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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

"As provas PISA são o concurso de beleza da pedagogia"


Esqueçam as provas PISA. Não as sobrevalorizem. Se Portugal está acima ou abaixo da média europeia, tudo isso é, estruturalmente, uma treta. A aprendizagem é muito mais que uma prova que não prova. PISA (Programme for International Student Assessement) não prova nada, repito. As declarações de Pablo Gentili, ex-secretário executivo do "Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO) e Doutor em Educação pela Universidade de Buenos Aires, são evidentes: "(…) las pruebas PISA son el concurso de belleza de la pedagogia" (…) el PISA construye un mecanismo artificial, lo impone y nadie lo cuestiona, y luego compara (…) las pruebas PISA son "un verdadero desastre", se imponen por la fuerza que ejerce la organización poderosa que las realiza en los medios de comunicación (...)".



O Professor Pablo Gentili tem razão. Reparem na dicotomia entre o que diz Andreas Schleicher, conselheiro especial em política educacional do secretário-geral da OCDE, e o que esta instituição implementa:

"O desafio de Portugal é educar para as próximas gerações. Para o futuro e não para o passado. E isso significa dar às escolas mais protagonismo e mais flexibilidade, para alargarem o tipo de conhecimentos, aptidões e competências, mas ao mesmo tempo criar mais espaço aos professores e ambientes de aprendizagem inovadores, dando aos estudantes os meios para se preparem para o futuro". 

Ora, isto significa que Schleicher, de forma subtil e moderada, caracteriza o sistema educativo português como um dos que mantêm as traves mestras da Sociedade Industrial, portanto, critica a escola desadequada, relativamente aos tempos que estamos a viver.  E neste aspecto tem razão.  

Só que, a OCDE, pela voz de Schleicher, discursa de uma maneira, fala da necessidade de uma aprendizagem inovadora, todavia, depois, sem ter em consideração as múltiplas variáveis de cada país, as de natureza histórica e social, política, económica, financeira, cultural, as de natureza organizacional do mundo laboral e a própria organização estrutural do sistema educativo português, espeta com um teste que contraria tudo o que deve ser a tal aprendizagem inovadora e portadora de futuro. Parece-me óbvio, conclusão minha, que a OCDE não quer saber do talento e sonhos que cada aluno transporta, tampouco olha para a aprendizagem de acordo com o que a investigação científica tem evidenciado. E têm sido muitos os pensadores e investigadores a alertar! Compreendo, porque se trata de uma organização que tem por objecto a generalização do seu conceito de "desenvolvimento económico", eu diria, colonial, logo, interessa-lhe a tendencial padronização de todos os sistemas ao serviço dos seus interesses. Dir-se-á que, no âmago, caminha pela "(...) Educação vendida a metro" (é de Economia que estamos a falar) como sintetizou o inesquecível Padre José Martins Júnior, numa das nossas longas e proveitosas conversas. 

Para mim fica claro: a OCDE não está interessada em sugerir mudanças significativas. Sem se imiscuir nos países, era o que faltava, interessa-lhe, apenas, semear exigências e recolher os resultados das elites. Regresso a Gentili: "(...) La OCDE parte de un principio equivocado, de que hay una forma de pensar el desarrollo y el mundo, que es universal, de Shanghái hasta República Dominicana, todos los jóvenes con 15 años tienen que saber un conjunto de cosas que son fundamentales para sobrevivir y progresar en la vida". (...) El fundamento se basa en lo que piensan "un conjunto de burócratas" de una organización dedicada a la economía mundial de los países más poderosos del mundo y que se impuso como la visión dominante "a partir de la cual es posible pensar y presentar los objetivos de la educación".

Portanto, para a OCDE a escola não deve ser cultura e alicerçar-se no "conhecimento poderoso", como sublinhou o Professor Domingos Fernandes, ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação, antes prefere, deduzo, a resposta decorada e repetida até à exaustão às perguntas e formatos que interessam aos senhores que dominam a economia mundial. PISA é, de facto, um desastre! Como o são os "ranking´s" das escolas portuguesas ao compararem o incomparável. Conhecer o que PISA intencionalmente esconde e os princípios e valores da OCDE, seria bem mais proveitoso do que olhar de forma fria para o "ranking" de países no sector educativo.

