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sábado, 5 de abril de 2025

"Ranking's" das escolas: um concurso de beleza da pedagogia


Uma vez mais, aí estão os "ranking's" das escolas. Diabolizo-os. Mas há, infelizmente, professores, direcções de escola (quando convém) e governantes que espumam com alguns resultados. 



Ora bem, "lendo estudos e reflectindo sobre todas as variáveis, entendo que constitui uma infantilidade conceptual defendê-los. A escola deve ser avaliada por aquilo que faz, pela estrutura organizacional que implementa, pela cultura pedagógica que persegue, pelas preocupações inclusivas e pelo esforço no sentido de que ninguém fica para trás, pela sua luta que atenua as diferenças económicas, sociais e culturais e pelo trajecto dos seus alunos após a passagem por um determinado estabelecimento. Diabolizo-os, não apenas pelo facto em si, mas porque é um erro grave conjugar no mesmo patamar os sectores de intervenção público e privado. Não faz qualquer sentido, nem justificação existe, seja qual for o ângulo de análise, tolerar sequer a existência de ranking's de exames e de escolas! Há outras formas de acompanhamento e de avaliação dos processos de aprendizagem. Ademais, tolerar os "ranking's" significa tolerar o actual sistema educativo que mantém e acelera a desigualdade. - Do livro "A Escola é uma seca", pág. 175.

Numa aproximação a Pablo Gentili, Doutor em Educação pela Universidade de Buenos Aires, que se referiu aos famigerados testes PISA, eu diria que os "ranking's" (…) son el concurso de belleza de la pedagogia". Portanto, esqueçam-nos, porque se trata de um mecanismo artificial que "nadie lo cuestiona, y luego compara". Ignoram que existem diversas realidades históricas, económicas, sociais e culturais, que não permitem, com rigor, comparar o que é incomparável.


Do citado livro, da minha autoria, deixo aqui uma passagem de um texto do Padre José Martins Júnior, página 179: "(...) Nunca foi cronologicamente tão inoportuna, objectivamente tão desadequada e qualitativamente tão deprimente uma fasquia como esta que, todos os anos, empresas parceiras dos mesmos interesses expõem no estendal das folhas diárias para gáudio de uns (os privilegiados) e escárnio de outros (a maioria). (...) É a Educação vendida a metro. É a função do lucro marginal em pleno campo da economia do mercado escolar. Nem me demoro na dissecação crítica que docentes e sociólogos já fizeram e que se sintetiza na veleidade (direi mesmo, desonestidade) de comparar o incomparável, como seja a dicotomia privado-público, com a mais que escandalosa geometria variada que lhe está subjacente. Apenas limito-me a transcrever a análise de um director de escola, relativamente bem posicionada: "Nesta escola, primeiro debruçamo-nos sobre os condicionamentos económicos do aluno, depois pesamos os factores sociais que o determinam e, só depois disso, enfrentamos o seu processamento académico". Melhor ninguém diria! Focalizada sob a tríplice objectiva deste campo laboratorial, a Educação nunca será suficientemente revelada, nem sequer valorativamente apreciada, se tais parâmetros forem obliterados ou, pior, deliberadamente escamoteados. (...)"

Do mesmo livro, página 177: "Daqui concluo, "ranking's" não, obrigado; autonomia, sim, para as escolas, rapidamente, sem abusivas interferências. Porém, todos os anos regressa a história do "ranking's" das escolas. Com os estabelecimentos privados à frente. E todos os anos há quem valorize o que não deve ser valorizado. Ninguém se lembra de dizer que há estudos que provam que os alunos oriundos do sector privado, nos primeiros três anos de curso superior universitário, chumbam mais que os alunos vindos do sector público. Interessante, não é? Um facto nunca assumido. Uma coisa é o domínio da acessibilidade a um curso superior; outra, o desempenho dos alunos depois de lá entrarem. No privado, porque estão em causa pesadas mensalidades, qualquer instituição tende a forçar a aprendizagem no que “interessa” em detrimento de uma formação mais globalizante. Isto para além do recurso aos explicadores. No sector público, apesar de tudo, são sensíveis outras preocupações. E a verdade é que, ao longo do superior, os alunos do sector público conseguem uma melhor adaptabilidade e sucesso, consequência de algumas capacidades trabalhadas. (...)"

(...) "E em tudo isto existe uma grave hipocrisia do ministério. Ao mesmo tempo que assume que os "ranking's são “redutores", a verdade é que são publicados. Quem os disponibiliza? Para o ministério, se eles são “redutores”, os níveis ou notas de exame, deviam assumir uma característica reservada (não publicável) visando um sério estudo (global) sobre o sistema. Nunca para colocar escolas e professores sob suspeita. Os bons e os maus. É disso que se trata. E se assim não é, pergunta-se, de que valeu a publicação de todos os "ranking's" anteriores? O sistema melhorou? Não. Aliás, o ministério ao possibilitar a publicação dos resultados sob a forma de “ranking's”, desprestigia-se e dá um sinal (errado) à população que, mesmo neste contexto, o privado é melhor que o público. Não é. (...)"

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Uma vez mais... os famigerados "ranking's" (2022)

 

Assumiu o secretário regional da Educação da Madeira: "(...) nós não valorizamos muito os ranking's". Pois, assumo, também eu, com uma diferença, é que o político ainda valoriza alguma coisa (não muito) enquanto eu não valorizo rigorosamente nada. Diabolizo-os porque comparam realidades económicas, sociais e culturais completamente distintas. Por outro lado, diz o ministro: eles são "uma operação comercial (...) porque ignoram o contexto sócio-económico". Aí está, é verdade. Porém, comercial ou não, os exames e os dados saem do ministério, o que me parece uma crónica hipocrisia. Por mim, tal como li, sobre os ranking's do programa PISA, numa análise de Pablo Gentili, uns e outros são "um concurso de beleza da pedagogia". E em "concursos de beleza", na escola, não estou interessado.



