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domingo, 31 de maio de 2026

Singapura tão distante... quando a solução está aqui tão perto!

 

Volta e meia regressam com um discurso sobre o sistema educativo de Singapura. Em tempos foi aquela ideia, também circunstancial, que a Madeira teria de ser ou viria a ser uma "Singapura do Atlântico". Não sei se morreu ou se ainda sobrevive pela propaganda política. Parece-me que sim, porque, agora, regressou no âmbito das conferências sobre o quinquagésimo aniversário da Autonomia. Na sede da Universidade da Madeira e com convidados vindos de fora, que nada acrescentaram, sublinho, foram ignorados aqueles que, certamente, terão pensamento científico e organizacional sobre este importante sector. Buscam inspiração em Singapura, a treze mil quilómetros de distância, quando a solução está aqui tão perto.



Aliás, não tenho presente os nomes dos responsáveis políticos madeirenses que, ao longo de 50 anos, visitaram Singapura, especificamente para estudar o respectivo sistema educativo; como não tenho presente o nome daqueles que procuraram os tão badalados países nórdicos tidos por referências de sucesso educativo. Não dei conta de eventuais estudos e relatórios publicados. Se alguma visita tivesse acontecido, enquanto preocupação política, os meios de comunicação regionais teriam feito alarde. Portanto, não sei se falam pelo Google, pelo Youtube ou através da IA. Sei que dizem coisas e que passam ao lado de toda a excelente investigação feita em Portugal, onde figuras académicas de topo, investigadores de excelência, Departamentos das Ciências da Educação das várias universidades e institutos, também autores, têm marcado o pensamento do que está por fazer e como o operacionalizar. Fica bem, pensam, nos momentos mais solenes, jogar com cartas que, embora não dominem, servem na perfeição o número político de propaganda. Logo depois a treta continuará e as palavras leva-as o vento.

Ora, qualquer pessoa minimamente informada reconhecerá que o sistema educativo, tal como todos os outros sectores, necessita de um pensamento estruturado para ter sucesso. E que tal não é possível sem o estudo de múltiplas variáveis: as de natureza económica e financeira e consequente estrutura produtiva, as heranças culturais, históricas, geográficas, os valores sociais e familiares, a estrutura administrativa do Estado e as prioridades estabelecidas, a limitada autonomia da Região e a dos estabelecimentos de educação, a necessidade de revisão do que está plasmado em sede de Constituição da República (possibilitando a existência de um país com três sistemas educativos autónomos), a diversidade populacional, o PIB per capita e os indicadores de pobreza, a organização curricular e programática, o pensamento pedagógico, a formação e selecção inicial dos professores, a arquitectura dos espaços escolares, estes, entre muitos outros, como factores determinantes no desenho de um sistema educativo portador de futuro. Não é possível de outra maneira, pelo que é ridículo imaginar um sistema que, leviana e descontextualizadamente, integra um elemento daqui e outro dali, como se isso servisse para ilustrar qualquer comparação com outros espaços e intervenções de sucesso na aprendizagem.

Curioso, também, é que, durante 50 anos, nunca registei qualquer manifestação de interesse por um grande debate regional sobre o sistema, que juntasse o mundo político-partidário, os professores e investigadores de todos os níveis, pais, alunos, empresas e instituições sindicais; nunca foi possível contextualizar a escola com a família, as suas dinâmicas, a demografia, as questões sociais e a organização dos tempos de trabalho; nunca constatei qualquer preocupação sobre os currículos, programas, horários, as centenas de metas curriculares, algumas perfeitamente inúteis; nunca escutei uma palavra sobre correntes pedagógicas, novos conceitos de aula, de turma, de sala de aula, tpc, avaliações; jamais registei uma preocupação para travar a infernal burocracia, o número de alunos por estabelecimento, a rede, a arquitectura dos espaços escolares e o financiamento aos estabelecimentos privados em detrimento do sector público; até mesmo estudar o rigor, a disciplina, a violência na escola em contraponto com a violência da escola. E houve tempo mais que suficiente para tudo ser reequacionado visando uma escola para o tempo que estamos a viver. Criada aqui e contextualizada aqui, com verdade, ciência e autenticidade. A rotina marcou o ritmo e a escola transformou-se num espaço de "normalidade e tranquilidade". Como se fosse um spa, quando ela tem de ser vida! 

Portanto, esta historieta de querer ser como Singapura não pega, porque não tem qualquer sustentabilidade no estudo, no trabalho e no discurso político. Nem Singapura nem a Finlândia como referências. Provam-no aqueles estabelecimentos de educação que tentam lançar projectos visionários e consequentes de acordo com a literatura existente. Na realidade não são bem vistos, porque os responsáveis políticos têm preferido a norma à inovação. A título de exemplo não deixa de ser paradigmático o que aconteceu na Escola 1,2,3 do Curral das Freiras. Lembram-se? Recordo que se encontrava no lugar 1 207º do ranking nacional e, consequência da paixão dos professores, liderados pelo Professor Joaquim José Sousa, saltou para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano: "tinha 300 alunos, não tinha campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batiam certo com os do autocarro. Os seus mentores tornaram possível um melhor conhecimento, apesar de 92% dos alunos terem Acção Social Educativa (pobreza) e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias". O que aconteceu? Perseguiram-na e fundiram-na com uma outra de S. António, no Funchal. Ao invés de procurarem as suas virtualidades, não, bloquearam-na e dividiram-na, não sei se para reinar. Esta é a prova da "Singapura local" em todo o seu esplendor, que deixa para trás cerca de 7 000 jovens que não estudam nem trabalham. Valham-nos alguns estabelecimentos particulares que, contra a corrente, nos limites da legislação normativa, seguem outros pensamentos organizacionais e pedagógicos. 

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

2024


Depois da "festa" a realidade. Após uma certa embriaguez que as circunstâncias, rotineiramente, a todos envolve, Janeiro fora regressamos à sequência do dia-a-dia, para a maioria, à lamúria das insuficiências que o Natal, de uma ou outra maneira, esbateu. Já aqui escrevi sobre a minha contida desilusão face ao caminho tortuoso, esburacado e minado que os senhores do mundo nos obrigam a trilhar. Vive-se um tempo de descrença e de pavor, de ausência de referências que nos embalem para as palavras "acreditar e esperança", que rejeite seres mais dados ao conflito do que ao sentimento humanista. E o conflito não está apenas nas guerras! Utopia, dir-me-ão! Só que a utopia é um caminho que se faz de sobressalto cívico, nunca de silêncios. A utopia, como dizia Pirri a Galeano, está lá, ao longe, por isso serve para caminhar. Por isso, caminhemos.



Há muitos silêncios por aí. Há muitas colunas vergadas pela obediência, muitas dependências intencionalmente criadas, muitos braços caídos e muitas silenciosas lágrimas vertidas por mil e uma razões. E o silêncio mata, lenta mas seguramente, a sociedade. A ausência de pensamento sobre tudo quanto nos rodeia, a capacidade de perceber, interpretar e de cruzar a(s) realidade(s), a insuficiência de sentido crítico joga sempre a favor daqueles que, na esteira de José Régio, vendem o seu produto:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
(...)"

É essa consciência e esse sobressalto que desejaria assistir, paulatinamente, em 2024. Tudo menos a gritaria de comentadores travestidos de qualquer coisa e de uma comunicação social descredibilizada porque sempre atrás do anormal.

Difícil, eu sei. No ano dos 50 de Abril, onde a verdadeira Escola pouco deu na perspectiva de seres humanos conscientemente libertos através de uma superior qualidade da mente, não será demais augurar que os professores se soltem da rigidez do manual, no quadro de uma formação global, eu diria cultural, que jamais pode ser conseguida através do ciclo de verbos: debitar, fixar, responder, avaliar, passar ou chumbar. A aprendizagem da vida não está nos manuais da escola, é muito mais complexa, e repetir o passado apenas poderá conduzir à mentalidade que, genericamente, nos caracteriza e, aos poucos, à morte da Democracia. Aliás, por todo o lado, é sensível o assalto aos mais elementares direitos humanos. Sempre através da caça do descontentamento e das concomitantes palavras doces e olhares inocentes que não traduzem as intenções mais profundas.

Bom 2024!

Ilustração: Google Imagens

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Deus não dará a bênção!

 

Saiba, Padre Silvano Gonçalves, que nutro o maior respeito por si. Não nos conhecemos no plano pessoal, mas leio e tenho algumas referências dos sete anos que passei no Lombo do Atouguia (Calheta). Portanto, não considere deselegante da minha parte trazer aqui um comentário sobre uma frase que deixou na sua página de facebook. Escreveu: "Peço a bênção de Deus para o ano escolar que se inicia. Vinde Espírito Santo!"



Eu percebo a sua intenção. O Senhor é um Homem da Igreja e, portanto, por mera rotina ou não, as suas palavras, nesse quadro, podem fazer algum sentido. Respeito-as. Porém, entendo que Deus não deve ser para aqui chamado. E porquê?

