domingo, 17 de setembro de 2023

Podemos falar sobre “sucesso escolar”?


É a escola dos trabalhos de casa, do caderno de actividades, dos programas, da ficha, do teste, do exame e do “caladinho/a”, “direitinho/a”, “quietinho/a”.


Por
Autor, dramaturgo. 
Público / 16.09.2023 



Há comissões, grupos de estudo e instituições que debatem este e outros temas conexos. A premissa está quase sempre errada porque se assume que o aluno precisa de se submeter a um processo mais ou menos truncado, no qual o indivíduo é o único convidado à mudança para se poder encaixar num padrão — o do "sucesso escolar". O que é isso do "sucesso escolar"?


Este conceito é algo mais ou menos abstracto, mas que obedece aos ditames de um sistema tão pesado que já não se sabe onde começa ou onde acaba. É uma ponte que casa conhecimento com repetição, numa fórmula muito salazarenta de perceber virtudes e aptidões, deixando muito de fora.

Neste "sucesso escolar", crianças e jovens são dados adquiridos, tratados como tal, sem vontade ou capacidade de perceber o que querem, desejam ou podem. É a escola dos trabalhos de casa, do caderno de actividades, dos programas, da ficha, do teste, do exame e do "caladinho/a", "direitinho/a", "quietinho/a".

O "sucesso escolar" é abdicar do "ser", ficando pelo "existir". É acreditar que há áreas de primeira, de segunda e de terceira e até algumas que não interessam para nada. É normalizar o sacrifício, o stress e a ansiedade, fazendo acreditar que quem não consegue é porque não se esforça, ou não se esforça o suficiente.


Mas esforçar-se para quê, se são corridas que nos escolhem, com as coordenadas fechadas sobre si mesmas?

O "sucesso escolar" resume-se a um emaranhado de números e estatísticas ao qual emprestamos os nossos filhos (enquanto cobaias de uma espécie de darwinismo social), impelidos a subir uma ilusória escada de validação de conhecimento, tendo por ideal roto, e vão ficar à frente ou ultrapassar, num jogo de memória a curto prazo, colegas, amigos e amigas, companheiros e companheiras de turma, escola, etc.

Esta é a raiz de muitos dos males que assolam o mundo, como preconizou Maria Montessori. Não é nada de novo. Está é cada vez pior. Não vivemos uns com os outros: vivemos uns contra os outros, enquanto deixarmos os nossos decisores falarem, à vontade, de "competitividade", "retenção de talentos" e outros termos tão caros a uma certa elite. Pasmo como a esquerda entra nesta cantiga, frequentemente.

Tudo acaba por servir os mesmos de sempre, porque não se aprende verdadeiramente: selecciona-se. Perpetua-se, geracionalmente, o poder e o poiso dele. O que se "inventou" foi uma máquina de normalização, de produção de súbditos, através da incitação e acatamento. Sem grande necessidade de explicações porque a própria roda e os dentes bem oleados oferecem, em circuito fechado, justificativa para os trâmites.
"O que se 'inventou' foi uma máquina de normalização, de produção de súbditos, através da incitação e acatamento."

Há em tudo isto um exponencial abdicar da vontade, essa força animadora do ser humano. A vontade ou é controlada, ou é capturada, em nome de um interesse que passa a ser o do corpo que a habitava, num exercício de dependência forçada.

"Sucesso escolar", com este modelo? Normalização. Abdicar da individualidade (não individualismo), do espírito crítico, da criatividade (a maior arma boa do universo) e da nossa "uniqueness".

sábado, 16 de setembro de 2023

A perda de alunos e a ausência de debate

 

"Escolas públicas e privadas perdem mais de 300 mil alunos em 11 anos" - Jornal Público, 1ª pág. de 11 de Setembro de 2023.



Entretanto, acentuam-se as lutas dos professores, as greves, milhares de alunos sem docente pelo menos numa disciplina curricular, sindicatos em polvorosa, insatisfação dos pais, enfim, um quadro que não é nada satisfatório.

Evidentemente que este é um problema acumulado de muitos anos, onde não houve a sensatez de debater o sistema educativo em todas as suas variáveis. Aos níveis nacional e regional. É uma ilusão admitir que o sistema está melhor nas regiões autónomas. Não está. O sistema é igual do Minho ao Corvo e não é pelos professores terem "garantido" a contagem do tempo de serviço, que se poderá concluir que a Região é um oásis nos desequilíbrios do país. Globalmente, o pensamento estrutural que preside à condução do processo regional não tem qualquer diferença em todas áreas e domínios que possamos analisar.

Na Madeira assistiu-se, também, a uma significativa quebra na natalidade. E este momento, apesar de preocupante, podia ter servido para transformar essa fragilidade numa óptima oportunidade de mudança do sistema em toda a sua complexidade. Não houve essa preocupação. Simplesmente porque não se debate. Há uma sistemática preferência pelo silêncio e pelo controlo dos estabelecimentos de aprendizagem e siga a festa!

Ao ponto de, também por ausência de estudo e debate, quando outros países do topo estão a abandonar os manuais digitais, porque estudaram e debateram as consequências, sublinho, andam, por aqui, em contraciclo, a distribuí-los como uma grande opção enquadrada na tal "escola do futuro". O governo deve explicações.

Nutro o maior respeito pela minha classe profissional. Sei que tem sido, durante anos, desconsiderada, por culpas próprias (é preciso assumir os erros cometidos por omissões e sucessivo "agachamento" ao poder político), que conduziram ao ponto que nos encontramos. A menorização dos docentes vem desde o tempo que nem nas férias recebiam! Só que, daí a minha preocupação, não aceito que, simultaneamente, com algumas lutas pela recuperação da dignidade da função docente, os professores continuem alheados do debate sobre o sistema educativo. A Escola tem de ser debatida, na sua organização e, sobretudo, o seu processo (pensamento) pedagógico. A todos os níveis de análise, no essencial, que escola queremos e que sociedade desejamos construir? Porque esta escola e esta sociedade estão em falência. Esse debate está ausente das preocupações da generalidade dos professores. 

A recuperação do tempo de serviço prestado, a colocação em estabelecimentos próximos da área de residência, os níveis remuneratórios, o flagelo da burocracia inconsequente, a perversa avaliação de desempenho, tudo isto e muito mais constitui uma parte do problema. A outra, mais complexa, é a de determinar o que aprender, como aprender, quando aprender, se o professor é um debitador de matéria ou antes uma espécie de "catalisador" do conhecimento e se é ou não importante rever currículos, programas, conceito de aula, de turma e de ano. Os professores são importantes neste processo; negam o futuro quando se distanciam destas matérias. Aliás, um dos princípios do desenvolvimento é o da "participação", isto é, ou as pessoas participam ou os processos morrem.

Por tudo isto, a diminuição do número de alunos devia constituir uma grande oportunidade para desenhar uma escola para o presente com os olhos colocados no futuro. Se revissem o sistema, estou em crer que não seriam necessários os professores que dizem estar em falta! 

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Deus não dará a bênção!

 

Saiba, Padre Silvano Gonçalves, que nutro o maior respeito por si. Não nos conhecemos no plano pessoal, mas leio e tenho algumas referências dos sete anos que passei no Lombo do Atouguia (Calheta). Portanto, não considere deselegante da minha parte trazer aqui um comentário sobre uma frase que deixou na sua página de facebook. Escreveu: "Peço a bênção de Deus para o ano escolar que se inicia. Vinde Espírito Santo!"



Eu percebo a sua intenção. O Senhor é um Homem da Igreja e, portanto, por mera rotina ou não, as suas palavras, nesse quadro, podem fazer algum sentido. Respeito-as. Porém, entendo que Deus não deve ser para aqui chamado. E porquê?

Não estou a dizer-lhe que "invocou o nome de Deus em vão". Não é isso. O que me parece claro é que se deseja, tal como eu, uma escola verdadeiramente inclusiva, curricular, programática, pedagógica e organizacionalmente autónoma, de excelência e ajustada ao tempo que nos coube viver; se quer, tal como eu, uma escola com menos dependentes da acção social educativa; se deseja jovens e professores felizes no processo de aprendizagem para a vida, obviamente que tudo isto não depende da mão de Deus, mas dos Homens. E, nesta, como em todas as outas situações, não existem intermediários. Tal como a paz no mundo, as gravíssimas questões ambientais (vide a Encíclica Laudato si), as diversas formas de violência, os desequilíbrios e dependências mundiais, a fome, as migrações, a selvajaria económico-financeira mundial, a precariedade no trabalho, os direitos básicos constantes na Constituição da República, os baixos salários vs altos impostos, enfim, tudo o que nos preocupa, não depende de Deus, mas de nós, Homens e Mulheres. Se assim não fosse, parece-me óbvio que, há muito, com tantas bênçãos, pedidos, terços e procissões os nossos desassossegos estariam resolvidos!

