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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

"Vá meninos, peguem nos telemóveis porque eu quero começar..."


Em Portugal há um Movimento por "menos ecrãs, mais vida", formado por quatro mães professoras, inclusive, uma petição no sentido de proibir ou limitar, nas escolas, o uso de telemóveis e os manuais digitais. Uma proposta que foi levada ao Ministério e, pelo que já foi divulgado, não sei se na sequência dessa reunião, o governo decidiu propor aos estabelecimentos de educação a adopção de medidas, para já, no quadro da utilização dos telemóveis.



Compreendo a preocupação, embora o foco esteja desajustado. A iniciativa apresenta-se no quadro da libertação de uma pressuposta obsessão pelo telemóvel e tudo o que a ele está associado. Compreendo, também, o interesse por, ao longo de toda a infância, tornar a escola em um espaço de vida, convivência e de desenvolvimento de toda a educação motora que os jogos, tradicionais e outros, transportam. Todavia, há múltiplos aspectos que me fazem não acompanhar aquele tipo de abordagem e até posicionar-me no lado oposto.

Para as autoras daquela iniciativa, a utilização do telemóvel constitui uma situação preocupante, contudo, a realidade, apresenta outros contornos que devem ser observados. Até porque vivemos num espantoso tempo tecnológico que nos faz estar rodeado de tantos e importantes estímulos. E saber geri-los deve constituir preocupação primeira. Se, nos últimos trinta anos, a investigação provocou uma evolução que "esmagou" todo o conhecimento acumulado ao longo da História da Humanidade, imagine-se o que acontecerá nos próximos trinta. 

Tenhamos presente a sinopse da notável série da RTP 1, "10 segundos para o futuro": "(...) As próximas décadas vão sofrer a maior e mais veloz transformação de sempre. Na tecnologia, na ciência, no ambiente, nas relações interpessoais. Vivemos numa espécie de grande acelerador de ciência, em que o ritmo das descobertas não para de surpreender. Nas últimas décadas acumulou-se mais conhecimento científico do que em toda a história da Humanidade. Em 2077 esse conhecimento científico terá duplicado várias vezes (...)". Pois, perante isto, de que vale proibir ou, docemente, limitar? Porque os franceses, entre outros, assim determinaram? Ou será que, por lá e por aqui, andam a reboque de percepções e achismos despidos de um qualquer fundamento?

Ora bem, não é o telemóvel, entre outros equipamentos, que deve ser colocado em causa, mas o sentido organizacional da escola que deve ser profundamente questionado, a cultura e a sua cultura interna, a mentalidade, os actos pedagógicos no quadro de crianças nascidas no Século XXI, os currículos, os programas, os mofentos conceitos de sala de aula, de turma, o número de alunos por estabelecimento, as avaliações, as metas curriculares, a burocracia, as reuniões que são mais do mesmo, a falaciosa autonomia dos estabelecimentos, o medo e subserviência à hierarquia, enfim, tudo o que encontramos da porta da escola para dentro e que não abona em favor de uma aprendizagem onde o aluno seja protagonista. Nesta escola os alunos não são sujeitos, são objectos. Ainda ontem, na TVI/CNN, o ministro foi claro ao assumir que "o sistema educativo não está centrado no aluno".


Portanto, proibir não me parece ser a solução para a tal propalada obsessão, dependência e isolamento dos alunos. Os próprios professores, por uma razão ou outra, nos intervalos, nos seus espaços de descanso entre uma e outra aula, não dispensarão o telemóvel. Então, o caminho terá de ser outro, o de tirar proveito para que jovens aprendam melhor e muito para além do manual. Agora, se à semelhança dos últimos duzentos anos, queremos alunos espartilhados na claustrofobia de uma sala, com professores obrigados a debitar matéria, exigindo que os passageiros do autocarro da sua viagem se mantenham sentados, serenos, calados e perfilhados pelo pescoço do da frente, então sim, o telemóvel poderá constituir um empecilho para o cumprimento do programa. 

O que existe é uma grave discrepância entre as características rotineiras do sistema educativo, a mentalidade, a sociedade que os políticos criaram (que a escola ajudou) e o uso dos equipamentos que a tecnologia colocou ao nosso dispor. Se a cultura organizacional da escola for outra, se a escola for muito mais que aulas focadas na transmissão do manual, se a tecnologia entrar na escola com o seu notável poder no processo de aprendizagem, então será ridículo proibi-la porque isso significará estar contra o tempo e a ciência. De resto, de uma forma simplista eu diria que se não podes proibir, associa-te e aproveita o momento no sentido de uma aprendizagem consistente e duradoura.

Li no blogue do Professor Alexandre Henriques: "Vá meninos peguem no telemóvel porque quero começar". E mais adiante: "(...) É apenas uma questão de tempo, mas acredito que esta expressão será um dia realidade na maioria das escolas (...) qualquer escola, qualquer professor que mantenha a aposta no modelo tradicional vai simplesmente ficar para trás. Existe uma nova religião, a religião tecnológica e esta tem muitos, muitos crentes, dependentes e até fanáticos. A escola apesar de laica, terá de aprender a conviver com ela, aceitá-la e, acima de tudo, orientá-la. Mas temos um problema! Os adultos que habitam nas escolas... a incapacidade que temos de acompanhar estes novos ritmos e os seus benefícios, fruto da nossa natural ignorância, é limitadora da sua implementação. Não é fácil entrar numa sala de aula em que o aluno se torna professor e o professor se torna aluno". Ora aí está!

Por outro lado, a talho de foice, já tem uns anos, perguntei a um jovem o porquê dos da sua geração estarem sempre "agarrados" ao telemóvel. Respondeu-me de forma subtil, mas profunda: "para não estarem sós; para se sentirem acompanhados". Pergunto, quanto isolamento existe nesta escola face ao qual ninguém faz um esforço de compreensão buscando as causas? Não devo generalizar, mas há muito isolamento e sinais de muitas depressões e frustrações escondidas. Porventura, o telemóvel assume-se como refúgio. Alguém está preocupado com isso? De todo, não. Lembrem-se que as camas de pedopsiquiatria estão quase sempre ocupadas. 

Finalmente, duas conclusões: 1. o telemóvel não é apenas jogos, fotografias e mensagens. É um factor de conhecimento que está muito para além dos manuais; 2. ele é muito mais poderoso que essa coisa dos manuais digitais. Ademais, é pessoal e não depende de investimentos públicos. Basta que o estabelecimento tenha um sinal de net.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 12 de agosto de 2023

A ESCOLA QUE NÃO ENXERGA O MUNDO, MATA A CURIOSIDADE E A COMPLEXIDADE



Regressei à leitura do Filósofo Edgar Morin, hoje com 102 anos. Perguntaram-lhe: "O senhor fala de um mundo padronizado, uniformizado. Como ficam o pensamento e a arte?"

Resposta: "Vivemos uma crise do pensamento. Aprendemos no nosso sistema de ensino a conhecer separando as coisas de maneira hermética, segundo disciplinas. Os grandes problemas, porém, requerem associar os conhecimentos vindos de disciplinas diversas. (...) Temos uma crise do pensamento que se manifesta no vazio total do pensamento político, ainda que, há coisa de um século, houvesse pensadores políticos que, mesmo quando se equivocavam, tentavam compreender o mundo, como Karl Marx e Tocqueville. O meu esforço nas minhas obras é tentar efetivamente esse pensamento. O que estamos vivendo? O que está acontecendo? Para onde estamos indo? Claro que não posso fazer profecias, mas vejo o risco nas possibilidades que se abrem diante de nós."

Qual, então, o maior desafio do ensino?

"Não inserimos no programa temas que podem ajudar os jovens, sobretudo quando virarem adultos, a enfrentar os problemas da vida. Distribuímos o conhecimento, mas não dizemos que ele pode ser uma forma de traduzir a realidade e que podemos cair no erro e na ilusão. Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental nos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam."

102 anos! O pensador incentiva-nos a descobrir o mundo, quebrando as amarras impostas; outros, com menos de metade da idade, preferem assumir-se dogmáticos e cristalizadores. É o que temos!

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 6 de junho de 2023

TRÊS DIAS, TODOS OS MESES, TODA A VIDA COM A CRIANÇA...






Passaram-se os três dias ímpares e, dentro deles, a ponte que une um ao outro os meses do ano – de 29, 31 de maio a 1 de junho – e quem encheu o palco das horas ininterruptas?... A Criança, a Educação dela e a Comunidade!

Ao invés de ‘normalidade’ dos eventos que se esgotam na espuma do efémero, o acontecimento que ocorreu no último fim-de-semana em Machico (com o modesto título de ‘Seminário’ na forma, mas merecedor da genuína definição de ‘Simpósio’ em fundo) deixou um rasto luminoso que se projecta pelos meses e pelos anos fora, por toda a vida, já porque a tríade ‘Criança-Educação-Comunidade’ é indissociáveel do algoritmo existencial, já pela amplitude e proficiência com que foram tratados os seus conteúdos.

Em breves linhas tentarei sintetizar a magnitude da iniciativa que congregou uma mão-cheia (uma prestimosa dezena) de docentes e promotores da Educação, a que se juntaram os destinatários e protagonistas, as muitas dezenas de discentes, desde a mais tenra idade que, or direito próprio, ocuparam a ribalta privilegiada do palco, como que concretizando em música e dança o esforço pedagógico dos seus educadores.