Não estou a dizer-lhe que "invocou o nome de Deus em vão". Não é isso. O que me parece claro é que se deseja, tal como eu, uma escola verdadeiramente inclusiva, curricular, programática, pedagógica e organizacionalmente autónoma, de excelência e ajustada ao tempo que nos coube viver; se quer, tal como eu, uma escola com menos dependentes da acção social educativa; se deseja jovens e professores felizes no processo de aprendizagem para a vida, obviamente que tudo isto não depende da mão de Deus, mas dos Homens. E, nesta, como em todas as outas situações, não existem intermediários. Tal como a paz no mundo, as gravíssimas questões ambientais (vide a Encíclica Laudato si), as diversas formas de violência, os desequilíbrios e dependências mundiais, a fome, as migrações, a selvajaria económico-financeira mundial, a precariedade no trabalho, os direitos básicos constantes na Constituição da República, os baixos salários vs altos impostos, enfim, tudo o que nos preocupa, não depende de Deus, mas de nós, Homens e Mulheres. Se assim não fosse, parece-me óbvio que, há muito, com tantas bênçãos, pedidos, terços e procissões os nossos desassossegos estariam resolvidos!

Uma melhor escola, Padre Silvano, depende dos políticos e não de Deus. Uma melhor aprendizagem não depende do Espírito Santo. Depende da capacidade dos políticos serem ou não inovadores. E eles, creia, não têm sido. Depende, também, dos professores quererem erguer uma escola de e com futuro, que tenha o aluno e a vida como centro da sua acção. Depende da cultura dos pais e da informação que disponham sobre o que deve ser a escola. Depende de uma sociedade menos assimétrica que, aliás, está assustadoramente reflectida na escola. Portanto, jamais dependerá de Deus, mas dos Homens. Compreenderá, por isso, ilustre Padre que, em aproximação ao Evangelho (da Igreja interessa-me, sobretudo, a Palavra contextualizada com a vida), temos a obrigação de não sermos vazios, não transferindo para Ele preocupações e pedidos de ajuda que não lhe compete "dar despacho". Nem o Pai, nem o Filho, nem o Espírito Santo (Deus Triúno) podem ser responsabilizados pela ausência de projecto político sério e responsável.

Eu Cristão, baptizado, professor durante 40 anos, entendo que Deus não dará a sua bênção ao ano escolar, tampouco o Espírito Santo concederá a inspiração no sentido da concretização das urgentes mudanças que o sector educativo necessita. Essas mudanças dependem da cultura dos Homens, depende da sua vontade, depende da sua inteligência e concomitante capacidade para ver o sistema de uma forma alargada, visionária e integrada no conjunto de todos os outros sistemas. Depende dos políticos não desejarem ser "donos disto tudo", egoístas, centralizadores e castradores do pensamento livre. É por aí que devemos lutar e exigir (o Senhor Padre Silvano devia exigir nos vários púlpitos que dispõe), nunca pela solicitação de uma bênção para um processo que está errado na raiz. Pelo que sei da Palavra, Deus, certamente, não aprova os disparates dos Homens.  

Não me leve a mal o desabafo. Compreendo-o, mas não estou de acordo com a "solicitada" bênção. Mas, quando, até ao momento, mais de 800 pessoas concordaram consigo, inclusive, professores, provavelmente eu é que estou errado.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Lamento a onda de ausência de respeito e cortesia


Embora seja de uma outra época, o ser educado e cortês, continuo a defender que não tem época. Não deveria ter. Há princípios e valores que, pessoalmente, não abdico. Enquadro-me na nossa cultura e dispenso as atitudes que algumas modernices estão a alastrar como cogumelos. Ainda anteontem, segui uns breves comentários sobre a guerra. Convidados da Senhora jornalista Ana Sofia, de 38 anos (CNN), estavam o Senhor Major-General na reserva Carlos Branco e o Senhor Embaixador Jubilado Dr. Seixas da Costa. E a conversa desenrolou-se ao jeito de Carlos Branco (64 anos) o que pensa disto e qual é a sua opinião Seixas da Costa (75 anos).



A jovem jornalista, aliás tornou-se comum este tipo de tratamento perante os convidados, pareceu-me que teria andado na escola com aquelas duas figuras com um curriculum invejável. Figuras que têm quase o dobro da idade da jornalista. Logo a seguir dialogou com o Dr. Rogério Alves que, na qualidade de jurista, abordou um outro qualquer tema. Era Rogério para cá, Rogério para lá. Ora, mesmo que estes comentadores ali estejam na condição de "residentes", não perdem ou não deviam perder aquilo que são ou foram nas suas vidas.

Bem audível foi um outro Major-General que, há dias, convidado do jornalista José Alberto Carvalho, respondendo a uma sua questão, disse: "como o senhor Dr. sabe (...)". Com que objectivo, não sei. Apenas, escutei.

E isto está a tornar-se transversal na comunicação social. Por despeito, também não sei. Certo é que me parece existir uma progressiva degradação na cortesia e no respeito pelos outros. Ao ponto de hoje, descendo a escala, alguém telefonar e perguntar se a senhora Maria está? Aprendi que se deveria tratar, claro, quando se desconhece a formação académica de alguém, por Senhora D. Maria. E, a propósito, há que tempos não oiço, por exemplo, "o Senhor seu pai como está? Ou a Senhora sua mãe!

E depois vem "oh chefe o que vai ser?", ou "dona o que deseja?" Pessoalmente, já não ligo, o que é errado, sublinho. No caso do "chefe" creiam-me que me irrita. Normalmente respondo: "meu caro, eu não sou chefe de coisa alguma". E a conversa fica por aí. Ou, então, quando estou numa repartição e o meu interlocutor fixa-se no ecrã do computador deixando-me a falar sozinho. Aí, também, paro de falar e espero que me olhe nos olhos. Ou, então, a figurinha, pensando os outros distraídos, sorrateiramente, coloca-se numa posição que a leva a avançar na fila para qualquer coisa. Ou, então, o sujeito que passa por deficiente ou deixa o carrito a ocupar dois lugares. Ou, então, ainda, os que utilizam uma escada rolante ocupando toda a faixa e impedindo que outros subam no seu ritmo. Enfim... uma interminável história de situações!

Não gosto do que ando por aí a ver e a sentir. Eu diria que falta escola no que concerne à formação de base. E se a família não abre esse espaço (pelo que vejo a televisão também), transversalmente, compete aos professores, pelo seu exemplo e palavra falarem destes aspectos. Eu sempre o fiz, aproveitando todas as situações. Prefiro que os alunos "saibam" menos uma série de "definições dos programas para esquecer", mas que sejam bem formados em tudo o que é essencial para a vida de relação com os outros. O resto, aprende-se.

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Inconcebível


Não se trata de saudosismo, quanto muito de memória e de oferta educativa. Ali se fizeram campeões nacionais, internacionais e um olímpico. Naquela piscina viveram-se momentos fantásticos quer na competição regional quer nacional. Milhares de crianças aprenderam a nadar oriundas dos infantários do Funchal. E por ali passaram milhares de alunos do estabelecimento de aprendizagem Dr. Ângelo Augusto da Silva.





Não quiseram recuperar todo o sistema de aquecimento e a instalação foi-se degradando até ao ponto de "umas cabecinhas", lamentavelmente, terem decidido que ali acabaria a natação para dar lugar a um espaço multiuso. Multiuso?! Neste momento encontra-se na fase do aterro. Não sei qual é o orçamento, nem me interessa saber, se é mais barato ou mais caro, certo é que uma escola, com mais de 1.200 alunos, deixará de poder oferecer a aprendizagem da natação.

Lamento que sendo o secretário regional da Educação professor de Educação Física, não tenha partido do princípio que qualquer outra modalidade pode ser praticada no pavilhão e nos diversos espaços que a escola dispõe (melhorando-os, substancialmente), mas que a prática da natação implica água e pistas!

A propósito, li um artigo, no Jornal da Madeira, assinado por Eduardo Freitas, que dá muito para reflectir. Pessoalmente, gostaria de saber qual foi a posição da Associação de Natação da Madeira, se foi ouvida, claro.

Ilustração: Arquivo pessoal

sábado, 10 de dezembro de 2022

Então o Secundário é acessório?

 

É mais uma particularidade de um sistema educativo estruturalmente desadequado e que integra uma terminologia sem sentido. Pelo menos do meu ponto de vista. Vejamos esta: neste momento, após o terceiro ciclo do básico segue-se o secundário. Certo? Pergunto: secundário, porquê?



Se consultarmos o significado da palavra secundário constata-se: "(...) que é de segunda ordem ou ocupa o segundo lugar em ordem, graduação ou qualidade, relativamente a outrem ou outro. De menor importância, matéria secundária. De pouco valor, acessório, inferior. Do latim secundariu, em segundo lugar (...)". 

Chamem-lhe tudo, menos secundário: "Nível 4 de Aprendizagem", pré-universitário ou pré-superior, agora, secundário, obviamente que sugere qualquer coisa de segunda ordem e de pouca valia. E aquilo que o actual sistema defende é que ele não é de menor importância. Até enquadra exames nacionais de acesso ao superior, logo, de redobrada importância. Que paradoxo!

Parecendo que se trata de uma questão de pormenor, não é. Talvez fizesse algum sentido quando a obrigatoriedade da aprendizagem terminava no 9º ano! O que vinha a seguir, lamentavelmente, era considerado "secundário" nessa lógica da obrigatoriedade do Estado garantir a todos a universalidade "tendencialmente gratuita" (que mal isto me soa) até aos nove anos de escola básica. Portanto, não é aceitável deixar transparecer que, apesar da escolaridade obrigatória ser agora de doze anos, aqueles três anos finais, sejam acessórios. 

