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quinta-feira, 21 de maio de 2026

A propósito... Ponto e Vírgula, exclamo eu!


Nascido em 8 de julho de 1921, vai agora para os 105 anos de vida activa, "Edgar Morin é um filósofo e sociólogo francês da teoria da informação, reconhecido pelo seu trabalho sobre complexidade e "pensamento complexo" e pelas suas contribuições académicas em campos tão diversos como estudos de mídia, política, sociologia, antropologia visual, ecologia, educação e biologia de sistemas (...)" - síntese na Wikipedia. Numa entrevista publicada pela "Nova Escola", assumiu: "A escola mata a curiosidade"; e, numa outra, publicada na revista "Prosa, Verso e Arte" sublinhou: "(...) o modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo".



Ora bem, esta Escola, por muitas e interessantes que sejam as suas iniciativas, internas e externas, está conceptualmente errada, porque estruturalmente descompaginada do conhecimento oferecido por todas as outras ciências e sistemas. Diria que é a escola descompassada da Vida.

Da literatura ao cinema, do teatro às redes sociais, há muito que ecoam os gritos dos alunos sobre esta escola. É pois um erro confundir a aparência com a estrutura do próprio sistema. Morin insiste: "uma escola que transmite conteúdos, sem estimular perguntas, reflexão e ligação entre saberes, acaba por matar a curiosidade — que é justamente o motor do conhecimento".

Genericamente, para quem não se preocupa com estudos e análises mais profundos, bastar-lhes-á passar pela IA para concluir que esta escola "fragmenta o saber em disciplinas estanques; valoriza a memorização e os exames em vez de perguntas , pelo que, genericamente, transforma o aluno em receptor passivo, não em sujeito que investiga". São muito raras as excepções. Portanto, não me parece sensato, sejam quais forem os motivos, educativos, políticos e até os de natureza comercial que subjazem a certos projectos, que se confunda, repito, o que parece com o pensamento estrutural e científico, esse sim, portador de sucesso.


Aliás, basta um olhar sério sobre as estatísticas dos que ficam para trás, sobre os milhares que não estudam nem trabalham e sobre a "morte" dos talentos e sonhos. Assertivas e oxalá fizessem caminho entre políticos, professores e alunos, as palavras do Dr. Ricardo Miguel Oliveira, Director do Diário: "Não vos peço que sejam perfeitos. Peço-vos apenas que sejam curiosos, que não aceitem tudo sem questionar e que nunca deixem de pensar pela sua própria cabeça". Esta declaração encaixa, obviamente, em todos os actores. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Respeitar o sonho e o talento


Li, com muito entusiasmo, uma entrevista publicada na edição do DIÁRIO do último Domingo, da autoria do jornalista Rúben Santos. Protagonista, o Engenheiro madeirense Guilherme Cristóvão, natural de S. Vicente. Um percurso de vida muito interessante, perseguindo o sonho e o seu talento. Uma entrevista, pelo menos para mim, deliciosa, porque vem ao encontro do que penso sobre o processo de aprendizagem e sobre um sistema educativo que não mate o sonho que cada um de nós transporta.



O engenheiro desta história não ficou pelo que o sistema educativo lhe impôs. Ao ponto de, tendo um Dissertação de Mestrado pronta para ser entregue e debatida, abandonou-a para seguir outro caminho que o sonho e mesmo o talento lhe indicavam. E, hoje, aos 26 anos, resume a sua vida numa frase tão simples quanto profunda: mais do que mil diplomas académicos (...) "nunca fui destinado a ser brilhante, mas sempre tentei brilhar". 

Ora, é isto que diferencia tanta luta (e até mesmo propaganda) por dezanoves e vintes nas médias finais do secundário, quantas vezes esmagando o verdadeiro e genuíno sonho de quem atinge esse patamar de resultados. Trata-se de uma velha história entre uma escola que propõe um "fatinho igual para todos" ou um "fato à medida de cada um".

É neste contexto que emerge um outro quadro de análise: a cada vez maior obsessão pela avaliação dos alunos. Tudo é conduzido no sentido do acto avaliador: o teste, a questão aula, a nota e o exame, a par de variadíssimos itens de muito subjectiva avaliação. Genericamente, neste sistema, o aluno continua a ser conduzido para a resposta dita certa, aquela que consta do manual programático e não para a complexidade da construção do seu futuro. Há, de facto, uma intencional dimensão política curricular e programática, arquitectada por adultos, difícil de desconstruir. Por isso temos tantos jovens que olham para a escola distantes da paixão pelo saber. Enaltece o Engenheiro Guilherme Cristóvão: 

"(...) Se alguém pensa que na Fórmula 1 não se falha, engana-se. Falha-se e falha-se muito. Mas a cultura é diferente. Quanto mais depressa se falha, mais depressa se aprende (...) O segredo não está em evitar o erro a todo o custo, mas na velocidade de reacção (...) A curva de aprendizagem é exponencial porque somos forçados a aprender com as falhas, imediatamente".  


"Tiro na mouche". Vários pensadores da Educação convergem para uma atitude que também considero básica: o professor não existe para oferecer respostas prontas, mas para desenvolver a curiosidade e o gosto pelo saber. É isso que nos leva longe. Ora, este sistema exige a resposta pronta e a nota correspondente a essa resposta, não a possibilidade do erro como pressuposto de uma aprendizagem de pensamento, com consistência e duradoura. 

O Engenheiro Guilherme Cristóvão soube romper com a lógica "by the book" e, hoje, está no topo da Fórmula 1, desenvolvendo projectos electrónicos de relevante interesse para todos e, especialmente, na Red Bull. Parabéns!

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Até quando durará o "espírito de missão" dos professores?


Por
Cristina Faria Moreira
PÚBLICO



Caro leitor, cara leitora,

O 1.º período deste ano lectivo terminou com mais alunos sem professor do que no ano passado. É o que dizem os sindicatos e movimentos de professores, que alertam para o desgaste e sobrecarga dos docentes.

Segundo os cálculos da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), o número de horários a concurso em contratação de escola — a que as escolas recorrem quando os horários pedidos ficam por ocupar nos concursos nacionais de colocação — foi “muito superior” ao do ano passado no mesmo período: mais quase 4000. No ano passado, ao longo do primeiro período, foram pedidos 9696 horários pelas escolas e, este ano, até ao passado dia 12, foram 13.446.

Os dados podem ter repetições, uma vez que há horários que podem estar durante semanas a concurso caso não sejam preenchidos. Só entre os dias 9 e 12 de Dezembro, havia ainda 302 por preencher, que correspondem a 5622 horas lectivas. Era “o número mais baixo das últimas semanas” e a estimativa da Fenprof é que isso afectasse cerca de 20.500 alunos — nas semanas anteriores seriam mais.

Este número é uma fotografia do momento, mas ajuda a perceber a magnitude do problema que as escolas enfrentam, sobretudo as dos distritos de Lisboa, Setúbal e Faro, onde tem sido mais difícil colocar docentes, mesmo quando se tratam de horários completos e não apenas poucas horas para colmatar uma ou outra falta.

Os directores munem-se, por isso, de todos os recursos que têm disponíveis, ainda que assumam que muitas vezes não são os mais adequados. “Num momento em que não há professores, os directores têm de se socorrer de todos os meios para terem os alunos na escola. Alguma coisa tem de ser feita”, disse-me António Castel-Branco, presidente do Conselho das Escolas.

A solução tem passado por atribuir mais horas extraordinárias aos docentes — que, segundo o ministro, custam cerca de 20 milhões por ano; por apelar aos docentes que estão prestes a aposentar-se para, caso se sintam dispostos a isso, adiarem a reforma; e por recorrer a professores sem a habilitação profissional para a docência. Reconhecem o risco de sobrecarga que isso traz.

Num agrupamento de Sintra, o director assumiu ter recorrido a técnicos especializados para leccionarem em turmas do 1.º ciclo, apesar de a legislação não o permitir. Prefere isso a ter alunos na escola sem aulas.

E, numa escola de Lisboa, uma mãe contava esta semana como a coordenadora da escola esteve durante o período a desdobrar-se entre funções para assegurar as aulas de uma turma do 2.º ano, cujo professor ainda está por substituir.

A falta de professores levou dezenas de associações de pais a lançarem uma petição na qual exigem mais medidas para combater o problema. Mais de 1400 pessoas assinaram.

O que é certo é que apesar das medidas tomadas, continua a haver “um agravamento da falta de professores”. Em Janeiro, mais 300 vão para a reforma.

Ao contrário do que aconteceu no ano passado, neste final do 1.º período não são ainda conhecidos os resultados do concurso externo extraordinário, que pretende vincular e colocar mais professores nas zonas onde há maiores carências.

Segundo disse o ministro da Educação esta semana, terão concorrido cerca de 5000 — que passaram a 3000 depois da validação — para as 1800 vagas abertas. Os resultados estarão para "muito breve", disse esta quinta-feira o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo, no final da primeira reunião negocial sobre a revisão do Estatuto da Carreira Docente.

Para os sindicatos, a prioridade deveria ser a valorização da carreira e a criação de condições para profissionalizar quem entra no sistema, evitando soluções que baixem requisitos e fragilizem a qualidade do ensino.