Mas a pergunta que agora faço presumo que tenha o seu cabimento político: teria o secretário da Educação o mesmo posicionamento, se os lugares que os estabelecimentos de aprendizagem da Madeira apresentaram se situassem no topo nacional da aprendizagem básica? Talvez não! Não valoriza porque não lhe interessa, não por razões de pensamento estrutural. Que não o tem, é a minha modesta opinião. Até conseguiu aniquilar uma escola que, mantendo-se na fronteira das suas débeis regras, atingiu o pódio nacional. Refiro-me à escola do Curral das Freiras e transcrevo o que a edição do Jornal Público de então enalteceu: 

"(...) na freguesia mais pobre da Madeira e uma das mais carenciadas do país (Curral das Freiras), onde 92% dos alunos têm Acção Social Escolar e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias, existe algo supreendente. Numa vila enterrada num vale profundo, onde a única ligação com o resto do mundo faz-se por um túnel com quase 2,5 quilómetros, existe uma escola onde cabem todos os sonhos (saltou do lugar 1207º para 3ª no ranking nacional da época)".

Talvez, porque lhe falta(ou) pensamento e humildade para escutá-la e aceitá-la, bloqueou a sua autonomia pedagógica e anexou-a a uma outra, prejudicando as dinâmicas pedagógicas criadas. Não satisfeito, puniu o líder da escola através de um processo kafkiano. Processo que perdeu em Tribunal Superior. Em 2022, a escola (S. António) onde a do Curral das Freiras foi integrada quedou-se pelo 440º lugar. Conclusão primeira: não liga muito aos "ranking's" porque, primeiro, ninguém se atreva a ser inovador e criativo!

Ora bem, por aquilo que conheço da propaganda política, se outros tivessem sido os resultados, certamente que o Senhor Secretário cantaria a plenos pulmões os êxitos espelhados nos "ranking's". Porém, uma vez mais isso não aconteceu. Disse, laconicamente, não ligar "muito", mas, deduzo, que lá com os seus botões, ligue alguma coisa, talvez se enerve, porque, de facto, no sector público do Básico (9º ano), ter as escolas situadas entre o 213º e 1012º do todo nacional, com um dado relevante: todos com uma média inferior a 3 (numa escala de 0 a 5). É caso para dizer que para o político é melhor assobiar para o lado. Daqui a dias já ninguém fala disso, não é! Não liga muito, compreendo, mas como indicador global, talvez a situação o devesse conduzir a uma séria análise da situação. Mas não o fará. Quanto muito questionará as escolas sobre o insucesso da sua própria política centralizadora. Se fará, não sei, porque este quadro talvez interesse, porque um povo que não desfrute de uma aprendizagem de qualidade, vulnerável fica à cantilena que lhe vendem no plano político. Será?

Há muito a fazer por uma escola de sucesso. Começa, a montante, por uma imprescindível actuação nos desequilíbrios sociais existentes, nas famílias e no combate à pobreza, na economia, na empregabilidade com salários decentes, na cultura e mentalidade que conduza, desde cedo, a saber desenhar o futuro, no pleno respeito pelos talentos e sonhos de cada um, nos currículos e programas disparatados porque desconexos com a vida real, pela aceitação que o professor, hoje, não pode ser um submisso face a absurdas lógicas hierárquicas ou um "magister dixit" desde logo porque "(...) o mais alto ensinamento do mestre não está no que diz, mas no que não diz" - Carl Rogers), pela aceitação que não existem duas escolas iguais, nem grupos de professores iguais, o que impõe uma total autonomia pedagógica, por uma nova estrutura da rede escolar, porque escolas com mais de 400 alunos deixam de ser escolas para se tornarem fábricas, enfim, o que está em causa não é se ficou no lugar x ou y do "ranking", é verdade, mas sobretudo o que lá se faz que seja portador de vida e para a vida. Pelo caminho seguido corre-se o risco de, todos os anos, o "chefe" da Educação assumir que não liga "muito" ao que se passa debaixo dos seus olhos de actor/espectador.

A muita propaganda mediática sobre os manuais digitais, salas do futuro, robotização, páginas e páginas de "ponto e vírgula", exposições, atribuição de prémios no quadro de uma meritocracia balofa, tudo isto conduz ao desastre, porque não há uma interligação entre todas as áreas que compõem o sector(es) e porque não são conhecidos os objectivos finais de uma dada política. Impõe-se, por isso, uma reflexão que conduza à mudança estrutural do pensamento que caracteriza o sistema.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Ranking das escolas: onde irá parar a escola pública?


A partir de dados disponibilizados pela Direção Geral da Educação, uma equipa de quatro alunos da pós-graduação em Entreprise Data Science and Analytics, da NOVA IMS, na qual me incluo, desenvolveu uma ferramenta que permite trabalhar os dados referentes aos rankings das escolas, num conjunto assinalável de variáveis.


Disponibilizamos hoje, aqui, a análise comparativa entre o ensino público e o ensino privado. A tendência do número de escolas públicas no Top 50 do ranking de escolas tem de fazer pensar. A projeção aponta que em 2022 não haja qualquer escola pública neste Top 50.



Gráfico realizado com base nas escolas com mais do que 60 exames/ano


Após 20 anos de rankings, a discussão continua escusadamente centrada em três grandes temas: as diferenças de performance entre a escola pública e privada, o aumento das desigualdades entre as duas e, a utilidade ou inutilidade da publicação dos rankings das escolas.

