quinta-feira, 2 de maio de 2019

Nem chumbar, nem passar. Nesta escola, a única alternativa é aprender


Quando for grande, a Laura bem pode ser a diretora desta escola. Tem 7 anos, está no 2.º ano e é mais desembaraçada do que muitos miúdos de 12. Com um brilho nos olhos, pergunta-nos se queremos fazer uma visita guiada pela Escola Básica de Fonte Santa, no agrupamento da Marinha Grande Poente. A resposta é afirmativa e Laura, vestindo a pele de anfitriã, mostra-nos tudo: o refeitório, a sala do pré-escolar, o sítio onde trocam os sapatos da rua pelas socas, os recantos do recreio, a horta do 1.º ciclo, a árvore onde costuma apanhar amoras — “Ou eram framboesas?” — e a sala da CAF. Não hesita quando lhe perguntamos o que quer dizer a sigla. “É a Componente de Apoio à Família, onde ficam as crianças até os pais as puderem vir buscar.”

O que vimos antes desta visita guiada, na escola que fica à beira de um pinhal, tem todos os ingredientes para ser uma receita de insucesso escolar. Antes do recreio, Laura partilhou uma sala de aula com mais 34 alunos, numa turma com crianças do 1.º ao 4.º ano. Na teoria, o cenário soa a péssimo. Na prática, não podia funcionar melhor. As estatísticas confirmam: por aqui, os chumbos são residuais e, garantem-nos os três professores permanentes daquela sala, isso só é possível porque as crianças, de facto, aprendem.
A Fonte Santa é uma das 10 escolas da Marinha Grande Poente, um dos sete agrupamentos do Projeto Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP), que, atualmente, tem 2800 alunos distribuídos entre a educação pré-escolar e o 12.º ano. Com esta experiência, um dos objetivos do Ministério da Educação é perceber se é possível chegar à taxa de retenção zero, como explicou o secretário de Estado da Educação ao Observador, João Costa, em dezembro passado. A alternativa a chumbar tem de ser sempre aprender e nunca uma subida artificial das notas. Mas para isso é preciso inovar e apostar na criatividade porque participar no projeto deu 100% de autonomia à escola, mas nem um recurso a mais.

“Aqui nunca pusemos a questão da retenção em cima da mesa, nunca me pareceu que fosse isso o fulcral. A nossa grande preocupação era a qualidade das aprendizagens dos alunos. A alternativa a chumbar tinha de ser aprender”, explica o diretor do agrupamento, Cesário Silva.

Os resultados estão à vista: “No último ano, no 1.º ciclo, houve sete retenções entre os cerca de 530 alunos. Em alguns casos, tivemos de perceber se a retenção significava um momento de aprendizagem, por exemplo, para alunos estrangeiros e para miúdos condicionais que entraram para a escola com 5 anos… No 2.º ciclo, tivemos apenas uma retenção em 350 alunos. No 3.º ciclo, ficámos nos 2%. E, praticamente, não temos abandono. Mas se me perguntar se fazemos o pino para os miúdos aprenderem, garanto-lhe que fazemos”, argumenta Cesário Silva.
Apresentada como “o problema mais grave do sistema de ensino em Portugal”, em 2015, a retenção dos alunos tem estado sempre no topo dos discursos de vários ministros da Educação. Naquele mesmo ano, o país estava no top 3 dos que mais chumbam na OCDE — sobretudo entre os alunos com mais dificuldades económicas e sociais. Todos concordam que é um erro simplesmente deixar passar os alunos, de forma administrativa. Mas é difícil encontrar a forma certa de conseguir que nenhum aluno tenha de reprovar, simplesmente porque aprendeu.

“Não é combater o insucesso, é promover o sucesso”

Quando começaram a olhar para o problema dos chumbos no agrupamento, onde, conta Cesário Silva, tanto andam os filhos dos operários das fábricas como os dos grandes industriais do concelho, perceberam que as soluções que ofereciam não passavam de remendos. “Antes de as dez escolas fazerem parte do mesmo agrupamento [em 2013], tínhamos um problema na escola secundária: os alunos chegavam ao 7.º ano com muitas lacunas que podiam ter sido resolvidas antes, de forma precoce. Mas não foram. A nossa atuação acabava por ser sempre remediadora.”
Já há muito tempo que o insucesso escolar preocupava Cesário Silva. Enquanto diretor da escola Secundária Engenheiro Acácio Calazans Duarte, uma escola independente por ser TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária), diminuir os chumbos era uma batalha antiga, que estava a ser ganha. Quando as dez escolas se uniram, e o carimbo TEIP se estendeu a todas, a possibilidade de melhorar aprendizagens interessava a todos, da pré ao secundário.
“Identificamos crianças que, logo no 1.º ano e algumas no pré-escolar, têm problemas. As educadoras queixam-se de que as crianças têm um vocabulário muito limitado e que têm de ser muito estimuladas. A nossa aposta começou aí: na comunicação. A intervenção começa no jardim de infância. Hoje estamos cada vez mais a deixar as medidas de remediação. Já tivemos cursos de formação e educação, já tivemos cursos vocacionais [permitem concluir a escolaridade obrigatória com percursos mais flexíveis] e deixámos de os ter porque não precisamos deles. Já não temos público”, sustenta o diretor.
Mesmo antes de integrarem o PPIP, a convite da Direção Geral de Educação, a retenção era cada vez mais residual, conta Cesário Silva. “Esse trabalho começou em 2013, com a entrada no novo agrupamento. O que fazemos não é combater o insucesso, é promover o sucesso. Combater o insucesso é a atitude remediadora. Não podemos perder sucessivas gerações de jovens porque todos falhámos, porque não estivemos atentos, porque não tínhamos recursos, porque a tutela nunca pensou que prevenir era mais barato e eficaz do que remediar. Sermos TEIP trouxe-nos este foco: detetar problemas, investir e ser criativos para os ultrapassar.”
A criatividade manifestou-se de várias formas. No ensino pré-primário e no 1.º ciclo, a grande aposta é na comunicação, garantindo que as crianças ganham gosto pela leitura e pela escrita, que adquirem vocabulário e são fortes na oralidade. As escolas tornaram-se espaços abertos de aprendizagem, onde os alunos também se ensinam uns aos outros.
“No nosso modelo de organização, o ensino pré-escolar funciona de uma forma deliciosa, são os espaços de maior aprendizagem. É ali que percebo que as nossas crianças são capazes de trabalhar de forma colaborativa, são capazes de negociar, de discutir, de correr riscos — nós, adultos, temos de perceber até onde podem ir e estar na retaguarda para os amparar. Temos salas heterogéneas e isso talvez seja um dos segredos: quando valorizamos a diferença, quando mostramos que aprendemos uns com os outros, as coisas funcionam”, explica o diretor.

Na Fonte Santa, a sala de Laura — e dos outros 34 colegas — tem três professores em permanência. Fernando Emídio, Geraldina Silva e Paula Botas têm turmas atribuídas no papel, mas, no dia a dia, as fronteiras diluem-se. “Aqui não há a minha sala, estamos todos juntos e vamos partilhando”, diz a professora Geraldina, que tanto pode estar a dar um conteúdo de 1.º como de 4.º ano. Da mesma forma, se um aluno do 2.º ano souber tudo o que há a saber sobre uma matéria, não há motivo para não poder avançar e até partilhar o que aprendeu com os mais velhos.

