segunda-feira, 1 de junho de 2026

No Dia da Criança


O primeiro de Junho devia ser o dia do debate anual sobre o “estado da criança”. Normalmente fica pelas requentadas boas intenções. Os estabelecimentos de educação cumprem o ritual, levando-as para a rua, melhor dizendo, dão-lhes folga. Aqui e ali falam de direitos, com laivos de hipocrisia, porque o essencial nunca é discutido. E o essencial seria, paulatinamente, repensar e mexer na estrutura social, na pobreza e em tudo o que se esconde a montante no que concerne à família (direitos e deveres), para que a criança venha a beneficiar de um saudável crescimento. Sem distinções de famílias onde foram geradas.



Apenas algumas posições de investigadores e autores de referência. Para reflexão.

Disse a médica Pediatra Rachel Niskier:
"Se você não cuida da infância e da adolescência, que tipo de cidadão você terá?”

Eduardo Sá, Psicólogo, complementa e convida à reflexão: “A escola rouba a infância às crianças”. A escola é um novo tipo de trabalho infantil, que não deixa as crianças brincar (…) No entender do psicólogo, retirámos as crianças do trabalho para lhes devolver a infância e “empanturrámo-las com escola (…) A escola está a roubar a infância às crianças. A leviandade com que isto se faz é inacreditável. Da parte dos pais, com a melhor das intenções, e da escola, que vive numa distracção sem fim (…) Nunca ouvi falar tanto das crianças e nunca vi que se espatifasse tanto a infância.”

Luciana Leiderfarb num artigo publicado no Expresso:
"Bem-vindos à nova era, a das crianças que não têm tempo para brincar. E a dos adultos obcecados por ocupar-lhes os dias. Que mundo é este onde a brincadeira se tornou indesejável?"

Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto, concluiu que:
"Uma criança em idade escolar “trabalha” em média nove horas por dia, o equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto". (...) "Essas nove horas são sempre em função da matéria escolar. E mais: há pessoas que, quando elas têm um comportamento menos próprio, ainda as castigam com contas e cópias, isto é, o mesmo que lhes dizer que o conhecimento é uma chatice". (...) "Os adultos trabalham sete horas e meia e chegam ao fim cansados. Levam trabalho para casa? Não levam!" (...) "há mais de 20 anos que se denuncia este excesso de trabalho e os consequentes malefícios físicos, psicológicos e morais para as crianças".

Clarice Lispector (1920/1977) jornalista e autora de romances e ensaios: "O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar".

Reorganize-se, então, a sociedade para que não tenhamos uma Escola a Tempo Inteiro com famílias a meio tempo.

Do livro: A Escola é uma Seca / André Escórcio. 


domingo, 31 de maio de 2026

Singapura tão distante... quando a solução está aqui tão perto!

 

Volta e meia regressam com um discurso sobre o sistema educativo de Singapura. Em tempos foi aquela ideia, também circunstancial, que a Madeira teria de ser ou viria a ser uma "Singapura do Atlântico". Não sei se morreu ou se ainda sobrevive pela propaganda política. Parece-me que sim, porque, agora, regressou no âmbito das conferências sobre o quinquagésimo aniversário da Autonomia. Na sede da Universidade da Madeira e com convidados vindos de fora, que nada acrescentaram, sublinho, foram ignorados aqueles que, certamente, terão pensamento científico e organizacional sobre este importante sector. Buscam inspiração em Singapura, a treze mil quilómetros de distância, quando a solução está aqui tão perto.



Aliás, não tenho presente os nomes dos responsáveis políticos madeirenses que, ao longo de 50 anos, visitaram Singapura, especificamente para estudar o respectivo sistema educativo; como não tenho presente o nome daqueles que procuraram os tão badalados países nórdicos tidos por referências de sucesso educativo. Não dei conta de eventuais estudos e relatórios publicados. Se alguma visita tivesse acontecido, enquanto preocupação política, os meios de comunicação regionais teriam feito alarde. Portanto, não sei se falam pelo Google, pelo Youtube ou através da IA. Sei que dizem coisas e que passam ao lado de toda a excelente investigação feita em Portugal, onde figuras académicas de topo, investigadores de excelência, Departamentos das Ciências da Educação das várias universidades e institutos, também autores, têm marcado o pensamento do que está por fazer e como o operacionalizar. Fica bem, pensam, nos momentos mais solenes, jogar com cartas que, embora não dominem, servem na perfeição o número político de propaganda. Logo depois a treta continuará e as palavras leva-as o vento.