Uma melhor escola, Padre Silvano, depende dos políticos e não de Deus. Uma melhor aprendizagem não depende do Espírito Santo. Depende da capacidade dos políticos serem ou não inovadores. E eles, creia, não têm sido. Depende, também, dos professores quererem erguer uma escola de e com futuro, que tenha o aluno e a vida como centro da sua acção. Depende da cultura dos pais e da informação que disponham sobre o que deve ser a escola. Depende de uma sociedade menos assimétrica que, aliás, está assustadoramente reflectida na escola. Portanto, jamais dependerá de Deus, mas dos Homens. Compreenderá, por isso, ilustre Padre que, em aproximação ao Evangelho (da Igreja interessa-me, sobretudo, a Palavra contextualizada com a vida), temos a obrigação de não sermos vazios, não transferindo para Ele preocupações e pedidos de ajuda que não lhe compete "dar despacho". Nem o Pai, nem o Filho, nem o Espírito Santo (Deus Triúno) podem ser responsabilizados pela ausência de projecto político sério e responsável.

Eu Cristão, baptizado, professor durante 40 anos, entendo que Deus não dará a sua bênção ao ano escolar, tampouco o Espírito Santo concederá a inspiração no sentido da concretização das urgentes mudanças que o sector educativo necessita. Essas mudanças dependem da cultura dos Homens, depende da sua vontade, depende da sua inteligência e concomitante capacidade para ver o sistema de uma forma alargada, visionária e integrada no conjunto de todos os outros sistemas. Depende dos políticos não desejarem ser "donos disto tudo", egoístas, centralizadores e castradores do pensamento livre. É por aí que devemos lutar e exigir (o Senhor Padre Silvano devia exigir nos vários púlpitos que dispõe), nunca pela solicitação de uma bênção para um processo que está errado na raiz. Pelo que sei da Palavra, Deus, certamente, não aprova os disparates dos Homens.  

Não me leve a mal o desabafo. Compreendo-o, mas não estou de acordo com a "solicitada" bênção. Mas, quando, até ao momento, mais de 800 pessoas concordaram consigo, inclusive, professores, provavelmente eu é que estou errado.

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

EDUCAÇÃO - O monopólio do poder de governação

 

Quando só 15% das raparigas e 11% dos rapazes dizem, assumidamente, gostar da escola e 84% dos professores manifestam-se cansados da sua profissão e declaram o desejo, se pudessem, de procurar outras soluções de vida, aquelas percentagens tornam-se preocupantes, pelo que deviam fazer soar as campainhas de alarme relativamente ao sistema educativo. Mas não, para quem governa o sistema, tudo continua bem e recomenda-se! São páginas e páginas de auto-elogio. Para os cérebros do sistema, a rotina deve sobrepor-se à inovação. Compreendo que é muito mais fácil, mas, à luz do conhecimento e da vida, a factura virá pesada. Pior que a do passado. Aliás, já existem sinais.



A Região Autónoma da Madeira podia constituir um exemplo. Infelizmente, não é. Com cerca de 40 000 alunos, tem menos 15 000 alunos que o concelho de Sintra. Isto dado significa que, para além de desfrutar de Autonomia Político-Administrativa, reorganizar o sistema afigura-se-me que seria muito mais desafiante e fácil que gizar uma reforma para dois milhões de estudantes matriculados em Portugal. 

Ora, vejo-os a falar tanto de Autonomia e, afinal, num sector vital para o desenvolvimento, não mexer uma palha prospectivando o futuro constitui a primeira opção dos decisores. Talvez, por isso mesmo, se diga que a Madeira dispõe de uma Assembleia adaptativa e raramente legislativa.

Mesmo considerando as limitações constitucionais impostas pelo Artigo 164º, não é a República que define o paradigma organizacional dos estabelecimentos de aprendizagem, a tipologia das infraestruturas, as características da rede escolar, tampouco o paradigma pedagógico. O artigo 164º (Reserva absoluta de competência legislativa - alínea i / Bases do sistema de ensino) tem essencialmente a ver com a estrutura curricular e programática. E apesar de constituir uma notável incoerência com o verdadeiro e desejável estatuto de uma região autónoma, a Constituição não é impeditiva de uma alteração do pensamento estrutural que devia presidir ao processo de mudança organizacional da escola e da aprendizagem. Aliás, não se assiste a um qualquer movimento no sentido de propor as necessárias e clarificadoras alterações constitucionais.

O problema está no monopólio do poder de governação. É esta concentração da decisão que mata os estabelecimentos de aprendizagem, afasta os alunos e os professores e, por conseguinte, todos os actos inovadores, ao fim e ao cabo, a tradução na prática do que tantos pensadores, investigadores sociais, professores, autores e até empresários assumem como determinante para hoje e para o futuro. Tudo tem de passar pela "central" de comando, restando à escola o cumprimento do estipulado. No actual contexto, falar de autonomia dos estabelecimentos escolares constitui uma grosseira mentira.

A comprovar, passados alguns anos, o exemplo da Escola do Curral das Freiras continua a ser paradigmático. De rigorosamente nada valeram os resultados apresentados, dentro das regras-limite do próprio sistema, isto é, respeitando a Constituição e outros normativos. O êxito foi literalmente "castigado". Deram um primeiro passo contra a dinâmica de aprendizagem, impuseram um processo disciplinar e, logo de seguida, "acabaram" com a escola. E agora, os alunos do Curral estão enquadrados num estabelecimento de S. António/Funchal, com a falácia, repito, falácia, do número de alunos ser limitado para a constituição de turmas. Ignoraram que, hoje, existem outros formatos de aprendizagem que substituem (para melhor) o conceito tradicional de turma, de ano e de segmentação das disciplinas.

Aliás, aquele estabelecimento podia ter sido o embrião, a escola piloto de um sistema a dinamizar por toda a Região. Bastaria que predominasse a inteligência e o desejo de "dar gás" ao processo. Porque ali surgiram dinâmicas pedagógicas tendencialmente distintivas. Apesar de situada numa freguesia muito pobre, a escola, que se encontrava, salvo erro, no lugar 1 207 do ranking nacional, saltou, em 2016, para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. Uma peça jornalística divulgada pelo Público, caracterizou desta forma a dinâmica escolar: "O interessante é que tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro". Esta uma síntese compaginada com muitas outras que tornaram possível um melhor conhecimento, "apesar 92% dos alunos terem Acção Social Educativa (pobreza) e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias". Sublinho, não tinham tablets, manuais digitais e salas do futuro. E os alunos aprendiam. Não é que não existissem insuficiências ou caminhos alegadamente discutíveis, mas tudo isso fazia parte, também, do processo de aprendizagem dos professores da escola. O decisor político só tinha que aprender e não boicotar.

Este é o exemplo de maior significado do que designo por monopólio do poder de governação. Num processo destes, os professores são apenas meros executores de uma política e os alunos números. Não se lhes pede que coloquem a sua inteligência e o seu conhecimento ao serviço da comunidade educativa, apenas que cumpram o acto político decisor, a norma, o ofício, a circular, enfim, o processo burocrático em toda a sua extensão.

Como na altura escrevi, naquele processo, qual paradoxo, acabaram por matar a escola por "ciúme, traição, jogo duplo, perseguição, intriga, assassinato de carácter, difamação pública, linchamento profissional, medo, eu sei lá, tudo o que um bom argumentista e um realizador, estou certo, precisam para contar uma história subordinada ao título: "como matar, não matando".

Por vezes chego a pensar que não vale a pena continuar com textos que abordem o sistema educativo. Poucos se interessam pelo debate das questões educativas. Desde que os "pequenos" estejam na escola, está tudo bem! Mas vale. Embora o sistema peque por ausência de informação credível, debate público qualificado, inúmeros receios por parte dos professores, reflectindo-se no desinteresse que os estudantes nutrem pela escola que lhes oferecem, continua a ser premente dizer a plenos pulmões que "o rei vai nu".

E assim, esta semana, toma lugar no mais alto patamar do pódio, sua excelência a ROTINA.

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 3 de setembro de 2023

Aulas de 90'!