E se trago à colação esta designação, muito semelhante a outras na classificação internacional, é porque entendo que, por um lado, não me parece correcto que se siga uma dada classificação assumida por outros, porque sim, por outro, porque o sistema deve constituir-se em harmonia quer nas designações, quer nos currículos, quer, ainda, nos programas ou nos formatos organizacionais. A diversidade é fundamental, o que me faz rejeitar padronizações europeias ou outras.

Mais, ainda. Porquê 1º, 2º e 3º ciclos? Hoje, não vejo onde reside a lógica da diferenciação dos ciclos. Então, repito, a obrigatoriedade da aprendizagem não é de 12 anos? E a aprendizagem não deve assentar num continuum e sustentada na integração do conhecimento, respeitando a interligação e cadência dos diversos patamares da aprendizagem? 

Ora bem, era aqui que queria chegar. Tenho tido a feliz possibilidade de cruzar muita informação, desde o que leio até aos contactos com professores e alunos, enfim, com pessoas preocupadas com o conhecimento que está muito para além da resposta dita "certa" (!) a um qualquer assunto do manual, por seu turno sucessiva e obsessivamente avaliado. E o que leio e o que oiço leva-me a concluir que o sistema tem de passar por um profundíssimo debate que adeque a sequência da aprendizagem ao tempo que nos coube viver. Temos o dever de virar o sistema de pernas para o ar. 

Não devem os políticos de plantão brincar com o tema Educação. A Educação é política e não partidária. É um desígnio de todos. Eu diria, menos propaganda e mais acção consistente no sentido de, corajosamente, preparar a Região para que o povo seja feliz cá dentro. Para isso, torna-se imperativo revolucionar o sistema educativo. E quem não tem essa capacidade, quem não consegue ver para além do horizonte visual, desampare o caminho. Em nome dos jovens e da resposta aos problemas sempre novos.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 3 de dezembro de 2022

O Estado da Educação

 

Na passada Quarta-feira participei, como orador, na Escola Francisco Franco, num encontro sobre o "Estado da Educação". No final do debate, quando já poucos se encontravam na sala, um aluno aproximou-se e sem rodeios disparou: "oh professor, depois do que escutei, considera mesmo que isto está tudo errado?"



A pergunta, acreditem os que me estão a ler, não me surpreendeu, até porque já passei por situações semelhantes. É uma pergunta óbvia de quem deseja perceber os terrenos da aprendizagem que pisa. De professores a alunos, claro. Já fui confrontado com uma professora que me disse de chofre: "discordo da maioria das coisas que disse. Nós trabalhamos muito bem na minha escola". E eu respondi-lhe: ainda bem que discorda, por um lado porque não existem verdades absolutas, por outro, discordar é o primeiro passo para um debate sério, profundo e substancialmente argumentativo. O problema é que não se debatem as rotinas que levam a admitir a inexistência de outros formatos adequados ao tempo que estamos a viver.

Ora, a pergunta daquele aluno reflecte, também, a inteligência de quem não se acomoda. Respondi, serenamente, colocando-lhe a mão sobre o ombro, dizendo-lhe: que importante questão está a colocar! Sabe, não está tudo errado, mas não acha estranho que cerca de 11% dos rapazes e 15% das raparigas assumam que gostam da escola? Há muita "coisa" boa desenvolvida nos estabelecimentos de aprendizagem. Existem excelentes professores, só que, como eu salientei na minha exposição, tal como disse Alvin Tofller, não se pode meter o futuro nos cubículos do passado. Este sistema tem mais de duzentos anos, disse-lhe.

E a conversa continuou até à porta de saída da escola. Pelas escadas fomos conversando sobre as disciplinas e sobre a palavra conhecimento; falámos da tralha que invade os currículos e os programas; falámos do decorar para esquecer; falámos da excessiva burocracia que inferniza os professores e que lhes retira tempo para serem professores; falámos da pouca participação dos alunos na aprendizagem que continuam a ser mais receptores passivos de matéria, muita que para nada serve para a vida e falámos, ainda, do direito ao sonho e ao respeito pelo talento de cada um. Ao contrário de uma escola igual para todos, devíamos ter uma escola à medida de cada um, disse-lhe. Portanto, não está tudo errado. A configuração da estrutura do sistema é que tem de ser completamente diferente. E já no final do diálogo falámos de cidadania. Questionei-o: faz algum sentido, por exemplo, uma disciplina de Cidadania, no Básico, sujeita a avaliação? A cidadania é transversal, pertence a todos os professores, aos pais e todas as situações devem ser aproveitadas para dela falarmos. 

Fiquei feliz por este fugaz diálogo com um jovem à procura de uma interpretação da escola na compaginação com a vida. No regresso a casa, pensando sobre aquela sessão e sobretudo no interesse daquele aluno, veio-me à memória um jovem que, quando eu desempenhava funções políticas, irrompeu pelo meu gabinete para me pedir aquilo que considerou o "vosso projecto político para a Região". Estávamos a semanas de umas eleições legislativas e ele que, nesse ano, ia pela primeira vez votar, queria saber mais e daí a sua ronda por todos os partidos concorrentes. O seu voto não podia ser à toa, deduzi, por "influência" familiar ou qualquer slogan de campanha. Entreguei-lhe todos os papéis e apenas lhe disse: é a primeira vez que vivo uma situação destas. Parabéns. Leia todos e decida o seu voto. O voto consciente!

Parecendo nada ter a ver uma situação com a outra, a verdade é que ambos estão unidos na busca da compreensão dos diversos ambientes que a vida confronta: um na escola que frequenta; o outro preocupado com um dos mais importantes actos de cidadania. E isto é salutar. 

No caso daquela sessão sobre o "Estado da Região", oxalá, eu e a Professora Liliana Rodrigues, tenhamos conseguido despertar para a necessidade de um debate muito mais alargado. Bem disse a Professora Liliana que o processo educativo está muito centrado no professor quando devia estar centrado no aluno. É verdade. Só que, aos políticos de plantão, sobra-lhes em teimosia o que lhes falta em conhecimento, acreditam, piamente, numa escola igual para todos quando todos são diferentes; pedem aos jovens projectos "fora da caixa" quando bloqueiam, desde as primeiras idades, a criatividade, a inovação, o risco e a liberdade de cumprir o talento que cada um de nós transporta. Ainda hoje li uma interessante entrevista ao velejador de 83 anos, Sir Robin Knox-Johnston, que a páginas tantas salientou: "(...) Aos 8 anos eu já sabia que ia ser velejador, não sei o motivo, simplesmente sabia". Pois, o talento estava lá! Foi assim com Ronaldo que se esquecia dos livros, mas não abandonava a bola, com o aluno mediano e distraído Albert Einstein que deixou cedo a escola tradicional, foi assim com um outro que passava a vida a fazer riscos e o professor queixava-se de nunca estar com atenção... Pablo Picasso! Foi assim com Thomas Edison, considerado um idiota e aconselhado a deixar a escola. Decididamente, um fatinho de tamanho único não encaixa em todas as vocações.

O drama de tudo isto é que os políticos continuam a viver, ilusoriamente, no pedestal da autosuficiência, incapazes de aceitarem que as traves-mestras da escola de há duzentos anos não se adequam ao exponencial desenvolvimento em todas as frentes do conhecimento. Mantêm, por isso, e porque é mais fácil, uma escola fechada sobre os seus muros, impedindo-a de olhar para além do horizonte visual. Falta-lhes cultura no que concerne à capacidade de cruzar o entendimento de todos os sistemas (económico, financeiro, social, político, religioso, saúde, educativo, empresarial, enfim, todos) para daí partirem para uma aprendizagem compaginada com a vida. Sobra-lhes tempo para a propaganda mediática o que lhes falta para visitar, conhecer, escutar, ler, debater e colocar em dúvida os seus propósitos. Vivem no medo de arriscar na criação de actos portadores de futuro. 

Há dias, um jovem médico, Dr. Francisco Dionísio, num encontro acontecido no Funchal, falou exactamente desta preocupação: é preciso "deixar os jovens saírem da sua bolha para que possam ver o mundo". Assumiu que é "no sonho" que os jovens encontrarão sentido para as suas vidas. Ora, isso implica "partir e quebrar as amarras que os impedem de sonhar", sublinhou.

Ora bem, alguém uma vez me disse que a alguns (políticos) os devíamos confrontar com uma frase simples: "oh amigo, de vez em quando convém ler algumas coisitas".

Ilustração. Google Imagens.

sábado, 22 de outubro de 2022

O sistema está amarrado, estrangulado e centralizado numa pessoa!


Desde há muitos anos que nos conhecemos. Tenho pelo Engenheiro Arlindo Oliveira uma enorme consideração e estima. É um Homem esclarecido, de pensamento aberto ao Mundo, perspicaz e sensível face aos dramas sociais. Num tempo que não era fácil ter opinião, não se escondeu. Infelizmente, não foi aproveitado no plano do exercício da política. Ainda assim, em vários mandatos, servimos o Funchal enquanto Vereadores. Aquilo que escrevo relativamente ao sector da Educação, dos poucos que vêm a terreiro debatê-la, ele é um dos que se interessa apesar deste não ser o seu sector de actividade profissional. 



