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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

"A Escola é uma seca"

 

O problema não está na diminuição de 1 276 professores relativamente a 2010/2011 (7 105), uma vez que se verificou uma significativa diminuição da taxa de natalidade. Há menos crianças, portanto, menos são os professores necessários nos estabelecimentos de aprendizagem. O resto é conversa para entreter. (ver Dnotícias de hoje). Importante é saber onde se quer chegar com a actual política educativa. Repetir o passado com ligeiras alterações nas margens? Por aí eu diria que "vai dar erro". Aliás, o sistema vive, permanentemente, no erro. Nem tentativas faz para o evitar e, naturalmente, caminhar. Está acomodado e sobrevive da e na propaganda, não se percebendo como é possível se afirmar que se trabalha no sentido da "contínua melhoria do sistema". Mas alguém saberá para onde caminha?


Gostaria de assistir era ao debate, isso sim, não das ninharias, mas de tudo aquilo que é estruturante de um sistema desenhado para dar resposta às necessidades de uma escola compaginada com a vida. Não esqueço e continuarei a repetir até à exaustão o que escutei há mais de 50 anos:


"Como pode uma escola sempre igual 

competir com a vida que é sempre diferente. 

O desencontro é inevitável"


Eu já dei o meu contributo através da edição do livro "A Escola é uma seca". Não se trata de uma receita ou de um ponto de chegada. Trata-se, apenas, de um ponto de partida. Humildemente, peço que o adquiram e que façamos o debate.


À venda na

LIVRARIA ESPERANÇA
Rua dos Ferreiros - Funchal

Pode também ser solicitado:

https://www.livrariaatlantico.com/lis.../a-escola-e-uma-seca
Bertrand Livreiros - livraria Online
A escola é uma seca, uma pesquisa em Filosofia na Fnac.pt
Livros portugueses, livros estrangeiros, livros escolares e ebooks - Wook

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A escola é uma seca


Continuo a receber um agradável retorno na análise ao livro que publiquei no início deste ano. Trata-se de um livro, entre outros, sobre a mesma temática. Porém, agrada-me, sobremaneira, os comentários que muitos me fizeram chegar, baseados na necessidade de uma profunda reflexão sobre o sistema educativo vigente. No final do mês de Agosto estará disponível na Feira do Livro de Lisboa. Entretanto, está em curso a preparação de mais um ano escolar. Oportunidade para todos reflectirem sobre a escola que oferecemos aos jovens face àquela que eles desejam.

Quem estiver interessado pode adquiri-lo através das plataformas:

 
Pode, ainda, ser adquirido:

Livraria Esperança - Funchal
FNAC - Madeira

Ou endereçando o pedido para o seguinte e.mail:

joaoandreescorcio@gmail.com 

terça-feira, 14 de junho de 2022

“A escola é uma seca”

 

Intervenção 
do Doutor Francisco Gomes
na Feira do Livro do Funchal  



Muito boa tarde e parabéns ao autor pelo brilhante trabalho que hoje é apresentado.

O livro do Professor André Escórcio constitui um dos raros exemplos de uma obra que vale antes sequer de começarmos a ler a primeira página.

E isto tem a ver com aquilo que a obra é na sua essência: um trabalho sério de um pensador íntegro que, de mente e coração abertos, rompeu com a demagogia de reflectir sobre a Educação com base em impulsos pseudo-modernos e politicamente correctos, mas, pelo contrário, ousou pensar a Educação nas linhas daquilo que a mesma pode e deve ser, isto é, um processo de crescimento físico e mental que assume, sem receios, o objectivo de transformar o mundo numa comunidade de gente bem formada e que trabalha, com determinação e gosto, para se transcender no alcance desse privilégio colectivo que é a felicidade.

Um trabalho desta abrangência e desta profundidade só nos poderia chegar pelas mãos de um homem como o Professor André Escórcio e não é difícil perceber porquê.

