SOB A MAIS LIVRE DAS CONSTITUIÇÕES UM POVO IGNORANTE É SEMPRE ESCRAVO Condorcet (1743/1794)
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domingo, 17 de setembro de 2023
Podemos falar sobre “sucesso escolar”?
sábado, 16 de setembro de 2023
A perda de alunos e a ausência de debate
"Escolas públicas e privadas perdem mais de 300 mil alunos em 11 anos" - Jornal Público, 1ª pág. de 11 de Setembro de 2023.
Na Madeira assistiu-se, também, a uma significativa quebra na natalidade. E este momento, apesar de preocupante, podia ter servido para transformar essa fragilidade numa óptima oportunidade de mudança do sistema em toda a sua complexidade. Não houve essa preocupação. Simplesmente porque não se debate. Há uma sistemática preferência pelo silêncio e pelo controlo dos estabelecimentos de aprendizagem e siga a festa!
Ao ponto de, também por ausência de estudo e debate, quando outros países do topo estão a abandonar os manuais digitais, porque estudaram e debateram as consequências, sublinho, andam, por aqui, em contraciclo, a distribuí-los como uma grande opção enquadrada na tal "escola do futuro". O governo deve explicações.
Nutro o maior respeito pela minha classe profissional. Sei que tem sido, durante anos, desconsiderada, por culpas próprias (é preciso assumir os erros cometidos por omissões e sucessivo "agachamento" ao poder político), que conduziram ao ponto que nos encontramos. A menorização dos docentes vem desde o tempo que nem nas férias recebiam! Só que, daí a minha preocupação, não aceito que, simultaneamente, com algumas lutas pela recuperação da dignidade da função docente, os professores continuem alheados do debate sobre o sistema educativo. A Escola tem de ser debatida, na sua organização e, sobretudo, o seu processo (pensamento) pedagógico. A todos os níveis de análise, no essencial, que escola queremos e que sociedade desejamos construir? Porque esta escola e esta sociedade estão em falência. Esse debate está ausente das preocupações da generalidade dos professores.
A recuperação do tempo de serviço prestado, a colocação em estabelecimentos próximos da área de residência, os níveis remuneratórios, o flagelo da burocracia inconsequente, a perversa avaliação de desempenho, tudo isto e muito mais constitui uma parte do problema. A outra, mais complexa, é a de determinar o que aprender, como aprender, quando aprender, se o professor é um debitador de matéria ou antes uma espécie de "catalisador" do conhecimento e se é ou não importante rever currículos, programas, conceito de aula, de turma e de ano. Os professores são importantes neste processo; negam o futuro quando se distanciam destas matérias. Aliás, um dos princípios do desenvolvimento é o da "participação", isto é, ou as pessoas participam ou os processos morrem.
Por tudo isto, a diminuição do número de alunos devia constituir uma grande oportunidade para desenhar uma escola para o presente com os olhos colocados no futuro. Se revissem o sistema, estou em crer que não seriam necessários os professores que dizem estar em falta!
Ilustração: Google Imagens.
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
Deus não dará a bênção!
Saiba, Padre Silvano Gonçalves, que nutro o maior respeito por si. Não nos conhecemos no plano pessoal, mas leio e tenho algumas referências dos sete anos que passei no Lombo do Atouguia (Calheta). Portanto, não considere deselegante da minha parte trazer aqui um comentário sobre uma frase que deixou na sua página de facebook. Escreveu: "Peço a bênção de Deus para o ano escolar que se inicia. Vinde Espírito Santo!"
Não estou a dizer-lhe que "invocou o nome de Deus em vão". Não é isso. O que me parece claro é que se deseja, tal como eu, uma escola verdadeiramente inclusiva, curricular, programática, pedagógica e organizacionalmente autónoma, de excelência e ajustada ao tempo que nos coube viver; se quer, tal como eu, uma escola com menos dependentes da acção social educativa; se deseja jovens e professores felizes no processo de aprendizagem para a vida, obviamente que tudo isto não depende da mão de Deus, mas dos Homens. E, nesta, como em todas as outas situações, não existem intermediários. Tal como a paz no mundo, as gravíssimas questões ambientais (vide a Encíclica Laudato si), as diversas formas de violência, os desequilíbrios e dependências mundiais, a fome, as migrações, a selvajaria económico-financeira mundial, a precariedade no trabalho, os direitos básicos constantes na Constituição da República, os baixos salários vs altos impostos, enfim, tudo o que nos preocupa, não depende de Deus, mas de nós, Homens e Mulheres. Se assim não fosse, parece-me óbvio que, há muito, com tantas bênçãos, pedidos, terços e procissões os nossos desassossegos estariam resolvidos!
