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sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Os bons alunos não tiram sempre boas notas


Por 
Eduardo Sá
Psicólogo



Porque não gostam de todas as disciplinas por igual.

Porque não são sensibilizados para o conhecimento, em todas as áreas, com a mesma paixão.

Porque não aprendem a gostar de todas as disciplinas de forma semelhante e ao mesmo tempo.

Porque há boas aulas e aulas assim-assim.

Porque, entretanto, acumularam algumas dificuldades numa área ou noutra e, por isso, muito naturalmente, vão imaginando que são maus numa matérias e bons noutras, o que faz com se dediquem a elas de forma muito diferente.

Porque nem sempre têm professores que destrincem os porquês das suas dificuldades e os ajudem a decifrá-las e a aprenderem a gostar daquilo que não entendiam.

Porque nem sempre os critérios de avaliação dos diferentes professores se casam com a forma como um aluno intui, discorre e comunica aquilo que sabe.

Porque nem sempre são ajudados a pensar as disciplinas e a estudar para elas, sendo-lhes pedido mais facilmente boas notas do que boas dúvidas, sobre as quais se pronunciem e pensem.

Porque há professores e há escolas que põem pó de arroz nas notas. Outros que são austeros e severos. E outros, ainda, que são, simplesmente, justos.

Porque há pais que entendem que eles devem ser autónomos na forma como estudam e aprendem e os responsabilizam pelos seus desempenhos e pais que estudam por eles ou que estudam com eles.

Porque há alunos que têm equipas de explicadores a trabalhar com eles e alunos que se bastam a si próprios na forma como aprendem.

Porque há momentos, numa família, que não são nem amenos nem arejados, e isso repercute-se na forma como um aluno tem cabeça ou não para ter alguma disciplina, método e autonomia.

Porque “há dias”, e nem sempre se tem “cabeça” e segurança quando se trata de responder a uma questão ou a expressar-se aquilo que se sabe, de forma expedita e clara.

É por isso que nem todos os alunos têm sempre boas notas. E é, também por isso, que nem sempre as notas correspondem a uma leitura irrefutável daquilo que se vale. Nem é razoável que se afunile uma avaliação nas notas e se perca de vista que, em muitos momentos, um “falhanço” traz mais oportunidades de crescimento que muitas boas notas juntas.

Ilustração: Google Imagens

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Não vai correr tudo bem


Mais que o início das aulas, o regresso da escola vai representar um segundo (e mais desafiante) desconfinamento. Porque, “de repente”, haverá dois milhões de crianças que vão alterar o relativo isolamento social em que, desde Março, vinham a viver e passarão a interagir umas com as outras, de forma aberta, em contexto escolar.

Porque o ensino presencial, que vem sido reclamado (e bem!) pelos pais e pelos professores — e dado que as escolas não “esticaram” os metros quadrados que atribuem a cada turma (podendo o número de alunos, nalguns casos, chegar a 30) — passará a decorrer com o recurso a “pelo menos um metro de distância” entre alunos, em sala de aula, o que fará com que as crianças, mesmo com máscara e advertidas para os cuidados de saúde que devem ter, estejam demasiado próximas umas das outras, multiplicando (em muito) as probabilidades de risco de contaminação.

Porque o regresso às aulas se irá dar num contexto em que a relação entre trabalho presencial e teletrabalho dos seus pais estará mais “equilibrada”, o que faz com que, agora, não haja nem um quarto nem um terço dos alunos na escola. E que a tensão de todas as manhãs irá escalar; muito. Porque as horas no trânsito, o tempo para respeitar os procedimentos de entrega das crianças na escola (sobretudo, das mais pequeninas) e as próprias alterações climatéricas irão chocar com as recomendações preventivas que as escolas irão definir para o início do trabalho diário, o que vai ser um factor de “turbulência” para as crianças, para a escola e para a família, levando a que se “facilite” e se arrisque mais vezes.

Porque a contratação de (muitos) mais assistentes operacionais que consigam garantir as medidas de prevenção configuradas “no papel” tarda, e as escolas se vêm, uma vez mais, com a necessidade de pôr em prática medidas suplementares sem que sejam desbloqueados os recursos que o bom senso recomendaria que existissem, o que faz com que haja grandes diferenças entre aquilo que esperamos que aconteça e o que pode vir a acontecer.

