segunda-feira, 1 de junho de 2026

No Dia da Criança


O primeiro de Junho devia ser o dia do debate anual sobre o “estado da criança”. Normalmente fica pelas requentadas boas intenções. Os estabelecimentos de educação cumprem o ritual, levando-as para a rua, melhor dizendo, dão-lhes folga. Aqui e ali falam de direitos, com laivos de hipocrisia, porque o essencial nunca é discutido. E o essencial seria, paulatinamente, repensar e mexer na estrutura social, na pobreza e em tudo o que se esconde a montante no que concerne à família (direitos e deveres), para que a criança venha a beneficiar de um saudável crescimento. Sem distinções de famílias onde foram geradas.



Apenas algumas posições de investigadores e autores de referência. Para reflexão.

Disse a médica Pediatra Rachel Niskier:
"Se você não cuida da infância e da adolescência, que tipo de cidadão você terá?”

Eduardo Sá, Psicólogo, complementa e convida à reflexão: “A escola rouba a infância às crianças”. A escola é um novo tipo de trabalho infantil, que não deixa as crianças brincar (…) No entender do psicólogo, retirámos as crianças do trabalho para lhes devolver a infância e “empanturrámo-las com escola (…) A escola está a roubar a infância às crianças. A leviandade com que isto se faz é inacreditável. Da parte dos pais, com a melhor das intenções, e da escola, que vive numa distracção sem fim (…) Nunca ouvi falar tanto das crianças e nunca vi que se espatifasse tanto a infância.”

Luciana Leiderfarb num artigo publicado no Expresso:
"Bem-vindos à nova era, a das crianças que não têm tempo para brincar. E a dos adultos obcecados por ocupar-lhes os dias. Que mundo é este onde a brincadeira se tornou indesejável?"

Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto, concluiu que:
"Uma criança em idade escolar “trabalha” em média nove horas por dia, o equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto". (...) "Essas nove horas são sempre em função da matéria escolar. E mais: há pessoas que, quando elas têm um comportamento menos próprio, ainda as castigam com contas e cópias, isto é, o mesmo que lhes dizer que o conhecimento é uma chatice". (...) "Os adultos trabalham sete horas e meia e chegam ao fim cansados. Levam trabalho para casa? Não levam!" (...) "há mais de 20 anos que se denuncia este excesso de trabalho e os consequentes malefícios físicos, psicológicos e morais para as crianças".

Clarice Lispector (1920/1977) jornalista e autora de romances e ensaios: "O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar".

Reorganize-se, então, a sociedade para que não tenhamos uma Escola a Tempo Inteiro com famílias a meio tempo.

Do livro: A Escola é uma Seca / André Escórcio. 


domingo, 31 de maio de 2026

Singapura tão distante... quando a solução está aqui tão perto!

 

Volta e meia regressam com um discurso sobre o sistema educativo de Singapura. Em tempos foi aquela ideia, também circunstancial, que a Madeira teria de ser ou viria a ser uma "Singapura do Atlântico". Não sei se morreu ou se ainda sobrevive pela propaganda política. Parece-me que sim, porque, agora, regressou no âmbito das conferências sobre o quinquagésimo aniversário da Autonomia. Na sede da Universidade da Madeira e com convidados vindos de fora, que nada acrescentaram, sublinho, foram ignorados aqueles que, certamente, terão pensamento científico e organizacional sobre este importante sector. Buscam inspiração em Singapura, a treze mil quilómetros de distância, quando a solução está aqui tão perto.



Aliás, não tenho presente os nomes dos responsáveis políticos madeirenses que, ao longo de 50 anos, visitaram Singapura, especificamente para estudar o respectivo sistema educativo; como não tenho presente o nome daqueles que procuraram os tão badalados países nórdicos tidos por referências de sucesso educativo. Não dei conta de eventuais estudos e relatórios publicados. Se alguma visita tivesse acontecido, enquanto preocupação política, os meios de comunicação regionais teriam feito alarde. Portanto, não sei se falam pelo Google, pelo Youtube ou através da IA. Sei que dizem coisas e que passam ao lado de toda a excelente investigação feita em Portugal, onde figuras académicas de topo, investigadores de excelência, Departamentos das Ciências da Educação das várias universidades e institutos, também autores, têm marcado o pensamento do que está por fazer e como o operacionalizar. Fica bem, pensam, nos momentos mais solenes, jogar com cartas que, embora não dominem, servem na perfeição o número político de propaganda. Logo depois a treta continuará e as palavras leva-as o vento.

Ora, qualquer pessoa minimamente informada reconhecerá que o sistema educativo, tal como todos os outros sectores, necessita de um pensamento estruturado para ter sucesso. E que tal não é possível sem o estudo de múltiplas variáveis: as de natureza económica e financeira e consequente estrutura produtiva, as heranças culturais, históricas, geográficas, os valores sociais e familiares, a estrutura administrativa do Estado e as prioridades estabelecidas, a limitada autonomia da Região e a dos estabelecimentos de educação, a necessidade de revisão do que está plasmado em sede de Constituição da República (possibilitando a existência de um país com três sistemas educativos autónomos), a diversidade populacional, o PIB per capita e os indicadores de pobreza, a organização curricular e programática, o pensamento pedagógico, a formação e selecção inicial dos professores, a arquitectura dos espaços escolares, estes, entre muitos outros, como factores determinantes no desenho de um sistema educativo portador de futuro. Não é possível de outra maneira, pelo que é ridículo imaginar um sistema que, leviana e descontextualizadamente, integra um elemento daqui e outro dali, como se isso servisse para ilustrar qualquer comparação com outros espaços e intervenções de sucesso na aprendizagem.

Curioso, também, é que, durante 50 anos, nunca registei qualquer manifestação de interesse por um grande debate regional sobre o sistema, que juntasse o mundo político-partidário, os professores e investigadores de todos os níveis, pais, alunos, empresas e instituições sindicais; nunca foi possível contextualizar a escola com a família, as suas dinâmicas, a demografia, as questões sociais e a organização dos tempos de trabalho; nunca constatei qualquer preocupação sobre os currículos, programas, horários, as centenas de metas curriculares, algumas perfeitamente inúteis; nunca escutei uma palavra sobre correntes pedagógicas, novos conceitos de aula, de turma, de sala de aula, tpc, avaliações; jamais registei uma preocupação para travar a infernal burocracia, o número de alunos por estabelecimento, a rede, a arquitectura dos espaços escolares e o financiamento aos estabelecimentos privados em detrimento do sector público; até mesmo estudar o rigor, a disciplina, a violência na escola em contraponto com a violência da escola. E houve tempo mais que suficiente para tudo ser reequacionado visando uma escola para o tempo que estamos a viver. Criada aqui e contextualizada aqui, com verdade, ciência e autenticidade. A rotina marcou o ritmo e a escola transformou-se num espaço de "normalidade e tranquilidade". Como se fosse um spa, quando ela tem de ser vida! 

Portanto, esta historieta de querer ser como Singapura não pega, porque não tem qualquer sustentabilidade no estudo, no trabalho e no discurso político. Nem Singapura nem a Finlândia como referências. Provam-no aqueles estabelecimentos de educação que tentam lançar projectos visionários e consequentes de acordo com a literatura existente. Na realidade não são bem vistos, porque os responsáveis políticos têm preferido a norma à inovação. A título de exemplo não deixa de ser paradigmático o que aconteceu na Escola 1,2,3 do Curral das Freiras. Lembram-se? Recordo que se encontrava no lugar 1 207º do ranking nacional e, consequência da paixão dos professores, liderados pelo Professor Joaquim José Sousa, saltou para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano: "tinha 300 alunos, não tinha campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batiam certo com os do autocarro. Os seus mentores tornaram possível um melhor conhecimento, apesar de 92% dos alunos terem Acção Social Educativa (pobreza) e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias". O que aconteceu? Perseguiram-na e fundiram-na com uma outra de S. António, no Funchal. Ao invés de procurarem as suas virtualidades, não, bloquearam-na e dividiram-na, não sei se para reinar. Esta é a prova da "Singapura local" em todo o seu esplendor, que deixa para trás cerca de 7 000 jovens que não estudam nem trabalham. Valham-nos alguns estabelecimentos particulares que, contra a corrente, nos limites da legislação normativa, seguem outros pensamentos organizacionais e pedagógicos. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A propósito... Ponto e Vírgula, exclamo eu!


