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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A luta dos professores. Cuidado com certas decisões, embora justas!


Não vou tecer novas considerações sobre a luta dos professores pela dignificação da carreira docente. Apenas adianto que é legítima, depois de décadas de permanente ostracização. Tal como já aqui assumi, a esta luta falta juntar uma outra sobre a escola que é oferecida aos alunos e a escola que prepare para o século que os jovens estão a viver. Porque não basta, de megafone em punho, falar da defesa da Escola Pública, pois essa é Constitucional e, portanto, direito de todos. É preciso ir mais longe, porque o que está em causa é, também, a sua organização interna e o paradigma curricular, programático e pedagógico.



Mas não é desses aspectos que, hoje, aqui venho para deixar uma preocupação que tem a ver com alguma disparidade, no actual quadro constitucional, entre o que se passa com os professores que trabalham na Região da Madeira (6.000) e os do restante espaço Continental (90.000). Ora bem, é pública a minha posição na defesa de um País com três sistemas educativos (Continental, Madeira e Açores). Aliás, deveria ser aproveitada a próxima Revisão Constitucional para as regiões garantirem esse objectivo, sem que com isso seja colocado em causa o grande desígnio nacional da Educação. Bem pelo contrário.

Ora bem, a preocupação que aqui quero deixar constitui, em síntese, um alerta a todos os professores que estão a recuperar o tempo de serviço congelado durante nove anos e tal, entretanto, reduzido para seis anos e pouco, por força de uma determinação nacional. Deixo à vossa consideração a análise da disparidade (recuperação total do tempo de serviço e respectivo reposicionamento na carreira) entre o que se passa na Madeira e no Continente. Não quero tecer considerações, porque são muitas e juridicamente complexas. Mas entendi contar-vos uma situação que eu e muitos viveram. Conta-se em poucas palavras: por determinação regional, no quadro da Autonomia, eu e muitos outros fomos abonados de um determinado valor. Passados quatro anos, o Tribunal de Contas e o Tribunal Constitucional, à revelia das disposições regionais autonómicas e mesmo em cima do prazo de prescrição, veio determinar a reintegração total dos valores então pagos. E a instituição regional, não bastando o Estatuto Político Administrativo e dois exaustivos pareceres de Professores Constitucionalistas, não teve outro remédio senão o de exigir a devolução das verbas.

O antigo Conselho Administrativo (três membros), solidariamente, neste momento, têm mais de meio milhão de euros de responsabilidades, derivadas de penalizações, juros e, obviamente, dos valores de todos quantos não aceitaram a decisão reintegratória. Ininteligível, mas foi o que se passou!

Esta história vale o que vale, pois as situações podem até não serem comparáveis. No caso dos professores parece-me, repito, parece-me, mais complexa, por agora, face à mobilidade por via dos concursos. Não sei, não sou jurista, mas entendi que devia alertar, não venham por aí, a prazo, surpresas sempre desagradáveis. Oxalá que não! Aquilo que vivi doeu-me porque considerei injusto, mas  cumpri a decisão. Dentro do prazo procedi à transferência do valor reclamado.

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Entre rotos e esfarrapados...


A propósito da contagem do tempo de serviço congelado aos professores, o Ministro fez umas declarações quanto a mim inócuas e, portanto, sem qualquer relevância política. Considero que não merecia contraponto. É daquelas situações que o Ministro deveria estar calado e o governante regional mudo. Mas não, o secretário resolveu ripostar: "(...) Nós entendemos que estas declarações, sendo completamente despropositadas, não deixam de ter também uma outra intenção que é a de encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal", disse Jorge Carvalho, secretário da Educação, Ciência e Tecnologia da Madeira - Dnotícias, 14.09.2022.



A parte interessante, aqui sim, de natureza política está na passagem "(...) encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal". Admitamos que sim. A questão é perceber as incompetências do Partido Social Democrata para governar a educação na Madeira. A questão reside aqui. No quadro da Autonomia Político-Administrativa, pergunta-se, então, que avanços foram proporcionados?

Estou completamente imune às questões partidárias. Como vulgarmente se diz, "por aí passei e por aí perdi o cabelo". Tenho convicções, obviamente que sim. Tenho leituras de processo, claro que sim. Como qualquer um outro português insulano. Sobretudo porque tento perceber e cruzar a informação dos vários dossiês. Mas não entro no despique inconsequente porque se esgota na espuma dos dias. Por isso, é caso para dizer que há qualquer coisa ali de roto e de esfarrapado!

Ainda há dias, li um desabafo de um professor que sublinhava o facto de, na Madeira, no sector educativo, nada restar que faça a diferença. Apenas foram "10 anos perdidos... como é possível? Já não é folclore é algo totalmente absurdo". Mas há muitas outras posições sobre o que a Região poderia ser em matéria de política educativa e aquilo que realmente é. No mínimo, eu diria que é uma cópia do Continente. Não é em vão, também na Educação, que se diz que a Assembleia é mais adaptativa do que legislativa. No leque das tais incompetências, vá lá, portanto saber-se quem ocupa o primeiro lugar!

O debate deveria centrar-se em matérias muito mais profundas. As de natureza estrutural, de pensamento, de aferição do que dizem e escrevem os grandes pedagogos e cientistas da actualidade (e não só) face ao mundo que está na frente dos nossos olhos. Constata-se a existência de um claro desfasamento, quase total e muito perigoso, entre a rotina do sistema que é proporcionada e a estabilidade e êxito da população em todos os sectores e áreas do desenvolvimento. Enquanto uns buscam a antecipação do futuro, outros amam o passado, idolatrando figuras e conceitos absolutamente desadequados. A universidade nada lhes deu. É caso para perguntar a quem interessa uma população distante, alienada, ignorante, pobre e dependente?


O futuro não se constrói com paleio, repetições, centralização de políticas abstrusas, intencionais perseguições e silenciamentos, distribuição de algumas benesses, controlo total da máquina e imposição de uma lógica de medo. Esse é o caminho do desastre colectivo. Que egoísmo por aí vai! Defender a imagem pública, puxar dos galões, manobrar por detrás do palco, ameaçar ou mandar ameaçar, comprar silêncios e muito mais, deixará uma indelével marca que só prejudicará a afirmação de uma Educação ao serviço do desenvolvimento. São os rotos a vangloriarem-se face aos esfarrapados!

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 4 de junho de 2022

Para ler e reflectir... com muitas interrogações!


NOTA
https://www.publico.pt/2022/06/04/sociedade/noticia/escola-nao-ha-professores-aulas-conhecimento-base-ha-2008861
Daniela Carmo (Texto) e Daniel Rocha (Fotografia) 4 de Junho de 2022,

Nesta escola não há professores nem aulas. “O conhecimento é a base, mas há muito mais do que isso”

A Brave Generation Academy é um projecto educativo que nasceu em Portugal e pretende ir além da simples transmissão de conhecimento. “Quando eu e a minha esposa fomos à primeira reunião com a learning coach da Inês, sentimos, pela primeira vez em tantos anos de ensino, que a pessoa com quem nós estávamos a falar conhecia a nossa filha.”

 
Foto Fundador da BGA diz que o método de ensino tem de ser 100% focado no aluno Daniel Rocha


O relógio ainda não marca as 10h nesta manhã de quinta-feira em que o sol pouco se mostra. Na sala, um grande espaço aberto dividido numa espécie de ilhas com mesas e que este mês se vestiu de arco-íris (em alusão ao Pride Month, LGBTI+), contam-se meia dúzia de caras, já com os computadores ligados à sua frente. Pouco a pouco os aprendizes (learners, como por ali lhes chamam) chegam ao Hub da Brave Generation Academy (BGA), do Centro Cultural de Belém. Falamos de uma escola que não é bem uma escola: não há aulas, nem professores e os alunos são aprendizes. Alguns deles, enquanto chegam, vão mastigando os últimos pedaços do pequeno-almoço.

O entusiasmo é partilhado por todos de cada vez que uma nova cara entra pela porta que, por enquanto, fica aberta. Dão os bons dias, alguns cumprimentam-se com um aperto de mão e conversam. Quando assim decidem, sentam-se e começam a estudar. Na última mesa do canto direito, mesmo encostada à parede do fundo, encontramos Lucas e Fausto, de 15 e 14 anos respectivamente.

Estão ambos a ligar-se, por via Zoom, para assistir à lição de Português. É assim que funciona a aprendizagem por ali, feita através de um ecrã de computador. Mas isso não significa que os aprendizes não tenham de ir “à escola” diariamente. Eles são, aliás, encorajados a passar pelo menos cinco horas diárias no Hub, dessa forma convivem, conversam, conhecem os colegas, interagem. Voltamos à aula de Português, o tema de hoje: podcasts. Alguns minutos depois de ouvirem a course manager (cargos que exigem formação em ensino para leccionar), Fausto e Lucas têm liberdade para ouvir alguns minutos de programas que foram deixados na plataforma online da disciplina.

Lucas, que entrou na BGA em Setembro último, escolheu as disciplinas sobre as quais pretende aprender, num total de sete, à semelhança do que acontece com todos os learners. Antes de integrar a academia estudava numa escola pública. Que mudanças? “Tudo”, responde quase sem pensar. E pega no exemplo concreto da aula de hoje. “O tema é a comunicação e as diferentes formas de chegar às outras pessoas. A Isabel [course manager] vai sempre buscar formas diferentes, quase subentendidas, para dar a matéria, não é como na minha antiga escola”, explica o jovem.   