Enquanto isso, nas escolas, como nos dizia esta semana um director, a resposta continua a ser feita “com espírito de missão” — mas com sinais claros de desgaste.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A Voz dos Professores - Motivações, Desafios e Barreiras ao Desenvolvimento da Carreira



O Estudo “A Voz dos Professores: Motivações, Desafios e Barreiras ao Desenvolvimento da Carreira”, promovido pela Fundação Pedro Queirós Pereira em parceria com o Centro de Economia da Educação da Nova SBE e com a Universidade do Minho, tem em como objetivo contribuir para a valorização e para o futuro desta profissão no nosso país.



Reconhecimento e Motivação


– Os professores identificam os alunos como a principal fonte de valorização. Mas existe uma perceção generalizada de menor valorização social, o que afeta negativamente a atratividade da profissão.

– A maioria dos professores sente-se motivada com a sua atividade profissional. No entanto, cerca de 20% considera ou pondera abandonar a carreira nos próximos anos. Entre os docentes com menos de 30 anos, esta percentagem sobe para 54%. A retenção dos docentes em início de carreira deve, por isso, ser uma prioridade, através de estratégias de acolhimento e da promoção de ambientes escolares estimulantes.

– A mobilidade é também um fator relevante: cerca de 25% dos professores desejam mudar de escola ou de concelho, sobretudo entre os mais jovens e aqueles sem vínculo permanente.

– Verifica-se ainda uma tendência de transição de professores do setor privado para o público, que pode contribuir para mitigar a escassez nas escolas públicas, embora levante desafios à capacidade de atração de novos profissionais por parte do ensino privado.

– Na fase final da carreira, 73% dos docentes com 60 anos ou mais planeiam reformar-se assim que possível. No entanto, 85% desses docentes admitem prolongar a atividade profissional, caso se verifiquem melhorias nas condições de trabalho, como a redução da carga administrativa ou letiva. Entre os que pretendem continuar a trabalhar após a idade da reforma, 77% apontam o gosto pela profissão como principal motivo, seguido de razões financeiras por 37%.

domingo, 10 de novembro de 2024

sábado, 6 de abril de 2024

É preciso ser livre para se ser livre


A convite do autor, o Professor Universitário Carlos Oliveira Santos, assisti, na FNAC - Funchal, ao lançamento do livro "Aye - poemas escoceses". Aconteceu ao início da noite da última Sexta-feira este seu tributo à Escócia e às suas culturas. Foi um momento sereno e sublime, de poesia, música e canto e, a espaços, com intervenções do autor sobre aquilo que considera "um fio contínuo de incessante busca da identidade e da capacidade humana, na sua original afirmação romântica da liberdade - aqui, com Burns como exemplo superior (...)".





A páginas tantas, falou da ligação dos Escórcios e dos Drummond, cujos antepassados, na Madeira, vamos encontrá-los na História escocesa. A contagiante simplicidade do autor conduziu a interessantes testemunhos de vários que, na plateia, assistiam.

De todo aquele enquadramento creiam que senti, profundamente, o poema da autoria do Professor Carlos Oliveira Santos, dito de uma forma intensa e sedutora - Uma Declaração de Arbroath. Deixo-o aqui.   


é preciso ser livre para ser livre
eu não quero a liberdade p´ra venerar num al
tar a liberdade por falar
quero a liberdade de falar, de ser eu
do qual não há cópia

liberdade, liberdade, eu quero a minha liber
dade a liberdade para todos
liberdade livremente
liberdade com cor
liberdade com dor

liberdade sujeita à própria liber
dade liberdade de experimentar, de sentir
liberdade de errar, de tresvariar
de viver, de morrer
liberdade que não precise de lei
que só aceite uma lei fundada na própria liberdade

tem um preço, a liberdade, mas não se vende
tem um nome, mas não se limita a ele
tem um fim, mas desconhece-o

tenho, muitas vezes, a sensação que não existe 
liberdade, mas quero essa liber
dade        é preciso ser livre para se ser livre

No Prefácio escrito por Billy Kay, escritor, autor de televisão e rádio, poliglota, um militante indefectível da independência da Escócia: "(...) o Carlos não só tem um profundo conhecimento da cultura e da história da Escócia, mas, ao mesmo tempo, ele tem algo dentro de si que lhe dá uma visão excepcional da cultura escocesa, possibilitando-lhe divulgá-la desta maneira tão impressionante e permanente".

Estou a ler, serenamente, as páginas deste livro. Parabéns e obrigado, Caríssimo Professor.

terça-feira, 2 de abril de 2024

Tão simples e tão profundo (II)



Não dou por perdida a luta de muitos e de há muitos anos. Aliás, as mudanças arrastam sempre uma resistência de anos, porque os hábitos enraízam-se, porque o medo do desconhecido instala-se no convencimento que se sempre foi assim, porquê mudar(?) e, também, pela comodidade a que a rotina conduz. Ah, porque a hierarquia política, amante da "tranquilidade e da normalidade", assim impõe. Ela não aprecia quem seja prospectivo, quem fuja ao itinerário traçado. Mudar exige estudo, aprofundamento do conhecimento, inconformismo, leitura do mundo, comprometimento, muito trabalho, e tudo isto apavora os apreciadores do "status quo".



Há 53 anos, transcrevi no meu "Relatório de Estágio Pedagógico" uma frase de Paul Ginisty (1855/1932) que continua com uma impressionante actualidade: "Não é possível ser pedagogo sem adoptar uma certa visão do ser humano que visa legitimar a prática". E, recentemente, li no blogue "Educrítica": "Para ensinar o latim ao João, todos sabem hoje que é indispensável conhecer o latim e o João. Mas mais ainda: é preciso saber porque é que se deseja que João aprenda latim, como é que a aprendizagem do latim o irá ajudar a situar-se no mundo de hoje - numa palavra, quais são os fins visados pela educação. E há pelo menos uma componente política em qualquer resposta que se pretenda dar."

Pois, é isso mesmo! Ao correr das palavras que vou digitando, acompanha-me o meu Amigo Padre Martins Júnior: "rezar é fácil, pensar é muito mais difícil", o que se aplica, ao fim e ao cabo, a tudo, da Igreja à Escola.

Deduz-se, então, que o sistema educativo continua, qual metáfora, a "rezar" pelo manual, "sem uma visão do ser humano que vise legitimar a prática" e, portanto, sem "saber porque é que se deseja que João aprenda latim" ou outra coisa qualquer. E sendo assim, como revela a infografia, dir-se-á que "doutrinar é fácil", mais complexo é "mostrar às pessoas como aprender".

Os que se refastelam nos desengonçados e empoeirados cadeirões do exercício da política deviam ter presente o que Agostinho da Silva nos deixou: "O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência, mas somente a falta de curiosidade.”

Se tivessem isto presente mudavam tudo.

Nota
Fotografia e legenda de Noam Chomsky enviada pelo meu Amigo Dr. João Luís Aguiar, Professor de Filosofia.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Educando para o fracasso e a derrota, um belo texto de Pier Paolo Pasolini


Por
Sílvia Garcia

Pier Paolo Pasolini foi um artista prolífico e multidisciplinar que conseguiu canalizar os episódios trágicos que marcaram sua vida desde cedo e capturá-los com genialidade em suas obras. Sem dúvida, o cineasta italiano mais reverenciado do século XX com um legado que perdura.


Vivemos em um mundo competitivo em que perder não se enquadra nos parâmetros desejáveis na sociedade. Você tem que ser alguém, se destacar, ter sucesso e deixar de lado o fracasso, a derrota e a derrota. Há mentes brilhantes que exaltam a honestidade do ser e não a grandeza de aparecer. Como é o caso deste texto atribuído ao grande Pasolini. Uma reflexão necessária que nos vem do passado para este presente em que tudo parece ser permitido e em que a falta de respeito pelos outros e o lema de ambos que têm tantos vouchers parece ser a moeda da maioria.



"Acho que é preciso educar as novas gerações no valor da derrota.

Em lidar com ela mesmo. Na humanidade que dela emerge.

Na construção de uma identidade capaz de perceber uma comunidade de destino, na qual se pode falhar e recomeçar sem afetar o valor e a dignidade.

Em não ser um alpinista social, em não passar por cima do corpo dos outros para conseguir o primeiro. Diante desse mundo de vencedores vulgares e desonestos, de prevaricadores falsos e oportunistas, de pessoas importantes, que ocupam o poder, que escondem o presente, quanto mais o futuro, de todos os neuróticos do sucesso, da figuração, do devir.

Diante dessa antropologia do vencedor de longe, prefiro aquele que perde. É um exercício que eu acho bom e que me reconcilia comigo mesmo. Sou um homem que prefere perder a ganhar de forma injusta e cruel. Culpa minha, eu sei. O melhor é que tenho a insolência de defender essa culpa e considerá-la quase uma virtude."

Pier Paolo Pasolini

sábado, 19 de agosto de 2023

Futebol - quando falta a formação básica!


Ontem, ao final da tarde, enquanto fazia a minha actividade física, fui seguindo uma partida de futebol. Desastre total para os meus olhos. 