Nascido em 8 de julho de 1921, vai agora para os 105 anos de vida activa, "Edgar Morin é um filósofo e sociólogo francês da teoria da informação, reconhecido pelo seu trabalho sobre complexidade e "pensamento complexo" e pelas suas contribuições académicas em campos tão diversos como estudos de mídia, política, sociologia, antropologia visual, ecologia, educação e biologia de sistemas (...)" - síntese na Wikipedia. Numa entrevista publicada pela "Nova Escola", assumiu: "A escola mata a curiosidade"; e, numa outra, publicada na revista "Prosa, Verso e Arte" sublinhou: "(...) o modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo".



Ora bem, esta Escola, por muitas e interessantes que sejam as suas iniciativas, internas e externas, está conceptualmente errada, porque estruturalmente descompaginada do conhecimento oferecido por todas as outras ciências e sistemas. Diria que é a escola descompassada da Vida.

Da literatura ao cinema, do teatro às redes sociais, há muito que ecoam os gritos dos alunos sobre esta escola. É pois um erro confundir a aparência com a estrutura do próprio sistema. Morin insiste: "uma escola que transmite conteúdos, sem estimular perguntas, reflexão e ligação entre saberes, acaba por matar a curiosidade — que é justamente o motor do conhecimento".

Genericamente, para quem não se preocupa com estudos e análises mais profundos, bastar-lhes-á passar pela IA para concluir que esta escola "fragmenta o saber em disciplinas estanques; valoriza a memorização e os exames em vez de perguntas , pelo que, genericamente, transforma o aluno em receptor passivo, não em sujeito que investiga". São muito raras as excepções. Portanto, não me parece sensato, sejam quais forem os motivos, educativos, políticos e até os de natureza comercial que subjazem a certos projectos, que se confunda, repito, o que parece com o pensamento estrutural e científico, esse sim, portador de sucesso.


Aliás, basta um olhar sério sobre as estatísticas dos que ficam para trás, sobre os milhares que não estudam nem trabalham e sobre a "morte" dos talentos e sonhos. Assertivas e oxalá fizessem caminho entre políticos, professores e alunos, as palavras do Dr. Ricardo Miguel Oliveira, Director do Diário: "Não vos peço que sejam perfeitos. Peço-vos apenas que sejam curiosos, que não aceitem tudo sem questionar e que nunca deixem de pensar pela sua própria cabeça". Esta declaração encaixa, obviamente, em todos os actores. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Respeitar o sonho e o talento


Li, com muito entusiasmo, uma entrevista publicada na edição do DIÁRIO do último Domingo, da autoria do jornalista Rúben Santos. Protagonista, o Engenheiro madeirense Guilherme Cristóvão, natural de S. Vicente. Um percurso de vida muito interessante, perseguindo o sonho e o seu talento. Uma entrevista, pelo menos para mim, deliciosa, porque vem ao encontro do que penso sobre o processo de aprendizagem e sobre um sistema educativo que não mate o sonho que cada um de nós transporta.



O engenheiro desta história não ficou pelo que o sistema educativo lhe impôs. Ao ponto de, tendo um Dissertação de Mestrado pronta para ser entregue e debatida, abandonou-a para seguir outro caminho que o sonho e mesmo o talento lhe indicavam. E, hoje, aos 26 anos, resume a sua vida numa frase tão simples quanto profunda: mais do que mil diplomas académicos (...) "nunca fui destinado a ser brilhante, mas sempre tentei brilhar". 

Ora, é isto que diferencia tanta luta (e até mesmo propaganda) por dezanoves e vintes nas médias finais do secundário, quantas vezes esmagando o verdadeiro e genuíno sonho de quem atinge esse patamar de resultados. Trata-se de uma velha história entre uma escola que propõe um "fatinho igual para todos" ou um "fato à medida de cada um".

É neste contexto que emerge um outro quadro de análise: a cada vez maior obsessão pela avaliação dos alunos. Tudo é conduzido no sentido do acto avaliador: o teste, a questão aula, a nota e o exame, a par de variadíssimos itens de muito subjectiva avaliação. Genericamente, neste sistema, o aluno continua a ser conduzido para a resposta dita certa, aquela que consta do manual programático e não para a complexidade da construção do seu futuro. Há, de facto, uma intencional dimensão política curricular e programática, arquitectada por adultos, difícil de desconstruir. Por isso temos tantos jovens que olham para a escola distantes da paixão pelo saber. Enaltece o Engenheiro Guilherme Cristóvão: 

"(...) Se alguém pensa que na Fórmula 1 não se falha, engana-se. Falha-se e falha-se muito. Mas a cultura é diferente. Quanto mais depressa se falha, mais depressa se aprende (...) O segredo não está em evitar o erro a todo o custo, mas na velocidade de reacção (...) A curva de aprendizagem é exponencial porque somos forçados a aprender com as falhas, imediatamente".  


"Tiro na mouche". Vários pensadores da Educação convergem para uma atitude que também considero básica: o professor não existe para oferecer respostas prontas, mas para desenvolver a curiosidade e o gosto pelo saber. É isso que nos leva longe. Ora, este sistema exige a resposta pronta e a nota correspondente a essa resposta, não a possibilidade do erro como pressuposto de uma aprendizagem de pensamento, com consistência e duradoura. 

O Engenheiro Guilherme Cristóvão soube romper com a lógica "by the book" e, hoje, está no topo da Fórmula 1, desenvolvendo projectos electrónicos de relevante interesse para todos e, especialmente, na Red Bull. Parabéns!

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A necessidade de uma obsessão pelo futuro

 

Ora bem, uma coisa é ser Licenciado(a), Mestre(a) ou Doutor(a) e ter um percurso académico de excelência reconhecido pelos seus pares; outra, bem diferente, é associar qualquer formação a dois campos de relevante interesse: uma visão da complexidade multidisciplinar do futuro; simultaneamente, uma capacidade para, politicamente, antecipá-lo, planeá-lo e executá-lo com convicção e determinação. Combinar a formação com a concretização no contexto da governação, não é fácil, eu sei. Um dia, um distinto Colega, qual metáfora, disse-me que, com esta minha leitura assente na exigência, no rigor e na responsabilidade, melhor seria eu "ir a uma olaria"! Pois, percebi e percebo a dificuldade.



Só que há aqui um princípio básico que sempre considerei de enorme relevância. É que só se deve aceitar um lugar de gestão/administração quando nos sentimos preparados para uma dada função ou missão. Da mesma forma que, a um outro nível de menor exigência, só se deve debater um qualquer assunto quando fazemos um esforço, mesmo que mínimo, para o dominar, pelo menos nas suas traves mestras. Quando isso não acontece, quando a via é a do "achismo", o melhor é assumir que, por alguma razão, temos dois ouvidos e uma boca. 

Perfazem, hoje, 15 de Fevereiro, cinco meses de governação da Doutora Elsa Fernandes como Secretária Regional da Educação. Para que fique claro: não a conheço no plano pessoal e nunca nos cruzámos em qualquer situação. Apenas nutro um natural respeito pelo seu percurso e, certamente, competência profissional na área que se especializou. É, portanto, no outro espaço, no da intervenção política, que me foco. Simplesmente porque é responsável pelas características da escola que ainda temos e pelo futuro dos que a frequentam. Ademais, não se trata de uma questão de natureza partidária, mas sim, repito, de responsabilidade política na construção do amanhã.