É porque pensar a Educação requer tempo, ponderação e a humildade de estar disposto a aprender com as lições que nos são transmitidas por aquilo que se tem vindo a passar dentro das nossas escolas, dentro das nossas salas de aula e dentro de cada aluno e de cada professor.

Por isso, pensar a Educação não se coaduna com a pressão que é típica de quem quer, de quatro anos em quatro anos, dizer que, antes, tudo estava mal e que, agora, tudo é brilhante.

É também porque pensar a Educação requer a paciência e a objectividade para olhar para os factos, para os testemunhos de quem vive a Escola e de quem faz a Escola na sua dimensão humana, respeitando os sentimentos, as opiniões e as ilações que são passíveis de extrair dos testemunhos de quem está na linha da frente e de quem, nessa linha da frente, testemunha o que o autor caracteriza tão bem como o “desencontro inevitável que está instalado entre a escola e a vida”.


Por isso, pensar a Educação não se compagina com a apetência para massajar os dados, moldar as estatísticas e reduzir aquele processo a números que não medem (e que nunca medirão) a dimensão Humanista de uma área onde, como o autor aponta, “qualquer coisa de podre está lamentavelmente instalada”.

Minhas senhoras e meus senhores,

Neste livro, está um percurso de décadas. Um percurso muito pessoal e de alguém que percebeu, há muito, que um país que se divorciou da delicada tarefa de educar, não serve para nada, da mesma forma que um país que forma os seus e depois os exporta por qualquer preço, não é um país de verdade.

É, porventura, um Estado a prazo ou, por demasiadas vezes, um manicómio em auto-gestão.

Mas, de uma maneira ou de outra, é um país está a odiar-se e a suicidar-se, pois não entende as sementes que anda a jogar à terra e os frutos que, para prejuízo de todos nós, já tem vindo a colher.

E o que são esses frutos?

O autor é claro: “Uma escola onde ninguém é feliz.”

Mas – e atenção – quem pensa que este trabalho se limita a pensar a Educação de um ponto de visto teórico ou fundamentado em exercícios hipotéticos de experimentalismo intelectual ficará certamente desiludido. A esses, que porventura adoram se banhar em discussões estéreis sobre currículos, programas, organigramas, padronizações do sistema e uma suposta meritocracia que não existe - a esses, definitivamente, não recomendo a leitura desta obra. Pois a mesma é um trabalho que, recusando mediatismos, aponta, com rigor e visão estratégica, caminhos práticos e exequíveis para reformas que tardam.


E que este importantíssimo livro, pelo qual devemos estar gratos, nos chegue quando estamos a sair de uma crise pandémica, que suspendeu a vida durante dois anos, não é coincidência nenhuma.

Durante esse tempo, de uma forma mais visível ou mais discreta, assumimos o compromisso de fazer parte de uma nova construção, de repensarmos estratégias, de sermos diferentes e de agirmos diferente relativamente aos outros e a tantos aspectos da sociedade.

Mas o confinamento passou e nós voltamos às ruas como delas tínhamos saído: enormes na pegada que deixamos no carbono, cheios de protagonismo e até aborrecidos com o tempo que nos parece ter sido roubado e que urge compensar.

A Escola também está de volta. Sobreviveu.

Da noite para o dia, teve de responder ao maior desafio da sua existência moderna. Mas sobreviveu! E nunca será demais recordar que os grandes responsáveis não foram as tutelas, nem as autarquias.

Os grandes responsáveis foram os professores.

Não abandonaram os seus alunos e imediatamente iniciaram o trabalho nas suas casas, com os seus próprios meios e com as condições que tinham ao seu dispor: o seu computador, o seu ‘tablet’, o seu telemóvel, a sua Internet e a sua energia eléctrica.

Mais! Exerceram a sua profissão no seu espaço familiar e íntimo, com os alunos a entrar virtualmente pela casa dentro, sem que ninguém lhes tivesse sequer pedido licença para abdicar da sua privacidade.

Mas, se há problemas que o profissionalismo, a competência, a dedicação e a paixão dos professores ainda resolvem ou vão disfarçando, há muito outros que, como este livro sabiamente indica, perduram no tempo, delapidando um sector que é nevrálgico, mas vítima constante da inépcia da parte de quem mais deveria fazer para preparar o futuro.


