto, por dever e obrigação, circunscrever-me-ia à função da docência. Porque o dinheiro, as gratificações pelos lugares que se ocupa, não podem, não devem, subverter os princípios e os valores da conduta. Immanuel Kant dividiu o significado da palavra deontologia em dois conceitos: razão prática e liberdade. Ora, exactamente por razões de ordem prática, no sentido genérico, e por liberdade de pensamento, também em sentido genérico, diria um rotundo não, inequívoco e irreversível. Portanto, aguardo, sentado na bancada outonal da vida, depois de muitas experiências vividas, pelo comportamento dos Colegas. 
Há momentos na vida extremamente singulares. Um deles é a capacidade, perante determinadas situações, de saber dizer NÃO. O não, tantas vezes, em função de determinados contextos, pode exprimir  assertividade e controlo sobre a nossa própria vida, ao contrário do sim que pode significar medo de decepcionar, medo do conflito, medo de perder oportunidades futuras(?), conivência com o notoriamente errado, violentando a consciência para gerar a simpatia de outros à sua própria custa. É isto que está em causa. Não mais do que isto. Daí a expectativa na verificação da autoestima dos professores da escola de S. António perante um quadro de todo muito nebuloso, que implica uma resposta serena, honesta e respeitosa para ambos os lados. Inocentemente, aguardo!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

NO MÍNIMO DEVERIA SER INVESTIGADO. JÁ AGORA, A INSPECÇÃO DE EDUCAÇÃO QUE ACTUE...


Sei que se trata de uma situação "normal" enraizada entre alguns profissionais da política. Normal, não! Absolutamente, anormal. Agora, consta que terão existido influências externas no processo de eleição do órgão directivo da escola do Curral das Freiras. Não constitui novidade. Há, sempre existiu, uma rede de influências a tentar jogar tudo no sentido do ganho de posições. Quando o tiro sai pela culatra arranjam uma solução: ou acabam, no caso do Curral (exemplo mais recente) com a direcção da escola, ou cortam, nos subsídios, no caso do associativismo. Os exemplos são muitos, desde escolas às casas do povo, até aos clubes e associações de todo o género, passando pelas autarquias de cor política diferente. Porém, a situação é hoje diferente, é menos rebuscada, menos ofensiva, é mais subtil, não precisa da existência de uma declaração, como em 1933, no Estado Novo, no tempo de Oliveira Salazar (Dec-Lei 27.003): "(...) Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida (...) com activo repúdio (...) de todas as ideias subversivas". Tal diploma visava, inclusive, no plano do ensino, "os candidatos  ao estágio pedagógico de qualquer espécie ou grau de ensino (...)".  Na cabecinha de alguns continua a imperar a ideia que a escola pode ser "subversiva" e, portanto, tratam de cortar, pela raiz, aquilo que consideram ser um mal. E fizeram-no, descaradamente! 