Passaram-se cinco meses de governação e não detectei uma única situação, uma única ideia que despertasse atenção e me fizesse admitir a existência de um qualquer caminho. Seja ele qual for, mas um caminho, um objectivo: onde estou e onde quero chegar! Assisti a cinco meses de governação "caseira", de algumas visitas a escolas e a palavras que as circunstâncias impõem. Ah, e a uns diálogos com os sindicatos no âmbito da solução de velhíssimos problemas apresentados pelos professores. De resto, um absoluto vazio de ideias, tal como aconteceu na longa governação anterior, cheia de generalidades, de banalidades e silenciamentos, tudo muito administrativo, burocrático e repetitivo. Ora, recorda-nos Georges Santayana (1863/1952), filósofo e poeta, que "aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Isto é, torna-se necessário assumir uma memória histórica, conhecimento e capacidade de análise crítica para evitar a continuidade dos erros.

E se a escola se justifica em função da construção do futuro, esse futuro que se nos apresenta cheio de sinais complexos e paradoxais, que fazem prever o que aí vem, o sistema educativo e quem o interpreta, não pode evidenciar ausência de memória e de visão. Se outro não for o caminho, qualquer arrisca-se a repeti-lo deixando um rasto de uma enorme frustração. Confesso que não fiquei com qualquer esperança quando, há cinco meses, escutei as palavras ditas no decorrer da tomada de posse. Teria sido o momento da mensagem esclarecedora ao que vinha. Passado este tempo, infelizmente, confirma-se a minha continuada desilusão. Este sistema continua a viver na inconsistência do paleio político circunstancial e de tudo o que seja motivo de propaganda que promova a ideia pública que a escola está bem e se recomenda. Aliás, basta ler alguns autores e pensadores de referência, basta uma passagem pelo youtube e assistir a tanto e abundante pensamento, basta ter uma leitura transversal de todos os outros sistemas que interagem com o educativo, basta visitar países e escolas do topo da educação, basta ler as estatísticas, basta escutar o que, genericamente, os alunos pensam da escola que lhes oferecem, basta ter presente os números aterradores dos internamentos em psiquiatria (25% dos alunos do 5º ao 12º ano apresentam, no quadro organizacional deste sistema, um significativo mal-estar psicológico), basta ter presente o que dizem tantos professores que (sobre)vivem em Burnout (70 a 75%) pela pressão angustiante que os leva a se manifestarem: uns dizendo que tomam medicação a mais por causa da escola; outros, que se desejam aposentar, basta um olhar atento para os motivos que conduzem a 6 000 jovens que, por aqui, nem estudam nem trabalham, basta que tenhamos presente que 41% dos jovens diplomados revelam ter apenas competências para ler textos simples e fazer interpretações básicas, basta uma leitura profunda sobre o Mundo, sobre o nosso país, sobre a Região e as inúmeras iliteracias, basta ter consciência das graves limitações na qualificação profissional face às exigências da vida colectiva, enfim, tudo isto, sumariamente, exige pensamento e assertividade de quem assume um cargo político. Quando esse pensamento não existe, transmite-se a ideia do vazio e o político fica, naturalmente, reduzido a mais um de turno. Pelo contrário, precisamos de quem transporte uma mensagem portadora de futuro a qual, na esteira de Michel de Montaigne (1533/1592), assuma que "uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia". 


No dia 15 de Setembro de 2025, naquele dia da tomada de posse, deixei 60 perguntas à Senhora Secretária. Questões que me preocupam, que as trago em consequência do que vou lendo, dos Mestres que tive, dos 40 anos de experiência na escola (não uma experiência repetida 40 vezes), dos ambientes de formação, da presença em inúmeros conselhos pedagógicos e até do que restou das minhas sessões enquanto professor assistente no âmbito universitário. Sempre parti do pressuposto que a verdade é múltipla, pois "o erro é um agente construtor do conhecimento" - G. Bachelard. Por isso, o que defendo e assumo constitui o resultado de um continuado estudo, observação e escuta dos professores e alunos. E sendo esta a minha postura, entendo que podem coexistir outros posicionamentos importantes para o debate que urge. Grave é não debater, é fechar-se na "torre de marfim" e negar a necessidade de uma "festa das ideias" que conduza a um caminho, a uma utopia sustentável. 

Portanto, o problema da Educação e do desenvolvimento é o de colocarem na liderança dos processos políticos, pessoas que podem ser excelentes na sua actividade profissional, mas que não transportam capacidade acrescentada de como ela deve ser estruturada e como se implementa um sistema de sucesso. Tenhamos presente o caso da Senhora Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral: Doutorada em Direito, Catedrática, Juíza do Tribunal Constitucional e Provedora de Justiça. Todo este respeitadíssimo currículo de nada lhe serviu para Ministra da Administração Interna. Acabou por sair.

Senhora Secretária Regional da Educação, esta Escola que alguns dizem ser inclusiva, tenha presente que começa a ser um factor de exclusão social. De facto, esta escola mata o talento e mata sonho. Ela é castradora do pensamento. E não são as limitações Constitucionais que impedem que o sistema educativo da Madeira não possa ser uma referência nacional e europeia. Rita Bonança, Doutorada em Educação, foi muito clara: “ensina-se para o teste, aprende-se para o teste, vive-se para o teste. E, depois, lamenta-se que os alunos não tenham criatividade, pensamento crítico ou paixão pelo saber".  Pense nisto, Senhora Secretária. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Não fosse o "vício de trabalhar para a nota", a IA era menos angustiante


Por
Andreia Sanches
Público

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.



Cara leitora, caro leitor

Primeiro foi um manifesto publicado por um grupo de professores que diz que a Inteligência Artificial (IA) está a criar verdadeiros “cretinos digitais”. Quer que ela seja banida dos “processos de ensino-aprendizagem”.

Depois foi um relatório da OCDE, que alerta para os riscos e potencialidades das novas ferramentas que o manifesto denuncia.

No dia em que escrevi sobre o relatório da OCDE perguntei à professora catedrática da Universidade de Lisboa, Margarida Gaspar de Matos, que opinião tinha sobre o assunto. Não só por ser professora, mas por ser uma investigadora que há décadas estuda os comportamentos dos jovens e a sua relação com a escola.

No email que me enviou mais tarde reconhece que as redes sociais, os smartphones, a IA entraram de rompante pelos sistemas educativos e atingiram formas e intensidades terríveis. O que fazer então nestes tempos de alguma justificada angústia?

“Imaginar modos de integrar todas estas novas possibilidades e ficar com o melhor de dois mundos potenciando o progresso” será mais útil, diz, do que pensar em proibições.

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.

Estamos a falar de uma das coordenadoras de um estudo internacional de referência, o Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde, realizado a cada quatro anos. A análise tem vindo a mostrar um aumento continuado dos adolescentes que se dizem pressionados para terem bons resultados, que consideram que a matéria é muita, aborrecida, inútil, que a avaliação é um stress e as aulas demasiado grandes.

A OCDE defende no seu relatório que a IA generativa “tem potencial para transformar a qualidade e a eficácia da aprendizagem”. E para “apoiar os professores”. Mas que, “quando usada como atalho, em vez de ferramenta de aprendizagem, pode substituir o esforço cognitivo e enfraquecer as competências que sustentam a aprendizagem profunda”.

No terreno, os professores, sejam contra ou a favor, estão a sentir-se obrigados a mudar a forma como dão aulas e avaliam. Que sentido faz mandar trabalhos para casa que possam ser escritos “às escondidas” pelo Copilot? Ou o que fazer, como também nos relatou um professor, quando um aluno numa aula decide “humilhar” quem está ali para o ensinar, fazendo-lhe perguntas geradas por um chatbot, só com um objectivo: provar-lhe que não “sabe”.