Ora, qualquer pessoa minimamente informada reconhecerá que o sistema educativo, tal como todos os outros sectores, necessita de um pensamento estruturado para ter sucesso. E que tal não é possível sem o estudo de múltiplas variáveis: as de natureza económica e financeira e consequente estrutura produtiva, as heranças culturais, históricas, geográficas, os valores sociais e familiares, a estrutura administrativa do Estado e as prioridades estabelecidas, a limitada autonomia da Região e a dos estabelecimentos de educação, a necessidade de revisão do que está plasmado em sede de Constituição da República (possibilitando a existência de um país com três sistemas educativos autónomos), a diversidade populacional, o PIB per capita e os indicadores de pobreza, a organização curricular e programática, o pensamento pedagógico, a formação e selecção inicial dos professores, a arquitectura dos espaços escolares, estes, entre muitos outros, como factores determinantes no desenho de um sistema educativo portador de futuro. Não é possível de outra maneira, pelo que é ridículo imaginar um sistema que, leviana e descontextualizadamente, integra um elemento daqui e outro dali, como se isso servisse para ilustrar qualquer comparação com outros espaços e intervenções de sucesso na aprendizagem.

Curioso, também, é que, durante 50 anos, nunca registei qualquer manifestação de interesse por um grande debate regional sobre o sistema, que juntasse o mundo político-partidário, os professores e investigadores de todos os níveis, pais, alunos, empresas e instituições sindicais; nunca foi possível contextualizar a escola com a família, as suas dinâmicas, a demografia, as questões sociais e a organização dos tempos de trabalho; nunca constatei qualquer preocupação sobre os currículos, programas, horários, as centenas de metas curriculares, algumas perfeitamente inúteis; nunca escutei uma palavra sobre correntes pedagógicas, novos conceitos de aula, de turma, de sala de aula, tpc, avaliações; jamais registei uma preocupação para travar a infernal burocracia, o número de alunos por estabelecimento, a rede, a arquitectura dos espaços escolares e o financiamento aos estabelecimentos privados em detrimento do sector público; até mesmo estudar o rigor, a disciplina, a violência na escola em contraponto com a violência da escola. E houve tempo mais que suficiente para tudo ser reequacionado visando uma escola para o tempo que estamos a viver. Criada aqui e contextualizada aqui, com verdade, ciência e autenticidade. A rotina marcou o ritmo e a escola transformou-se num espaço de "normalidade e tranquilidade". Como se fosse um spa, quando ela tem de ser vida! 

Portanto, esta historieta de querer ser como Singapura não pega, porque não tem qualquer sustentabilidade no estudo, no trabalho e no discurso político. Nem Singapura nem a Finlândia como referências. Provam-no aqueles estabelecimentos de educação que tentam lançar projectos visionários e consequentes de acordo com a literatura existente. Na realidade não são bem vistos, porque os responsáveis políticos têm preferido a norma à inovação. A título de exemplo não deixa de ser paradigmático o que aconteceu na Escola 1,2,3 do Curral das Freiras. Lembram-se? Recordo que se encontrava no lugar 1 207º do ranking nacional e, consequência da paixão dos professores, liderados pelo Professor Joaquim José Sousa, saltou para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano: "tinha 300 alunos, não tinha campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batiam certo com os do autocarro. Os seus mentores tornaram possível um melhor conhecimento, apesar de 92% dos alunos terem Acção Social Educativa (pobreza) e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias". O que aconteceu? Perseguiram-na e fundiram-na com uma outra de S. António, no Funchal. Ao invés de procurarem as suas virtualidades, não, bloquearam-na e dividiram-na, não sei se para reinar. Esta é a prova da "Singapura local" em todo o seu esplendor, que deixa para trás cerca de 7 000 jovens que não estudam nem trabalham. Valham-nos alguns estabelecimentos particulares que, contra a corrente, nos limites da legislação normativa, seguem outros pensamentos organizacionais e pedagógicos. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A propósito... Ponto e Vírgula, exclamo eu!