Por
Ana Catarina Mesquita
Professora e Investigadora na área da Língua e Educação
Revista Visão


Excerto do artigo:

"Há vários elementos que não se compreendem na educação de Portugal, ideias obsoletas, que não fazem qualquer sentido para quem tem dois dedos de testa e que só ignora quem não quer saber do assunto, quem não se esforça por saber mais sobre ele, ou quem, de certa forma, pode sair beneficiado dessa situação, certamente não os alunos nem os professores.

Uma destas coisas do arco da velha são as aulas de 90 minutos, que prevalecem em tantas escolas do nosso país. 90 minutos já são pesados para estudantes universitários, fará para alunos de faixas etárias abaixo. O facto é que não podemos exigir aos nossos alunos que fiquem 90 minutos a ouvir o professor com concentração. Quem é que consegue acreditar que tal é possível?

As aulas devem centrar-se sempre no aluno e não no professor. (...)"

terça-feira, 29 de agosto de 2023

A necessidade de repensar tudo


Dos Estados Unidos a vários países europeus, mesmo aqueles reconhecidos como tendo sistemas educativos de reconhecida qualidade, os manuais digitais e outros equipamentos estão a ser colocados em causa e mesmo abandonados. Não significa isto, como aqui já tive a oportunidade de equacionar, o abandono da tecnologia. Não é disso que se trata, aliás, seria um contrassenso, quando se vive num mundo onde os meios tecnológicos ganham cada vez maior relevância nas nossas vidas.



O problema é outro e muito mais profundo. E esse tem de ser estudado. Por que razão "a Suécia está a planear deixar de lado os computadores nas escolas e regressar ao ensino baseado nos livros? O motivo, explicam, é a diminuição das competências de leitura e escrita dos alunos".

Aliás, "a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, já tinha mostrado dados que levaram a crer "que exagerar nas telas pode levar a: prejuízos na comunicação, problemas no sono e atrasos no desenvolvimento cognitivo".

O plano da Suécia "é dizer adeus aos quadros digitais, ecrãs e dispositivos electrónicos e regressar às ferramentas tradicionais de ensino. A Ministra da Educação, Lotta Edholm, e a Ministra da Cultura, Parisa Liljestrand, consideraram que foi "uma grande experiência", mas anunciaram, planos para regressar ao ensino baseado nos livros". Na Holanda, "os celulares, tablets e relógios inteligentes" serão banidos. E na Finlândia já foi anunciado um projeto quase no mesmo sentido. Nos Estados Unidos, desde há oito anos que se assiste a uma mudança no que concerne à utilização desses meios.

E o curioso desta situação é que, por ausência de estudo prévio, quando os outros já experimentaram e concluíram que existem outros meios de relevância maior na aprendizagem, em Portugal e particularmente na Madeira, estão a ser "investidos" muitos milhões. Quando os outros tendem a abandonar nós começamos. Regresso as palavras de Tony Bates (Microsoft) que transcrevi no meu livro "A Escola é uma seca" (2022): 

"(...) o bom ensino supera uma escolha tecnológica pobre, mas a tecnologia nunca salvará o mau ensino". 


O problema é esse. Seja como for, a questão central está em debater, com rigor científico, a mudança de pensamento que está a acontecer. Não basta fiar-se nos vendedores de tecnologia. Com o receio de perderem no mercado livreiro, apostam, como alternativa, na integração do manual no digital. Como é óbvio, um vendedor nunca abordará a fragilidade do que vende. Vêm aí, são entrevistados, dizem maravilhas, falam em pioneirismo, simplesmente porque são "vendedores". Quem governa não devia entrar em leviandades e "achismos" desta natureza! Bom seria que apresentassem as conclusões dos estudos, se estes foram, previamente, realizados.

Esse debate tem de acontecer com urgência, envolvendo todos, desde investigadores a professores que, nas escolas, são hoje confrontados com novas populações e novos quadros de aprendizagem. O sistema não deve estar entregue a uma "cabecinha pensadora". E se, eventualmente, concluir-se que existem, com rigor científico, repito, outros caminhos mais consistentes, inteligente será reverter o que pensavam ser a via mais adequada. Às certezas contraponho a dúvida e, portanto, estudem no pressuposto que "só os burros não mudam de opinião; ou só os burros não têm opinião sobre as mudanças dos outros".

Paralelamente, há muito, mas mesmo muito a estudar e a mudar no sistema. A utilização da tecnologia, sobretudo como utilizá-la é, apenas, uma ínfima parte. Os currículos, os programas, o processo pedagógico, a mentalidade, a arquitectura das escolas e a característica centralista como estão organizadas, continuam a ser as grandes chagas do sistema. 

Ilustração: Google Imagens. 

sábado, 26 de agosto de 2023

O conhecimento e a subjectividade das notas escolares

 

Confunde-se o "conhecimento" com "notas escolares" conseguidas através de uma qualquer avaliação. E uma coisa e outra não são compagináveis em todas as suas dimensões. A vida precisa de conhecimento e dispensa o excessivo e frágil foco nas notas (classificação)! O empregador pergunta: "o que sabe fazer" e não a "classificação" que teve na disciplina Y. Note-se que não estou a colocar em causa a avaliação, mas sim as variáveis do processo que conduzem a aprender melhor. Genericamente, salvaguardando as excepções, o que designam por "bom aluno" é aquele que, perante um determinado programa curricular, repete o que lhe foi transmitido pelo docente, o qual, por sua vez, cumpre o que se encontra espelhado no manual. Ora, por essa via, raramente existe uma conexão directa com o conhecimento intelectual, muito menos com o conhecimento científico.



Esta escola oferecida aos portugueses não possibilita o questionamento da própria realidade e não estimula a criatividade nas ideias e conceitos. Trata-se, por isso, de uma aprendizagem que parte, fundamentalmente, do professor e não do aluno. Quase tudo se apresenta repetitivo e estático, cansativo e constrangedor para professores e alunos. 

Aos professores pedem-lhes que elaborem, cumpram as meticulosas "planificações das unidades didácticas" e debitem, escrevam muitos relatórios do extenso e anacrónico processo burocrático e, finalmente, atribuam notas; aos alunos, o sistema preocupa-se em apreciar os dóceis, serenos, não desestabilizadores, por ser mais fácil direccioná-los, desde as primeiras idades, não para a sabedoria, mas para a resposta previamente entendida como certa. Esta lógica de funcionamento diverge de uma aprendizagem consistente, porque mata a curiosidade, não assenta no pensamento, no conhecimento e busca dos porquês, na interpretação das variáveis dos processos, compreendendo-os e favorecendo a transferência para novas situações.

E porquê? Porque a escola que deveria partir do pressuposto da complexidade, continua a preferir uma espécie de prato único, tipo "bife, batata frita e ovo a cavalo" que de tanto engolir causa enfastio, tédio, desinteresse e até rejeição. O que isto significa é que, no mundo que estamos a viver, a aprendizagem, desde início, não deve ser previsível no quadro de uma estrutura clássica próxima do pensamento "industrial". Porque a escola não deve ser entendida como uma fábrica. É um erro admitir que a tradicional segmentação (fragmentação) por disciplinas, mais tarde, as partes se unam no todo. A cognição impõe a opção pela dialéctica, pela capacidade de refutar o que é apresentado como produto acabado. Por aí existe aprendizagem significativa, simplesmente porque as perguntas do aluno devem preceder a resposta constante no manual. Ora, sistema que mata a pergunta é um sistema condenado; sistema que encurrala o aluno, direccionando-o para o que o adulto entende, limita muitas vezes, definitivamente, o conhecimento portador de futuro.


Neste pressuposto a questão parece-me óbvia: que interesse terá a resposta inserta no manual, digital ou não, quando ela não assenta no jogo da curiosidade, da observação e da descoberta? Ou, quando o centro da atenção e preocupação raramente transita do professor para o aluno? Só que o sistema, heterónomo, inflexível, centralizador e cristalizador, prefere manter as rédeas na mão, ao contrário de mostrar-se disponível para olhar de forma sistémica para além dos muros da escola. Não foi com espanto que li, que, da parte governamental, o "planeamento (do próximo) ano lectivo decorre sem falhas". Dir-se-á que a máquina está politicamente oleada e responderá "convenientemente", à semelhança de uma empresa de fornecimento de energia eléctrica. À escola bastar-lhe-á accionar o interruptor! Entretanto, paradoxalmente, falam da autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem!

Ser criativo, inovador, dispor de uma consistente capacidade argumentativa, ser curioso e ter a noção que o manual é o menos importante, quando a possibilidade de aprender está espalhada por tantos meios, tecnológicos e outros, tal devia constituir o foco de toda a aprendizagem, jamais a padronização e cristalização do pensamento ("fixação funcional") que eu designaria por anestesia contranatura. Natural é a estimulação do questionamento, é colocar em causa, é dissecar a pluralidade de opiniões, natural devia ser a preocupação de inter-relacionar, induzir no entendimento das causas e nunca, mas nunca, em decorar centenas de respostas destinadas ao esquecimento após uma qualquer avaliação.