Este é também um momento de indefinição, com muitas experiências em curso mas também muita improvisação, sem regulamentação, sem reflexão, sem literacia digital suficiente, nem de alunos, nem de professores, nem de encarregados de educação. Num contexto em que, como diz a OCDE (organização que dificilmente pode ser acusada de ser avessa à inovação tecnológica), os riscos do uso da IA na educação têm de ser “cuidadosamente geridos”.

Vários estudos citados evidenciam que quem pede à IA que lhe faça os trabalhos propostos pelos professores consegue ter notas mais altas nesses trabalhos. O problema (um dos) é que quando tem de fazer uma apresentação oral, ou um teste sem consulta, se sai bem pior do que os outros.

O "vício de trabalhar para a nota" tem os dias contados?
A conclusão que a OCDE destaca é esta: quando usadas de forma pedagógica, as ferramentas de IA “generalistas” podem funcionar como apoio aos alunos. Essencial é que os professores desenvolvam competências pedagógicas que as integrem no ensino e nas tarefas que propõem. Incentivem a autonomia dos estudantes. E “dêem ênfase ao processo — como os alunos pensam e aprendem — em vez de ao produto final”.


Além disso, várias experiências apontam para um impacto muito mais positivo nas aprendizagens quando se usam ferramentas de IA especificamente criadas para serem usadas em contexto escolar (que não promovem a chamada "preguiça metacognitiva") do que outras. “A educação deve ir além dos chatbots genéricos e avançar para ferramentas especificamente concebidas para fins educativos.”

Nesta discussão, os portugueses até se revelam dos mais optimistas da União Europeia: 25% (16% na UE) consideram que “a IA pode melhorar o ensino e a aprendizagem” pelo que “a comunidade educativa não deve ter receio de fazer experiências com ela”, segundo um Eurobarómetro divulgado no ano passado pela Comisão Europeia.

Mas a posição dominante é mesmo de expectativa: “A IA pode beneficiar e trazer riscos ao ensino e à aprendizagem, a comunidade educativa deve aferir e explorar ambos”, é uma frase com a qual se identificam 52% dos portugueses (a média na UE é de 54%).

Apenas 16% defendem que “a IA não pertence à sala de aula”. Essa é a convicção de 22% dos inquiridos na União.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Até quando durará o "espírito de missão" dos professores?


Por
Cristina Faria Moreira
PÚBLICO



Caro leitor, cara leitora,

O 1.º período deste ano lectivo terminou com mais alunos sem professor do que no ano passado. É o que dizem os sindicatos e movimentos de professores, que alertam para o desgaste e sobrecarga dos docentes.

Segundo os cálculos da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), o número de horários a concurso em contratação de escola — a que as escolas recorrem quando os horários pedidos ficam por ocupar nos concursos nacionais de colocação — foi “muito superior” ao do ano passado no mesmo período: mais quase 4000. No ano passado, ao longo do primeiro período, foram pedidos 9696 horários pelas escolas e, este ano, até ao passado dia 12, foram 13.446.

Os dados podem ter repetições, uma vez que há horários que podem estar durante semanas a concurso caso não sejam preenchidos. Só entre os dias 9 e 12 de Dezembro, havia ainda 302 por preencher, que correspondem a 5622 horas lectivas. Era “o número mais baixo das últimas semanas” e a estimativa da Fenprof é que isso afectasse cerca de 20.500 alunos — nas semanas anteriores seriam mais.

Este número é uma fotografia do momento, mas ajuda a perceber a magnitude do problema que as escolas enfrentam, sobretudo as dos distritos de Lisboa, Setúbal e Faro, onde tem sido mais difícil colocar docentes, mesmo quando se tratam de horários completos e não apenas poucas horas para colmatar uma ou outra falta.

Os directores munem-se, por isso, de todos os recursos que têm disponíveis, ainda que assumam que muitas vezes não são os mais adequados. “Num momento em que não há professores, os directores têm de se socorrer de todos os meios para terem os alunos na escola. Alguma coisa tem de ser feita”, disse-me António Castel-Branco, presidente do Conselho das Escolas.

A solução tem passado por atribuir mais horas extraordinárias aos docentes — que, segundo o ministro, custam cerca de 20 milhões por ano; por apelar aos docentes que estão prestes a aposentar-se para, caso se sintam dispostos a isso, adiarem a reforma; e por recorrer a professores sem a habilitação profissional para a docência. Reconhecem o risco de sobrecarga que isso traz.

Num agrupamento de Sintra, o director assumiu ter recorrido a técnicos especializados para leccionarem em turmas do 1.º ciclo, apesar de a legislação não o permitir. Prefere isso a ter alunos na escola sem aulas.

E, numa escola de Lisboa, uma mãe contava esta semana como a coordenadora da escola esteve durante o período a desdobrar-se entre funções para assegurar as aulas de uma turma do 2.º ano, cujo professor ainda está por substituir.

A falta de professores levou dezenas de associações de pais a lançarem uma petição na qual exigem mais medidas para combater o problema. Mais de 1400 pessoas assinaram.

O que é certo é que apesar das medidas tomadas, continua a haver “um agravamento da falta de professores”. Em Janeiro, mais 300 vão para a reforma.

Ao contrário do que aconteceu no ano passado, neste final do 1.º período não são ainda conhecidos os resultados do concurso externo extraordinário, que pretende vincular e colocar mais professores nas zonas onde há maiores carências.

Segundo disse o ministro da Educação esta semana, terão concorrido cerca de 5000 — que passaram a 3000 depois da validação — para as 1800 vagas abertas. Os resultados estarão para "muito breve", disse esta quinta-feira o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo, no final da primeira reunião negocial sobre a revisão do Estatuto da Carreira Docente.

Para os sindicatos, a prioridade deveria ser a valorização da carreira e a criação de condições para profissionalizar quem entra no sistema, evitando soluções que baixem requisitos e fragilizem a qualidade do ensino.

Enquanto isso, nas escolas, como nos dizia esta semana um director, a resposta continua a ser feita “com espírito de missão” — mas com sinais claros de desgaste.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Abertura do Ano Académico 2025/2026


Confesso que na preparação deste que se pretende seja um momento breve, tive uma sensação de nostalgia… Andei para trás no tempo, num tempo em que os brancos só existiam no cabelo dos outros e os abdominais ainda se contavam no plural… Saí da Madeira com 18 anos, para ir estudar Gestão em Lisboa. Nessa altura, mesmo querendo, não podia ter ficado na Madeira pois o curso que eu tinha escolhido não existia por cá.



Fui acompanhado pelo meu Pai que, no caminho, aproveitou para me explicar, bem à maneira dele, que se eu achava que ia embora com outro propósito que não o de estudar, estava bem enganado. E tratou de negociar, que é como se diz lá por casa impor, a mesada coincidente com esse objetivo…

Sou português e ilhéu, pelo que já se sabe que a imaginação e o desenrascanço não têm limites! Lá consegui, com maior ou menor dificuldade, juntar algum outro tipo de aprendizagens ao estudo, fazendo o caminho com poucos sobressaltos mas sem ponta de brilhantismo, um registo que aliás mantenho nos discursos que me pedem para fazer, lamento informar…

Olhando para trás, para esse tempo, percebo… Percebo-me melhor a mim e ao meu Pai. Percebo o drama de muitos filhos e pais desse tempo, pelas suas mais reduzidas opções. Percebo e agradeço a aposta entretanto feita numa Universidade aqui na Região, com uma oferta mais alargada e de qualidade. E percebo ainda a vontade de crescer, a necessidade de afirmar uma aposta. Percebo muito mais, muita coisa. Sinal de que estou a ficar velho, certamente…

Não me desviando, porque hoje gostava de falar sobretudo aos alunos e para eles, para me facilitar a vida vou pegar nas palavras de Sérgio Godinho, sem as cantar, estejam descansados: - “hoje é o primeiro dia do resto das Vossas vidas”!

Começam, os que agora iniciam o seu percurso académico, a plantar as sementes do conhecimento que vos permitirá continuar a crescer, enquanto pessoas e futuros profissionais.