Nesta escala ascendente da descoberta evolutiva da personalidade, o Pro. Doutor Mário Fortes, da Universidade da Madeira, agitou o auditório com a ‘provocatória’ interrogação – ESTAMOS A MATAR TALENTOS? - em cuja intervenção pôs em causa a didáctica expositiva do ensino tradicional, fechado nas quatro paredes da uma sala e, por isso, redutora, senão mesmo castradora, dos talentos naturais e da criatividade que toda a criança traz consigo desde o seio materno. Ao ouvir o Prof. Fortes, ocorreu-me o código ‘vanguardista’ do nosso conterrâneo Prof. André Escórcio, no seu livro “A ESCOLA É UMA SECA”, onde preconiza um outro, inovador e libertador, módulo de ensino, precisamente orientado para promover o desenvolvimento das aptidões inatas dos alunos. Neste entendimento, refere Mário Fortes, o professor deve despir a veste de ‘Magister’ para assumir a modesta, mas nobre, missão de ‘Tutor’.

A actuação de várias turmas das Escolas de Água de Pena, Machico e Sant’Ana e o desempenho do ‘Grupo Cordofones A Caçoar’, de Santo António da Serra, confirmaram o espírito criativo, a graciosidade rítmica, a leveza infantil que lhes dão ânimo e nos transmitem saúde, esperança no futuro.

A prova real da autonomia dos estabelecimentos escolares aliada à força afirmativa das populações ficou em evidência plena no testemunho vivo do Pro. Doutor Bravo Nico, da Universidade de Évora, que relatou ao ‘Seminário’ o potencial de resiliência de um restrito aglomerado populacional alentejano – São Miguel de Machede – desprovido, ambora, dos mais elementares equipamentos sócio-culturais conseguiu ultrapassar barreiras, suplantar dificuldades insuperáveis e catapultar-se até aos níveis do Ensino Superior, valorizando todos os segmentos da actividade local, desde a literacia à informação, à economia e ao trabalho - um programa totalizante que substitui o aleatório “eles” pelo personalizado “nós”, ou seja, o apelo à dinâmica endémica do local em vez da mão estendida à intervenção de terceiros alheios à comunidade.

Integrante à “Educação em Comunidade” emerge a incontornável VIA PARA A SUSTENTABILIDADE, focalizada neste concelho que o Mestre Marco Teles, da organização municipal ‘Ecos Machico’, cujo objectivo consistiu em chamar a atenção das camadas jovens para a preservação do património natural e arquitectónico do município.

E porque, como dizia Louis Pasteur, “diante de uma Criança sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é e cheio de respeito pelo que poderá vir a ser mais tarde” – aqui ouso adicionar, cheio de espanto e medo – o Seminário trouxe um horizonte, a um tempo, estranho e surpreendentemente inclusivo, titulado TRÉGUA: A RECLUSÃO DE OLHOS POSTOS NO FUTURO, a cargo da Mestre Catarina Claro, da ‘instituição ‘Casa Invisível’, uma entusiástica viagem pelos caminhos desviantes da Criança de ontem, hoje Recluso de hoje, onde se num condenado às prisões se descobrem talentos e anseios de uma vida nova na construção da Comunidade, expressos naquele sentido mural, à saída da cadeia da Cancela, “Nós não somos os nossos erros”..

No crescimento civilizacional das nossas gentes, a Profª. Doutora Luísa Polinelli, da Universidade da Madeira, situou-se no patamar da CRIATIVIDADE E LITERACIA MEDIÁTICA, um acurado manual de ‘Didáctica Militante’, para escapar à pseudo-cultura da ‘informação em panados’ e ganhar a ‘capacidade de não perder-se na navegação total, observando o ‘princípio da relevância, pelo qual nos tornamos interacores críticos, conscientes’.. Na sua dissertação, senti-me conduzido às fontes inspiradoras do “Prazer do Texto” ou “Pazae de Ler”, na esteira de Roland Barthes.

Quase no vértice da evolução educativa, os docentes participantes no evento foram brindados pela brilhante intervenção do Prof. Doutor José António Moreira, da Universidade Aberta, que através da EDUCAÇÃO DIGITAL PARA O EMPREENDEDORISMO provou a positividade da denominada Inteligência Artificial, explicitou, contra os opositores publicamente declarados, que a I.A. não má nem é boa, tudo ‘dependente do uso que dela se faz, bem como das múltiplas redes comunicacionais hoje existentes’.

A culminar a iniciativa do Município, a Profª Doutora Liliana Rodrigues, da Universidade da Madeira, abriu as fronteiras da etapa maior da aprendizagem global, apresentando as linhas gerais do Mestrado e Doutoramento que dirige na cátdra da EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO REGIONAL, uma comunicação seguida com particular atenção pelo auditório e digna de mais ampla apreciação neste blogue.

Ao Prof. Doutor Jacinto Jardim, da Universidade Aberta, líder do projecto “Piratas dos Sonho” que tem dinamizado desde o “I Seminário”, agradecem os docentes e a população de Machico o valioso contributo que tem dado ao magno Plano de construção do Futuro, a começar pelo berço da vida, as Crianças, “o melhor que o mundo tem”.

À Câmara Municipal os parabéns por ter feito a opção mais alta e segura que todos os volumes de betão, qual seja a “EDUCAÇÃO EM COMUNIDADE, POR UM NOVO COMPROMISSO EDUCATIVO”, o mais belo preâmbulo para as comemorações do Dia Mundial da Criança na Madeira, razão pela qual decidi ocupar os três dias ímpares na ponte pênsil que liga Maio a Junho.

29-31.Mai. 1.Jun. 23
Martins Júnior

terça-feira, 23 de maio de 2023

É pela cultura que a aprendizagem se faz


Vi-os por todo o lado e lembrei-me, vezes várias, por aproximação, de Carlos do Carmo: "(...) Parecem bandos de pardais à solta". Uma vez mais, vi-os em catedrais, museus, palácios, praças, por todo o lado grupos de alunos com professores, à descoberta do que se estende para além do que a vista alcança. Vi-os alegres, vivos, interessados, tirando notas e sentindo o pulsar da verdadeira vida que não se resume àquele espaço, por vezes mórbido, da sala de quarenta metros quadrados, onde o mundo se fecha nos cubículos labirínticos dos currículos e programas impostos. Por vezes exclamei: é pela cultura que tudo o resto trazemos por arrasto. Estes alunos estão a escrever o seu futuro!



Não essa cultura sinónima de um conhecimento profundo e específico sobre qualquer área, mas aquela que absorvemos, integramos e que permite a leitura do mundo, a plasticidade de compreensão e o transfere para tudo o resto. Um exemplo comezinho: mais do que saber datas históricas, interessa perceber e conjugar a compaginação dos temas ao longo dos tempos. De resto, tudo na vida se apresenta interligado. Portanto, mais do que saber e papaguear o manual escolar com o fim último de responder ao que consideram certo (!), a cultura permite uma visão dialéctica no quadro das contradições. E por aí tudo se aprende. 

Não os vi de tablet entre mãos, vasculhado o manual digital, antes olhando e certamente reflectindo, com a importante e potenciadora presença dos tutores, a vida e toda a ciência em unidade. Não os vi sentados a escutar, voltados para a frente e em atitude não desestabilizadora, interminavelmente, o professor a debitar seja lá o que for do manual. E num determinado momento, quando vi um desses "bandos" de crianças, talvez em idade equivalente ao pré-escolar português, no museu do espantoso escultor francês Auguste Rodin (1840/1917) confirmei que a aprendizagem se conduz por aí, negando a segmentação das disciplinas nessa visão tendencialmente unívoca e estática, antes compaginando o que se vê com tudo o que rodeia e que dela faz parte. Até onde nos pode levar, de forma integrada, pergunto, Le Penseur de Rodin!

E assisto a adultos que atafulham em manuais digitais (que outros países já abandonaram) um pressuposto conhecimento, criam, pomposamente, "salas do futuro", quando a grande sala de aprendizagem não tem paredes, não tem tecto, não tem cadeiras nem mesas, faz-se em qualquer sítio ligando intimamente tudo. Não significa que a sala (tradicional) também não seja importante para a aprendizagem e descoberta, predominantemente em grupo, mas a vida real é muito mais que disciplinas conjugadas com aquela obsessão pelas avaliações, relatórios e processos burocráticos absolutamente discordantes da importância de dar asas aos talentos e aos sonhos de cada um. Ao contrário de um fatinho à medida de cada um, continuam a preferir a fábrica que produz um único fato para todos.

Tanto que gostaria de ver "bandos de pardais à solta" pelas nossas cidades escrevendo o seu futuro!

Ilustração: Google Imagens

sexta-feira, 28 de abril de 2023

A pressa que descamba na queima de etapas

 

Por outras razões já aqui trouxe o nome de Peter Drucker. Estávamos nos finais dos anos 80 quando li um seu livro que, a páginas tantas, falava que a década seguinte seria a da "cultura da pressa e do nanosegundo". Articulado que esta sua posição, um outro guru da gestão, Tom Peters, enalteceu que doravante só teríamos dois tipos de gestores: "os rápidos e os mortos". Certo é que a aceleração em todos os sectores foi tal que, aos poucos, veio influenciar a instituição Escola e as correspondentes etapas da aprendizagem. A Escola foi, claramente, contaminada o que fez esquecer que o ser humano é o animal que mais longa infância tem. Por algum motivo será!



Eu diria que trouxeram para dentro da escola as taras da sociedade, talvez melhor dizendo, essa cultura da pressa, traduzida na competição, na meritocracia, no diploma, no quadro de honra que é a desonra de muitos outros, nos prémios pecuniários, nas várias avaliações onde radiografam a criança e nas cerimónias das "capas de fim de curso", logo nas primeiras idades. 