Entendo que não devo comentar o que ali se passou (porque o futebol nunca foi a minha praia), apenas quero manifestar que a quase totalidade dos jogadores da equipa "madeirense" não possui o domínio dos gestos técnicos básicos do futebol: a recepção, o passe, o drible e o remate (estes quatro elementos em múltiplas situações) e, conjugado com estes, entre outros, o domínio do próprio corpo, a percepção do espaço e do tempo, o sentido de marcação, de desmarcação e o táctico, para além de uma boa capacidade física de resposta ao esforço, enfim, um alargado conjunto de aspectos que eu, em síntese, diria que envolvem desde a cabeça aos pés. E tudo isto é treinável no tempo certo de formação. Mais tarde, tudo se complica. No encontro que segui, valha a verdade, a bola parecia um elemento estranho, tão maltratada que foi por tais profissionais.

Quem não tem uma adequada formação básica não pode ser um profissional de futebol. Apenas uma caricatura. Pode e deve jogar com os amigos, ao fim de semana, distante das exigências que o rendimento elevado configura. Ademais, para ser profissional não bastam umas tatuagens, um corte de cabelo esquisito e umas chuteiras debaixo do braço. Ah, e perante a derrota dizer que agora "é preciso levantar a cabeça". Exige-se muito mais. Depois, sim, pode ganhar, empatar ou perder, que é sempre uma consequência natural do jogo.

A páginas tantas exclamei para comigo próprio: qualquer das equipas da fase de grupos do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino, despachava estas equipas com muitos "olés" de permeio.

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

A propósito de um comentário


Um texto que aqui publiquei mereceu um comentário do meu Amigo Urbelino Ferreira: "Prezado André Escórcio, tenho vindo a seguir os seus pensamentos sobre a Escola e a Educação, com a maior acuidade, já que me revejo, bem, no seu método de reforma da curricula, em Portugal. Sabemos, em geral, que cada mudança de ministro (ou Secretário regional) da Educação, corresponde a uma nova visão, tendencialmente, pessoal. E as Educação e Cultura de um país - como noutras áreas da governação -, jamais poderão estar sujeitas a planos de quatro anos. Para bem de um país e do seu povo, os planos de governança deveriam ser consentâneos com uma visão para decénios. (...)"



Caríssimo, muito obrigado pelo seu comentário. Concordo consigo quando adianta a necessidade de um "Pacto Educativo para o Futuro" que, nas suas linhas estruturantes, dite o rumo que se deseja para o sector educativo. Aliás, na esteira do ex-ministro da Educação Doutor Marçal Grilo (1995) que defendeu, exactamente, a importância desse pacto político de pendor estratégico. É evidente que, constituindo um processo, um pacto sempre sujeito aos reajustamentos que a ciência e as circunstâncias forem ditando. Por isso, defendo o conceito de paradigma e não de modelo. Porque o paradigma afigura-se-me como qualquer coisa pela qual me guio, enquanto o modelo transmite-nos um sentido estático. No essencial, o modelo, é o que temos na política educativa há muitas dezenas de anos, independentemente de quem tem tido a responsabilidade de governar.

O problema é que, no plano político, são poucos os que para aí estão virados. O mediático, a ignorância e o comodismo, têm prevalecido. Se perguntarmos a muitos políticos para onde caminhamos, a prática diz-me que exprimirão muitas dificuldades em assumir uma linha de pensamento coerente e portadora de futuro. E quando não se sabe, sobressai a lógica que "qualquer caminho serve". E para além dos políticos de serviço, acresce o facto dos professores, espartilhados em normas e condutas desejadas pela hierarquia, intencionalmente, foram e estão empurrados para um comprometedor silêncio. Participam em seminários, colóquios e outras formações, porque, por estatuto e normas são obrigados a horas de formação, onde muitas vezes são equacionados os problemas estruturantes do sistema, mas depois, no estabelecimento de aprendizagem, nos seus locais de trabalho, tudo passa para plano secundário, pois a hierarquia acaba por impor o tal "modelo" estático e centralizador.

Finalmente, os pais. Ora, se os professores não se movimentam pelas sumárias razões que acabo de enunciar (os problemas da Educação não se esgotam no respeito pela sua carreira) então os pais pior ainda. Falta-lhes, grosso modo, informação e capacidade para perceber o que deve ser a aprendizagem adequada aos tempos que correm. Tem sido notório que seguem o pensamento que têm "do seu tempo", agora agravada pela desorganização da sociedade (entre outros, a importante entrada da mulher no mundo laboral que não foi devidamente acautelada em defesa da estrutura familiar), onde, ridiculamente, se considera que "mais trabalho significa melhor trabalho". Consequentemente, mais importante não é o que os filhos fazem na escola, mas sim o espaço "armazém de guarda" enquanto trabalham. 

Por isto e muito, muito mais, os políticos fazem ouvidos de mercador ao pensamento ditado pelas universidades, ao pensamento que tantos autores têm vindo a veicular nos últimos 50 anos, repudiam a ideia de abrir o debate sobre os caminhos mais desejáveis, reunindo políticos, professores, investigadores, autores, cientistas de várias áreas, psicólogos, sociólogos, empresários, enfim com todos os que produzem pensamento. Não o fazem porque têm medo! E é por isso que nos movimentamos no pântano dos "achismos", das concepções pessoais e não no plano da CULTURA onde tudo o resto se agrega.

Uma vez mais, obrigado pelo comentário, porque neste mundo de preocupantes silêncios, eu conto pelos dedos de uma mão os que comentam o que escrevo. E só na Madeira são perto de 6 000 os professores. Não existe debate. Subsiste a rotina. Percebem-se as razões.

Um abraço.

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

A disparidade entre o sentimento da sociedade e o dos políticos


Da responsabilidade do Jornalista Miguel Fernandes Luís segui, na edição de ontem do Dnotícias, o resumo de uma conferência-debate no quadro de um designado "Fórum de Emprego". O jornalista conseguiu resumir em breves depoimentos e de uma forma muito acutilante as "lições" que se colocam ao emprego do (no) futuro. Uma síntese que dá "pano para muitas mangas"!



Sigamos os subtítulos dos vários depoimentos: 

"Atenção à evolução do mercado"; "Seguir o sonho e a felicidade"; "Inovar"; "Não ter medo de falhar"; "Ser activo na procura de emprego"; "Horários amigos das famílias"; "Dar formação"; "Aumentar salários"; "Bom ambiente de trabalho"; "Regras claras"; "Contar com a opinião do trabalhador"; "Procura do talento"; "Alterar o sistema de ensino: apelos a uma "ruptura cultural no sistema de ensino" (...) "As escolas deviam conseguir perceber quais são os talentos de cada criança e desenvolvê-los. Eu tenho um filho de 14 anos e olho para o sistema de ensino e é muito parecido com o da minha altura".

Parabéns ao Jornalista e às diversas figuras que produziram tão excelentes sínteses. Tudo aquilo é o que, directa ou indirectamente, a Escola não promove e que aqui, ao longo de anos, tenho feito eco, divulgando o que tantos têm evidenciado sobre o tema da aprendizagem com vida e para a vida. Encontramos naquelas posições o busílis do problema. Vou ponto por ponto: 

1. Evolução do mercado. A escola está fechada no interior dos seus muros e não consegue sequer colocar um escadote para espreitar e perceber o que se está a passar nos vários sistemas; 2. Seguir o sonho. A escola, talvez melhor dizendo, o sistema, produz(iu) um fato igual para todos quando devia ter presente que todos são diferentes e todos são portadores de sonhos; 3. Inovar. Pergunto, como? Se o sistema está centralizado e rigidamente hierarquizado, onde os professores e os alunos apenas funcionam como peças que alimentam o centro operacional, cumprindo o rigor dos manuais e dos exames; 4. Não ter medo de falhar. O sistema não possibilita o erro, pois baseia-se na transmissão vertical do "conhecimento" e, na ausência de investigação/experimentação própria, impõe uma avaliação permanente perante o que é considerado certo. 5. Ser activo. Impossível ou dificilmente concretizável, quando, durante anos, o sistema limita(ou) através da submissão a uma lógica de obediência cega a currículos, programas, notas e à sobrevivência; 6. Horários compatíveis com as famílias. Desde cedo, o sistema, tendencialmente, transporta para dentro da escola as lógicas nocivas do funcionamento da sociedade: a competição entre alunos (e também entre professores na ascensão na carreira), constituindo um sinal claro o facto de, em média, os estudantes, na compaginação das suas actividades semanais, dedicarem cerca de 56 horas de ocupação, face às cerca de 36/40 horas dos pais. Há estabelecimentos de educação abertos até às 23 horas. 7. Dar formação. Qual? Isto, quando os políticos não discutem os factores geradores de uma formação portadora de futuro, para a vida, e apenas se circunscrevem à rotina! 8. Bom ambiente de trabalho. A manter-se neste sistema, genericamente, a escola nunca beneficiará de um bom ambiente. Por um lado, porque tudo está previamente definido, tal como na fábrica, os horários, o processo de "fabrico", as estações de funcionamento e a avaliação do produto; por outro, porque as imposições colocadas aos professores na carreira docente e a falsa ideia que o aluno está no centro das políticas educativas, mostram-se incompatíveis com um ambiente favorecedor da aprendizagem; 9. Regras claras. Pois. repito, está tudo definido e quando falam de autonomia escolar aplica-se o que o Professor Licínio Lima disse: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Está tudo clarinho como água! Se se aprende assim, como alterar a mentalidade ziguezagueante? 10. Contar com a opinião do trabalhador. Exactamente isso. A escola, salvo raras excepções, porque é heterónoma, o aluno está ali para cumprir, não para ter opinião. As recentes declarações políticas sobre a posição dos alunos na Escola de Hotelaria constituem um exemplo claro. 11. Procura do talento. Houve um tempo que se viveu a histeria dos "sobredotados". Isso morreu. Hoje, o que a escola faz é esmagar o talento através da padronização. A confirmar está a declaração de um interveniente: "As escolas deviam conseguir perceber quais são os talentos de cada criança e desenvolvê-los. 12. "Alterar o sistema de ensino". A resposta encontra-se numa declaração também de um interveniente no Fórum:  Eu tenho um filho de 14 anos e olho para o sistema de ensino e é muito parecido com o da minha altura". Para quê mais palavras?

