Mostrar mensagens com a etiqueta Manuais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuais. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de dezembro de 2018

EM CARCAVELOS JÁ NÃO SE APRENDE PELOS MANUAIS


Não se trata de uma notícia, pois há muito que se sabe da intenção e até mesmo do plano de implementação. O estabelecimento de aprendizagem, escola básica e secundária de Carcavelos, aboliu os manuais escolares e daí que, 1600 alunos, do 5º ao 11º ano, têm no tablet um recurso tão importante como o papel e a caneta. Os manuais escolares desapareceram da lista de material obrigatório. Os professores usam tudo o que tenha suporte digital. (Fonte: Expresso)

11,5 kg de livros e cadernos (6º ano). Para quê?
Os especialistas dizem que as crianças não devem transportar
mais de 10% do peso corporal.

Desde há muito que abordo a existência de manuais escolares. Recorrentemente, tenho questionado para que servem, neste tempo que a todo o momento a tecnologia nos envolve. Os manuais apenas continuam a alimentar o lóbi das editoras ao mesmo tempo que agravam a vida das famílias. Presume-se que atinja os 170 milhões de euros o que as famílias gastam em material escolar. Em média, dependendo, obviamente, do ano de escolaridade, as famílias desembolsam entre 200 e 400,00 euros em material escolar, que incluem os manuais.
E nesta loucura entra o governo da República (boa iniciativa foi aquela designada por "Magalhães") que os disponibiliza e as autarquias que se "guerreiam" no sentido de se afirmarem junto das populações, enquanto competição, pelo título de quem mais facilita a vida das famílias.
Neste preciso momento acabo de colocar, no motor de busca Google, a palavra "rochas". Em cerca de 0,49 segundos surgiram-me 288 000 000 de resultados. A seguir limitei a consulta a "tipos de rochas". Em 0,39 segundos surgiram 1.510.000 hipóteses de consulta. Para quê o manual? Nova consulta: Geografia 8º ano. Em 0,31 segundos surgiram-me 50.200.000 possibilidades de consulta sobre os mais variados temas. Para quê o manual? À distância de um clique está lá tudo, deste os famigerados programas, aos actos pedagógicos, fichas, tudo o que quisermos. Basta orientar a escolha e que o professor seja o mediador da aprendizagem.

Como já alguém referiu o mais difícil é fazer calar os professores. Eles são portadores de uma vivência enquanto estudantes, sentados, obedientes e seguidores do manual, porque existe uma hierarquia política que não lhes confere margem para uma profunda inovação pedagógica, estão subordinados a um programa que tem de ser transmitido e metido à força porque existe a cultura dos exames, porque estão presos ao sistema de avaliação de desempenho, portanto, torna-se mais fácil seguir a norma, o livrinho, página a página, sobretudo o que fica definido na reunião dos delegados de disciplina. Pesquisar, investigar, desenvolver pensamento, elaborar sínteses e saber explicar são aspectos que o sistema experimenta dificuldades em aceitar. 

Ora bem, hoje, escola onde o professor fala, consecutivamente, que torna os alunos passivos, que vive obcecadamente a avaliação, é uma escola sem futuro. Carcavelos há muito percebeu isso e a Associação de Pais da escola pôs-se a caminho negociando e conseguindo tablet's a um preço vantajoso de, aproximadamente, € 200,00, muito abaixo do que gastariam com os manuais. Com a vantagem de servirem para vários anos. E o governo ajuda.
Mas o exemplo daquela escola, do meu ponto de vista, constitui apenas um primeiro passo. No plano pedagógico há muito caminho a percorrer. Por exemplo, a não existência de disciplinas sectoriais. Uma ou outra, pela sua natureza, convenhamos, pode ser individualizada, porém, a esmagadora maioria deve estar presente, de forma transversal, através do estudo por "fenómenos complexos". Um exemplo: ao estudar o vinho, pode-se estudar a Geografia em várias áreas, a História, a Agricultura, a Química, o Português, a indústria vidreira, a indústria da cortiça, a Economia em múltiplas dimensões, eu sei lá o que uma só palavra "vinho" pode espoletar? (pesquisa na net  - cerca de 143 000 000 resultados em 0,56 segundos, sobre a palavra vinho.
Tenhamos presente que a vida pede-nos conhecimento integrado e não individualizado. Da mesma forma que nos pede trabalho em equipa e não trabalho individual. Há, portanto, um longo caminho a desbravar no sentido de uma aprendizagem que não se limite a decorar para esquecer. Ignorar os meios tecnológicos, quando devidamente orientados, é, assim, de uma ignorância sem limites. Dá mais trabalho aos professores, obviamente que sim, mas os resultados são melhores. Há que deixar os jovens "meterem a mão na massa" do que serem agentes passivos daquilo que dizem ser aprendizagem.
O problema é que por aqui, há dias, li uma declaração do senhor presidente do governo, enaltecendo a intenção de, no próximo ano, uma determinada escola sensibilizar para a "robotização". Isto é o que se designa por "andar com o carro à frente dos bois". Mas explica também, na esteira de Alice, que quando não se sabe para onde se caminha, qualquer um serve! E porquê? Porque há patamares que não podem nem devem ser ultrapassados. A preocupação do governo não deve ser a "robotização", mas a "transformação graduada", enquanto um dos princípios do desenvolvimento, aquele que estrutura os instrumentos que conduzem ao aprender a desaprender. Necessário se torna, primeiro, quebrar as amarras de uma pseudo-aprendizagem, que leva alguns anos, para depois partir, com absoluta naturalidade para novos patamares do conhecimento. Enquanto isso não acontecer, a "robotização" constitui areia para os olhos. Como está a ser o Brava Valley!
Ilustração: Arquivo próprio.