Por outro lado, PISA (destinado a alunos com 15 anos), em síntese, acaba por assentar na grande falha da escola tradicional. Salman Khan, fundador da Academia Khan, assumiu que essa falha está "no conteúdo distribuído de forma fragmentada (por disciplinas), em temas autoconclusivos com todas as conexões cortadas. (…) A escola tradicional não responde ao funcionamento do cérebro, porque as redes neuronais funcionam com a associação de ideias, não com temas estanques (...) O outro problema das salas de aula, é a mentalidade de que é preciso seguir o programa, respeitar um calendário e, obcecadamente, avaliar a todo o momento. E não deve ser assim. Porque cada um, enalteceu Khan, tem um ritmo de aprendizagem diferente. E se não aprenderem no seu ritmo, acumulam lacunas". 

Ora, para a OCDE, entre muitos de pensamento estruturado, Jack Ma, empresário chinês, cofundador do Alibaba Group, certamente que não passa de uma figura com ideias insensatas, quando assumiu em Davos:  "(...) A educação é um grande desafio. Se não mudarem a forma como estão a ensinar, nos próximos 30 anos terão problemas. A maneira como ensinamos, as coisas que ensinamos aos nossos filhos são as coisas dos últimos 200 anos. Não podemos ensinar os nossos filhos a competir com máquinas. Eles são mais inteligentes. Os professores devem parar. (...) Temos que ensinar algo único. A máquina nunca pode sobrepor-se. Estas são as habilidades suaves que precisamos de ensinar: valores, o pensamento independente e o trabalho em equipa. Devemos ensinar aos nossos filhos: o desporto, música, pintura para fazer seres humanos diferentes. Tudo o que se ensinar deve ser diferente (...)". 

Aliás, a OCDE não está preocupada em estudar, profundamente, os vários sistemas educativos, olhando-os de uma forma multifactorial conducentes a apresentar contributos que possam tornar a aprendizagem mais robusta e consistente. Ela deseja, subtilmente, influenciar para padronizar. Ela não entende que o acto pedagógico consequente implica um rompimento com a postura tradicional de "ensino". Ela apenas coloca PISA no eixo da questão e espera reajustamentos. Pessoalmente, estou mais preocupado em analisar a rede escolar e a tipologia dos estabelecimentos de aprendizagem; preocupado com os transbordantes currículos e programas que infernizam alunos e professores; com a escola a tempo inteiro e pais a meio tempo; com o número de alunos por estabelecimento de aprendizagem; com o ingresso e enquadramento dos alunos estrangeiros; com os conceitos de aula, sala de aula e de turma; com as causas da indisciplina geradas a montante da escola; com a agressão que está a ser perpetrada às crianças e jovens através da ocupação do tempo de infância e exigências descabidas (diariamente, estão mais assoberbadas que os adultos); com o seu desenvolvimento motor; com as múltiplas iliteracias; com a organização estrutural das escolas, a sua autonomia real, financiamento e mentalidade do corpo docente; com a formação inicial dos professores; com a situação caótica entre docentes, onde o envelhecimento, o Burnout e a desmotivação alastram; com a excessiva e enervante burocratização do sistema que impede que os professores se dediquem à aprendizagem; com os alunos com necessidades educativas especiais; com a resposta à pergunta: temos professores a menos ou sistema educativo a mais?; com a utilização da tecnologia enquanto indutor fundamental do conhecimento; com a tendencial privatização do sistema educativo e a clara "desequidade educativa" na feliz expressão do Professor David Rodrigues; com a doentia obsessão pela avaliação e não pelo "conhecimento poderoso"; estou preocupado com as políticas de família, porque se a sociedade está doente, a escola não pode estar melhor; estou preocupado com o silêncio dos professores, com a ausência de diálogo com os jovens numa espécie de come e cala-te... por aí fora! Portanto, não é PISA que resolve o "genocídio educacional" de que falou José Pacheco. Definitivamente, não é. PISA, sejamos claros, rejeita que "uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia" - Michael Montaigne (1533/1592). A OCDE não se dá conta que há estudos transversais que evidenciam que "este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes" - Deborak Stipek. 