“Administrativamente, temos as turmas atribuídas, temos de ter, mas, na prática, elas não existem. Quando fazemos o grosso da planificação, não sabemos qual de nós vai trabalhar que matéria. Não temos essas tarefas definidas. Tem é de haver uma grande cumplicidade para as coisas funcionarem. Mas não estamos sempre de acordo: é a partir dessa discórdia que conseguimos criar mais alguma coisa, porque vamos descobrindo uns com os outros”, acrescenta Paula.
A turma de 35 alunos tanto pode estar toda junta, como tem momentos em que é dividida em grupos mais pequenos e que não têm necessariamente de estar relacionados com o ano que cada estudante se encontra a frequentar. É assim que o trabalho colaborativo passa também para os alunos. “Um dia por semana há o conselho de cooperação de turma, onde fazemos a reflexão semanal entre alunos e professores. Fica tudo registado em ata e eles já sabem como presidir uma reunião: há sempre um presidente e um secretário. É um momento muito importante da nossa semana”, conta Paula.
Outro momento alto é quando os mais velhos vão ensinar os mais novos, conta a educadora Aida Mira, responsável pela sala da pré. “O que mudou mais foi esta articulação entre os diferentes ciclos. Hoje vejo que os miúdos estão mais autónomos e com mais vontade de comunicar. Como os grupos não são homogéneos, aproveitamos os saberes dos mais velhos. Eles sentem-se importantes por estarem a explicar aos pequenos e ficam mais responsáveis.”
Cada ciclo de ensino tem as suas necessidades e não há receitas repetidas. Para o 5.º e o 6.º ano, porque se concluiu que a passagem de um professor para vários era um dos obstáculos às aprendizagens, reduziu-se o número de docentes. Em vez de se ter um professor por disciplina, diminuiu-se o conselho de turma: o professor de matemática passou a dar também ciências, o de português acumula com inglês ou história e geografia, e a educação visual e a tecnológica foram fundidas numa só disciplina.
“Foi fundamental para os professores poderem trabalhar melhor em equipa. Como tínhamos turmas com muitos alunos, decidimos criar as oficinas projetos — acabam por ser semelhantes aos DAC (Domínios de Autonomia Curricular) que a Flexibilidade Curricular trouxe mais tarde para as escolas”, detalha Cesário Silva.
Nesses momentos, as turmas são desdobradas e trabalha-se em grupos mais pequenos, normalmente com dois professores na sala. “A grande mais-valia de trabalhar por projeto é o trabalho colaborativo. É estar sempre a fazer ajustamentos. Os alunos planificam o trabalho, escolhem coisas difíceis e têm de ir arrepiando caminho, vão reajustando o trabalho até chegar a qualquer coisa palpável que vão produzir”, defende Maria Fernanda Cruz, coordenadora do projeto PPIP do 5.º e 6.º ano e que, na Marinha Grande Poente, envolve 16 turmas.
“Quando se apresenta um projeto, pratica-se a oralidade, o à-vontade e nota-se a diferença nos alunos. Estão mais libertos e mais seguros do que estão a fazer. Quando cá chegarem os que começaram com o PPIP logo no 1.º ano, acredito que se vai notar uma grande diferença”, acrescenta a professora de História e Geografia de Portugal.
“Se houvesse uma palavra para distinguir estes alunos dos outros, se fosse um sentimento, eu diria alegria. Até a relação com o professor é diferente e eu tenho 38 anos de serviço. Não são salas de aula silenciosas: se não estou a fazer uma ficha, se estou a fazer uma colagem, uma pintura, a preparar um cenário, é diferente. Até as crianças com necessidades educativas especiais permanentes brilham em coisas que não estávamos à espera. Saem delas talentos que não conhecíamos”, remata Maria Fernanda Cruz.
Nem tudo são mares de rosas, acrescenta. Entre o corpo docente, nem todos acreditam que este é o melhor caminho, nem todos têm a mesma filosofia ou visão de escola. Por outro lado, o PPIP não trouxe mais recursos, nem humanos nem materiais, e alguns espaços não acompanham o andamento do projeto. “É a queixa que mais ouço. Precisamos de mais pessoas, mais recursos, mais tecnologia. Apesar disso, isto não volta atrás. O caminho vai ser por aqui e, entre os sete agrupamentos, há até quem esteja a fazer percursos mais ambiciosos”, conta a professora.
O projeto piloto começou em 2016/2017, um ano zero que serviu para reflexão da equipa. No ano letivo passado, começou a funcionar nas turmas do 1.º ciclo e nas do 5.º ano. Este ano, estendeu-se ao 6.º e, pouco a pouco, ao 7.º ano. Falta chegar ao ensino secundário. Mas antes disso, Cesário Silva defende que há um longo caminho a fazer: o currículo está muito pulverizado e o foco continua a ser nos exames nacionais. (...)"

Fonte: Observador
Os interessados em ler todo o trabalho podem segui-lo AQUI.

NOTA

Se isto acontecesse na Região Autónoma da Madeira, provavelmente, já tinham retirado a autonomia à escola e o director tinha já um processo disciplinar que viria a resultar em, no mínimo, seis meses sem salário, tal como aconteceu com o Professor Joaquim José Sousa, da escola do Curral das Freiras. O secretário e o "inspector-mor" que leiam esta passagem: “Administrativamente, temos as turmas atribuídas, temos de ter, mas, na prática, elas não existem!"

sexta-feira, 26 de abril de 2019

DAVID JUSTINO E A POLÍTICA EDUCATIVA


O facto de uma pessoa ser professor universitário e de ter sido ministro da Educação não lhe confere, automaticamente, competência e reconhecimento público, no plano científico, para falar sobre este complexo sector. Sabe-se como é que, genericamente, alguns chegam a ministro ou a secretário de Estado. A fidelização partidária é determinante. E sabe-se, também, como há gente convidada para isto e para aquilo, conferências, encontros, seminários, eu sei lá, sem nunca terem deixado uma marca distintiva, através daquilo que escrevem(eram) ou, então, na sequência de uma passagem pela governação. Vem isto a propósito do Professor Doutor David Justino. Um Economista, depois doutorado em Sociologia, que foi ministro da Educação entre 2002/2004 (Durão Barroso) e que, há dias, teve um desabafo partidário, absolutamente deselegante, inapropriado e completamente desenquadrado para quem é professor e foi ministro da Educação. Eu diria que o partido cega!  

Como evitar o desinteresse?
Em uma fase de negociação com os elementos das organizações representativas dos Magistrados, o vice-presidente do PSD, David Justino, disse: "(...) A ministra esteve a negociar quanto é que vai receber quando sair do governo". A Drª Francisca Van Dunem, Jurista, ministra da Justiça e ex-Procuradora-Geral Adjunta, devolveu com uma simples frase: "O autor da afirmação está, seguramente, a julgar outrem à luz dos seus padrões comportamentais". E ficou-se por aí.
Sobre o que declarou, passo à frente. Mas serve para dele eu ter uma leitura política. O Professor David Justino foi ministro dois anos e presidente do Conselho Nacional de Educação, neste caso, não sei bem por que artes. De uma coisa sei eu, é que não deixou, nos dois anos que passou pela pasta da Educação, qualquer registo que mereça ser olhado com respeito e admiração. O esquisito disto, ou talvez não, é que se trata de uma figura muito requisitada, como se não existissem académicos com vasto currículo e professores com pensamento e trabalho científico produzido relativamente ao sistema educativo. Ora, é esta figura que irá estar, uma vez mais, na Região da Madeira, agora, entre os dias 9 e 11 de Maio, no quadro da "Escola do Século XXI", tema do IV Seminário de Educação, promovido pela Câmara Municipal de Câmara de Lobos. 

Quando li o que se segue, interroguei-me, como pode ser conferencista sobre a Escola do Século XXI um político que defendeu, em Janeiro de 2019, que a Educação deve, repare o leitor, "(...) contrariar o fetichismo tecnológico" e rejeitar a tecnologia como "solução mágica" para tudo, contrapondo que deve continuar "assente em relações humanas". Não bate certo, porque uma coisa, a tecnologia, não é fetiche educativo e não impede a outra, o acto pedagógico, que deve ter sempre o professor como mediador !

Aliás, ainda bem que o disse, porque clarificou o que dele penso e aqui escrevo, quando confessou à plateia, a sua, por vezes, "visão excessivamente conservadora em relação à escola" que o levam a rejeitar soluções disruptivas e utopias". Utopias, questiono? Ainda ontem o Senhor Presidente da República foi claro no discurso do 25 de Abril: "(...) a História faz-se sempre de programas, ideias e de sonhos impossíveis". Portanto, ao contrário do que disse, viva a disrupção, viva o rompimento com o passado.
Perante isto, confesso, tenho dificuldade em perceber o Professor David Justino, enquanto pensador, ele que é assessor do Presidente para os assuntos sociais, mas preocupa-me que venha falar para uma plateia de professores. Espero, no mínimo, que seja igual a si próprio, pois consultando múltiplos registos, as notas dominantes que li são marcadas por afirmações em um determinado sentido e quase o seu contrário em outros momentos. O professor David Justino, julgo eu, ainda é Professor Universitário. Respeito que tenha uma opinião conservadora, desajustada do mundo que estamos a viver e das crianças e jovens que nasceram rodeados de tecnologia, porém, por uma questão de elegância e de respeito pelos seus pares, seja qual for o grau de ensino, nunca deveria assumir, por exemplo, com a precisão de um relógio suíço, que "25% dos professores são excecionais, 60% dos professores são bons e 15% dos professores nunca deviam ter entrado" no sistema de educativo. Os professores que estarão presentes na iniciativa "Escola do Século XXI", deveriam questioná-lo: o Senhor Professor vem falar para quem, para os 15%? É que nos 15%, certamente, estão muitos desajustados com a escola dos Séculos XIX e XX e, por isso mesmo, são considerados maus professores. 
Aliás, no programa "Fronteiras XXI", da RTP, transmitido a 04.10.2017, subordinado ao tema "Que Escola Precisamos", no qual participou o Professor Joaquim José de Sousa, da Escola do Curral das Freiras, assisti à diferença de conhecimento prático entre o Professor Doutor David Justino e o Professor Joaquim Sousa, no que concerne ao funcionamento de uma escola do Século XXI. O programa está disponível na RTPPlay. Ora, quem sou eu para tecer considerações sobre as opções dos organizadores, mas tendo, na Madeira, um professor com experiência e resultados, humildemente o digo, que seria de todo muito mais interessante e motivador para uma plateia de professores escutar a voz da experiência sentida e vivida, a tal utopia, o tal direito ao sonho, relativamente a outro que se mostra mais vocacionado para a defesa da escola do passado do que para uma escola portadora de futuro. Aliás, ressalvo, em iniciativas anteriores e mesmo nesta, é justo sublinhar o convite dirigido a figuras de relevantíssima importância na Educação.
Finalmente, são palavras do Professor David Justino: "precisamos de políticos mais qualificados na educação". Concordo. Na Madeira existem vários, embora silenciados. Percebo. Partidariamente, não interessam. Até são perseguidos. Só que a Educação deve dispor uma visão POLÍTICA e não PARTIDÁRIA. O Professor David Justino que foi militante do Movimento da Esquerda Socialista, "emendou-se", dizem, com humor. Daí que seja o orador de serviço, embora, com toda a certeza, pelas suas posições anteriores, não traga na bagagem nada de substancialmente novo. Se eu estivesse na Madeira, inscrevia-me para escutar o Professor Pepe Menéndez: "(...) O problema do ensino é que é muito aborrecido. Nós mudámos o olhar (...) Pode parecer um pouco naïf, mas o modelo é mudar o olhar. Em vez de ver as coisas de perto, abrir os olhos e tentar ver o que no século XXI pode fazer crescer uma pessoa num ambiente de globalização, tecnologia, com tanta incerteza. O filósofo [Zygmunt] Bauman fala de um mundo líquido. Neste contexto, como posso ligar-me ao coração dos alunos, à sua motivação?" Esta é a utopia e a disrupção face às quais o Professor David Justino coloca reticências.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Texto publicado no blogue
www.gnose.eu

terça-feira, 23 de abril de 2019

Educação -. Quando matam o direito ao sonho, o que restará à Escola?