Em todo este processo só não acertaram no alvo duas figuras, exactamente políticas. De forma simplista, o presidente da Câmara do Funchal falou que "(...) quem trabalhar recebe, quem não trabalhar não recebe e vai para a rua (alteração da legislação laboral) e a vice-presidente que falou em "baixar os impostos". E, assim, parece-me, que para estas duas figuras o problema ficaria resolvido. Esquecem-se que os alunos de hoje, amanhã, serão empresários ou colaboradores das empresas.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Acordem!


Precisamos de rever o que se ensina, porque se ensina, o que se ensina, como se ensina  e com que instrumentos ensinamos. (...) Esta revisão tem de começar ao nível do 1º ciclo do ensino básico (...). Encontramo-nos perante uma catástrofe nacional (...) não nos iludamos, não basta fixar docentes, é fundamental que formemos novos professores, não somente em número mas também em qualidade" - Sofia Roque Ribeiro, secretária Regional da Educação dos Açores.



Já perdi a conta a quantos seminários, acções de formação científico-pedagógicas, formações de iniciativa sindical para ganho de uns créditos para juntar ao currículo profissional, enfim, todos os anos passam por aqui investigadores, autores, professores, tantos que tentam deixar uma semente que germine. Mas, não, tudo leva a crer que o "solo" não é fértil e o que hoje é aplaudido, amanhã é complemente esmagado pela rotina e pelo pensamento abstruso que dá conta de: se sempre foi assim, para quê mudar? Permitam-me que seja directo: são formações que entram a 100 e saem a 200! O curioso é que determinadas declarações são feitas na frente de políticos com responsabilidades que, à posterior, evidenciam nada quererem saber. 

Desta vez foi a secretária regional da Educação dos Açores que veio sublinhar, de forma clara, que "precisamos de rever o que se ensina, porque se ensina, o que se ensina, como se ensina  e com que instrumentos ensinamos". Trata-se de mais uma campainha de alarme que, estou certo, tocará e tocará mas que ninguém reagirá abrindo a porta ao futuro! 

Não disse nada que já não se soubesse, tantos são aqueles que assumem que este "rei vai nu", leia-se sistema. Mas teve o mérito, entre pares políticos de dizer o que, por aqui, não sabem ou não querem assumir. E isso foi importante, até pelo simples facto da mensagem ter vindo dos Açores, normalmente secundarizados. 


Mas não foi apenas a secretária. Também o meu Distinto Amigo Doutor Domingos Fernandes, hoje Presidente do Conselho Nacional de Educação, abordou, numa perspectiva ampla, o currículo que "identifica princípios, valores, conhecimentos, competências e atitudes que são consideradas fundamentais para o desenvolvimento do sistema educativo (...) por isso é um complexo empreendimento, na verdade uma construção social que envolve uma alargada diversidade de intervenientes, que vão desde as instituições de ensino superior, às associações profissionais, pedagógicas, científicas dos professores e/ou investigadores, passando por individualidades reconhecidas nos meios científicos, pedagógicos, artísticos e, em geral, culturais, até às associações do mundo empresarial".

E esta é uma questão central que se conjuga com as posições da secretária do governo açoriano. Esta posição do Professor Domingos Fernandes significa que o sistema educativo tem de passar por uma grande mesa de diálogo, onde todos possam reflectir e definir um caminho de permanente inquietação conducente ao sucesso. Fechar-se no corredor do poder, fingir que ouve ao jeito de quem tem "ouvidos de mercador", mantendo o seu rumo no pressuposto que se trata de uma "aposta" inequivocamente correcta, corresponde à manutenção do erro e do desastre. Acordem!

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Maioria dos alunos no ensino profissional continua a vir de meios mais desfavorecidos


Por
Daniela Carmo
Foto de Manuel Roberto
Público


No secundário, 45% dos alunos estão no profissional. Portugal está no 19.º lugar da tabela da UE com mais alunos neste ensino Público.


O ensino profissional foi inicialmente construído como veículo de inclusão social. São alunos que não querem ir além do ensino secundário, com baixo desempenho escolar e muitas vezes provenientes de um meio socioeconómico desfavorecido. Este é o grupo dominante de estudantes a terminar o ensino secundário pela via profissionalizante, ou seja, no ensino secundário profissional (ESP). A caracterização do perfil dos alunos do ESP é publicada hoje no estudo Como Valorizar o Ensino Secundário Profissional? Dilemas, Desafios e Oportunidades, desenvolvido pela plataforma Edulog, uma iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo, em colaboração com a Universidade de Aveiro.

Apesar do segmento dominante de estudantes, há dois outros grupos em crescimento: são eles os alunos orientados para o mercado de trabalho e os que pretendem continuar os estudos no ensino superior. A análise do Edulog debruça-se sobre os percursos de formação no ESP em Portugal, os constrangimentos e vantagens a ele associados, assim como sobre a imagem social deste tipo de ensino.

Inicialmente construído como veículo de inclusão social e de combate ao desemprego, descreve a análise, o ensino profissional evoluiu nas últimas décadas e a abordagem actual “é mais funcional e orientada para o capital humano”.

Quase metade dos alunos do secundário (45%) frequenta o ensino profissional, o que coloca Portugal no 19.º lugar do ranking europeu de países com mais alunos a frequentar esta tipologia de ensino, de acordo com os dados agora divulgados. Nos patamares mais acima estão países como a República Checa (73%), a Finlândia (71%), a Croácia e a Áustria (70%), a Holanda e a Eslováquia (69%), a Eslovénia (67%), e a Suíça (65%), com mais alunos no profissional. O ranking internacional consta do relatório intermédio Caracterização do Ensino e Formação Profissional em Portugal, Análise de Dados Secundários — 20152019, publicado em 2020.

Ao PÚBLICO, David Justino, membro do conselho consultivo do Edulog e antigo ministro da Educação, refere que “o estudo pretende ser um contributo” para a reflexão sobre o ensino profissional no secundário em Portugal, sobre o qual persiste ainda “um défice de imagem e pouca notoriedade social”, como refere o relatório.

“Há muitas escolas com ensino profissional, públicas e privadas, que estão a trabalhar muito bem. Elas existem um pouco por todo o país. Há que as incentivar, dotá-las dos recursos indispensáveis, aprender com elas e divulgar essas experiências bem-sucedidas. Eu diria que é urgente criar uma rede de escolas de referência, seleccionadas a partir de uma avaliação rigorosa do seu desempenho e do seu contributo”, abona David Justino quanto à imagem social do ESP.

No caso português, apesar da evolução, “os estudantes do ESP continuam a ser quase exclusivamente oriundos de segmentos menos favorecidos da sociedade”. Segundo informação disponibilizada pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), de 2020, e publicada no relatório, há alguns indicadores que têm vindo a marcar o ensino profissional em comparação com os estudantes do ensino regular: nesta tipologia, os diplomados têm uma idade média mais elevada, têm notas mais baixas (em concreto a disciplinas como Matemática, Português e língua estrangeira), e pertencem a famílias menos escolarizadas.

É por isso que o antigo ministro da Educação destaca “dois contributos inestimáveis” do ensino profissional: “Ajudou a reduzir os níveis de abandono escolar, contribuindo para a concretização da escolaridade obrigatória através de níveis cada mais elevados de escolarização da população mais jovem” e, por outro lado, “é um contributo para a qualificação dos recursos humanos e para o desenvolvimento económico em vários sectores que se têm distinguido na economia portuguesa”.

Quando analisado o nível de escolaridade dos pais dos alunos que escolhem a via profissionalizante no ensino secundário conclui-se que apenas 9% fazem parte de famílias com o superior como o nível de escolaridade dominante, estando a maioria inserida em níveis de escolaridades inferiores. A análise do Edulog deixa várias recomendações para a valorização do ensino profissional. Entre elas está a clarificação do perfil dos alunos do profissional. Além do grupo dominante de alunos, há outros dois grandes segmentos a optar por esta via.