Destaco, destas ponderadas e profundas páginas, seis desafios que se colocam à Educação e para o qual o autor muito nos sensibiliza.

O primeiro desafio é também o mais básico: o facto da generalidade dos professores nem um lápis tem da escola. Pagam as suas ferramentas de trabalho com os salários que recebem, e, com o apoio das mesmas, dão o melhor para, dia e noite, estarem disponíveis para os alunos e para os encarregados de educação.

Não são mentira os telefonemas que recebem dos pais às oito, nove e dez da noite e os quais atendem para que os assuntos sejam resolvidos.

Não são mentira os e-mails que recebem dos alunos a essas mesmas horas (e até mais tarde), mas que respondem para que as dúvidas fiquem esclarecidas e para que os trabalhos sejam validados.

Sobre estes esforços – que permitem que o Sistema de Ensino funcione, apesar das lacunas elementares que perduram – nem uma palavra de reconhecimento público, nem um galardão.

E este livro ajuda-nos a perceber que é também por causa de atitudes dessas que o espírito de missão e de entrega que caracteriza a generalidade dos professores é também, e tantas vezes, desconsiderado e secundarizado pela opinião pública.

O segundo desafio é o da tecnologia, e, sem qualquer desprimor para com as facilidades comunicacionais que as novas plataformas trouxeram, este livro convida-nos a não esquecer que a Educação é, acima de tudo, um acto relacional. E é só através dessa relação humana que a escola poderá conseguir lutar para garantir os cuidados, a protecção, os afectos, a igualdade de oportunidades e os estímulos que potenciam um desenvolvimento individual e coelctivo.


Por isso, insistir de forma simplista na revolução tecnológica ou até no Ensino não-presencial faz, como tem feito, com quem muitos fiquem para trás – ou porque não têm computador, ou porque não têm acesso à rede, ou porque têm necessidades especiais que não se coadunam com tal modelo de aprendizagem, ou, simplesmente, porque os seus pais têm de optar entre adquirir um computador ou por comida em cima da mesa.

Minhas senhoras e meus senhores,

Este livro sensibiliza-nos, e muito, para o facto de que, em vez de insistirmos na noção de que a tecnologia é uma panaceia para uma Educação em crise, seria muito mais útil e importante recuperar a relação pedagógica, a qual é o único canal para conquistar o que o autor pertinentemente classifica como uma escola “que assegura a curiosidade de cada aluno”.

Pelo contrário, insistir em plataformas que não estão ao alcance de todas as famílias, ainda mais numa sociedade com níveis crescentes de pobreza, é fazer com que o modelo de Educação se converta, ele mesmo, num canal para o aprofundamento das assimetrias sociais existentes. Ou seja, a escola a espelhar o fosso entre ricos e pobres que corrói e corrompe a nossa fibra humana e de comunidade.

Temos que fazer melhor!

O terceiro desafio é a inaceitável e incompreensível sobrecarga de trabalho que hoje recai nos ombros dos professores, que já não estão na escola apenas para patilhar conhecimentos ou aprofundar a busca pelo Saber. Não!

O professor é psicólogo, é educador para a sexualidade, é conselheiro nutricional, é formador Ético, guia Moral e até polícia.

O professor é funcionário das fotocópias, pois a fotocopiadora está sempre avariada ou porque não há papel.

O professor é agente de Acção Social, pois organiza recolha de alimentos para as famílias dos alunos mais carenciados.

O professor é funcionário da limpeza, pois a higienização das instalações e dos materiais pedagógicos não se faz sozinha e os poucos auxiliares que existem estão ocupados no outro lado da escola ou, simplesmente, de baixa.

O professor é técnico de ocupação de tempos livres, pois idealiza e materializa actividades extra-curriculares que procuram estimular o desenvolvimento dos alunos.

O professor é burocrata, pois passa uma porção irracional do seu tempo a preencher papelada inútil que só serve para certos terceiros fazerem brilharetes.