Começa a ser hora de balanço. Hoje, os estudantes entraram na derradeira etapa do ano escolar. Já escutei, com humor, que se trata de um "período-anão" face ao número de semanas. Se, para os estudantes, o ano corre para as férias mais longas, para o sistema é tempo de deitar contas à vida e de analisar, globalmente, não apenas o que foi realizado em 2018/19, mas no período da Legislatura. O secretário, esse, obviamente, não tem qualquer dúvida: "Quatro anos de progresso na Educação". Ninguém esperaria outra leitura. Para ele foi de sucesso a 100%! Não consegue descobrir uma pontinha de fragilidade. Dizia-me há tempos um político que, até na cadeia, se perguntarmos, a maioria dirá que é inocente! Aliás, a entrevista de auto-elogio, toda ela fez-me lembrar um notável sketch do Herman que, na situação de entrevistado, invariavelmente, iniciava a resposta com um "ainda bem que me fez essa pergunta". 


O secretário teve duas páginas para abordar questões sérias e profundas, mas preferiu uma descabida gabarolice de trazer por casa que, no fundo, acrescenta ao sistema mais um zero à esquerda. Fugir às questões estruturantes, porque não quer ou porque não sabe, tornou-se a sua indelével marca. Não está para aí virado, para a reorganização do sistema que implique uma nova e estruturada visão de toda a sua complexidade, desde a família à escola, passando por todo o sistema de organização da sociedade. Só para o secretário e alguns próximos é que foram "quatro anos de progresso na Educação". Qualquer pessoa que estude, minimamente, o sistema, concluirá que nas suas traves-mestras, o sistema continua aquilo que sempre foi, um sistema acomodado, repetitivo, limitador de horizontes, castrador do pensamento livre, incrustado em uma densa teia burocrática, condicionador da acção dos docentes, sobretudo dos que pretendem seguir e gerar as condições de uma escola com direito ao sonho. Um secretário que, de forma cega, impõe a sua regra, que fecha os olhos ao mundo, que demonstra receio pelo que de bom os outros são capazes de operacionalizar, que vive incomodado com os êxitos que escapam ao seu controlo, que não sabe potenciar as experiências de sucesso, que manifesta o desejo de ter tudo debaixo do seu ávido controlo, que exprime vaidade e necessidade de holofotes, torna-se em um construtor da antítese de quatro anos de progresso. Simplesmente porque não é possível o progresso quando este não assenta em uma estrutura transversalmente consistente e cientificamente substantiva. 

"Pensar é mover-se no infinito" escreveu Henri Lacordaire (1802/1861), padre, jornalista, educador, deputado e académico. Acho interessante esta frase, porque a escola continua a não estar, passe o pleonasmo, pensada para fazer pensar. Esta escola rouba o direito ao sonho e este direito de sonhar não pode ser apenas para alguns, mas para todos. 

Ora, o sistema é mais do que fundir escolas e derramar 25 milhões por ano na educação privada. A arte visionária de educar é muito mais do que horários, campainhas, livros de ponto, cumprimento dos manuais, reuniões e mais reuniões para repetir o óbvio, mofentas burocracias destinadas ao arquivo morto, estéreis paleios sobre a "robotização" ou salas ditas do "futuro". A escola tem de ser vida e dela não pode estar desligada. Os muros que a circundam não devem  obstar o direito de cada um ser culto e de optar pelo futuro que lhe interessa. A escola não pode ser um "fatinho" de padrão e número igual para todos. Preferível seria, ao contrário de uma apregoada escola para todos, dispor de uma escola para cada um. Esta imagem implica que a escola tenha de fugir, de forma integrada, ao pressuposto de remediadora social, à ideia de armazém, para situar-se no plano do pensamento que se move para o infinito. Porque o mundo não termina na Ponta de S. Lourenço, embora o sistema creia que sim. Um sistema que assenta nos princípios do Século XIX, obviamente, que denota descontextualização com o presente e desconectamento com o futuro. Não existe, pois, progresso quando se assiste à morte do pensamento crítico e da liberdade de ensinar e de aprender.
Então, o que restou desta Legislatura, questiono? Lamentavelmente, sobressaiu a vergonhosa sansão aplicada ao Dr. Joaquim José Sousa da Escola do Curral das Freiras. A entrevista ao DN é clara nessa matéria, quando o secretário, sacudindo a água do capote político, afirma ter sido a Inspecção Regional a decidir-se por uma sanção de seis meses sem salário, quando foi o próprio secretário que os aplicou, impedindo desta forma um eventual recurso. Atirou-se a toda a comunidade educativa através de um docente. Ficou limpinho que uma escola que pretendeu ser inovadora, no quadro da sua autonomia administrativa e gestionária, uma escola que, no entendimento político, fez "sombra" ao secretário, uma escola que foi tema, pela positiva, em todo o espaço nacional, uma escola que ganhou prémios nacionais, no fundo estava a mais no quadro das suas regras assentes no excesso de valor que tem de si próprio. O bloqueio à autonomia da escola, consubstanciada na sua fusão, tratou-se de um "crime social", porque quando se coarcta o direito à diferença, com resultados, sublinho, quando a escola é portadora de um sonho para todos e se corta a cabeça do líder, porque infringiu(?) umas regras burocráticas de treta, isto significa que quem está a mais no sistema não é o professor que desejou ir longe, mas o secretário que quer ser o centro da atenção embora com aparência política falsa. Pior ainda, o que fica destes quatro anos, são os reflexos desta sansão como quem quis dizer aos mais de seis mil professores, cuidado, não queiram seguir o mesmo caminho, pois levam! Só acrescentou desmotivação e medo a uma classe já de si dividida e pouco solidária. 
Portanto, o essencial desta Legislatura centra-se na memória que fica relativamente à história das fusões de estabelecimentos de educação e ensino e na ridícula, indecorosa e vexatória humilhação da escola do Curral das Freiras. Sobre a sanção aplicada ao Dr. Joaquim Sousa caberá, agora, ao Tribunal Administrativo pronunciar-se. Há que aguardar. O processo só agora começou e, em Setembro, há eleições legislativas regionais. Porém, politicamente, não partidariamente, o secretário, em jeito de balanço, tem muito que explicar. O que é que o sistema ganhou com a extinção da autonomia da escola do Curral? Que engrenagem (sofisticada) foi montada para matar uma tentativa de uma escola que desejou ser coerente com os novos tempos? Em que está a resultar a "destruição" do seu projecto educativo? Como se sentem, hoje, a generalidade os professores que lá trabalham? Por que permitiu eleições na escola, ganhas pelo Professor Joaquim Sousa e, logo depois, a funde com outra? E o que pensam os alunos, pais e a comunidade em geral? Tem muito que explicar sobre estes quatro anos perdidos e de culto da imagem. Certo, segundo julgo saber, é que o êxito que a escola apresentou no passado recente, poderá vir a ser tema de uma Dissertação de Mestrado ou tese de Doutoramento.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Texto publicado no blogue
www.gnose.eu

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Não dêem às notas a importância que elas não têm!


Há momentos do ano em que tenho medo. Como este, que é altura de notas. Porque muitos pais, orgulhosíssimas dos seus filhos, lhes criam a eles e às outras crianças circunstâncias muito difíceis!


Por favor,
Fiquemo-nos por aquilo que se passa nos quatro primeiros anos do ensino básico. O que se ganha quando se expõem, nalgumas escolas, as notas destas crianças? Na verdade, não se trata de esperar que quer as suas dificuldades como os seus méritos sejam clandestinos, até porque as crianças se comparam entre si. Mas, mesmo assim, o que é que se ganha quando há mães e pais (embora, “regra geral”, os pais vão muito menos ver as notas dos filhos) a anotar as classificações dos amigos dos filhos, a comentá-las e a insurgirem-se com elas, em público, diante das próprias crianças? O que se ganha quando algumas destas crianças - que terão ficado aquém daquilo que as mães entendiam ser justo para os filhos - são severamente repreendidas, à frente de todos, e, muito pior, com o argumento de que o colega A e B tiveram melhores resultados que ele? O que se ganha quando algumas destas mães debatem no WhatsApp as notas das crianças, dando-lhes uma importância que elas não têm? 

O que se ganha quando há pais a premiar com comentários públicos de parabéns no Instagram as notas dos filhos, quando não fica muito claro se se congratulam com os resultados do seu trabalho ou com a forma como parecem alimentar a sua vaidade? E o que dizer quando são as próprias crianças a competir entre si por melhores notas e a chamar aos colegas com mais dificuldades, naquele momento, alguns nomes feios (porque, afinal, não aprendem da mesma maneira e à mesma velocidade)? 