Que possam daqui a uns anos, tal como eu hoje passado tanto tempo, ter este sentimento de gratidão pela Instituição onde estudei, pelos Professores que me aturaram e pelos colegas que o tempo e a intensa convivência transformaram em Amigos para a vida.

A todos Vós, pede-se que iniciem este ano escolar com uma forte predisposição: - Que consigam ser esponjas da sabedoria que Vos será transmitida pelos professores, colegas dos Vossos pares na verdadeira aceção da palavra. E que consigam, no meio dos estudos, lá ir fazendo uma ou outra pequena formação menos académica, mas das pequeninas, se faz favor, se não os Vossos Pais puxam-me as orelhas…

Vocês estão aqui para aprender, para adquirir conhecimento, para estudar! E não se esqueçam igualmente que frequentar uma Universidade é, ainda, infelizmente, um privilégio.

Quando lemos que cerca de 20% da população portuguesa vive abaixo do limiar da pobreza, temos de perceber isso. E de agradecer às famílias a oportunidade, trabalhando afincadamente para de alguma maneira retribuir esse esforço que é feito.

Mas o que isto, de tirar um Curso? Para que serve, num ambiente que às vezes até parece ser tão fácil, com discursos de pleno emprego, onde amanhã, se eu quiser, sem canudo e só a força de braços estou já a ganhar um bom dinheiro e tentando esquecer que a Economia funciona por ciclos, sendo sagrado como o destino que a um bom se segue um outro mau?

Tenho esta forte e fundada convicção: - tirar um curso é abrir horizontes, é ganhar a possibilidade de fazer escolhas, é condicionar o nosso futuro pela positiva.

Tirar um curso é beber do saber que nos é transmitido pelos professores, a grande maioria dos quais excelentes, dedicados e focados nessa passagem de conhecimento que, só pelos livros, nunca seria apreendido da mesma forma. É também, como já Vos disse e aqui entre nós que ninguém nos ouve, o beber umas cervejas, se possível com moderação, já se sabe…

Frequentar uma Universidade, tirar um Curso, é igualmente o melhor caminho que conheço para o que considero ser o valor primeiro de uma sociedade que se quer evoluída: - a liberdade responsável.

Com conhecimento vamos mais longe, sabemos mais, resolvemos mais questões, estamos mais preparados para o mundo, um mundo em cada vez maior mutação. E mais rápida!

A liberdade é, portanto, esse tal bem mais precioso. E tão desvalorizada tem sido ela, por todos nós, ao longo destas últimas décadas; já nem votar se vamos…

Em nome de uma suposta liberdade, parece que podemos tudo, temos direito a tudo. Fazemos também tudo sem cuidar de perceber que essa liberdade, a verdadeira, é aquela que tem limites e que acaba quando começa a liberdade dos outros.

Liberdade, a plena, é igualmente sinal de responsabilidade, faz-nos crescer enquanto indivíduos, vem da aprendizagem, assenta no conhecimento, nasce do respeito pelo próximo e pelas regras sãs da vivência em comunidade.

Este conceito de liberdade, que devia ser claro, transparente e constante, parece ser hoje percecionado de maneira distinta.

Os que a não tiveram vivem-na de uma determinada forma, entre a intensidade plena ou com resquícios de um medo que teima em grassar.

A minha geração, nascida imediatamente antes ou depois do 25 de Abril, dá-a como garantida, parece que não tem de contribuir para a sua manutenção.

A geração que agora entra no mercado de trabalho entende-a como um direito individual, inalienável, egoísta.

Esta perceção, que admito possa ser errada, leva-me a valorizar ainda mais o papel que as Universidades podem e devem ter na construção do nosso futuro.

Temos de ser capazes de fomentar a discussão em vez de formatar o pensamento. De alimentar a divergência civilizada em detrimento do discurso a uma só voz. De viver com o erro, a experimentação e o risco, de contribuir para que os alunos saiam das suas zonas de conforto. De compreender que há muitas respostas certas para a mesma pergunta, desde que devidamente fundamentada. Temos, portanto, de aceitar e saber mudar porque não podemos esperar um resultado diferente se continuarmos a agir da mesma forma. Temos de trabalhar, hoje e sempre, porque a liberdade não pode nunca ser dada por garantida, nem muito menos deve ser egoísta.


Olhando um pouco mais para a frente com os pés assentes no presente, não gostaria de pensar que os alunos saídos das faculdades chegam ao mercado de trabalho com uma lista de direitos. O horário, o vencimento, a categoria, as regalias, o estatuto social; isso é que importa! E se for suficientemente sexy para se fazer umas publicações nas redes sociais, melhor ainda! Deveres, nem vê-los…

Não se pergunta sobre o projeto, não se interessam pelos valores que as empresas defendem ou pelo caminho que têm planeado. Vão querer ser puxados, promovidos por antiguidade, que o resto é uma grande maçada. E se for muito exigente, sairão à procura de algo mais fácil.

Claro que isto não pretende ser um retrato da situação actual, nem que seja porque não gosto de generalizações. Mas temos de ter cuidado com esta prevalência do “Eu” em detrimento do “Nós”. Não vale, não pode valer tudo nem nenhum indivíduo é maior do que o grupo em que se insere.
Se insistirmos em transformar as Universidades em fábricas de notas, onde se promove a competição e onde o critério de avaliação passa somente por exames, sem mais nada, não vamos lá.
Temos de acabar com esta cultura onde só se fala de excelência, desvalorizando todos os outros percursos que são feitos com igual sangue, suor e lágrimas e que têm igualmente muito mérito.
Temos de entender que deve existir uma relação entre aquilo que o mercado e as empresas procuram e os métodos que utilizamos para transmitir conhecimento. Que não se pense que evoluir é passar de um quadro a giz para um projetor de “powerpoints”!


Temos igualmente de olhar, sabendo integrar, esta realidade nova do hoje, a Inteligência Artificial, que não pode ser vista como forma inovadora de cabular, mas como um acesso a informação útil, rápida e, em muitas situações, bastante eficaz, mas que exige saber e ética na sua utilização. Por parte de alunos e de professores!

Sobretudo, temos de saber valorizar as diferenças, deixando de insistir numa padronização cujo resultado é a saída dos alunos todos formatados para uma determinada forma de pensar, dentro de um quadradinho de segurança e com a liberdade coartada pelas piores razões.

Fui bastante mais extenso do que queria inicialmente e peço desculpa por esse facto mas faltei a todas as aulas que tive sobre como ser sucinto. E interessante…

Antes de terminar, gostava ainda de poder deixar uma última reflexão em relação a este momento, de abertura solene do ano escolar, na nossa Universidade da Madeira.

Acho que devemos saber valorizar o caminho que a UMa já fez, o papel que hoje já tem na Região e o que pode ainda vir a ter, se dotada dos meios necessários e suficientes para fazer funcionar o elevador social.

Hoje já não somos obrigados a sair da Ilha para estudar. Temos oferta, temos qualidade, temos professores capazes, temos infraestruturas, embora talvez já não as suficientes, um recado que aproveito para deixar a quem de direito.

Temos de trabalhar e de continuar a fazer evoluir esta casa. Estamos longe, muito longe, de poder dar a tarefa por terminada mas, com empenho, dedicação e foco certamente que conseguiremos chegar onde desejamos.

Precisamos de todos para alcançar este desiderato, não esquecendo nunca o trabalho dos muitos reitores e das suas equipas que por aqui passaram e deram o seu generoso contributo, assim como de todos os professores e investigadores. E, neste todos, que se possa incluir o Governo da República e o Governo Regional.

Aos alunos desejo um ano memorável, sobretudo para aqueles que hoje têm o tal primeiro dia do resto das Suas vidas. Muitas felicidades e, não se esqueçam, estudem e divirtam-se!

Aos professores, desejo um período de muitas realizações e sucessos, com o foco sempre no superior interesse daqueles que são os clientes desta casa.