O professor é pai e mãe, pois as famílias estão, numa confrangedora generalidade, alienadas do processo educativo, olhando para a escola como uma espécie de entreposto onde depositam os filhos o mais cedo possível e de lá os recolhem o mais tarde possível.

E, no meio de tudo isto, alguém ainda pensa que os professores têm o tempo e a disponibilidade mental para ensinar?

Não! Muito pelo contrário! A situação é tal que, na maioria das nossas escolas, no meio das tantas folhas, tabelas e exigências, ensinar transformou-se numa mera e triste nota de rodapé.

Temos que fazer melhor!

O quarto desafio que este livro nos traz é o facto de que as escolas são, todos os anos, sem excepção, brindadas com orientações que introduzem naquelas instituições um quadro de indefinição, confusão, desorientação e incertezas.

A juntar a isto, e falando concretamente dos tempos mais recentes, as escolas têm que lidar com disposições legais que, na prática do contexto escolar, valem uma tábua rasa.

Ou não se sabia que era totalmente impossível andar atrás de cada aluno para saber se tem a máscara posta ou tirada?

Ou não se sabia que era totalmente impossível cumprir distanciamento social em turmas com vinte e cinco ou trinta alunos?

Ou não se sabia que era totalmente impossível manter três metros de distância nas aulas de Educação Física?

Claro que se sabia!

Temos que fazer melhor!

O quinto desafio que este livro nos apresenta é o de perceber que a escola é um centro de formação, no qual deve ser nutrido o respeito pela capacidade de pensamento dos intervenientes, pelo quadro de Valores que formam a nossa identidade e pela integridade moral, que deve ser estimulada e acarinhada.

A escola não é um centro de doutrinação, onde os programas e os currículos estão orientados para certas directrizes filosóficas, estéticas e até ideológicas que são consideradas desejáveis e boas por quem assumiu que manda na Educação. Este problema é uma questão demasiado séria, pois choca directamente com o tipo de cidadãos que estamos a produzir e o que eles e elas irão, por sua vez, considerar bom ou mau na vida quotidiana.


Temos que fazer melhor!

O sexto desafio que o autor nos lança é o de corrigir o problema estrutural que existe no Ensino, nomeadamente a sua desadequação para preparar um país de futuro.

O Sistema de Ensino tradicional, que é o praticado na esmagadora maioria das escolas públicas, foi construído para servir as necessidades de uma sociedade industrial.

Como tal, os alunos eram (e ainda são) forçados a receber grandes quantidades de informação estandardizada, que têm de memorizar de forma mecânica, pois serão posteriormente testados através de exames padronizados.

Nesta lógica, o Ensino torna-se num mero sistema que tem na conformidade e na concordância as noções que levam a bons resultados académicos e a uma mente supostamente inteligente.

Mas, e como o autor indica, nada poderia ser mais errado!

O mundo em que hoje vivemos é muito mais acelerado e complexo do que era, e, como tal, o mercado de trabalho das próximas décadas será muito diferente daquele de há algumas décadas atrás.

Portanto, para enfrentar os desafios desta nova vida, as crianças e os jovens que hoje realizam a sua formação não precisam de conformidade e concordância e metodologias ditas adequadas, as quais só levarão ao agravamento das taxas de abandono e à subida na proporção de estudantes considerados ‘especiais’, ‘hiper-activos’ ou com ‘défice de atenção’ porque, simplesmente, não se enquadram nos padrões definidos como normais. Pelo contrário, precisamos de um Ensino que potencie e valorize as competências que são fundamentais para a vida e para o trabalho numa sociedade globalizada, nomeadamente competências de comunicação, competências colaborativas, competências digitais, criatividade na resolução de problemas complexos e pensamento crítico.


A juntar a isto, precisamos de um Ensino que invista mais na determinação, na perseverança, no auto-conhecimento, no optimismo e no reconhecimento do valor que existe nas diferenças entre os seres humanos.