E o que se ganha quando os pais, de forma demasiado passiva, reconhecem que há turmas do primeiro ano (!!) em que as crianças são “muito competitivas” entre si, como se os pais e as escolas fossem estranhos a isso, e nada pudessem fazer para pôr cobro a essa deriva e as escolas destas crianças fossem campeãs dos défices de atenção e não só não entendessem o absurdo que isto lhes representa como não deixassem de o incentivar, mais do que parece?
Por favor, as crianças saudáveis não tiram sempre boas notas! Aprendem com os erros. Precisam dos enganos. E crescem com os insucessos. E, convém não esquecer, que as notas delas são mérito seu, claro, mas também não são estranhas à sensatez dos programas, e à qualidade da escola e do ensino. 
Por tudo isso, o que se ganha ao transformarmos crianças, que todos desejamos que aprendam a aprender, em bons alunos? Haverá, por acaso, bons alunos sem bons professores? E não é, igualmente, verdade que as notas de algumas destas crianças são um trabalho de parceria com alguns destes pais e mães, que estudam com elas, e que, por vezes, prescindem do seu trabalho em nome dos resultados escolares dos seus filhos? E não é verdade que todas as crianças são inteligentes e todas elas têm, nalgum “cantinho” da sua aprendizagem, algumas necessidades educativas especiais?
Por tudo isso, por favor, não atribuam às notas a importância que elas não têm. E não se esqueçam que, na ânsia de as terem a conquistar bons resultados, há pais e escolas a transformar crianças saudáveis em “alunos” com dificuldades…
Eduardo Sá
Fonte: eduardosa

terça-feira, 16 de abril de 2019

Rejeitar a indignidade


"Rejeitamos os novos muros civilizacionais, rejeitamos a escravatura moderna e a exploração dos mais frágeis e indefesos, rejeitamos o egocentrismo esmagador de todas as solidariedades e a indiferença perante o sofrimentos de quem se vê privado dos seus direitos individuais básicos.


Rejeitamos a indignidade de jogar com a fraqueza e a ignorância de tantos para as por ao serviço de alguns, poucos e perversos, candidatos a alcandorar-se em todos-poderosos do mundo e rejeitamos que continue a haver minorias perseguidas ou marginalizadas, que as mulheres não sejam ainda tratadas como, de facto, livres e iguais em direitos e que tantos milhões de crianças, por todo o mundo, estejam a ser privados de alimentação, casa e família...
Rejeitamos a frieza esmagadora do "admirável mundo novo" que Huxley nos apresentou e com o qual talvez tenha querido alertar-nos... Era tão cedo (1932) e deixamos que, de repente, se fizesse tarde e o tempo parecer-se esgotar-se...
No entanto, contra ventos e marés, provaremos que o tempo não se esgotou, e não! Não é tarde de mais! Queremos dar à Democracia todo o virtuosismo e toda a força que pode comportar, anulando o que de sinistro aberrante pode ser gerado a partir dela. Somos profissionais de Educação ou do Ensino e temos em mãos um manancial inesgotável de ferramentas transformadoras, de mentalidades e de práticas.
Queremos perpetuar Mandela - A Educação é a arma mais poderosa para transformar o mundo - em cada momento, em cada dia do nosso caminho, atravessando gerações. (...)"

Excerto da Editorial da revista A Página da Educação, com assinatura de Ana Brito Jorge.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Quatro anos perdidos no Sistema Educativo


Um autêntico navio sem rumo. Navega ao sabor dos ventos e das marés. Guia-se pelas estrelas e não pelos instrumentos ao dispor. Não tem um verdadeiro comandante. Sobe e desce escadas, anda, desnorteado, entre a proa e popa e manda pela borda fora quem não lhe interessa. Apresenta-se risonho, rindo, talvez, de si próprio, distribui diplomas, ridículos prémios de meritocracia e nem conta dá que a tripulação boceja e apenas não tem coragem de o mandar cantar para outra freguesia. Agacha-se, porque precisa do salário, desencantada, cansada, muitos com sinais de "burnout", contando os dias para a pausa pedagógica e as férias. Chegará o dia. Inevitavelmente. Porque nestas águas, mesmo que turvas, os barris de azeite tenderão vir à tona. A tripulação já não aguenta tanta incompetência, tanto papel, tanta grelha, tanta "ordem de serviço" vindas do ineficaz "comando", tanto paleio desconforme com a sua formação na "escola náutica". É sensível que o navio, com 6.500 tripulantes e quarenta e tal mil a bordo, tem a proa bem dentro de água, neste mar de ondas alterosas. E o comandante continua impávido e sereno. Ri-se! Ele e o seu superior hierárquico que, algumas vezes, parece um chefe distraído e sem opinião. 


Deixo a metáfora e fixo-me no assunto mais sério. Apressadamente, caminhamos para mais quatro anos de insucesso no sistema educativo. Quatro anos de paleio, de mistificações, de alheamento das obrigações constitucionais públicas para oferecer, de bandeja,  quase cem milhões ao privado. Quatro anos de um arrepiante faz-de-conta, de algumas perseguições, directas e indirectas, de total submissão dos quadros intermédios, de continuado sequestro da autonomia administrativa, gestionária e financeira dos estabelecimentos de aprendizagem, de sucessivos cinismos e ouvidos de mercador, relativamente ao que é dito em jornadas, congressos, seminários, revistas, livros e outros, onde tudo entra a cem e sai a duzentos, prevalecendo a vontade de um ou de uns que abdicam do conhecimento para seguir os caminhos da ideologia dominante. Não existe(iu) um rasgo de pensamento crítico, de provocação bem intencionada, de colocar, em cima da mesa, sem qualquer receio, os assuntos mais importantes, discutindo-os com humildade, frontalidade e profundidade. Quatro anos onde se continuou a assistir, sensível publicamente, a um divórcio com as instituições universitárias, instituições que investigam, que possuem excelentes quadros, mas que deles o "comandante" parece nem querer ouvir os necessários alertas e conselhos. Mais quatro anos vividos na torre de marfim, escudado em falsas verdades, de palavras de circunstância em fóruns para escutar os aplausos da plateia (normalmente, a plateia aplaude toda a gente), quando nos estabelecimentos de aprendizagem continuam as eternas rotinas de uma máquina velha, ferrugenta e desadequada no tempo. 

Se alguém pensa que compra o voto dos professores com os nove anos, quatro meses e dois dias de tempo congelado, está totalmente enganado. Alguns poderão ficar agradecidos, mas não esquecem os tormentos, as tensões, as depressões, as incompreensões, as ameaças, as intermináveis burocracias, as fusões de escolas, a indisciplina, as faltas de tanta coisa necessária, as violações de consciência e os atentados contra a sua dignidade profissional. 

Não esquecem, porque são adultos, e porque, na cabina de voto, naquele acto solitário, em segundos sobressairá a história das angústias relativamente ao merecido docinho do avanço na carreira. O que aqui escrevo é o resultado de conversas que tenho com vários professores, mensagens que me chegam de pessoas identificadas, que assim pensam e com os quais concordo nas observações globais que produzem. Uma coisa são os direitos salariais, outra é a questão mais profunda e que a milhares preocupa: o sistema educativo. No fundo, que sistema estão a proporcionar para que, daqui por dez, quinze anos, o sentimento que reste seja o de que valeu a pena.

A robótica e as salas de aula do futuro são acenos marginais. Quem por aí caminha está a ver o problema ao contrário ou, no mínimo, não demonstra qualquer sentido de prioridades. E essas são, desde logo, no quadro da Autonomia, as de natureza organizacional, curricular, programática e pedagógica e, a montante, as de natureza social. A robótica não vem resolver nada de fundo. Antes disso há muitos aspectos a rever. Servirá a uns, certamente, servirá algumas empresas interessadas em vender equipamentos, obviamente que sim, mas não servirá de caminho seguro na antecipação do futuro, simplesmente porque é um erro encurtar etapas. Da mesma forma que uma, duas ou três "salas do futuro" de nada servirão quando a lógica organizacional e pedagógica do sistema assenta em uma base de genérica incultura. 

Há medo de mudar, de forma serena e consistente, há medo de questionar, há medo de sair do conhecido e de partir no sentido da descoberta. Há receio em perder a mão e o controlo sobre as escolas e há pavor daqueles que fogem à rotina e tentam ver para além do horizonte. A mentalidade reinante do regime, salvo os contextos e a distância histórica, "é que os jovens não precisam de pensar porque há quem pense por eles". Nem os jovens nem os professores. Isto significa que o sistema enferma de uma genérica falta de inovação e, daí, de qualidade, porque é centralista, não permite espaço à criação, funda-se no repetitivo e em uma pressuposta aprendizagem de assuntos para esquecer, ainda porque está, sobremaneira, obcecado na avaliação e não no conhecimento e na cultura. Vive do anúncio de iniciativas desfasadas da realidade o que me leva a concluir da existência de um espartilho que comprime e sufoca a liberdade de ensinar e o gosto por aprender. E sendo assim, foram mais quatro anos a ver navios... a afundar!
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Publicado no blogue
www.gnose.eu

domingo, 7 de abril de 2019

AO SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO... DEITE O AR FORA E SEJA HUMILDE


Li o artigo de opinião da Drª Sara André,ex-Deputada do PSD-M, publicado na edição de hoje do DN-Madeira. A páginas tantas, sobre o processo movido ao Professor Joaquim Sousa, o do Curral das Freiras, a quem o secretário, maldosamente, retirou seis meses de salário, a articulista foi contundente e absolutamente assertiva. Já em Março de 2019, registei uma sua interessante passagem sobre os silêncios, embora em um outro contexto: "(...) Silêncios de quem nada faz. Silêncios de quem pode fazer. Silêncios de quem tem responsabilidade e obrigação de fazer (...)". 

Mas, hoje, o que ela quis transmitir, dedução minha, claro, é que o secretário da Educação deve deitar fora o ar que lhe enche o peito da vaidade e que seja humilde. Porque só é grande quem é humilde.

"(...) Sobre o caso do professor Joaquim da escola do Curral das Freiras, tanto por dizer que se resume a isto, em “bom” madeirense: “deixem-se de p***********, já mete nojo”. Quem deve ter bom senso, acabe com esta novela que já é nacional e só nos envergonha. Para além dos editoriais, artigos de opinião, intervenções na TV ao nível nacional, até motivo de gozo somos pelos humoristas de referência, tendo em conta o ridículo da situação".