Raros são aqueles que olham de forma crítica para a situação que o sistema está a oferecer. Bastaria que os decisores políticos tivessem alguma formação, mesmo que ténue, sobre os estádios do desenvolvimento cognitivo. Bastaria alguma predisposição para a leitura, entre muitos outros, cito-os de cor, Piaget, Vygotsky, Wallon, Claparéde, Alain, Gross, Montessori, Chateau, Freire, Niza, Pacheco, até aos fundamentais livros publicados em Portugal pelo Professor Carlos Neto, Professor Jubilado da Faculdade de Motricidade Humana. Há centenas de autores, talvez milhares, inclusive portugueses, com uma produção científica respeitadora das necessidades da infância. Trago em memória Jean Chateau (1961), autor do livro A Criança e o Jogo que, logo na página 7, enaltece: "(...) o ser mais bem dotado é aquele que mais joga". Ele não escreveu que o ser mais preparado para as etapas futuras da vida é aquele que "aprende" a ler aos três anos! A leitura tem de ser outra. Talvez, com um pouco de estudo, não se cometeriam tantas barbaridades e atropelos.

Tanto assim é que, há dias, no decorrer de um diálogo, escutei: ela tem apenas dois anos, já conta até 20, identifica as letras do abecedário, já começa a somar parcelas e por aí fora! Porventura já ensaia os primeiros acordes no piano ou na guitarra, imaginei. Creiam que fiquei apavorado com esta cultura da pressa, com o desejo de tornar a infância numa quase obrigatoriedade de saber as ditas "coisas da escola"! E todos ficam contentes, de pais a avós, pela antecipação precoce das etapas. Esta forma de estar e de entender a infância generalizou-se nas famílias, sobretudo nas economicamente mais favorecidas ou estáveis, que corresponde a uma ânsia de queimar as etapas do crescimento e do desenvolvimento. Eu diria que, hoje, as primeiras etapas da infância estão a tornar-se num perigoso "castigo". 

Nem os decisores políticos nem os pais e avós sabem que "(...) há uma correlação muito forte entre as crianças que brincaram muito e adultos empreendedores e felizes", sublinhou o Professor Carlos Neto, para quem "o acto de brincar não é uma coisa menos importante, pelo contrário, deve ser assumido como primordial no desenvolvimento saudável de qualquer criança e de futuro adulto. De uma forma frontal, em 2015, ele chamou à atenção que "(...) estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável", pelo que o seu livro "Libertem as crianças" constitui uma espécie de "grito de alerta para os pais e educadores".

Mais do que saber o abecedário ou de contar até 20, importante é olhar para a iliteracia motora, porque há muito que "o corpo está esquecido na escola", enalteceu Carlos Neto. Há um estudo elaborado por Carol Kolyniak que situa bem este problema: "(...) a prática observada na grande maioria dos estabelecimentos escolares evidencia a centralização das intervenções pedagógicas na construção de abstrações conceptuais, especialmente no que se refere à língua escrita, ao raciocínio lógico-matemático e às ciências exatas, naturais e humanas. Tais práticas vêm recorrendo, quase que exclusivamente, ao trabalho em sala de aula, em situações de relativa imobilidade, exigindo dos alunos quietude e concentração, desde os primeiros anos da escolarização. A progressiva universalização da educação básica vem evidenciando as insuficiências da metodologia de ensino que recorre, quase que exclusivamente, à atividade mental, mantendo os alunos em relativa imobilidade. Tais insuficiências revelam-se nas inúmeras dificuldades de aprendizagem apresentadas por muitos estudantes, que têm redundado em abandono da escola ou, mais recentemente, na conclusão da educação básica sem apropriação de conhecimentos básicos, como a leitura, a escrita e o cálculo aritmético (...)".

E o problema, dramático, é que todos os actuais ciclos de estudo enfermam desta "doença" assente no pensamento curricular e programático. Predomina essa cultura da pressa, a falsa aprendizagem, a ilusão de uma consistente preparação para o futuro, consequentemente a pressão exercida sobre os educadores, os professores, as extensas folhas com dezenas de itens avaliadores e a imposição de relatórios que não servem para nada. Queixam-se, depois, ainda na etapa básica, que muitas crianças, sejam catalogadas de hiperactivas e portadoras de défice de atenção. Pudera, porque aquilo que lhes é exigido é a antítese da natureza das primeiras idades.

Seria bom que não nos esquecêssemos que a educação não é para ontem é para amanhã. Pressa para quê? Respeitem a cadência do tempo.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Chega de vergonha, a comunicação social e a Escola

 

O que se passou na Assembleia da República (25 de Abril) através do "partido político" Chega, não apenas o envergonhou, mas envergonhou a esmagadora maioria dos portugueses, quando foi Portugal que convidou, sublinho, para a nossa casa, o Presidente da República do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva. Tratou-se de um acto vexatório, de desonra, eu diria mesmo, indecoroso, que nada tem a ver com o exercício da política feito de oposição mas com decência. No dia evocativo da conquista da Liberdade, um partido demonstrou não ter um mínimo de decoro e de respeito o que, para mim, significa ser inferior no quadro da democracia. 



Aliás, se já estavam bem definidas, neste 25 de Abril, as suas atitudes demonstraram, claramente, o sentido da sua existência: um partido de protesto rasca, jamais um partido de proposta séria. 

Bem disse o Coronel Vasco Lourenço, um dos operacionais do 25 de Abril de 1974, que nesse tempo "soubemos travar o ELP" - 1975 (Exército de Libertação de Portugal, organização terrorista de extrema-direita criada por Barbieri Cardoso (ex-subdiretor-geral da PIDE/Direção-Geral de Segurança), hoje, tal como ontem, sublinhou Vasco Lourenço, é povo que tem de travar este tipo de organização que esconde os verdadeiros objectivos e que, portanto, não se enquadra nos parâmetros de uma Democracia adulta e civilizada.

Há tanta forma de discordar, de fazer oposição e de propor novos caminhos. Há lugares e momentos para o fazer, nunca numa sessão solene de boas-vindas a um Chefe de Estado de um País com o qual temos uma História comum e centenárias ligações afectivas e empresariais. A questão é determinarmos por que razão se chegou a este ponto. Por que razão, ainda que escassa, uma determinada percentagem eleitoral segue esta lógica de descontrolada berraria? 


Ora bem, não sendo eu sociólogo, nem tendo estudado, profundamente, esta tendência para a radicalização discursiva e o afrontamento, venha de que quadrante político vier, atrevo-me dizer que tudo isto não surge apenas por um certo descontentamento popular. Obviamente que tem outros contornos vastos e bem evidentes, a avaliar pelo que se passa em vários países, com o despontar de figuras (entre outros, Marine Le Pen, Alice Weidel e Alexander Gauland, Matteo Salvini, Jussi Halla-aho, Viktor Órban, Santiago Abascal, Trump, Bolsonaro), e com ataques e mortes perpetrados por essas "sementes" populistas que varrem não apenas a Europa mas um pouco por todo o Mundo. Daí que, sustento eu, só existam três formas de conter esta escalada, pelo menos no nosso país: 1. através do combate democrático, nas instituições próprias, estabelecendo princípios e valores que a Democracia e a concomitante liberdade jamais possam considerar como linhas ultrapassáveis; 2. com a responsabilidade da comunicação social que deve deixar de ir à procura de "sangue"; 3. preventivamente, a Escola, mais do que exigir definições para esquecer, eduque para a cidadania. Aliás, a tarefa da escola está por realizar. É evidente um vazio, quando estas questões delicadas e profundas não podem ser do tipo toca-e-foge, isto é, falar o mínimo, não debater e não questionar para além de uma certa treta programática. Quando assim acontece significa que estamos a deixar caminho aberto para a incapacidade de ver à distância o que alguns pretendem. Porque LIBERDADE não significa LIBERTINAGEM.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

"O melhor ensino de Portugal é aqui"

 

A frase foi dita ontem pelo Senhor presidente do governo regional da Madeira, no decorrer de uma visita a uma denominada "sala do futuro", no âmbito, li, da criação de "ambientes inovadores de aprendizagem". "O melhor ensino de Portugal é aqui", disse, no ensino em geral, nas artes e no desporto. Fiquei estarrecido face à sua continuada preocupação pela "inteligência artificial"! Fez-me lembrar o saudoso Jornalista Carlos Pinhão (A Bola) na sua página de corrosivo humor e que eu trago sempre em memória.



Na altura do Professor Carlos Queirós, quando Portugal ganhou vários títulos no futebol jovem, escreveu mais ou menos isto: "(…) somos os melhores do mundo em sub-20, os melhores da Europa em sub-18 (…) somos os melhores em subdesenvolvimento".

Pois, há governantes que têm uma tendência para ver uma fotografia 10x15 em 18x24. Pessoalmente tento ver a realidade despida de sentidos político-partidários. Porque com a Educação não se brinca! E eu que sou, visceralmente, contra os "ranking's" na educação, porque só se pode comparar o que é comparável, para este efeito, enquanto mero indicador, podia o Senhor presidente passar os olhos pelos "ranking´s" nacionais para verificar, de uma maneira geral, a posição que os estabelecimentos da Madeira ocupam. Com toda a certeza que não diria o que afirmou.