A discussão devia estar centrada na qualidade de ensino, nos professores e principalmente nos alunos que são o fim último do sistema de ensino. Tudo o resto é, ou devia ser, acessório, porque desvia o foco do essencial. O fato de um aluno ter estudado numa escola pública ou numa escola privada deveria ser irrelevante. Por exemplo, quando perguntamos a alguém onde estuda ou ensina, não costumamos obter como resposta o tipo de escola, mas sim, que estudou ou ensinou na escola x ou no colégio y, que por acaso são ou uma escola pública ou privada. O tipo de escola é, ou deveria ser, apenas um meio para chegar a um fim, que é garantir o melhor ensino possível aos nossos alunos. O tipo de escola também não tem utilidade para a entrada na faculdade. Não existem, e ainda bem, lugares reservados para alunos provenientes de escolas públicas nem privadas. O ditado popular que diz que os fins não justificam os meios, devia ser complementado, neste caso, com, os meios não se devem sobrepor aos fins. Mais importante do que saber se uma escola é pública ou privada seria conhecer a pedagogia, o método de ensino, os valores que a escola pretende transmitir, o propósito formativo, o quadro de professores, etc.

Ter como objetivo a diminuição das desigualdades, também não parece ser o melhor caminho para melhorar o ensino em Portugal, pois, esta diminuição deve ser uma consequência da melhoria total do sistema de ensino e não o seu objetivo. Deve-se sim, procurar ativamente a igualdade de oportunidades para todos. As abordagens podem parecer semelhantes mas são opostas: a diminuição das desigualdades costuma conduzir ao nivelamento pelo mínimo enquanto o fomentar da igualdade de oportunidades costuma potenciar o máximo de cada um.

A discussão sobre a bondade dos rankings das escolas também é redutora. Na realidade, o que analisamos são resultados de exames, que são usados para ordenar escolas, levando muitos a considerar que o lugar de cada escola no ranking reflete todo o seu valor, e o valor dos seus professores e alunos. Portanto, o modo de utilizar os dados é que pode ser valorizado como bom ou como mau. Os rankings dizem-nos algumas coisas, não nos dizem tudo. São muito incompletos, podem em muitos casos ser injustos, por não refletirem toda a realidade, mas dão-nos informações importantes. Podemos e devemos aprender com eles, aprender a usá-los e melhorá-los de ano para ano. Com eles podemos corrigir erros, antecipar tendências, melhorar estratégias, etc.

Como podemos dar um passo em frente e sair deste círculo vicioso.

Uma primeira grande diferença entre o ensino público e privado está na autonomia. O ensino privado escolhe alunos, método de ensino e principalmente, professores. Graças a isso, pode ter um corpo docente mais estável, que em muito deve contribuir para a sua melhor classificação nos rankings. Outra grande diferença é o facto de a escola privada ter de prestar permanentemente contas aos seus alunos e pais. Tem de os conquistar. Se não prestar um bom ensino, tem uma grande probabilidade de perder alunos ano a ano, começando pelos mais exigentes. Os professores das escolas privadas, têm mais incentivos para melhorar a sua formação e melhorar os seus métodos de ensino, de modo a corresponder ao que a escola e os alunos esperam de si, pois não progridem na carreira exclusivamente por antiguidade. As escolas privadas também têm de garantir uma gestão muito cuidada pois, se derem prejuízo, poderão ser obrigadas a fechar. É interessante notar como, no caso da universidade, a necessidade de atrair alunos e a relativa exigência na contratação e progressão dos professores leva as universidades públicas a terem, em geral, melhores resultados que as privadas.

Face ao exposto, uma solução, fácil de entender embora laboriosa de implementar, seria dotar cada uma das escolas com aquilo que lhes falta: às escolas públicas, dar-lhes a autonomia que lhes falta e às escolas privadas dar-lhes a possibilidade, que lhes falta, de serem escolhidas pelos diversos alunos independentemente das suas capacidades financeiras.

Samuel Faria
Fonte: Expresso

domingo, 23 de maio de 2021

Homenagem aos "Vencidos Vencedores"



Nunca foi cronologicamente tão inoportuna, objectivamente tão desadequada e qualitativamente tão deprimente uma fasquia como esta que, todos os anos, empresas parceiras dos mesmo interesses expõem no estendal das folhas diárias para gáudio de uns (os privilegiados) e escárnio de outros (a maioria).




Os advérbios modais que acabo de enunciar estão bem à vista: perante um ano escolar atípico, como 2019/2020, marcado pelo depauperamento insuperável da arte de ensinar e aprender, em virtude das condições anómalas impostas pela pandemia, qualquer campeonato académico seria, no mínimo, inoportuno. Consequentemente, o objecto da causa – resultados finais – sairiam desadequados, para não dizer, falseados. Em termos de produção efectiva e justeza de apreciação (falo da profundidade de análise e não das ‘caravelas portuguesas’ à tona de água) a tabela classificativa não poderia ter saído tão deformada e tão fútil.

É a Educação vendida a metro. É a função do lucro marginal em pleno campo da economia do mercado escolar. Nem me demoro na dissecação crítica que docentes e sociólogos já fizeram e que se sintetiza na veleidade (direi mesmo, desonestidade) de comparar o incomparável, como seja a dicotomia privado-público, com a mais que escandalosa geometria variada que lhe está subjacente. Apenas limito-me a transcrever a análise de um director de escola, relativamente bem posicionada: “Nesta escola, primeiro debruçamo-nos sobre os condicionamentos económicos do aluno, depois pesamos os factores sociais que o determinam e, só depois disso, enfrentamos o seu processamento académico”. Melhor ninguém diria! Focalizada sob a tríplice objectiva deste campo laboratorial, a Educação nunca será suficientemente revelada, nem sequer valorativamente apreciada, se tais parâmetros forem obliterados ou, pior, deliberadamente escamoteados.


Dois items, porém, pretendo destacar: Enquanto em determinadas escolas de elite se arregimentam os futuros presidenciáveis, os ministeriáveis, os neo-banqueiros, noutras verga-se a cerviz dos cidadãos de amanhã para servirem de escabelo e tapete aos privilegiados. Por outro lado, não entendo por que legítimas razões tem o governo obrigação de subsidiar os colégios particulares, onde nada falta, em prejuízo de tantas escolas públicas onde tudo ou quase tudo escasseia.