Considero esta passagem frontal e sobretudo de BOM SENSO. Parabéns Drª Sara André, pela sua sensatez e lucidez.

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

RANKINGS DAS ESCOLAS - UMA ABERRAÇÃO SOCIAL E PEDAGÓGICA


FRANCISCO SIMÕES
Escultor
JM - 31/03/2019

É absolutamente incrível como não existe ninguém no Ministério da Educação que diga ao Ministro que os Rankings são um erro pedagógico.

É absolutamente inconcebível que não exista ninguém no Governo que diga ao Primeiro Ministro que os Rankings das Escolas são um terrível erro social.
Francisco SimõesÉ absolutamente inacreditável que não exista na Assembleia da República um só deputado que diga ao Governo que os Rankings das Escolas são um erro político.
Todos parecem aplaudir esta competição reles e vil, todos parecem regozijar-se com as escolas que ficam nos lugares do pódio.
Poucos ou quase ninguém se preocupam com as escolas que ficam mal classificadas, ou mesmo, nos últimos lugares do Ranking.
Porque se criaram os Rankings? Para se diminuir e humilhar as escolas públicas e publicitar e promover o ensino particular contra o qual, devo dizer, não tenho nenhuma adversidade.
A realidade demonstra-nos várias realidades:
Primeira realidade – Quem vai para o ensino particular são os filhos de pessoas com bom nível de vida e, eventualmente, bons conhecimentos literários.
Os estabelecimentos de ensino particular, podem seleccionar, rejeitar, um aluno, se este for menos dotado, logo aqui, começa uma selecção elitista profundamente injusta;
Segunda realidade – As escolas públicas ou privadas dos grande centros urbanos têm uma frequência de alunos provenientes de classes sociais, no mínimo, instruídas e com acesso a bibliotecas, museus e outros locais de culto intelectual e/ou artístico;
Terceira realidade – As escolas públicas ou privadas existentes em zonas periféricas ou em regiões rurais, de forte isolamento, terão, eventualmente, alunos de classes sociais menos instruídas economicamente, mais carentes e onde quase sempre se verifica uma grande ausência de estruturas de cultura e de comunicação.
Então, achamos que estas realidades são comparáveis?
O nosso País é, na Europa, o que apresenta maiores desigualdades sociais e, pelo facto, não podemos deixar de responsabilizar os sucessivos governos e os sucessivos ministros da educação, que não se apercebem destas disparidades e destas desgraças sociais. Exige-se pois ao Ministro da Educação algum pudor pelo que provoca de humilhação às escolas, aos professores e aos alunos. Um governo e um ministro da educação que humilha milhares de famílias para poder demonstrar que “os dele” são os melhores, são os primeiros, são os sabichões.
Pudor, senhor Ministro da Educação, tenha pudor, vá para casa pensar, porque será que alguém que nunca deu aulas na vida e nunca teve na sua frente alunos para poder compreender as realidades socioculturais do país, porque será que é ministro?

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Os peões vão derrubar o rei. O xeque-mate anda por aí!


Permito-me transcrever um comentário de Helena Bento, deixado na minha página de facebook, a propósito do texto que publiquei sobre a sansão de seis meses sem salário, aplicada ao Professor Joaquim José Sousa.

"A traição sempre trai o traidor. A professora Sílvia lá terá o que merece. Infelizmente competência, trabalho, dignidade, lhaneza, excelência (e outras tantas qualidades) são vistas por chefes e superiores como uma afronta pessoal. Quem ousa demonstrá-las sempre paga um alto preço (há muitas Sílvias disponíveis para levar a cabo o trabalho sujo de alguém)". 

Há, de facto, em abstracto, muitas Sílvias por aí. Por razões múltiplas. Quando li o comentário, que agradeço, lembrei-me da "Chuva" cantada por Mariza:

"(...) 
Há gente que fica na História
na história da gente
E outras de quem o nome
lembramos ouvir" 
(...)

Pois é. Não ficam na História os protagonistas desta novela de baixíssima qualidade. Sobretudo não gosto(ei) do desempenho de Sílvia Morgado de Carvalho. O papel é tão fraquinho na novela que não dá sequer para reciclar. Estou certo que o realizador, encenador e o "artista" transportarão, ao longo da vida, o remorso pela participação. Nem sei com que à-vontade se cruzarão daqui para a frente com outros actores. Mas vamos ao que interessa, deixando para traz participações que, tal como canta Mariza, no futuro, "de quem o nome lembramos ouvir".   
Para além do Professor Joaquim Sousa há mais casos. Tenho recebido mensagens particulares muito interessantes e até denúncias de casos que, para já, mantenho sob reserva. O que me leva a dizer, porque se trata de assuntos políticos (sistema educativo), daí a sua natureza pública, que o secretário da Educação tem muito que explicar. Por isso, tenho muita dificuldade em aceitar o silêncio desde  os líderes dos estabelecimentos de aprendizagem até à generalidade dos professores. Será por medo? Medo de quê? Medo, quando há Colegas encostados à parede, sancionados com perdas de salário e outros em vias de o serem, por razões que nem ao diabo lembra? Para já fico por aqui. Entretanto, convido a personagem Sílvia Morgado de Carvalho a cantarolar a "Chuva" de Mariza. Vá lá... um, dois, três...

"(...) 
Há gente que fica na História
na história da gente
E outras de quem o nome
lembramos ouvir" 
(...)

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 30 de março de 2019

A vida dá muitas voltas... senhores governantes!


NOTA PRÉVIA


A Professora Sílvia Carvalho aceitou o "trabalhinho" e posicionou-se contra um Colega (baseando-se nos normativos, claro!!!). Esta a professora, agora com letra bem minúscula, "escrafunchou" papéis até encontrar alegados "ilícitos". Os resultados e o êxito da Escola pouco  ou nunca interessaram. Ninguém pode dormir descansado, digo eu, quando viola a consciência. Não pode. E por que a violou? 
Segundo julgo saber (e o secretário da Educação deveria abordar este assunto) nenhum dos inspectores com formação específica aceitou este vergonhoso "processo", pelo que terá sido necessário requisitar, fora da inspecção, aquela professora que, pasme-se, em tempos, na Escola do Carmo, viu-se a braços com um processo disciplinar. Entretanto, foi amnistiada. Sendo assim, o secretário da Educação e o director regional de Inspecção, por melhor que o "trabalhinho" tenha sido feito, obviamente, também não devem dormir descansados. Ou será que dormem, mesmo sendo cúmplices desta deriva? 
Na minha perspectiva, quando, neste caso, uma professora, por ninharias administrativas, aceita fazer parte desta encenação fantoche, não tem a qualidade necessária nem para ser docente nem Colega (aqui com C maiúsculo). Fica uma sugestão: que aproveite a embalagem e passe por todas as escolas da Região e analise, à lupa, quantos "ilícitos" são cometidos, semanalmente, mensalmente e anualmente! A fazer o "trabalhinho a pedido e bem feito", muitas escolas fechariam... Fui docente durante quatro décadas, em alguns casos "fizeram-me a folha" mas nunca tive conhecimento de um processo assim, caracteristicamente MALDOSO, ao ponto de uma sansão "roubar" 11.107,00 Euros a um Professor (aqui sim, com letra maiúscula). Ainda ontem, na TVI, a Educação foi falada pelos piores motivos. Lamento. 
Entretanto, no Jornal Público, li o texto que se segue da autoria da Jornalista Bárbara Reis.
A mensagem do ex-presidente do governo ao Professor Joaquim Sousa é significativa. O secretário da Educação que "desembrulhe"...

OPINIÃO
Bárbara Reis - Jornal Público

Os 12 crimes do professor Joaquim Sousa


Em vez de multarem o professor da Madeira, podiam criar um prémio de 11.107 euros para quem conseguir repetir o que Joaquim Sousa fez no Curral das Freiras.

Sílvia Carvalho é professora de Filosofia do ensino secundário na Madeira e foi requisitada para ser a instrutora do processo disciplinar que o governo regional abriu contra Joaquim Sousa. No continente, este é o homem conhecido por ser o professor que transformou uma das piores escolas do país numa das melhores e a seguir foi despromovido. Na Madeira, é conhecido por ser vaidoso, próximo do CDS e, agora, presidente da comissão política Aliança-Madeira. Respirei fundo e pus-me a ler os 388 artigos da “nota de culpa”. Deles, resultam 12 “ilícitos”.

Mas antes disso, duas notas. Uma sobre o fim da história. Joaquim Sousa foi castigado em duas coisas que doem: o prestígio e a carteira. Foi humilhado e não vai receber salário durante seis meses, um castigo de 11.107 euros. Outra para antecipar os comentários dos leitores: a professora Sílvia Carvalho limitou-se a cumprir a lei; “o mal deste país” é criticar as pessoas e não as políticas; fazer ataques pessoais é fugir à complexidade dos problemas estruturais; a intenção é prejudicar o PSD e ajudar a Aliança e assim ajudar o PS ou a esquerda em geral; os lisboetas adoram dizer mal da Madeira. Podem cansar-se à vontade.

Lêem-se os 388 artigos e no fim está escrito: “A instrutora Sílvia Carvalho.” Foi a professora Sílvia Carvalho quem dirigiu e assinou o processo disciplinar. Ignorar isso é atirar a autoria para a “entidade” — abstracta e genérica — e tratar os funcionários como seres incapazes de tomar decisões. Não foi o que aconteceu. A professora Sílvia Carvalho tomou 388 decisões. É dos “comportamentos do trabalhador arguido” Joaquim Sousa, como repete, que extraiu os 12 “ilícitos” que aqui vou tentar traduzir para português inteligível.