O segundo grupo que mais alunos engloba é o dos estudantes cuja escolha pelo ESP é determinada pelas saídas profissionais e pela maior ligação ao mercado de trabalho. “São estudantes com bom desempenho escolar anterior, tendo uma preferência específica por uma determinada profissão, e que pretendem aumentar o sucesso na integração no mercado de trabalho”, refere o documento. A escolha pelo ensino profissional é determinada pelas saídas profissionais e pelos níveis de empregabilidade. Já o terceiro grupo, ao contrário dos restantes, não tem intenção de entrar no mercado de trabalho uma vez terminado o ciclo de estudos, mas, antes, no ensino superior. Os alunos vêem no ensino profissional uma ferramenta capaz de aumentar a probabilidade de entrada no ensino superior, “seja por facilitar a conclusão do secundário, seja por permitir a obtenção de médias finais mais elevadas”. De acordo com o relatório, trata-se de “um grupo ainda muito reduzido de estudantes, mas que se afigura como uma tendência crescente”.

Apesar do crescimento, estes dois últimos grupos de alunos são ainda minoritários. A percentagem de jovens que se inserem no mercado de trabalho após concluir o curso profissional, a maioria, é muito maior do que nos cursos científico-humanísticos. De acordo com os dados recolhidos, em relação aos diplomados entre 2010 e 2019, 38% dos alunos que concluíram o ensino secundário profissional estavam a trabalhar nos 14 meses após a conclusão.

Cerca de 43% dos estudantes que se formaram em Ciências, Matemática e Informática estavam empregados, em Serviços eram 36% e 35% em Engenharia, indústrias transformadoras e construção. Quanto aos alunos que seguem estudos no superior, segundo dados de 2021, quase três quartos das vagas da “via verde” para alunos do profissional ficaram vazios. São números que não surpreendem o antigo ministro da Educação. “Os cursos profissionais não foram concebidos para prosseguimento de estudos no superior. Foram pensados para a formação de profissionais qualificados prontos a entrar no mercado de trabalho”, reflecte. Vê com bons olhos a existência de uma via de acesso ao superior para os alunos dos cursos profissionais, “mas essa não é a finalidade central deste ensino”.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

As crianças gostam de aprender, podem é não gostar de TPC às sete da tarde


Professora adjunta e supervisora de estágios profissionais na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti (ESEPF), no Porto, Gabriela de Pina Trevisan concluiu doutoramento (2014) em Estudos da Criança, especialização Sociologia da Infância, no âmbito da cidadania e participação infantil; anteriormente, tinha obtido licenciatura em Sociologia das Organizações (1998) e mestrado em Sociologia da Infância (2006) – tudo na Universidade do Minho – e trabalhou como animadora sociocultural na Fundação para o Desenvolvimento do Vale de Campanhã, no Porto (1998-2001). Participa em diferentes redes profissionais da área da Sociologia da Infância e é membro do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC), do Instituto de Educação da Universidade do Minho, e do Centro de Investigação Paula Frassinetti (CIPAF/ESEPF). As suas áreas de investigação incluem a sociologia da infância, os direitos das crianças, a intervenção comunitária e o trabalho socioeducativo com crianças e jovens e famílias.



Para começar, tentar perceber qual o estado da investigação académica na sua área de trabalho. O que é que está a dar na Sociologia da Infância?

A Sociologia da Infância tem sido uma área com muita visibilidade nos últimos anos, quer pelos números de produção, quer pelas pessoas que vão fazendo investigação. E é uma área muito abrangente, ainda que nos últimos anos haja um núcleo da Universidade do Minho que vem dando particular atenção à questão dos direitos da criança. E essa é uma área fundamental para o nosso trabalho. A questão das políticas públicas para a infância também tem sido forte e, nos últimos anos, com um enfoque particular em alguns estudos, nomeadamente, sobre o impacto de situações como a crise na vida das crianças. As áreas de estudo relativas a situações de institucionalização e aos sistemas de proteção de crianças também têm vindo a ser intensamente estudadas e, pessoalmente, são as áreas por que me tenho interessado mais e que têm tido alguma produção e também repercussão. Os media já revelam mais alguma preocupação por estas temáticas e isso também ajuda a área a desenvolver-se.

Quando se fala de infância, fala-se exatamente de quê? Qual é o intervalo etário?

Normalmente, orientamo-nos pelas definições dos documentos legais ou de instituições como a Unicef [Fundo das Nações para a Infância], tendo em conta que em outros países há alguma variação, mas, para nós, é dos zero aos 18 anos. Mas embora trabalhemos a infância como uma categoria, também somos capazes de observar as diferentes, não vou dizer etapas, mas as diversidades: de ser uma criança pequena, ou uma criança em idade de escolarização, ou observar os jovens como uma faixa etária específica dentro da infância... Mas a nossa ideia é sempre olhar a infância como um coletivo que é estruturante, que existe em todo o lado, mas que tem formas diferentes de viver nos contextos onde estão. E as crianças enquanto atores sociais plenos, que é uma das grandes bandeiras da disciplina.

A Convenção dos Direitos da Criança, que Portugal ratificou em 1990, introduziu alguma abrangência na visão e no tratamento das questões da infância. O que mudou a partir daí? Ainda é uma referência?

Continua a ser um documento de referência, por um lado, porque alarga o que eram os direitos fundamentais das crianças, nomeadamente os direitos de proteção, reconhecendo a necessidade de termos perante a infância um olhar protetor que preserve os seus direitos, e por ter introduzido uma componente que para nós é muito importante, que é a participação das crianças, o direito a serem ouvidas e a codecidirem com os adultos nos contextos em que se inserem. Por outro lado, tem a grande novidade de ser vinculativa, ou seja, os Estados que a assinam, nomeadamente nós, comprometem-se a criar no seu território mecanismos, práticas e instituições que respeitem esses direitos. Obriga-nos a reportar anualmente a situação dos direitos das crianças e a organizar um sistema de proteção de um modo diferente do que conhecemos hoje, um sistema muito mais ágil e próximo das comunidades, das famílias, das crianças. Tem implicações muito grandes. E, claro, também tem muita dificuldade em transcrever-se para as práticas. No entanto, comparativamente com outros países, Portugal tem uma situação francamente melhor em alguns domínios relativos à infância, mas também temos, ainda, questões que nos preocupam de um modo intenso.

É recorrente ouvir falar da ‘falta de educação’ de crianças e jovens nas escolas, culpabilizando as famílias – a educação dá-se em casa, diz-se. E a Convenção prevê que a primeira responsabilidade é da família. Há aqui duas educações, mas o que compete de facto, a cada parte?

Não sei se é possível definirmos grandes fronteiras. O que percebemos é que as escolas foram acompanhando um conjunto de modificações que foram acontecendo e que são cada vez mais chamadas a ter uma presença mais abrangente nas comunidades. Mas também percebemos que, frequentemente, têm alguma dificuldade em abrir-se ao que é exterior; outras vezes, em alargar a ideia de instrução para uma ideia mais lata de aprendizagem e trabalho com as crianças e famílias. Muitas vezes, há choques muito grandes entre o que é a realidade hiperformalizada que a escola oferece e o que é a realidade de muitas famílias de onde as crianças são oriundas. Temos ‘N’ escolas que se situam em comunidades com traços particularmente difíceis, com realidades de vida das crianças muito distantes daquela que a escola tem e em que esse choque é previsível. A literatura sobre isto vai apontando estratégias, e eu acredito que, por exemplo, quanto mais os professores conhecem as comunidades e saem da escola, melhor o seu trabalho se reflete na sala de aula. E quanto menos formalizados são alguns processos, nomeadamente o trabalho com as próprias crianças, envolvendo-as em tomadas de decisões, normalmente essas crianças têm não só melhores resultados do ponto de vista académico, mas também da relação com a escola e com os adultos. E aí, a escola tem oportunidade de se abrir em relação às comunidades. Algumas são mais fáceis do que outras e há realidades que, muitas vezes, colocam em causa a forma como estas famílias conseguem ou não relacionar-se com a escola. Temos muitos alunos cujas histórias de família são de insucesso tremendo na escola, para quem a escola não foi uma experiência positiva, não trouxe nada de particularmente bom, ou pelo menos não foi transformadora... Há famílias em que gerações inteiras de pessoas não tiveram uma boa relação com a escola, e aí temos de questionar se isto não passa, também, por uma mudança da escola.

A desvalorização da escola, por muitas famílias, é ou era frequentemente apontada como fator de indisciplina e insucesso. Esse quadro mantém-se, ou as famílias são hoje mais interessadas e até interventivas? Pela educação ou por necessidades de guarda para as suas crianças?

Eu acho que, hoje, os pais se envolvem mais naquilo que é o próprio processo e exigem um pouco mais da escola, e isso não é necessariamente mau. Ter pais mais exigentes com os professores e com a maneira como trabalham com as crianças, não é necessariamente mau. Do ponto de vista coletivo, há um bocadinho a perceção de que este papel está relativamente desvalorizado, ou já teve um estatuto diferente, até social. E isso afeta o trabalho das escolas e dos próprios professores, tanto mais que, frequentemente, essas perceções são construídas, não necessariamente, sobre um conhecimento concreto do trabalho das escolas, mas com base em ideias mais ou menos generalizadas sobre os professores e as escolas. E nós temos várias escolas em contextos dificílimos, com ‘N’ variáveis que não levariam ao sucesso, que conseguem contrariar isso. O problema é que esses exemplos não são os que nos chegam mais através da comunicação social; nós ficamos com as imagens piores e as que são boas vão ficando para trás.