Há dias, publicou um texto sobre a Teoria da Relatividade de Albert Eintein - De Newton (1643-1727) a Einstein, (1879-1955) uma nova visão do mundo e do Universo. Republiquei-o no meu blogue pela importância que tal texto reflecte. É fruto do seu continuo interesse pelo estudo de temas apaixonantes e que a maioria de nós não domina. Já antes tinha acompanhado uma interessante e contagiante entrevista, melhor dizendo, diálogo com o Padre José Luís Rodrigues. Uma conversa que me encheu. E se o trago aqui é pelo facto de naquele trabalho sobre Einstein, o meu Amigo Arlindo, independentemente de todo o conteúdo, ter destacado o facto de Einstein ter sido um aluno mediano nas disciplinas de Física e de Matemática. Estava sempre distraído e teve que sair da escola. O seu texto começa assim: 

"Albert Einstein, nascido nos fins do século XIX, (1879) veio a revelar-se um génio, apesar de, na escola, alguns dos seus professores, não lhe alvitrarem grande futuro na vida, já que, não se revelou, tradicionalmente, um aluno normal, aliás, como a muitos de nós, muitas vezes incompreendidos, ouvimos, em versão semelhante, maus augúrios, da parte de alguns dos nossos professores (...)".


Perante isto, respondi-lhe: "Apenas um desabafo que vai muito para além da nossa Amizade: enquanto metáfora, quanto gostaria eu que toda a classe docente se chamasse Arlindo! Precisamos de um (AR)ejamento total e LINDO no quadro de um novo pensamento em harmonia".

Poucos minutos depois retorquiu: "Gostei meu caro amigo André Escórcio, mas sei que não mereço, no entanto, sempre tive curiosidade em conhecer cada vez mais e que o conhecimento chegasse a todos, especialmente àqueles que não são ouvidos nem têm voz para exprimirem o que lhes vai na alma  (...) quando era universitário constatei que era mais fácil mudar o mundo começando na nossa família, no nosso sítio e na nossa aldeia, etc. etc., (...) mas, afinal, quando regressamos, “formados”, armámo-nos em doutores e perdemos a parte genuína que nos levou à universidade - a nossa pureza de espírito - sim quando regressamos estamos vendidos ao sistema que nada diz ao povo, pelo contrário, oprime-o. Caso contrário a revolução estaria feita por dentro e bem! (...) Um abraço e não disserto mais porque estou a comover-me tão claro é para mim, este meu sentir da realidade - a mudança está em nós, em todos nós e a começar pelos que estão mais perto. Um abraço André."


Pois é, Amigo Arlindo, em todos os sectores "a mudança está em nós". Infelizmente, a maioria não a quer ver. Ainda neste fim-de-semana esteve na Madeira o Professor Doutor Santana Castilho que teceu algumas considerações que deveriam merecer atenção e debate (RTP-M/TJ de Sexta-feira). Caríssimo Arlindo, creia que dei uma gargalhada quando escutei o Professor dizer que, nos Estados Unidos, a implementação dos manuais digitais, iniciada há oito anos, foi abandonada, porque os cientistas concluíram que o desenvolvimento cognitivo das gerações mergulhadas no digital é equivalente ao das crianças de 8/9 anos de há 30 anos; por outro lado, são cinco vezes mais caros para além de ter crescido em 30% as doenças oftalmológicas. Por aqui, andam com a peregrina ideia da "sala de aula do futuro" (a Educação é hoje, não é amanhã) e com os manuais digitais que não são mais do que os de papel "metidos" no digital. E o que quero dizer com isto? Que a putativa novidade pegou, porque não se debate, porque não sabem para onde caminham, porque poucos são capazes de dizer que este rei vai nu, porque o sistema está amarrado, estrangulado, centralizado numa pessoa assessorada por uma meia-dúzia incapaz de dizer que esse não é o caminho. Tecnologia na escola não é aquilo que andam a fazer! Há um défice de estudo quanto à necessidade de reinventar o sistema, que passa por assumir a autonomia plena dos estabelecimentos de aprendizagem, por desenhar novos currículos, por ter uma nova visão programática, por alterar profundamente o paradigma da aprendizagem, por entender a escola como cultura, por trazer a vida para dentro da escola respeitando o sonho individual e por colocar em cima da mesa essa doentia obsessão pela avaliação, tudo isto, entre outros, são assuntos que os políticos de turno não querem e não desejam.


Não imagina, Amigo Arlindo, quanto perplexo fico quando assisto ao silêncio, ao cansaço dos professores, à generalizada angústia dos alunos que olham para uma escola que pouco lhes diz, por ser repetitiva, rotineira, previsível e em que todos, professores e alunos, não se sentem bem. Uma escola burocrática, de uma falsa meritocracia e distante da vida real. O que fazer, Arlindo? Continuar ou desistir? Assumiu o Dr. Mário Soares: "só é vencido quem desiste de lutar". Por isso, mesmo que não queiram aprender, continuemos a escrever e a debater. Um abraço.

Ilustração: Google Imagens

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Entre rotos e esfarrapados...


A propósito da contagem do tempo de serviço congelado aos professores, o Ministro fez umas declarações quanto a mim inócuas e, portanto, sem qualquer relevância política. Considero que não merecia contraponto. É daquelas situações que o Ministro deveria estar calado e o governante regional mudo. Mas não, o secretário resolveu ripostar: "(...) Nós entendemos que estas declarações, sendo completamente despropositadas, não deixam de ter também uma outra intenção que é a de encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal", disse Jorge Carvalho, secretário da Educação, Ciência e Tecnologia da Madeira - Dnotícias, 14.09.2022.



A parte interessante, aqui sim, de natureza política está na passagem "(...) encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal". Admitamos que sim. A questão é perceber as incompetências do Partido Social Democrata para governar a educação na Madeira. A questão reside aqui. No quadro da Autonomia Político-Administrativa, pergunta-se, então, que avanços foram proporcionados?

Estou completamente imune às questões partidárias. Como vulgarmente se diz, "por aí passei e por aí perdi o cabelo". Tenho convicções, obviamente que sim. Tenho leituras de processo, claro que sim. Como qualquer um outro português insulano. Sobretudo porque tento perceber e cruzar a informação dos vários dossiês. Mas não entro no despique inconsequente porque se esgota na espuma dos dias. Por isso, é caso para dizer que há qualquer coisa ali de roto e de esfarrapado!

Ainda há dias, li um desabafo de um professor que sublinhava o facto de, na Madeira, no sector educativo, nada restar que faça a diferença. Apenas foram "10 anos perdidos... como é possível? Já não é folclore é algo totalmente absurdo". Mas há muitas outras posições sobre o que a Região poderia ser em matéria de política educativa e aquilo que realmente é. No mínimo, eu diria que é uma cópia do Continente. Não é em vão, também na Educação, que se diz que a Assembleia é mais adaptativa do que legislativa. No leque das tais incompetências, vá lá, portanto saber-se quem ocupa o primeiro lugar!

O debate deveria centrar-se em matérias muito mais profundas. As de natureza estrutural, de pensamento, de aferição do que dizem e escrevem os grandes pedagogos e cientistas da actualidade (e não só) face ao mundo que está na frente dos nossos olhos. Constata-se a existência de um claro desfasamento, quase total e muito perigoso, entre a rotina do sistema que é proporcionada e a estabilidade e êxito da população em todos os sectores e áreas do desenvolvimento. Enquanto uns buscam a antecipação do futuro, outros amam o passado, idolatrando figuras e conceitos absolutamente desadequados. A universidade nada lhes deu. É caso para perguntar a quem interessa uma população distante, alienada, ignorante, pobre e dependente?


O futuro não se constrói com paleio, repetições, centralização de políticas abstrusas, intencionais perseguições e silenciamentos, distribuição de algumas benesses, controlo total da máquina e imposição de uma lógica de medo. Esse é o caminho do desastre colectivo. Que egoísmo por aí vai! Defender a imagem pública, puxar dos galões, manobrar por detrás do palco, ameaçar ou mandar ameaçar, comprar silêncios e muito mais, deixará uma indelével marca que só prejudicará a afirmação de uma Educação ao serviço do desenvolvimento. São os rotos a vangloriarem-se face aos esfarrapados!

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Regresso às aulas ou o regresso à rotina?

 

A pergunta tem a sua razão de ser. Não tolero a expressão "regresso às aulas", porque a aprendizagem é permanente, mesmo em tempo de pausa, mas sobretudo pela carga que ela transporta no quadro do sistema educativo; muito menos me conformo com a "rotina". Ambas, por múltiplas razões tantas vezes aqui equacionadas, constituem a antítese da escola que aos jovens deveria ser proporcionada, enquanto espaço de conhecimento significativo, como, por outro lado, traduz o oposto relativamente a um mundo que não se compraz com repetitivas atitudes tradicionais. De forma absurda e ininteligível, os políticos são capazes de olhar e até compreender a velocidade com que a ciência acontece, mas continuam a preferir encostar os olhos e o nariz numa parede. Ainda ontem, em contraponto, o Papa Francisco, numa entrevista na TVI, embora num outro contexto, alertava para a necessidade de "abrir a janela" para ver o mundo, digo eu, de oportunidades que os novos caminhos sugerem. Abram a janela, disse! Escancarem a janela.



Ora, o tal regresso às aulas corresponde à janela fechada. É o regresso à turma, aos currículos, à "liturgia" programática, ao condicionamento do pensamento através do manual, à segmentação da aprendizagem por disciplinas, logo, sem interligação consistente entre elas e muito menos com a vida, à imposição do que os adultos entendem como importante, à matança de talentos, porque não se respeita a vocação, o regresso ao débito das matérias, aos testes, à nota e ao exame. É isto que configura o "regresso", palavra que significa "retorno à circunstância inicial". Uma escola assim corresponde a salas vazias de significado.