 
A Brave Generation Academy dá liberdade aos aprendizes para escolherem as disciplinas Daniel Rocha

Academia pretende ser um lugar de partilha e colaboração entre todos Daniel Rocha

Cada aprendiz avança ao próprio ritmo Daniel Rocha

 

Ao recordar o sistema de ensino anterior diz que “era tudo mais rígido”, por exemplo, na avaliação, nos horários, nas próprias metodologias lectivas, no contacto com o professor. Se, por um lado, agora tem liberdade para escolher o que quer e quando quer fazer, algo que não acontecia no ensino tradicional público, por outro lado, a responsabilidade também aumentou. “Nós somos os responsáveis pelo nosso sucesso, ou insucesso”, começa por explicar.

Flexibilidade de horário exige responsabilidade

“Onde antes sentia muita pressão, de repente, deixei de sentir e isso também me faz falta”, sublinha. Lucas decidiu entrar na BGA para experimentar um modelo diferente daquele a que estava habituado na escola pública e, volvido quase um ano lectivo, já tomou a decisão de mudar de escola novamente no próximo ano. “Não é por não gostar de aqui estar, mas não se enquadra no que eu quero. Eu gosto de desporto e, por isso, quero ir para a escola profissional no próximo ano.”

Já Luke Gomes (17 anos), que se junta à conversa, quer continuar na BGA “até não poder mais”. Há ano e meio que chegou da África do Sul com o resto da família e encontrou em Portugal um lugar onde permanecer. “A segurança” é o principal motivo, algo que no país de origem não encontra tendo em conta a criminalidade elevada.

Luke não assiste à lição de Português como os outros dois jovens, é mais velho e está num nível diferente. Por isso, trabalha agora de forma autónoma. Começou por escolher Geografia como uma das disciplinas a estudar, mas algum tempo depois percebeu que não é uma matéria que lhe dê gosto aprender e acabou por alterá-la. A BGA permite-lhes fazer essa escolha.

Temos de aprender coisas diferentes, temos de ir atrás daquilo de que gostamos e não apenas focar naquilo em que somos fracos, mas antes naquilo em que somos bons para ficamos ainda melhores. É assim que somos notados no mundo Tim Vieira, fundador da BGA

A academia, cuja mensalidade é de 450 euros (20% dos alunos dispõe de uma bolsa de estudo atribuída pela própria BGA), segue o Currículo Internacional Britânico para alunos a partir dos 12 anos. Ou seja, a base académica incide nos Lower Secondary (12 a 14 anos), IGCSEs (14 a 16) e A-Levels (16 a 18 anos) do modelo britânico. De acordo com Tim Vieira, empresário sul-africano (e luso-descendente) e fundador e CEO da Brave Generation Academy, há três pilares que norteiam aquele modelo de ensino: o conhecimento, as capacidades/ habilidades e a comunidade.
Desenvolver além do conhecimento

Além das actividades lectivas — que por si só pretendem já desenvolver a capacidade de autonomia, a auto-regulação ou a responsabilidade através de um modelo mais focado no estudante que define todo o plano de aprendizagem — existem diferentes clubes que os jovens podem integrar de forma a desenvolver outras capacidades (por exemplo, de inteligência emocional, fotografia, negócios, artes, entre outros). “O conhecimento é a base, mas há muito mais do que isso e é por isso que o nosso segundo pilar são as skills. Temos de aprender coisas diferentes, temos de ir atrás daquilo de que gostamos e não apenas focar naquilo em que somos fracos, mas antes naquilo em que somos bons para ficamos ainda melhores. É assim que somos notados no mundo”, defende Tim Vieira.

Quanto ao terceiro pilar, a comunidade, o pressuposto é o de interagir com o meio em que cada Hub está inserido, por exemplo através de projectos de voluntariado. “Nunca podemos estar felizes se não trabalharmos com a nossa comunidade, se não fizermos coisas positivas para a nossa comunidade.”

Lucas e Fausto integram um clube que leva aulas de português a pessoas refugiadas afegãs. O clube tem lugar na Casa Pia e os dois jovens, a par de mais três colegas, despendem cerca de duas horas por dias, duas vezes por semana nesta actividade. Ambos concordam que é um projecto positivo e que lhes tem permitido conhecer novas realidades. “Eu acho que isso faz parte deste sentido de comunidade. No fim, eles são mais felizes”, diz Tim Vieira.

   
Método de ensino actual é “desconectado” do mercado de trabalho

Nuno Fernandes é pai de uma das aprendizes do pólo de Cascais e não estava satisfeito com o tipo de ensino anterior, num colégio privado. Crítico do modelo de ensino tradicional, defende que “o método aplicado, seja público ou privado, é absolutamente desconectado com as necessidades que os jovens têm de enfrentar no mercado de trabalho”.

Além disso, um dos pontos que destaca e a que dá importância é que os learning coaches realmente conhecem quem está à sua frente. “Quando eu e a minha esposa fomos à primeira reunião com a learning coach da Inês, sentimos, pela primeira vez em tantos anos de ensino, que a pessoa com quem nós estávamos a falar conhecia a nossa filha.”

E exemplifica: “Conhecia-a não só numa perspectiva de que está bem a Inglês, menos bem em Matemática, etc. Foi mais do que isto, foi dizer que ela está com determinadas dificuldades ao nível social, mas por outro lado manifesta muita autodisciplina, muita iniciativa na parte da aprendizagem, por exemplo. Ou seja, [a learning coach] é alguém que conhece a nossa filha além do resultado académico e isto faz muito sentido. Faz-me sentir que ali a minha filha tem uma oportunidade muito mais rica de se desenvolver enquanto ser humano com alguém que a ajuda, em vez de ser alguém que de tempo a tempo faz uma avaliação.”

No Hub do CCB encontramos Kayla Harnage, uma das learning coaches (e não professora), que nos explica que tem como função, além de ajudar os aprendizes em dúvidas que surjam, garantir que “existe um bom ambiente de ensino”. E esse bom ambiente reflecte-se na proximidade que têm uns com os outros, assim como no retorno que os pais sentem.

"A educação está sempre a mudar"

Natural dos Estados Unidos da América, onde se licenciou em comunicação intercultural, Kayla está há mais de três anos em Portugal e sempre quis trabalhar na área da educação. Deu várias aulas e explicações de diferentes línguas antes de chegar a solo português e entrar para a BGA em Janeiro último. “A beleza desta academia é dar-lhes espaço para eles [os aprendizes] serem o que quiserem. A educação está sempre a mudar e ter a oportunidade de aqui estar é mover-me na direcção certa.”

Para a learning coach, na “escola dita normal” o “professor não tem tempo nem espaço para se focar e ter intencionalidade com cada um dos alunos” devido ao elevado número de estudantes que cada turma tem. “Acho incrível que possamos estar a fazer o que fazemos com os learners ao investir tempo neles para que possam ser o que quiserem. É importante que descubram quem são, as suas forças, as suas fraquezas, os sonhos.”

A ideia é partilhada pelo próprio fundador da BGA: “O ensino tem de ser 100% focado no aluno. Os learners são os mais importantes em tudo isto e, sem dúvida, que estamos a fazer a coisa certa porque os vemos a sorrir, a terem mais confiança e a quererem vir para o Hub, a quererem estudar.”
"Ele agora já gosta da escola"

Esse entusiasmo com a aprendizagem não passou indiferente a Gabriel Becker que notou uma grande mudança no comportamento do filho. “Ele agora já gosta e quer vir à escola”, refere o empresário francês, que esta manhã está também no Hub a dinamizar um workshop de negócios.

Faz-me sentir que ali a minha filha tem uma oportunidade muito mais rica de se desenvolver enquanto ser humano com alguém que a ajuda, em vez de ser alguém que de tempo a tempo faz uma avaliação Nuno Fernandes, pai

O grupo é integrado por meia dúzia de aprendizes, que se sentam nos sofás no canto esquerdo do pólo, ao lado da mesa de Lucas e Fausto, que já estão na fase final e a debater com a course manager a matéria dos podcasts. Entre os membros do workshop estão Manuel e Ricardo, de 18 e 17 anos, cujo objectivo é desenvolver uma aplicação móvel para a BGA e outras escolas que a queiram utilizar.

Mas não falam só de negócios e de empreendedorismo. Agora, Gabriel Becker está a lembrá-los da importância de cumprirem com os tempos de entrega dos trabalhos, algo que dá boleia a outro tema: a confiança. “Se nunca cumprirem com as deadlines, se se atrasarem, ninguém vai confiar em vocês”, alerta o empresário. E Rodrigo, learning coach, chama a atenção dos aprendizes que parecem meio distraídos. “Oiçam isto que é importante, têm de ter esta responsabilidade”, alerta. Trocam mais algumas ideias, em inglês, que é a língua usada sempre nos Hubs, e o workshop termina.

Do lado direito da sala, a lição de português dos mais novos também chega ao fim. Lucas passa para Inglês. “Estou mais atrasado do que queria e vou-me dedicar um bocadinho a isso agora.” E Manuel e Ricardo ocupam os lugares da mesa central para passarem eles a assistir à lição de Português que dali a minutos se inicia. Antes disso, brincam com colegas que já ali estavam sentados. Riem.
Aprendizes podem trocar de Hub em todo o mundo

Entre eles encontramos Keily, de 20 anos. Natural de Moçambique, a jovem integrou aquele Hub há um mês, mas já conhecia a academia de Maputo, onde estudava desde Setembro. A BGA é um projecto além fronteiras: em Portugal existem 36 e 21 no estrangeiro, em países como a África do Sul, Moçambique, Namíbia, Espanha ou Reino Unido, entre outros. “O outro Hub era mais pequeno e aqui já conheci novas pessoas, novas realidades. Apesar de ainda estar aqui há pouco tempo, já fiz bons amigos e acho que isso é um bom sinal”, abona Keily.