Quando se fala em família, é comum notar que o modelo tradicional se alterou. Por outro lado, têm aumentado as famílias ditas disfuncionais, multiproblemáticas, etc. O problema é só da instituição familiar? E as comunidades? Ou seja, o rio e das margens, do Brecht…

Sim, porque as famílias não vivem isoladas, vivem em comunidades em que elas próprias podem ter um conjunto de circunstâncias mais ou menos constrangedoras. Se pensarmos no Porto, há um conjunto de comunidades em que, olhando a mobilidade, o acesso a bens culturais e a participação na vida cívica, por exemplo, as possibilidades são francamente menores, e isso condiciona o que as famílias podem proporcionar às crianças. Há tempos, estivemos num agrupamento de escolas, não muito distante do Porto, em que percebemos como o facto da mobilidade dos professores ser recorrente trazia dois problemas à escola: por um lado, os professores tinham muita dificuldade em vincular-se à própria escola, porque ao fim de um ou dois anos saíam para outra; por outro lado, porque havia um grande número de professores que eram de outras comunidades e se deslocavam diariamente muitos quilómetros por dia, conheciam mal aquela comunidade e não tinham tempo para perceber quem eram os miúdos, de onde vinham, para onde iam... E conhecer a comunidade e perceber a realidade das crianças é fundamental para quem está numa escola. E às vezes os professores não têm essa possibilidade.

Há políticas específicas para estas situações, ou as respostas são ocasionais? As instituições no terreno articulam-se, ou cada uma olha o seu ‘negócio’?

Com as instituições no terreno nós também vamos tendo outros problemas. Hoje, as escolas trabalham em rede com muitas instituições, mas, na prática, aquilo que teoricamente chamamos trabalho em rede nem sempre acontece. Assistimos, de facto, a alguma partilha de informação, a uma ou outra partilha de coisas pontuais, mas não a um trabalho de rede do início ao fim, e isto é uma limitação. Outra limitação que percebemos, dos diretores, é a dificuldade de terem um grupo de professores com quem trabalhar continuadamente. Isto acontece com os professores mais novos, e não sei se haverá alguma solução política que passe por garantir às escolas uma maior estabilidade do corpo docente. Mas era fundamental. A acrescentar a isto, de ‘X’ em ‘X’ anos, ainda se debatem com alterações aos modelos de avaliação, ao que as escolas têm que cumprir, ao que passa a ser exigido que as crianças saibam... E, portanto, estas alterações permanentes não ajudam a que as mudanças sejam positivas. O que nós vamos ouvindo, por exemplo da Finlândia, aquela experiência que relataram há meses, da avaliação das disciplinas, partiu de um estudo que demorou dez anos a fazer. Passou por governos diferentes, mas o estudo e as propostas permaneceram. Foi uma coisa que teve hipótese de ser pensada, refletida e que envolveu diferentes atores. Nós ainda não conseguimos fazer isso. É tudo descontinuado.

Referiu a necessidade de políticas públicas específicas para a infância. Essas políticas podem ser dissociadas de outras? Família, trabalho… Educação, saúde, habitação…

Não! O Manuel Sarmento tem algum trabalho publicado nesta área e há que apela muito a esta ideia de que precisamos de políticas integradas e integradoras para a infância. Elas não podem ser desligadas de nenhuma política para os adultos, ainda que possa haver uma ou outra exceção, como na última lei de proteção de crianças e jovens, com uma alteração muito específica para considerar o percurso dos jovens entre os 18 e os 25 anos quando saem de instituições. Mas essa é uma situação muito particular. Em todas as outras questões, nenhuma política da infância pode desligar-se das políticas de família. De resto, a conciliação da vida familiar e da vida laboral foi uma grande bandeira nas últimas eleições; vários partidos foram salientando que era necessário promover políticas e medidas que permitissem uma maior conciliação entre a vida laboral e a…

Mas não há grandes concretizações relativamente a essas…

Não. Por exemplo, esta questão da conciliação… 

... acabam por ser medidas que ficam no papel…

Muitas. E muitas que são pouco articuladas. Por exemplo, falar do equilíbrio entre a vida familiar e o trabalho implica ter entidades empregadoras que compreendem isto e que não penalizam famílias que têm necessidades específicas relativamente ao cuidado das suas crianças. Ou famílias para quem ter dois ou três empregos é o normal, para poderem subsistir e dar uma vida adequada às crianças, mas para isso precisam de recorrer a instituições de cuidado à infância, cuja oferta é muito limitada, apesar de ter sido expandida. E muitas pessoas têm dificuldades em conciliar tudo isso. Outra das grandes bandeiras – e já há uns meses que estão a ser anunciados programas que permitam, pelo menos, atenuar a situação – são as políticas dirigidas, em particular, à pobreza infantil. E aí, é evidente que se estamos a discutir pobreza infantil, estamos também a discutir a pobreza dos adultos, porque a maioria das crianças está inserida em contextos familiares. Portanto, ou esses contextos conseguem sobreviver e dar às crianças condições de vida adequadas, ou o risco que elas correm é sempre maior do que aquele que os adultos correm.

É um ciclo reprodutor…

É um ciclo reprodutor, e não só... Nós conhecemos bem as causas, não temos diagnósticos mal feitos. Em termos daquilo que é preciso, de políticas públicas, temos ótimos autores que fizeram esses diagnósticos. Sabemos o que faz a diferença, mas depois temos dificuldade em articular isso, por exemplo, entre diferentes ministérios e secretarias de Estado. Em relação à pobreza, há estudos há dezenas de anos e nós sabemos o que temos de melhorar, percebemos as grandes vulnerabilidades que existem para muitas famílias e que, naturalmente, tornam as crianças mais vulneráveis. Mas depois é difícil passar do papel para a ação.

O argumento da falta de vontade política é válido, ou, de facto, são construções difíceis?

Eu acho que pode ser um bocadinho das duas coisas. Há alterações do ponto de vista estrutural que, mesmo face à pobreza, são difíceis. E não é só para nós. No contexto do mundo em que estamos a viver, há sempre situações difíceis. Mas há outras em que os fatores, se combinados, permitem minorar esses riscos. Por exemplo, a questão das habilitações literárias, não pela habilitação para o número, mas para permitir às pessoas, que eventualmente tiveram insucesso antes, aceder ao mercado de trabalho em condições dignas, a desempenharem profissões também dignas e satisfatórias e que permitam níveis de vida adequados – ainda recentemente, foi lançado um estudo da Rede Europeia Anti-Pobreza sobre os níveis adequados de vencimento para se viver com dignidade em Portugal e nós percebemos que, para várias famílias, o que entra em muitos destes agregados é um ordenado mínimo. É impossível viver-se com dignidade!

Relativamente às instituições e organizações que estão no terreno, a possibilidade deste tipo de trabalho se transformar numa espécie de negócio tem alguma influência?

Eu tenho alguma dificuldade em generalizar, porque as realidades que vamos conhecendo são diversas. É evidente que estas instituições precisam de fundos para funcionar, e a nossa opção de há muitos anos para muitas destas instituições é um modelo mais ou menos misto: são reguladas e supervisionadas pelo Estado – ou seja, no fundo, não funcionam de forma livre – e também são subsidiadas, precisamente porque se uma criança não pode ficar no seu meio natural de vida, é ao Estado que compete encontrar e garantir uma alternativa. E nós temos de tudo, de instituições que funcionam lindamente e fazem um trabalho extraordinário a outras que precisarão de algumas mudanças. Mas preocupa-me mais que nos últimos anos tenha havido uma projeção mediática de casos que correram terrivelmente mal e que esses casos fossem generalizados a todas as instituições. Isso não é verdade! Essa generalização não expressa a realidade da maioria das instituições, eu acredito.

Numa apreciação global, o trabalho que é feito é bom?

Eu diria que, no geral, é francamente melhor do que há uns anos. O sistema de proteção está mais vigilante, os tribunais estão mais vigilantes, e acredito que até os tribunais de família estão mais sensíveis a estas problemáticas. Mas é claro que ainda há margem para manobra. Conhecemos várias instituições que têm vindo a fazer apostas tão simples como a formação continua e permanente dos técnicos e colaboradores, e isto é sempre uma mais valia, porque significa que estas instituições poderão estar melhor preparadas e ter uma visão mais crítica do trabalho que realizam. Mas há espaço para melhorar em todo o lado, e também nas instituições.