Nascido em 8 de julho de 1921, vai agora para os 105 anos de vida activa, "Edgar Morin é um filósofo e sociólogo francês da teoria da informação, reconhecido pelo seu trabalho sobre complexidade e "pensamento complexo" e pelas suas contribuições académicas em campos tão diversos como estudos de mídia, política, sociologia, antropologia visual, ecologia, educação e biologia de sistemas (...)" - síntese na Wikipedia. Numa entrevista publicada pela "Nova Escola", assumiu: "A escola mata a curiosidade"; e, numa outra, publicada na revista "Prosa, Verso e Arte" sublinhou: "(...) o modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo".



Ora bem, esta Escola, por muitas e interessantes que sejam as suas iniciativas, internas e externas, está conceptualmente errada, porque estruturalmente descompaginada do conhecimento oferecido por todas as outras ciências e sistemas. Diria que é a escola descompassada da Vida.

Da literatura ao cinema, do teatro às redes sociais, há muito que ecoam os gritos dos alunos sobre esta escola. É pois um erro confundir a aparência com a estrutura do próprio sistema. Morin insiste: "uma escola que transmite conteúdos, sem estimular perguntas, reflexão e ligação entre saberes, acaba por matar a curiosidade — que é justamente o motor do conhecimento".

Genericamente, para quem não se preocupa com estudos e análises mais profundos, bastar-lhes-á passar pela IA para concluir que esta escola "fragmenta o saber em disciplinas estanques; valoriza a memorização e os exames em vez de perguntas , pelo que, genericamente, transforma o aluno em receptor passivo, não em sujeito que investiga". São muito raras as excepções. Portanto, não me parece sensato, sejam quais forem os motivos, educativos, políticos e até os de natureza comercial que subjazem a certos projectos, que se confunda, repito, o que parece com o pensamento estrutural e científico, esse sim, portador de sucesso.


Aliás, basta um olhar sério sobre as estatísticas dos que ficam para trás, sobre os milhares que não estudam nem trabalham e sobre a "morte" dos talentos e sonhos. Assertivas e oxalá fizessem caminho entre políticos, professores e alunos, as palavras do Dr. Ricardo Miguel Oliveira, Director do Diário: "Não vos peço que sejam perfeitos. Peço-vos apenas que sejam curiosos, que não aceitem tudo sem questionar e que nunca deixem de pensar pela sua própria cabeça". Esta declaração encaixa, obviamente, em todos os actores. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Respeitar o sonho e o talento


Li, com muito entusiasmo, uma entrevista publicada na edição do DIÁRIO do último Domingo, da autoria do jornalista Rúben Santos. Protagonista, o Engenheiro madeirense Guilherme Cristóvão, natural de S. Vicente. Um percurso de vida muito interessante, perseguindo o sonho e o seu talento. Uma entrevista, pelo menos para mim, deliciosa, porque vem ao encontro do que penso sobre o processo de aprendizagem e sobre um sistema educativo que não mate o sonho que cada um de nós transporta.



O engenheiro desta história não ficou pelo que o sistema educativo lhe impôs. Ao ponto de, tendo um Dissertação de Mestrado pronta para ser entregue e debatida, abandonou-a para seguir outro caminho que o sonho e mesmo o talento lhe indicavam. E, hoje, aos 26 anos, resume a sua vida numa frase tão simples quanto profunda: mais do que mil diplomas académicos (...) "nunca fui destinado a ser brilhante, mas sempre tentei brilhar". 

Ora, é isto que diferencia tanta luta (e até mesmo propaganda) por dezanoves e vintes nas médias finais do secundário, quantas vezes esmagando o verdadeiro e genuíno sonho de quem atinge esse patamar de resultados. Trata-se de uma velha história entre uma escola que propõe um "fatinho igual para todos" ou um "fato à medida de cada um".

É neste contexto que emerge um outro quadro de análise: a cada vez maior obsessão pela avaliação dos alunos. Tudo é conduzido no sentido do acto avaliador: o teste, a questão aula, a nota e o exame, a par de variadíssimos itens de muito subjectiva avaliação. Genericamente, neste sistema, o aluno continua a ser conduzido para a resposta dita certa, aquela que consta do manual programático e não para a complexidade da construção do seu futuro. Há, de facto, uma intencional dimensão política curricular e programática, arquitectada por adultos, difícil de desconstruir. Por isso temos tantos jovens que olham para a escola distantes da paixão pelo saber. Enaltece o Engenheiro Guilherme Cristóvão: 

"(...) Se alguém pensa que na Fórmula 1 não se falha, engana-se. Falha-se e falha-se muito. Mas a cultura é diferente. Quanto mais depressa se falha, mais depressa se aprende (...) O segredo não está em evitar o erro a todo o custo, mas na velocidade de reacção (...) A curva de aprendizagem é exponencial porque somos forçados a aprender com as falhas, imediatamente".  