Mas quanto às declarações eu percebo-as no quadro da propaganda política. Mas isso não deixa de incomodar e de revelar desconhecimento do que deve ser uma política educativa de qualidade e portadora de futuro. A que vivemos prova-se, através de muitos indicadores, que não é. E quanto à tecnologia torna-se necessário repensar todo o processo ao invés de embarcar em modas ou ideias sem a devida sustentabilidade científica. É óbvio que a tecnologia tem de estar presente, não a podemos ignorar, o problema é saber como, quando e porquê utilizá-la. 


Michel Desmurget escreveu A Fábrica de Cretinos Digitais. Entretanto, li um oportuno artigo assinado por António Carlos Cortez, professor, poeta e crítico literário, que transcreve uma parte interessante do livro de Michel Desmurget. Escreve o ensaísta francês, Prémio Femina de Ensaio em 2020: 

"Aos 2 anos as crianças dos países ocidentais consagram todos os dias quase 3 horas ao ecrã. Entre os 8 e os 12 anos, esse tempo aumenta para cerca de 4h e 45 min; entre os 13 e os 18, a exposição é, em média, de 6 h e 45 min. Em termos anuais são cerca de 1000 horas para um aluno do 1.º ciclo; e 1700 para um aluno do 2.º ciclo. Para alunos do 3.º ciclo e Secundário, falamos de 2400 horas anuais, o equivalente a um ano e meio de trabalho a tempo inteiro." Não é suficiente para alterar o plano de transformar as escolas em centros de informática? Não é suficientemente grave? Então há mais: Desmurget confirma (com recurso a gráficos, mapas neuronais, estatísticas) os males que o digital inflige a toda uma nova geração de adictos (drogados) dos ecrãs: os smartphones, os tablets, a televisão, os computadores contribuem para a obesidade, o aumento de doenças cardiovasculares; potencia a agressividade (experimentem proibir o uso do telemóvel a crianças e adolescentes... a reação será sintomática do grau de adição), perturba o regime do sono, promove, ao nível do comportamento, a depressão e a ansiedade, e, cognitivamente, afeta a linguagem (que empobrece), a concentração (6 minutos é o tempo de leitura dos estudantes, hoje), a memorização (o ChatGPT virá cavar mais fundo ainda o buraco negro da memória onde todas as aprendizagens - as poucas dignas desse nome - se afundam e perdem). Não, o digital não é a solução. A solução é o regresso ao livro e à cultura!"

"(...) Escreve Michel Desmurget: "Quanto mais "inteligentes" se tornam as aplicações, mais substituem o nosso pensamento e mais nos permitem tornarmo-nos idiotas. "Para quem ainda insista em defender o digital no ensino, vale esta nota: a própria Microsoft explica que a capacidade de atenção dos seres humanos tem vindo a regredir e a deteriorar-se nos últimos 15 anos. Atingiu-se um valor histórico: a nossa atenção é hoje inferior à do peixe-dourado. Tal se deve às tecnologias digitais, comprova-o, neste livro urgente, o neurocientista."

Em função deste enquadramento, sensato seria debater, jogando para cima da mesa de diálogo, todas as dúvidas, de tal forma que não se tome por único e imprescindível caminho aquilo que as consequências estão a demonstrar. Repito: não podemos ignorar a tecnologia, ela está aí, é fundamental na aprendizagem, a questão é determinar como utilizá-la. Não é por acaso que, nos Estados Unidos, a política dos manuais digitais está a ser abandonada. Explicou o Professor Santana Castilho na sua recente passagem pela Região: "Estudos feitos por centros de investigação e cientistas da neurociência concluíram que o desenvolvimento cognitivo dos jovens que tiveram um grande mergulho nas tecnologias digitais aos 11 anos está similar àquele que há 30 anos as crianças tinham com 8/9 anos de idade" (...) Existem várias razões que, alegadamente, demonstram os efeitos nocivos da adoção desta medida. Uma delas é a situação dos Estados Unidos da América, onde "a experiência dos manuais digitais começou há 8 anos" – e, desde então, tem sido abandonada sistematicamente". Porquê? "Porque o custo relativamente aos manuais em papel disparou, é cinco vezes mais caro. E porque as doenças oftalmológicas aumentaram em 30%", frisou o professor.

Ilustração: Google Imagens

sexta-feira, 31 de março de 2023

Movimento da Escola Moderna


Infelizmente, muitos políticos ainda não perceberam a importância de mudar de paradigma. Preferem a repetição dos passado à ousadia de uma Educação que nasce do aluno com a imprescindível presença do professor. O Professor Sérgio Niza anda há mais de 50 anos nesta luta. Não tem sido totalmente em vão, porque há sementes a germinar.

Vamos aprender dialogicamente? Iriamos desenvolver o gosto e o prazer de aprender construindo conhecimento ou assumiríamos o papel de: “alguém que ensina o que supostamente sabe a alguém que supostamente não sabe?” (Nóvoa, 2009)

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

“O professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é”


Entrevista a José Pacheco: 
por Ana Isabel Fernandes, 
29 Janeiro, 2020




A entrevista foi realizada em 2020, mas poderia ter sido ontem. Deveria ser lida por quem tem responsabilidades políticas no sector educativo e por todos os professores.

“Não há alunos com dificuldades de aprendizagem; há professores com dificuldades de ensinagem…”, ressalva-nos mais do que uma vez José Pacheco que, após mais de 30 anos na Escola da Ponte, em Vila das Aves, ruma ao Brasil, tal como Agostinho da Silva, porque crê que o desenvolvimento do ensino do futuro está-se a dar a Sul e não, como etnocentricamente gostamos de pensar, a Norte. Do outro lado do oceano apoiou, por exemplo, o nascimento do núcleo projecto Âncora, que auxilia alunos socialmente desfavorecidos e é tida, actualmente, como uma das melhores escolas do mundo. Chegou à Escola da Ponte como professor substituto de uma docente em baixa de maternidade, ainda nos anos 70, e tinha a seu cargo uma turma de 60 alunos das mais variadas idades. Foi esta situação que o instigou a pensar e repensar os paradigmas da educação. Assim, dessa forma, desenvolve, na época, um novo e dinâmico projecto pedagógico, juntamente com duas colegas, a partir do qual nascem as premissas que regem a Escola da Ponte até aos dias de hoje, agora em São Tomé de Negrelos. Autonomia, liberdade, responsabilidade, entreajuda, noção de comunidade e criatividade em que é o próprio aluno a propor-se para avaliação quando se achar preparado.


Um sistema de ensino que visa respeitar o aluno como ser humano que é, consciente e autónomo, ao permitir-lhe gerir e organizar o seu próprio tempo sem divisões por turmas ou idades. Ao invés do professor que debita a matéria numa aula, o aluno tem uma voz activa no que pretende aprender e o professor serve, antes, como tutor ou orientador. A comunidade assume, dessa forma, um papel fulcral, uma vez que a escola não deveria estar integrada na comunidade, mas ser parte dela, como um todo. Para José Pacheco, as aulas e respectivas salas já deviam fazer parte do passado uma vez que foram pensadas para responderem às necessidades da primeira revolução industrial do século XIX. Muito mudou desde então, menos o sistema educacional, uma das áreas que menos sofreu evolução. Algo difícil de compreender, uma vez que não faltam, como José relembra, grandes pedagogos e pensadores hoje esquecidos — como Irene Lisboa, António Sérgio, Bento de Jesus Caraça, Adolfo Lima, Faria de Vasconcelos, João dos Santos e Agostinho da Silva —, que já defendiam há mais de um século aquilo que hoje ainda denominamos de futuro. Por isso, José Pacheco pergunta “quando cessará o insustentável e obsceno silêncio dos especialistas das ciências da educação?” Mas vamos, agora, ao principal, à entrevista que o professor nos cedeu, por e-mail, há alguns dias.

Associamos, várias vezes, a inovação escolar à inovação tecnológica. De que uma escola do futuro é aquela tecnologicamente bem equipada. Como é que olha para a integração das novas tecnologias na educação? Ajudam, de facto, numa maior democratização, no sentido lato da palavra, ou só isso não basta e poderá nos induzir em erro?

“Inovação” é tudo aquilo que é novo, que possui valor e capacidade de se renovar/reinventar no decorrer do tempo, em permanente fase instituinte. O termo “inovação” tem origem etimológica no latim innovatio. Refere-se a ideias, métodos ou objetos criados que não semelhantes a ideias, métodos ou objetos conotados com padrões anteriores. Em suma: inovação é, efetivamente, algo novo, que contribui para a melhoria de algo ou de alguém. E que pode ser replicado, por exemplo, a partir da criação de protótipos. Inovação será algo inédito, útil, sustentável e de provável replicação. No campo da educação, será um processo transformador que promova ruptura paradigmática, mesmo que parcial, com impacto positivo na qualidade das aprendizagens e no desenvolvimento harmónico do ser humano. Consiste em superar aquilo que se manifesta inadequado, obsoleto. Significa trazer à realidade educativa algo efetivamente novo, ao invés de não modificar o que seja considerado essencial. Pressupõe, não a mera adoção de novidades, inclusive as tecnológicas, mas mudança na forma de entender o conhecimento. As escolas se têm enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. Onde há sala de aula, não existe inovação. É um absurdo proibir o uso de celular em sala de aula mas, infelizmente, o modo como as escolas utilizam as tecnologias de informação e comunicação apenas tem contribuído para fomentar imbecilidade e solidão.

Devem ou não estar nas escolas? Como é que os pais devem lidar com o «vício» de se estar sempre amarrado a um tablet, a um computador, a videojogos?