No caso da escola, parece mais ou menos consensual que não serve a todas as crianças, que não as acolhe igualmente bem – talvez, até, acentue desigualdades entre elas. Fala-se, por isso, cada vez mais de ‘escola inclusiva’, mas relativamente a este conceito, parece não ser tanto o consenso…

Eu acho que aqui vamos ter sempre algum nível de controvérsia, no sentido de que há várias dimensões e haverá sempre quem defenda que o melhor é um caminho e quem defenda que é outro. Eu acredito profundamente em escolas inclusivas e, portanto, acho que é isso que devemos ter. Agora, também reconhecemos, todos, que as escolas não têm todas o mesmo tipo de recursos, nem de corpo docente capaz de responder a algumas especificidades que se colocam. Isto é quase senso comum, mas é uma realidade. E não estamos a falar de especificidades e diversidade só porque há crianças com maiores ou menores capacidades, maiores ou menores ‘handicaps’. Estamos a falar, por exemplo, do ponto de vista cultural, ou socioeconómico, em que, muitas vezes, não conseguimos trabalhar com todas as crianças da mesma maneira. E não acho que seja uma atitude consciente das escolas trabalhar melhor com estes do que com aqueles. É alguma coisa que vai acontecendo no quotidiano, que muitas vezes é silenciosa e para a qual eu acredito que as escolas que assumem práticas mais diferenciadoras, que apostam na formação dos professores, por exemplo, estarão melhor preparadas para responder a esse desafio. Será sempre um desafio, e acho que não há nenhum exemplo perfeito, mas há exemplos que resultam melhor do que outros, e eu acredito profundamente que esse é o caminho.

Mas há sempre ‘margens que comprimem’…

Há... Às vezes, falamos até de coisas muito básicas, como a arquitetura de algumas escolas, que impedem que os professores possam fazer um determinado tipo de trabalho ou que determinado tipo de crianças possa ter um acesso igualitário a diferentes partes da escola, por exemplo. E isto é uma coisa que os professores não controlam, não são eles que escolhem a arquitetura da escola. Por exemplo, também temos muitos professores que se formaram num tempo profundamente diferente, para quem a adaptação é bastante mais exigente do que para pessoas que ainda estão a sair da formação e que já estão, talvez, mais alertadas – não digo que a formação dos professores seja perfeita, que não é, mas já têm uma preparação que lhes permite serem mais abrangentes do que se era há 20 ou 30 anos. E também temos de perceber que, para estes professores, é preciso dar-lhes tempo para se atualizarem, para terem acesso a formações, a experiências diferentes – eu acredito muito nos processos de troca de experiências, mais do que na formação, ou pelo menos em complemento com a formação. E isso também não acontece do dia para a noite, há de haver aqui algum espaço em que a escola tenha tempo para respirar e se adaptar. Mas vai ter de se adaptar, porque o caminho será esse – já é mais ou menos adquirido e, felizmente, acho que não iremos voltar atrás.

Uma vertente importante no plano da inclusão tem a ver com o currículo, com os saberes escolarizados, que, de facto, parecem estar cada vez mais distantes das apetências e das competências das crianças que chegam à escola, muitas delas oriundas de meios…

Sim, estão... Mesmo do ponto de vista geracional... Esta geração de crianças não é a mesma de há duas gerações atrás. Temos impactos muito evidentes, nomeadamente, as questões da tecnologia – o Manuel Sarmento fala da questão do e-ofício da criança, da criança do ofício tecnológico... E nós, às vezes, perdemos a possibilidade de incorporar um conjunto de competências das crianças no trabalho escolar, porque assumimos automaticamente que aquelas coisas não fazem parte do trabalho escolar. Ou não assumimos que uma pergunta, uma curiosidade da criança, possa dar origem a uma aula, ou tentar despoletar uma discussão com as crianças que permita trabalhar conteúdos mais formalizados... Eu não sei se o problema é tanto as metas ou se é mais percebermos como conseguimos chegar lá. E a verdade é nós temos escolas a trabalhar exatamente com as mesmas diretivas, do mesmo ministério, mas que conseguem implementar diferentes modos de trabalhar e perceber que não temos crianças iguais à frente. Claro que isto exige aos professores um nível de adaptação muito grande, mas traz-lhes uma riqueza de… Na minha investigação, observei algumas assembleias de turma no 1º Ciclo em que os alunos levavam preocupações que passavam por coisas tão básicas como discutir o que era uma crise económica e como é que se percebia que um país estava em crise; em que as aprendizagens que se fazem, entre eles e o professor, que vai mediando esse conhecimento, são extraordinariamente importantes, são significativas e não são tidas naquela lógica de que é uma aula, é um conteúdo, mas porque partem de preocupações, experiências ou curiosidades que eles próprios têm. Portanto, às vezes, tem mais a ver com essa capacidade que nós possamos ter, ou não, de diferenciar. Eu digo sempre nós porque, embora não seja professora do 1o Ciclo ou do Secundário, revejo-me nessas preocupações, porque participo na formação de professores e acho que tenho aqui alguma responsabilidade. E como adultos, muitas vezes chutamos para canto perguntas das crianças que, se debatermos com elas, são interessantíssimas do ponto de vista da formação do raciocínio delas, de perceção do mundo. Às vezes, não temos tempo; às vezes, não temos paciência... E de vez em quando, essas oportunidades também acontecem na sala de aula, se eles tiverem espaço para as fazer.

Mas com tantos alunos com diferentes vulnerabilidades, e após tanta investigação e várias experiências, é estranho que a Escola não consiga dar uma resposta melhor a quem tanto precisa das melhores respostas... Onde é que é preciso mexer?

Se calhar, é preciso mexer um bocadinho em tudo, mas (e novamente, eu acredito muito nisto) tendo em conta os contextos – há experiências que replicadas noutros contextos, provavelmente, não resultariam. E o que sabemos é que, normalmente, as escolas com experiências mais interessantes são as que têm um conhecimento profundo das respetivas comunidades e conseguem valorizar e aproveitar o que elas têm a favor das aprendizagens dos alunos. Durante muitos anos, a referência sempre foi a Escola da Ponte [Vila das Aves, Santo Tirso]…

E parece que continua a ser... Ou voltou a ser?

Pois, não sei... O que é interessante é que a Escola da Ponte existe há 40 anos, que agora, curiosamente, está a ter alguma recuperação, até do ponto de vista mediático, mas foi sempre quase uma experiência-piloto, que nunca se reproduziu... Lá está, eu não acredito que estas experiências possam ser replicadas a papel químico, mas há um conjunto de aprendizagens muito interessantes a retirar dali, ultimamente tem-se falado do Agrupamento de Escolas de Carcavelos e, há umas semanas, foi notícia um agrupamento da Madeira, numa comunidade com níveis elevadíssimos de vulnerabilidade em várias dimensões, que alcançou resultados escolares que contrariaram completamente as expectativas sobre esses territórios – e a nossa expectativa, normalmente, é que haja falhanço e não sucesso, não é? Todas elas são vistas como ótimas experiências, mas quase-piloto, e tudo o resto continua a funcionar com alguma (entre aspas) normalidade, quando o que deveríamos era estar a discutir em concreto porque é que estas experiências conseguiram fazer as coisas de maneira diferente. Mas, entretanto, mais exemplos vão surgindo aqui e ali, e eu tenho alguma esperança de que deixem de ser apenas experiências pontuais e passem a ser a norma, ou quase.

A experiência da flexibilização curricular, que vai arrancar no próximo ano, pode ser uma oportunidade transformadora?

Eu acho que pode ajudar, assim como o perfil do aluno [Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, entretanto aprovado], que é uma proposta bastante ambiciosa, que, pela primeira vez, não se foca apenas numa lógica da escola enquanto aprendizagem, conteúdo e objetivo, mas na escola como uma vivência muito mais abrangente, com uma visão da criança que não se reduz ao aluno, mas também enquanto cidadã. Está lá descrito, de modo muito claro, que as crianças e os jovens devem participar em experiências democráticas e oportunidades de codecidir. Acredito que isso juntamente com a flexibilização possa ser uma experiência muito interessante – se não nos centrarmos tanto em cumprir um objetivo e mais no que queremos dar às crianças e construir com elas a partir da flexibilização.

Pensar no superior interesse da criança…

Sim, e uma das coisas óbvias que é do superior interesse da criança é um sistema educativo que seja respeitador e prazeroso. E onde ela aprenda, obviamente. A escola é um sítio onde as crianças aprendem, e aprendem coisas importantes, não têm é de aprender todas da mesma maneira, nem, necessariamente, a mesma coisa. Mas a escola é um lugar de aprendizagem, tem essa função, e as crianças gostam de aprender. Podem é não gostar de ter trabalhos de casa às sete horas da tarde, que é outra discussão, ou podem ter mais interesse em desenvolver um assunto de outra forma.

A aprendizagem deve ser sempre gratificante?

Claro. Quando se começou a falar do abandonar das disciplinas, na Finlândia, eu vi uma reportagem muito interessante... Uma das coisas que os professores perceberam rapidamente é que deixava de haver a ideia de que ‘esta disciplina é minha’, e na reportagem eram três ou quatro professores numa sala, com crianças de várias idades, onde havia um conjunto de competências a desenvolver na área da matemática, da geometria, da biologia... Os professores, em discussão com as crianças, decidiram fazer uma visita de estudo à floresta, para estudarem os cogumelos; e a partir do cogumelo, que foi o ponto de interesse, os professores trabalharam em conjunto noções de Matemática, de Biologia... Quer dizer, a lógica da flexibilização implica maior interdisciplinaridade, implica que os professores trabalhem em conjunto na definição das aprendizagens que vão ser realizadas pelas crianças.

O que pode ser uma dificuldade, por falta de condições…

E até pela novidade. Todos nós fomos formados numa lógica ainda muito estanque das disciplinas, e não numa lógica do conhecimento, que é diferente. E isso vai obrigar a um tempo de adaptação, porque não é automaticamente que as escolas vão conseguir que todos os professores mudem agora. Mas, se calhar, não têm de começar todos, pode começar metade... Mas pode ser uma experiência muito interessante, se as escolas a conseguirem implementar.