1. “Requisitar docentes para além das necessidades reais.” O “crime” foi pedir dois educadores de infância que a instrutora acha desnecessários. Esses educadores trabalharam um ano na Seara Velha, um lugar isolado dentro do isolado que é o Curral das Freiras — mais de meia hora a pé. Não sei se eram ou não necessários, mas pelo que percebi a escola tem hoje menos uma sala de pré-primária mas mantém o número de educadores, incluindo os dois do “crime”.

2. “Pôr em funcionamento cursos para os quais não tinha autorização.” “Cursos” significa turmas. Aqui há dois “crimes”. O primeiro foi não enviar a lista dos nomes dos alunos de três turmas do Curso de Educação e Formação de Jovens já autorizadas. O outro foi enviar para o Funchal os papéis de abertura de uma turma de ensino para adultos em Setembro em vez de em Julho.

3. “Não notificar formalmente os docentes dos seus horários semanais de trabalho e respectivas alterações.” “Crime”: distribuir os horários por email e na plataforma electrónica e não em papel. Isto não é uma piada.

4. “Elaborar horários semanais de trabalho dos docentes com irregularidades.” “Crime”: na primeira semana de aulas do ano, os horários eram marcados de forma provisória, sabendo todos que, depois de falarem com alunos e conhecerem as turmas, far-se-ia o horário definitivo.

5. “Não assegurar as aulas dos alunos em sede das matrizes curriculares.” “Matrizes curriculares” são conteúdos — a “matéria”. “Crime”: esperar pela resposta do Funchal antes de substituir uma professora que tinha partido o perónio.

6. “Distribuir serviço docente do 1.º ciclo do ensino básico recorrente a uma docente sem habilitação profissional para tal.” “Crime”: dar aos alunos uma professora com excesso de qualificações.

7. “Distribuir serviço docente em regime de coadjuvarão sem autorização da DRIG e da DRE.” “Crime”: 7 professores passaram duas horas por semana ao lado de alunos que precisavam de ajuda especial, como as crianças que tinham acabado de chegar da Venezuela, “traduzindo-lhes” as aulas em sussurro.

8. “Distribuir serviço docente com conteúdos funcionais que extravasam o plasmado no artigo 38.º do Estatuto da Carreira Docente da Região Autónoma da Madeira.” “Crime”: a escola criou os programas voluntários de Acolhimento e Prolongamento (45 minutos cada), para as crianças dos 4 meses aos dez anos não ficarem na rua à espera da abertura do portão. O mesmo à tarde. Na nota de culpa, a instrutora diz que os docentes tinham de “mudar fraldas”.

9. “Estabelecer regras no regime de assiduidade sem enquadramento legal.” “Crime”: os professores não registaram na plataforma digital os sumários sobre as suas actividades extra-lectivas, só os da matéria dada.

10. “Permitir a existência de horários dos alunos sem respeitar as matrizes curriculares.” “Crime”: a escola deu uma hora a menos de aulas de Matemática e Português do 5.º e 6.º ano e uma hora a mais de apoio a essas disciplinas.

11. “Distribuir serviço docente com horas extraordinárias não respeitando as normais legais.” “Crime”: seis professores foram compensados em tempo de descanso. A lei prevê e todos concordaram.

12. “Autorizar a anulação de matrícula de aluno dentro da escolaridade obrigatória.” “Crime”: aprovar a anulação da matrícula de um aluno que, tendo sido aceite em duas escolas, ficou na de Setúbal.

Em que cabeça é que isto vale 11.107 euros? Miguel Albuquerque bem podia agarrar nesse valor e criar um prémio para quem conseguir repetir o que o Joaquim Sousa fez no Curral das Freiras.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Por mais flexibilidade que exista, a avaliação tem de ter efeitos para os alunos


O projeto de autonomia e flexibilidade curricular, que este ano está já a ser aplicado em todas as escolas, “morrerá na praia se não houver consequências da avaliação” feita aos alunos. Esta é a convicção da professora da Universidade do Porto, Ariana Cosme, que tem sido a principal consultora do Ministério da Educação neste projeto lançado em 2017/2018, que tem na base dar às escolas a possibilidade de organizarem o currículo e o modo como ensinam em função das suas características e do meio em que se inserem. Falando numa conferência promovida nesta quarta-feira pela Fundação Belmiro de Azevedo com o tema Estão as escolas preparadas para a autonomia e a flexibilidade curricular, Ariana Cosme frisou que este é um projeto “criado para ajudar os alunos a aprender melhor” e que como tal não poderá ser compatível “com pautas recheadas de más notas”.

A professora da Universidade do Porto respondia assim a dúvidas levantadas por docentes presentes na sessão sobre se a avaliação tradicional não acabará por “atrapalhar” a possibilidade de os professores darem as suas aulas de modo diferente e também sobre o modo como esta avaliação deverá ser feita em áreas como a Cidadania e Desenvolvimento, que se pretende seja transversal a várias disciplinas.
Antes, o presidente da Associação Nacional de Diretores e Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, tinha já apontado que a conciliação do novo projeto com a realização dos exames nacionais foi um dos principais constrangimentos apontados pelas escolas, no que respeita à sua aplicação no ensino secundário. “Por causa do modelo de acesso ao ensino superior, as escolas continuam refém dos exames e isso é muito redutor”, frisou.

O professor da Universidade de Lisboa João Barroso, que esteve na base do novo projeto de autonomia das escolas aprovado em 1998, lembrou a este respeito o que o próprio responsável da divisão de Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Andreas Schleicher, admitiu no ano passado em Lisboa que o “pior” do sistema de ensino português eram os exames.

“Toda a gente diz mal dos exames, mas ninguém consegue viver sem eles”, comentou este investigador, adiantando que a este respeito a administração educativa está a “dar com uma mão e a tirar com a outra”. Só que, alertou, “os exames só acabarão quando existirem condições nas escolas para se avaliar os alunos de outra maneira”.
E por falar de avaliação, Ariana Cosme deu conta de alguns resultados a que já chegou com o estudo avaliativo do primeiro ano do programa de flexibilidade curricular, em forma de projeto-piloto em que enfileiraram 235 escolas. “Há territórios e escolas que vão precisar de mais apoios do que outras”, disse a propósito das dificuldades que têm sido reveladas.
Há também um “grande desafio” que está colocado aos professores e que se prende com a sala de aula, adiantou. “Falei com muitos alunos e há um ponto comum que é o de gostarem da escola e dos seus professores. O problema é que não gostam das aulas”, descreveu. Porquê? “Dizem que eles [os professores] falam o tempo inteiro”.
Face a este estado das coisas, Ariana Cosme não tem dúvidas de que a oportunidade de flexibilidade curricular dada com o novo programa “tem de incidir sobretudo sobre as aulas”. Sendo que para já foi criada esta “grande oportunidade: as escolas estão autorizadas a pensar”.
Filinto Lima alertou que não existem garantias de que este seja um trabalho para durar já que cada novo Governo que toma posse tem por hábito mudar a educação. E apelou por isso, de novo, à necessidade de um “pacto alargado em torno do currículo e da avaliação externa dos alunos”.
Fonte: Público

terça-feira, 26 de março de 2019

"O MUNDO NEGRO DOS BUROCRATAS INVEJOSOS"


Este texto corresponde ao editorial de hoje do jornal Público, assinada por David Pontes, complementado por uma peça do jornalista Márcio Berenguer. 

"Perante a violência da sanção, num processo com contornos absurdos, já nada há a esperar da Secretaria Regional de Educação. Resta-nos esperar que a Justiça possa trazer alguma claridade que afaste o negro do mundo dos burocratas invejosos.

Não deve ser fácil morar dentro da pele de um burocrata. O cheiro a bafio, o pó dos papéis, as articulações a ranger de tantos procedimentos repetidos, o sufoco dos formulários para preencher sem rasura, as palpitações provocadas pelo aproximar das “data-limite”, a gordura acumulada das pendências e especialmente a penumbra em que é expectável que tudo se passe, para recato do burocrata.
A luz incomoda, a claridade perturba. Luz como a que emana deste parágrafo com que o PÚBLICO um dia anunciou ao mundo o estranho caso da Escola do Curral das Freiras: “Contra todas as probabilidades, uma escola no lugar mais isolado da Madeira teve a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. Tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro.”
Dizem que nós, jornalistas, não gostamos de dar boas notícias, mas enganam-se. Adoramos, como qualquer um, quando o herói é o menos provável, escrever, como o nosso correspondente Márcio Berenger, que eles não só eram bons em português, mas que “no exame de Matemática, embora menos brilhantes, os resultados foram igualmente surpreendentes. Os alunos do 9.º ano tiveram uma média de 3,6, colocando a escola no 12.º lugar do ranking”.
Com estes excelentes resultados, era de imaginar que o caso da Escola do Curral de Freiras fosse analisado e dele se retirassem as boas lições que nos tivesse para dar. Mas isso era num país em que os educadores falassem mais alto que os burocratas. Como noticiámos em Abril do ano passado, o homem por trás deste feito, o presidente do conselho executivo, Joaquim Sousa, foi alvo de 12 acusações assentes em 388 irregularidades por parte da Secretaria Regional de Educação e a “escola-modelo” deixou de existir ao perder a sua autonomia. A escola que em cinco anos tinha subido mil posições mereceu esta atenção, até porque, conforme escreveu Bárbara Reis, tinha um grave problema: “O professor Joaquim é muito vaidoso.”
A vaidade no burocrata é a das regras cumpridas e por isso, quando alguém contorna algumas regras, não importa os resultados, importa que não se saia da linha. Por isso Joaquim Sousa irá pagar com uma pena de seis meses (sim, leram bem) sem receber ordenado. Perante a violência da sanção, num processo com contornos absurdos, já nada há a esperar da Secretaria Regional de Educação. Resta-nos esperar que a Justiça possa trazer alguma claridade que afaste o negro do mundo dos burocratas invejosos."

sábado, 23 de março de 2019

SEIS MESES DE SUSPENSÃO. O QUE O CIÚME PROVOCA!