Pelo contrário, insistir nas ideias de sempre é insistir nos crimes que andam a matar a escola.

Aliás, como o autor sugere, a escola morre.

E os professores sabem-no.

E é também por isso que a classe não se rejuvenesce. Em breve, não teremos professores suficientes. E, também assim, pagamos o preço de lideranças sem competência, nem visão, para tornar a carreira docente atractiva para os bons e para os melhores.

A escola morre.

E os alunos sabem-no.

E é também por isso que o abandono escolar é uma realidade.

Apresar das exigências serem cada vez menores e de ser praticamente impossível para um professor chumbar um aluno nos dias que correm – ou seja, estamos totalmente focados no facilitismo e em criar uma geração de medíocres – muitas das nossas crianças e jovens continuam a espelhar uma apatia preocupante e que é comprometedora do futuro.

A escola morre.

E os pais sabem-no.

E é também por isso que estão fartos que lhes peçam que contribuam para fundos de maneio para a aquisição de material escolar básico.

Fartos que os filhos cheguem a casa a queixar-se da ‘qualidade’ das refeições nas cantinas.

Fartos dos pavilhões em que chove dentro.

Fartos das janelas da sala que não fecham e levam a constipações e gripes.

Fartos dos edifícios que, há anos, são deixados ao abandono.

Assistem à falência do Ensino público e sabem, lá no fundo, que, por muito motivados que estejam os professores, eles e elas, só por si, não têm a capacidade para fazer a mudança.

Intenções? Sim, estão lá. Mas, no inferno, também.

Minhas senhoras e meus senhores,

Numa era em que tanto gostamos de falar dos modelos seguidos nos outros países, o autor deste brilhante trabalho sabiamente recorda-nos que era bom que percebêssemos que não precisamos de copiar nada, nem ninguém.

Precisamos, só e apenas, de fazer o que o Professor André Escórcio nos desafia a fazer neste livro:

Olhar com carinho para o que temos

Valorizar o que de bom ainda conservamos

Avançar para a mudança cuja urgência conhecemos

Perceber que a Educação é a argamassa que nos une

E sentir, com responsabilidade e respeito, que, enquanto não pensarmos a Educação, nunca poderemos, nem conseguiremos, pensar um país.

Muito obrigado, Professor André Escórcio, pelo muito que as suas palavras nos ensinam.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Feira do Livro do Funchal - "A ESCOLA É UMA SECA"




A organização da Feira do Livro convidou-me, aceitei e ontem tive mais uma oportunidade para falar sobre Educação. Estou grato à Drª Sandra Nóbrega, líder da equipa responsável por esta edição.

O tema deveria ser motivo de um alargado debate entre professores, alunos, pais e políticos. Sinto, infelizmente, que o sistema continua a ser passado pelo rolo compressor da uniformidade. A minha convicção é que vamos pagar muito cara esta apatia, desde logo no plano da economia e da felicidade das pessoas. A centralização dos processos, a aflitiva burocracia que invadiu as escolas, a rotina, os currículos, os programas e o formato pedagógico estão a matar talentos e sonhos. É o que dizem tantos estudos, reportagens, filmes e desabafos. A escola manifesta-se incapaz de olhar o mundo e de respeitar as crianças e os jovens.

Mas, ontem, senti-me acompanhado e, permitam-me, com uma sensação que vale a pena "meter o pauzinho nesta engrenagem". Fiquei feliz, após uma minha mensagem de agradecimento, a Drª Andreia Batista, que no evento representou o Departamento de Cultura da Câmara, ter escrito: "Tudo o que partilhei vem do fundo do meu coração, porque acredito mesmo que está na altura de parar e olhar para a educação e para a cultura de outra forma: com os olhos do coração e a mente de um ser humano!" Esta frase diz tudo.

Convidei para apresentar o livro o Doutor em Ciência Política Francisco Gomes. Uma só palavra: emocionante. Pelo pensamento profundo que transmitiu e pelas preocupações enunciadas. Excelente. Um dia destes publicarei aqui o seu texto. Vale a pena lê-lo, creiam.