Uma melhor escola, Padre Silvano, depende dos políticos e não de Deus. Uma melhor aprendizagem não depende do Espírito Santo. Depende da capacidade dos políticos serem ou não inovadores. E eles, creia, não têm sido. Depende, também, dos professores quererem erguer uma escola de e com futuro, que tenha o aluno e a vida como centro da sua acção. Depende da cultura dos pais e da informação que disponham sobre o que deve ser a escola. Depende de uma sociedade menos assimétrica que, aliás, está assustadoramente reflectida na escola. Portanto, jamais dependerá de Deus, mas dos Homens. Compreenderá, por isso, ilustre Padre que, em aproximação ao Evangelho (da Igreja interessa-me, sobretudo, a Palavra contextualizada com a vida), temos a obrigação de não sermos vazios, não transferindo para Ele preocupações e pedidos de ajuda que não lhe compete "dar despacho". Nem o Pai, nem o Filho, nem o Espírito Santo (Deus Triúno) podem ser responsabilizados pela ausência de projecto político sério e responsável.
Eu Cristão, baptizado, professor durante 40 anos, entendo que Deus não dará a sua bênção ao ano escolar, tampouco o Espírito Santo concederá a inspiração no sentido da concretização das urgentes mudanças que o sector educativo necessita. Essas mudanças dependem da cultura dos Homens, depende da sua vontade, depende da sua inteligência e concomitante capacidade para ver o sistema de uma forma alargada, visionária e integrada no conjunto de todos os outros sistemas. Depende dos políticos não desejarem ser "donos disto tudo", egoístas, centralizadores e castradores do pensamento livre. É por aí que devemos lutar e exigir (o Senhor Padre Silvano devia exigir nos vários púlpitos que dispõe), nunca pela solicitação de uma bênção para um processo que está errado na raiz. Pelo que sei da Palavra, Deus, certamente, não aprova os disparates dos Homens.
Não me leve a mal o desabafo. Compreendo-o, mas não estou de acordo com a "solicitada" bênção. Mas, quando, até ao momento, mais de 800 pessoas concordaram consigo, inclusive, professores, provavelmente eu é que estou errado.
Ilustração: Google Imagens.
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
EDUCAÇÃO - O monopólio do poder de governação
Quando só 15% das raparigas e 11% dos rapazes dizem, assumidamente, gostar da escola e 84% dos professores manifestam-se cansados da sua profissão e declaram o desejo, se pudessem, de procurar outras soluções de vida, aquelas percentagens tornam-se preocupantes, pelo que deviam fazer soar as campainhas de alarme relativamente ao sistema educativo. Mas não, para quem governa o sistema, tudo continua bem e recomenda-se! São páginas e páginas de auto-elogio. Para os cérebros do sistema, a rotina deve sobrepor-se à inovação. Compreendo que é muito mais fácil, mas, à luz do conhecimento e da vida, a factura virá pesada. Pior que a do passado. Aliás, já existem sinais.
A Região Autónoma da Madeira podia constituir um exemplo. Infelizmente, não é. Com cerca de 40 000 alunos, tem menos 15 000 alunos que o concelho de Sintra. Isto dado significa que, para além de desfrutar de Autonomia Político-Administrativa, reorganizar o sistema afigura-se-me que seria muito mais desafiante e fácil que gizar uma reforma para dois milhões de estudantes matriculados em Portugal.
Mesmo considerando as limitações constitucionais impostas pelo Artigo 164º, não é a República que define o paradigma organizacional dos estabelecimentos de aprendizagem, a tipologia das infraestruturas, as características da rede escolar, tampouco o paradigma pedagógico. O artigo 164º (Reserva absoluta de competência legislativa - alínea i / Bases do sistema de ensino) tem essencialmente a ver com a estrutura curricular e programática. E apesar de constituir uma notável incoerência com o verdadeiro e desejável estatuto de uma região autónoma, a Constituição não é impeditiva de uma alteração do pensamento estrutural que devia presidir ao processo de mudança organizacional da escola e da aprendizagem. Aliás, não se assiste a um qualquer movimento no sentido de propor as necessárias e clarificadoras alterações constitucionais.