Ao pessoal, o docente e o não docente, um agradecimento antecipado, pois tenho a certeza da continuação do empenho no exemplar exercício das Vossas funções.

Que este seja mais um ano lectivo de afirmação da nossa UMa e do seu papel na nossa sociedade enquanto potenciadora de conhecimento, de estudo e de reflexão.

Muito obrigado pela Vossa atenção e paciência.

André Barreto
Funchal, 26 de Novembro de 2025

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Olimpíadas da Matemática

 

Organizado pela Sociedade Portuguesa de Matemática decorreu, ontem (05.11.2025), a primeira fase das "Olimpíadas da Matemática, distribuída por todos os anos de escolaridade. Está em causa, assume a SPM, a "qualidade do raciocínio, a criatividade e a imaginação dos estudantes. São factores importantes na determinação das classificações, o rigor lógico, a clareza da exposição e a elegância da resolução (...)".

Tive acesso à prova destinada a alunos do 5º ano (10 anos). Se a mim, vários problemas deixaram-me, à partida, com um nó cego na minha qualidade de raciocínio, imagino o que se terá passado com aquelas crianças. 

Depois, falam de "criatividade e imaginação". Como? Se a resposta ou está certa ou errada!

Respeito, profissionalmente, quem elaborou a dita prova (que não prova nada), mas julgo que não é por aqui que se desenvolve a capacidade cognitiva. São múltiplas e vastíssimas as variáveis que confluem no processo cognitivo, essas sim que possibilitam o transfere face às diversas situações. Ora, o que está aqui bem evidente é a pressa e o resultado desligado de outras determinantes capacidades. A vítima, essa, continua a ser a criança.  

Mais grave, ainda, leio o ponto 1 (a, b, c, d e e) onde a opção correcta vale 4 pontos e cada opção errada, menos um ponto. Pressão sobre pressão!

Deixo aqui a questão e) à leitura dos que por aqui passarem.


Depois, o que é sensível na prática, constata-se o desacerto de muito alunos com a Matemática. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O que há muitos anos tantos andam a dizer


O SISTEMA EDUCATIVO TEM DE MUDAR
OU IMPORTANTE TEM SIDO MANTER O ESTADO DE IGNORÂNCIA?


Os dados são claríssimos Senhor Ministro e Senhora Secretária Regional da Educação. O meu Amigo Nuno Morna desenvolveu um texto exemplar na caracterização das razões do estado a que chegámos. Vale a pena lê-lo.
 
Tem faltado conhecimento e coragem política para que a escola não seja analisada pela capacidade dos alunos em debitar as respostas prontas, mas a de gerar os pressupostos da curiosidade, do pensamento e do conhecimento. O que estamos a viver caminha para um desastre colectivo.
 
E a Madeira, com 40 000 alunos, podia ser um exemplo de uma estratégia inteligente, inovadora e portadora de futuro.
 
Leiam, por favor, este texto do Amigo Nuno Morna.

𝗤𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗮 𝗳𝗮𝗯𝗿𝗶𝗰𝗮 𝗽𝗮𝗽𝗮𝗴𝗮𝗶𝗼𝘀 𝗲𝗺 𝘃𝗲𝘇 𝗱𝗲 𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗮̃𝗼𝘀



Este gráfico, com as suas cores inocentes de feira barata, não é estatística: é o retrato de um cadáver. Cada barra uma lápide, cada percentagem uma derrota. Décadas de ministérios e secretarias entretidos a carimbar papéis, a inventar reformas que nunca reformaram, a fabricar uma escola que não ensina ninguém a pensar, apenas a repetir como eco do vazio o que lhe mandam. O cérebro reduzido a armário de arquivo, o professor transformado em empregado de balcão.

E o que se vê é terrível: quase metade dos adultos portugueses não consegue interpretar um texto. Quase metade. Um país que lê sem ler, que junta letras como quem empilha pedras, que tropeça nas frases e não encontra o sentido. Uma multidão treinada a recitar datas e fórmulas, a decorar preceitos e preconceitos como quem aprende ladainhas num convento sem Deus. Uma catequese sem fé, uma escola sem pensamento.

A lógica foi sempre a mesma: calar a dúvida, punir a pergunta, domesticar a imaginação. Crescemos assim, alfabetizados de fachada, analfabetos por dentro, obedientes como cães de fila à ordem do manual e ao chicote do exame. Uma nação adestrada para repetir o que não compreende, para fingir que sabe o que nunca soube.

Na política, o resultado é o espectáculo que temos: slogans em vez de ideias, cartazes em vez de programas, a espuma das redes a afogar qualquer substância. Vota-se no sorriso plastificado, na promessa impossível, na frase feita. E vivemos num tempo de extremismos, onde a ignorância se transforma em arma, o vazio em trincheira, o grito em doutrina. Quanto menos se entende, mais fácil é seguir o exagero, a mentira, a histeria. E nesse terreno fértil florescem os radicais, alimentados pela iliteracia que a escola cultivou com zelo.

Na economia, a mesma tragédia: trabalhadores que não compreendem relatórios nem contratos, condenados a obedecer sem perceber, a perder sem lutar, a girar na engrenagem como crianças distraídas. O país, sem músculo para interpretar, sem disciplina para pensar, arrasta-se cansado, condenado a ser periferia para sempre, um corpo velho a tropeçar nos seus próprios pés.

Na cultura, o desastre consuma-se: o livro transformado em suplício, a leitura em penitência. As livrarias fecham, os leitores desaparecem, a literatura fica reduzida a um luxo clandestino de poucos. Sem leitores, não há cultura; sem cultura, não há futuro. É como se a imaginação fosse um pássaro morto guardado no bolso do casaco.

Tudo porque a escola se satisfez em fabricar tabelas para relatórios e médias para rankings, em vez de fabricar gente. Gente de carne e pensamento. Ficou uma linha de montagem que cospe autómatos obedientes, uma coreografia triste de crianças a decorar, a repetir, a calar. E o país arrasta-se preso às correntes invisíveis da sua própria ignorância: uma escola que não liberta, uma democracia que metade não entende, uma economia que nunca cresce, uma cultura a desfazer-se em pó. A prisão é esta: frases que não se compreendem, ideias que não se ligam, promessas que não se descodificam.

Até que alguém tenha a coragem de rasgar este guião e escrever outro, um guião onde se aprenda a pensar, a interrogar, a compreender, ficaremos neste palco vazio, com palavras mortas no ar, actores mudos, espectadores cegos. E no fim, como sempre, o pano cai sobre o mesmo silêncio.

Outubro 2025
Nuno Morna

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

A Escola pública não está à venda nem em saldos!


Na edição de hoje do DN-Madeira, o proprietário do infantário "O Polegarzinho", Dr. José Luís Nunes, também presidente da Assembleia Municipal do Funchal (PSD), a propósito da saída de muitos professores e educadores da esfera privada para o sector público, assumiu: "Não somos nós que vamos ter escolas abertas não rentáveis". Por isso, reivindicou mais apoios. As suas declarações vão todas nesse sentido. Com uma que, por não ser verdade, merece reparo: "Por que é que as educadoras querem ir para o público? Porque "trabalham menos, a responsabilidade é zero, porque não têm um patrão que veja as coisas" (...) o patrão privado "é mais personalizado, é mais responsável, é mais exigente", assumiu. Trata-se de uma avaliação sem qualquer consistência e constitui uma ofensa aos profissionais que trabalham no sector público. Mas, adiante.



Este é um tema velhinho e com barbas! Desta vez, não me lembro antes ter sido tão frontal, descarada, mas também verdadeira, a posição que a aprendizagem é um NEGÓCIO: "Não somos nós que vamos ter escolas abertas não rentáveis". 

Ora bem, tal como há mais de doze anos defendeu a Federação Nacional dos Professores, "a escola pública não está à venda". Acrescento, nem em saldos. E se assim defendo é porque a principal preocupação de um governo, eu diria, decente, é a defesa da escola pública para todos, uma escola de qualidade, respeitadora do sonho, do talento e das assimetrias sociais. 