Conheço o sistema por dentro e muitas histórias que sempre geraram em mim um sentimento de pena relativamente aos decisores. São demonstrativas de um conceito muito estrábico da vida e da vivência democráticas. Até para um Conselho Executivo de uma escola, pasme-se, na tentativa de tudo controlar, para que a política partidária de subserviência, estrangule todas as outras possibilidades no quadro dos direitos de cidadania. É, por isso, que há escolas há dez, quinze, vinte e mais anos sempre com os mesmos professores na liderança. É uma constatação. É assim, há gente sem emenda e sobretudo, sem a clarividência que há um tempo para tudo. Um tempo para estar e um tempo para dar lugar aos outros. Vivem obcecados pelo poder, não pelo serviço público à comunidade. Não é apenas, de todo, por causa de uma retribuição mensal! Existem outros interesses para além do que se apresenta na montra.
Lembro-me, quando pela Assembleia Legislativa passei, das "visitas de estudo" de crianças ao edifício do primeiro órgão de governo próprio, onde distribuíam às crianças um livrinho sobre o partido do poder, no qual constavam todas as fotos dos deputados da maioria. Seria natural e pedagógico que a Assembleia distribuísse um documento sobre o principal órgão da Autonomia, mas não, distribuíam as carinhas dos deputados impressos em papel laranja. Não esqueço, também, o que escutei de um deputado que manifestou o desejo de criar uma célula do seu partido em cada turma escolar. 
Mas regressando à questão que aqui me traz, muito embora não sendo da sua exclusiva competência, questiono, que tal essa INÚTIL Inspecção Regional da Educação, ao invés de se preocupar com tonteiras, averiguasse a pouca-vergonha de intromissão externa nos actos electivos que deveriam ser completamente livres? Consta na página dessa Direcção Regional, liderado por um profissional do Direito (ao que isto chegou!), que um dos seus objectivos é o de "(...) Conceber, planear e executar ações inspetivas, em qualquer âmbito do funcionamento do sistema educativo regional" (...) no quadro dos "riscos de corrupção". Talvez não fosse mau e constituiria um bom exemplo (pedagógico) de como vivenciar o sistema educativo pelo prisma da verdadeira DEMOCRACIA. Quando os políticos não demonstram respeito pelos outros, nem por si próprios acabam por ter.
Ora, no caso da Escola do Curral das Freiras, concelho de Câmara de Lobos, organizada e distinguida no plano Nacional pelos seus resultados, ficar sob a orientação de uma escola do Funchal (S. António), dias depois de um acto eleitoral interno, só pode ser por VINGANÇA. Não é pela historieta de ter poucos alunos (253) ou por causa da natalidade. É por VINGANÇA, com todas as letras.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

ESCÂNDALO NA EDUCAÇÃO - AO PRESIDENTE DO GOVERNO RESTA-LHE UMA SOLUÇÃO: DEMITIR O SECRETÁRIO


FACTO

Depois de muita perseguição à Escola do Curral das Freiras, ao Professor Joaquim José Sousa e à sua equipa, tendo a secretaria da Educação, depois de muitas pressões externas, ter "perdido" as eleições para a direcção da Escola, chegou-me ao conhecimento que resolveu acabar com a mesma. A Escola perdeu a sua autonomia e passa a ser gerida, segundo julgo saber, pela direcção da escola de S. António - Funchal.

COMENTÁRIO


Se se confirmar, só há uma palavra para caracterizar esta situação: ESCÂNDALO. A comunidade educativa votou de acordo com a lei, deu uma expressiva vitória ao Professor Joaquim Sousa, e a secretaria, como não gostou, colocou um ponto final na gestão e administração da escola do Curral. Ditadura em estado puro!
Resta saber se os professores da Escola de S. António aceitarão esta pouca-vergonha. O Dr. Jorge Carvalho e a sua equipa, decididamente, não têm condições políticas para estar à frente do Sistema Educativo, daí que só reste uma saída possível ao presidente do governo: reverter a situação e demitir o secretário.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

ESCOLA DO CURRAL DAS FREIRAS, A PERSEGUIÇÃO E A VITÓRIA DO PROFESSOR JOAQUIM JOSÉ SOUSA


FACTO 

O Dr. Joaquim José Sousa, da Escola 123/pe do Curral das Freiras, venceu as eleições onde já era líder de uma equipa. Ganhou através da vontade expressa de 78,3% dos eleitores.