As ditas “novas tecnologias” vieram para ficar, são incontornáveis, mas a Internet não é uma ferramenta, é uma sociedade. Apenas será necessário saber o que fazer com ela. E que os pais não ajam com autoritarismo, mas com autoridade.

Acesso a muita informação é sinónimo de conhecimento e emancipação? Isso chega? Ou o desafio dos docentes está no modo de orientar o aluno na forma como se processa e trata a informação?

Com ou sem novas tecnologias de informação e comunicação, a escola precisa de ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias estão sendo introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, acriticamente consomem sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais. A Internet é generosa na oferta de informação. Basta clicar para repetir, até que a matéria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode “ensinar” numa aula está plasmado, de modo mais atraente, na tela de um computador. Mas os professores do “futuro” irão manter-se ancorados em aulas obsoletas servidas por lousas digitais ou irão atualizar-se? Irão replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets, ou irão usar o digital ao serviço da humanização da escola?

Os PowerPoints são ou não aliados da educação? Há sempre aquela questão, se o projector falha, parece que já não se consegue ensinar.

Um estudo conduzido na Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália) descobriu que utilizar um auxílio visual igual ao que está sendo falado, ao contrário do que se imagina, não facilita a compreensão. Outro estudo, feito por pesquisadores da Universidade de Harvard, afirma que não há um propósito de existência do Power Point. Isso, porque eles descobriram que o grau de satisfação de uma audiência para com uma apresentação é o mesmo, independente da presença ou não de auxílio visual. Os académicos também observaram que o editor de apresentações pode estar contribuindo para tornar as pessoas mais burras. A facilidade do auxílio visual de gráficos, listas e slides tem ajudado a promover um novo tipo de gramática corporativa, onde o importante não é passar uma informação correta, mas passar uma informação com estilo. Propostas com lógica sofista, informações sem contexto e que se apegam na causalidade de fatores são cada vez mais comuns. Com isso, essa nova argumentação, onde o modo como se fala é mais importante do que o conteúdo da fala, está ajudando a deixar as pessoas cada vez menos inteligentes.



O que acha da implementação, em Portugal, do projecto “Salas de Aula do Futuro”?

Se o projeto se refere a salas de aula, será mais um projeto-paliativo porque, no futuro, não haverá salas de aula.

A seu ver, o que é que haverá, então?

Certamente, a concepção e desenvolvimento de uma nova construção social de educação. Aquela que foi concebida no século XIX correspondeu a necessidades sociais do século XIX… Para uma Educação do Futuro, uma Escola de futuro. É absurdo falar em salas de aula, quando se fala de Educação do Futuro.

Gostava de saber, em específico, a sua opinião sobre a Educação Especial em Portugal.

Apesar da publicação de decretos e dos esforços de bons educadores, a inclusão continua a ser uma miragem. Será necessário assumir o princípio de que não há alunos com dificuldades de aprendizagem, mas professores com dificuldades de ensinagem. Será necessário reconhecer que todas as crianças são “especiais”. E de que as escolas deverão abandonar práticas fundadas no paradigma instrucionista, substituindo-as por práticas fundadas no paradigma da aprendizagem e da comunicação. A educação é um direito de todos. Só poderá ser inclusiva. Ou não será educação…


Olhando para a escola como um todo integrado, essencialmente, na comunidade, gostaria de saber a sua opinião sobre a importância do ensino na comunidade para os alunos com deficiência.

A escola não deverá estar integrada na comunidade, mas fazer parte da comunidade, ser mais um locus de encontro e de aprendizagem. E não há alunos (pessoas!) com deficiência – há práticas escolares deficientes.

Para se modificar o ensino, essa modificação não terá de começar na forma como a preparação dos professores, a partir do 5º ano, está demasiado fragmentada? 

Preparam-se os professores, a nível de currículo, para a matéria daquela disciplina em si, mas falta o ensinamento a sério a nível de pedagogia. Não precisaremos de “modificar o ensino”, mas de criar condições de aprendizagem. A preparação dos professores está fragmentada como, cartesianamente, está fragmentado o sistema de ensino. A formação de professores continua imersa em equívocos, continuamos cativos de um modelo de formação cartesiano que impede um re-ligare essencial. Sabemos que um formador não ensina aquilo que diz, mas transmite aquilo que é, veicula competências de que está investido. 

Mas ainda há quem ignore a existência do princípio do isomorfismo na formação, quem creia que a teoria precede a prática, quem considere o formando como objeto de formação quando deveria ser tomado como sujeito em autotransformação no contexto de uma equipa, com um projeto. Prevalecem práticas carentes de comunicação dialógica, culturas de formação individualistas, de competitividade negativa, de que está ausente o trabalho em equipa.




Tenho curiosidade em saber, em particular, o impacto que o trabalho de Nise da Silveira teve em si.

Dizia o Sartre que há dois tipos de pessoas que dizem a verdade: as crianças e os loucos. E que os loucos são internados em hospícios, enquanto as crianças são educadas. Ambos estão “guetizados”: os loucos em hospícios, as crianças em prédios-escolas. A mesma sorte dos velhos relegados em lares da terceira idade. A salutar criatividade da infância é cerceada pela louca velha escola, mas a busca da verdade e da beleza é domínio em que nos é consentido ficar crianças toda a vida, como nos dizia o sábio Einstein. Andei pelo Engenho de Dentro, na boa companhia do Vítor Pordeus. Acompanhei a génese de uma comunidade de aprendizagem que a Nise e os loucos de dentro aprovariam, mas que os loucos de fora inviabilizaram.

Tendo em conta que Nise da Silveira foi a grande impulsionadora da terapia ocupacional no Brasil, dando destaque às técnicas projectivas como a pintura, gostaria de saber, na sua opinião, como essas mesmas técnicas projectivas poderiam ser transpostas para a escola comum e que impacto teriam no desenvolvimento do aluno. 

Quando falo de técnicas projectivas, falo da importância que o desenho e a pintura têm, mas, em especial, da forma como as imagens mentais que se dão antes da verbalização são essenciais e primordiais para o nosso desenvolvimento cognitivo, pessoal e verbal, também. E como é necessária uma aproximação afectiva e pessoal para esse processo se desencadear. Estás a falar de “educação integral”. O ser humano é multidimensional – intelectual, afetivo, ético, estético, emocional… que é algo ausente das práticas comuns. Mas as pinturas dos considerados loucos, nos quais reconhecemos genialidade, deram origem a um belo museu e são prova de que nem tudo está perdido.

O Museu de Imagens do inconsciente. Então, já teve a oportunidade de o visitar e travar contacto com as pessoas que o mantêm?

Sim. Conheço e visitei-o. Não tive oportunidade de contato com as pessoas. Gostaria…

A consciência dá-se antes do verbo? A não-compreensão disso poderá afectar o desenvolvimento e facilitar a rotulagem de alunos que, apenas, precisam de outra abordagem?

Não sei.

O que eu quis perguntar com isto é que o ensino apoiado numa lógica cartesiana começa pelo final e não pela base. Dá-se mais valor à verbalização e aos alunos que já têm essa faculdade mais desenvolvida, mas, porém, esquece-se o que há para trás, as tais bases de desenvolvimento para, efectivamente, todos se poderem desenvolver. A consciência de um bebé não se dá, apenas, com a primeira palavra. Depois, há outra questão. Não há um só tipo de linguagem. As formas de linguagem são múltiplas. Ao dar-se primazia a uma só, está-se a inviabilizar outros métodos de aprendizagem dos quais os alunos poderiam beneficiar. Não será por isso que é mais fácil a escola dizer que aquele determinado aluno que não entende tem um défice qualquer e não é capaz?
Desde sempre, a escola procurou explicações para o insucesso. E prevaleceram as teorias de referencial socioeconómico, ou sociocultural, para além da teoria dos dotes. A verdade é que o insucesso é sobretudo de origem sócio-institucional. Isto é: o insucesso decorre das práticas obsoletas da escola dita tradicional. Não há alunos com dificuldades de aprendizagem; há professores com dificuldades de ensinagem…

Segundo a sua concepção de pensamento em relação à escola, é ou não é possível levar todos no mesmo barco de desenvolvimento e compreensão?

É possível. Ressalvada a eventual manifestação de arrogância da afirmação, essa possibilidade existe, desde há mais de quarenta anos. E numa escola portuguesa.

A escola da Ponte, uma escola pública, escola a que já se refere como um fóssil, mas que, a seu ver, continua a ser a melhor do país. O que falta para, a nível público, se apostarem em mais escolas da Ponte sem esquecer a consequente evolução e inovação?

Falta cumprir o artigo 48.º da Lei de Bases.

[Administração e gestão dos estabelecimentos de educação e ensino.
1 – O funcionamento dos estabelecimentos de educação e ensino, nos diferentes níveis, orienta-se por uma perspectiva de integração comunitária, sendo, nesse sentido, favorecida a fixação local dos respectivos docentes.

2 – Em cada estabelecimento ou grupo de estabelecimentos de educação e ensino, a administração e gestão orientam-se por princípios de democraticidade e de participação de todos os implicados no processo educativo, tendo em atenção as características específicas de cada nível de educação e ensino.

3 – Na administração e gestão dos estabelecimentos de educação e ensino, devem prevalecer critérios de natureza pedagógica e científica sobre critérios de natureza administrativa.

4 – A direcção de cada estabelecimento ou grupo de estabelecimentos dos ensinos básico e secundário é assegurada por órgãos próprios, para os quais são democraticamente eleitos os representantes de professores, alunos e pessoal não docente, e apoiada por órgãos consultivos e por serviços especializados, num e noutro caso segundo modalidades a regulamentar para cada nível de ensino.