Passo ainda mais importante a considerar nestas fasquias oficiais é saber distinguir o que pretende a Escola: fabricar robôs ou formar homens e mulheres para a futura freguesia, para a futura cidade, para o futuro país?!

E aqui reside o núcleo essencial da avaliação dos programas educativos, nos quais avulta a prestigiante figura do Docente. Por isso, expresso a minha mais elevada consideração por milhares de professores que cumprem conscientemente os princípios constitutivos do seu mandato: EDUCAR!

Do étimo e-ducere, isto é, conduzir/construir, partindo de uma margem estreita para o largo rio da vida – louvo o esforço dos construtores do amanhã que, em inúmeros casos, erguem do chão ingrato da sociedade crianças e jovens para fazer deles gente válida, Povo gigante, seja qual o seu lugar nos quadrantes sociais. E destes não vão falar os empolados ranking’s.

Serão os vencidos nas tabelas classificativas feitas, como as sondagens, ao gosto dos patronos. Mas, na verdadeira Contabilidade Nacional ou Regional, serão os lídimos Vencedores deste campeonato !!!

21.Mai21
Martins Júnior

sábado, 22 de maio de 2021

A hipocrisia do Ministério da Educação

 



Todos os anos regressa a história do ranking das escolas. E todos os anos há quem valorize o que não deve ser valorizado. Repito, aqui, parte do que escrevei, já tem uns anos:

"(...) Curiosamente, ninguém se lembra de dizer que há estudos que provam que os alunos oriundos do sector privado, nos primeiros três anos de curso superior universitário, chumbam mais que os alunos vindos do sector público. Interessante, não ? (...) Apenas a realidade que nunca é assumida. Uma coisa é o domínio da acessibilidade a um curso superior; outra, o desempenho dos alunos depois de lá entrarem. No privado, porque estão em causa pesadas mensalidades, qualquer instituição tende a forçar a aprendizagem no que interessa em detrimento de uma formação mais globalizante. Isto para além do recurso aos explicadores; no sector público são sensíveis outras preocupações. E a verdade é que, ao longo do superior, os alunos do sector público conseguem uma melhor adaptabilidade e sucesso, consequência de algumas capacidades que terão sido trabalhadas. Lamento é que muitos fiquem à porta do ensino superior por falta de recursos.

Mas, em tudo isto existe uma grave hipocrisia do Ministério. Ao mesmo tempo que assume que os "ranking's são redutores", a verdade é que são publicados. Quem os disponibiliza? Para o ministério, digo eu, os níveis ou notas de exame, deveriam assumir uma característica reservada (não publicável) visando um sério estudo (global) sobre o sistema. Nunca para colocar escolas e professores sob suspeita. Os bons e os maus. É disso que se trata. E se assim não é, pergunto, de que valeu a publicação de todos os "ranking's" anteriores? O sistema melhorou? Não. Aliás, o ministério ao possibilitar a publicação dos resultados sob a forma de ranking's, desprestigia-se a si próprio e dá um sinal (errado) à população de que o privado é melhor que o público. Não é. 

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Ranking''s... com a sua publicação, o Ministério da Educação desprestigia-se


O Ministério da Educação continua a favorecer uma comparação com aquilo que não deve ser comparado. A aprendizagem não se alicerça em um campeonato entre estabelecimentos de aprendizagem, isto é, os da primeira liga (!)(escolas privadas) e os do campeonato de Portugal (escolas públicas); entre os que dispõem de significativos recursos financeiros e os outros. A aprendizagem não visa, pontual e circunstancialmente, obter uma dada classificação colectiva e, no ano seguinte, encontrar-se de meia tabela para baixo. E tem acontecido, porque depende de muitos factores. Tenhamos presente o facto de, neste último ranking, uma escola que recebeu alunos antes matriculados no sector privado, ter saltado para um lugar mais próximo do topo. Ora, meter no mesmo rol instituições públicas e privadas constitui um erro grosseiro e desonesto. Não é de bom senso e é despido de rigor, directa ou indirectamente, comparar instituições de natureza privada, cujos alunos, normalmente,  têm origem em famílias com outro tipo de formação e bem-estar, com as públicas que abrigam muitos milhares que transportam as históricas consequências das graves assimetrias económicas, sociais e culturais.



Um exemplo: conheço relativamente bem o Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, um estabelecimento normalmente no topo dos ranking's nacionais. É impossível compará-lo com a escola pública mais próxima daquele colégio privado. Basta assistir aos finais de turno da manhã ou da tarde e olhar para as viaturas dos pais, avós e dos motoristas que ali param para transportar os alunos. Basta ter em atenção os encargos mensais! É óbvio que a opção dos pais é absolutamente legítima, e se trago este aspecto à colação é apenas para dizer quanto errado está comparar o que é incomparável. Não está sequer na qualidade distintiva dos professores, está sobretudo na estratificação social. 

Mas, curiosamente, ninguém se lembra de dizer que há estudos que provam que os alunos oriundos do sector privado, nos primeiros três anos de curso superior universitário, chumbam mais que os alunos vindos do sector público. Interessante, não é? 
Apenas a realidade que nunca é assumida.


Uma coisa é o domínio da acessibilidade a um curso superior; outra, o desempenho dos alunos depois de lá entrarem. No privado, porque estão em causa pesadas mensalidades, qualquer instituição tende a forçar a aprendizagem no que interessa em detrimento de uma formação mais globalizante. Isto para além do recurso aos explicadores; no sector público são sensíveis outras preocupações. E a verdade é que, ao longo do superior, os alunos do sector público conseguem uma melhor adaptabilidade e sucesso, consequência de algumas capacidades que terão sido trabalhadas. Lamento é que muitos fiquem à porta do ensino superior por falta de recursos.