Porque a forma como as escolas estão a preparar-se para “poupar” inequivocamente nos tempos de recreio, em nome da protecção das crianças, nos volta a trazer uma fórmula do género: “recomenda-se que, para sua segurança, as crianças não sejam crianças”. Que terá consequências graves na dinâmica das aulas e no aproveitamento escolar. Não ficando muito claro a quem competirá a gestão desta versão confinada de recreios, por mais que a sua consequência se configure muito preocupante. Já não sendo possível o recurso ao ar livre que, tantas vezes, nestes últimos meses foi mais uma sala de aula para muitas crianças mais pequeninas.

E porque as crianças vão, como de costume, saltitar entre actividades curriculares, actividades extra-curriculares, lúdicas, desportivas, etc., circulando por vários grupos, o que fará com que as probabilidades de multiplicarem várias vezes as suas interacções traga aumentos geométricos de riscos de contaminação consigo.

Logo, mesmo que o façam movidos por intenções generosas e não o repitam a torto e a direito, não façam com que se continue a presumir que, em relação ao próximo ano lectivo, “vai correr tudo bem”. Não vai! Não há como correr! E não se pressuponha, por favor, que tudo será uma catástrofe. Todos temos esperança que não seja assim! Mas irá haver, sem dúvida, muitos surtos localizados de covid, em contexto escolar. Em função deles, é claro que, temporariamente, muitas escolas terão de suspender a sua actividade lectiva presencial. Mas não está minimamente claro qual será o “plano B” ou o “plano C” das escolas, diante disto. Voltaremos (supõe-se), nesses interregnos, ao ensino à distância, por mais que seja preciso que se pergunte “Como?” e se cada aluno terá, dentro de um mês, um computador e meios digitais a que corresponda a essas necessidades. Não está, também, claro se os pais, mal isso suceda, terão meios e medidas sociais de protecção para acompanharem os seus filhos, porque se depreende que, regra geral, em função da sua idade e do risco que isso representa, os seus avós não o consigam fazer. E, o mais importante deste imenso imbróglio, digam-nos, por favor, o que se espera dos professores. Porque se o seu espírito de missão não se questiona, a sua idade e os factores de risco que possam ter não são aspectos que não nos preocupem e que não venham a trazer consigo muitas ausências forçadas e muitas dores de cabeça para nós, pais.

Acresce que, agora sim, depois de Março, os nossos filhos estão a regressar às aulas. E que os formatos generosos de transmissão de conhecimentos que se tentaram trazer para o seu dia a dia, durante a quarentena, abriram fracturas muito grandes no seu acesso acesso, legítimo, à escola. Na forma como “assimilaram” as matérias escolares e como entrarão neste ano lectivo com as maiores discrepâncias individuais entre alunos com que a educação obrigatória, porventura, já conviveu. E, depois, há às metas educativas. E o mais com que se convive num ano escolar. E, no meio disto tudo, fica a ideia que o Estado — que tem nas mãos uma tarefa duma complexidade inacreditável — parece falar connosco como se todos tivéssemos “necessidades educativas especiais”. E não fôssemos clarividentes e equilibrados. E não aguentássemos a verdade a que temos direito. Por mais que, todos juntos, informados e comprometidos, ajudamos a revolver melhor!

Finalmente, que não se fale da chegada de uma vacina em Dezembro como se a sua chegada diminuísse todos os riscos, de forma imediata, e ela não nos merecesse reserva e os cuidados indispensáveis, num primeiro momento.

Ou seja, o próximo ano lectivo vai ser duro! Para nós. Para as escolas. E, naturalmente, para os nossos filhos. Diante de tudo isto, teremos toda informação, todos os cuidados e (desculpem!) todo o respeito que mereceríamos? Infelizmente, acho que não. Mas ainda estamos a tempo…

Eduardo Sá
Fonte: Observador

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Daqui a pouco mais de 2 meses estamos no regresso à escola

Por
Eduardo Sá
Psicólogo

As crianças não aprendem sozinhas, do zero, à mesma velocidade e não aprendem todas da mesma maneira. Mas a escola foi criando esse equívoco ao longo dos anos. E deixou que o ensino obrigatório - que foi a maior revolução tranquila da Humanidade, o grande instrumento de democracia social e a razão de resgate de milhões de crianças ao trabalho infantil e da sua devolução à infância - tivesse "escorregado", vezes demais, para uma "produção em série" que transformou a escola numa "linha de montagem" de "jovens tecnocratas de sucesso". Onde os rankings, centrados sobretudo nos resultados dos exames, introduziram o desconforto da existência de manipulação de resultados que nem sempre nos permitiu perguntar se a escola estaria a cumprir a sua missão. 