No futuro, a jovem quer fundar uma organização não-governamental “para ajudar crianças de diferentes países na educação, como um learning coach”. “Não sei se quero ir para a faculdade, mas quero viajar, quero ganhar bagagem, quero trabalhar, fazer estágios e conhecer novas realidades. Acho que é isso que realmente nos educa.”

Apesar de ainda não saber se vai continuar os estudos, Keily vai fazer os A-levels — os exames finais no sistema de ensino britânico equivalentes ao fim do ensino secundário e que servem também para o acesso ao ensino superior — no próximo mês de Novembro, tal como Manuel e Ricardo, e assim terminar o ciclo de estudos. A avaliação por ali também acontece, apesar das diferenças em relação ao modelo tradicional. Além dos exames finais, têm ao longo do percurso avaliações aos diferentes módulos, que podem ser, por exemplo, mensais. Mas defendem que essa avaliação não é feita para dar uma nota, mas antes perceber que o conhecimento foi adquirido. Só passam ao módulo seguinte se tiverem um aproveitamento de pelo menos 80%.

De acordo com Tim Vieira, a BGA não pretende representar “uma cisão para com o ensino tradicional”. “O conhecimento está na base, é ele que abre portas para o futuro.” E como são os próprios a escolher o que querem aprender, os desafios que querem enfrentar, situações de ansiedade extrema no momento da avaliação são praticamente inexistentes. “Não há nenhuma vantagem em ter um estudante que tem ansiedade e que está a tomar remédios para conseguir lidar com a escola e com as emoções. Não é preciso isso, há outras maneiras. Eu acredito mesmo muito que ter uma criança ocupada a fazer o que gosta de fazer, a criança vai estar bem.”

Quanto à avaliação e tendo em conta que a BGA existe há pouco mais de um ano, ainda não é possível fazer um balanço em relação ao sucesso do projecto. Mas Tim garante que “80% dos aprendizes está à frente dos objectivos”. Até ao momento, 40 alunos já fizeram exames. Os resultados vão chegar em Agosto deste ano. Em Novembro será a vez de Keily, Manuel e Ricardo. Acabou a lição de português dos mais velhos. No pólo do CCB voltam-se a contar menos caras: é hora de almoço.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

A grosseira mentira!



FACTO

Afirmou o secretário regional da Educação: "Acreditamos que é pela autonomia de cada escola que damos a melhor resposta aos nossos alunos". - Fonte: Dnotícias, edição de hoje.

COMENTÁRIO


A declaração é inatacável. De resto, há muitos anos que este posicionamento é assumido por tantos investigadores, autores, professores, sindicatos e por todos aqueles que pensam o sector da Educação. Mas uma coisa é o que é dito, porque fica bem, outra é a realidade.

Na prática, essa autonomia não existe. É verdade que a tal autonomia está consubstanciada na legislação, portanto, o que o secretário enalteceu corresponde a uma "chuvinha no molhado". Porém, tudo ou quase tudo tem de ter a chancela de quem, em abstracto, assume que "é pela autonomia de cada escola que damos a melhor resposta aos nossos alunos". Eu diria: "com a verdade me enganas".

Desconheço o conceito de autonomia defendido pela secretaria regional da Educação. Relembro o Professor Licínio Lima que um dia escreveu: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Complementarmente, sei que, por exemplo, a Escola do Curral das Freiras (Madeira), perdeu a sua autonomia, porque os seus órgãos desejaram ser inovadores, apesar de dentro deste sistema apresentarem excelentes resultados.

Sendo assim, seria interessante, porque esclarecedor, saber se a secretaria da Educação decidiu, doravante, prescindir da sua atitude arrogantemente centralizadora.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Limitação de mandatos nos órgãos dos estabelecimentos de aprendizagem


A Escola não constitui uma instituição à margem da sociedade. Ela emerge da sociedade, logo deve enquadrar-se no regime democrático que escolhemos viver. Ora, assim sendo, não faz qualquer sentido que, por exemplo, o próprio Presidente da República esteja limitado a dois mandatos e que os órgãos de uma escola não tenham qualquer limitação. O chumbo que a maioria parlamentar impôs à proposta de decreto legislativo regional, apresentado pelo JPP, obviamente que, do ponto de vista político, não é inocente. Qualquer pessoa percebe as razões de tal atitude.



Não vou aqui tecer considerações que seriam sempre subjectivas e até abusivas face ao trabalho sério e empenhado que muitos professores realizam nas direcções das escolas. Pois bem, apesar de eu ter uma leitura política sobre os motivos que estão na origem do chumbo à proposta do JPP, intencionalmente, não quero entrar por aí. Seria misturar situações de exclusiva paixão pelo trabalho, com outras que podem suscitar a ideia de correias de transmissão de uma determinada vontade política do poder. 

A questão essencial é outra. É que a democracia exige o interesse pela alternância para que as instituições respirem, se mobilizem e se tornem criativas e inovadoras. Mesmo no sistema empresarial privado, os designados CEO (chief executive officer) são mudados pela necessidade de gerar novas dinâmicas. O pensamento sustentado e divergente só traz benefícios às organizações. O que está em causa não é ser contra, mas ver e actuar de forma diferente. As mudanças trazem consigo vontade em operacionalizar e autonomizar relativamente aos poderes instituídos, com evidente em pleno respeito bilateral. É a diferença entre ter um mandato e ser mandado. Significa isto, em oposição, que a rotina e a submissão conduzem à morte organizacional, perdendo-se a finalidade e a missão. A rotina mata a existência de novos e promissores projectos, limita a comunicação interna e externa, e a ausência de autonomia, sinónima de submissão à vontade de outros, não promove a coesão interna entre as diversas áreas da organização, por isso mesmo, mata uma desejável cultura de princípios e de valores da escola. 

Por outro lado, o chumbo à proposta do JPP denuncia, claramente, uma proximidade a um pensamento de ontem, retrógrado e inadequado aos tempos que vivemos e ao conhecimento existente. Isto é, ontem, hierarquicamente, a responsabilidade era determinada entre os definem as grandes linhas estratégicas (governo) e os executores (professores). Hoje, isso não é inteligível. Caso para trazer, uma vez mais, à colação o Professor Licínio Lima quando tão bem situou esta questão. O poder, dizendo não dizendo, com as suas atitudes, acaba por sublinhar: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Há, portanto, uma questão de intencional centralização das orientações, de cega obediência por medo, tal como na fábrica da Sociedade Industrial, (a escola não é uma fábrica) quando hoje não devem existir compartimentos estanques. Até porque, por um lado, os estabelecimentos de aprendizagem são entidades complexas e vivas a todos os níveis de análise, por outro, porque são diferentes uns dos outros, desde os territórios onde actuam, aos  públicos que servem e aos professores que os compõem. 

Se são dois mandatos ou três não discuto. O limite de anos, idem. O princípio que deve ser assumido é que ninguém se deve eternizar, por dez, quinze, vinte e quase trinta anos nos órgãos de uma escola. Estou aqui a escrever e na memória trago as palavras de D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal. Em 2011 transcrevi as suas palavras: "(...) as alternâncias são sempre boas. Por muito boa que seja a pessoa que está, a partir de determinada altura alternar é bom. Já tive essa experiência na minha vida. Fui professor, saí, entrou outro, foi óptimo; fui vigário-geral, saí, entrou outro, foi óptimo; fui bispo em Setúbal, saí, entrou outro, foi óptimo. A alternância é magnífica a todos os níveis e em todos os sectores porque traz novidade, dá esperança, imprime outro ritmo de vida". Concordo, em absoluto.

Limitar a rotina, fazer apelo à imaginação e ao sonho, provocar a meditação sobre o futuro, reformar profundamente os hábitos do dia-a-dia, ser capaz de ousar e de, entre outros, estimular e motivar as equipas, não é compaginável com a submissão a hierarquias amantes, como dizia A. Tofller, dos "cubículos convencionais de ontem". Os estabelecimentos de aprendizagem precisam de autonomia (não a de papel) e necessitam de alargada participação, para que sejam entidades desiguais, vivas e consequentes.

A talho de foice, tenhamos presente o que se passou na Escola do Curral, onde um professor (e uma equipa), que ganhou as eleições com 78% da vontade da comunidade escolar, mas porque dele o poder político não gostava, viu a sua escola, no dia seguinte, perder a sua autonomia. Foi fundida com outra. Os poderes gostam de ter a rédea muito curta e de saber quem não lhes faz ou faz vénia. Por isso, não acho estranho o chumbo da maioria política no Parlamento da Madeira ao essencial da proposta do JPP. Da parte do PSD foi sempre o seu posicionamento; já da parte do CDS que bom seria terem presente as palavras ditas em legislaturas anteriores, sempre que se discutiram aspectos relacionados com a autonomia das escolas e com a intervenção abusiva do governo! Mas isso é outra história, não é verdade?

Ilustração: Google Imagens. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Boas Práticas?


FACTO

No encontro de "Partilha de Boas Práticas", que reuniu dezenas de professores, o secretário da Educação condenou a "replicação dos modelos de sucesso", sublinhando que é "no âmbito da autonomia (que) cada escola (deve) perceber aquilo que se faz nas diferentes comunidades educativas (...) A autonomia é exactamente esse princípio da decisão local". Fonte: Dnotícias

COMENTÁRIO

Não. Assim, não. Não vale mentir ou confundir! Toda a comunidade educativa, do Porto Santo à Calheta, sabe que o sistema sempre esteve centralizado e padronizado. Todos sabem que existe uma espécie de patrão a quem têm de "obedecer". Todos sabem que existe uma hierarquia que define a burocracia e espera que todos, solenemente, acatem. E todos sabem que as direcções ou professores que procurem inovar, podem ter a inspecção à porta. O caso do Curral das Freiras é paradigmático. 