COMENTÁRIO 


Nada mau para uma figura que anda a ser claramente perseguida pelo Secretário Regional da Educação e por essa maquiavélica e INÚTIL Inspecção Regional de Educação. Afinal, a comunidade educativa entende que o Professor Joaquim Sousa, para já, é a pessoa certa no lugar certo. Portanto, senhoras e senhores da "cúpula" do Sistema Educativo, deixem-se de tonteiras burocráticas, de tentar farejar alegados erros e ajudem a construir o novo. Porque o futuro não se constrói com receitas do passado e com absurdas e anquilosadas mentalidades. Constrói-se de mãos dadas, com entreajuda, com visão e com HUMILDADE. Só é grande quem for humilde. Se gostam de papel, se adoram resmas de relatórios para justificarem os seus lugares, ajudem, mas não destruam o que de importante está a ser realizado naquela escola, nos planos organizacional e pedagógico. Uma escola, tenho seguido com atenção, que abraça o futuro, a cultura madeirense, a escola sem toques, a escola sem trabalhos de casa, a gestão democrática e participativa dos jovens, o ensino personalizado, a inovação tecnológica, a escola que luta por 0% de abandono escolar e pelo sucesso. Ora, quando um estabelecimento de aprendizagem assume como lema: "Com excelência formamos homens e mulheres para e com a sociedade", que mais podem desejar os políticos do sistema? Quando um estabelecimento de aprendizagem é enaltecido pelas instituições nacionais, com vários prémios, como uma referência de mudança, que razões levam a que a mudança seja travada? Por "dores de cotovelo", sinónimas de tristeza, decepção ou frustração por alguém introduzir a diferença na letargia de uma secretaria cheia de vícios organizacionais e de pensamento, que não ajudam a desejada mudança de paradigma?
Erros, senhoras e senhores, todos têm. Até uma inspectora do sistema, quando apenas era professora, também teve de enfrentar um processo disciplinar, por alegados erros. Curiosamente, hoje, é a inspectora de que se fala! Uma única palavra: parem! Repensem o que andam a fazer a um sistema educativo que está exaurido. Façam um exame de consciência, não apenas política, mas sobretudo científica. Seria bom que colocassem em prática o que ouvem em seminários, jornadas pedagógicas, encontros, eu sei lá, em tantas iniciativas que acontecem. Deixem as escolas RESPIRAR e deixem os professores construírem os estabelecimentos de aprendizagem que, definitivamente, se coadunam com os interesses do nosso futuro colectivo. Deixem de governamentalizar e partidarizar as escolas. O que se exige é conhecimento, dedicação, perseverança, qualidade, rigor, liberdade, e respeito, aspectos que a secretaria de Educação não sabe nem tem conseguido emprestar.
Enquanto ex-professor permitam-me que abrace todos os professores daquela escola. Dentro das limitações fazem um trabalho extraordinário. Parabéns Professor Joaquim.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO INCOMODADO... COM "URTICÁRIA" POR RESULTADOS QUE NÃO SÃO SEUS


Um político, com um mínimo de juizinho, desde que siga os pressupostos de uma boa liderança, resolve as questões das equipas com quem trabalha, através do diálogo e da persuasão, nunca através da perseguição e do peito cheio de ar. 


FACTO

A 20.03.2016 escrevi um texto a partir de um trabalho do jornalista Márcio Berenguer publicado no Jornal Público. Eis um excerto:
"(...) Na Escola Básica 123 do Curral das Freiras que há alguns anos se situava nos últimos lugares (1207º) do ranking nacional de escolas, saltou, no último, para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. O interessante é que “tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro”. Uma escola onde 92% dos alunos beneficiam da Acção Social Educativa (...)".

COMENTÁRIO

01. Na edição de hoje do DN-Madeira, o jornalista Élvio Passos, página 4, colocou em título: "Acusação a director da Escola do Curral prevê pena de suspensão". De facto, arrisca, porque o secretário da Educação anda incomodado e com sinais de "urticária" por resultados que não lhe pertencem.
02. A exposição mediática nacional que o "acusado" teve (em nome de toda a Escola), provocou a necessidade política de o travar, ao jeito de, "aqui, quem manda sou eu". Por exemplo, constou que a participação do Professor Joaquim Sousa, no programa da RTP "Fronteiras XXI", causou uma péssima digestão. 
03. Ao invés de gerar as condições para potenciar, ainda mais, uma escola tendencialmente diferente e com resultados, na perspectiva de multiplicar as boas práticas por toda a Região, a mesquinhez política começou a esgravatar com a ajuda da acéfala lupa da inspecção, para descobrir, aqui e ali, coisitas onde lhe pudessem cair em cima. 
04. Alegadas falhas administrativas serviram de mote para um processo disciplinar e condenação, para já, pública, onde até o presidente da Junta de Freguesia se arrogou no direito de meter a foice! 
05. Sobre tais falhas administrativas acresce questionar se, de facto, serão, ou se não será o sistema, em função dos resultados, que deve ser corrigido?
06. Significa este processo a confirmação que o secretário da Educação se apresenta como defensor da existência de docentes "mangas-de-alpaca", não de pensadores, criadores e inovadores, isto é, é uma entidade que repudia docentes que coloquem as crianças e jovens no centro da política educativa.