Obrigado a todos.

domingo, 20 de março de 2022

"A ESCOLA É UMA SECA" NA FNAC DO MAR SHOPPING (PORTO)



No Fórum FNAC, do Mar Shopping, no Porto, foi apresentado o livro "A Escola é uma Seca". Teve essa responsabilidade a Drª Cristiana Almeida, professora da conhecidíssima Escola da Ponte que falou sobre a sua experiência na sua escola em compaginação com o texto do livro.




Deixo aqui algumas partes do que enalteci:

O Sistema Educativo está calmamente sentado e muito próximo do olho do furacão. E os sinais do furacão são bem sensíveis por alunos, pais, professores e pelo sistema empresarial. Em síntese, a Escola está desfasada do tempo que estamos a viver. Quando, por um lado, os alunos dizem que “ali não se pensa, ali decora-se”, porque “a escola está desenhada em torno da matéria” e que “não existe um propósito”, por outro, 84% dos professores desejam reformar-se antecipadamente, significa isto que para os dois principais actores esta escola está conceptualmente desacreditada. Porque nos esquecemos que o papel da Educação é transformar.

O enciclopedismo que os currículos e os programas transportam, o ensino estático e segmentado por disciplinas, desfasados da vida real, não conduz a resultados proporcionais ao investimento na Educação. Aliás, faço minha a posição de Ilídia Cabral, docente universitária e investigadora, quando assumiu “que as escolas têm de aprender a ensinar no Século XXI, sob pena de se tornarem dispensáveis”. Estamos preocupados com conteúdos programáticos, quando existe uma grande diferença entre conteúdos e conhecimento. Nesta escola, o conteúdo está mais próximo da quantidade; o conhecimento constitui uma aposta na complexidade. Em síntese, confrontamo-nos com uma escola igual para todos, quando todos somos diferentes na origem e nos sonhos.

Hoje, se bem observarmos, continuamos a ter de um lado a Escola e do outro a Vida. Uma Escola acantonada dentro dos seus muros, incapaz de os trepar e olhar para o que se está a passar em todos os outros sistemas. Se a escola fizesse esse esforço de espreitar o mundo, mesmo por uma fresta, perceberia o crescente desencanto daqueles que diz querer formar. Perceberia as fragilidades e as causas do abandono e do insucesso. Perceberia, certamente, que pouco vale a imensa tralha de pseudo-conhecimento desarticulado que transmite. Aliás, o sistema continua a preparar para empregos que não vão existir. Porque estamos agarrados, de forma inflexível, aos currículos, aos extensos programas e aos formatos pedagógicos que matam a curiosidade e o sonho.


A Constituição da República deveria possibilitar a existência de um país com três sistemas educativos: Continental, Madeira e Açores, no pleno respeito pelas Regiões Autónomas. As regiões só deveriam ter como limite a acessibilidade ao nível superior, sublinho, enquanto permanecer o actual quadro de exames no 12º ano. Se todo o sistema for debatido, parece-me óbvio que surgirá outro formato onde o exame deixará de ser prevalente para a entrada no superior.

O livro está à venda:
Livraria Esperança - Funchal

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

A ESCOLA É UMA SECA


A Drª Júlia Caré apresentou, na sede do Sindicato de Professores da Madeira, o livro da minha autoria "A Escola é uma seca". Deixo aqui o seu texto, ao longo do qual deixou muitas interrogações aos presentes.



- Da primeira apresentação do livro do André Escórcio, em 21 de janeiro, retive duas expressões que me pareceram relevantes:

- do colega Valentim Remédios a expressão: “fazer flores”, pretendendo referir-se aos/às alunos/as que se adaptam à cultura tradicional de escola, que têm suporte familiar e ajuda para se prepararem para os rituais exigidos pela tradição e rotina escolar secular – a cultura das aulas, da memorização da “matéria”, dos testes, dos exames, da nota para o quadro de honra e para aceder ao Ensino Superior e com quem é mais fácil os professores trabalharem; mas e cada vez mais, a imensa maioria de crianças e jovens que não se identifica com a organização fragmentada da escola em anos, ciclos, turmas mais ou menos numerosas, disciplinas, aulas, práticas docentes de explanação dos programas instituídos e de avaliação, estudo para o teste que se esquece logo a seguir… uma escola a transbordar de conteúdos memorizáveis e pouca construção de sentido e conhecimento para a vida.