Portanto, uma vez mais, lá dizia o Professor Licínio Lima, em tom severamente crítico: "SEJAM AUTÓNOMOS NAQUILO QUE JÁ DECIDIMOS POR VÓS". Em poucas palavras disse tudo. Daí que faça parte da encenação política, assumir e dizer aos professores que os estabelecimentos de aprendizagem são autónomos. Não é verdade. De todo. 

Só mais um aspecto de relevante importância: "partilha de boas práticas". Que boas práticas poderão existir, pergunto, se a Escola (o sistema) mantém um figurino organizacional, curricular, programático e pedagógico que não possibilita iniciativas diferenciadas? Só boa vontade, convenhamos, não chega. "Boas práticas" dentro do mesmo quadro de análise, só pode conduzir a determinados acertos nas margens que não alteram as questões de natureza substancial, capazes de alterarem o velho pelo novo.

Senhoras e Senhores Professores, tenham presente que, para além do que aqui me trouxe, não são respeitados. Não esqueçam que uma petição assinada por 3.640 docentes, apresentada pelo SPM, no sentido de serem debatidas, na sede da AUTONOMIA (Assembleia Legislativa), algumas importantes questões que preocupam os professores, foi liminarmente rejeitada pela maioria política. E era só para debater e esclarecer. Não se tratava de aprovar fosse o que fosse. Mas nem isso! Como se pode falar de autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem se nem a democracia, expressa na participação activa, é "tolerada"?

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 17 de outubro de 2020

A verdade que engana...

 

FACTO

A Escola "deve continuar a ser um espaço de reflexão, de troca de experiências e de abordagem de novas temáticas" para que continue a dar respostas às novas gerações. Fonte: Dnotícias.



COMENTÁRIO

A frase, hoje assumida, é do actual secretário regional da Educação. Lida sem contextualizar eu diria que é irrepreensível, embora com tons "lapalissianos". Concordo em absoluto. O problema está quando desviamos o olhar e o conhecimento para as circunstâncias que a rodeiam. Aí caímos, inevitavelmente, no aforismo do "bem prega...". É que, ai daqueles que, no quadro da autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, saem do rebanho na convicção que se pode e deve fazer melhor. Tenhamos presente o que aconteceu na Escola do Curral das Freiras, entre outros casos menos mediáticos. 

Ora, quando se fala de "espaço de reflexão", tal obrigaria a uma liberdade para pensar e, consequentemente, agir de acordo com novos olhares. Seja o secretário honesto com a sua verdade, não é pedir muito, mas tal não é possível, por um lado, porque o sistema está amarrado a uma absurda centralização, onde tudo ou quase tudo, tem de ser autorizado pela hierarquia; por outro, porque o sistema, desde sempre, denuncia incapacidade para responder "às novas gerações". O sistema continua, teimosamente, a assemelhar-se a uma máquina, velha, mas todos os dias oleada, que produz um só produto (de aluno) e um único modelo (de funcionamento). Não conheço uma única escola pública na Região que saia do regime hierarquicamente imposto. E quando sai, caso do Curral das Freiras, foi o que se viu. Portanto, é uma falácia o que foi dito. Não é para levar a sério!

Se fosse possível "pensar", "experimentar" e actuar em conformidade, obviamente que há muito que, pelo menos alguns estabelecimentos de aprendizagem, tinham assumido a possibilidade de seguir caminhos distintivos. Certamente que outros preferissem a rotina que o vértice estratégico entende como o melhor para o sistema. Porém, o tempo, distante de experimentalismos bacocos, encarregar-se-ia de provar quanto estão errados os que optam por navegar em um mar sem ondas. E assim sendo, hoje como ontem, nem possibilidade de comparação existe, porque o sistema, repito, está preso no seu emaranhado, não fecunda nem se deixa fecundar pelas ciências. E quando aqui se chega, são muito raros aqueles que espreitam por um fresta e descobrem a possibilidade de sair desse escuro cruzamento, optando por um caminho de novas experiências proporcionador de luz. O sistema, leia-se secretário regional da Educação, está no cruzamento, com um olhar vago para as várias saídas, porém, dali não é capaz de sair. Completamente angustiado, vejo-o sentado, preferindo deixar o "marfim correr". 

De qualquer forma, distintos professores, aproveitem a oportunidade, tornem as escolas em "espaços de reflexão, de troca de experiências e de abordagem de novas temáticas". Talvez nunca ninguém tenha sido tão claro. Politicamente, foi um raro assomo de consciência. Aproveitem, porque estão escudados nas palavras circunstancialmente ditas! Ah, doravante, coloquem as crianças e jovens no centro das políticas educativas.

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

O sector educativo contribui para o descrédito da Autonomia


Não aceito, mas compreendo, a letargia de quem governa. Compreendo o medo perante a emergência da mudança. Compreendo, para além de alguma falta de estudo e de ambição, a existência de um processo histórico que cristalizou consciências. Compreendo, por um leque variado de factores, que seja natural este posicionamento: passei pela escola autocrática, pela escola inquestionável, vivi e integrei um modelo pedagógico, atingi um objectivo académico e, agora, compete-me repeti-lo. E assim o sistema permanece, indiferente ao tempo, eternizando o círculo vicioso. Compreendo, ainda, face às circunstâncias de um sistema político centralizador, a extrema dificuldade de governantes e professores, por razões distintas, fazerem um "reset" no "aprendido" (e assumido como vaca sagrada) a caminho de uma redefinição de processos. Tal exigiria, obviamente, reiniciar o pensamento organizacional e pedagógico, partindo da configuração do mundo que estamos a viver. E isso, claro, por um lado, apavora, por outro, dá muito trabalho. Compreendo!


A dificuldade está aí, na tomada de consciência do erro primeiro. Por isso não me espanta o genérico alheamento dos professores, a ausência de pensamento reflexivo e crítico, não me surpreende a ausência de debate livre e consequente, não me causam surpresa os processos disciplinares, não fico admirado com a atitude de "maria vai com as outras", o encolher de ombros, o assobiar para o lado, pior, ainda, aquele quadro que é sensível e preocupante que se caracteriza desta forma: "o meu está feito": estive presente, preparei e dei a aula do programa, assinei o livro do ponto, marquei as faltas, compareci às reuniões, produzi as actas, atribui notas ou níveis, fiz parte dos júris de exames, corrigi, passei ou excluí, elaborei o relatório, enfim, "o meu está feito".

Só que a escola é muito mais do que isso. Não é um local de instrução, mas de aprendizagem. E apenas este pressuposto implicaria colocar tudo em causa, desde a assembleia de escola às direcções executivas, passando pelos conselhos pedagógicos, pelos departamentos até aos grupos de disciplina. Em cima da mesa deveria estar, permanentemente, como gerar uma escola que respeite os alunos, as suas origens, os seus sonhos e interesses, capaz de romper com práticas seculares, as quais, por mais importantes que tenham sido em um determinado momento histórico, apresentam-se completamente desadequadas face à quarta revolução industrial, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas. Esse mundo que está aí aos olhos de todos exige ruptura com a velha escola e com o velho sistema de ensino. Não são compagináveis. 

Já nos primórdios dos anos 80, para não recuar ainda mais, ao "Admirável Mundo Novo", escrito em 1931, por Aldous Huxley, o romance que prognostica sérios desenvolvimentos, entre outros, na tecnologia, que revolucionaria, profundamente, a sociedade, Alvin Tofller chamava a atenção: "(...) não podemos meter à força o mundo embrionário de amanhã nos cubículos convencionais de ontem" (...) "está a emergir na nossa vida uma nova civilização e por toda a parte há cegos que tentam suprimi-la. Esta nova civilização traz consigo novos estilos de família; modos modificados de trabalhar, amar e viver; uma nova economia; novos conflitos políticos e, além de tudo isto, também uma percepção modificada".

Tofller, em uma curiosa entrevista mais tarde publicada na revista Executiv Digest, a páginas tantas, referindo-se aos estabelecimentos de aprendizagem, acabou por concretizar:

“(...) o Sistema Educativo assemelha-se a uma fábrica que produz informações obsoletas de forma obsoleta; não por não ter os manuais académicos actualizados, mas porque, simplesmente, não estão relacionados com o futuro dos estudantes. Se o modelo de produção que lhes é ensinado é a produção em linha, eles ficarão preparados para trabalhar em processos de rotina, repetitivos, que ignoram o indivíduo. Já foi moda, mas nos últimos 100 a 150 anos”. E diz mais: quando iniciou a sua actividade profissional o seu chefe “não queria o seu cérebro, mas sim os seus músculos”. Compaginado com este posicionamento, Tom Peters, um guru da gestão, mais tarde viria a sublinhar: “bem vindos ao mundo do soft e da massa cinzenta”.

No actual sistema, a escola que permanece, configura aquilo que não deveria ser. Desde há muitos anos. Ali impera, ainda, uma absurda rotina e um discurso aberrante, todos os anos pintados de fresco (leia-se, com acertos marginais) e, depois, paradoxalmente, pedem inovação a quem viveu, durante anos, castrado no pensamento. É por isso que acompanho o significado mais profundo das posições do Professor José Pacheco que, há dias, de forma séria, emotiva e provocante dizia: "(...) numa aula nada se aprende" (...) "uma prova nada prova" (...) existe "um genocídio educacional" promovido "por múmias pedagógicas" (...) "quem dá aula está fora da lei". Ora bem, o que é que isto significa? Muito. 
Há que esmiuçar fugindo à leitura fácil e literal das palavras.