Para o ministério, os níveis ou notas de exame, deveriam assumir uma característica reservada (não publicável) visando um sério estudo (global) sobre o sistema. Nunca para colocar escolas e professores sob suspeita. Os bons e os maus. É disso que se trata. E se assim não é, pergunto, de que valeu a publicação de todos os "ranking's" anteriores? O sistema melhorou? Não. 
Aliás, o ministério ao possibilitar a publicação dos resultados sob a forma de ranking's, desprestigia-se a si próprio e dá um sinal (errado) 
à população de que o privado é melhor que o público.

O que está em causa e nisso o ministério e a secretaria regional da educação deveriam ter um outro olhar, é sobre a escola que os jovens têm e a escola que deveriam ter. Ao contrário de se preocuparem com o perfil do aluno à saída da escola, deveriam preocupar-se com o perfil dos alunos à entrada da escola. Deveriam repensar toda a parte curricular  e programática. Deveriam, sobretudo, abanar todo o sistema organizacional, a verdadeira autonomia dos estabelecimentos, a estúpida burocracia e, sobretudo, repensar o paradigma PEDAGÓGICO. Os jovens desinteressam-se porque a escola é desinteressante!

NOTA
Texto inicialmente publicado no blogue:
www.gnose.eu

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

RANKINGS DAS ESCOLAS - UMA ABERRAÇÃO SOCIAL E PEDAGÓGICA


FRANCISCO SIMÕES
Escultor
JM - 31/03/2019

É absolutamente incrível como não existe ninguém no Ministério da Educação que diga ao Ministro que os Rankings são um erro pedagógico.

É absolutamente inconcebível que não exista ninguém no Governo que diga ao Primeiro Ministro que os Rankings das Escolas são um terrível erro social.
Francisco SimõesÉ absolutamente inacreditável que não exista na Assembleia da República um só deputado que diga ao Governo que os Rankings das Escolas são um erro político.
Todos parecem aplaudir esta competição reles e vil, todos parecem regozijar-se com as escolas que ficam nos lugares do pódio.
Poucos ou quase ninguém se preocupam com as escolas que ficam mal classificadas, ou mesmo, nos últimos lugares do Ranking.
Porque se criaram os Rankings? Para se diminuir e humilhar as escolas públicas e publicitar e promover o ensino particular contra o qual, devo dizer, não tenho nenhuma adversidade.
A realidade demonstra-nos várias realidades:
Primeira realidade – Quem vai para o ensino particular são os filhos de pessoas com bom nível de vida e, eventualmente, bons conhecimentos literários.
Os estabelecimentos de ensino particular, podem seleccionar, rejeitar, um aluno, se este for menos dotado, logo aqui, começa uma selecção elitista profundamente injusta;
Segunda realidade – As escolas públicas ou privadas dos grande centros urbanos têm uma frequência de alunos provenientes de classes sociais, no mínimo, instruídas e com acesso a bibliotecas, museus e outros locais de culto intelectual e/ou artístico;
Terceira realidade – As escolas públicas ou privadas existentes em zonas periféricas ou em regiões rurais, de forte isolamento, terão, eventualmente, alunos de classes sociais menos instruídas economicamente, mais carentes e onde quase sempre se verifica uma grande ausência de estruturas de cultura e de comunicação.
Então, achamos que estas realidades são comparáveis?
O nosso País é, na Europa, o que apresenta maiores desigualdades sociais e, pelo facto, não podemos deixar de responsabilizar os sucessivos governos e os sucessivos ministros da educação, que não se apercebem destas disparidades e destas desgraças sociais. Exige-se pois ao Ministro da Educação algum pudor pelo que provoca de humilhação às escolas, aos professores e aos alunos. Um governo e um ministro da educação que humilha milhares de famílias para poder demonstrar que “os dele” são os melhores, são os primeiros, são os sabichões.
Pudor, senhor Ministro da Educação, tenha pudor, vá para casa pensar, porque será que alguém que nunca deu aulas na vida e nunca teve na sua frente alunos para poder compreender as realidades socioculturais do país, porque será que é ministro?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

As escolas boas e as escolas más


Há escolas boas e escolas más? Lá haver, há! Como há bons e maus governos, ministérios, hospitais, tribunais, oficinas, e sei lá mais o quê… Porém a questão não é essa. O problema está no critério da medida. Ou seja, no rigor dos indicadores objetivos que me levam a classificar os comportamentos, as atitudes e os desempenhos. Sem um critério universalmente válido e, por isso mesmo aceite, o resultado da medida não passa de uma apreciação subjectiva e, como tal, sujeita à divergência.