- do Padre Martins, a questão: “como agarrar as margens?” eles/elas serão os/as que ficam de fora, que não se identificam com a cultura monocultural, monocurricular, etnocêntrica da escola, pensada neste país conservador, tradicionalista, para alunos/as maioritariamente de classe média urbana: Os/as outros/as da imensa e complexa diversidade cultural deste país profundamente desigual, pós-colonial, desenraizado da ruralidade interior e fixado nas indistintas, populosas e degradadas periferias habitacionais urbanas das grandes metrópoles, com índices de baixa escolaridade familiar, pobreza estrutural transgeracional, a quem a democracia falhou na realização da esperança. Que “elevador social” para “as margens”, que escapam à meritocracia do apelido familiar, do berço e do bairro elitista e consequente estatuto socioeconómico, da pertença cultural, ou da cor adequada do cartão partidário no poder?


IDEIAS QUE CONSIDERO CENTRAIS NO LIVRO


APROPRIAÇÃO DOS CONTEÚDOS PELOS/AS ALUNOS/AS HOJE – nunca será ao mesmo tempo, nem da mesma maneira; o facto de a matéria ser dada, não quererá dizer que ficou sabida – (wishful thinking da escola) - porque a construção do conhecimento é sempre única, pessoal, condicionada pelos contextos pessoais, pelas experiências de aprendizagem anteriores, pelo grau de interesse sobre o assunto, pela motivação para aprender, pela utilidade ou sentido que o assunto lhe merece, em termos de presente ou futuro, etc…

A ESCOLA HOJE E A IGUALDADE DE OPORTUNIDADES PARA APRENDER – cooperação ou competição na vida de todos os dias? (alguém diz tratar-se de uma cultura de guerra). De que modo se opera a preocupação com a diferença, a diversidade na escola? Integração e inclusão em Unidades Especializadas, devidamente cuidada, ou apenas de corpo presente? Que equilíbrio nesta tensão entre o que deveria ser – a utopia de que fala o André Escórcio no seu livro – e o que é possível, necessário, conveniente, desejável para determinados grupos sociais?

A CONSTRUÇÃO DA EMANCIPAÇÃO - da verdadeira igualdade de oportunidades, ou a consolidação /reprodução das desigualdades? Como estimular as capacidades que o ser humano tem para aprender sozinho, atingir o momento síntese, “Eureka!” Um processo individual de descoberta – o saber que passa pelo coração, no dizer de Rubem Alves, desperta curiosidade, sensibilidade, fica para a vida e quer sempre mais, numa eterna insatisfação e incompletude? (José Paulo Serralheiro, os 5%(?) que se aprendeu, à saída do Secundário…) Já esquecemos o objetivo europeu da Educação permanente, o lifelong learning?

A ESCOLA POR ALUNO/A - a verdadeira escola à medida de cada um/a – respeitadora da individualidade de cada criança / jovem. Uma utopia?
- como enfrentam as escolas as diferentes realidades sociais, familiares, por detrás de cada criança / jovem? Ou isso é suposto não ter importância?

QUE MARGENS DE AUTONOMIA TEM A ESCOLA? - E que autonomia quer ter?
- quem define/decide tudo o que se passa na escola? E que liderança seria desejável? Pode a escola aprender a ser diferente?
- o que conta para a escola? As metas? Os 20 da pauta do quadro de honra e da efémera massagem ao ego? E os que parecem escorregar para o desinteresse, o insucesso, a desistência, com todos os custos individuais e sociais?
- até quando esta organização fragmentada da escola em currículos transbordantes, períodos, disciplinas, aulas, tempos e espaços, iguais para todos?
- e porque não à volta de temas aglutinadores envolvendo a generalidade dos saberes disciplinares? A inter / trans / disciplinaridade não será mais apropriada à diversidade e complexidade social e cultural na escola, mais justa para quem ensina e aprende, e para o desenvolvimento de competências para continuar a aprender pela vida fora?