O problema está no monopólio do poder de governação. É esta concentração da decisão que mata os estabelecimentos de aprendizagem, afasta os alunos e os professores e, por conseguinte, todos os actos inovadores, ao fim e ao cabo, a tradução na prática do que tantos pensadores, investigadores sociais, professores, autores e até empresários assumem como determinante para hoje e para o futuro. Tudo tem de passar pela "central" de comando, restando à escola o cumprimento do estipulado. No actual contexto, falar de autonomia dos estabelecimentos escolares constitui uma grosseira mentira.
A comprovar, passados alguns anos, o exemplo da Escola do Curral das Freiras continua a ser paradigmático. De rigorosamente nada valeram os resultados apresentados, dentro das regras-limite do próprio sistema, isto é, respeitando a Constituição e outros normativos. O êxito foi literalmente "castigado". Deram um primeiro passo contra a dinâmica de aprendizagem, impuseram um processo disciplinar e, logo de seguida, "acabaram" com a escola. E agora, os alunos do Curral estão enquadrados num estabelecimento de S. António/Funchal, com a falácia, repito, falácia, do número de alunos ser limitado para a constituição de turmas. Ignoraram que, hoje, existem outros formatos de aprendizagem que substituem (para melhor) o conceito tradicional de turma, de ano e de segmentação das disciplinas.
Este é o exemplo de maior significado do que designo por monopólio do poder de governação. Num processo destes, os professores são apenas meros executores de uma política e os alunos números. Não se lhes pede que coloquem a sua inteligência e o seu conhecimento ao serviço da comunidade educativa, apenas que cumpram o acto político decisor, a norma, o ofício, a circular, enfim, o processo burocrático em toda a sua extensão.
Como na altura escrevi, naquele processo, qual paradoxo, acabaram por matar a escola por "ciúme, traição, jogo duplo, perseguição, intriga, assassinato de carácter, difamação pública, linchamento profissional, medo, eu sei lá, tudo o que um bom argumentista e um realizador, estou certo, precisam para contar uma história subordinada ao título: "como matar, não matando".
Por vezes chego a pensar que não vale a pena continuar com textos que abordem o sistema educativo. Poucos se interessam pelo debate das questões educativas. Desde que os "pequenos" estejam na escola, está tudo bem! Mas vale. Embora o sistema peque por ausência de informação credível, debate público qualificado, inúmeros receios por parte dos professores, reflectindo-se no desinteresse que os estudantes nutrem pela escola que lhes oferecem, continua a ser premente dizer a plenos pulmões que "o rei vai nu".
E assim, esta semana, toma lugar no mais alto patamar do pódio, sua excelência a ROTINA.
Ilustração: Google Imagens.
domingo, 3 de setembro de 2023
Aulas de 90'!
"Há vários elementos que não se compreendem na educação de Portugal, ideias obsoletas, que não fazem qualquer sentido para quem tem dois dedos de testa e que só ignora quem não quer saber do assunto, quem não se esforça por saber mais sobre ele, ou quem, de certa forma, pode sair beneficiado dessa situação, certamente não os alunos nem os professores.
terça-feira, 29 de agosto de 2023
A necessidade de repensar tudo
Dos Estados Unidos a vários países europeus, mesmo aqueles reconhecidos como tendo sistemas educativos de reconhecida qualidade, os manuais digitais e outros equipamentos estão a ser colocados em causa e mesmo abandonados. Não significa isto, como aqui já tive a oportunidade de equacionar, o abandono da tecnologia. Não é disso que se trata, aliás, seria um contrassenso, quando se vive num mundo onde os meios tecnológicos ganham cada vez maior relevância nas nossas vidas.
O problema é outro e muito mais profundo. E esse tem de ser estudado. Por que razão "a Suécia está a planear deixar de lado os computadores nas escolas e regressar ao ensino baseado nos livros? O motivo, explicam, é a diminuição das competências de leitura e escrita dos alunos".
"(...) o bom ensino supera uma escolha tecnológica pobre, mas a tecnologia nunca salvará o mau ensino".
sábado, 26 de agosto de 2023
O conhecimento e a subjectividade das notas escolares
Confunde-se o "conhecimento" com "notas escolares" conseguidas através de uma qualquer avaliação. E uma coisa e outra não são compagináveis em todas as suas dimensões. A vida precisa de conhecimento e dispensa o excessivo e frágil foco nas notas (classificação)! O empregador pergunta: "o que sabe fazer" e não a "classificação" que teve na disciplina Y. Note-se que não estou a colocar em causa a avaliação, mas sim as variáveis do processo que conduzem a aprender melhor. Genericamente, salvaguardando as excepções, o que designam por "bom aluno" é aquele que, perante um determinado programa curricular, repete o que lhe foi transmitido pelo docente, o qual, por sua vez, cumpre o que se encontra espelhado no manual. Ora, por essa via, raramente existe uma conexão directa com o conhecimento intelectual, muito menos com o conhecimento científico.