É incontornável o que de bom fizeram o Dr. Joaquim José de Sousa e os seus colegas da Escola do Curral das Freiras. São públicos os prémios conquistados e todo o reconhecimento ao nível nacional, pelo facto da escola ter passado de uma das piores do país, uma daquelas do final do "ranking", para uma das melhores nos exames nacionais. Já muito escrevi sobre este assunto e não quero regressar aos pormenores. Não resisto, porém, em transcrever uma parte de um texto que publiquei em Setembro de 2018: "(...) Há indícios de uma trama que não dignifica quem nela participa(ou). Dava para um episódio de uma novela de enredo empolgante. Há ciúme, traição, jogo duplo, perseguição, intriga, assassinato de carácter, difamação pública, linchamento profissional, medo, eu sei lá, um bom argumentista e um realizador, estou certo, tinham elementos para contar uma história subordinada ao título: "como matar, não matando".


O secretário da Educação levou a sua avante. Definiu um alvo, perseguiu e suspendeu o citado professor durante seis meses. Até às próximas eleições, melhor dizendo. É público e notório que o secretário nunca gostou que aquele estabelecimento de aprendizagem fosse diferente e que, tendencialmente, saísse da rotineira normalidade. E vai daí, por ninharias burocráticas, mandou o Professor "canas adentro". O percurso da escola, os resultados, o reconhecimento e os prémios de nada serviram. Tampouco o facto deste professor, nos últimos dez anos, ter recebido três louvores e três excelentes. A lógica parece ser esta: ou os docentes se subjugam ao "patrão", concedendo-lhe visibilidade pública ou o elástico tende a rebentar pelo lado "mais fraco". 
Ora bem, o que poderia e deveria ser motivo de reconhecimento do governo pelo trabalho realizado em uma das freguesias mais carenciadas da Região, não, deu lugar à perseguição; o que deveria ser resolvido pelo diálogo, as tais questões administrativas, não, a opção foi pela sansão. Que triste figura política está a fazer o secretário da Educação! Uma imagem de quero, posso e mando no quadro do que, inexplicavelmente, o ciúme provoca. Deveria estar agradecido, mas não, ficou enfurecido. Deveria exaltar os resultados da escola no seu todo, incentivando, mas não, preferiu acabar com sua autonomia fundindo-a com a escola de S. António/Funchal.

Do ponto de vista meramente político este secretário não tem ponta por onde se lhe pegue. Conheci muitos ao longo de 40 anos, mas este, politicamente, classifico-o como o pior de todos na administração da Educação. E sendo assim, reforço a minha posição, repito, de natureza política: este secretário não tem as mínimas condições para exercer tão importante cargo. 
Não apenas por este caso, mas pelo que de nada trouxe para um sistema portador de futuro. 
É a expressão máxima de um erro de "casting". 

Segundo informação que me chegou, foram ignorados documentos, o depoimento de alguns testemunhos (presidente da comunidade educativa, do pedagógico, vice-presidente e chefe de serviços administrativos e de outras figuras), o regimento interno que serviu para acusar mas não para responsabilizar a vice-presidente (testemunha chave da acusação - que também era presidente do conselho administrativo - que figura tão arrepiante!), correspondência nunca recebida mas que foi usada, até um aluno matriculado em escola privada do Continente, em aulas desde 11 de Setembro 2017, cujo encarregado de educação pediu anulação de matrícula em 10 de Novembro, tendo sido anulada por o aluno, comprovadamente, estar noutra escola, a acusação condena por permitir o abandono escolar...!
No essencial, aquilo que para mim é gravíssimo, o diálogo que seria tão importante e fundamental foi ignorado. Preferiu o secretário aplicar seis meses de suspensão, presumo, sem direito ao salário, a um professor casado e com duas crianças em casa. Que maldade! Diz a sabedoria popular: "não há bem que sempre dure nem mal que perdure" e "cá se fazem, cá se pagam". A vida dá muitas voltas e eu que entendo que a vingança é das piores armas do ser humano e que a nada conduz, oxalá que a Justiça acabe por repor a dignidade do Professor em causa, com a respectiva condenação de quem agora, levianamente, condena SEM DIREITO A RECURSO. Resta o Tribunal Administrativo, mas aí, pode levar alguns anos a estudar e decidir. Espero que não. Se fosse comigo pediria uma indemnização muito, muito alta.
E a classe dos professores, nada tem a dizer a isto? E os restantes directores de escola? Ainda existe classe? Dos seis mil e quinhentos professores no activo, todos passarão ao lado? E da parte dos Deputados na ALRAM? Estou revoltado.
Ilustração: Capa do JM, edição de hoje.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Secretaria da Educação na Região das Maravilhas...


FACTO

A Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de S. Roque “recebeu hoje a cerimónia de entrega de Kits de Robótica e Programação a todas as escolas de 2.º e 3.º ciclos da Região Autónoma da Madeira. Uma oportunidade que serviu para Jorge Carvalho, secretário regional da Educação, dizer que o uso de tablets na sala de aula poderá ser uma realidade no próximo ano lectivo, a partir do 5.º ano de escolaridade. O governante revelou que esta medida está a ser estudada em conjunto com as escolas para saber se estas estão preparadas. Jorge Carvalho referiu ainda que esta nova metodologia de trabalho seria também uma forma de aliviar o peso das mochilas”. Fonte: DN-Madeira.

COMENTÁRIO

É a velha história de Alice, neste caso, de um secretário na Região das Maravilhas: “(…) Alice se não sabes para onde vais, qualquer caminho serve”. É isso. A complexidade do sistema educativo é tal que deveria obrigar à necessidade de, respeitando o planeamento e a cadência no tempo, primeiro, saber onde se está, o que implica uma extensa caracterização; segundo, saber onde se quer chegar, para, finalmente, definir os passos a dar para lá chegar. É uma regra básica para administradores e gestores, públicos ou privados.
Ora, a mudança de um sistema não se faz por impulsos, hoje isto, amanhã aquilo, conforme o que ditam a comunicação social, as redes sociais e outros meios, como se o sistema pegasse de empurrão, antes concretiza-se de uma forma pensada, articulada e integrada. Portanto, fica um rasto de dúvida quando é dito que o “uso de tablets na sala de aula PODERÁ ser uma realidade (…) a partir do 5º ano” (porquê o 5º e não desde o 1º ano?), ao mesmo tempo que é dado um salto nas preocupações, através da entrega de “Kits de Robótica e Programação a todas as escolas de 2.º e 3.º ciclos”. Não existe a base, mas o estádio posterior é colocado na linha de partida. Dois exemplos: foi a “sala de aula do futuro” (uma, apenas), agora os “Kits de Robótica e Programação” (naturalmente, para poucos). Ininteligível. Isto demonstra que a secretaria da Educação alimenta-se do mediatismo, pouco se ralando com aquelas três perguntas essenciais: onde estou, onde quero chegar e que passos tenho de dar para lá chegar. 
Finalmente, o drama da aprendizagem é essencialmente de natureza organizacional, curricular, programática e PEDAGÓGICA, que envolve múltiplas disciplinas e variáveis, porém, fica o testemunho que nada disso constitui motivo de preocupação embora seja aí que resida o âmago de uma desejada mudança. Essa transformação exige uma verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, CONFIANÇA nos professores, dizer NÃO à centralização do sistema, um orçamento compatível, desburocratização, uma nova concepção da rede escolar, uma nova configuração arquitectónica das escolas e sobretudo que não se brinque, politicamente, com coisas muito sérias. O problema NÃO está só no "alívio do peso das mochilas”. É muito mais complexo desde que não se queira utilizar os "tablets" para repetir o manual ou para substituir os velhos diapositivos e acetatos.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Que Inclusão queremos?

PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO

A Escola Pública para “todos” não deve, nem pode, aceitar “tudo”, nomeadamente ao nível dos procedimentos e imposições de modelos únicos, da gestão à pedagogia, assentes de forma paradoxal numa lógica relativista quanto ao valor do Conhecimento.