Nada tenho contra o sector privado, pelo contrário, mas entendo que deve ser supletivo do público, como direito democrático à livre escolha. Mas aí terão de ser os pais a suportarem os encargos no "negócio". Não me parece legítimo é que se retire € 38 000 000,00 (2025/26) da educação pública para entregá-la ao legítimo "negócio" dos privados. Ainda por cima, desrespeitando quem lá trabalha. Francisco Oliveira, coordenador do sindicato dos professores da Madeira, recentemente, tocou na ferida: "(...) Se o que se exige no ensino particular é o cumprimento de programas iguais aos do sector público, então os salários devem ser igualados". Mas, neste aspecto, para o proprietário do "Polegarzinho", os educadores têm patrão, têm responsabilidade máxima, são exigentes e responsáveis e, digo eu, ganham menos. Está tudo certo! É a lógica do "negócio".

Ao contrário do que foi referido, a escola pública não nivela por baixo. Não. Se foi ela que, nos últimos cinquenta anos, teve a grande e meritória função de educar e de preparar estas gerações que, é unânime se dizer, é a geração mais bem preparada de sempre, então, o que está em causa não é destruí-la, mas recompô-la nos aspectos organizacionais (número de alunos por escola e por turma), nos aspectos curriculares, programáticos e de autonomia, no sentido de oferecer, cada vez mais e melhor, uma resposta aos desafios dos novos tempos. A escola pública tem de ser, como sempre o foi, uma referência democrática, de qualidade, de inclusão e de excelência. Em toda a Região e, por extensão, em todo o país. 

Só se justificaria o apoio público ao "negócio" do sector privado, aquando de uma qualquer incapacidade do sector público em oferecer uma resposta cabal à aprendizagem num determinado contexto geográfico e social. Só nessas circunstâncias. Privatizar a Educação, a aprendizagem, NÃO! E parece-me ser esse o desígnio ideológico de quem por aí caminha. Perderá, certamente, o combate e a "guerra".

Deixo aqui as passagens mais relevantes da Constituição da República:

Artigo 74.º
(Ensino)

1. Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. 
2. Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: 
a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; 
b) Criar um sistema público e desenvolver o sistema geral de educação pré-escolar; (...)

Artigo 75.º
(Ensino público, particular e cooperativo)

1. O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. 
2. O Estado reconhece e fiscaliza o ensino particular e cooperativo, nos termos da lei. (...)

Ilustração: Google Imagens

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Professores portugueses, nº 1 em vários tipos de stress


Por
Andreia Sanches
Público

Caro leitor, cara leitora,

Nem sempre estamos em 1.º lugar nos estudos da OCDE sobre educação, mas no que diz respeito ao stress dos professores, estamos. O TALIS 2024 (Teaching and Learning International Survey) é o maior estudo internacional sobre professores. A última edição foi feita com base em questionários a 280 mil docentes, de 17 mil escolas, de 55 sistemas educativos, incluindo Portugal. Tem a chancela da OCDE.



Uma das perguntas a que procura dar resposta é esta: quais são as principais fontes de stress e mal-estar que estes profissionais identificam no seu trabalho? Ponto prévio: são comuns a muitos sistemas educativos. Mas não atacam com a mesma intensidade.

Em 1.º lugar: excesso de trabalho administrativo. É um mal generalizado, apontado por 79% dos inquiridos portugueses. Em nenhum outro país a percentagem dos que dizem que o trabalho administrativo é algo que provoca "bastante ou muito" stress é tão grande (a média da OCDE é 52%). Entre os professores com mais dez anos de experiência, uns estrondosos 80% elegem a burocracia como uma grande fonte de stress.

Em 2.º lugar: "ser responsabilizado pelo desempenho dos alunos". Na OCDE, “em média, 45% dos professores afirmam que ser responsabilizado pelo desempenho dos seus alunos é uma fonte significativa de stress”. Mas em nenhum outro lugar como em Portugal há tantos professores a acusarem essa pressão: 78%. Em países como a Islândia ou a Finlândia, são menos de um terço.

Em 3.º lugar: excesso de tarefas relacionadas com a avaliação dos alunos, como corrigir testes e preencher grelhas; 77,4% dos portugueses consideram que é uma fonte de stress, contra 43% na OCDE. Portugal está, também neste indicador, em 1.º lugar. Lidar com as preocupações dos pais dos alunos (muitas das quais serão, presumivelmente, relacionadas com o sucesso, ou falta dele, dos filhos) também preocupa bem mais os portugueses, 61%, do que a média. Tendo em conta que avaliar alunos faz parte da missão, é mesmo importante perceber o que se passa em Portugal. Uma explicação possível é que a fonte de stress n.º 1 tenha algo a ver com isto.

Em 4.º lugar: demasiadas lições para preparar. É uma causa de ansiedade significativa para seis em dez (62,8%) professores portugueses (33% é a média da OCDE).

Em 5.º lugar: a indisciplina dos alunos. Para 62,1% dos portugueses (44,7% na OCDE) este é um importante agente perturbador. Não somos o primeiro, mas somos dos países onde os professores mais se queixam de ter nas suas aulas demasiado barulho e desordem.

A OCDE (ver relatório na íntegra aqui) diz sobre esta pequena indisciplina (mas incómoda, como se vê) que ela acontece num "mundo de smartphones", de miúdos desatentos, de populações escolares com origens cada vez mais "diversas", que não falam as línguas nativas, e onde as crianças com necessidades educativas especiais são cada vez em maior número nas salas de aula.

Mas quando olhamos para edições anteriores, como pode ver mais à frente nesta newsletter, a indisciplina já era um problema antes do “mundo dos smartphones” e das vagas migratórias. Dado relevante: muito mais do que os velhos professores, são os mais jovens os que mais se ressentem dela — 73,6% dos que têm cinco ou menos anos de experiência dizem que lhes provoca muito stress. E são precisamente os jovens aqueles que, segundo a OCDE, são mais frequentemente colocados à frente das turmas mais "complexas".

A verdade é que tudo isto acontece num contexto de crise quase generalizada de falta de professores. Os que estão nas escolas estão a reformar-se — Portugal tem a segunda maior taxa de professores do 3.º ciclo com 50 ou mais anos (60%) logo a seguir à Lituânia. E muitos dos que estão a chegar pensam em desistir — 27% dos portugueses com menos de 30 anos que leccionam no 3.º ciclo têm a intenção de deixar o ensino nos próximos cinco anos.

É por isso que o TALIS 2024 é mais importante do que as anteriores edições (a análise é feita desde 2008, a cada cinco anos). Para garantir que há professores suficientes, é essencial que os decisores políticos considerem o que nos dizem as mais de 300 páginas deste relatório sobre o que mais desgasta e afasta quem está na escola, para que actuem em conformidade. A redução da burocracia escolar, que já tantas vezes foi eleita como prioridade, é, como se vê, uma prioridade.

O ministro da Educação fez coincidir a divulgação do TALIS, na terça-feira, com o anúncio de medidas para aumentar significativamente os números da formação de novos professores.

Lembrou ainda a proibição do uso de smartphones nas escolas, uma das novidades deste ano que, está seguro, terá impacto no comportamento dos alunos.

Sublinhou a aposta deste Governo em ter mais técnicos especializados: "Vamos passar a ter um psicólogo por cada 700 alunos, é quase uma duplicação do que tínhamos."

E anunciou uma “reforma do espaço escolar”, ou, se quiserem, uma “reforma dos recreios”. Não deu detalhes. Ficará para depois das eleições autárquicas.

Já agora, sobre “reformas” na educação, o estudo da OCDE também tem um capítulo sobre isso. “Cerca de 44% dos professores da OCDE afirmam que gostariam de ver um período de estabilidade antes da introdução de novas mudanças nas suas escolas”, lê-se. Portugal está abaixo da média, mas ainda assim 37% partilham do mesmo sentimento.