Esta escola oferecida aos portugueses não possibilita o questionamento da própria realidade e não estimula a criatividade nas ideias e conceitos. Trata-se, por isso, de uma aprendizagem que parte, fundamentalmente, do professor e não do aluno. Quase tudo se apresenta repetitivo e estático, cansativo e constrangedor para professores e alunos.
E porquê? Porque a escola que deveria partir do pressuposto da complexidade, continua a preferir uma espécie de prato único, tipo "bife, batata frita e ovo a cavalo" que de tanto engolir causa enfastio, tédio, desinteresse e até rejeição. O que isto significa é que, no mundo que estamos a viver, a aprendizagem, desde início, não deve ser previsível no quadro de uma estrutura clássica próxima do pensamento "industrial". Porque a escola não deve ser entendida como uma fábrica. É um erro admitir que a tradicional segmentação (fragmentação) por disciplinas, mais tarde, as partes se unam no todo. A cognição impõe a opção pela dialéctica, pela capacidade de refutar o que é apresentado como produto acabado. Por aí existe aprendizagem significativa, simplesmente porque as perguntas do aluno devem preceder a resposta constante no manual. Ora, sistema que mata a pergunta é um sistema condenado; sistema que encurrala o aluno, direccionando-o para o que o adulto entende, limita muitas vezes, definitivamente, o conhecimento portador de futuro.
Porque isso é o que encontramos na vida real. Ela não nos pede respostas estanques, antes solicita conglomerados, partes distintas que se ajustam na resposta a uma dada situação. E isso trabalha-se no processo de aprendizagem. As próprias especializações assentam nesse pressuposto que devem excluir tanta tralha que nada acrescenta. Está em causa o conhecimento interligado e com robustez. A propósito, diz-nos Edgar Morin que a fragmentação de saberes constitui um erro, por isso propôs o conceito da complexidade. Sendo assim, é inexplicável a crónica indiferença dos governantes perante o pensamento de um dos maiores intelectuais do nosso tempo. "É preciso educar os educadores", sublinhou. É verdade!
quarta-feira, 23 de agosto de 2023
Educação: podíamos ter feito mais e melhor!
A definição das políticas educativas regionais é da responsabilidade de quem governa a Região. No âmbito da nossa Autonomia, é responsabilidade da tutela definir as estratégias e opções governativas adequadas à realidade educativa e social que carateriza a nossa sociedade, sempre com o objetivo de promover uma melhor qualidade de vida aos cidadãos. Ao longo dos anos de governação PSD, e agora em coligação com o CDS, sempre se ouviu dizer que o “nosso modelo” educativo (regional) é o melhor! O “nosso sistema de ensino” é o melhor do país!
Os nossos “governantes com a tutela de Educação” foram e são do melhor que há no país em matéria de “gestão e administração do nosso modelo/sistema escolar e ensino” - quem o diz, na maioria das vezes, desconhece o “perfil” de alguns deles ou nunca estiveram em debate com os mesmos, para ter o privilégio de lidar com a sua soberba e arrogância! Mas, diz a coligação PSD/CDS que valorizaram os professores (devolvendo-lhes o que lhes era de direito!) através da contagem do tempo de serviço (que estava congelado!).
Não diz que, após mais de quatro dezenas de anos de governação PSD, os Censos de 2021 revelaram as falhas no modelo educativo na Região. Ao fim de mais de quatro décadas de Autonomia, a Madeira continua a ser uma Região do País com uma elevada percentagem de pessoas, com 15 ou mais anos de idade, com um grau de escolaridade de 4 a 9 anos. São exatamente 40,5% da população em idade ativa, perfazendo um total superior a 75 mil habitantes, com o seguinte registo: com apenas 4 anos de escolaridade (24,3%), até 9 anos (16,2%). Apenas 22,5% concluíram o 12º ano e 16,5% têm formação superior. Existem, ainda, 10.433 madeirenses que não têm qualquer grau de ensino, o que pode ser considerada população analfabeta.
terça-feira, 22 de agosto de 2023
Políticos e Professores leiam, por favor!
Por
Nota
Portugal falha, porque falha a educação 1
Portugal falha, porque falha a educação 2
Portugal falha porque falha a educação 3
Portugal falha porque falha a educação 4
sábado, 19 de agosto de 2023
Futebol - quando falta a formação básica!