Porque isso é o que encontramos na vida real. Ela não nos pede respostas estanques, antes solicita conglomerados, partes distintas que se ajustam na resposta a uma dada situação. E isso trabalha-se no processo de aprendizagem. As próprias especializações assentam nesse pressuposto que devem excluir tanta tralha que nada acrescenta. Está em causa o conhecimento interligado e com robustez. A propósito, diz-nos Edgar Morin que a fragmentação de saberes constitui um erro, por isso propôs o conceito da complexidade. Sendo assim, é inexplicável a crónica indiferença dos governantes perante o pensamento de um dos maiores intelectuais do nosso tempo. "É preciso educar os educadores", sublinhou. É verdade! 


Sublinhou Mustafá Ali Kanso (1960/2017): "Numa primeira análise, a complexidade é um tecido de constituintes heterogéneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Na segunda abordagem, a complexidade é efectivamente o tecido de acontecimentos, acções, interacções, retroacções, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal". É isso. Portanto, "a sua principal proposta é a abordagem transdisciplinar dos fenómenos e a mudança de paradigma (...)".
 
De onde concluo que a Escola deve ser culta e deve estimular a cultura. A voz dos alunos dispensa uma escola redutora, fechada sobre si própria, preconceituosa e feita de crenças, que não consegue evoluir na missão que lhe compete, que não enxerga a vida, uma escola sem pensamento crítico, que sobrevive no meio de múltiplos medos, submetida aos princípios que enformaram o passado, uma escola que olha para ontem e não para o futuro, pedagógica e didacticamente parada no tempo, que não consegue perceber a população a quem se dirige, uma escola que não respeita sonhos e talentos, que não contribui para a felicidade de alunos, dos professores e que se divorcia da cultura geral e específica, repito, dizem os alunos, é perfeitamente dispensável.  É pela cultura e não pelas definições e respostas pré-definidas que vamos. A partir da cultura, no sentido lato do termo, tudo se agrega. Portanto, conhecimento é uma coisa, notas escolares outra, às quais, infelizmente, continuam a dar uma muito discutível relevância. Porque continuam a confundir avaliação com classificação, conhecimento com notas. Daí o surgimento de uma meritocracia balofa que traz para dentro da escola as taras da sociedade! 

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Educação: podíamos ter feito mais e melhor!


Por
Paulo Alves - Professor
Deputado do JPP

A definição das políticas educativas regionais é da responsabilidade de quem governa a Região. No âmbito da nossa Autonomia, é responsabilidade da tutela definir as estratégias e opções governativas adequadas à realidade educativa e social que carateriza a nossa sociedade, sempre com o objetivo de promover uma melhor qualidade de vida aos cidadãos. Ao longo dos anos de governação PSD, e agora em coligação com o CDS, sempre se ouviu dizer que o “nosso modelo” educativo (regional) é o melhor! O “nosso sistema de ensino” é o melhor do país! 



Os nossos “governantes com a tutela de Educação” foram e são do melhor que há no país em matéria de “gestão e administração do nosso modelo/sistema escolar e ensino” - quem o diz, na maioria das vezes, desconhece o “perfil” de alguns deles ou nunca estiveram em debate com os mesmos, para ter o privilégio de lidar com a sua soberba e arrogância! Mas, diz a coligação PSD/CDS que valorizaram os professores (devolvendo-lhes o que lhes era de direito!) através da contagem do tempo de serviço (que estava congelado!). 

Quando sabemos que aquilo que foi feito não foi mais do que cumprir um dos direitos dos professores: devolver aos professores o que lhes haviam tirado no passado! Em relação a outras opções governativas em matéria de políticas educativas, não diz a tutela da Educação que é contra a limitação de mandatos dos diretores e presidentes dos conselhos executivos da escola pública, quando 81% dos professores são a favor! Não diz a tutela que o processo de fusão de escolas falhou em algumas situações e que este ano, por ser ano eleitoral, ninguém fala em fusão ou encerramento de escolas! 

Não diz que, após mais de quatro dezenas de anos de governação PSD, os Censos de 2021 revelaram as falhas no modelo educativo na Região. Ao fim de mais de quatro décadas de Autonomia, a Madeira continua a ser uma Região do País com uma elevada percentagem de pessoas, com 15 ou mais anos de idade, com um grau de escolaridade de 4 a 9 anos. São exatamente 40,5% da população em idade ativa, perfazendo um total superior a 75 mil habitantes, com o seguinte registo: com apenas 4 anos de escolaridade (24,3%), até 9 anos (16,2%). Apenas 22,5% concluíram o 12º ano e 16,5% têm formação superior. Existem, ainda, 10.433 madeirenses que não têm qualquer grau de ensino, o que pode ser considerada população analfabeta. 


Face a estes dados, verificamos que poderíamos ter feito mais e melhor em matéria de Educação! Que, ao longo dos anos, se optou por satisfazer alguns lobbies ou interesses instalados em áreas económicas (de todos conhecidas!) em detrimento de uma aposta forte no Ensino, na Educação e Formação do nosso Povo. 

Paulo Alves - Deputado JPP

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Políticos e Professores leiam, por favor!


Por 
Víctor Cerqueira
Psicólogo Clínico

Nota
O meu Amigo Professor José Sacadura fez-me o favor de remeter este texto sobre Educação, sugestivamente baseado na afirmação: Portugal falha, porque falha a Educação. Vale a pena ler.


Portugal falha, porque falha a educação 1


Sempre me fez confusão, ninguém perguntar a razão de tantos e tantos relatórios (diagnósticos) ficarem nas gavetas ministeriais, ou outras.
Ficam na gaveta porque nós não temos capacidade de análise, síntese e de avaliação.

Nunca desenvolvemos estas capacidade no ensino. O nosso ensino tem como base a memória.
Pergunte a si mesmo o que é que mais lhe exigiam na escola?

E esta capacidade, a memória, em termos de taxionomia dos objetivos educacionais, no domínio cognitivo (Bloom e outros) é, digamos, o mais básico. Segue, a compreensão, (percebem porque temos dificuldade na matemática?) a aplicação, (percebem porque os médicos pedem tantos exames complementares?) a análise, (percebem porque há decisões judiciais com milhares de páginas?) a síntese e a avaliação.

Sempre de exigência superior em termos cognitivos.

Estas questões são pouco ou nada consideradas no ensino/aprendizagem, (já tenho escrito sobre o assunto em diversos fóruns), pois o que mais temos são "eruditos" na educação. Muitos no ministério, (alguns até foram ministros e secretários de estado) outros na formação (?) de Professores, outros ainda nas Universidades e ainda, na comunicação social.

Mas será que têm orgulho nos resultados? Já alguma vez tiveram a humildade de os avaliar?

Pois, não sabem como fazer...nem lhes interessa.

Portugal falha, porque falha a educação 2


Quando referi, no texto anterior, o processo didático referente ao desenvolvimento cognitivo defendido por Bloom e outros (taxionomia dos objetivos educacionais, no domínio cognitivo) tentava chamar a atenção para a questão didática na formação de Professores sem as quais não alteraremos este estado de coisas.

(didática – Ciência que estuda os métodos e técnicas para ensinar (Priberam ))

Que didáticas são utilizadas nas Escolas Superiores de Educação e nas Universidades no que diz respeito a formação de Professores?

Desenvolve-se processos de ensino/aprendizagem que promovam, tanto quanto possível, a individualização do ensino na sala de aula? Desenvolve-se processos didáticos que promovam o raciocínio critico? Mas também o raciocínio prospetivo? Desenvolve-se competências, enquanto futuros docentes, de autodesenvolvimento pedagógico/didático promovendo a sua autonomia? Desenvolve-se competências para a promoção, efetiva, do sucesso escolar/educativo dos alunos? Desenvolve-se competências nos futuros docentes para serem promotores efetivos de mudanças socias dos seus alunos, sem influencias político/partidárias, enquanto futuros agentes sociais promovendo e sensibilizando para a necessidade de que o elevador social esteja(sempre) presente no ato de educar?