Nos longos debates e comentários que tenho assistido nos últimos dias, todos centrados nas margens dos verdadeiros problemas, uma jornalista, valha-nos isso, foi assertiva. Sandra Felgueiras olhou para o Ministro da Educação e perguntou: "O Senhor é pai de três filhos. O que é que diz aos seus filhos quando lhe dizem... oh pai, a escola é uma chatice. Eu vou lá aprender uma série de coisas que não interessam para nada.(...) Por que é que temos tantas disciplinas e uma carga horária tão elevada (...) o modelo de ensino que existe hoje é atrativo para os alunos? Não existirá aqui uma completa dissonância entre aquilo que se aprende na escola e a forma como os alunos gostam?" Certamente que a jornalista queria se referir à dissonância entre a escola e a vida. O Ministro, que me parece pouco experiente e dotado para o cargo que exerce, andou às voltas e não respondeu. Contornou e fugiu. E aquelas eram perguntas chave. Eram o fio da meada enquanto ponto de partida para o debate que urge. 

Ora bem, não se é reformador pela digitalização dos exames de 12º ano. Reformar o sistema é uma tarefa exigente porque é multifactorial, exige paciência, por isso mesmo leva muitos anos, onde deve persistir o princípio da continuidade funcional (princípio do desenvolvimento), independentemente da cor política que governe. A propósito, na Página da Educação, nº 227, edição de Verão de 2026, pág. 61, li um artigo de Maria Lopes de Azevedo. Começa assim: "Se a Escola fosse uma peça de mobiliário, seria aquele armário de carvalho maciço, herdado da bisavó que ocupa a sala toda. É imponente, é estruturante, mas está cheio de gavetas que emperram (...) estou cansada de ver tanta roupa boa escondida em gavetas que ninguém abre, enquanto os nossos alunos saem para a rua, metaforicamente falando, vestidos apenas com uma manga de cada cor. Está na hora de deitar o armário velho fora e desenhar um closet onde a aprendizagem respire. E, de preferência, que não precise de uma chave mestra que ninguém sabe onde parou". Trata-se de um artigo notável: "Das gavetas ao closet no ecossistema educativo". 

Se assim defendo é porque sustento a minha posição no rigor, na disciplina, na liberdade, na ciência, na cultura, na descentralização e porque edificar um ser humano, feliz na escola e na vida, necessita de outros olhares geradores de efectiva aprendizagem, distante da ideia que os jovens são recipientes, ou gavetas, onde se introduzem matérias, muitas, muitas mesmo, para esquecer. Tal como naquela notável série televisiva Merli, concluo: "há qualquer coisa de podre na educação". E mais, senhores da OCDE: "não há conhecimento útil, se não nos fizer melhores pessoas" - investigador Miguel Santos Guerra. Esqueçamos PISA e, debatendo, caminhe-se no sentido de uma escola de qualidade.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

PISA - Um concurso de beleza da pedagogia


A última "aferição" PISA (Programme for International Student Assessement) ditou que Portugal, entre a generalidade dos países, piorou nas médias de capacidade na leitura, matemática e ciências. A verdade, porém, é que tais provas não provam nada. Pablo Gentili, Doutor em Educação pela Universidade de Buenos Aires, assume: "(...) Las pruebas PISA construye um mecanismo artificial, lo impone y nadie lo cuestiona, y luego compara (...) las pruebas PISA son un verdadero desastre, se imponen por la fuerza que ejerce la organizatión poderosa que las realiza en los medios de comunicación". Nas suas palavras, em português: "PISA é um concurso de beleza da pedagogia".



Transcrevo o que deixei no meu livro "A Escola é uma seca" (2022): "(...) Há, por um lado, diversas realidades históricas, económicas, políticas, sociais e culturais, que não permitem, com rigor, comparar o que é incomparável e, por outro, da prática, sabe-se que não é seguro o carácter aleatório de escolha dos alunos que se submetem aos testes. Factos que distorcem e colocam em causa o resultado final. Bastam estes dois aspectos para que se fique de pé atrás na análise dos resultados. Muito mais importante seria uma apreciação comparativa da estrutura dos diversos sistemas educativos (organização, currículos, programas e o pensamento pedagógico) no quadro da composição social, se eles estão ou não adequados ao tempo que vivemos, à própria investigação, se transportam ou não um princípio hierárquico contrário à verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, o grau de formação dos docentes e a sua disponibilidade para aceitar novos paradigmas pedagógicos (…)”.