O PAPEL DOS EXAMES / OS RANKINGS – ou a perversão da avaliação
- os exames servem para seriar, selecionar, excluir e esquecer o que se memorizou. E os rankings pretendem comparar o incomparável, fazendo-se dos resultados dos exames, bitolas de qualidade educativa, sucesso e insucesso, responsabilizando escolas, promovendo outras, havendo defensores e comentadores em profusão, todos os anos na ladainha habitual… Que interesses defendem?
- como entender que se continue a fazer testes e exames iguais para todos? Por que se convencionou e ninguém tem coragem de fazer diferente? A Escola é uma convenção e todas estas práticas, meros rituais iniciáticos e de passagem?

OS CHUMBOS E AS RETENÇÕES – fracasso dos apoios em dose cavalar em catadupa, que apenas sobrecarregam os horários das crianças com mais do mesmo, mais horas na escola… Quando se poderia intervir na própria aula, coadjuvando o colega titular… Mas para isso era preciso que a porta da sala de aula – a caixa negra da relação pedagógica, no dizer de Maria Teresa Estrela – fosse franqueada sem receio nem desconfiança…. Para isso, precisávamos de outras culturas profissionais, de mais cooperação e partilha, parceria pedagógica, “team teaching” e afins… E quanto a repetências, só a escola se repete em mais do mesmo, redundante no ano seguinte, porque a criança será uma pessoa diferente. Na escola por aluno/a, não haveria chumbos nem retenções (ler pg 184, Avaliação na Escola da Ponte)

O PAPEL DOS MANUAIS – serão eles indispensáveis a uma educação de qualidade? Ou uma questão de sobrevivência económica das editoras e que juntamente com a indústria dos explicadores eterniza práticas escolares seculares continuadoras da desigualdade, desenquadradas do século que vivemos… e da era digital…

OS PROFESSORES – o peso da tradição, do “status quo”, do conservadorismo, da burocracia esmagadora e sem sentido, a solidão docente, a resistência à mudança, a insegurança, a ausência de lideranças inspiradoras nas escolas… A urgência do tempo para pensar, - meia hora por dia (Santos Guerra) - dialogar, trabalhar em equipa, colaborar, desmistificar as manobras pseudo avaliativas de desempenho docente, que apenas servem para dividir e criar animosidade… Talvez repensar a formação inicial? Que papel para as universidades, da nossa UMa, no desenvolvimento de projetos de investigação-ação em parceria com as escolas, de modo a ajudar o desenvolvimento docente?... As mexidas no Estatuto, na carreira com a finalidade única de pagar menos salário e evitar que a esmagadora maioria chegue ao topo e tenha uma aposentação condigna…

A RELAÇÃO ESCOLA-FAMÍLIA – A ESCOLA A TEMPO INTEIRO – armazém de crianças, ou estratégia ao serviço da desregulação laboral, ataque aos direitos dos trabalhadores? Excesso de tempo na escola para as crianças, mais do que o horário de trabalho dos pais, curricularização do tempo livre, eliminação do tempo para brincar – amputação da infância…

A IMPORTÂNCIA DA CULTURA na escola – como condição indispensável à sensibilização para a riqueza que a diversidade cultural representa em democracia, enquanto aprendizagem e humanização freireana com o outro, à promoção da tolerância e respeito pelos Direitos Humanos, ao combate ao estereótipo e preconceito, e central à construção do pensamento crítico (pg 103 – “É a globalidade que está em causa…”)

O QUE A AUTONOMIA DA MADEIRA poderia ter feito, para além do discurso laudatório e narcisista de efémeros pioneirismos, indo mais além da retórica em matéria educativa…

Júlia Caré
SPM, 7 de fevereiro de 2022