Por mais que o tempo absurdo de momentos diários relacionados com a escola, o volume de trabalho semanal que lhes é exigido, a transformação da escola em espaço de guarda prolongada de crianças e o modo como lhes foi sendo, sucessivamente, tirado tempo de recreio, contribuiu para que: a escola se transformasse, de vez em quando, no "trabalho infantil" do século XXI; para a "epidemia atípica" de défices de atenção e de transtorno de "hiperactividade"; e, sobretudo, para que tenha vindo a ser tirado tempo de infância às crianças.

O modelo de "escola do passado" já morreu. Mas inquieta reconhecermos que a escola não soube reinventar-se. E a responsabilidade disso é de todos nós. E, em muitos momentos, aquilo que pareciam passos em frente, talvez não o tenham sido. A forma como, devagarinho, o jardim de infância se foi tornando mais em pré-escola do que devia passou a ser, estranhamente, aceite pelos pais. 

A discussão em relação à reutilização dos manuais escolares sobrepôs-se às questões indispensáveis sobre os seus conteúdos. A introdução de tablets, desde muito cedo, na aprendizagem não foi acompanhada pela discussão indispensável acerca da utilidade da motricidade na aprendizagem da leitura e da escrita. A introdução pedagógica de quadros interactivos e de datas-show não foi acompanhada pela discussão acerca da forma como a escola, apesar desses instrumentos preciosos, não pode continuar, sobretudo, a transmitir conhecimentos de forma expositiva, passiva, pouco participativa e pouco criativa, ao mesmo tempo que ignora a sabedoria das crianças na construção do conhecimento e menospreza a formação dos professores.

A escola precisa de ser reinventada! E, no entanto, a pandemia obrigou a escola a reinventar-se mais em 2 meses do que o terá feito em muitos, muitos anos. É claro que, pelo caminho, ficaram alunos que não tiveram acesso à escola por não disporem de computadores, de internet e de telemóveis com dados. Houve imensos alunos cujo rasto foi perdido por muitos professores. Houve muitas crianças a estarem sozinhas em casa. Houve pais a fazer de professores e de explicadores. Houve pais a realizar testes e trabalhos que deviam ser feitos pelos estudantes. Houve os maiores índices de desigualdade social que temos visto na escola, considerando muitos anos. Houve escolas a realizar o mesmo plano de trabalho diário (desta vez, em casa). Escolas a propor páginas para ler. Escolas a exagerar nos trabalhos de casa. Escolas demissionárias em relação aos seus compromissos com os alunos. Mas, no entanto, a pandemia obrigou cada escola a reinventar-se por si e cada professor a manifestar inventivamente as suas singularidades e o seu potencial. Por mais que os nossos filhos tenham estado 6 meses sem ir à escola! E os sucedâneos que encontrámos para lhes dar, por mais generosos que fossem, acentuassem desigualdades, criassem uma nova vaga de necessidades educativas especiais e deixassem as crianças que necessitam de educação especial mais sozinhas nas suas dificuldades. E podem ter contribuído para tantas ilusões de falsas aprendizagens que se torna urgente perguntar que escola vamos ter em Setembro. Quando as limitações de espaço e o número de professores nos parecem encaminhar para que, em nome das regras de protecção das crianças, as escolas não tenham espaço senão para metade dos alunos de cada vez. Quando o envelhecimento dos docentes e os seus índices de risco à exposição do coronavírus irá acentuar as limitações de professores disponíveis de forma alarmante. E quando uma segunda vaga de coronavirus se torna insistentemente plausível.

Estamos no ano zero da reinvenção da escola. Onde os conteúdos terão de ser mais interactivos entre si. Os pais e os professores mais interactivos do que nunca. Onde os formatos tradicionais de aprendizagem e as novas tecnologias vão ter de ser mais interactivos do que alguma vez já foram. Onde o ensino presencial e o ensino à distância vão ter que começar a interagir. Mas onde os ecrãs não podem passar de "inimigos públicos" das crianças a aliados de todas as horas da escola e dos pais. Onde o professor não pode ser um actor secundário do processo de aprendizagem. Onde os pais não podem ser os agentes do ensino à distância. E onde a telescola não substitui a escola.