Quem está atento percebe os desígnios da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). Portanto, estas provas PISA, tal como os "ranking's" anuais das escolas, do meu ponto de vista, nem constituem um indicador, aos quais junto o facto de ser contra o pensamento único. Rejeito que poucos, nos gabinetes, influenciem aquilo que deve ser a condução das sociedades. Ora, como ponto de partida, uma outra análise conjuntural devia constituir preocupação e essa resume-se a algumas perguntas essenciais: por que razão apenas cerca de 15% das raparigas e 11% dos rapazes dizem gostar da escola? Por que razão 70% dos professores estão em exaustão emocional (Burnout) e 84% dizem que, se tivessem uma outra oportunidade, mudariam de profissão? No fundo, para uns e outros a conclusão a que se chega é que esta "Escola é uma seca".

Não foi por causa da pandemia COVID e não foi pelas greves dos professores que, no quadro deste sistema, os resultados foram insatisfatórios. Essas são desculpas esfarrapadas. O problema é mais profundo. A pergunta central para o debate que urge é esta: que escola de CULTURA temos o dever de construir para que ela, com rigor, respeite vocações e percursos de vida? Ou a escola tem de ser aquilo que uns quantos, de concepções afuniladas e alinhados no pensamento único, na OCDE e não só, determinam como as peças de um puzzle que se encaixam nos seus indisfarçáveis desígnios? Tenhamos presente que o problema da ausência de CONHECIMENTO tem uma génese político-social. Portanto, não faz sentido manter um sistema rejeitado, desde muito cedo, pela generalidade dos alunos e desadequado que se mostra relativamente ao tempo que vivemos. A insistência no erro por ausência de debate e estudo justificam resultados não proporcionais ao investimento. Eu diria que, na Madeira, onde a propaganda do êxito atinge foros megalómanos, com um sistemático desfile de prémios de mérito, pergunto, então e novamente, qual a justificação para resultados tão fracos (ranking's e PISA)? 

A propósito, repito aqui a posição do visionário Professor José Pacheco que cito ao correr do pensamento: eu preparava meticulosamente as aulas, tendo o cuidado de olhar para a diversidade e insuficiências da classe, e mesmo assim muitos não aprendiam. Era frustrante! Ora, diz o professor, se eu DAVA AULA (certinha) e eles não aprendiam, então não aprendiam porque eu DAVA AULA. Isto significa que o paradigma da aprendizagem e do conhecimento tem, obviamente, de ser outro. Os responsáveis políticos deviam pensar nisto.

É aqui que começa o problema. O paradigma da aprendizagem não pode quedar-se na imposição curricular tão ao gosto da OCDE; nos irracionais programas desfasados da vida real distribuídos por etapas (1º, 2º, 3º ciclos e secundário) quando a aprendizagem funda-se no acto de fazer PENSAR, descobrir e, de forma continuada, a desaprender para voltar a aprender; não pode seguir as características rotineiras de uma avaliação que se destina a seleccionar/penalizar e não a fazer aprender; pela força, ainda, de uma hierarquia que não estimula o debate e, por isso mesmo, centralizadora, que não permite uma reestruturação da rede escolar e uma verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem: não existem duas escolas iguais, dois públicos iguais, professores iguais e características socias iguais. Por tudo isto e muito, muito mais, como ainda ontem escutei, desengane-se quem pense que os dados apurados foram circunstanciais, pois eles tenderão a piorar se o sistema se mantiver enclausurado na sua torre de marfim. Vivemos em 2023, não nos primórdios do século passado! Para não ir mais atrás. Ademais, isto não vai com "salas do futuro" e com "manuais digitais". Esse é um discurso político para tolos!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

PISA visa um modelo educativo colonial


PISA (Programme for International Student Assessement) nada me diz. Na sua essência é uma fraude. Tal como assumiu o Doutor em Educação Pablo Gentili*, Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro,  "las pruebas PISA son el concurso de belleza de la pedagogia" (...) "El PISA construye un mecanismo artificial, lo impone y nadie lo cuestiona, y luego compara (...)". 