Vem isto a propósito de mais uma publicação de um suposto ranking das escolas portuguesas que, apressada e incorretamente, uma boa parte da comunicação social tem vindo a designar por “lista das melhores e das piores escolas”.
Concretamente o que se mediu nestas escolas? Respondemos: mediram-se resultados de aproveitamento escolar (académico) e, nunca, resultados de aproveitamento educativo. E mediram-se todos os resultados escolares? Não! Mediram-se os resultados nas provas que os alunos do ensino secundário efectuaram nos exames nacionais.
O que quer isto dizer? Vejamos um exemplo. A escola A tem alunos de classe média alta. São jovens com todas as condições de estudo, com excelente apoio e ambiente familiar. Os professores sentem que esses alunos aprendem a bom ritmo, e que com muita facilidade correspondem aos objetivos que lhes são solicitados. É uma das escolas que, habitualmente, obtém um bom posto no ranking nacional.
A escola B está situada num bairro muito problemático. As famílias são disfuncionais, há desemprego, muita miséria e o recurso a negócios menos claros. Os alunos não têm qualquer acompanhamento familiar, são nulas as condições de trabalho em casa, alguns têm mesmo carência de alimentos e de vestuário. Mesmo assim, os professores empenharam-se na motivação desses alunos para a frequência da escola, através de múltiplas atividades educativas de caráter interdisciplinar e, muitas delas, desenvolvidas extracurricularmente. Essa escola obteve um resultado educativo notável. Reduziu, significativamente, o abandono escolar, o absentismo às aulas, o insucesso académico e realizaram-se mesmo programas de apoio comunitário. Quanto aos resultados escolares nos exames nacionais… Bem, houve grandes progressos, mas não os suficientes para impedirem que a escola B ficasse no fim da lista do ranking nacional.
A escola A é boa e a escola B é má?
A diferença é que a escola A desenvolveu um esforço no sentido das aprendizagens do currículo formal e, aí, obteve resultados académicos muito satisfatórios. Já quanto à escola B, esta centrou as suas energias no alcance de objetivos educativos por parte dos seus alunos, apostou na transmissão de valores e na educação para a cidadania e, aí, obteve resultados considerados excelentes. Em que ficamos?
Quando olhamos para o ranking das escolas e, sobretudo, quando comparamos os resultados académicos dos alunos das escolas públicas, com os resultados académicos dos alunos das escolas privadas, temos que ter em atenção quais foram os indicadores de medida. Um indicador de medida vale o que vale. O metro padrão não pode medir um litro de leite, assim como se pode morrer afogado num rio que, em média, tenha apenas quarenta centímetros de profundidade…
Perverte-se a avaliação das escolas no momento em que se privilegiam apenas indicadores de medida e de progressão inerentes aos atos de aprendizagem do currículo formal. O que tem estado em causa para se alcançar uma valoração das escolas, tem sido o recurso à divulgação de rankings cuja elaboração se baseia apenas nos resultados académicos dos alunos. Para estes rankings pouco importam os resultados educativos globais da instituição escolar.
Há e sempre houve boas e más escolas. Há e sempre houve bons e maus exemplos de práticas educativas. Mas temos que saber relativizar os resultados em função dos indicadores de medida.
Termos em todas as nossa instituições escolares excelentes profissionais da educação que gostariam de ver reconhecido o seu esforço. Os professores estão habituados a fazer muito e bem. Mas não podem fazer tudo. Melhor diríamos: face às condições de trabalho em muitas das escolas portuguesas, é injusto e desmotivador que se lhes peça que façam mais.

João Ruivo
Fonte: Aceso via Facebook do autor do texto
Blogue: ver Incluso

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A ESCOLA E A NORMA DO MERCADO


A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.

Por António Guerreiro, 
in Público, 09/02/2018
Bem podem os críticos do ranking das escolas erguer publicamente os seus argumentos contra uma hierarquização obtusa que poderia figurar como um exemplo de idiotia da nossa época. Estarão sempre em desvantagem porque o exercício é excitante, funciona como um jogo e satisfaz uma pulsão escatológica infantil. E quando se passa para o plano da legitimação racional, o modelo do ranking aplicado às escolas está protegido pelo princípio supremo do mercado: a concorrência. No nosso tempo, ela é uma norma global, imposta a todas as actividades como solução universal para melhorar todos os serviços e para promover um aperfeiçoamento progressivo do indivíduo. A concorrência e a competição exaltam a ideia de mérito e, através de uma operação fraudulenta, fazem dele uma figura do poder chamada “meritocracia”.


Mérito e meritocracia não são a mesma coisa. O desenvolvimento de qualidades e competências individuais (inatas ou alcançadas através do estudo, da disciplina e do esforço) que levam ao sucesso é, e sempre foi, digno de apreço. Chamamos-lhe mérito. A meritocracia é uma coisa diferente: é um instrumento político e de engenharia social, ao serviço de um projecto de selecção de poucos através da exclusão de muitos.

Atribui-se geralmente a um sociólogo e político inglês, Michael Young (1915-2002), a paternidade da palavra “meritocracia”, que surge como um significante-mestre num romance satírico que ele publicou em 1958, com este título: The Rise of Meritocracy. Nesse romance, um sociólogo narrador situado no ano de 2033 conta e comenta o extraordinário progresso conseguido no seu país ao longo dos últimos cinquenta anos, graças à superação das velhas ideologias igualitárias e graças ao triunfo da meritocracia.
A intervenção no campo da educação e das instituições escolares tinha desempenhado um papel crucial na grande transformação: primeiro, as escolas tinham simplesmente seguido a economia na luta pelos mercados, mas a certo ponto uma nova política tinha feito da escola o lugar de experimentação de estratégias mais eficazes e sistemáticas de separação dos inteligentes face aos estúpidos, um processo que depois se impôs com sucesso a outros sectores.
E, na fase mais avançada deste processo, as indústrias começaram a aplicar medidas selectivas com base no modelo da escola. No fim, até o exército tinha aprendido a lição escolar. O romance de M. Young é uma utopia negativa. E o seu autor cunhou a palavra “meritocracia” com uma evidente intenção crítica. Mas ela foi reciclada e passou a ter um significado plenamente positivo. E o processo descrito no romance para construir uma escola apta a transformar uma aristocracia de nascimento numa aristocracia de engenho parece ter inspirado a campanha dos rankings, que chega sempre à meia-noite, como o Pai Natal. Tal como no romance de M. Young, a escola “democrática” é assaltada pela lógica do clube selectivo que funciona por cooptação.
A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.
E se existe como um quase-mercado, ele não é fruto de uma lógica espontânea, não se faz naturalmente por obra das “leis imanentes” do capitalismo (como pretendem os partidários da lógica do mercado aplicada ao campo escolar), mas de uma construção política. E essa construção tem no ranking das escolas uma poderosa ferramenta.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