PERGUNTA

O que estará primeiro: os resultados da aprendizagem ou os procedimentos de natureza burocrática?

NOTA FINAL

Um político, com um mínimo de juizinho, desde que siga os pressupostos de uma boa liderança, resolve as questões das equipas com quem trabalha, através do diálogo e da persuasão, nunca através da perseguição e do peito cheio de ar. É feio, muito feio, por isso, há colaboradores desencantados e que se afastam. Saberá o secretário o significado de "liderança partilhada"?
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

QUEM NÃO ESTÁ COMIGO, CONTRA MIM ESTÁ... OU, ONDE PÁRA A AUTONOMIA DAS ESCOLAS?


Tenho vindo a assistir, na comunicação social e também nas redes sociais, a um muito pouco claro diferendo entre a Secretaria Regional da Educação, leia-se Dr. Jorge Carvalho, e o Dr. Joaquim José Sousa, presidente do Conselho Executivo da Escola do Curral das Freiras. Desde logo permito-me fazer uma síntese: 1. são já muitas as críticas públicas de teor negativo relativamente ao sector da Educação, desde "cartas do leitor" a textos produzidos em vários blogues, passando por desabafos em circuitos fechados; 2. a Região atravessa, de novo, uma fase onde, por parte dos professores, parece existir receio em tomar posição contra as decisões e perseguições arbitrárias da tutela; 3. o assunto Escola do Curral apresenta-se, pelo menos por agora, como um quadro de "dores de cotovelo" pelo "atrevimento" dos seus mentores quererem dela fazer uma escola diferente e com futuro; 4. embora sendo um paradoxo, parece existir uma significativa frustração política do secretário regional pela presença do Dr. Joaquim José Sousa no programa da RTP 1, "Fronteiras XXI", inclusive, por algumas distinções recebidas no plano nacional, pelo facto da escola ter sido, em 2015, no actual contexto de ensino, a melhor ao nível nacional; 5. finalmente, como corolário, perante este quadro, é pública e notória uma concertação de esforços políticos, desde a Inspecção, à Câmara e Junta de Freguesia, no sentido de silenciar o Dr. Joaquim José Sousa, que se saiba, uma personalidade não alinhada com qualquer poder.