Identifica algum constrangimento em particular?

Eu acho que o tempo pode ser um constrangimento, de facto, porque efetivamente, é muito mais fácil eu organizar o meu trabalho sem depender de terceiros…

Mas quando o ministério diz ‘têm aqui uma coisa nova para fazer, não podem é gastar mais um cêntimo’…

Pois... Não sei muito bem se a flexibilização e a interdisciplinaridade obrigam, necessariamente, a que haja multiplicação de recursos. E aqui, para mim, claramente, as redes e as comunidades podem ter um papel fundamental. Por exemplo, às vezes, há escolas que querem fazer uma visita, mas não têm orçamento para transporte, e há juntas de freguesia que disponibilizam o serviço, há uma IPSS que tem uma carrinha com quem a escola pode fazer uma troca... É aqui que as comunidades e essas parcerias podem ajudar a ultrapassar, não digo todos, mas alguns problemas.

A possibilidade da cidadania infantil é uma narrativa aberta no âmbito da Sociologia da Infância... Qual é o contexto? Portugal parece que tem, até, um particular sentido de proteção relativamente às crianças e aos jovens…

Esse é um dos aspetos em que nas últimas décadas fizemos um percurso muito interessante – tornámo-nos mais conscientes da necessidade de proteger. Mas quando discutimos as questões da cidadania infantil, falamos para lá dos aspetos formais de nascer num país e ter uma identidade; falamos, sim, de um conjunto de direitos mais expandidos, nomeadamente o direito de participação das crianças, o direito de serem ouvidas, de que a sua opinião seja tida em conta... E isto não é dizer que são as crianças que mandam. Não é isso que está em causa quando se fala de participação das crianças, porque esta participação é sempre mediada pelos adultos e pelos contextos em que elas estão. Portanto, não é dizer que ‘o reino é das crianças’, mas que elas têm um lugar que, muitas vezes, é inviabilizado pela maneira como as nossas estruturas estão pensadas… Por exemplo, para um orçamento participativo, se houver um grupo de crianças que queira fazer uma proposta para a sua comunidade (porque não há um parque infantil, por exemplo), só o podem fazer através de adultos, se estiverem dispostos a isso, e não por direito próprio.

Estava a lembrar-me de iniciativas como o parlamento dos jovens, autarca por um dia…

Pois é, por um dia... E, normalmente, até são iniciativas muito interessantes, do ponto de vista deles – as crianças vão apontando sempre aspetos positivos. Mas, ao mesmo tempo, são ‘experiências decorativas’, em que eles estão e nós ouvimos e, às vezes, até ficamos surpreendidos, porque dizem coisas muito interessantes e pertinentes, de que não estávamos à espera. O problema é que, quando queremos passar da fase em que ouvimos para a concretização de alguma coisa com a contribuição delas, normalmente, há um hiato muito grande. Ficamos muito por ouvir e muito pouco por transformar…

Sempre podem entrar numa juventude partidária…

A participação política é perfeitamente possível, por exemplo, quando as câmaras municipais têm estes processos instalados – como Pontevedra, onde criaram órgãos, momentos e estruturas em que as crianças são envolvidas em processos consultivos sobre a cidade. Também em Guimarães, há pouco tempo, a autarquia criou a Carta da Cidadania Infantojuvenil, em que houve discussão pública e formulação de propostas, e algumas delas tiveram consequência e seguimento por parte da autarquia. No fundo, é criar um processo que seja significativo e que tenha um efeito. Havia um autor inglês que dizia que as crianças são reconhecidas como cidadãs exatamente no momento em que saem da infância, o que é um paradoxo. No momento em que fazemos 18 anos, automaticamente tudo se expande, mas até lá nunca tivemos verdadeiramente hipótese de trabalhar em processos democráticos e de decisão coletiva, e era muito interessante que as oportunidades surgissem.

O que é que a sociedade teria a ganhar com a participação de crianças e jovens nesses processos? E no caso das decisões escolares, o que ganharia a escola, e as próprias crianças? E custos?

Aquilo que se sabe e conhece é que ao nível das crianças, individualmente, há uma lógica de reconhecimento que elas sentem e expressam quando são envolvidas e tidas em conta nestes processos. Elas perspetivam muito esta participação como o facto de alguém ter valorizado aquilo que é a perspetiva delas, em contextos onde normalmente não são chamadas. Isto é uma ideia fundamental. Outra, mais pragmática, é que há ganhos em termos de competências: eles salientam muito a questão da aprendizagem, salientam o aprender a construir uma boa ideia, ou seja, que dar uma ideia implica ter de a conhecer, discutir e partilhar. E isto para eles é muito importante. As comunidades também ganhariam, porque comunidades onde as crianças se sintam incluídas são comunidades em que a própria qualidade de vida se acentua. Nomeadamente, porque são comunidades em que as respostas para eles se tornam mais interessantes para eles, mas também para as outras gerações – quando as questionamos em termos de vida nas cidades, por exemplo, é muito interessante ver que elas raramente apontam problemas ou soluções que lhes digam respeito só a elas; envolvem as outras gerações, envolvem pessoas com limitações, pessoas portadoras e deficiência, preocupam-se com os idosos… Têm este tipo de sensibilidade. Nas organizações e nas escolas, há estudos que apontam para uma coisa que interessa muito às escolas, que é o aumento da performance dos alunos – ao envolverem-se mais com a escola também se envolverão mais nas tarefas da escola, nomeadamente, estudar e aprender.

E a nível comportamental?

Sim, também. E na redução de algumas desigualdades. Alguns autores referem que a participação das crianças de meios menos favorecidos as ajuda a sentirem-se mais parte e mais incluídas, e ao sentirem-se melhor incluídas também se sentem melhor com elas e com os grupos com quem se relacionam. E também com a escola, enquanto organização.

Gostava de regressar às assembleias de turma... Como é que o professor as ‘encaixava’ no horário?

Aquele professor tinha sempre duas horas reservadas, à sexta-feira, e essas duas horas eram deles. De facto, ele conseguia organizar o trabalho de tal forma que, pelo menos na maioria das situações, fosse possível acontecer a assembleia, naquele dia e àquela hora. E as crianças sabiam que chegava ao final da semana e podiam discutir assuntos que as preocupavam, podiam propor assuntos para a escola, etc.

Algum assunto lhe despertou particularmente a atenção?

Uma das discussões mais interessantes a que assisti tinha a ver com a situação de uma criança, cujos pais se iam divorciar, e eles queriam perceber quem eram os adultos que decidiam, se as crianças eram chamadas a dizer o que pensavam, o que é um juiz, um tribunal... Bom, foi muito interessante, porque aquilo não só respondeu a um anseio deles e a questões diretamente relacionadas com a cidadania, com os direitos, e mesmo com a perceção deles do que seria justo ou não. E a preocupação deles, a determinada altura, era perceber como é que alguém que era adulto e que não os conhecia ia tomar a decisão. Uma preocupação altamente pertinente, para crianças que iriam lidar de perto com um processo dessa natureza.

A maioria das auscultações da vontade das crianças devem ser, exatamente, em processos de divórcio e guarda... Os tribunais costumam respeitar essas vontades?

Por lei, os tribunais são obrigados a ouvi-las a partir dos 12 anos. Antes disso, é o tribunal que diz se acha ou não pertinente e, às vezes, em processos particularmente duros, é preciso avaliar se faz sentido, em termos de beneficio, ouvir a criança ou não. Muitas vezes, os juízes têm de pesar se ouvir é mais ou menos prejudicial. Pelo que vamos sabendo, temos tido cada vez mais juízes do Tribunal de Família a chamarem crianças mais novas, mas não necessariamente para irem a tribunal – muitas vezes, combinam ouvir as crianças com a ajuda de técnicos da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), ou de psicólogos, e o juiz fica com aquele depoimento, sem levar a criança a tribunal nem a constranger de qualquer forma. Nós temos boas práticas que começam agora a ser discutidas, e eu tenho esperança que esse caminho vá ficando cada vez mais aberto.

Neste contexto, qual é a importância dos profissionais da educação social e da intervenção comunitária?

Eu acredito profundamente nestes técnicos e no trabalho com as escolas. É uma convicção minha. Quando temos equipas de educadores sociais a trabalhar nas escolas, complementarmente aos professores e às direções de agrupamentos, e em rede com as comunidades, isso tem um contributo valiosíssimo para a escola, contribuindo para a abertura da escola ao meio, porque o educador social domina um conjunto de técnicas do âmbito da educação não formal e comunitária que o ajudam a fazer isso. Por outro lado, para dialogar com os professores e fazer com que estas realidades não lhes sejam tão distantes. Portanto, vejo muito o educador social nas escolas como um elo de ligação entre a escola, as famílias e a comunidade. No fundo, pondo em diálogo as componentes que fazem parte da comunidade educativa, que muitas vezes não estão inter-relacionadas, em favor das crianças, das escolas e das comunidades.

António Baldaia (entrevista)
PÁGINA, 26.02.2020
Adriano Rangel e Ana Alvim (fotografia)