5 – A participação dos alunos nos órgãos referidos no número anterior circunscreve-se ao ensino secundário.

6 – A direcção de todos os estabelecimentos de ensino superior orienta-se pelos princípios de democraticidade e representatividade e de participação comunitária.

7 – Os estabelecimentos de ensino superior gozam de autonomia científica, pedagógica e administrativa.

8 – As universidades gozam ainda de autonomia financeira, sem prejuízo da acção fiscalizadora do Estado.

9 – A autonomia dos estabelecimentos de ensino superior será compatibilizada com a inserção destes no desenvolvimento da região e do País.]



Fala muito, nas suas TedTalks, na forma como o desencadeamento da educação do futuro vai partir do sul e não do norte. Pode explicar o porquê?

No Brasil, uma nova educação acontece, cumprindo a profecia do Mestre Agostinho. Um artigo seu, publicado ainda no tempo em que foi professor da Universidade de Brasília, rezava assim: Portugal desembarcou na África, na Ásia e na América; só falta a Portugal desembarcar em… Portugal. Proféticas palavras. Depois de me ter emancipado de um soberbo etnocentrismo europeu, me apercebi de que esse “desembarque” irá acontecer através de uma nova educação, que está a nascer no hemisfério sul. Está a nascer no Sul uma Nova Educação, aquela que muitos visionários anunciaram, desde há mais de um século. Acompanho uma revolução silenciosa, uma revolução que já não poderá ser silenciada. Convertido ao sul, busco fazer a minha parte. E, numa viagem ao Norte, expus essa intenção a europeus e norte-americanos. Etnocentricamente convencidos de que é no Norte que mora a novidade, desdenharam. Arrepender-se-ão…

No caso do Brasil, as políticas de Bolsonaro não põem em causa essa sua ideia? A realidade política tem um forte peso na educação. Aliás, falar-se de educação é falar-se de política.

É evidente que haverá estragos. Bastará atentar em energúmenos desabafos de afetos do regime, absurdos como “Toda civilização humana está construída em homens fortes, não em maricas. A mulher e a família precisam de homens fortes”. No tempo da “velha senhora”, envolvido em atividades antifascistas, todos os dias meditava sobre um provérbio oriental, que fala de “homens fortes”: Homens fortes produzem tempos fáceis. Tempos fáceis produzem homens fracos. Homens fracos produzem tempos difíceis. Mas, nos tempos difíceis, se produzem homens fortes. Isto talvez responda à tua pergunta.

Brasil poderá ter Paulo Freire, Nise, mas Portugal também tem Irene Lisboa que, pura e simplesmente, não é relembrada.

São muitas as memórias assassinadas. A Irene não está sozinha. E António Sérgio? E Bento de Jesus Caraça? E Adolfo Lima? E Faria de Vasconcelos? E João dos Santos, E Agostinho da Silva? E tantos outros, que os professores não conhecem, ou não praticam. Vão à Finlândia, quando têm muitas Finlândias cá dentro.

Agostinho da Silva que, tal como o José já teve a oportunidade de frisar, também partiu para o Brasil e tinha a crença que a evolução começaria por aí. Também tinha uma visão universalista, essencialmente da educação. Não lhe parece um contrassenso que pessoas nascidas já no início do século XX tenham descoberto e defendido o que hoje ainda chamamos de futuro?

Respondo com uma pergunta: quando cessará o insustentável e obsceno silêncio dos especialistas das ciências da educação?

Voltando à questão do desenho e artes em geral. Como pessoa, essencialmente, curiosa da cultura livresca e artística, facilmente compreendo como a arte é o grande pólo em que as diversas áreas do saber se encontram e como se podem influenciar entre si. Tendo em vista isso mesmo, pergunto se a fragmentação das próprias disciplinas não atrapalham, por um lado, o desenvolvimento do indivíduo e um entendimento mais profundo das coisas. Relembrando a minha experiência pessoal, eu era boa aluna, mas uma autêntica nulidade a matemática. O que sei e não esqueço a esse nível devo-o à música e até à filosofia. Até é possível relacionar a grande literatura com a ciência. O desenho, por exemplo, pode até ajudar na verbalização, noção espaço-temporal e orientação espacial.

Como diria o saudoso João dos Santos, só pergunta quem sabe… Por isso, a tua pergunta é longa e a resposta é breve: as escolas, que eu ajudo a criar (e que são escolas que a todos garantem o direito à educação) têm por centro a arte. O núcleo do Projeto Âncora, por exemplo, é uma tenda de circo, uma ágora. E essa escola está no rol das melhores escolas que o mundo tem.

Outra questão importante para a qual a sociedade ainda está a tentar encontrar uma resposta. A hierarquia da escola tradicional não ajudará a espoletar ou piorar os casos de bullying? Como é que se deve lidar com esta questão?

O bullying é, também, consequência da manutenção de um modelo educacional obsoleto. Por que se age sobre consequências, se já é tempo de agir sobre as causas? Se o discurso é unânime — é preciso reforçar a autoridade dos professores! —, a prática contraria o discurso. A regra é a transferência da autoridade do professor para os órgãos de gestão e para burocráticos procedimentos disciplinares. Autoridade não rima com controlo, imposição, submissão. Etimologicamente, a palavra autoridade significa “ajudar a crescer”. Ajudar a crescer pressupõe o exercício do diálogo e a desocultação de perversos modos de relação. Como diria o Brecht, diz-se das águas de um rio que são violentas, mas nada se diz das margens que as comprimem… Por mais que custa reconhecer, perante a violência simbólica imposta pelas escolas, a desobediência, a indisciplina, o bullying, poderão ser manifestações de sanidade mental. Longe vai o tempo em que o pai era a autoridade na família e em que o professor era a autoridade na escola. Os jovens deveriam obedecer a ordens e estar atentos às lições. Hoje, a indisciplina — herdeira do autoritarismo e da permissividade — ocupa o lugar desse “respeitinho” de antigamente.

O bullying não é um fenómeno recente. Há mais de quarenta anos, deparamo-nos com situações de bullying. Nos apercebemos de que não poderíamos resolver os problemas da criança sem resolver os problemas dos adultos — ninguém dá aquilo que não tem, ninguém transmite aquilo que não é. Compreendemos que a aprendizagem é antropofágica: não aprendemos o que outro diz — aprendemos o outro. E o professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. De uma educação para a cidadania, passámos a uma prática de educação na cidadania. O adestramento não define a educação. A educação é incompatível com a organização autoritária da vida. E, para que consiga recuperar a autoridade, é necessário que o professor se conheça afetivamente e se reconheça no outro. A segurança gerada permite ao professor ser senhor de si, elevar a autoestima e beneficiar de hétero-estima. Mas quem cuida da melhoria da formação pessoal e social do professor? Quando se operará a ruptura com a cultura do “cada qual por si”, que infesta as nossas escolas?

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Negar a ciência ou falta bom senso?

 

O Professor Doutor Santana Castilho esteve na Madeira e teceu algumas considerações relativamente à política de utilização dos manuais digitais. Sumariamente, tal como já neste espaço referi, assumiu que a estratégia dos tais manuais digitais, iniciada há oito anos nos Estados Unidos, está a ser abandonada. E explicou as razões.



Ora bem, quando uma figura académica, autor e colunista do Público, no decorrer de uma conferência para professores, despoleta uma situação destas, presumo que as campainhas de alarme deveriam tocar de forma estridente nos ouvidos dos responsáveis políticos. O secretário da Educação devia, imediatamente, sentir-se preocupado e proceder à auscultação de todos os que directamente estão ligados ao sector. Com uma pergunta-chave tão simples quanto esta: "será que estamos no percurso certo ou teremos de arrepiar caminho?" Simples! Se os neurocientistas invocam que o que parece não é, então, que se estude e que se mude de orientação. Só lhe ficaria bem, porque, diz a sabedoria popular a todos nós que "só os burros não mudam".


O que me parece é que o governo seguirá a sua orientação, sendo provável que o Professor Santana Castilho será considerado como uma pessoa a não tecer, no futuro e localmente, opiniões sobre a política educativa regional. E os manuais digitais continuarão e as tais "salas de aula do futuro" emergirão por aí, embelezando e servindo a propaganda de natureza política. O conhecimento científico ficará para depois.

A utilização da tecnologia, necessária e extremamente importante, não se esgota colocando os manuais em papel num tablet, mantendo intocável o formato pedagógico. Tudo isto significa que existe uma crónica teimosia em viver de modas e de aparências, onde o estudo fica sempre para mais tarde. Professores da minha terra, acordai!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Tecnologia não é "meter" os manuais em papel no tablet!


Quem o diz é o professor Santana Castilho, que aponta os Estados Unidos da América como um país que abandonou a estratégia. Entre as razões estava o aumento das doenças oftalmológicas.


Unsplash

O projeto Manuais Digitais arrancou em 2018, na Madeira. Desde então, tem vindo a transformar-se numa referência, incitando outros países a adotarem a estratégia da desmaterialização. Este ano letivo, a medida passou a cobrir 9.500 alunos e dois mil docentes – o que corresponde, respetivamente, a 45% e a 33% dos alunos e professores da região autónoma, avança a "SapoTek".

No entanto, cada vez mais se tem questionado o impacto a nível cognitivo que um futuro completamente digital pode ter nas crianças e jovens – e, afinal, não parece muito promissor. Quem o diz é o professor Santana Castilho, na conferência da Associação Nacional de Professores desta sexta-feira, 21 de outubro.