Não são as "reformas" em si, necessariamente, que causam desgaste, continua o documento quando analisa aquilo que designa por “change fatigue”. É o facto de serem “constantes”, de não serem avaliadas e de não serem acompanhadas do "apoio necessário".

As "mudanças" são um factor de stress para 52% dos docentes portugueses, um pouco acima da média da OCDE, que é de 45,1%. Não somos, portanto, dos que mais sofrem de “change fatigue”. E, muito provavelmente, a julgar pelo TALIS, se for para reduzir as tarefas que não as de dar aulas e a indisciplina, os professores até apreciarão mais algumas.

Outras notícias dos últimos dias:


Até para a semana
Andreia Sanchesasanches@publico.pt

Indicador da semana



Fonte: Estudo de Diagnóstico de Necessidades Docentes de 2025 a 2034

É um dos dados que mostra bem o envelhecimento da classe docente: até 2034, apenas 76 mil dos 122 mil professores que hoje dão aulas vão estar no activo. “Mais de um terço dos docentes vai sair do sistema de ensino em dez anos. É um número enorme”, notou Luís Catela Nunes, coordenador do Estudo de Diagnóstico de Necessidades Docentes de 2025 a 2034, onde constam estas projecções.

O documento foi apresentado esta semana e adianta ainda que, dos 38 mil docentes que as escolas vão precisar de recrutar nos próximos dez anos, 21 mil serão do 3.º ciclo e secundário. Estes ciclos de ensino são especialmente afectados pelo "desinvestimento" e desajustamento que tem existido na formação, que tende a estar concentrada no Norte, quando a falta de docentes se sente hoje mais em Lisboa ou no Algarve, notou o ministro da Educação, Fernando Alexandre.

Para reforçar a formação, foram também assinados esta semana contratos-programa com 11 insiutições de ensino superior público, que receberão um financiamento para cobrir os custos com a formação docente.

Um outro aspecto a destacar é o facto de este cenário vir a acontecer num contexto em que a população estudantil também vai diminuir: em dez anos, deverão estar na escola menos 59 alunos. C.F.M.

Público
Com a devida vénia. Obrigado.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Educação como meio de controlo social


Por
Educador e escritor
Publicado em 06/05/2024

Não há apenas "dificuldades de aprendizagem"; há, sobretudo, inconfessáveis "dificuldades de ensinagem"



Caldas da Rainha, 13 de fevereiro de 2044

Nos idos de 20, proliferavam ‘inovações’ na internet. Psicólogos protagonizavam ‘lives’ de autoajuda. Médicos davam formação sobre ‘neuroeducação em sala de aula’. Economistas introduziam o ‘e-learning em sala de aula’. Filósofos discorriam sobre ‘computação ubíqua em sala de aula’. Universitários, que jamais haviam produzido algo inovador, eram pagos para proferir palestras sobre… ‘inovação’. E colaboravam com empresas oportunistas no ‘negócio da China’ dos grandes congressos e cursos online.

Uma crise ética se instalara. E um sindicato atento à voracidade de “grupos abutres de educação a distância” (sic) lançava avisos:

“Em tempos de crise, podem aparecer alguns, tentando se aproveitar do desespero das escolas, para vender. Este é um alerta que nós temos a obrigação de fazer pois essas pessoas usam informações e pesquisas para tentar convencer os mantenedores a comprar seus serviços”.

A educação continuava ainda a ser justificada mais como meio de controlo social do que como instrumento de aperfeiçoamento pessoal. Com efeito, a teoria e a prática educacional tinham transferido a base filosófica da educação do político para o técnico, cuja primazia era entregue à eficácia e ao controlo.

A organização do trabalho escolar continuava centrada em tarefas que tinham uma base de informação igual para todos, o mesmo tipo de meios e técnicas para todos, provas individuais de adaptação ao padrão exigido para o ‘aluno médio’ (padrão de capacidade ao qual se compara cada aluno individualmente).

Um dos maiores óbices à mudança residia no permanente julgamento e classificação do aprendiz, que invalidava qualquer esforço no sentido da autorresponsabilização.

O conceito de ‘classes’ (ou da eufemística designação de ‘ano de escolaridade’) estava associado a uma suposta homogeneidade organizada em sucessivas etapas. Infelizmente, a psicologia, que se alheara de dimensões que estiveram na sua génese como ciência, sancionava ‘cientificamente’ situações em que o aprendiz que, num tempo pré-estabelecido pelo ensinante, não absorvera a parte do programa correspondente, repetisse, desde o início, um mesmo ciclo de estudos.

A insistência na constituição de classes ‘homogêneas tomava por referência o argumento de que seria possível agrupar indivíduos com um nível intelectual comum. Mas, o processo de autoconstrução do conhecimento era inconciliável com a ideia de classe ‘homogênea’.

Muito menos se poderia admitir a manutenção paralela às classes ‘normais’, de grupos ditos ‘especiais’. A inadaptação não era exclusiva do aluno. Ela era, sobretudo, uma inadaptação da escola. Não havia apenas ‘dificuldades de aprendizagem’; havia, sobretudo, inconfessáveis ‘dificuldades de ensinagem’.

Como estava escrito no início do texto do projeto da Ponte, em 1976:
“Nós, professores, deveremos ter mais dúvidas do que certezas”.

Entre os ensinantes ainda existia uma forte tendência para considerar os aprendentes como entidades fechadas sobre as quais se pode agir exteriormente e não como ‘sistemas auto-organizados’ que promovem o seu ‘fecho’, num ‘fenômeno de auto-eco-organização extraordinariamente complexo que produz autonomia’.

Era, mais uma vez, o mestre Morin a questionar a eficácia e eficiência dos adeptos da ‘programação’ refletida na produção dos ‘bons alunos’ desprovidos de iniciativa. Impedia-se o jogo dos opostos, em que se temperavam dependências e autonomias não-programáveis. Afinal, o que conferia dignidade ao ato educativo?

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A Voz dos Professores - Motivações, Desafios e Barreiras ao Desenvolvimento da Carreira



O Estudo “A Voz dos Professores: Motivações, Desafios e Barreiras ao Desenvolvimento da Carreira”, promovido pela Fundação Pedro Queirós Pereira em parceria com o Centro de Economia da Educação da Nova SBE e com a Universidade do Minho, tem em como objetivo contribuir para a valorização e para o futuro desta profissão no nosso país.



Reconhecimento e Motivação


– Os professores identificam os alunos como a principal fonte de valorização. Mas existe uma perceção generalizada de menor valorização social, o que afeta negativamente a atratividade da profissão.

– A maioria dos professores sente-se motivada com a sua atividade profissional. No entanto, cerca de 20% considera ou pondera abandonar a carreira nos próximos anos. Entre os docentes com menos de 30 anos, esta percentagem sobe para 54%. A retenção dos docentes em início de carreira deve, por isso, ser uma prioridade, através de estratégias de acolhimento e da promoção de ambientes escolares estimulantes.

– A mobilidade é também um fator relevante: cerca de 25% dos professores desejam mudar de escola ou de concelho, sobretudo entre os mais jovens e aqueles sem vínculo permanente.

– Verifica-se ainda uma tendência de transição de professores do setor privado para o público, que pode contribuir para mitigar a escassez nas escolas públicas, embora levante desafios à capacidade de atração de novos profissionais por parte do ensino privado.

– Na fase final da carreira, 73% dos docentes com 60 anos ou mais planeiam reformar-se assim que possível. No entanto, 85% desses docentes admitem prolongar a atividade profissional, caso se verifiquem melhorias nas condições de trabalho, como a redução da carga administrativa ou letiva. Entre os que pretendem continuar a trabalhar após a idade da reforma, 77% apontam o gosto pela profissão como principal motivo, seguido de razões financeiras por 37%.