A páginas tantas, enaltece o Professor: "(...) La OCDE parte de un principio equivocado, de que hay una forma de pensar el desarrollo y el mundo, que es universal, de Shanghái hasta República Dominicana, todos los jóvenes con 15 años tienen que saber un conjunto de cosas que son fundamentales para sobrevivir y progresar en la vida. El fundamento se basa en lo que piensan "un conjunto de burócratas" de una organización dedicada a la economía mundial "de los países más poderosos del mundo" y que se impuso como la visión dominante "a partir de la cual es posible pensar y presentar los objetivos de la educación". Concordo, em absoluto. E porquê? Porque não existem duas economias iguais, duas histórias e culturas iguais, taxas de pobreza iguais, graus de desenvolvimento vs desigualdade idênticos, sistemas educativos semelhantes, existência ou não de experiências educativas distintas, idênticas taxas de investimento na educação em percentagem do PIB, taxas de abandono e de insucesso iguais, por aí fora. Logo, compara-se e alinha-se em um "ranking" o que é incomparável. Trago, novamente, à colação o Doutor Gentili: "(...) Esto no es nada menos que una evaluación de los sistemas educativos nacionales a la luz de estos principios y estas competencias que nunca se ponen en duda y que establece un horizonte, un modelo educativo colonial, dominante y para nada universal ni científico" (...) las pruebas PISA son "un verdadero desastre", se imponen por la fuerza que ejerce la organización poderosa que las realiza en los medios de comunicación (...)".

Ora bem, apesar disto, lá veio o secretário da Educação da Região da Madeira falar dos méritos do sistema, das posições, embora modestas, no quadro das regiões do país, porém sem qualquer preocupação de análise ao que se esconde para além do PISA. Como se os números falassem por si. E não falam! Deveria ter explicado, entre múltiplos aspectos, o seu entendimento entre o grau de pobreza na Região e os resultados; qual a relação entre a gravidade do abandono e do insucesso e os resultados; finalmente, como é que são seleccionados os alunos que fazem os testes PISA, se a amostra é, rigorosamente, aleatória, ou se são por escolha de alguém.  

O secretário evidencia, no seu discurso, "o caminho do sucesso" mas fica a pergunta, qual caminho?  Alguém o conhece? Haverá algum caminho ou esse caminho é o da repetição de processos completamente desadequados em função do Mundo que estamos a viver e daquele que facilmente se adivinha ali ao virar da esquina?
As declarações de Pablo Gentili, ex-secretário executivo do "Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO)" são evidentes: "las pruebas PISA son el concurso de belleza de la pedagogia". A propósito, transcrevo o que escrevi há três anos: "(...) Há, por um lado, diversas realidades históricas, económicas, sociais e culturais, que não permitem, com rigor, comparar o que é incomparável, e, por outro, sabe-se que não é seguro o carácter aleatório de escolha dos alunos que se submetem aos testes. Factos que distorcem e colocam em causa o resultado final. Bastam estes dois aspectos para que se fique de pé atrás na análise dos resultados. Muito mais importante seria conhecer a estrutura dos diversos sistemas educativos, se eles estão ou não adequados ao tempo que vivemos, à própria investigação, se transportam ou não um princípio hierárquico contrário à verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, o grau de formação dos docentes e a sua disponibilidade para aceitar novos paradigmas pedagógicos, mais ainda, qual a relação entre o sistema educativo (a jusante) e as preocupações de natureza social (a montante). São estes aspectos que determinam se os sistemas são ou não portadores de futuro (...)".   
"(...) (PISA), repito, passando ao lado das realidades históricas, económicas, sociais e culturais, trazem no seu bojo uma intenção subliminar conducente à visão do Mundo que a teia deseja operacionalizar. OCDE é uma sigla que significa "Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico". Certo? Portanto, não sejamos inocentes e não façamos de um qualquer "ranking" a radiografia do País ou Região para esgrimir ou enaltecer, partidariamente, posicionamentos que, tarde ou cedo, rebentarão nas próprias mãos". Uma região com altas taxas de repetência, com 30% de pobres, com sérias dificuldades na qualificação profissional, com baixos salários, com altíssimas necessidades de Acção Social Educativa, do básico ao universitário, "com lacunas graves na mentalidade e usufruto dos bens culturais, é lógico que não pode ser uma região cujas crianças, globalmente, sejam felizes e com apetência pelo conhecimento". Mais. Uma região "com uma estrutura do Sistema Educativo assente no Século XIX não pode ter aspirações ao desempenho de países que ultrapassaram o analfabetismo há mais de um século e cujas economias nada têm a ver com a situação portuguesa. É comparar o incomparável. Esqueçamos, pois, os "ranking's ou olhemos para eles de forma distante e fria. Mais avisado será estudar as traves-mestras da estrutura em que assenta o sistema educativo. Porque mais escola e mais horas de Português, de Matemática ou de Ciências, não significam melhor escola e melhor futuro. PISA, por tudo isto, não prova nada. E para que fique claro, sou pelo rigor e pela exigência, só que através de um paradigma organizacional e pedagógico completamente diferente de tudo quanto enformaram os Séculos XIX e XX.
Senhor secretário, integrei, com o decorrer dos anos, duas sínteses que observei dos Mestres com quem muito aprendi e privei: primeiro, só é legítima uma opinião séria e fundamentada quando se faz, também, um esforço sério e fundamentado de estudo das variáveis de um determinado tema; segundo, complementarmente, à partida, todos têm razão, desde que a justifiquem de forma consistente e inequívoca a sua análise. É básico. 
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
A ler, complementarmente, um texto contraditório sobre as políticas da OCDE