Dr. Joaquim José Sousa
Cinco pontos, existem outros na minha leitura de processo, que constituem uma mancheia de situações que deveriam: 1. merecer uma intervenção do Presidente do Governo; 2. uma reflexão solidária, individual ou conjunta, das restantes direcções executivas da Região; 3. idem, de todos os sindicatos de professores, denunciando a sua preocupação no sentido do esclarecimento total. E porquê? No essencial, porque se trata de um professor que está a ser "investigado" e colocado em causa; porque no centro do problema está a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino e, concomitante e alegadamente, a ausência de apoio concreto às escolas que desejam seguir  os caminhos verticalmente definidos.
A 20 de Março de 2016,  o assunto vem de longe, escrevi, no meu blogue "comqueentao", um texto sobre a secretaria da Educação e a Escola do Curral. Deixo aqui um excerto: "(...) Li um trabalho do jornalista Márcio Berenguer (Público) sobre a Escola Básica 123 do Curral das Freiras (Madeira). Apesar de eu não ser favorável à existência de ranking's não deixo de os analisar, enquanto mero indicador, no quadro, repito, do actual sistema. Aquela escola que se encontrava no lugar 1207 do ranking saltou, no último ano, para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. O interessante é que "tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro". Esta uma síntese, certamente, compaginada com muitas outras que tornaram possível um melhor conhecimento, apesar de 92% dos alunos terem Acção Social Educativa (pobreza) e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias". Significa isto que o estabelecimento de educação e ensino procurou o seu próprio caminho, apesar das regras apertadas da hierarquia, sempre avessa a quaisquer mudanças e, portanto, que é possível um outro paradigma que entusiasme as comunidades educativas para o sucesso. 
Enquanto isto acontece, a secretaria da Educação, promoveu uma conferência de imprensa, claramente, no quadro do combate POLÍTICO, para dizer às escolas da Madeira, enquanto recomendação, sublinhe-se, que "não deverão realizar as provas de aferição do 2º, 5º e 8º anos, bem como as provas finais do 4º e 6º anos que o Ministério da Educação tornou facultativas, no presente ano lectivo" (...) deixando, no entanto, "às escolas a decisão final no quadro da sua "autonomia". E porquê? Porque não quer provas de aferição feitas "em cima do joelho". Disse ainda o secretário que "o sistema educativo carece de elementos fiáveis de avaliação, cruzando o rendimento dos alunos com o desempenho dos professores e a avaliação das escolas". Isto é, recomenda que não é desejável, mas, no essencial, mostra-se como uma figura política que não consegue libertar-se das amarras do passado, através de uma posição estrutural para o futuro. Ao invés de aproveitar o momento para dizer, em alto e bom som, um rotundo NÃO a um sistema que vive da paranóia da avaliação e de um ambiente pedagógico retrógrado, que deixa os alunos no redemoinho do abandono e do insucesso, preferiu a insensatez do combate político com o ministério da Educação. Para quê, pergunto? Poderia e deveria ter aproveitado para se vangloriar do que acontece, por exemplo, no Curral das Freiras, ainda que de uma forma insipiente, abrindo espaço de incentivo a que outros façam o caminho pelo corredor da diferença e do sucesso, mas não, continua esta secretaria a demonstrar que a sua atitude, face ao sistema educativo, se encontra aí pelo Século XIX. Lastimo! Razão tem o director daquele estabelecimento de educação e ensino: "(...) Estes alunos têm sonhos, têm direito a ter todos os sonhos do mundo e cabe a nós ajudá-los”.
O grande problema parece-me residir aqui: "quem não está comigo, contra mim está", complementado com a asserção do Professor Licínio Lima a quem tantas vezes recorro: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Portanto, o que se passa no Curral das Freiras, não me parece constituir um caso de má gestão dos meios, mas um caso político de negação da autonomia, de não atribuição de meios em função de um projecto fora dos cânones e de perseguição política. E há gente que sabe, porque tem anos de experiência partidária, como fazer a cama a quem não gosta, a quem deseja ser autónomo e, pasme-se, apresenta resultados. Tudo o resto, repito, tudo o resto, erros de percurso ou aquele normativo que não foi levada à risca, são ninharias administrativas que, há muito, o bom senso e o diálogo deveria relegar para segundo, terceiro ou quarto plano. Seria uma não notícia. O quero, posso e mando pertence aos fracos. O drama é que há gentinha com ambições e soberba e, por isso, ensaiam passos superiores às perninhas políticas que os mantêm de pé! Deixem-se disso e entusiasmem as escolas a serem verdadeiramente autónomas. 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

UMA SEMANA EM NOVA YORK VALE MAIS QUE TRÊS MESES DE AULAS!