Ontem, ao final da tarde, enquanto fazia a minha actividade física, fui seguindo uma partida de futebol. Desastre total para os meus olhos.
Entendo que não devo comentar o que ali se passou (porque o futebol nunca foi a minha praia), apenas quero manifestar que a quase totalidade dos jogadores da equipa "madeirense" não possui o domínio dos gestos técnicos básicos do futebol: a recepção, o passe, o drible e o remate (estes quatro elementos em múltiplas situações) e, conjugado com estes, entre outros, o domínio do próprio corpo, a percepção do espaço e do tempo, o sentido de marcação, de desmarcação e o táctico, para além de uma boa capacidade física de resposta ao esforço, enfim, um alargado conjunto de aspectos que eu, em síntese, diria que envolvem desde a cabeça aos pés. E tudo isto é treinável no tempo certo de formação. Mais tarde, tudo se complica. No encontro que segui, valha a verdade, a bola parecia um elemento estranho, tão maltratada que foi por tais profissionais.
sábado, 12 de agosto de 2023
A ESCOLA QUE NÃO ENXERGA O MUNDO, MATA A CURIOSIDADE E A COMPLEXIDADE
Regressei à leitura do Filósofo Edgar Morin, hoje com 102 anos. Perguntaram-lhe: "O senhor fala de um mundo padronizado, uniformizado. Como ficam o pensamento e a arte?"
terça-feira, 1 de agosto de 2023
A sociedade pagará caro se na Escola permanecer a rotina
"As crianças e a Educação que recebem definem o futuro das sociedades"
Haldis Holst / Revista A Página da Educação - 2023. Torna-se imperativo inovar para mudar a Escola, reativar estratégias dialógicas, cooperativas, e assim fazer germinar uma cultura de responsabilidade, de compromisso, de subsidiariedade e de crescente participação interpessoal e interinstitucional. A intenção é sempre a melhoria do ensino e das aprendizagens, gerando contextos desafiadores e potenciadores do bem comum. Uma visão fundeada em comunidades de aprendizagem que se desafiam e desafiam os seus docentes (...)"
quarta-feira, 19 de julho de 2023
O estado da Educação
Do estado da Região pouco escutei, pois confesso que já perdi a réstia de entusiasmo que mantive durante anos. Ouvir a mesma lengalenga, os mesmos argumentos e respostas enviesadas, quase sempre fora de contexto, perceber que apontam o indicador para a Lua cheia mas que só conseguem ver a ponta do dedo, é situação cansativa e desinspiradora até da necessária participação cívica. De tanto repetirem a mesma tecla e o mesmo som, alguns, mal abrem a boca, com o salamaleque regimental: senhor presidente, senhores membros do governo, senhoras e senhores deputados, percebe-se o que vêm dizer pela enésima vez. Daí que, sinceramente, mudo de canal e remeto-me às sínteses do dia-a-dia de onde extraio as conclusões. Já não tenho pachorra, depois de 47 anos a escutar a mesma faixa de um disco de 45 rotações cheio de "riscos"!
Mas para tal necessário seria uma elevadíssima dose de conhecimento e de humildade. E o estado da Educação demonstra que aquelas duas palavras de profundo significado não têm lugar. Para muitos, conhecimento significa rotina e a humildade está muito próxima da ignorância altifalante. Abrir-se ao mundo, ser capaz de desafiar o "estado das coisas", questionar se estão ou não num cruzamento sem saber qual a direcção tomar, romper com mentalidades obsoletas, ter pavor de tudo o que é novo e adequado ao tempo que nos coube viver, saber trazer o futuro ao presente antecipando respostas, perceber que este sector precisa de se constituir numa grande mesa de diálogo, de debate, de construção de um novo paradigma, dá trabalho, obviamente que dá muito trabalho. Mas é essa a via que o bom senso aconselha.
Quando os alunos escrevem: "se a escola é a tua casa, foge de casa" e um político com responsabilidades de governo diz "(...) sempre que houver estrada vamos continuar", o que isto significa é que ambos estão e são incompatíveis. Com um pouco de mais atenção o político constataria que esta sua estrada tem um sinal logo no início: "sem saída". E perceberia uma outra coisa que a palavra utopia encerra, tal como referiu a investigadora Doutora Fátima Vieira: "(...) na utopia o que fazemos? Primeiro, definimos a visão: que sociedade quero ter? que escola quero ter? o que quero ser?... Depois de definirmos essa visão, então sim, escolhemos o caminho e tapamos os buracos. Não vale a pena tapar buracos de outros caminhos". É tempo perdido.