Ou como me parece, continuamos com uma elevada “carga” de mais do mesmo? A verdade é que a novas e menos novas gerações de encarregados de educação continuam num registo em que se valoriza a nota, sobre todas as coisas, muito associada a uma competição que afasta, quem por razões, muitas vezes (quase sempre), tem mais dificuldade (s) de aprendizagem ou outras.
Continua a haver as disciplinas mais e menos importantes. Façam um esforço de honestidade intelectual pessoal, e imaginem que o vosso filho/a ficava retido/a por não ter notas às disciplinas seguintes: música, educação física e educação visual e tecnológica.

Sinceramente como reagiriam?

Seria assim tão fora do contexto se eu dissesse que estas disciplinas (e outras) só estão no currículo porque é suposto e seria um escândalo mundial se não estivessem, mas que nas cabeças de muitíssimas pessoas “não interessam para nada”?

Afinal o que mudou na nossa mentalidade nos últimos 60/70 anos?

O que de FACTO mudou nas nossas escolas e nos processos didáticos de uma maneira geral no nosso País?

Quando você, Pai/Mãe vai à Escola, que diferenças substanciais nota em relação à escola onde andou?
Nota: há bons exemplos de escolas com didáticas ativas e inovadoras (para o sistema habitual) mas, infelizmente, são excepções.

Porque se admiram que não avancemos vigorosamente para um melhor futuro??

Portugal falha porque falha a educação 3


A questão da avaliação dos alunos.

O ensino/aprendizagem no nosso país tem como centro de todas, mas todas as preocupações, a avaliação dos alunos.

O nível de insucesso dos nossos alunos ronda os 30% (talvez menos actualmente, fruto das dificuldades burocráticas que se levantam para a retenção dos alunos) e, segundo os Professores, não é real. Ou seja; se os Professores tivessem total autonomia na avaliação dos alunos o insucesso seria MUITO maior.

Vejamos alguns, poucos, exemplos lá de fora.

A Dinamarca instituiu sete anos (7) anos de escolaridade obrigatória em 1814. Há mais de 200 anos. A Suíça, obrigou a nove (9) anos de escolaridade em 1872.

Portugal implementou o ensino obrigatório do 7º 8ºe 9º no decorrer da última década do século passado. (José Afonso Baptista, Público 22 de outubro 1995).

Aqueles países acabaram com o insucesso escolar. A progressão dos alunos é automática e, no entanto, a exigência é muita e a selecção também.
A questão que sempre me pôs, é o de que as crianças daqueles países devem ser muito mais inteligentes e capazes do que as nossas.
Será?!

Quando se retém (chumba) um aluno o que é que se vai fazer com ele no ano de repetição? Na (grande) maioria dos casos MAIS DO MESMO!

Quais os alunos que chumbam mais? De uma maneira geral os mais carenciados sócio/economicamente.

As consequências psicológicas são visíveis e nada agradáveis. Se já se vem com o estigma da origem social a reprovação acentua a baixa estima: “não dou para os estudos”, por vezes esta baixa estima que é interpretada (e bem?) como exclusão, desenvolve a agressividade e a violência.

Esta violência, muitas vezes funciona como uma “arma” de afirmação e de “poder” sobre os outros.

Países como: Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Japão…aboliram radicalmente a reprovação. Outros admitem-na em condições excepcionais (José Afonso, Público 22 de Outubro 1995) e nem por isso deixaram de fazer selecção.

A propósito do desenvolvimento cognitivo que referi no primeiro artigo, permitam-me chamar a atenção para o seguinte: Trump foi acusado de 37 crimes o documento de acusação TEM 40 PÁGINAS.

Alguém acredita que isto seria possível por cá?

O problema é que não sabem porquê.

A razão é simples; NÃO DESENVOLVEMOS A CAPACIDADE DE ANÁLISE E DEPOIS DE SINTESE e não temos consciência disso por que não nos interrogamos do porquê de certas situações.
Simplesmente NÃO mudamos!!!

Portugal falha porque falha a educação 4


Ao jeito de conclusão

Uma das grandes virtudes do Portugal de abril, talvez a mais importante na minha opinião, foi ter conseguido por TODAS as crianças na escola.

Mas a massificação do ensino acarreta as suas dificuldades: desde logo o abaixamento do nível de aprendizagem, passar de um sistema eminentemente elitista e selectivo para um sistema de acesso de todos à aprendizagem, naturalmente, trouxe um abaixamento de nível.

Nada importante, considerando o facto de termos TODOS os meninos e meninas na escola.

A questão da massificação do ensino, nunca levantou um verdadeiro debate de como teriam de funcionar as escolas para incorporar todas as crianças, oriundas de diversos contextos sociais e económicos. Muitas destas crianças, nomeadamente das zonas rurais do interior, nunca tinham bebido leite ao pequeno almoço, nem sabiam o que isso era…

Como sempre, lá fomos “desenrascando” com mais ou menos qualidade, com muitíssima dedicação, e muito AMOR. Também com muito pouca reflexão (?) sobre a formação dos Professores e quem os devia formar.

Foram os estágios nas escolas, depois a formação em exercício, mais tarde vieram das ESES e das Universidades. Vieram os Professores com a formação “integrada”. Qual a qualidade? Diversa, e dependendo muito das Escolas e Universidades de onde vinham.

Teorias? Muitas, e supermodernas, maioritariamente originárias de países que para além de nada terem a ver connosco em termos sócio/económicos e de desenvolvimento, tinham feito a sua massificação há muitos anos atrás, alguns, séculos atrás. (ver artigos anteriores) NOTA: aos chamados estágios funcionaram BEM!!

NUNCA houve um verdadeiro programa para a educação no nosso País. Que devia começar pela formação dos Professores, até à organização das escolas e turmas, passando naturalmente pelos currículos escolares que são uma “manta de retalhos” que também vai sendo mudado conforme os “apetites” de quem está no momento no poder. Ou seja; um programa de cima a baixo.

Uma das razões desta situação é que as discussões (?) são quase sempre (?) inquinadas por (pre)conceitos ideológicos sabendo nós que a educação NÃO é neutra.

Pensar que meter nas escolas crianças (muitíssimas) que veem de lares disfuncionais, com déficits brutais de competências sociais (até de linguagem) numa escola, ela própria (progressivamente) disfuncional foi acender o fósforo num lago de gasolina.

A escola foi-se degradando ano após ano, com problemas sérios de disciplina, diria, quase generalizados.

E nada, mas mesma nada, de fundo foi sendo feito. E, também, sem uma avaliação RIGOROSA da formação de Professores em TODAS as instituições. Avaliação essa que deve deve ser PERMANENTE.

A autonomia pressupõe RESPONSABILIDADE e escrutínio.

E agora?

Não sei, sinceramente não sei, mas penso que o retorno ao essencial é fundamental, ou seja, a formação dos Professores nomeadamente em termos didáticos tendo em conta a nossa realidade e as nossa necessidades de desenvolvimento.

Vem-me sempre à memória o que o Marquês fez na (minha) Universidade de Coimbra. Promoveu todos os Padres a cónegos, e depois reformou-os, contratou novos docentes, muitos deles estrangeiros…

Victor Cerqueira
22/08/2023

sábado, 19 de agosto de 2023

Futebol - quando falta a formação básica!


Ontem, ao final da tarde, enquanto fazia a minha actividade física, fui seguindo uma partida de futebol. Desastre total para os meus olhos. 



Entendo que não devo comentar o que ali se passou (porque o futebol nunca foi a minha praia), apenas quero manifestar que a quase totalidade dos jogadores da equipa "madeirense" não possui o domínio dos gestos técnicos básicos do futebol: a recepção, o passe, o drible e o remate (estes quatro elementos em múltiplas situações) e, conjugado com estes, entre outros, o domínio do próprio corpo, a percepção do espaço e do tempo, o sentido de marcação, de desmarcação e o táctico, para além de uma boa capacidade física de resposta ao esforço, enfim, um alargado conjunto de aspectos que eu, em síntese, diria que envolvem desde a cabeça aos pés. E tudo isto é treinável no tempo certo de formação. Mais tarde, tudo se complica. No encontro que segui, valha a verdade, a bola parecia um elemento estranho, tão maltratada que foi por tais profissionais.

Quem não tem uma adequada formação básica não pode ser um profissional de futebol. Apenas uma caricatura. Pode e deve jogar com os amigos, ao fim de semana, distante das exigências que o rendimento elevado configura. Ademais, para ser profissional não bastam umas tatuagens, um corte de cabelo esquisito e umas chuteiras debaixo do braço. Ah, e perante a derrota dizer que agora "é preciso levantar a cabeça". Exige-se muito mais. Depois, sim, pode ganhar, empatar ou perder, que é sempre uma consequência natural do jogo.