Aos que seguem a leitura deste texto, obviamente que é legítima uma pergunta: então, existirá outro formato de escola? Respondo: existem muitos, mesmo em Portugal, basta que os estudemos. O que tenho por adquirido é que o "modelo português" (trata-se, de facto, de um modelo (estático) e não de um paradigma), ano após ano, afugenta da escola os alunos e os professores. Os primeiros assumem que é "uma seca", vendo nela mais obrigação do que utilidade, e os segundos, na generalidade, não encontram o momento de fazer um corte com a profissão que abraçaram e muitos amaram. Mais grave é que são poucos os jovens candidatos ao exercício da docência. Mesmo no actual sistema, a renovação dos quadros já é deficitária. O retrato da situação é público e notório.

E não é preciso ir lá fora copiar um qualquer paradigma de escola, porque a solução está cá dentro. Há que olhar, obviamente que sim, para aquilo que outros fazem e de forma consequente, há que reflectir e produzir pensamento a partir de experiências vividas, mas sempre com a preocupação de fugir à tentação de criar um "modelo nacional" desadequado das inúmeras circunstâncias caracterizadoras do povo português. 

Ademais, os estabelecimentos de aprendizagem precisam de uma completa autonomia, de gerar a diferenciação entre eles e de deixarem de vez a trela política centralizadora.

Hoje, estamos perante um "cocktail" explosivo de graves consequências para o futuro colectivo. Os penosos resultados desta cega política estão a caminho. Aliás, já são sensíveis e devastadores os sinais em todos os sectores e áreas da sociedade. Cinquenta anos depois de Abril tudo continua estruturalmente igual, apenas com alguns enfeites e muita propaganda balofa. Para quem decide, face às configurações da IV Revolução Industrial, basta responder com os enquadramentos que provêm da I Revolução Industrial. Pergunto, será que ninguém dá conta que estamos a preparar para empregos que não vão existir e, pior ainda, estamos a gerar uma grave carência de especialistas em variadíssimos espaços profissionais? Ainda ontem, cruzei-me com um empresário que foi claro: "preciso de colaboradores que saibam do ramo a que me dedico. Não encontro". Ele não me falou de habilitações académicas, falou-me de pessoas com talento e capacidade profissional. Ora, concluo, há um evidente divórcio entre as duas faces do problema.

Depois, com uma gritante facilidade, oiço por aí frases do tipo: geração de malandros, não querem trabalhar, vivem dos subsídios, eu sei lá o que tenho escutado. Desabafos que caracterizam a situação actual, mas que ficam pela superficialidade, distante da causa dos problemas. E na causa está a estrutura da sociedade em todos os aspectos, a mentalidade enraizada por anos a fio de encolher de ombros, a ausência de rigor e de uma escola desadequada da realidade. Ninguém se questiona para onde vai, ninguém apresenta uma preocupação de sentido prospectivo, trazendo ao presente o futuro que é desenhável. E como quadros iguais resultam em respostas iguais, ninguém espere amanhã outros resultados que não os de hoje.

Preocupam-se, apenas, e este é um mero exemplo local, que este ano o sistema terá menos 800 alunos (como se martelam as estatísticas!), que os professores estão colocados (!), as salas preparadas, os diversos serviços em funcionamento, os apoios garantidos e pronto, tal qual na fábrica, as portas abrirão às 08:00 e encerrarão ao anoitecer. Pobre escola esta! Os de plantão, no topo da hierarquia política, vão-se entretendo na propaganda e nas palavras rotineiras para enganar tolos. Sem qualquer vergonha, dirão, dentro de dias, que as "aulas" recomeçaram dentro "da normalidade". Pois... o que interessa é a eleição seguinte e não a geração seguinte.

Ilustração: Google Imagens

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

"Se a escola é a tua casa, foge de casa"


Para alguns pode ser cansativa esta luta por um melhor sistema educativo, para mim não é. Jamais deixarei esmorecer a opinião. Porque é o nosso futuro colectivo que está em causa. Serenamente, sem grandes expectativas e até esperança de uma significativa alteração nos próximos tempos, vale sempre a pena continuar a meter um grãozinho na ferrugenta engrenagem. Há dias li um texto da Professora Carmo Machado (revista Visão) que, logo no primeiro parágrafo, salientava: "(...) Se os alunos teimam em escrever no final dos textos – para que não nos esqueçamos – "eu odeio a escola" ou "se a escola é a tua casa, foge de casa", obviamente que este tipo de declarações constrangem quem entende que ali deveria ser um espaço de desejo, felicidade e aprendizagem. 



Preocupa-me a dor e o sofrimento  de uma escola que soçobra, por melhor que seja o esforço dos professores. Entendo o que sentem os alunos e milhares de professores quando se confrontam com um espaço onde a rotina e o desinteresse predominam. E uns e outros, por obrigação têm de lá estar. Alunos à procura de um diploma, professores pela sobrevivência. E ambos aguentam e aguentam. Queixam-se, mas aguentam. Até um dia!

Certo é que, ao longo da minha vida docente e posterior, nunca assisti a tanto queixume, tanto lamento de insatisfação. É crescente e notoriamente público o desconforto. Reclamam os professores, cujas percentagens de exaustão emocional não enganam, pelos penosos e desmotivantes atropelos na carreira onde a avaliação de desempenho é ignominiosa e por uma injustificável carga de trabalho burocrático; lamentam-se os alunos que escrevem, em alerta a quem tem responsabilidades de governo, que estão fartos. Porém, face a este preocupante e desesperante quadro, o político, neste caso, o secretário regional da Educação (Madeira), numa visita a uma escola assumiu: "sempre que houver estrada vamos continuar". Um pouco de mais atenção constataria que esta sua estrada tem um sinal: "sem saída". Os estudos demonstram exactamente isso. E não bastasse o que as verdadeiras estatísticas evidenciam face ao que o futuro nos reserva, seria suficiente um mínimo de atenção ao sentimento que sai pelas canetas dos alunos e pelas vozes, muitas audíveis, outras nem tanto, a dos professores, é verdade, porque refugiadas no silêncio que mata.

O político não está na estrada do sucesso, está no cruzamento com várias estradas em opção. E ali se encontra sem saber qual escolher. Aquela declaração do político fez-me lembrar a Doutora Fátima Vieira, investigadora especializada em estudos sobre a utopia: 

"(...) na utopia o que fazemos? Primeiro, definimos a visão: que sociedade quero ter? que escola quero ter? o que quero ser?... Depois de definirmos essa visão, então sim, escolhemos o caminho e tapamos os buracos. Não vale a pena tapar buracos de outros caminhos". 


O drama é que quem decide não tem visão (não sabe que sociedade quer construir) e não escolhe um caminho (que escola quer ter), prefere andar para trás, para o tempo dos nossos avós... tapando os buracos de outros caminhos que deram no que deram. Para combater isto, então, vale a pena, pelas nossas crianças, ser subversivo. Paul Ricour diz que a utopia é sempre subversiva contra o discurso ideológico dominante. A ideologia legitima, a utopia subverte. Então, por ela, vale a pena ser subversivo, mesmo quando o discurso oficial dominante nos bloqueia e sufoca". É isso, há medo em ser saudavelmente subversivo.

Há dias regressei à minha antiga escola. Falei com alguns colegas, mas dei atenção aos auxiliares de acção educativa. Já não os via há vários anos. Foi agradável o reencontro. Um deles foi claro ao referir-se aos alunos: "isto está cada vez pior". Pois, muita indisciplina, retorqui. Os olhos reviram-se dando a entender que eu nem faço ideia. Pois, percebo, disse. E se percebo! 

Portanto, aquela historieta de "enquanto houver estrada vamos continuar", prognostica, repito, que não sabe que aquela estrada tem o tal sinal de trânsito: "sem saída". É caso para dizer, regresse ao cruzamento e, com visão, escolha outra.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Rob Riemen. “A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise!”


Rob Riemen (1962) é um escritor e fundador do Instituto Nexus, um "Instituto que reúne os maiores intelectuais, artistas e políticos do mundo para pensar e falar sobre as questões que realmente importam". Estava eu a reler uma sua entrevista onde combina "conhecimento de história e filosofia com sensibilidade literária e explica o retorno global do fascismo, disfarçado nas falsas promessas de trazer liberdade e grandeza", eis que, quando vou por aí fora, dou com um outro texto arquivado que sublinha: "A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise".



Eu que, à minha pequena escala, tenho andado envolvido no livro que publiquei, "A Escola é uma seca", que nada tem a ver com a citada notável entrevista de Rob Riemen, aquela frase sobre a classe dominante, a crise e as soluções possíveis, aproximaram-me das minhas preocupações relativamente ao estado a que a política educativa chegou. De facto, na espuma dos dias (L'Écume des Jours, de Boris Vian (1920-1959), ressalta, neste caso, a gritante fragilidade de pensamento de quem deveria assumir a responsabilidade de analisar e ver longe todo o processo. Porque não sabem ou porque não querem, quando dependemos da Educação como de pão para a boca.

Rob Riemen é muito claro a este respeito: "(...) E não falo apenas da classe política, mas da educacional, da que controla os media, da financeira, etc. Não vão resolver a crise porque a sua mentalidade é extremamente limitada e controlada por uma única coisa: os seus interesses. Os políticos existem para servir os seus interesses, não o país. Na educação, a mesma coisa: quem controla as universidades está ali para favorecer empresas e o Estado. Se algo não é bom para a economia, porquê investir dinheiro? (...) Estamos a criar seres humanos vazios que querem consumir e ter coisas e que acabam por se vestir e falar todos da mesma forma e pensar as mesmas coisas. E a classe dominante está muito mais interessada em que as pessoas liguem a isso do que ao que importa". - Jornal I.