O grande desígnio aglutinador da retórica deste governo na Educação, mais do que a “flexibilidade” ou até o “sucesso”, centra-se num conceito peculiar de “inclusão”. A “flexibilidade” é, neste contexto, uma ferramenta para a “Inclusão”, a qual se torna o factor central da métrica do “sucesso”. Gostaria de deixar claro que a “inclusão” é um fim nobre, meritório em si mesmo e que nada me move contra tal desígnio. O que me deixa preocupado são os meios que têm sido mobilizados, como se tal fim justificasse de tudo um pouco, ao ponto de a “inclusão” ser feita com procedimentos e mecanismos que acabam por produzir fenómenos de exclusão. 
Por definição, qualquer conceito racional e razoável de “inclusão” deve orientar-se pelo princípio de procurar incluir todos e não apenas alguns, ou subordinando todos a uma das suas partes, em especial quando estamos a falar de uma Escola Pública universal e obrigatória. Até porque incluir “todos” não pode significar incluir “tudo”. 
Sim, claro, há a quem por preconceito social, forma de estar na vida ou por opção cultural, o ideal e a prática de uma Escola Pública para todos cause aversão. Posso discordar, após quase cinco décadas enquanto aluno, professor e encarregado de educação na Escola Pública, mas tenho de aceitar esse tipo de atitude, em especial se não vier acoplada com um pedido de cheque-ensino.
Só que, como ia escrevendo acima, a Escola Pública para “todos” não deve, nem pode, aceitar “tudo”, nomeadamente ao nível dos procedimentos e imposições de modelos únicos, da gestão à pedagogia, assentes de forma paradoxal numa lógica relativista quanto ao valor do Conhecimento. Há uma enorme diferença entre a “plasticidade” e a amplitude de soluções e propostas a acolher na Escola Pública, para que exista lugar para todos, e a aceitação de um relativismo cultural e ético como padrão de comportamento em nome de “boas intenções” ou de concepções ultrapassadas de um “século XXI” em que há muito vivemos. Porque isso acaba por provocar uma inevitável “repulsão” em quem encara a Escola Pública como referencial para a formação das “novas gerações” e não apenas como um albergue onde tudo vale o mesmo.
Passo a exemplificar um pouco do que não pode ser justificado com qualquer conceito de “inclusão” por mais pergaminhos que exibam os seus promotores, só faltando mesmo citarem a Magna Carta.
A “inclusão” e a “tolerância” não podem, desde logo, pactuar ou condescender com comportamentos que transformem os espaços escolares e as salas de aula espaços inseguros para alunos e docentes, seja do ponto de vista físico, seja moral. A relativização ou contextualização de comportamentos que agora se dizem “disruptivos” não pode atingir níveis que de tanto compreenderem os agressores, esqueçam as vítimas.
A necessária renovação curricular não pode passar por práticas de desvalorização do capital cultural ou conhecimento científico em favor de “saberes fazer” de duvidosa vantagem num presente que já é de híper-especialização e em que a flexibilidade apenas parece ser uma vantagem para quem vive da precarização da mão-de-obra. O novo lumpen terciarizado é intermutável mas um neurocirurgião nunca poderá ser trocado por um engenheiro informático.
A pedagogia para ser “autónoma” e “flexível” não pode ser de sentido único. Não pode enquistar-se nas crenças, quase ao nível da Fé que implica a aceitação sem crítica, deste ou aquele nicho académico ou grupo de interesses. Muito menos a profissionalidade dos docentes deve ser desqualificada, desvalorizando os seus saberes ou burocratizando de tal forma o seu exercício que se torna mais importante representar o acto pedagógico do que a sua efectiva prática.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.
Transcrito do blogue: Educare

PAULO GUINOTE
Professor do Ensino Básico, Doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
01-03-2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

TUDO, EM APENAS UMA PERGUNTA...


FACTO

"Se é necessária toda uma aldeia para educar uma criança, por que as fechamos em salas? - Fonte: Dr. Carlos Andrade - DN-Madeira/Revista.

COMENTÁRIO

Sobre política educativa, nas reflexões que aqui vou publicando, muitas vezes tento desenvolver raciocínios mais ou menos elaborados, em uma ânsia de provar, por um lado, a minha angústia por não ver qualquer pontinha de desejo de mudança de um sistema reclamado pelas próprias crianças e jovens; por outro, pela necessidade de conduzir os políticos a repensarem processos que a ciência já os catalogou de anacrónicos. Escrevo tantas páginas quando, uma frase, que cabe em uma linha, diz tudo. Partindo de um provérbio africano o Dr. Carlos de Andrade, meu distinto Colega, compaginou-o e perguntou de forma sagaz: "Se é necessária toda uma aldeia para educar uma criança, por que as fechamos em salas?"
Exclamei para dentro: boa pergunta... é isso! A formação básica deveria ser suportada por um conhecimento distante da ideia ditada pelos manuais que, no seu conjunto, são enciclopédicos e apenas servem para ler, seguir, muitas vezes decorar, despejar nos testes e esquecer. 
Ora, um olhar interdisciplinar da vida, sublinho, VIDA, que está muito para além do manual, deveria constituir o alicerce consistente sobre o qual se edificariam os pilares de suporte do conhecimento, inclusive, os de natureza superior e especializada. Assim não acontece e, por isso, a escola, grosso modo, tornou-se uma "seca". É o que eles, genericamente, dizem. O que significa que falta mundo à escola, falta aldeia, capacidade para perceber que existe mais escola para além da escola e que, por conseguinte, os muros circundantes da escola não devem impedir de ver e experimentar o mundo. 
A escola está desconectada da vida real, teimosamente enredada no individualismo, em disciplinas sectoriais, extensos programas e na complexidade burocrática, quando a vida real pede globalidade, flexibilidade, pensamento crítico, permanente questionamento, trabalho em equipa e disponibilidade para desaprender. A vida pede exactamente o contrário da escola. Eu diria que falta à escola uma dimensão social do saber. Falta-lhe CULTURA.
O paradoxal desta situação é que, amiudadas vezes, não apenas os governantes, é certo, falam que vivemos, hoje, em "uma aldeia global", mas quando olham para o sistema educativo, nas suas "empoeiradas mesas de gabinete", comportam-se e legislam como se a escola fosse uma aldeia fechada ou com pequenas janelas, chamaria gretas, viradas para o exterior. 
Em 2016 li um estudo sobre a adolescência, da Organização Mundial de Saúde, tendo por base "inquéritos realizados a mais de 220 mil alunos, dos quais cerca de seis mil portugueses. Não será decerto, por acaso, que estes aparecem entre os que gostam menos da escola, colocando Portugal na 33.ª entre os 42 países e regiões analisados". E isto acontece porque “o sistema está orientado, de uma forma absolutamente excessiva para os resultados” — ou seja, para os exames e para as notas que neles se conseguem - Fonte: Público, texto de Clara Viana. Não está orientado para a sabedoria, porque lhe falta, repito, MUNDO. Falta-lhe a ALDEIA que não pode circunscrever-se ao rotineiro toca-entra-toca-sai!
Pois é, Caríssimo Dr. Carlos de Andrade, concordo, fechar as crianças em salas constitui o caminho mais certo para uma inadaptação a este mundo que exige sabedoria e disponibilidade para ver para além do horizonte.
Ilustração: Google Imagens

domingo, 10 de março de 2019

TUDO, APENAS EM UMA PERGUNTA...





"Se é necessária toda uma aldeia para educar uma criança, por que as fechamos em salas?
Dr. Carlos Andrade - DN-Madeira/Revista.

segunda-feira, 4 de março de 2019

APENAS UM FRAGMENTO DE UMA ENTREVISTA: "A ESCOLA TEM DE SE REMODELAR"



A edição de hoje do DIÁRIO traz uma interessante entrevista com o médico pediatra Mário Cordeiro. Ele é autor de vários livros, entre os quais destaco o último, "Pais apressados, filhos stressados". A determinada altura, a jornalista Ana Luísa Correia, questiona-o sobre o actual sistema educativo. A resposta, óbvia para quem pensa os assuntos da Educação, veio célere: 

"(...) Sou extremamente crítico relativamente ao sistema educativo. Não quero adiantar muito porque isso dava pano para mangas. A escola tem de se remodelar. Os objectivos de Passos Manuel, do Marquês de Pombal ou de João de Deus - escrever, ler e contar - já passaram de moda. Hoje a escola tem de dinamizar talentos; ensinar a arte, estética, ética; formar cidadãos, pessoas solidárias e empáticas, voluntárias, frugais; incentivar o relacionamento do aluno com o ambiente e com o espaço físico, dinamizar o corpo,  exercitar o raciocínio, o querer, a criatividade e a autonomia. As restantes matérias, ditas "académicas", virão por acréscimo. O sistema de educação em que, supostamente, alguém "abre" a cabeça do aluno e despeja matéria que, no fundo, só dura até ao teste seguinte, tem de ser substituído por um sistema educativo, pluridisciplinar, em que o aluno partilha o que sabe com os outros e o professor é um moderador do conhecimento, com alguma informação, obviamente, mas dando a sabedoria (que resulta da experiência), que só professor tem... apenas porque está cá há mais tempo. O sistema educativo tem de mudar. Uma hora e meia a ouvir uma "matraca" a despejar "matéria" é de fugir... e isso contribui para o desinteresse dos alunos relativamente à escola - o professor é uma "seca" e a escola só vale pelos amigos. É pena. Onde está a música, a arte, a pintura, a escultura, a ética, os debates e dilemas sobre o bem e o mal, o voluntariado, a cidadania? Onde? (...)"

O Dr. Mário Cordeiro é um Pediatra, mas é sobretudo um PENSADOR. Assume, publicamente, aquilo que, embora em vão, tantos andam a dizer há 50 anos. Estou a reler textos, por exemplo, os do Professor Sérgio Niza, que há meio século luta por uma aprendizagem assente em bases diferentes. Nesta entrevista, a jornalista, e muito bem, subtilmente, questionou a "utopia" das suas palavras. Uma palavra devidamente enquadrada para fazer soltar o seu pensamento. E ele, em síntese, exprimiu o pensamento que é transversal a tantos autores. Já aqui escrevi e, hoje, volto a repetir, o que escutei de um professor em uma aula de Psicopedagogia. Faz agora 50 anos: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O desencontro é inevitável". Cada vez mais o desencontro acontece. Infelizmente.
O problema é que a estrutura de governo não está para aí virada. Vive e sobrevive do mediático, de uma agenda política, enferma de um distúrbio que se designa por centralização: nós definimos e vocês obedecem, ou como disse o Professor Licínio Lima: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Depois vêm falar de robotização, de salas de aula do futuro e de outras paranóias quando o problema é, antes de tudo, organizacional, curricular, programático e pedagógico. 

NOTA

TPC para governantes: escrever 50 vezes a declaração do Dr. Mário Cordeiro.