"Estudos feitos por centros de investigação e cientistas da neurociência concluíram que o desenvolvimento cognitivo dos jovens que tiveram um grande mergulho nas tecnologias digitais aos 11 anos está similar àquele que há 30 anos as crianças tinham com 8/9 anos de idade", explica Santana Castilho, em declarações à RTP.

Existem várias razões que, alegadamente, demonstram os efeitos nocivos da adoção desta medida. Uma delas é a situação dos Estados Unidos da América, onde "a experiência dos manuais digitais começou há 8 anos" – e, desde então, tem sido abandonada sistematicamente". Porquê? "Porque o custo relativamente aos manuais em papel disparou, é cinco vezes mais caro. E porque as doenças oftalmológicas aumentaram em 30%", frisou o professor.

Em Portugal, a desmaterialização abrange 66 agrupamentos e cerca de 12 mil alunos, segundo o “Jornal de Notícias”. Mas esta é uma iniciativa que se deve expandir por todo o País. Isto porque o ministro da Educação, João Costa, já havia revelado as suas expectativas no que ao assunto diz respeito – que todas as escolas tivessem manuais digitais até 2026, altura em que a sua legislatura termina.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A "questão aula" e a obsessão pela avaliação

 

Nos finais dos anos 60 fui aluno de um professor que dedicava os primeiros minutos de um novo encontro connosco, à resolução do essencial do que tínhamos escutado e debatido na sessão anterior. Essas respostas eram individuais, não eram recolhidas pelo Professor e apenas serviam para nós (colectivamente) nos situarmos na compreensão da matéria (conhecimento), repito, escutada e debatida. Só passávamos adiante quando 80% estava percebido e consolidado. Não havia qualquer preocupação avaliadora e registada no sentido professor-aluno, mas apenas o aluno como centro da aprendizagem. Isto, há 50 anos!



Nos últimos anos, um ministro, cujo nome, intencionalmente, não quero recordar, entendeu lançar, generalizar e até "obrigar" à realização daquilo que se designa por "questão-aula". Rapidamente, passou-se de uma atitude formativa para o aluno, que muitos professores já desenvolviam, para um âmbito classificativo, embora, numa percentagem reduzida no cômputo geral da avaliação. É a espada avaliadora, onde qualquer outra preocupação só marginalmente reside no aluno. Isto, 50 anos depois!

Aliás, nos estabelecimentos que deviam ser de aprendizagem (ainda os designam por estabelecimentos de ensino) é cada vez maior a obsessão pela avaliação, não pela aprendizagem. São muitas as paranóias que os invadiram: a centralização dos processos, hierarquicamente definidos, que impedem a autonomia e a liberdade de cada estabelecimento criar as suas próprias dinâmicas de escola e de aprendizagem. 

Vivem num espartilho onde tudo se acomoda dando a entender formas naturais, quando, se retirarmos as amarrações,
o corpo desintegra-se em bocados mil;

é o excessivo número de alunos por estabelecimento; é o processo burocrático, onde muito para nada serve, que enche o arquivo-morto e continua a retirar tempo e disponibilidade para pensar a aprendizagem centrada no aluno; é a irresistível motivação para a realização de actos irracionais, como a da obsessão pela avaliação de natureza classificativa; é a manutenção de um arcaico conceito de aula e de turma; é essa praga da uniformidade que padroniza currículos, programas e conceitos organizacionais de aprendizagem, como se todas as populações fossem iguais, os professores não tivessem capacidade para entender a aprendizagem de forma diversificada e a forma como se aprende fosse de sentido único. É a louca correria por uma enganadora meritocracia que traz para dentro da escola muitas taras e desigualdades sociais. Tanto que sobre isto há a dizer e a debater!  

Regresso ao princípio a essa história da "questão-aula", onde até já existem cadernos com enunciados. Aquela expressão não me agrada, sobretudo porque tenho um entendimento negativo da palavra "aula". Aliás, na linha do que tantos autores já assumiram. Tenho presente o Professor José Pacheco, incontornável na forma como entende o processo de aprendizagem. Ele assume: "a aula não ensina e a prova não prova". Portanto, é tempo de parar com essa lógica que assenta no pressuposto que "o modo como o professor aprende é o modo como ele ensina". E andamos neste círculo vicioso e sem tempo para pensar e sobretudo para fazer pensar. Ora bem, porque não me quero alongar, fazem todo o sentido as preocupações de natureza formativa, nunca as obsessões pela avaliação subordinada na repetição e na memória, onde 90% se esfuma passados 30 dias. A aprendizagem tem contornos diferentes e o conhecimento nada tem a ver com pontuais "questões-aula" de natureza classificativa. Não é pela existência de uma "questão-aula" que a motivação para o estudo (curiosidade) se desenvolve. É tempo de fazer um "resert" ao que andamos a fazer, muitas vezes até por convicção!

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

"Sala do Futuro"? Não seria melhor designarem por "laboratório tecnológico"?


Na política, deixa-me um rasto de pena aqueles que, discursivamente, conduzem ao engano através da artimanha das palavras, dos sentidos e dos ares convencidos que uma determinada orientação é a melhor para o povo. Sinto comiseração quando cruzo, o pouco que sei com aquilo que dizem, em função do conhecimento que existe. Vem isto a propósito das anunciadas "salas de aula do futuro". Sobre este assunto já diversas vezes escrevi (ver links no final do texto), mas entendo que vale a pena voltar ao assunto.



Façamos estas contas: 20 alunos x 14 "salas do futuro" = 280 alunos abrangidos a prazo. A população de estudantes na Madeira é de cerca de 40 000. Se dividirmos este global por 280 (7%), chegamos a uma necessidade de 143 salas, no quadro organizacional do actual conceito de escola. Por outras palavras, o tal futuro é inatingível para a esmagadora maioria desta geração. Com alguma ironia aqueles dados fazem-me ter presente o dístico à entrada de uma taberna: "Amanhã fia-se, hoje não". E assim taberneiro empurra o problema para depois.

Só é inteligível uma sala equipada para a aprendizagem nos dias que estamos a viver, se ela corresponder a um novo pensamento acerca do que se deve entender por Escola. Concomitantemente, se apresentar uma relação mútua com uma nova organização interna que determine, no plano pedagógico, como chegar ao conhecimento relevante e em conexão. Não é, pois, carregando os manuais em papel para dentro do digital ou com uma série de salas referenciadas "do futuro", porém, mantendo o formato pedagógico, que se despertará o interesse dos alunos e, por aí, os patamares do conhecimento superior. Não sou eu que o digo, são tantos os autores que o referem. Apenas sou um "porta-voz" do que outros escreveram. Portanto, porque aquele tipo de sala não deve ser de experiência pontual, mas permanente, estamos face a um logro, a uma propaganda sem sentido, ou, pior, face a uma fraude conceptual.

Aliás, pergunto, onde podemos ler o estudo, devidamente fundamentado através de uma extensa revisão bibliográfica, que fundamente os passos entre o "onde estou" e o "onde quero chegar"? Se existe, a comunidade educativa desconhece, o que pode significar que o sistema anda ao sabor de algumas modas, de interesses políticos e de empresas que apenas desejam vender equipamentos. Alguém foi ouvido? Leiam, entre outras, a entrevista do Professor Pepe Ménendez que, em 2019, esteve na Madeira (Jaime Moniz) onde proferiu uma conferência subordinada ao título "Uma Escola transformada para ser transformadora". Na Catalunha, levou alguns anos a Ratio Studiorum do Século XXI (Jesuíta). Do debate, disse Pepe Ménendez, surgiram 56 000 ideias e, dessas, 17 propostas foram seleccionadas para servirem de base ao "modelo sincrético". "(...) Só depois deitaram abaixo as paredes das salas tradicionais, transformando-as em espaços de conhecimento, eliminaram a ideia de disciplinas separadas, testes, horários e trabalhos de casa. Tiveram a coragem de romper com a ideia de que o professor dá o conhecimento (...)" - Do livro da minha autoria, A Escola é uma seca - pág. 148. Para justificar as "salas de aula do futuro", questiono, assim, que estudos foram realizados?

Perante isto, sumariamente alinhavado, não seria mais avisado esquecerem essa infeliz designação de "sala de aula do futuro" (na escola, o futuro é hoje - sentido prospectivo), antes designando-a por "laboratório tecnológico"? Em simultâneo, senhores políticos, digam o que pensam sobre a Escola para os tempos que vivemos. É a escola que encontra as traves-mestras no Século XIX ou uma outra projectada para o Século XXI? Eu adoro a improvisação (leia-se criatividade), mas no Jazz. No sector da Educação a improvisação é música dissonante para os ouvidos de quem pensa. Fico com a sensação de ausência de estudo e sobretudo com a ideia de "desenrasque" no pior sentido.

Ilustração: Google Imagens.