E dou comigo, hoje, nem por acaso, quase dez anos depois desta entrevista (23/04/2012) a ler um texto sobre um novo espaço designado por "sala de aula do futuro". Quando o problema não reside aí, antes na transformação da escola no seu todo enquanto espaço de verdadeira aprendizagem, reside na reorganização curricular, programática e em uma atitude pedagógica que rigorosamente nada tem a ver com aquilo que andam a oferecer às crianças e jovens. Apenas areia para os olhos! Por mais salas do futuro que espalhem, a constatação é que "estamos a criar seres humanos vazios". Rob Rimen tinha e tem razão, quando sublinhou que os políticos de turno "existem para servir os seus interesses, não o país". O verbo pensar deveria estar primeiro. Mas não está. Pensar o processo histórico-filosófico e os possíveis caminhos a percorrer. Aquele verbo não constitui a primazia do processo. Por isso ele fala de uma sociedade "kitsch, porque a classe dominante teme que as pessoas comecem a questionar tudo". Neste quadro, correspondendo à pergunta da jornalista, ele foi peremptório:

Claro que sim! (...) Todos temos um lado estúpido, frustrado, provinciano. Para alterar o rumo político, temos de encontrar a estupidez em nós. Mas se as pessoas fossem um bocadinho mais espertas, não iriam para universidades estúpidas, nem veriam programas estúpidos na TV. Existe uma elite comercial e política interessada em manter as pessoas estúpidas. E isso é vendido como democracia, porque as pessoas são livres de escolher e blá blá. (...) a essência da democracia é a liberdade, mas a essência da liberdade não é teres o que queres; é usares o cérebro para te tornares num ser humano bem pensante. Se não for assim, se não fores crítico perante a sociedade mas também perante ti próprio, nunca serás livre, serás sempre escravo. Daí que o que estamos a viver não tenha nada a ver com democracia. (...) Vivemos numa democracia de massa, uma mentira que abre os portões a mentirosos, demagogos, charlatães e pessoas más, como vimos no séc. XX e como vemos agora".


Ora bem, o sistema educativo, tal como os outros, não sei se vive se sobrevive desta porta escancarada aos demagogos e mentirosos. Incapazes, não tocam no âmago dos problemas, não apenas aqueles que enquadram a aprendizagem portadora de futuro, mas também e fundamentalmente, nos dramas que se escondem a montante da escola, numa sociedade marcada pela pobreza e por inúmeras iliteracias que uma "sala do futuro" nunca será capaz de esbater.

Na apresentação do livro "A Escola é uma seca" tive a oportunidade de dizer aos que lá me deram o prazer da sua presença e o favor de me ouvirem: 

"Hoje, se bem observarmos, continuamos a ter de um lado a Escola e do outro a Vida. Uma Escola acantonada dentro dos seus muros, incapaz de os trepar e olhar para o que se está a passar em todos os outros sistemas. Se a escola fizesse esse esforço de espreitar o mundo, mesmo por uma fresta, perceberia o crescente desencanto daqueles que diz querer formar. Se espreitasse para além do muro perceberia as fragilidades e as causas do abandono e do insucesso. Que tem origem a montante, nas famílias, sublinho. Perceberia, certamente, que pouco vale a imensa tralha de pseudo-conhecimento desarticulado que transmite. (...) A escola se espreitasse para além do muro, daria razão à investigadora Deborah Stipek, quando enalteceu que estamos a produzir especialistas em provas, prejudicando vidas promissoras (…) que este tipo de ensino provoca um verdadeiro extermínio de grandes mentes”. Deborah, conclui no seu estudo transversal de 35 anos: “quantos potenciais vencedores do Prémio Nobel são perdidos antes mesmo da escolaridade básica”. Porque estamos agarrados aos currículos, aos extensos programas e aos formatos pedagógicos que matam a curiosidade e o sonho. Em síntese, confrontamo-nos com uma escola igual para todos, quando todos somos diferentes na origem e nos sonhos". Repito: "a sala de aula do futuro" não resolve. Está mais configurada para repetir o passado do que para dar resposta ao presente. 

E assim se chega à conclusão que: "A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise". Então, vão engodando ou enrolando com o "novo normal"!

Ilustração: Jornal I

O livro A Escola é uma seca pode ser adquirido:
Livraria Esperança - Funchal

sábado, 27 de novembro de 2021

Tudo ao contrário

 


FACTO 1

Tenhamos em consideração: um aluno, no quadro do actual sistema educativo, considerado excelente, pratica uma determinada modalidade desportiva. Planeia a sua vida diária no sentido de responder bem às duas exigências. No desporto, entre os do seu escalão, é seleccionado para a equipa representativa, neste caso, da Região da Madeira. Na véspera da concentração e jogos diz ao treinador que não poderá estar presente porque, na semana seguinte, tem cinco testes de avaliação. Assume a "responsabilidade" e fica com a profunda mágoa de não poder participar. Um dos testes, imagine-se o contra-senso e o paradoxo, de Educação Física, com uma catrefada de páginas, teóricas, como se tratasse de um aluno universitário de um curso de professores de Educação Física e Desporto.



FACTO 2

"Três milhões investidos em formação de desempregados". Título na edição de hoje do Dnotícias, página 2/Economia.


COMENTÁRIO

Tento compaginar as duas situações. À partida parecem constituir contextos distintos, mas, à lupa, existe uma interligação de fundo. Isto é, nem o sistema educativo tem tido em atenção a vida real, e a vida integra, também, uma qualquer profissão, como se sobrepõe à cultura (o desporto é cultura). E sendo assim, surgem três milhões para a "formação de desempregados", o que, na prática, corresponde à falência do sistema educativo. E ao outro nível, continuam com o blá, blá, blá que o desporto é, na esteira de Pierre de Coubertin, "essência de vida", "beleza", "arquitecto do edifício que é o corpo", "justiça", "audácia", "ousadia", "honra", "lealdade", "paz" e "progresso". (Fonte: Ode ao Desporto). Tudo o que um jovem precisa. Mais, ainda, corriqueiramente, dizem que ajuda nas questões de natureza psicológica, no desenvolvimento de capacidades, inclusive, cognitivas, e até na formação do carácter! Digo eu, apenas paleio. Na prática, o que existe é um gigantesco divórcio entre o que é considerado "escola" e a vida que existe para além dessa incompreensível obsessão pela avaliação no quadro de um enciclopedismo gerador de muita frustração. Os "três milhões na formação de desempregados" explicam uma significativa parte do problema. E assim continuará, enquanto os vários sistemas se apresentarem estanques, portanto, sem qualquer abertura e interligação na formação global do ser humano. 

Não me admira o facto, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que 30% dos jovens queiram emigrar, 23% estejam medicados por perturbações mentais e que Howard Williamson, Professor  e especialista em políticas europeias de juventude, assuma que "(...) Falhámos a esta geração" (...) Negámos a oportunidade de, dignamente, planearem o futuro" (...) porque se "esqueceram que existe um grande espaço de vida entre a escola e a comunidade" (...) é, por isso, preciso repensar "a ligação entre educação formal e informal". Fonte: edição de hoje do Expresso.

Ai escola, escola! Oh governos abram os olhos!

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Temos muitos chefes. Faltam-nos líderes.

 

A Escola só pode ser entendida como centro libertador. Estou cansado de ouvir por aí, gente com responsabilidades políticas, a falar da escola como "elevador social". Uma conjugação de palavras que traz no seu bojo uma outra expressão: "com a verdade me enganas". Mas qual elevador? Para alguns sim; para a maioria, para os das margens, não. Basta ler as estatísticas e as baixas qualificações dos candidatos a um emprego. Aliás, o elevador tanto sobe quanto desce. E muitas vezes pára, nem para cima nem para baixo! Eduardo Lourenço, no Expresso de 02.07.2017, clarificou esta situação: "(...) hoje, a Humanidade está dividida não só entre os que dominam e os dominados, mas sobretudo entre os que sabem e os que não sabem. É um paradoxo: ao mesmo tempo que o saber é cada vez mais universal e eficaz, isso não se traduz numa Humanidade mais humana e mais sábia."



Ora, aí está. A pergunta justifica-se: porquê? Amélia Veiga, na última edição de A Página da Educação, trouxe à colação Richard Feynman, Nobel da Física em 1965, para destacar dois tipos de conhecimento: o que se foca em conhecer o nome que se dá à ‘coisa’ e o conhecimento sobre a 'coisa'. O nome que se dá à 'coisa', em uma leitura sistémica, portanto, mais alargada e abrangente, significa o enciclopedismo da escola, onde fazem crer que tudo é relevante. Daí a repetição até à exaustão da 'coisa', para que ela seja objecto de avaliação e atribuição de um nível ou de uma nota. O conhecimento da 'coisa', paradoxalmente, torna-se irrelevante. E ele é, indubitavelmente, fundamental. Ele transforma, molda, liberta e torna melhores os seres humanos e, na esteira de Eduardo Lourenço, mais sábios.  