A páginas tantas exclamei para comigo próprio: qualquer das equipas da fase de grupos do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino, despachava estas equipas com muitos "olés" de permeio.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 12 de agosto de 2023

A ESCOLA QUE NÃO ENXERGA O MUNDO, MATA A CURIOSIDADE E A COMPLEXIDADE



Regressei à leitura do Filósofo Edgar Morin, hoje com 102 anos. Perguntaram-lhe: "O senhor fala de um mundo padronizado, uniformizado. Como ficam o pensamento e a arte?"

Resposta: "Vivemos uma crise do pensamento. Aprendemos no nosso sistema de ensino a conhecer separando as coisas de maneira hermética, segundo disciplinas. Os grandes problemas, porém, requerem associar os conhecimentos vindos de disciplinas diversas. (...) Temos uma crise do pensamento que se manifesta no vazio total do pensamento político, ainda que, há coisa de um século, houvesse pensadores políticos que, mesmo quando se equivocavam, tentavam compreender o mundo, como Karl Marx e Tocqueville. O meu esforço nas minhas obras é tentar efetivamente esse pensamento. O que estamos vivendo? O que está acontecendo? Para onde estamos indo? Claro que não posso fazer profecias, mas vejo o risco nas possibilidades que se abrem diante de nós."

Qual, então, o maior desafio do ensino?

"Não inserimos no programa temas que podem ajudar os jovens, sobretudo quando virarem adultos, a enfrentar os problemas da vida. Distribuímos o conhecimento, mas não dizemos que ele pode ser uma forma de traduzir a realidade e que podemos cair no erro e na ilusão. Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental nos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam."

102 anos! O pensador incentiva-nos a descobrir o mundo, quebrando as amarras impostas; outros, com menos de metade da idade, preferem assumir-se dogmáticos e cristalizadores. É o que temos!

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

A sociedade pagará caro se na Escola permanecer a rotina



"As crianças e a Educação que recebem definem o futuro das sociedades"

Haldis Holst / Revista A Página da Educação - 2023. 

Torna-se imperativo inovar para mudar a Escola, reativar estratégias dialógicas, cooperativas, e assim fazer germinar uma cultura de responsabilidade, de compromisso, de subsidiariedade e de crescente participação interpessoal e interinstitucional. A intenção é sempre a melhoria do ensino e das aprendizagens, gerando contextos desafiadores e potenciadores do bem comum. Uma visão fundeada em comunidades de aprendizagem que se desafiam e desafiam os seus docentes (...)"

Cristina Palmeirão / Revista A Página da Educação - 2023. 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

O estado da Educação

 

Do estado da Região pouco escutei, pois confesso que já perdi a réstia de entusiasmo que mantive durante anos. Ouvir a mesma lengalenga, os mesmos argumentos e respostas enviesadas, quase sempre fora de contexto, perceber que apontam o indicador para a Lua cheia mas que só conseguem ver a ponta do dedo, é situação cansativa e desinspiradora até da necessária participação cívica. De tanto repetirem a mesma tecla e o mesmo som, alguns, mal abrem a boca, com o salamaleque regimental: senhor presidente, senhores membros do governo, senhoras e senhores deputados, percebe-se o que vêm dizer pela enésima vez. Daí que, sinceramente, mudo de canal e remeto-me às sínteses do dia-a-dia de onde extraio as conclusões. Já não tenho pachorra, depois de 47 anos a escutar a mesma faixa de um disco de 45 rotações cheio de "riscos"!



Não sei se falaram do estado da Educação. Tanto me faz. Conheço a realidade, oiço, de quando em vez, os desabafos dos professores, dos alunos e dos empresários e tento na minha vida, quase todos os dias, ler e pensar naquilo que me preocupa: a criação de um novo paradigma de qualidade, integrador e gerador de sucesso e felicidade para todos os que nele estejam envolvidos. Daí que eu entenda que talvez valha a pena ser "megafone" daquilo que outros, muito mais abalizados do que eu, assumem como necessidade. No entanto sublinho, sem uma grande convicção da "água mole em pedra dura", pois o sistema, na sua linha hierárquica centralizadora, por razões múltiplas, prefere manter este "estado das coisas", em que tudo acontece "com a normalidade" da "voz do dono", do que agitar as águas colocando em persistente dúvida o que, estruturalmente, vem desde a I Revolução Industrial!

Mas para tal necessário seria uma elevadíssima dose de conhecimento e de humildade. E o estado da Educação demonstra que aquelas duas palavras de profundo significado não têm lugar. Para muitos, conhecimento significa rotina e a humildade está muito próxima da ignorância altifalante. Abrir-se ao mundo, ser capaz de desafiar o "estado das coisas", questionar se estão ou não num cruzamento sem saber qual a direcção tomar, romper com mentalidades obsoletas, ter pavor de tudo o que é novo e adequado ao tempo que nos coube viver, saber trazer o futuro ao presente antecipando respostas, perceber que este sector precisa de se constituir numa grande mesa de diálogo, de debate, de construção de um novo paradigma, dá trabalho, obviamente que dá muito trabalho. Mas é essa a via que o bom senso aconselha.

Quando os alunos escrevem: "se a escola é a tua casa, foge de casa" e um político com responsabilidades de governo diz "(...) sempre que houver estrada vamos continuar", o que isto significa é que ambos estão e são incompatíveis. Com um pouco de mais atenção o político constataria que esta sua estrada tem um sinal logo no início: "sem saída". E perceberia uma outra coisa que a palavra utopia encerra, tal como referiu a investigadora Doutora Fátima Vieira: "(...) na utopia o que fazemos? Primeiro, definimos a visão: que sociedade quero ter? que escola quero ter? o que quero ser?... Depois de definirmos essa visão, então sim, escolhemos o caminho e tapamos os buracos. Não vale a pena tapar buracos de outros caminhos". É tempo perdido.

Ora bem, tudo isto está nos livros publicados, nas investigações realizadas, nos milhares de documentos académicos de natureza científica, está nas intervenções em seminários, cursos, formações, portanto, questiono, por que raio esta rotina que mata talentos, sonhos e exclui tantos do sistema, permanece por imposição de um modelo que rejeita a inovação, mesmo que parcial, antes afunila e refina tudo quanto é obsoleto. É espantosa esta dicotomia. Preferem manter um sistema gordo, de narrativa sem substância, anafado nas prebendas, como se o mundo girasse em torno do umbigo, quando o que precisamos não é de fazer da educação um espectáculo mediático, desde os "prémios de mérito" às palavras sem o sentido portador de futuro.

A Educação dispensa tudo isso, mas não dispensa o verdadeiro CONHECIMENTO. A Educação dispensa o folclore feito em redor de uns quantos que se distinguem neste sistema, mas não dispensa o olhar atento para todos os outros, para a sociedade que desejamos construir. 

José Antonio Caride é Catedrático de Pedagogia Social na Universidade de Santiago de Compostela. Doutorou-se em Filosofia e Ciências da Educação. É autor de 450 publicações entre livros e revistas especializadas em Ciências Sociais e da Educação. Foi distinguido com a Ordem ao Mérito Institucional do Conselho Mundial da Educação. Na extraordinária revista "A Página da Educação", o Professor concedeu uma entrevista absolutamente genial. Não existe ali palavra ou frase que não derrame o sumo do conhecimento e da experiência. A entrevista, conduzida por António Baldaia e Maria João Leite, toda ela, é serena, objectiva, profunda e, por isso, desperta invulgar interesse que conduz o leitor, ao fim de dez páginas, a se questionar, por que acabou? Deixo aqui algumas partes que considero relevantes, onde muito mais fica por transcrever. 


Diz o Professor: "(...) quando muitas vezes dizemos educação não formal, deveríamos dizer educação familiar, comunitária, cidadã, cívica, porque todas as educações, de um jeito ou de outro, são formais. Portanto, há que recuperar o sentido da educação como projecto e trajecto comunitário, o que requer repensar a escola, o seu sentido de instituição ao serviço da sociedade e da comunidade (...) a escola não pode ser só escola e as aprendizagens não podem ser só curriculares, se verdadeiramente estamos convencidos de que a educação deve ser um processo permanente, que se estende ao longo da vida e que todos somos participantes de educar e de educar-nos. (...) O desafio é imenso e as políticas educativas, sociais e culturais devem situar-nos nesse horizonte, não só como utopia, mas como realidade, como projecto que vale a pena construir pedagógica e socialmente (...) no fundo, falamos de uma ética pública e de uma ética cívica: como serviço público a nossa responsabilidade é para com as pessoas que se educam connosco, com as quais e para as quais desenvolvemos o nosso trabalho. Especialmente as que estão em situação de pobreza, de exclusão, de vulnerabilidade, as quais, muitas vezes, o sistema educativo etiquetou como fracassadas e que são abandonadas à sua sorte e aos azares (...)