Estamos em finais de Junho. Daqui a pouco mais de 2 meses estamos no regresso à escola. E é inacreditável, considerando aquilo que as melhores perspectivas pandémicas nos permitem ou (plano B) a perspectiva duma segunda vaga de infecção, que não se inicie um debate público urgente que vá no sentido de estarmos esclarecidos acerca da escola que vamos ter em Setembro (por mais que as incertezas deste tempo sejam muitas). Sabendo nós que a escola não será (mais) igual à escola que tínhamos em Março. É verdade que as turmas serão partidas ao meio? É verdade que os alunos ora irão à escola ora estarão em casa? Ou é, antes, verdade que as turmas irão ser desdobradas, com turmas de manhã e turmas de tarde? É verdade que os recursos pedagógicos que a pandemia nos trouxe vieram para ficar? É verdade que as escolas irão funcionar num regime misto (em B-learning)? É verdade que se estenderá um mesmo regime de aulas aos alunos de todos os níveis de ensino? É verdade que um dos pais se arriscará a trabalhar à distância, semana sim semana não, ou a reclamar um estatuto de apoio à família para garantir a educação das crianças ou a redefinir o regime da guarda diária dos seus filhos? É verdade que todas as crianças terão um computador pessoal e internet ao seu dispor? É verdade que os manuais escolares serão, cada vez mais, plataformas digitais? É verdade que os professores irão repartir-se por formatos combinados de aulas? Que escola podemos esperar? Por tudo isto, é urgente e é inadiável que o ministério da educação esclareça os pais, os professores e o país acerca d’o dia depois de amanhã da escola. Recordo que o regresso à escola já começou para as famílias. Porque esta é altura em que, antes de férias, os pais planeiam escolas, actividades extra-curriculares e tudo o mais que faz parte da logística muito complexa da educação de uma criança. Será que vamos aproveitar para reinventar a escola ou, pelo contrário, ficaremos entregues ao improviso, ou à expectativa de não anteciparmos medidas na esperança de que "vai correr tudo bem"? Afinal, com que escola podemos contar?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A educação positiva


Será "pela positiva" que os pais se tornam melhores pais?
Há ideias simples que representam sínteses inteligentes de um conjunto de princípios da psicologia e que, muito depressa, se transformam em termos que ganham tracção na opinião pública e se repetem, repetem e repetem. Exemplo disso serão, a "inteligência emocional" ou a "educação positiva". Por mais que nem sempre essas ideias sejam utilizadas com a robustez e fundamentação que o bom senso exigiria, há quem, a propósito delas, fale de "estudos científicos" e lhes junte algumas pitadas avulsas de "neurociências" e, de repente, temos pessoas das mais diversas profissões a fazer "couching parental". Isto é , tudo aquilo que não ousamos fazer a propósito da medicina, da engenharia ou do direito. Com um risco (grande) desse voluntarismo levar alguns pais ao engano.



Uma ideia assim estruturada duma "educação positiva" pretende colocar-se como alternativa a uma "educação repressiva", que seria severa e ancorada na obediência. Ao contrário da "educação repressiva", a "educação positiva" tomaria em consideração a empatia e o respeito pelas emoções das crianças.
Foquemo-nos na empatia. E na ideia de, para não interferirem negativamente no equilíbrio entre desenvolvimento mental e equilíbrio nervoso, os pais "terem de ser" empáticos. Ora, ninguém é empático porque tenha ser empático. Ninguém é empático num contexto de "faz de conta". E não é por uma pessoa reivindicar a sua empatia que é empático. [Aliás, empatia, vinculação e tantos outros termos da psicologia, por mais que sejam um património de todos, mereciam ser compreendidos com outro rigor por parte de quem os reclama para se evitarem muitos equívocos.] Por outras palavras: para muitos pais, ser-se empático é entendido como condescender, não culpabilizar as crianças como sinónimo de ser-se justo, respeitar as emoções delas e persuadi-las a não expressaram algumas delas, e negociar com os filhos (por tudo e por nada) como a alternativa "positiva" a repreendê-las ou a ordenar-lhes o que os pais muito bem entendam que será protector para elas.