Nessa mesma edição, Henrique Vaz, acentua: "(...) A retórica das soft skills, hoje profusamente difundida no mundo empresarial (...) constrói-se a partir de um pressuposto, amplamente e/anunciado, segundo o qual o mercado de trabalho e as novas exigências do trabalho já não se circunscrevem ao âmbito das hard skills (...), requerem, agora, já não (apenas) um conjunto de saberes, mas, adicionalmente, um conjunto de atitudes ou habilidades particulares que posicionam o sujeito em posição de privilégio (ou não) no acesso ou circulação no mercado dos empregos (...)". Concordo.

O ininteligível está na persistência (política) da escola traduzida na preocupação em saber o nome da 'coisa', quando a vida exige outros saberes e competências. Nesta perspectiva, conhecer a 'coisa', muda ou deveria mudar, quase radicalmente, os princípios organizacional, curricular, programático e pedagógico de uma escola. Trago em memória o que li em Kathleen Eisenhart, na revista Executive Digest, que colocava a questão entre organizações consideradas lentas e as rápidas. As lentas repetem os processos, iludem, fazem desesperar a maioria dos colaboradores (neste caso, leia-se professores) e os clientes (leia-se alunos), enquanto as rápidas adaptam-se e ganham futuro com isso. As rápidas constroem alternativas múltiplas a partir de informações em tempo real. E esse tempo real é aquele que estamos a viver, não é o tempo dos séculos XIX e XX; esse tempo real não admite rotinas enervantes, antes exige coragem para desafiar o(s) poder(es), demonstrando iniciativa, inovação, criatividade e autonomia. O drama é que continuam fixados na 'coisa' e passam ao lado do conhecimento duradouro e multiplicador.

E tudo isto porquê? Porque temos muitos "chefes" e faltam-nos líderes. Faltam-nos os designados VLM (verdadeiros líderes da mudança). Porque os líderes têm um sonho; os chefes vão resolvendo os problemas do dia-a-dia. Os líderes têm uma história persuasiva para contar; os chefes apenas obedecem à hierarquia. Os líderes influenciam; os chefes, em surdina, assumem que não vale a pena. Os líderes inspiram pensamentos, comportamentos e sentimentos; os chefes são submissos e sem ambição. Os líderes têm visão e seguem o caminho da utopia; os chefes não vêem a hora do regresso a casa. Os líderes apostam na gestão da confiança; os chefes encolhem os ombros; os líderes transmitem aos outros o sonho que lhes vai na alma; os chefes dizem, lá vem este com conversa. E atenção: os líderes também sabem que em momentos de tensão e crise, tal como enalteceu Peter Drucker, não existe gestão partilhada; só que na crise os chefes são especialistas em atirar as culpas para cima.


É um pouco por tudo isto que regresso ao princípio para sublinhar que só entendo a escola como centro libertador, não castrador. A  este propósito li, há dias, um texto muito interessante assinado por Jaime Silva que abordava, na esteira de Richard Feynman, "A vida na Educação e a Educação para a vida". O problema, diz o autor, resume-se a "reconhecer a importância do que se está a aprender". O actual sistema, pelo contrário, para a vida, coarcta, desmotiva, impede a realização dos sonhos, reduz o interesse pelo conhecimento, gera, no máximo, chefes.

Como salientou Ana Brito Jorge na notável revista que serviu de inspiração a este texto: "(...) Libertemos amarras, puxemos os fios" por (...) um “pensamento [particularmente exigente e crítico] eivado de esperança, fundamentada e prudente, que nos ajude a perspetivar o futuro para além do imediato e da contingência”, de que nos falou Isabel Baptista na editorial do Verão (...)". Não nos esqueçamos que a escola só pode ser entendida como centro libertador. 

Ilustração: Google Imagens.  

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A propósito da escola do Curral e da generalidade dos comentários

 

Não tenho, confesso, qualquer animosidade pessoal seja lá por quem for. Respeito, embora lamente, um caso com "barbas" que, pese embora tenha feito esforços vários no reatamento de relações normais e até de amizade, não fosse bem sucedido. As pessoas escolhem os caminhos e quem sou eu para as mudar? Quando isso acontece, nada a fazer, apenas lamentar. Até porque a vida são dois dias e, questiono-me, de que valem as perseguições, os mal entendidos, as ofensas, as participações infundadas, a maldade e toda a agressividade gerada por situações de lana-caprina? Valem zero, quando, já nem falo do vírus que nos corroe mentalmente, mas de uma inesperada enfermidade que deixa tudo de pantanas. Isto para dizer que, inclusive, no exercício da política, que joga com os princípios e valores que acreditamos, adquiridos e consolidados ao longo da vida, a luta democrática deva ser vigorosa, mas respeitadora das pessoas. Há limites e "zonas vermelhas" que não podem ser ultrapassadas. E é tão fácil pedir desculpa. Quando alinhavo algumas linhas de análise não é contra a pessoa x ou y, mas tendo em atenção o que dizem e fazem no exercício da missão política. Sei e esforço-me por saber diferenciar esses dois campos.



Este é um exemplo: nunca apreciei, enquanto político, o anterior presidente do governo, muito escrevi sobre as suas atitudes, mas respeitei-o sempre como pessoa. Tenho com ele algumas histórias interessantes que um dia contarei. O mesmo acontece com o actual presidente do governo, com quem estive na Câmara do Funchal durante doze anos, em bancadas opostas, onde muitas vezes vivi situações de crispação na análise dos dosssiês, todavia, tenho consciência que priviligiei, sempre, o respeito, porque a minha tolerância levava-me a crer que tal respeito era bi-lateral. O exercício da política deve ser assim. A vida também isso me ensinou. 

Ora bem, quando a propósito de um texto que publiquei sobre o Dr. Joaquim José Sousa, o Professor da Escola do Curral punido com seis meses sem salário, li comentários que caracterizaram tal assunto de "vergonhoso", classificando o decisor político da história de "político de aviário", que se vive em uma "sociedade amordaçada", que estamos perante um "silêncio ensurdecedor", que o modus operandi é "sinistro", que a "situação é assustadora" e a "fraude, a ilegalidade e o assédio moral são, infelizmente, práticas correntes no ensino público", tudo isto vindo de pessoas, algumas que bem conheço e face às quais nutro consideração e respeito pela sua idoneidade pessoal e académica, então é caso para ficar perplexo com o comportamento político de quem actua, deliberada e infundadamente, contra um profissional da Educação. Em suma, fica-me claro que a pessoa x ou y deveria, pelos seus próprios pés, sair da cena onde é protagonista. 


A missão política constitui um serviço público à comunidade, não é um emprego! A missão política exige dignidade, humildade, respeito pelos outros, exemplo de verticalidade e de honestidade nas decisões. A missão política exige que não se confunda maioria absoluta com poder absoluto. A missão política exige qualidade na negociação, confiança e pacificação. A missão política exige compromisso, risco, excelência, sentido prospectivo e resposta adequada às situações. A missão política exige liderança e nega chefes.  A missão política exige a todo o momento uma análise crítica. A missão política é tudo isto (e muito mais) e nunca, mas nunca, a utilização de um dado lugar, ainda por cima efémero, para praticar a demagogia, a subtil perseguição, a imposição de silêncios enervantes, os episódios fúteis, o sentir-se em um palco para o qual muitos se vergam, embora com olhares cabisbaixos de medo, ou então, o que é prática comum, a distribuição de um qualquer "bodo aos pobres" (leia-se professores), ao jeito, vejam lá que eu até sou, perdoem-me a expressão, "um gajo porreiro".


Infelizmente o sector da Educação está assim, sem norte, totalmente inconsistente, vivendo e preferindo a rotina aos actos de visão de longo prazo. O sistema, por melhores que sejam as cores garridas com as quais o queiram pintar, está exaurido, com alunos cada vez menos interessados (com muitos pobres porque não cuidaram da sociedade a montante da escola), com professores (inegável o seu esforço) em estado de angústia, remetidos ao siêncio por necessidades múltiplas. O sistema, sejamos claros, está completamente desadequado do tempo que estamos a viver. O sistema está envolvido em uma infernal burocracia, sufocante, obcecado pela avaliação e não pela aprendizagem, factores que retiram tempo para pensar, quanto uma grande parte do esforço vai para intermináveis e sequenciais reuniões com ofícios, circulares, papéis, muitos papéis e relatórios tarde ou cedo destinados ao arquivo morto. O sistema vive como se de uma fábrica se tratasse, que abre às 8 e encerra às 18 horas. O que produz? Muitos "produtos" com sensíveis "defeitos de fabrico" e abandonos da "fábrica". O sistema é sinónimo de um massacre obrigatório para todos, prenhe de projectos e mais projectos onde poucos se questionam, afinal, "para que é que isto serve" para a vida. Sei do que escrevo. E a propósito, ontem, ao jantar, desfrutei de uma longa e saborosa conversa com "o meu neto mais velhinho". Sobre Economia nacional e internacional. No final, já frente à televisão, seguindo um programa, disse-me: "avô, mas isto que falámos não se aprende na escola". Rimos, porque ele conhece o meu pensamento sobre a aprendizagem, sobre a vida e o direito ao sonho.

Espanta-me, por tudo isto, que ninguém ponha ordem na Educação. Que o Senhor presidente do governo vá na lengalenga que lhe cantam ou lhe segredam. Que vá na historieta das "salas do futuro". É-me difícil perceber, no caso do Professor Joaquim Sousa, que ele não se indague, convenientemente, restabelecendo a dignidade, esquecendo-se que "cesteiro que faz um cesto faz um cento". E que mais cedo que tarde, uma qualquer bomba política rebentar-lhe-á nas mãos. A Educação não se compadece de egos inchados e da fantasia do que o meu Amigo Dr. Antonio Fontes, já tem uns anos, apropriadamente, classificou de síndrome do "carro preto". Compete-lhe a monitorização do sistema e, quando cheira a esturro, tem o dever de salvar a "honra da casa". Eu estaria levado a falar da "honra do convento" porque nem a Assembleia se mexe. Fico pela "honra da casa".