Nós não nascemos cidadãos, construímo-nos como tal, se verdadeiramente nos situarmos numa ideia de cidadania congruente com tudo o que significam os direitos e os deveres da convivência com os demais, que se movem sempre num quadro de tensões ideológicas, éticas, morais, religiosas, económicas, etc. (...) então há que construir os valores que nos permitam caminhar para uma cidadania inclusiva, democrática, solidária, tolerante, pacífica... palavras que engrandecem a condição humana. (...)

(...) A escola é muito mais do que ser vista apenas como um edifício. É uma arquitectura, obviamente, mas é uma arquitectura social e não só física (...) a escola não é um espaço que só deve estar à disposição de um calendário e de um horário escolar. O que significa, se entendermos que outra escola ou outra educação é possível, que nesse projecto educativo participem outros agentes sociais, além dos educadores e professores, os profissionais de animação sociocultural, da mediação familiar e intercultural, das iniciativas e práticas desportivas e culturais. (...)"

Qual é o estado da Educação na Madeira, pergunto? Muito mau. Eu que sou "anti-ranking's" dou-me, finalmente, com este paradoxo: a exaltação de uns quantos vintes nas pautas de exame e, depois, posições extremamente modestas nos "ranking's" das escolas. Por que será?

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 8 de julho de 2023

A resposta adequada

 


No passado dia 6, quinta-feira, o jornalista David Spranger publicou na newsletter diária do JM o seguinte texto:

[…] a Assembleia Regional determinou que o horário dos professores até ao 1.º ciclo vai reduzir mais. Das 25 horas semanais, passarão para 24 aos 50 anos, para 22 aos 55 anos e para 18 aos 60 anos. Mas queriam mais, porque há colegas que têm já na normalidade apenas 22 horas e as reduções levam até um horário de 14 horas semanais. E no final, já no exterior, sindicalistas rodearam o secretário regional, com mais um rol de reivindicações, sempre tendo como equivalência outros camaradas. Não será a hora de se compararem com outras classes? As que nunca despertam do pesadelo?

Como é óbvio, o SPM não poderia ficar indiferente a jornalismo de tão má qualidade, pelo que, hoje, lhe enviou, como resposta, o texto que aqui anexamos.

Exmo. Senhor
jornalista David Spranger

Escrevemos-lhe a propósito do teor do seu texto sobre a aprovação, na ALRAM, da 4.a alteração ao ECD-RAM que permitirá aos professores do 1.o ciclo e aos educadores usufruírem de reduções da componente letiva, a partir dos 50 anos, que integrava a newsletter Há pesadelos e... pesadelos, enviada, ontem, para os subscritores do JM.

Como pretendia, aquele excerto terá o condão de revoltar toda a gente: a opinião pública, em geral, – porque encontrar alvos para descarregar as frustrações da vida alivia sempre – e os docentes, em particular, por constatarem que uma franja dos órgãos da comunicação social continua a alimentar o mito de uma profissão privilegiada, que trabalha pouco, ganha muito e vive à margem das dificuldades do comum dos cidadãos. Com uma agravante: quem o faz fá-lo de forma cáustica e com uma sobranceria moral, intencionalmente, dirigida a provocar danos na imagem pública da classe docente.

No entanto, Sr. jornalista, o mito dos professores calaceiros e, consequentemente, o seu texto, carecem de qualquer fundamento, quando confrontado com o quadro legal em que se insere aquela medida da ALRAM e, sobretudo, com a realidade. Vejamos:
  • o horário legal dos educadores e dos professores do 1.o ciclo não é de 25 horas semanais, mas, como certamente saberá, de 35 horas, como a função pública, em geral;
  • o horário destes profissionais, e do comum dos professores, é constituído por três componentes: a letiva, a de estabelecimento e a de trabalho individual;
  • é certo que a componente letiva é de 25 horas, o que significa que esse é o horário semanal em que estes profissionais trabalham, diretamente, com as crianças e os alunos;
  • componente de estabelecimento é de 4 horas, sobrando, apenas, 6 horas para a componente individual, o que significa que é nestas 6 horas que estes profissionais têm de o preparar as atividades das 25 horas com as crianças ou os alunos, o planificar a sua participação nas atividades da escola; o elaborar testes e fichas de avaliação, o corrigir esses testes e fichas de avaliação, o preparar as adaptações para as crianças e alunos com necessidades educativas especiais, o elaborar relatórios diversos (são mesmo muitos), 
  • o ...
  • Significa tudo isto que, na grande maioria dos casos, estes profissionais só conseguem cumprir todas as exigências inerentes às suas responsabilidades profissionais ultrapassando os seus horários legais, sem que, por isso, recebam qualquer compensação financeira.
  • Voltando à alteração de ontem do ECD-RAM, na ALRAM: 
    • o que lá se aprovou não foi a redução dos horários dos professores do 1.o ciclo e dos educadores de infância, mas a redução da componente letiva dos seus horários, a partir dos 50 anos, como forma de minimizar o desgaste de quem, diariamente, lida com gente muito nova cheia de vida e de energia e lida não individualmente, mas em conjunto, em salas com 15, 18, 20, 25 crianças / alunos, tendo de dar vinte respostas, em simultâneo; 
    • a consequência desta importante medida não é a redução do horário de trabalho destes profissionais, mas uma reorganização do mesmo, que continua a ser, conforme exige a lei, de 35 horas semanais; assim, a redução num lado (na componente letiva) é compensada com um aumento noutro.
É certo que a opinião pública não tem conhecimento do que não vê, mas não quer isso dizer que não existe. No entanto, se ao cidadãos comum se pode desculpar a superficialidade da análise do que não conhece nem quer conhecer, já não poderá haver a mesma condescendência com quem tem a obrigação de analisar a realidade com o objetivo de informar, com rigor, e de ajudar a acabar com preconceitos e mitos que prejudicam a vida em sociedade.

Por isso, Sr. Jornalista, a sua e a nossa responsabilidades não são as de qualquer pessoa que verte verborreias nas redes sociais.

Por isso, nós, cidadãos informados, sabemos que o Sr. Jornalista não trabalha só quando escreve as notícias ou outros textos, como a dita newsletter; sabemos que mais importante do que o momento da escrita é o tempo gasto a investigar à procura da verdade, seja em fontes credíveis, seja no terreno a ouvir os visados, seja em debates sérios com os pares.

Por isso, quando assistimos a uma peça de teatro, sabemos que aquele grupo gastou horas infindas a ensaiar um texto que levou dias, anos ou meses, a escrever e, posteriormente, a encenar. Sabemos que o preço do nosso bilhete não paga todo o trabalho envolvido e, por isso, estamos de acordo que o erário público financie aquele grupo, sob pena de ter de fechar portas e ficarmos mais empobrecidos culturalmente.

Por isso, sabemos, para falar do que, neste momento, há de mais mediático, que qualquer futebolista não se faz craque nos curtos 90 minutos dos jogos oficiais, mas, antes, em horas e horas, meses e meses, anos e anos, de treinos intensos, tantas vezes individualmente, fora de horas. Dizem que foi assim com o Cristiano Ronaldo, e nós acreditamos, porque sabemos que, por mais pródigo que possa ser Deus nas qualidades atribuídas a cada ser humano, elas desaparecerão, pela certa, se não forem, continuamente, exercitadas. É a sábia parábola dos talentos de que nos falou o Mestre dos mestres.

Enfim, Sr. Jornalista David Spranger, poderíamos dar exemplos suficientes para as newsletters do JM deste e do próximo ano, mas julgamos que, se quiser, poderá testar a nossa argumentação no mais exigente dos crisóis jornalísticos.

Nesse sentido, não queremos acabar sem lhe lançarmos um repto: porque não dar a conhecer, em reportagens jornalísticas sérias, o que fazem os educadores e os professores do 1o ciclo e dos demais níveis de ensino, nas 10 horas semanais que escapam a quem olha a escola de fora, mas que fazem parte das vidas reais dos docentes. Se precisar do Sindicato dos Professores da Madeira para isso, teremos todo o gosto em estabelecer contactos com os nossos colegas e em ajudar noutras diligências que considere necessárias.

Talvez, dessa forma, descubra que, também nesta profissão, há quem não desperte do pesadelo e perceba que, nela, os sonhos que existem são mais os que estes profissionais conseguem despertar nas crianças e nos alunos e não tanto os que nela vivem

Ficamos ao seu dispor.