"Tiro na mouche". Vários pensadores da Educação convergem para uma atitude que também considero básica: o professor não existe para oferecer respostas prontas, mas para desenvolver a curiosidade e o gosto pelo saber. É isso que nos leva longe. Ora, este sistema exige a resposta pronta e a nota correspondente a essa resposta, não a possibilidade do erro como pressuposto de uma aprendizagem de pensamento, com consistência e duradoura. 

O Engenheiro Guilherme Cristóvão soube romper com a lógica "by the book" e, hoje, está no topo da Fórmula 1, desenvolvendo projectos electrónicos de relevante interesse para todos e, especialmente, na Red Bull. Parabéns!

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A necessidade de uma obsessão pelo futuro

 

Ora bem, uma coisa é ser Licenciado(a), Mestre(a) ou Doutor(a) e ter um percurso académico de excelência reconhecido pelos seus pares; outra, bem diferente, é associar qualquer formação a dois campos de relevante interesse: uma visão da complexidade multidisciplinar do futuro; simultaneamente, uma capacidade para, politicamente, antecipá-lo, planeá-lo e executá-lo com convicção e determinação. Combinar a formação com a concretização no contexto da governação, não é fácil, eu sei. Um dia, um distinto Colega, qual metáfora, disse-me que, com esta minha leitura assente na exigência, no rigor e na responsabilidade, melhor seria eu "ir a uma olaria"! Pois, percebi e percebo a dificuldade.



Só que há aqui um princípio básico que sempre considerei de enorme relevância. É que só se deve aceitar um lugar de gestão/administração quando nos sentimos preparados para uma dada função ou missão. Da mesma forma que, a um outro nível de menor exigência, só se deve debater um qualquer assunto quando fazemos um esforço, mesmo que mínimo, para o dominar, pelo menos nas suas traves mestras. Quando isso não acontece, quando a via é a do "achismo", o melhor é assumir que, por alguma razão, temos dois ouvidos e uma boca. 

Perfazem, hoje, 15 de Fevereiro, cinco meses de governação da Doutora Elsa Fernandes como Secretária Regional da Educação. Para que fique claro: não a conheço no plano pessoal e nunca nos cruzámos em qualquer situação. Apenas nutro um natural respeito pelo seu percurso e, certamente, competência profissional na área que se especializou. É, portanto, no outro espaço, no da intervenção política, que me foco. Simplesmente porque é responsável pelas características da escola que ainda temos e pelo futuro dos que a frequentam. Ademais, não se trata de uma questão de natureza partidária, mas sim, repito, de responsabilidade política na construção do amanhã.

Passaram-se cinco meses de governação e não detectei uma única situação, uma única ideia que despertasse atenção e me fizesse admitir a existência de um qualquer caminho. Seja ele qual for, mas um caminho, um objectivo: onde estou e onde quero chegar! Assisti a cinco meses de governação "caseira", de algumas visitas a escolas e a palavras que as circunstâncias impõem. Ah, e a uns diálogos com os sindicatos no âmbito da solução de velhíssimos problemas apresentados pelos professores. De resto, um absoluto vazio de ideias, tal como aconteceu na longa governação anterior, cheia de generalidades, de banalidades e silenciamentos, tudo muito administrativo, burocrático e repetitivo. Ora, recorda-nos Georges Santayana (1863/1952), filósofo e poeta, que "aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Isto é, torna-se necessário assumir uma memória histórica, conhecimento e capacidade de análise crítica para evitar a continuidade dos erros.