Os professores são vítimas do sistema educativo que integram. Existe uma linha hierárquica bloqueadora da autonomia e de qualquer inovação. Só a muito custo e correndo riscos e incompreensões diversas, aqui e ali, sobretudo quando quem dirige a escola defende um paradigma diferente, alcandoram-se a formatos que ajudam a compreender que há outros caminhos possíveis para o conhecimento. Formatos organizacionais e pedagógicos, olhados de forma enviesada pelos governantes, porque saem do seu absoluto controlo, mas que evidenciam inteligência, sabedoria e capacidade para ver que o sistema que profissionalmente servem, se já não consegue responder aos desafios do presente, o que fará no futuro! Tenho é pena que a generalidade dos professores não se levante contra as aberrações do sistema, manifestando o seu inconformismo.

Na passada semana li, na Visão (páginas 61/67), uma deliciosa entrevista com o Arquitecto Álvaro Siza Vieira. Duas passagens cativaram-me: "Tem de haver tempo para pensar" (...) "O prazer de viajar... extraordinário! Um prazer extraordinário, a viagem. É uma aprendizagem e um prazer". Ora, tempo para pensar é o que a escola não incentiva, tampouco proporciona. A escola tem um programa, tem normativos, tem órgãos que os cumprem e tem uma espécie de polícia, a inspecção, que de lupa em punho, entre outros, vasculha sumários e corrige com processos quem sai da norma! Daí que, desde as primeiras idades, PENSAR*, no quadro da filosofia (elas tornam-se mais poderosas) não faça sentido para o sistema, por um lado, porque o pronto-a-vestir é de tamanho único, por outro, porque existem salazarentos resquícios entranhados que defende a existência de iluminados que pensam pelas crianças e jovens. Quanto ao prazer de viajar, em um sentido lato, é extraordinário. No caso da Madeira é o mesmo que dizer que há mais Mundo para além da Ponta de S. Lourenço. E é possível pô-los a viajar, aqui dentro e lá para fora, não apenas fisicamente, mas também através de uma outra estrutura dos meios disponíveis. E sendo assim, o manual das várias disciplinas é curto, muito curto e até extremamente condicionador. O "conhecimento" enciclopédico é desinteressante e não é fonte de prazer quando não é vivido, participado e sentido.
Na semana em curso o Henrique e o Pedro, meus netos, viajaram até Nova York. Justificaram perante a escola que não levantou qualquer problema. Já não foi mau. Disse-lhes antes da partida: desfrutem, porque uma semana, em Nova York, bem aproveitada para múltiplas visitas (antecipadamente programadas), vale mais que três meses de aulas. "É uma aprendizagem e um prazer" na expressão de Siza Vieira. De tal forma que, aproximando-se o dia do regresso, tenho já relatos do que viram e das experiências que fizeram que os leva a dizer que "gostariam de perder o avião de regresso". Como os percebo, enquanto corolário das nossas conversas. Regressam à ilha pequenina, ao manual, às aulas rotineiras, aos testes, às avaliações, àquele mundo limitado próprio de consciências adormecidas pela imposição da rotina de uma máquina industrial que não pensa.
Feliz ficaria, se, no regresso, a escola, relegando para segundo plano o martírio das aulas, eles pudessem partilhar com todos, em inglês falado, com fotos e vídeo, o que viram, o que sentiram, cruzando no todo e de uma forma única, as múltiplas disciplinas que esta viagem proporcionou. Sem a elas se referirem. A vida é isso, é um todo, não são disciplinas! A vida e a escola deveriam ser vistas pelo ângulo da cultura. Mas não. O que acontecerá, certamente, é fecharem-se no "estudo" (estudar para esquecer) para os testes que foram (re)marcados para os próximos dias. A resposta à pergunta do manual está primeiro que a verdadeira contextualização do conhecimento. A hierarquia assim impõe. O professor é tão-só uma peça da máquina trituradora de talentos. Daí que dê total razão ao alerta de Ilídia Cabral, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa: tal como estão, "as escolas tornam-se, para inúmeras crianças e adolescentes, verdadeiras catedrais do tédio". Alguém terá dúvidas? Siza Vieira, o Arquitecto criador, do alto dos seus 85 anos, não tem.

* Há algo em comum entre crianças e filósofos: a capacidade de se maravilhar com o mundo. Aqui.

Ilustração: Google Imagens.