EDUCAÇÃO : FALAM DE SALAS DO FUTURO QUANDO O FUTURO COMEÇOU HÁ MUITO! (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)
EDUCAÇÃO : Seria bom que se deixassem de tretas... (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)
EDUCAÇÃO : AFINAL, QUAL O PARADIGMA DE SISTEMA EDUCATIVO QUE O SECRETÁRIO REGIONAL PRETENDE? (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)

terça-feira, 5 de julho de 2022

A ESCOLA E A DISCIPLINA DE CIDADANIA - A POLÉMICA QUE CHEGOU À JUSTIÇA



Em Setembro de 2020 posicionei-me sobre a questão da disciplina designada por "Cidadania e Desenvolvimento Social". Isto a propósito de um encarregado de Educação de dois alunos (Famalicão) ter entendido que os filhos não deviam frequentar essa disciplina, sujeita a avaliação, não apenas por alguns conteúdos, mas também por assumir que é às famílias que compete a formação para a cidadania. Obviamente que se trata de uma posição passível de debate, porque são muitas as variáveis em causa. E o assunto, lamentavelmente, arrastou-se. Ao ponto do Senhor Ministro ter respondido que não existem "currículos 'à la carte'" e o Ministério Público, numa incompreensível porque exagerada posição, ter considerado que os pais "põem em perigo" a formação, educação e desenvolvimento dos filhos. Presumo que não sabem do que estão a falar!



Ora, o debate é absolutamente necessário. Debate que não pode nem deve ficar por esta "disciplina". O problema é mais global e estrutural. É a política educativa que está em causa. E o Senhor Ministro, antes Secretário de Estado, teve tempo mais do que suficiente para o desencadear. Não o fez e, agora, o assunto arrastar-se-á pela Justiça, com evidentes prejuízos para os alunos. Ficará em causa a passagem de ano escolar por uma decisão assumida apenas à luz da Lei? Não sei. Para já, o Tribunal de Família e Menores de Famalicão adiou a audição de testemunhas. Talvez lá para Setembro, Outubro...

Do meu ponto de vista, esta é uma disciplina que NÃO devia estar incluída no currículo. Porque a Cidadania deve ser transversal na aprendizagem e desde as primeiras idades. Todos os professores devem ser de cidadania. É a sua formação e, sobretudo, a cultura do estabelecimento de aprendizagem que está em causa. A cidadania interioriza-se a todo o momento e através de todas as situações, internas e externas ao meio escolar. Não é preciso programa e avaliação, mas sim uma nova CULTURA DE ESCOLA que intua, conduza ou desperte para os comportamentos tidos por apropriados. Um teste e uma nota não farão de um aluno melhor cidadão!

Para além disso, os governos que trabalhem a montante da Escola, reorganizem a sociedade, implementem novas políticas laborais, sociais e de família. Comecem por respeitar os direitos e deveres dos cidadãos. Dessa compaginação, a prazo, o país poderá ter sucesso.

É-me pacífico que se diga que a consciencialização dos direitos e deveres dos indivíduos e os respectivos actos deveriam partir das famílias: as preocupações ambientais, de consumo, economia doméstica, interculturalidade, segurança, direitos humanos, património, igualdade de género, tolerância, sexualidade, sentido humanista, eu sei lá, tantas são as áreas da relação do indivíduo com mundo. Só que se verifica um significativo défice na assumpção de tais preocupações. Genericamente, a sociedade não foi educada naquele sentido. Compete, portanto, à escola, colmatar as insuficiências. Porém, jamais enquanto disciplina autónoma.

A cidadania aprende-se logo no jardim de infância enquanto processo transversal na aprendizagem, onde todos, repito, todos, educadores e professores, devem estar envolvidos. Acrescentar um conjunto de preocupações autónomas, sujeitas a uma avaliação, para além de errado, apenas consomem tempo com resultados que não são proporcionais ao investimento.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

"O jogo é a fonte comum de todas as actividades superiores"


A propósito de um texto que aqui deixei, subordinado ao título "Educar para a vassalagem", o meu Colega e Amigo Joaquim José de Sousa, o da Escola do Curral, o tal que foi, claramente, perseguido e vilipendiado, apenas por desejar uma escola desenhada para o êxito das crianças e jovens (não para o mediatismo do poder político), deixou uma mensagem, simpática, que achei curiosa. Escreveu: "E o diagnóstico está feito...". Quando li tive duas reacções para comigo mesmo: primeiro, no quadro do que escrevi, considero que existem muitos importantes aspectos a juntar ao "diagnóstico". Diagnóstico que só será possível quando a mesa do diálogo for aberta a todos os intervenientes no processo educativo; segundo, mesmo que o diagnóstico estivesse feito, falta o mais importante: "fazer". Porque, tal como os chapéus, diagnósticos "há muitos"! Ou melhor, para já, o mais importante será desfazer os nós cegos que deram no sector, que conduziram à apatia dos professores, à doentia normalidade, ao desinteresse dos alunos e ao silêncio da sociedade.



Meu Caro Amigo, percebo o seu comentário, mas num outro patamar, eu diria que o diagnóstico está feito há dezenas de anos, bastando para isso ler, interpretar, cruzar e perceber o que deixaram escrito tantos autores. Por isso, deixo aqui mais uma mera reflexão, em jeito de exemplo, por ter lido, ainda ontem, um texto publicado por Rejano Regio, a 24 de Abril de 2022:

"(...) a escola na Finlândia é muito diferente até os 7 anos de idade, os alunos são livres para fazer o que quiserem, podem brincar e explorar o quanto quiserem. É nesta idade que as crianças aprendem a socializar, a gerir as suas emoções e simplesmente a viver em comunidade com os outros (...) e resultados provam-nos que é inútil impor uma disciplina de ferro aos alunos desde cedo para que se tornem brilhantes.".

A verdade é que aprendem e muito. A liberdade dessas crianças designa-se por aprendizagem, onde a pergunta tem mais importância que a resposta. E mais tarde aparecem no topo das provas comparativas entre países. Mas o que li, sublinho, não tem nada de novo, tem apenas de conhecimento, de inteligência política e de ambição em quebrar a nociva mentalidade infelizmente reinante. Há um livro de Jean Château (1908/1990 - Professor da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Bordéus - Biblioteca Filosófica), publicado em 1961, que assume (cito de cor): "se o jogo desenvolve as funções latentes, compreende-se que o ser mais bem dotado é aquele que mais joga". Aliás, Schiller, muito antes já defendera que "o Homem não é completo senão quando joga". Para ela, escreveu Jean Château, "quase toda a actividade é jogo e é pelo jogo que ela descobre e antecipa as condutas superiores" (...) "A infância é, portanto, a aprendizagem necessária para a idade madura".

Ora bem, o que assistimos não é a prevalência do jogo (entendido no sentido lato) do movimento libertador e inteligente, mas a presença do adulto que limita ou mesmo castra a afirmação do seu Eu, o das crianças. Assumiu o Psicólogo Eduardo Sá, com o qual concordo: "A escola é um novo tipo de trabalho infantil (...) retirámos as crianças do trabalho para lhes devolver infância e, agora, empanturramo-las de escola (...). A escola está a roubar a infância (...) Nunca vi falarem tanto das crianças e nunca vi que se espatifasse tanto a infância".


Desde as primeiras idades que elas têm metas a atingir. Os educadores e professores foram empurrados para a vertigem de uma pseudo-aprendizagem. E neste processo quase todos ficam felizes, menos as crianças. Os próprios familiares ficam contentes, porque elas já sabem fazer isto ou aquilo, esta ou aquela habilidade. Poucos param para pensar no processo, se não estaremos a queimar etapas importantes do crescimento. Diz Château no seu livro: "o jogo desempenha para a criança, o papel que o trabalho desempenha para o adulto (...) a infância tem, pois, por finalidade, o treino, pelo jogo, das funções tanto fisiológicas como psíquicas (...) a infância é, portanto, a aprendizagem para a idade madura". O desprezo pela criança é tal que a loucura na busca de resultados já conduz à entrega de prémios (de produtividade) entre € 100 e 500,00 aos que mais "produzem"! Dir-se-á que as taras da sociedade entraram na escola.

Caro Professor Joaquim Sousa, ao diagnóstico falta muito, muito mesmo, desde as primeiras idades até ao 12º ano. Até ao ensino superior. Há uma clara ausência de formação dos políticos. Guiam-se pelo passado, digo eu. Genericamente não sabem onde estão e onde desejam chegar. Por isso, o sistema assenta em bases erradas, ou melhor, em pressupostos que os adultos criaram, para gáudio deles próprios, na pressa de tornar adultas aquelas que são, apenas, crianças. O problema é que a maioria das pessoas, influenciadas e pouco esclarecidas, ainda acredita que, tal como disse o Professor José Pacheco, é possível, hoje, uma consistente aprendizagem e de sucesso junto de "crianças do século XXI, que são acompanhadas por professores do século XX, que utilizam as metodologias do século XIX". Só podia e só pode dar erro. Não apenas por isso, mas aqueles trágicos resultados que apresentei na minha reflexão de 18 de Junho, revelam, a montante, muitas insuficiências de pensamento. Então, pergunto, pressa para quê? Queimar etapas para quê? De que serve subir de três em três os degraus da aprendizagem? Ler, escrever, contar, perceber o mundo e as relações e conexões de tudo não devem estar sujeitas a currículos e programas ditados de forma uniforme quando cada criança é única. 

Não precisamos de ir à Finlândia para importar um paradigma diferente da aprendizagem. Portugal tem autores e investigadores de qualidade. E tem exemplos de escolas que funcionam de forma distintiva. Não as matem. Basta que os políticos estejam disponíveis para perceberem que "(...) as crianças aprendem pela brincadeira e através do relacionamento com as outras crianças, com os professores à sua volta, e é assim que fazem sentido do mundo, desenvolvendo suas habilidades e construindo conhecimento", assumiu a pedagoga Rejano Regio.

Obrigado por, através do seu comentário, ter-me dado a possibilidade de escrever este texto. Juntei mais um exemplo, o das crianças. Imagine-se o que não está por fazer até ao final da escolaridade! Um abraço.

Ilustração: Google Imagens.