E se a escola se justifica em função da construção do futuro, esse futuro que se nos apresenta cheio de sinais complexos e paradoxais, que fazem prever o que aí vem, o sistema educativo e quem o interpreta, não pode evidenciar ausência de memória e de visão. Se outro não for o caminho, qualquer arrisca-se a repeti-lo deixando um rasto de uma enorme frustração. Confesso que não fiquei com qualquer esperança quando, há cinco meses, escutei as palavras ditas no decorrer da tomada de posse. Teria sido o momento da mensagem esclarecedora ao que vinha. Passado este tempo, infelizmente, confirma-se a minha continuada desilusão. Este sistema continua a viver na inconsistência do paleio político circunstancial e de tudo o que seja motivo de propaganda que promova a ideia pública que a escola está bem e se recomenda. Aliás, basta ler alguns autores e pensadores de referência, basta uma passagem pelo youtube e assistir a tanto e abundante pensamento, basta ter uma leitura transversal de todos os outros sistemas que interagem com o educativo, basta visitar países e escolas do topo da educação, basta ler as estatísticas, basta escutar o que, genericamente, os alunos pensam da escola que lhes oferecem, basta ter presente os números aterradores dos internamentos em psiquiatria (25% dos alunos do 5º ao 12º ano apresentam, no quadro organizacional deste sistema, um significativo mal-estar psicológico), basta ter presente o que dizem tantos professores que (sobre)vivem em Burnout (70 a 75%) pela pressão angustiante que os leva a se manifestarem: uns dizendo que tomam medicação a mais por causa da escola; outros, que se desejam aposentar, basta um olhar atento para os motivos que conduzem a 6 000 jovens que, por aqui, nem estudam nem trabalham, basta que tenhamos presente que 41% dos jovens diplomados revelam ter apenas competências para ler textos simples e fazer interpretações básicas, basta uma leitura profunda sobre o Mundo, sobre o nosso país, sobre a Região e as inúmeras iliteracias, basta ter consciência das graves limitações na qualificação profissional face às exigências da vida colectiva, enfim, tudo isto, sumariamente, exige pensamento e assertividade de quem assume um cargo político. Quando esse pensamento não existe, transmite-se a ideia do vazio e o político fica, naturalmente, reduzido a mais um de turno. Pelo contrário, precisamos de quem transporte uma mensagem portadora de futuro a qual, na esteira de Michel de Montaigne (1533/1592), assuma que "uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia". 


No dia 15 de Setembro de 2025, naquele dia da tomada de posse, deixei 60 perguntas à Senhora Secretária. Questões que me preocupam, que as trago em consequência do que vou lendo, dos Mestres que tive, dos 40 anos de experiência na escola (não uma experiência repetida 40 vezes), dos ambientes de formação, da presença em inúmeros conselhos pedagógicos e até do que restou das minhas sessões enquanto professor assistente no âmbito universitário. Sempre parti do pressuposto que a verdade é múltipla, pois "o erro é um agente construtor do conhecimento" - G. Bachelard. Por isso, o que defendo e assumo constitui o resultado de um continuado estudo, observação e escuta dos professores e alunos. E sendo esta a minha postura, entendo que podem coexistir outros posicionamentos importantes para o debate que urge. Grave é não debater, é fechar-se na "torre de marfim" e negar a necessidade de uma "festa das ideias" que conduza a um caminho, a uma utopia sustentável. 

Portanto, o problema da Educação e do desenvolvimento é o de colocarem na liderança dos processos políticos, pessoas que podem ser excelentes na sua actividade profissional, mas que não transportam capacidade acrescentada de como ela deve ser estruturada e como se implementa um sistema de sucesso. Tenhamos presente o caso da Senhora Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral: Doutorada em Direito, Catedrática, Juíza do Tribunal Constitucional e Provedora de Justiça. Todo este respeitadíssimo currículo de nada lhe serviu para Ministra da Administração Interna. Acabou por sair.

Senhora Secretária Regional da Educação, esta Escola que alguns dizem ser inclusiva, tenha presente que começa a ser um factor de exclusão social. De facto, esta escola mata o talento e mata sonho. Ela é castradora do pensamento. E não são as limitações Constitucionais que impedem que o sistema educativo da Madeira não possa ser uma referência nacional e europeia. Rita Bonança, Doutorada em Educação, foi muito clara: “ensina-se para o teste, aprende-se para o teste, vive-se para o teste. E, depois, lamenta-se que os alunos não tenham criatividade, pensamento crítico ou paixão pelo saber".  Pense nisto, Senhora Secretária. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Não fosse o "vício de trabalhar para a nota", a IA era menos angustiante


Por
Andreia Sanches
Público

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.



Cara leitora, caro leitor

Primeiro foi um manifesto publicado por um grupo de professores que diz que a Inteligência Artificial (IA) está a criar verdadeiros “cretinos digitais”. Quer que ela seja banida dos “processos de ensino-aprendizagem”.