Sejamos prudentes: eu acho que muitas destas receitas "positivas", imaginadas para se retirar o medo às crianças, sempre que são manuseadas de forma precipitada, se tornam excelentes para trazer medo e insegurança à espontaneidade dos pais. Como se, a determinada altura, a empatia fosse uma espécie de "dieta parental", que - independentemente de não ser muito claro se os pais passam a escutar, de forma genuína, os filhos ou se dão atenção àquilo que eles consideram "politicamente correcto" - resulta sempre. Na verdade, muitas destas "receitas positivas" têm sido responsáveis por crianças inseguras, agitadas, com falta de regras, desafiadoras (e, por vezes, insolentes). E muito "cheias de si"; em vez de serem saudavelmente seguras. Por carência de boa educação.

Para mais, parece-me a mim, que continuamos, perigosamente, a confundir autoritarismo e autoridade, como se fossem sinónimos. A autoridade dos pais é tão opressiva para as crianças como o direito para a democracia. Isto é, as crianças precisam da autoridade dos pais, não tanto porque nasçam para serem subjugadas por eles, mas porque, para elas, a autoridade dos pais é sinónimo de bondade, de sabedoria e de sentido de justiça. Logo, negociar por sistema é exercer a autoridade num registo medroso. Que, em vez de as ajudar a crescer de forma saudável (com nãos, com advertências e com alguns episódios mais "imperativos" dos pais, sempre que eles entendem, de forma intuitiva, que os tenham de assumir), parece cultivar uma ideia de um presumível respeito pelas crianças que, no fim de contas, os leva a lidar, muitas vezes, com elas como se fossem "peças de porcelana". Em resumo, é estranho que o respeito pela infância pareça levar muitos pais a sentirem-se tolhidos por tantas "receitas" e a demitirem-se, mais do que seria sensato que o fizessem, de ser pais. Tudo ao contrário ao contrário daquilo que o respeito pela infância merecia.
Tenhamos, então, a ponderação de poupar os pais a meias-verdades que os levam ao equívoco. As crianças ganham se os pais as sentirem, sim. Ganham se eles, ao mesmo tempo que se recordam das suas infâncias, forem capazes de as imaginar; sem dúvida. E ganham se eles não as culpabilizarem, claro. Mas ganham, também, se, sempre que for necessário, as repreendam. Se exigirem aquilo que, em bom senso, entendam que não só não é negociável como, sobretudo, as protege. E ganham, também, se eles assumirem que o colo não as estraga. Mas que colo sem nãos é um alimento sem sal. E, sim, ganham se compreenderem as emoções dos filhos sem que isso suponha que deixem de compreender as suas. E que compreender as emoções não é domesticá-las; é entender os motivos pelos quais elas são como são. E actuar sobre elas. Se for o caso.
Por isso mesmo, tenho medo que muitas destas "receitas positivas", em nome da empatia, reprimam o "instinto maternal" e o "sexto sentido" dos pais. Que são termos de senso comum que dão a entender que somos pais em função de muitos sinais que o nosso "equipamento de base" é capaz de intuir. Que não perdemos nada se a isso juntarmos a nossa experiência de filhos e os exemplos dos nossos pais. E se, para mais, escutarmos quem, de forma fundamentada, nos traga contraditório a tudo aquilo que supúnhamos saber como pais. Sem que com isso nos tornemos tecnocratas em parentalidade, que é aquilo que os pais não podem ser. Sem que se ponha no mesmo cesto pessoas tecnicamente experimentadas, pessoas voluntariosas sem formação e, já agora, alguns blogs que, tudo junto, confundem os pais e que lhes tiram espontaneidade e autenticidade. E que lhes trazem muito medo e culpabilidade de se deixarem ir pela sua intuição. E que os põem a reproduzir conceitos que, parecendo slogans, não lhes trazem os recursos de que eles precisariam para serem melhores pais. Sempre com a salvaguarda de que reproduzir não é escolher, condescender não é entender e aceitar não é compreender.
Afinal, será "pela positiva" que os pais se tornam melhores pais? Se for de forma inconsistente, não. E será que a infância dos filhos ganha com isso? Receio que não.

Por 
Eduardo Sá
Psicólogo