AINDA SOBRE OS "RANKING'S" E A AUTONOMIA DAS ESCOLAS


Ao contrário de algumas pessoas, eu "diabolizo" os ranking's das escolas. Houve tempo, lá para trás, no início dessa paranóia, que ainda considerei poder constituir um mero indicador. Ao longo do tempo, lendo estudos e reflectindo sobre todas as variáveis, aliás como já tive a oportunidade de aqui me prenunciar, não só "diabolizo" como entendo que constitui uma infantilidade conceptual defendê-los. Analiso a escola por aquilo que fazem, pela estrutura organizacional que implementam, pela cultura pedagógica que perseguem, pelas preocupações inclusivas e pelo esforço de ninguém ficar para trás, pela sua luta que atenua as diferenças económicas, sociais e culturais e pelo trajecto dos seus alunos após a passagem por um determinado estabelecimento. Simplesmente porque não existem dois públicos iguais, dois grupos de docentes iguais e, portanto, duas escolas iguais. "Diabolizo", porque é um erro conceptual grave conjugar no mesmo patamar as áreas de intervenção pública e privada. Não faz qualquer sentido, nem justificação existe, seja qual for o ângulo de análise, tolerar sequer a existência de ranking's. De escolas e de exames! E se eles existem é porque existem exames. E eu sou, no ensino básico, contra os exames. Há outras formas de acompanhamento e de avaliação. Ademais, tolerar os "ranking's" significa tolerar o actual sistema educativo e manter a desigualdade. 


Na esteira deste posicionamento surge a "autonomia" dos estabelecimentos de educação e ensino. Colocar reservas quanto ao manifesto interesse de um sistema descentralizado e verdadeiramente autónomo, constitui, do meu ponto de vista, um outro grave erro no quadro do pensamento estratégico portador de futuro. Assumir, como ouvi, que há escolas, talvez se possa dizer, professores, que não estão preparados para a "autonomia", é o mesmo que colocar em causa, desde o tempo da ditadura, a luta pela Autonomia da Região, porque os madeirenses e porto-santenses não estariam preparados para ela. A "autonomia" é um processo de avanços e de recuos no quadro da diferenciação, de aprendizagem permanente, é um caminho de utopia que serve para seguir com convicção, feito de experiências que conduzem à melhoria dos resultados. É esta a minha leitura. Aliás, ainda ontem, o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, assumiu: "o que nos dizem as práticas internacionais é que a autonomia das escolas consegue fortalecer, robustecer e alavancar os conhecimentos". Concordo. Na mesma sessão, Andreas Schleicher, da OCDE, foi muito claro: "(...) o desafio para Portugal é educar para as próximas gerações. Para o futuro e não para o passado. E isso significa dar às escolas, mais protagonismo, mais flexibilidade, para alargar o tipo de conhecimentos, aptidões e competências, mas ao mesmo tempo criar mais espaço aos professores e ambientes de aprendizagem inovadores, dando aos estudantes os meios para se preparem para o futuro". Alguém terá dúvidas que este é o caminho? É a própria OCDE que questiona a existência de exames nacionais e defende a autonomia.
Daqui concluo, "ranking's" não, obrigado; autonomia, sim, para as escolas, rapidamente.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

RANKING'S - AS ESCOLAS PÚBLICAS PREPARAM MELHOR PARA A UNIVERSIDADE


Os "ranking's" dos estabelecimentos de ensino constituem a mais desprestigiante afronta aos estabelecimentos públicos. E, convenhamos, embora em menor escala, também aos de iniciativa privada. Felizmente que o Ministério se distancia desta catalogação, mas há quem os promova. Os dados dos exames nacionais, obviamente, são públicos e, portanto, a comunicação social compila-os e divulga-os de forma fria, isto é, descontextualizada. Aquilo que foi uma novidade e até tido por um mero um indicador, hoje, em presença de novos enquadramentos, deve ser considerado uma ofensa, um insulto, porque, desde logo, só se pode e deve comparar o que é comparável.


Como é possível estabelecer uma comparação entre o público e o privado, entre o Norte e o Sul, entre o litoral e o interior? Que legitimidade existe colocando em contraponto, diferentes formas de recrutamento de alunos, por isso mesmo, públicos diferentes, níveis económicos, sociais e culturais distintos, escolas que especializam alunos em exames, em detrimento de uma aprendizagem mais geral e consentânea com a  vida? Como pode ser comparável uma escola pública com 94% dos alunos apoiados pela acção social educativa, melhor dizendo, pobres, com uma outra, privada, sujeita a uma prévia entrevista de selecção e a um pagamento mensal muito próximo dos mil euros? Impossível comparar, ano por ano. Porém, o que se sabe, através de estudos realizados, parecendo um paradoxo, é que os alunos oriundos da escola pública acabam por ter melhores resultados no percurso universitário. Um estudo de 2013 da Universidade do Porto, divulgado pelo jornal Público, dá-nos conta: "(...) analisados os resultados de 2.226 alunos que concluíram pelo menos 75% das cadeiras ao fim de três anos, os provenientes das privadas têm piores resultados. As escolas privadas preparam melhor os alunos para os exames, mas não para terem um bom desempenho na universidade. A Universidade do Porto (UP) analisou o percurso académico de 4280 estudantes admitidos no ano lectivo 2008/09 e concluiu que, entre os 2226 que concluíram pelo menos 75% das cadeiras dos três primeiros anos, os estudantes que provinham de escolas públicas apresentavam melhores resultados académicos do que os provenientes das privadas. (...) As escolas privadas têm grande capacidade para preparar os alunos para entrar, mas o que se verificou é que, passados três anos, estes alunos mostraram estar mais mal preparados para a universidade do que os que vieram da escola pública", adiantou ao PÚBLICO José Sarsfield Cabral, pró-reitor da UP para a área da melhoria contínua. Um paradoxo? Certamente que não. 
Ademais, o que a todos deveria preocupar não é, certamente, as classificações nos exames nacionais, mas a estrutura na qual assenta o sistema educativo. Andam, alguns, em uma quase paranóia anual, porque subiram ou porque desceram uns lugares na "tabela classificativa", não se dando conta do sistema estar ou não adequado aos desafios da formação do presente e do futuro. Felizmente, já tantas vozes se levantam contra este sistema arcaico, portanto, desprovido de sentido. Neste quadro, considero patética a posição da Secretaria Regional da Educação que, ao contrário de ver o sistema e de criticar esta obsessão pelos resultados dos exames nacionais, onde todos os anos há variações substantivas em função de múltiplos factores, prefere assumir que melhorámos aqui e ali. Foi poucochinho, mas melhorzinho! Não conseguem ver a Lua, mas o dedo que aponta para a Lua.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O QUE O SECRETÁRIO REGIONAL DA EDUCAÇÃO DEVERIA APRENDER ANTES DE GOVERNAR