Francisco Salgueiro de Oliveira
Coordenador da direção

quinta-feira, 6 de julho de 2023

A propósito de um comentário


Um texto que aqui publiquei mereceu um comentário do meu Amigo Urbelino Ferreira: "Prezado André Escórcio, tenho vindo a seguir os seus pensamentos sobre a Escola e a Educação, com a maior acuidade, já que me revejo, bem, no seu método de reforma da curricula, em Portugal. Sabemos, em geral, que cada mudança de ministro (ou Secretário regional) da Educação, corresponde a uma nova visão, tendencialmente, pessoal. E as Educação e Cultura de um país - como noutras áreas da governação -, jamais poderão estar sujeitas a planos de quatro anos. Para bem de um país e do seu povo, os planos de governança deveriam ser consentâneos com uma visão para decénios. (...)"



Caríssimo, muito obrigado pelo seu comentário. Concordo consigo quando adianta a necessidade de um "Pacto Educativo para o Futuro" que, nas suas linhas estruturantes, dite o rumo que se deseja para o sector educativo. Aliás, na esteira do ex-ministro da Educação Doutor Marçal Grilo (1995) que defendeu, exactamente, a importância desse pacto político de pendor estratégico. É evidente que, constituindo um processo, um pacto sempre sujeito aos reajustamentos que a ciência e as circunstâncias forem ditando. Por isso, defendo o conceito de paradigma e não de modelo. Porque o paradigma afigura-se-me como qualquer coisa pela qual me guio, enquanto o modelo transmite-nos um sentido estático. No essencial, o modelo, é o que temos na política educativa há muitas dezenas de anos, independentemente de quem tem tido a responsabilidade de governar.

O problema é que, no plano político, são poucos os que para aí estão virados. O mediático, a ignorância e o comodismo, têm prevalecido. Se perguntarmos a muitos políticos para onde caminhamos, a prática diz-me que exprimirão muitas dificuldades em assumir uma linha de pensamento coerente e portadora de futuro. E quando não se sabe, sobressai a lógica que "qualquer caminho serve". E para além dos políticos de serviço, acresce o facto dos professores, espartilhados em normas e condutas desejadas pela hierarquia, intencionalmente, foram e estão empurrados para um comprometedor silêncio. Participam em seminários, colóquios e outras formações, porque, por estatuto e normas são obrigados a horas de formação, onde muitas vezes são equacionados os problemas estruturantes do sistema, mas depois, no estabelecimento de aprendizagem, nos seus locais de trabalho, tudo passa para plano secundário, pois a hierarquia acaba por impor o tal "modelo" estático e centralizador.

Finalmente, os pais. Ora, se os professores não se movimentam pelas sumárias razões que acabo de enunciar (os problemas da Educação não se esgotam no respeito pela sua carreira) então os pais pior ainda. Falta-lhes, grosso modo, informação e capacidade para perceber o que deve ser a aprendizagem adequada aos tempos que correm. Tem sido notório que seguem o pensamento que têm "do seu tempo", agora agravada pela desorganização da sociedade (entre outros, a importante entrada da mulher no mundo laboral que não foi devidamente acautelada em defesa da estrutura familiar), onde, ridiculamente, se considera que "mais trabalho significa melhor trabalho". Consequentemente, mais importante não é o que os filhos fazem na escola, mas sim o espaço "armazém de guarda" enquanto trabalham. 

Por isto e muito, muito mais, os políticos fazem ouvidos de mercador ao pensamento ditado pelas universidades, ao pensamento que tantos autores têm vindo a veicular nos últimos 50 anos, repudiam a ideia de abrir o debate sobre os caminhos mais desejáveis, reunindo políticos, professores, investigadores, autores, cientistas de várias áreas, psicólogos, sociólogos, empresários, enfim com todos os que produzem pensamento. Não o fazem porque têm medo! E é por isso que nos movimentamos no pântano dos "achismos", das concepções pessoais e não no plano da CULTURA onde tudo o resto se agrega.

Uma vez mais, obrigado pelo comentário, porque neste mundo de preocupantes silêncios, eu conto pelos dedos de uma mão os que comentam o que escrevo. E só na Madeira são perto de 6 000 os professores. Não existe debate. Subsiste a rotina. Percebem-se as razões.

Um abraço.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 1 de julho de 2023

Em dez anos a região perdeu 9 260 alunos

 

Obviamente que é grave assistirmos, em 10 anos, a um decréscimo do número de crianças e jovens (9 262 alunos). Ou porque se nasce menos, ou porque se emigra mais ou porque há cerca de 8 000 que não estudam nem trabalham. Seja como for, trata-se de uma diminuição que implicou menos 920 docentes e o encerramento de 93 estabelecimentos de aprendizagem. Obviamente que este facto não deve ser analisado de forma isolada, antes compaginada com muitos outros factores, entre outros, o económico. No essencial, para encontrar respostas às razões mais substantivas que conduziram a este decréscimo?



















Porque a minha formação não o permite, pois trata-se de um estudo que outros mais habilitados em várias ciências o devem fazer, resumo este meu texto apenas ao que à escola diz respeito, na perspectiva organizacional do sistema. E aí pergunto aos políticos responsáveis pela governação se dominam o conceito da designada "matriz swot" e, se o dominam, por que não o põem em marcha?

Não basta assumir, estatisticamente, que a região da Madeira dispõe de menos alunos, porventura para, sub-repticiamente, justificar o encerramento de estabelecimentos de aprendizagem. Simplesmente porque esta putativa "fraqueza" pode(ia) e deve(ia) constituir um "oportunidade". É, pois, no cruzamento das "forças" e "fraquezas", "oportunidades" e "ameaças" que se constroem novos paradigmas no quadro do desenvolvimento.

Ora, a diminuição significativa do número de alunos (uma fraqueza) de forma simples se compreenderá que o sistema podia encontrar nesse decréscimo uma grande oportunidade. Isto é, trata-se de uma conjuntura favorável ao estabelecimento de um novo, inteligente, consistente, eficiente e eficaz paradigma da aprendizagem de qualidade com repercussões no futuro. Concretamente, uma oportunidade para mudar a escola. Oportunidade, portanto, para debater, cientificamente, onde estamos, onde desejamos chegar e, finalmente, a definição dos passos que têm de ser dados para lá chegar. Se o sistema, tão ao gosto dos governantes, quedar-se pelo repetitivo choro da "fraqueza" e da "ameaça", jamais encontrará a "força" e a "oportunidade" que as mudanças exigem.

O habitual chorinho apenas serve a mediocridade de pensamento, a ausência de ambição, inovação e a criatividade e, no essencial, corresponde às medidas do tipo "penso rápido" que não resolvem os problemas de uma ferida profunda que, para já, não deixa de sangrar. O chorinho acaba por ser, claramente, a antítese do que se pretende de uma Autonomia político-administrativa pujante. Em suma, passaram-se 47 anos e ninguém é capaz de assumir uma estratégia política para a Educação. Ninguém é capaz de dizer para onde caminha.

Ora, para os estabelecimentos de aprendizagem, não é a diminuição do número de alunos que está em causa, mas sim a incapacidade de aproveitar o momento para transformar o que manifestamente, até no plano pedagógico, está errado. E não estou a pensar, apenas, nos currículos, programas e no estático "modelo" organizacional das escolas. Refiro-me, por exemplo, por uma questão de bom senso, se alguém minimamente integrado no sistema educativo, aceita como natural que um estabelecimento tenha 1 000, 1 500, 2 000, 2 500 alunos? Esses números jamais poderão caracterizar uma escola, talvez caracterizem uma fábrica da Sociedade Industrial! O espaço escola que devia ser de uma enorme afectividade transformadora, tornou-se num espaço impessoal, rotineiro e "chato".

Com números tão expressivos quanto aqueles, muito dificilmente os professores se conhecem e debatem a escola, os alunos da manhã não conhecem os da tarde, pelo que se tornam, grosso modo, peças de uma máquina que funciona formalmente (abertura e fecho, cumprimento de horários, transmissão de conteúdos, avaliações do "produto", relatórios e remessas (muitas) para o arquivo morto), numa irritante rotina completamente desfasada das necessidades do mundo real. Tendencialmente, a escola acaba por ser um espaço para não PENSAR, um espaço e um tempo de vida quase perdidos e de angústia para todos. Tenhamos presente o que os alunos dizem da escola e os números assustadores de "depressões" entre professores.

Senhores da política, pensem na matriz SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats) e deixem-se de lamechas!

Ilustração: Google Imagens