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

No dia do regresso que não será!

 

Há certos textos que mais parecem obras ou sermões de encomenda. Em todos os sectores de actividade, dependendo, claro, dos interesses entre as partes, ou da relevância política, os leitores confrontam-se, a par de assuntos sérios, com arrazoados que oferecem uma ideia de paraíso, de lugar único e multicolor, onde não existe mácula e onde todos parecem satisfeitos. Os próprios dignitários assumem a voz da plateia dizendo, com palavras doces, que os subalternos os acompanham e demonstram uma felicidade contagiante. Vão até mais longe, em acto paternalista, que o próprio "caderno de reivindicações", dos sindicalistas, claro, todo ele é resolvido em "paz social, estabilidade e segurança". Espantoso.



Constata-se isto porque há sectores da actividade política que a população não demonstra conhecimento e sentido de análise crítica. Desde que os filhos estejam na escola, tudo bem. Aliás, o Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, em Novembro de 2017, no decorrer do encerramento do 1º Congresso das Escolas, em um trabalho de Isabel Leiria, publicado no Expresso, sublinhou: 

(...) Não há nenhuma família que não tenha alguém próximo integrado no sistema de ensino. Mas, estranhamente, a Educação está longe de ser a principal preocupação. (...) Quantas famílias votam, nas diferentes eleições, dando primazia à Educação? Tenho para mim que muito poucas". 

Ora, se o sistema proporciona uma boa organização, se os alunos dispõem ou não de currículos adequados, se os programas são os mais desejáveis face ao mundo que estamos a viver ou se, pedagogicamente, a escola ficou parada no tempo, desde o Século XIX, estes aspectos, genericamente, pouco ou nada dizem aos pais e encarregados de educação. Da mesma forma aos professores, porque sujeitos a uma hierarquia que impõe e limita o diálogo, preferem actuar no campo do cumprimento das tarefas ditadas por outros. É como vulgarmente se diz: "o meu está feito!"

E assim dou comigo a ler histórias de treta, sem rasgo e profundidade, de um auto-elogio bacoco e costumeiro, coisa pavorosa, que sintetizo como sendo papel com letras. Como me diria um académico, por quem nutro elevada consideração, tudo aquilo é "timex", porque não adianta nem atrasa. Aliás, a escrita ali pouco interessa, nem o título da "obra" - Regresso em Segurança a exemplo do 1º período" - quando passadas algumas horas, os estabelecimentos de aprendizagem do Funchal, Câmara de Lobos e Ribeira Brava, por decisão do governo, verão adiado o tal "regresso em segurança". Uma vez mais, o fundamental não foi o texto, mas a fotografia. 

Na minha idade já não desespero. Espero. Espero que a ciência os ilumine ou, na esteira do meu Amigo Doutor Manuel Sérgio, se deixem fecundar pelas ciências para que excreçam a mediania. O problema é que "os portugueses, de facto, verdadeiramente, não dão primazia à Educação como prioridade nacional", considerou o Presidente da República. E assim, tal como nos versos de uma musiquinha do meu tempo, "lá vamos cantando e rindo, levados, levados"... e de que maneira, digo eu!

A própria pandemia, tenham isto presente, poderia ser uma oportunidade e não uma ameaça.

Embora respeite os critérios editoriais, julgo que nem tudo deveria ser matéria de publicação, sobretudo porque dá a entender que se escondem motivos comerciais. Qualquer coisa ao jeito de "pega lá, dá cá". Eu, como leitor e até assinante, interessa-me muitas outras posições divergentes que ajudem a compreender toda a problemática, o mundo que se vive e as respostas mais adequadas, as questões organizacionais, curriculares, programáticas e pedagógicas, a questão da formação e valorização dos professores ao logo da carreira, a autonomia das escolas e dos professores, a excessiva burocratização do sistema, as razões que conduzem a centenas de sinais de ansiedade e depressão por esgotamento mental e físico, a disciplina vs indisciplina, os indicadores de pobreza, material, cultural e outras, a todos os níveis, que chegam à escola, as questões da natalidade e a necessidade de tornar esta fraqueza em uma oportunidade, o paulatino esvaziamento dos direitos da criança que a escola, aos poucos, vai surrupiando, os famigerados "TPC", a desadequada arquitectura dos estabelecimentos de aprendizagem, a questão obsessiva pela avaliação, pelos exames e ranking´s, a falsa meritocracia, a questão da escola pública vs privada, o tal perfil do aluno à saída do sistema, quando não se fala do perfil à entrada, a tecnologia ao serviço da aprendizagem, o bloqueio à inovação e criatividade, a muita tralha dos manuais, as razões das taxas de abandono e insucesso, o dramatismo das pobres qualificações profissionais, a noção de aula, a existência ou não de turmas, ou sobre uma escola fechada nos seus próprios muros, teimosamente agarrada ao manual como se a vida fosse aquilo ou apenas aquilo, que não interaje com todos os outros sistemas, que mata a curiosidade, o interesse e o sonho individuais, enfim, centenas de itens a desenvolver, com rigor e profundidade, de tal forma que, regresso ao início, valha a pena ler e formar uma população para os desígnios da educação. Mas é o que temos. 

NOTA

Em complemento:
Deixo aqui excertos de uma grande parte do que escutei em um programa da SIC - Geração 15/25. É a palavra dos jovens.

"O sistema olha para o aluno como um simples recipiente onde se introduz conhecimento (...) as pessoas ali não pensam, as pessoas ali decoram (...) estamos a estudar para ranking's não para o conhecimento (...) há muito esta pressão para ter notas, custe o que custar (...) a escola está desenhada em torno da matéria e em torno das necessidades dos professores (...) os alunos têm muito pouca importância, esse é um ponto chave (...) gosto de um ensino estimulante, que dê responsabilidade sobre o que queremos aprender, maior valorização da oralidade, da criatividade, menos débito de matéria numa folha de exame e mais exploração das diferentes áreas do conhecimento (...) o mundo mudou menos a escola, a sala de aula, a forma como está organizada é a mesma (...) o espaço para reflectir é fundamental e é daí que vem o nosso crescimento pessoal. Quando não existe este espaço... por isso, culpo as pessoas que fazem os planos curriculares, que fazem os horários e que acham que tem de ser assim e que nós temos de ser tratados como máquinas com o dever de trabalhar para ranking's e não para o conhecimento (...) nós temos professores que não queriam ser professores e isso cria ali um problema: eu quero mesmo fazer isto? (...) há muitos professores que não têm essa capacidade de perceber com o que estão a lidar (...) os alunos precisam hoje de mais motivação para ir para a escola, era melhor irmos para a escola com um propósito (...) a maior parte das coisas que aprendi na escola, se não esqueci já, pelo menos considerei-as inúteis e desinteressantes (...) o sistema educativo foca-se em coisas que não são fundamentais para a vida (...) estamos a criar alunos que não têm qualquer tipo de interesse relativamente à vida que os rodeia... a escola deveria contrariar isso, abrindo o mundo porque há mais vida para além daquela que vivem diariamente (...) nós saímos da escola com muito poucas capacidade para sermos resilientes, para enfrentarmos desafios (...) eu não sou preparada para pagar impostos, para fazer um currículo, uma entrevista de emprego, como posso obter todas as informações para exercer o voto consciente... falta muita coisa (...) muitos alunos não vêem a finalidade daquilo (escola) (...) os programas estão desenhados, por exemplo, para dar gramática... quando o objectivo não deveria ser que as crianças soubessem gramática... o objectivo do Português é que sejamos bons falantes da língua e que se saiba escrever. Saem do ensino e não sabem escrever e muito menos sabem falar e, definitivamente, não sabem olhar para uma obra literária (...) o bom professor é o que nos consegue cativar, que nos estimula constantemente (...) as notas não definem ninguém. Um curso com média de 18 não é melhor que um curso com média de 12. Há quem entre com 18 e esteja contrariado e há quem entre com 12, mas com paixão porque é mesmo aquilo que querem (...) nós já não vivemos num mundo onde faça sentido o professor abrir o manual, ler o que está no manual, fechar o manual, fazer uma ficha e acabou. Estamos a desperdiçar tantas qualidades que os alunos têm, portanto, não faz sentido uma resposta uniforme para a diversidade (...) decoramos para os testes e para os exames e raramente essa matéria fica retida (...) haver debate de ideias e várias perspectivas sobre o mesmo assunto, é muito, muito raro. Eu tive poucos professores que me dissessem: temos este assunto e aqui no livro temos esta solução. Mas vamos lá pensar em mais soluções. É raro, quase não acontece em Portugal (...) a nossa formação é demasiado quadrada, demasiado formatada. É quase um ritual (...) não são os currículos que interessam tanto, pois precisamos de pessoas inovadoras, pessoas que consigam se auto-construir (...) vão-nos retirando a criatividade e a curiosidade. O sistema educativo está muito condicionado por uma força de poder que quer manter a socidade estagnada (...) a EDUCAÇÃO continua a não ser uma oportunidade. Nós deveríamos mudar as coisas antes de se tornarem um problema."

Ilustração: Google Imagens.