NOTA
Artigo da minha autoria publicado no blogue: www.gnose.eu

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

SERÁ MESMO NECESSÁRIO? NA APRENDIZAGEM SÉRIA E COM FUTURO, NÃO!



Lê-se na Constituição da República Portuguesa em vigor:
Artigo 74.º
Ensino
1. Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar.
2. Na realização da política de ensino incumbe ao Estado:
a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;


Calcula-se que atinja os 170 milhões de euros o que as famílias gastam em material escolar. Em média, dependendo, obviamente, do ano de escolaridade, as famílias desembolsam entre 200 e 400,00 euros em material escolar. Para quem tem salário mínimo e apenas um filho, dir-se-á que o salário já era!

Visitei vários sítios de escolas na Internet:
Para além dos manuais, caderno de "fichas" e da mochila a listagem é extensa: capa de elásticos A4 - bloco de desenho A4 (papel cavalinho) - caderno pautado A5 - lápis de minas (0,5) - minas (0,5) - borracha - compasso - régua de 30 cm - esquadro de 45º - capa tipo portfolio - cola líquida UHU - pano de limpeza - etiquetas para identificar o material do aluno - 5 folhas de papel vegetal A4 - 5 folhas de papel quadriculado - 4 folhas de papel Eva (cores surtidas) - 1 folha de cartolina A2 - pincéis n.º 2, 4, 8 - tesoura - suporte de lâmpada 220V (casquilho fino E14) - interruptor (tipo candeeiro) - ficha eléctrica - fio eléctrico com dois condutores (1,5 metros) Nota: Os alunos do 8º ano deverão substituir o material gasto e/ou estragado no ano letivo anterior. Obs. Algum material extra poderá ser solicitado ao longo do ano lectivo, de acordo com os projectos a desenvolver. Isto, para além de sapatilhas, sabrinas (ginástica), T-Shirt com manga (curta ou comprida), calção ou fato de treino e uma flauta de Bisel Honner (dedilhação alemã). A juntar a isto, o passe, entre muitas outras despesas. Um encarregado de educação remeteu-me uma mensagem salientando que lhe tinham solicitado algum material da marca de luxo Caran d'Ache (!).
Coloco algumas perguntas: e a Constituição da República? Os pais e encarregados de educação conhecê-la-ão? E as escolas, os órgãos de gestão e administração e os professores já pensaram nisto? E o que tem a dizer o governo da Região? Só mais uma pergunta: será necessário tudo aquilo para APRENDER, ou existem outros formatos pedagógicos que dispensam uma grande parte dos encargos?

"o sistema de educação gratuito não sai tão caro assim, é uma questão de organização", afirma Jaana Palojärvi.

Há poucos dias, recebi um comentário na minha página de facebook, assinada por Geraldo Freitas, a propósito de um texto que escrevi sobre o sistema educativo: 
"(...) permita-me que partilhe um pouco da minha experiência pessoal. Vivo na Escócia e tenho um filho no 6• ano nunca comprei nem um lápis para a escola, tudo é dado pelo governo para todos, compro apenas a farda no princípio do ano o que para mim também é bom para que os alunos se sintam “iguais” e não surja o bulling entre ricos e pobres. Podem dizer que aqui descontamos mais mas a nível percentual não é assim tão diferente do que descontam em Portugal a diferença é que aqui não temos Marinas, Bancos, Sociedades de Desenvolvimento, Assicom etc. para tapar buracos. Um abraço."
Uma nota complementar: na Finlândia (existem outros países) "o ensino e todo o material escolar básico são gratuitos para as crianças, incluindo uma merenda quente todos os dias, um plano de saúde escolar e transporte gratuito para as crianças que não podem ir a pé ou usar o transporte público." (...) só 2% das escolas são particulares (...) As crianças só entram na escola a partir dos 7 anos (...) a educação básica dura nove anos (...) só 2% dos estudantes repetem o ano, o índice de conclusão é de 99,7% (...) o sistema de educação gratuito não sai tão caro assim, é uma questão de organização", afirma Jaana Palojärvi.
Pergunta final: e se o governo aprendesse um pouco, por pouco que fosse, com os outros?
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 25 de julho de 2017

CUMPRIR A CONSTITUIÇÃO


"A despesa dos manuais, assumida pelo Estado, é uma forma de a escola pública ser aquilo que a Constituição determina que é: gratuita. E mais, desde 2012, que se impôs a reutilização para as crianças que beneficiam da acção social escolar, que são cerca de 400.000, ou seja, um terço. Se a reutilização é possível para estas crianças, então tem de ser possível para todas. Deixará de ser um anátema trabalhar num livro reutilizado. A certa altura, o que terá o novo é que será estranho. Para mim, esta é a diferença entre Estado social e assistencialista. O Estado social garante para todos, não é para os ricos ou para os pobres. O Estado assistencialista é o que providencia àqueles que precisam."

"Num restaurante ninguém garante quantos almoços serão servidos por mês. O Estado não tem obrigação de assegurar um determinado nível de vendas de livros escolares a um agente económico. Há um grau de incerteza, próprio do mercado livre".

Declarações de Alexandra Leitão, Secretária de Estado Adjunta e da Educação.