* Pablo Gentili. Nascido na Argentina. Doutor em Educação pela Universidade de Buenos Aires. Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Autor de A falsificação do consenso: simulacro e imposição na reforma educacional do neoliberalismo (Vozes, 1998) e organizador de Pedagogia da exclusão: crítica ao neoliberalismo em educação (Vozes, 2004).

sábado, 10 de dezembro de 2016

"LAS PRUEBAS PISA SON EL CONCURSO DE BELLEZA DE LA PEDAGOGIA"


El resultado de las pruebas PISA (Programa Internacional para la Evaluación de Estudiantes) se refleja en un ranking de quién hizo "mejor" y "peor" las cosas, como un concurso de belleza de la pedagogía, dijo a Sputnik el secretario ejecutivo del Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO), Pablo Gentili. "El PISA construye un mecanismo artificial, lo impone y nadie lo cuestiona, y luego compara, porque en realidad es un complejo mecanismo de evaluación, pero al final hace un ranking, es como un concurso de belleza de la pedagogía para ver quién salió primero y quién salió último", dijo Gentili. 


El 6 de diciembre se difundieron los últimos resultados de las pruebas PISA, un sistema estandarizado para evaluar los conocimientos de estudiantes de 15 años aplicado por la OCDE (Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económico) y se reactualizaron las polémicas. Entre los 72 países participantes se encuentran nueve latinoamericanos: Brasil, Chile, Costa Rica, Colombia, República Dominicana, México, Perú, Uruguay y Puerto Rico. Varios investigadores llevan años cuestionando los procedimientos y varios de los fundamentos que dieron origen a estas pruebas.

"La OCDE parte de un principio equivocado, de que hay una forma de pensar el desarrollo y el mundo, que es universal, de Shanghái hasta República Dominicana, todos los jóvenes con 15 años tienen que saber un conjunto de cosas que son fundamentales para sobrevivir y progresar en la vida", arguyó Gentili. 

El fundamento se basa en lo que piensan "un conjunto de burócratas" de una organización dedicada a la economía mundial "de los países más poderosos del mundo" y que se impuso como la visión dominante "a partir de la cual es posible pensar y presentar los objetivos de la educación", criticó Gentili, profesor de la Universidad del Estado de Rio de Janeiro.

Lea más: Argentina, descalificada de la prueba educativa PISA por errores técnicos 

"Esto no es nada menos que una evaluación de los sistemas educativos nacionales a la luz de estos principios y estas competencias que nunca se ponen en duda y que establece un horizonte, un modelo educativo colonial, dominante y para nada universal ni científico", añadió el especialista en ciencias de la educación. Para Gentili, a pesar de que las pruebas PISA son "un verdadero desastre", se imponen por la fuerza que ejerce la organización poderosa que las realiza en los medios de comunicación.

"A muchos medios les resulta fantástico porque simplifica algo que es muy complejo presentando un ranking, (lo cual) es patético", criticó. 