Porque, cada vez mais, considero uma aberração o estabelecimento de "ranking's" de estabelecimentos de ensino, era minha intenção não lhes dedicar uma linha. Este tipo de posicionamento que tenta rotular e/ou destacar um pressuposto mérito é, do meu ponto de vista, perverso, desde logo porque assenta em pressupostos errados. Só se pode comparar o que é comparável. O sector público de educação, por exemplo, porque é Constitucional, portanto, um direito de todos, recebe nos estabelecimento de ensino, todos, sem distinção de níveis económicos, sociais e culturais, enquanto que, no sector privado, as regras de acesso têm natureza selectiva. Há colégios que submetem os candidatos a testes e a estudos no quadro psicológico e, depois, aplicam mensalidades acima dos 800,00 euros. Conheço a situação. Logo, estabelecer uma lista onde se hierarquizam, de forma fria, contextos diferentes é de uma total ausência de senso. Uma escola (Madeira) com mais de 90% de Acção Social Educativa não pode ser comparada com um colégio pago a peso de ouro! Os seus resultados são um "milagre". A não ser que os defensores dos "ranking's" pretendam reforçar a peregrina ideia que o privado é melhor que o público. Talvez. O governo regional da Madeira atribui, grosso modo, 25 milhões de euros anuais ao privado. Ora, retomando, os "ranking's" são uma falácia. Os resultados dependem de muitos factores. Um exemplo: um colégio privado do Funchal foi 3º do "ranking" nacional do Básico (2009), tendo sido 1º na Matemática. Em 2016 posicionou-se em 53º lugar. Isto diz bem do que são os "ranking's". Ainda bem, ao contrário do secretário regional da Educação da Madeira, que o governo da República se posicionou de forma bem distintiva. Um bom prenúncio para as necessárias mudanças. 


Comecei por salientar que não era minha intenção escrever sobre este assunto. Constitui uma matéria repetitiva e profundamente analisada. Porém, o secretário regional da Educação veio logo comunicar que "(...) considerando os resultados esperados, os quais ponderam os contextos e o número de provas realizadas, as médias da maioria das escolas básicas e secundárias da Região são positivas (...)". Face a esta declaração, e só por isso, decidi escrever algumas linhas. Desde logo, a partir de duas perguntas: que resultados o governo regional esperava? Segunda: terá o secretário analisado os resultados, comparando-os ao longo dos anos?
Circunscrevo-me às características do actual sistema educativo que, saliento, repudio. Esperava resultados positivos? É isso? Vejamos o secundário, considerado importante para o acesso ao ensino superior. Em 627 escolas, a primeira da MADEIRA AUTÓNOMA aparece, na posição geral, em 280º lugar. As restantes, 313ª, 349º, 373º, 377º, 407º, 491º (...) a última em 610º em 627 estabelecimentos de ensino. Pelas médias, o secretário, que não esconde a defesa do actual sistema educativo, pelo menos não o condena, nove escolas obtiveram uma média inferior a 10 (entre 9,74 e 8,43) e seis entre 10,72 e 10,17. São estes os resultados positivos de que fala o secretário regional da Educação!
No ensino básico:
001 - 300 - 4 escolas: 53º, 63, 87, 110, 207, 267.
301 - 600 - 4 escolas: 365º, 468, 490, 525, 578.
601 - 900 - 8 escolas: 683º, 698, 762, 767, 787, 792, 831, 847.
901 - 1228 - 12 escolas: entre 946º e 1170. 
Onze escolas (avaliação de 0 a 100%) obtiveram mais de 50% (71,08% e 51,36); da décima segunda até à última escola (31ª) a variação foi entre 49,69% e 39,43%. São estes os resultados "positivos" do sistema defendido pelo governante.
Finalmente, defender o "ranking" das escolas é assumir que existem boas e más escolas e esquecer três aspectos, entre muitos outros: primeiro, o estado da sociedade a diversos níveis; segundo, que a generalidade dos professores, no actual quadro do sistema, imposto, burocrático e bloqueado, desempenha de forma muito meritória a sua função; terceiro, a pobre política de investimento. Mais sensato teria sido, à luz da História, que o secretário colocasse em causa todo o sistema, onde paira um deserto de ideias, assumir que este tipo de ensino, que repete o passado, está completamente errado, que os "ranking's" não espelham nada (hoje assumo que nem constituem um indicador) e que há necessidade de introduzir, paulatinamente, mudanças significativas, deixando de lado, por mais que isso custe a quem faz da vida uma rotina, estes resultados que ignoram, completamente, o que de bom ainda por aí se faz.
NOTA
Intencionalmente, omiti o nome dos estabelecimentos de ensino, apesar de estarem disponíveis na NET e na comunicação social, porque considero INDIGNO rotular escolas, mesmo que essa não seja a intenção. Em segundo lugar, peço desculpa por algum erro na seriação dos estabelecimentos de ensino, apesar do cuidado que tive. Globalmente, é esta a "fotografia" do sistema!
Ilustração: Google Imagens.