Então, genericamente, perguntar-se-á, como operacionalizar a mudança de um paradigma de instrução para um outro de aprendizagem? Desde logo estudando em grupo fazendo das escolas grandes mesas de diálogo de produção de pensamento; acreditando que os professores são capazes; libertando as escolas através da descentralização e do respeito pela sua autonomia; reduzindo ao essencial aquilo que hoje constitui a paranóia burocrática; despindo-se de antigas convicções; colocando em causa o sistema organizacional de ciclos, os currículos, os programas, os manuais e os formatos pedagógicos; errando e prosseguindo, sempre no pressuposto que não existem "modelos únicos", tal como não existem duas escolas iguais, dois públicos iguais e dois grupos de professores iguais. Enfim, no quadro da Autonomia, lutando pela existência de "um país três sistemas". Sempre com rigor, porque não se deve brincar com a Educação.

Se assim não acontecer, politicamente, no caso específico da Região Autónoma da Madeira, estará em causa a própria Autonomia. Para que serviu a regionalização? Apenas para criar edifícios? Essa é a parte mais fácil, convenhamos. Ora, o sistema não precisa de uma pesada e complexa secretaria regional que funcione, por um lado, como "caixa de correio" do ministério, por outro, como fonte de peitos cheios de ar viciado. Tenham presente que a Educação não é gerível através de um piloto automático. Mas é isso que, anualmente, está a acontecer, com chefias cegas relativamente ao que já está a acontecer um pouco por todo o país, onde estão a emergir escolas sem turmas, sem aulas, nem "fatinhos à medida". Existe aprendizagem de sucesso.

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www.gnose.eu






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sábado, 2 de novembro de 2019

É pena a Região Autónoma da Madeira estar paralisada!


"Há escolas que já conseguiram acabar com os chumbos". Alteraram as orientações pedagógicas, reorganizaram os currículos, turmas e calendários escolares. - Fonte: Semanário Expresso, edição 2453, 01.11.2019. Afinal, a "autonomia" anda pelo espaço continental, enquanto na Região Autónoma da Madeira preferem centralizar e perseguir com os resultados negativos que são públicos e notórios. O que fizeram à escola do Curral das Freiras e ao seu director é o exemplo mais evidente.


O objectivo centrou-se no "chumbo zero", o ministério abriu o caminho, as escolas reorganizaram-se e conseguiram. Através do "Projecto-Piloto de Inovação Pedagógica", no Agrupamento de Escolas do Freixo, em Ponto de Lima, há dois anos que nenhum aluno chumba no Ensino Básico. "Em Cristelo, Paredes, num agrupamento inserido num meio com sérias carências - 85% são apoiados pela acção social escolar - passou-se de taxas de insucesso de dois dígitos para zero no primeiro e segundo ciclos (...)". 

A liberdade curricular dada pelo ministério, "foi aproveitada para fazer uma revolução nos horários e na forma de trabalhar com os alunos" (...) "os alunos nem sempre estão na mesma turma, há semanas que não têm disciplinas, e há horas que articulam matérias, competências e atitudes (...).

"Criaram-se quatro áreas transversais que são trabalhadas por todos os anos de ensino ao longo de oito semanas, pela ordem que os alunos quiserem (...)". Na última semana de cada área "o horário escolar desaparece e o tempo é dedicado à apresentação de trabalhos, visitas e debates".
Dizem os responsáveis que "os alunos partem muito mais motivados e aprendem de forma significativa" (...) o paradigma "exige que sejam criativos, que pensem melhor, que falem mais e que resolvam problemas".
Uma curiosidade: "o director de turma deu lugar ao director do aluno". Segundo um estudo realizado junto dos mais de 4000 alunos do agrupamento, 70% dos alunos consideraram que as mudanças ajudaram a "aprender mais" e "mais facilmente".

Estou convicto que estes são, apenas, os primeiros passos de um processo. Tempos virão que, sobretudo no ensino básico, a partir de uma concepção genérica, os currículos, os programas e os paradigmas pedagógicos serão, totalmente, da responsabilidade de cada escola no quadro da sua autonomia. Simplesmente porque não existem duas escolas iguais, dois públicos iguais, dois grupos de professores exactamente iguais, pais e encarregados de educação iguais e enquadramentos sociais iguais. 

É na diversidade que podemos encontrar o sucesso e é respeitando um princípio de uma escola para cada um e não de uma escola para todos, que não devem existir estabelecimentos de ensino, mas estabelecimentos de aprendizagem, que tempos virão que a velha concepção de escola será derrubada.
Lamento que a Região da Madeira que grita pela Autonomia, continue aferrolhada em uma centralizadora e burocrática torre de marfim. Abram os olhos!
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quarta-feira, 11 de abril de 2018

PELO MEU DISTINTO COLEGA JOAQUIM JOSÉ DE SOUSA


O Dr. Joaquim José de Sousa, director da Escola do Curral das Freiras, foi formalmente "acusado" pela Inspecção Regional de Educação. Eu diria, frontalmente, desde logo e sem rodeios, porque estou cansado de ver uma certa ignorância altifalante, que o professor foi visado pelos medíocres do costume. Aprenderam pela cartilha partidária, a tal que estabelece a hierarquia à qual todos devem curvar-se, daí que, nada melhor do que seguir o "chefe", não o líder, optar pela rotina e não pela inovação, pelo nariz junto ao joelho e não pela coluna erecta, pelos salamaleques de concordância e não pelas atitudes que demonstram paixão pela formação de todos os que frequentam a escola. Por isso, repetem a cartilha, qual argamassa feita de tolice, medo e insipiência. Apresentam-se, assim, como importantes no meio da vulgaridade, quando, se estivessem atentos, perceberiam que "a ignorância só se combate com educação", não com saloias perseguições.


E assim, pergunto, quem são, que sabem de Educação e de Sistema Educativo? Quem são essas figurinhas, que assinam por baixo, dando cobertura a situações marcadamente partidárias? E quais as razões do silêncio de todos quantos, há anos, por ali andam? E quem é essa "inspectora" que descobriu as acusações plasmadas na nota de culpa? Quais os seus passados, o que trouxeram de novo ao sistema, que livros ou artigos de ciência escreveram e que pensamento expressaram, que valores defendem, que escola desejam? Desconheço.
A caracterização que faço é a do "chefe" que caminha pelos corredores do poder, com a ambição inversamente proporcional à competência; a daqueles que fizeram toda a vidinha naquele espaço, saltitando de serviço em serviço conforme os interesses; e, já agora, da "inspectora", pasmo em saber, que esteve a contas com um processo disciplinar antes de ascender aos olhos e ouvidos do "chefe". O alegado "crime" foi compensado! De "ré" passou a "juíza". Está tudo dito.
É este quadro que me deixa triste e revoltado. Eu que, aposentado, mas com 40 anos dedicados à Educação, bem poderia estar caladinho, vendo a tristeza passar, borrifando-me para o que vejo, porém, confesso, não consigo. Porque entendo que, com a EDUCAÇÃO ninguém deve brincar no plano partidário. A Educação é um desígnio da comunidade, que deve ser politizada, sublinho, nunca partidarizada. Quando não se aproveita as pessoas de valor que estão no activo e, ao contrário disso, persegue-se e boicota-se o diálogo, talvez porque se sintam diminuídas pelo êxito de outros, patente no facto da Escola do Curral ter tido mediatismo nacional, tal denuncia uma sintomatologia de inveja e de provocação que atenta contra a dignidade profissional do(s) visado(s). Em um quadro destes só pode existir uma resposta, a da cidadania, a do combate sem tréguas contra a prepotência e a maldade disfarçada com sorrisos, para que não avancem, julgando que fazem aos outros o que querem e entendem.
A Escola precisa de serenidade e esse aspecto não é possível com atitudes centralizadoras, de perseguição e chantagem; a Escola necessita de plena autonomia e isso não se consegue como bem caracterizou o Professor Licínio Lima: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós"; a Escola precisa de financiamento para que as dívidas acumuladas não sufoquem o projecto educativo; a Escola tem de sair dos seus muros convencionais e projectar-se na vida real, interagindo, no meio de todos os outros sistemas, analisando-os e compreendendo-os com o necessário pensamento crítico; a Escola não pode ser a mera repetição que prepara exames, quando, hoje, os alunos interagem com o conhecimento de forma diferente das gerações passadas; a Escola não precisa de um fatinho de tamanho único, mas do respeito pela diversidade cultural, expectativas e potencialidades de cada um; a Escola não pode ser professores, por um lado, alunos, por outro, auxiliares que cumprem ordens, pais distantes, antes uma comunidade em aprendizagem permanente, onde todos dão e recebem; a Escola não deve caracterizar-se pela imensidão de pequenos projectos desarticulados no tempo, antes pela existência de um só projecto, aglutinador e portador de futuro; a Escola não deve ser conservadora e reprodutora de modelos sociais, com um currículo e disciplinas desconjuntadas no tempo, antes um espaço de criação, inovação, de cultura, de auto-estima e de afectos, capaz de gerar, paulatinamente, os pressupostos da curiosidade; a Escola não deve fundar-se na burocracia, nos papéis, muitos papéis que circulam e enervam, tarde ou cedo destinados ao arquivo morto, à prateleira final de circulares e normativos, a maioria repetitivos e desnecessários, mas que justificam os lugares que a hierarquia política ocupa; a Escola é muito mais que sumários e pormenorizadas grelhas de avaliação, com percentagens para tudo, encaixotando a diversidade social entre 0 e 100%, antes a disponibilidade para o conhecimento, produção de saberes consistentes e fermento para a vida; a Escola não pode ser um local triste e enfadonho, antes um espaço de prazer pelo estudo, pela descoberta e pelo desenvolvimento da curiosidade que conduz ao conhecimento sustentado; a Escola não pode caracterizar-se por um sentido individualista, quando as áreas de intervenção profissional fazem apelo ao trabalho em grupo; a Escola não pode assentar em exaustivos programas e conteúdos para esquecer, antes o foco da sua missão deve centrar-se no pensamento, questionamento de tudo e descoberta de caminhos. Ora, tudo isto dá muito trabalho, ora se dá! Romper com o passado e com as rotinas assentes na lógica do toca-entra-toca-sai, é complexo. Eu sei que é difícil, depois de dezenas de anos, de uma classe docente envelhecida, assumir que educar é muito mais do que transmitir conhecimento enciclopédico e que o papel do professor deve ser hoje a de mediador e potenciador da descoberta. Mas é por aí que o caminho tem de ser trilhado. Para que o êxito aconteça e baixem os números do abandono e do insucesso.
Li, já tem uns anos, uma posição que me cativou, a de Izabel Sadalla Grispino, hoje aposentada, que desempenhou funções de supervisora de ensino: "(...) antes de colocar a educação numa vala comum, é recomendável examinar cada indivíduo, cada anseio, cada desejo embutido na personalidade. Escola é um suporte pedagógico vital para o crescimento individual, crescimento de valores voltados ao ser singular (...)". A tal "inspectora" e acólitos percebem a dimensão deste pensamento?
É este o erro do Professor Joaquim Sousa e dos que o acompanham na Escola. O erro da comunidade educativa do Curral assenta na luta contra o marasmo, contra o deixa andar, descobrindo, precocemente, as fragilidades, os transtornos de aprendizagem e actuando em consonância. Daí terem chegado ao reconhecimento nacional. Há erros de percurso? Pois, quem dirige, sem excepção, não está isento de falhar. Até a "inspectora" já falhou. Houve documentos que não foram preenchidos? Pois, até pode ser verdade. Agora, será que os burocratas não entendem que tais alegados incumprimentos valem zero perante a grandeza de querer partir da escola real para a escola ideal?
Mudem de registo e parem com intervenções revoltantes, abusivas e que transmitem o sentimento da perseguição e da maldade. Revejam a vossa "gramática" de escola. Se não conseguirem, mudem de profissão.
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segunda-feira, 9 de abril de 2018