Depois foi um relatório da OCDE, que alerta para os riscos e potencialidades das novas ferramentas que o manifesto denuncia.

No dia em que escrevi sobre o relatório da OCDE perguntei à professora catedrática da Universidade de Lisboa, Margarida Gaspar de Matos, que opinião tinha sobre o assunto. Não só por ser professora, mas por ser uma investigadora que há décadas estuda os comportamentos dos jovens e a sua relação com a escola.

No email que me enviou mais tarde reconhece que as redes sociais, os smartphones, a IA entraram de rompante pelos sistemas educativos e atingiram formas e intensidades terríveis. O que fazer então nestes tempos de alguma justificada angústia?

“Imaginar modos de integrar todas estas novas possibilidades e ficar com o melhor de dois mundos potenciando o progresso” será mais útil, diz, do que pensar em proibições.

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.

Estamos a falar de uma das coordenadoras de um estudo internacional de referência, o Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde, realizado a cada quatro anos. A análise tem vindo a mostrar um aumento continuado dos adolescentes que se dizem pressionados para terem bons resultados, que consideram que a matéria é muita, aborrecida, inútil, que a avaliação é um stress e as aulas demasiado grandes.

A OCDE defende no seu relatório que a IA generativa “tem potencial para transformar a qualidade e a eficácia da aprendizagem”. E para “apoiar os professores”. Mas que, “quando usada como atalho, em vez de ferramenta de aprendizagem, pode substituir o esforço cognitivo e enfraquecer as competências que sustentam a aprendizagem profunda”.

No terreno, os professores, sejam contra ou a favor, estão a sentir-se obrigados a mudar a forma como dão aulas e avaliam. Que sentido faz mandar trabalhos para casa que possam ser escritos “às escondidas” pelo Copilot? Ou o que fazer, como também nos relatou um professor, quando um aluno numa aula decide “humilhar” quem está ali para o ensinar, fazendo-lhe perguntas geradas por um chatbot, só com um objectivo: provar-lhe que não “sabe”.

Este é também um momento de indefinição, com muitas experiências em curso mas também muita improvisação, sem regulamentação, sem reflexão, sem literacia digital suficiente, nem de alunos, nem de professores, nem de encarregados de educação. Num contexto em que, como diz a OCDE (organização que dificilmente pode ser acusada de ser avessa à inovação tecnológica), os riscos do uso da IA na educação têm de ser “cuidadosamente geridos”.

Vários estudos citados evidenciam que quem pede à IA que lhe faça os trabalhos propostos pelos professores consegue ter notas mais altas nesses trabalhos. O problema (um dos) é que quando tem de fazer uma apresentação oral, ou um teste sem consulta, se sai bem pior do que os outros.

O "vício de trabalhar para a nota" tem os dias contados?
A conclusão que a OCDE destaca é esta: quando usadas de forma pedagógica, as ferramentas de IA “generalistas” podem funcionar como apoio aos alunos. Essencial é que os professores desenvolvam competências pedagógicas que as integrem no ensino e nas tarefas que propõem. Incentivem a autonomia dos estudantes. E “dêem ênfase ao processo — como os alunos pensam e aprendem — em vez de ao produto final”.


Além disso, várias experiências apontam para um impacto muito mais positivo nas aprendizagens quando se usam ferramentas de IA especificamente criadas para serem usadas em contexto escolar (que não promovem a chamada "preguiça metacognitiva") do que outras. “A educação deve ir além dos chatbots genéricos e avançar para ferramentas especificamente concebidas para fins educativos.”

Nesta discussão, os portugueses até se revelam dos mais optimistas da União Europeia: 25% (16% na UE) consideram que “a IA pode melhorar o ensino e a aprendizagem” pelo que “a comunidade educativa não deve ter receio de fazer experiências com ela”, segundo um Eurobarómetro divulgado no ano passado pela Comisão Europeia.

Mas a posição dominante é mesmo de expectativa: “A IA pode beneficiar e trazer riscos ao ensino e à aprendizagem, a comunidade educativa deve aferir e explorar ambos”, é uma frase com a qual se identificam 52% dos portugueses (a média na UE é de 54%).

Apenas 16% defendem que “a IA não pertence à sala de aula”. Essa é a convicção de 22% dos inquiridos na União.