Calidad de la educación 

Hablar de educación en la región requiere tener en cuenta que los países tienen experiencias educativas diferentes, según Gentili. En Argentina o Brasil "el problema de la igualdad es central, porque vivimos en la región más desigual del planeta", afirmó.
"Calidad es inversión en América Latina, inversión pública, trabajo decente de los docentes; en cada región hay una lógica para pensar la calidad y no creo que PISA refleje esto para nada", añadió el politólogo. Gentili expresó asimismo preocupación por el desprestigio al que es sometida la escuela pública por gobiernos conservadores de América Latina. "Cada vez que tienen que exponer algo que funciona mal en nuestros países lo explican atribuyéndoselo a la educación y a los docentes (lo cual) ha alejado a muchísima gente de la escuela pública", señaló. En el caso de Chile, que presenta el mejor desarrollo educativo de América Latina en las pruebas PISA, se trata de un "excelente promedio" resultado de una "profunda desigualdad, hay escuelas de élite que tienen muy buenos resultados, pero hay un montón que tienen pésimos resultados", observó.
En la evaluación divulgada el martes participaron alrededor de 540.000 estudiantes de 15 años de 72 países. La prueba de dos horas de duración evalúa los conocimientos y habilidades en ciencia, matemáticas, lectura, solución colaborativa de problemas y alfabetización financiera. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A MADEIRA PODERIA ESTAR NO TOPO E COMO REFERÊNCIA INTERNACIONAL


Por razões que aqui já enunciei, os estudos PISA (programme for international student assessment), entre outros estudos congéneres, devem servir de meros indicadores e nunca de um resultado absoluto sobre a realidade de um país ou região no que concerne aos sistemas educativos. Há, por um lado, diversas realidades históricas, económicas, sociais e culturais, o que não permite, com rigor, comparar o que é incomparável, e, por outro, sabe-se que não é seguro o carácter aleatório de escolha dos alunos que se submetem aos testes. Factos que colocam em causa o resultado final. Bastam estes dois aspectos para que se fique de pé atrás na análise dos resultados. Parece-me muito mais importante conhecer a estrutura dos diversos sistemas educativos, se eles estão ou não adequados ao tempo que vivemos, à própria investigação, se transportam ou não um princípio hierárquico contrário à verdadeira autonomia dos estabelecimentos de ensino, o grau de formação dos docentes e a sua disponibilidade para aceitar novos paradigmas pedagógicos, mais ainda, qual a relação entre o sistema educativo (a jusante) e as preocupações de natureza social (a montante). São estes aspectos que determinam se os sistemas são ou não portadores de futuro.


Há dias, assisti a tanto contentamento regional, com tirinhos a fazerem ricochete, pelos resultados de um estudo da OCDE sobre as "Tendências Internacionais no Estudo da Matemática e das Ciências (TIMSS)" no primeiro ciclo. No essencial, o governo esforçou-se por transmitir a ideia que a Madeira estava no caminho certo. Todos quantos se opõem estão errados. Sugeri que guardassem as declarações feitas para memória futura. Não foram necessários muitos dias e novo estudo foi dado à estampa: o PISA 2015. Em 25 regiões portuguesas (NUT3 - Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos) a Madeira encontra-se:
  • 19º lugar em Ciências.
  • 20º lugar em Leitura
  • 15º lugar em Matemática
Em todas as situações abaixo da média, apesar do grande investimento no número de horas (lectivas e de apoio) destinadas à Língua Portuguesa e Matemática, em detrimento de uma formação mais global. Obviamente que não me alegra este quadro que nos remete para uma zona cinzenta da tabela. Trata-se, apenas, de um indicador. Fico triste, isso sim, por assistir à repetição dos modelos curricular, programático, pedagógico e organizacional de escola, assente no pressuposto que se não aprendes a bem, aprendes a mal, isto é, com maior carga horária. É aqui que o processo, do meu ponto de vista, segue um caminho contrário à natureza da evolução. Estou convicto, na esteira de tantos observadores, que através de um outro paradigma, o sistema educativo da Madeira poderia estar no topo e como referência internacional. Muito acima da média europeia por países. Aliás, globalmente, todo o sistema contempla quarenta e poucos mil estudantes, entre os sectores público e privado. Uma ninharia comparada com outros espaços territoriais. Com órgãos de governo próprio, uma proximidade entre os extremos da ilha (57x22 km) e estando o Porto Santo ali tão perto, se a preocupação entre os factores de crescimento e os do desenvolvimento tivessem uma natureza equilibrada, julgo ser óbvio que outros poderiam ser os resultados.
Acresce, ainda, o facto da Região da Madeira continuar a apresentar altíssimas taxas de abandono escolar. A Madeira confronta-se com cerca de 23,6% quando no Continente, a taxa ronda os 12,9%. Um em cada quatro jovens madeirenses, entre os 18 e os 24 anos, abandonou, em 2015, a sua formação. Um facto preocupante e merecedor de reflexão. Finalmente, enalteço, apesar de ser um indicador, estes resultados não me alegram. Bem pelo contrário.
Ilustração: Google Imagens.