POLÍTICA EDUCATIVA - MADEIRA APRESENTA O PIOR NÍVEL DE ESCOLARIDADE DA PENÍNSULA IBÉRICA


Fonte DN-Madeira: "entre a população dos 25 aos 64 anos, apenas 16,6% tinham escolaridade média" - conclusão do estudo Península Ibérica em Números - 2017. Curiosamente, dita o estudo que, em Espanha, o valor mais alto foi atingido nas Ilhas Baleares com 28,5%. Interessante a diferença entre as duas comunidades autónomas. Na parte ibérica, a área Metropolitana de Lisboa apresenta o melhor resultado, com 27,3% e, em Espanha, o mínimo foi verificado na Extremadura com 17,2%. A Região da Madeira apresentou resultados piores que em 2015, no que concerne à escolaridade média, de acordo com os níveis 3 e 4 da classificação ISCED (ensino secundário e pós-secundário não superior - 12º ano ou profissionalizante. Uma situação que se reflecte no emprego, obviamente. Salienta o excelente trabalho do jornalista Francisco José Cardoso: "Na Madeira, actualmente, entre 17.300 desempregados inscritos, 62,3% têm, no máximo, o 3º ciclo do Ensino Básico (...) por grupos etários, 65,4% têm idades compreendidas entre 25 e 54 anos".


Se analisarmos esta síntese, uma palavra pode caracterizar a situação: desastre. É um desastre na política educativa, económica, social e cultural. Desastre que já estamos a pagar, face a um mundo global, competitivo e exigente. Aliás, estes resultados não são fruto do acaso. Há uma história de causas sectoriais na estrutura de construção da sociedade, onde tudo, ao invés de se encontrar interligado, mostra-se desarticulado, portanto, sem uma linha orientadora e portadora de futuro. É, também, a derrota da centralização. Quatro estruturas em falência explicam a situação: a familiar, a laboral, a escolar e a mentalidade de governantes e de governados. Podemos aduzir ou compaginar outras, mas, talvez estas, constituam o núcleo central do problema.
Durante os últimos 40 anos a prioridade não foi o ser humano como "obra" prioritária, esse investimento capaz de enfrentar os desafios de um futuro que, sublinho, sabíamos vir a tornar-se de uma enormíssima complexidade. Prevaleceu, exageradamente, como se não houvesse amanhã, a obra física, como designou Edgar Silva, a "fúria inauguracionista", que tomou conta da consciência de quem foi governo. A percentagem de cimento ou de carros vendidos caracterizou o crescimento. Hoje, qualquer cidadão atento sabe que essa política foi mortal para o desenvolvimento equilibrado, feito de acordo com a  cadência do tempo. Corolário: a eleição seguinte foi sempre fonte prioritária relativamente à geração seguinte. Perderam-se no labirinto dos interesses e de uma visão estrábica do desenvolvimento, onde a qualidade deveria ser a pedra de toque a todos os níveis. E assim criaram duas sociedades, a endinheirada, capaz de possibilitar aos filhos uma formação de topo; a pobre, tendencialmente escrava dos contratos a prazo, dos recibos-verdes e do salário escasso. Se isto não foi intencional, então, qual a outra justificação para aqueles pobres resultados?
E falam, de boca cheia, do sucesso, acenam com o empreendedorismo, com os incentivos à robotização, do Brava Valley, de projectos e mais projectos que encantam os distraídos, esquecendo-se, como há anos me disse o meu Amigo Engº Arlindo Oliveira, ao longo de uma cavaqueira, que permanecemos "vestidos de smoking, mas descalços". Não falam, nem desejam equacionar as grandes questões, a empresarial e laboral (há um estudo, que já tem uns anos, que prova o desequilíbrio, por ausência de planeamento, entre uma oferta para um milhão de habitantes, quando por aqui somos 250.000); não falam nem desejam equacionar as questões a montante de uma sociedade com mais de 30% de pobres e uma larga percentagem em pobreza persistente; não falam nem desejam falar da estrutura escolar, completamente ultrapassada na sua organização geral, no plano curricular, programático e pedagógico; não falam nem desejam falar sobre as características idiossincráticas que marcam, negativamente, o povo (nada tem a ver com aspectos de natureza cultural). Tudo isso tem sido paleio, abstração, porém, o resultado é aquele. Pergunto: por este caminho haverá futuro? Bastará chutar para Lisboa, como alívio da consciência, todos os erros estratégicos de uma terra Autónoma, com Estatuto Político-Administrativo próprio, com uma Assembleia Legislativa própria, com  um governo próprio e um Orçamento próprio?
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segunda-feira, 19 de março de 2018

BERTRAND RUSSELL (1872/1970) IDENTIFICOU O PROBLEMA



"São eles quem mais intimamente conhece as necessidades dos jovens. São eles que, por intermédio de um contacto diário, mais acabam por cuidar dos jovens. Mas não são eles que decidem o que deve ser ensinado ou quais os métodos de ensino a adoptar. Nesse sentido a profissão de professor deveria ter muito maior liberdade. Deveria haver mais oportunidade de autodeterminação, mais independência, face à interferência dos burocratas e fanáticos. (...) Como o artista, o filósofo e o homem de letras, o professor só pode realizar o seu trabalho, adequadamente, se se sentir um indivíduo dirigido por um impulso criador interno e se não estiver dominado e acorrentado por uma autoridade exterior"

In As Funções de um Professor - 1950

sábado, 3 de março de 2018

O SISTEMA EDUCATIVO REGIONAL SOFRE DA POLÍTICA DO INTERRUPTOR


Ainda bem que o assunto "processo de inquérito" ou "processo disciplinar" (desconheço a fase e pouco isso me rala) continua a mexer. Pela minha banda a procissão "Curral das Freiras" ainda nem ao adro saiu. O que significa dizer que continuarei a combater a centralização e todas as ameaças, subtis ou descaradas, contra os professores, desde que se me afigurem injustas. Continuarei a defender, por extensão, um sistema educativo enquadrado com as exigentes respostas dos tempos que estamos a viver. Daí que, por uma questão de princípio, sustento que a Educação deve ser POLITIZADA, mas nunca PARTIDARIZADA. E pelo andar da carruagem, está! Existe muita falinha mansa, muita conquista política das pessoas com palavras envoltas em mel, "nomeações políticas" a carecerem pormenorizada explicação (vide edição de hoje do DN-Madeira) porém, o sistema, velho e gasto, tresanda e deixa rabinhos de fora à mercê de quem deseje analisar.


Há, indiscutivelmente, uma perseguição política ao Professor Joaquim José de Sousa da Escola 1,2,3 do Curral das Freiras. Na minha página de Facebook, a propósito de um texto que publiquei, quatro pessoas deixaram os seguintes comentários:

Flavio Sousa O Joaquim José Sousa é uma personalidade pública brilhante e incómoda, não acredito que as acusações sejam verdadeiras. Só um psicopata ou um mentecapto poderia falsear rankings, favorecer professores amigos na distribuição de horários ou inscrever alunos em cefs sem o seu conhecimento e depois culpar os professores.
Mony Trindade Grande pessoa! Grande ser humano! Excelente diretor! Se algum dia me senti verdadeiramente útil, acarinhada e valorizada foi sob a sua chefia na escola do Curral da qual guardo excelentes recordações e estará eternamente no meu coração!
Orlanda Santos Muito Bom o post. Política suja! Deixem o homem trabalhar e com bons resultados! Parabéns a este professor pelo seu trabalho de ajudar a formar alunos com bons resultados!
Daniela Silva Enquanto uns tentam manchar a imagem da escola e do próprio director, ele está lá na escola a trabalhar e a nos incentivar a sermos cada vez melhores! Sem dúvida uma grande pessoa e um grande exemplo a seguir.

Comentários livres e espontâneos. Para o secretário da Educação e os que o rodeiam tais comentários não são preocupantes, certamente. A norma é mais importante que o desejo de fazer diferente e melhor. A circular é muito mais relevante que qualquer dinâmica do e para o aluno. O preceito é muitíssimo mais importante do que desenvolver o pensamento e a criatividade. O modelo, tipo pronto-a-vestir, tamanho único, deve sobrepôr-se a qualquer tentativa de inovação. O padrão, do Porto Santo à Ponta do Pargo é para ser aplicado sem questionamento. É a política do interruptor: alguém liga e todos cumprem. Tudo o resto é pura fantasia.
Aliás, nesta Legislatura, a caminho de três anos de governo AUTÓNOMO, quando existe tanto, mas tanto texto e posições sobre a construção do futuro, talvez a ignorância seja minha, não consigo descobrir uma linha de pensamento (só uma) sobre o futuro. Apenas rotina, burocracia, visitas de circunstância, muita pose e "ponto e vírgula", dando aso a que se pense que quem manda nisto somos nós! Ora bem, será que ninguém consegue ver o erro estratégico? Será que, nesta grande parada, quem está com o passo trocado são todos quantos se opõem, desde a OCDE, aos investigadores e autores?
Por favor, não partidarizem isto, porque isto é o nosso futuro colectivo. Percebam uma coisa: pode-se apresentar 100% de "sucesso" nesta ou naquela escola, atenção, no quadro deste sistema educativo, porém, o problema não reside aí, ele está em um sistema estruturalmente desadequado. Logo, os tais 100%  podem corresponder a 100% de insistência no erro. Quando outro é o processo e os resultados satisfatórios, aí sim, podemos, então, falar de sucesso.  
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sábado, 10 de fevereiro de 2018

AINDA SOBRE OS "RANKING'S" E A AUTONOMIA DAS ESCOLAS


Ao contrário de algumas pessoas, eu "diabolizo" os ranking's das escolas. Houve tempo, lá para trás, no início dessa paranóia, que ainda considerei poder constituir um mero indicador. Ao longo do tempo, lendo estudos e reflectindo sobre todas as variáveis, aliás como já tive a oportunidade de aqui me prenunciar, não só "diabolizo" como entendo que constitui uma infantilidade conceptual defendê-los. Analiso a escola por aquilo que fazem, pela estrutura organizacional que implementam, pela cultura pedagógica que perseguem, pelas preocupações inclusivas e pelo esforço de ninguém ficar para trás, pela sua luta que atenua as diferenças económicas, sociais e culturais e pelo trajecto dos seus alunos após a passagem por um determinado estabelecimento. Simplesmente porque não existem dois públicos iguais, dois grupos de docentes iguais e, portanto, duas escolas iguais. "Diabolizo", porque é um erro conceptual grave conjugar no mesmo patamar as áreas de intervenção pública e privada. Não faz qualquer sentido, nem justificação existe, seja qual for o ângulo de análise, tolerar sequer a existência de ranking's. De escolas e de exames! E se eles existem é porque existem exames. E eu sou, no ensino básico, contra os exames. Há outras formas de acompanhamento e de avaliação. Ademais, tolerar os "ranking's" significa tolerar o actual sistema educativo e manter a desigualdade. 


Na esteira deste posicionamento surge a "autonomia" dos estabelecimentos de educação e ensino. Colocar reservas quanto ao manifesto interesse de um sistema descentralizado e verdadeiramente autónomo, constitui, do meu ponto de vista, um outro grave erro no quadro do pensamento estratégico portador de futuro. Assumir, como ouvi, que há escolas, talvez se possa dizer, professores, que não estão preparados para a "autonomia", é o mesmo que colocar em causa, desde o tempo da ditadura, a luta pela Autonomia da Região, porque os madeirenses e porto-santenses não estariam preparados para ela. A "autonomia" é um processo de avanços e de recuos no quadro da diferenciação, de aprendizagem permanente, é um caminho de utopia que serve para seguir com convicção, feito de experiências que conduzem à melhoria dos resultados. É esta a minha leitura. Aliás, ainda ontem, o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, assumiu: "o que nos dizem as práticas internacionais é que a autonomia das escolas consegue fortalecer, robustecer e alavancar os conhecimentos". Concordo. Na mesma sessão, Andreas Schleicher, da OCDE, foi muito claro: "(...) o desafio para Portugal é educar para as próximas gerações. Para o futuro e não para o passado. E isso significa dar às escolas, mais protagonismo, mais flexibilidade, para alargar o tipo de conhecimentos, aptidões e competências, mas ao mesmo tempo criar mais espaço aos professores e ambientes de aprendizagem inovadores, dando aos estudantes os meios para se preparem para o futuro". Alguém terá dúvidas que este é o caminho? É a própria OCDE que questiona a existência de exames nacionais e defende a autonomia.
Daqui concluo, "ranking's" não, obrigado; autonomia, sim, para as escolas, rapidamente.
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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

QUANDO É "PROIBIDO" VER O MUNDO PARA ALÉM DOS MUROS DA ESCOLA


Os últimos dois meses foram, para mim, muito interessantes e motivadores. Por um lado, li, em primeira mão, o novo livro do meu distinto Amigo Professor Doutor Gustavo Pires sobre Pierre de Coubertin e a História do Movimento Olímpico. Antes da sua apresentação, que terá lugar ao longo do mês de Setembro, pediu-me que o lesse. Enriqueceu-me, sobremaneira. Um livro a não perder, por políticos, agentes desportivos, pais e jovens. Por outro lado, a vivência diária com os netos permitiu-me descobrir ou consolidar percepções que há muito venho alimentando. Porque uma coisa, para além da função docente exercida, é ler sobre temas de educação, sistema educativo e aprendizagem, outra, é estar atento ao que as crianças pensam e como agem no tempo que estão a viver. É sobre este aspecto que aqui deixo mais uma reflexão, quando se aproxima o dia do tal "regresso às aulas".


Não me restam dúvidas que, de Setembro a Junho próximo, será mais do mesmo. Tudo ficará confinado a uma palavra: rotina. Currículos genericamente iguais, programas e manuais para cumprir, sumários, tarefas e mais tarefas impostas e condicionadoras da autonomia das escolas, testes e grelhas de avaliação, discussões repetitivas e estéreis aos níveis de departamentos e conselhos de turma, muita burocracia, portas que se abrem e fecham ao toque da campainha, professores angustiados, direcções executivas a contarem cêntimos, enfim, está de regresso a normal anormalidade. Julho e Agosto já foram, para não falar dos meses anteriores, e da parte de quem tem o dever de governar a Região Autónoma, manteve-se o enervante silêncio cúmplice, correspondente ao aforismo "tudo como dantes no quartel-general de Abrantes". A criança que, teoricamente, dizem estar no centro das políticas educativas, pergunto, se alguém, no seu perfeito juízo, poderá assumir que esse é o desígnio? Ou será que a rotina, o sistema hierarquizado, centralizado e padronizado é preferível e mantido pelo receio de perda de influência política? Já não vou tanto pela linha da ignorância que obstaculiza a que os decisores políticos não saibam o que se está a passar. Até porque, hoje, existe tanta informação e tanta formação. Até marcam presença nas cerimónias de abertura, de congressos a seminários. O problema, por isso, parece-me ser acomodação, desleixo, falta de ambição e para quê mudar se isso só dá trabalho? Ora, isto a propósito de quê? Ah, dos netos, que fui olhando e analisando através dos detalhes das conversas e das atitudes. O que sentem, o que dizem, o que sabem, como olham para a escola e para a aprendizagem, não foi para mim uma novidade, mas mais do que isso, uma reflexão sobre as mudanças cada vez mais necessárias.
O mais novo, de dois anos, mexe no telemóvel e no ipad de uma forma que me espanta; os mais velhos dão-me lições de tecnologia. E dou comigo a pensar, mais dia menos dia, lá estarão em uma sala, presos a um quadro preto, sentados e alinhados, ouvindo e repetindo mecanicamente, mor das vezes, a repetição do manual, para depois debitarem nos testes e esquecer. Sentados e distantes da tecnologia e das ferramentas que eles próprios dispõem. E que as escolas, muitas, também têm, apenas para o que dá jeito. É o sistema que, genericamente, ainda continua a centrar no professor o conhecimento, quando esse conhecimento, pode e deveria estar à distância de um arrastar de um dedo sobre o ecrã ou de um clique. Não se trata de substituir o professor pelo "Dr. Google", mas de perceber que existe mais mundo para além do manual. E que a verdadeira aprendizagem é aquela que fica, aquela que é retida e que, pela vivência participada e sentida, possibilita a transferência, o que não é possível com aquela "injectada", descontextualizada e que não se relaciona com nada. Ler por obrigação é uma coisa; ler por gosto e sentido de curiosidade, de universo e de aprendizagem, é outra. E isso aprende-se sem ultrapassar etapas. Saber datas históricas é uma coisa; compreender e relacionar factos e tempos históricos a vários níveis é outra bem diferente. 
Ora, sendo a vida complexa, logo a aprendizagem deveria assentar em estudos sobre "fenómenos complexos". A vida, inclusive a de natureza profissional, não é um conjunto de disciplinas segmentadas. É um aglomerado de conhecimentos relacionados entre si, que implicam participação activa e não passiva, permanente questionamento, sentido de busca e dúvida. O sistema permite isto? Obviamente que não. O sistema quer a resposta, não quer a pergunta embaraçosa e desafiadora que, dizem, "faz perder tempo"; o sistema quer o cumprimento do sumário; quer as crianças sentadas e obedientes, não quer a azáfama pelo conhecimento; quer o programa tim-tim-por-tim-tim, porque o professor também tem de ser avaliado; quer o relatório, dispensa o conteúdo e os alunos; o sistema vive e prefere a falsa meritocracia, o teste, o exame, o quadro de honra e encolhe os ombros aos trágicos números do insucesso e do abandono; o sistema ama a Sociedade Industrial, a linha de montagem e abomina a inovação e a criatividade, porque são perigosas. E assim, com várias e distintivas excepções, o sistema é isto! Tudo igual, há dezenas de anos igual. Preferia uma escola sem muros, os tais que tolhem a capacidade de ver que existe mais mundo e curiosidades por descobrir. Alguns, conseguem espreitar subindo ao muro, mas por aí ficam. Infelizmente. O Ensino Básico deveria ser aquilo, mas não é! É limitador e desinteressante, castrador da inteligência e restritivo da curiosidade.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 13 de agosto de 2017

A LIBERDADE DE APRENDER "SEM PROGRAMA, TESTES, TRABALHOS DE CASA E HORÁRIOS"


Foi manchete do Jornal de Notícias de ontem: "Triplicam as crianças que têm escola em casa - Aumenta o número de famílias a optar pelo ensino  doméstico.  Defendem que menores ganham tempo para outras actividades". Não se trata de qualquer leviandade por parte dos pais. Apenas uma opção que pode conduzir até ao "Doutoramento sem nunca ter ido à escola", conforme assume o Professor Álvaro Ribeiro. "Devemos ter a humildade para saber as necessidades de cada filho (...) a flexibilidade de horário revelou-se uma das maiores vantagens da modalidade (...) a escola é muito absorvente. Mobiliza muito o tempo social da crianças", assume a mãe Laura. "A maioria dos alunos, se tivesse opção não estaria na escola e isso é muito grave", salienta a investigadora em Psicologia da Educação Inês Peceguina. "O acesso à educação tornou as pessoas mais críticas e exigentes", depois, insiste, o sistema de ensino em sala de aula pouco mudou (...)". A questão é exactamente esta. A rotina que mata e afasta. O tempo perdido em generalidades, vulgaridades e na insistência em assuntos cujas abordagens surgem desfasadas do tempo que estão a viver.


As famílias destacam, por isso, a liberdade de aprender "sem programa, testes, trabalhos de casa ou horário". Tomamos o pequeno-almoço todos juntos. Não nos levantamos a correr, nem nos preocupamos com a hora de deitar. É uma liberdade completamente diferente. As famílias escolhem este tipo de enquadramento porque as crianças apresentam-se "desmotivadas e esgotadas com prolongadas jornadas de trabalho" escolar. São já 661 crianças inscritas no ensino doméstico e individual. Crianças que apenas têm de realizar provas de equivalência a todas as disciplinas no final de cada ciclo, realizadas pelas escolas. As provas de aferição só são feitas se os pais o desejarem e os exames no secundário se quiserem concorrer ao Superior. E o curioso, se se trata de curiosidade, é que desta opção resultam boas classificações. E aqui não são "contabilizados" os conhecimentos que estão muito para além dos manuais e tudo aquilo que a escola tradicional não dá nem pode oferecer: as vivências culturais de todo o género que, devidamente enquadradas, valem muito. Achei interessante, neste trabalho da jornalista Alexandra Inácio, um pai assumir que o filho "aprendeu a aprender", que a opção foi ler muito, os livros e não os excertos, a preocupação de desescolarizarem tendo por objectivo o desenvolvimento da criatividade e o hábito de pensar.
É claro que a formação dos pais é determinante. A grande maioria tem ensino superior e actividades profissionais independentes que lhes permite o tempo necessário para o acompanhamento. O processo não é, de forma alguma, generalizável. O significado desta opção e destas experiências é aquele que coloca em causa o sistema tradicional de aprendizagem. Melhor dizendo, perante isto, o que é que o actual sistema tem de fazer para que a Escola não seja, para muitos, a "catedral do tédio". É preciso que os alunos contem, como li na peça de Clara Viana, em Abril de 2016: "(...) pode parecer pouca coisa, mas esse pouco, que em Portugal será sempre muito, poderia curar o crescente desamor dos jovens face à escola. Basta começar por lhes "dar voz", permitir que até no ensino secundário sejam eles a escolher disciplinas em função dos seus "interesses e talentos". Missão impossível? "(...) Se outros países já o fizeram, nós também podemos, embora isso signifique uma grande transformação do ensino em Portugal", responde Manuel Magalhães, 20 anos, que está a estudar no Instituto Politécnico de Leiria. É um dos seis jovens, entre os 16 e os 20 anos, a quem o PÚBLICO perguntou: o que pode ser mudado nas escolas para que estas (e o processo de aprendizagem) se tornem mais atractivos para os alunos. O problema reside aqui.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

FINALMENTE, ESTÁ DADO O PRIMEIRO PASSO. AINDA MUITO DISTANTE DO DESEJÁVEL, MAIS DE 20% DAS ESCOLAS VÃO PODER ESCOLHER COMO ENSINAR


Projecto-piloto arranca em Setembro e abrange 171 escolas públicas 61 privadas e quatro das sete escolas portuguesas no estrangeiro. Experiência só abrange os anos iniciais de cada ciclo de escolaridade. Por Clara Viana, Público, 10.08.2017.  


O segredo foi finalmente desvendado. No próximo ano lectivo serão 230 as escolas que irão testar as mudanças propostas pelo Ministério da Educação (ME) no âmbito do projecto-piloto da flexibilidade curricular, segundo revelou a tutela ao PÚBLICO. Deste total, 171 são escolas públicas o que corresponde a 21,1% da rede de oferta existente, que é constituída por 713 agrupamentos e 95 escolas não agrupadas.
No projecto estarão ainda envolvidas 61 escolas privadas e quatro das sete escolas portuguesas no estrangeiro. Segundo o ME, a lista com os nomes dos estabelecimentos de ensino envolvidos deverá “ser publicada nos próximos dias” no site da Direcção-Geral de Educação.

Escolas vão ter cinco horas por semana para inovar métodos de ensino


O novo modelo só será aplicado no primeiro ano de cada ciclo de escolaridade (1.º, 5.º, 7.º e 10.º). Às escolas foi deixada a decisão de fixar quantas turmas destes anos irão participar na experiência, o que por esta altura já deverá ser conhecido uma vez que as listas com a constituição de turmas foram afixadas no dia 28 de Julho, indicou o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima.
O agrupamento de que é director (Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia) é um dos que integra o projecto-piloto. Tem cinco escolas e há 8 turmas que foram seleccionadas para o efeito: cinco do 1.º ano, uma do 5.º e duas do 7.º. No caso destes últimos dois anos, as turmas foram seleccionadas “com base no que foi a percepção do trabalho desenvolvido no ano anterior ou seja, tendo em conta as características dos alunos e os hábitos de trabalho dos alunos que lhes foram incutidos pelos seus professores”, esclareceu Filinto Lima, adiantando que reuniu antes com os pais das crianças.
O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascenção, mostrou-se “apreensivo” pelo facto de nem o ministério nem as escolas estarem a informar os encarregados de educação sobre quem será abrangido por estas mudanças. “Os pais têm o direito de saber o que vai acontecer no próximo ano lectivo e isso não está a acontecer."
As escolas que vão inaugurar a experiência de flexibilidade curricular têm apenas uma obrigação: a integração na matriz curricular de duas novas áreas. São elas Cidadania e Desenvolvimento e Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). É o que se encontra estipulado no despacho que regulamenta o novo modelo, que foi publicado no início de Julho.
Mas, se assim o entenderem, vão ter também 25% do tempo de aulas para tentar levar por diante novas formas de ensinar. O que passará pela constituição de novas disciplinas, mas também por várias outras soluções já apresentadas pelo Ministério da Educação. Uma possibilidade: a fusão de disciplinas em áreas disciplinares, em que dois ou mais professores “trabalham em equipa” na preparação das aulas, que podem ser dadas à vez por cada um ou em conjunto. Por exemplo: em vez de trabalhar de forma separada as disciplinas de Físico-Química e Ciências Naturais, a escola pode juntá-las com a carga horária equivalente à soma das duas.
Pode-se optar também pela alternância entre tempos de estudos tradicionais e semanas em que toda a escola trabalha em conjunto, numa perspectiva multidisciplinar, um só tema. Por exemplo, “a Europa” ou “a crise dos refugiados”. Esta é uma experiência que está a ser seguida na Finlândia.
O ME tem garantido que a nova experiência não implicará uma revisão curricular e que os actuais programas se manterão em vigor, mas os alunos abrangidos pela flexibilidade curricular terão novos documentos de referência, que se intitulam aprendizagens essenciais, e que irão, na prática, substituir as metas curriculares elaboradas durante o mandato de Nuno Crato. As escolas podem ainda optar por transformar disciplinas anuais em semestrais e os alunos do 10.º ano terão a possibilidade de trocar uma disciplina do seu curso por outra de um curso diferente.