Ora bem, tudo isto está nos livros publicados, nas investigações realizadas, nos milhares de documentos académicos de natureza científica, está nas intervenções em seminários, cursos, formações, portanto, questiono, por que raio esta rotina que mata talentos, sonhos e exclui tantos do sistema, permanece por imposição de um modelo que rejeita a inovação, mesmo que parcial, antes afunila e refina tudo quanto é obsoleto. É espantosa esta dicotomia. Preferem manter um sistema gordo, de narrativa sem substância, anafado nas prebendas, como se o mundo girasse em torno do umbigo, quando o que precisamos não é de fazer da educação um espectáculo mediático, desde os "prémios de mérito" às palavras sem o sentido portador de futuro.
Diz o Professor: "(...) quando muitas vezes dizemos educação não formal, deveríamos dizer educação familiar, comunitária, cidadã, cívica, porque todas as educações, de um jeito ou de outro, são formais. Portanto, há que recuperar o sentido da educação como projecto e trajecto comunitário, o que requer repensar a escola, o seu sentido de instituição ao serviço da sociedade e da comunidade (...) a escola não pode ser só escola e as aprendizagens não podem ser só curriculares, se verdadeiramente estamos convencidos de que a educação deve ser um processo permanente, que se estende ao longo da vida e que todos somos participantes de educar e de educar-nos. (...) O desafio é imenso e as políticas educativas, sociais e culturais devem situar-nos nesse horizonte, não só como utopia, mas como realidade, como projecto que vale a pena construir pedagógica e socialmente (...) no fundo, falamos de uma ética pública e de uma ética cívica: como serviço público a nossa responsabilidade é para com as pessoas que se educam connosco, com as quais e para as quais desenvolvemos o nosso trabalho. Especialmente as que estão em situação de pobreza, de exclusão, de vulnerabilidade, as quais, muitas vezes, o sistema educativo etiquetou como fracassadas e que são abandonadas à sua sorte e aos azares (...)
sábado, 8 de julho de 2023
A resposta adequada
No passado dia 6, quinta-feira, o jornalista David Spranger publicou na newsletter diária do JM o seguinte texto:
- o horário legal dos educadores e dos professores do 1.o ciclo não é de 25 horas semanais, mas, como certamente saberá, de 35 horas, como a função pública, em geral;
- o horário destes profissionais, e do comum dos professores, é constituído por três componentes: a letiva, a de estabelecimento e a de trabalho individual;
- é certo que a componente letiva é de 25 horas, o que significa que esse é o horário semanal em que estes profissionais trabalham, diretamente, com as crianças e os alunos;
- componente de estabelecimento é de 4 horas, sobrando, apenas, 6 horas para a componente individual, o que significa que é nestas 6 horas que estes profissionais têm de o preparar as atividades das 25 horas com as crianças ou os alunos, o planificar a sua participação nas atividades da escola; o elaborar testes e fichas de avaliação, o corrigir esses testes e fichas de avaliação, o preparar as adaptações para as crianças e alunos com necessidades educativas especiais, o elaborar relatórios diversos (são mesmo muitos),
- o ...
- Significa tudo isto que, na grande maioria dos casos, estes profissionais só conseguem cumprir todas as exigências inerentes às suas responsabilidades profissionais ultrapassando os seus horários legais, sem que, por isso, recebam qualquer compensação financeira.
- Voltando à alteração de ontem do ECD-RAM, na ALRAM:
- o que lá se aprovou não foi a redução dos horários dos professores do 1.o ciclo e dos educadores de infância, mas a redução da componente letiva dos seus horários, a partir dos 50 anos, como forma de minimizar o desgaste de quem, diariamente, lida com gente muito nova cheia de vida e de energia e lida não individualmente, mas em conjunto, em salas com 15, 18, 20, 25 crianças / alunos, tendo de dar vinte respostas, em simultâneo;
- a consequência desta importante medida não é a redução do horário de trabalho destes profissionais, mas uma reorganização do mesmo, que continua a ser, conforme exige a lei, de 35 horas semanais; assim, a redução num lado (na componente letiva) é compensada com um aumento noutro.
quinta-feira, 6 de julho de 2023
A propósito de um comentário
Um texto que aqui publiquei mereceu um comentário do meu Amigo Urbelino Ferreira: "Prezado André Escórcio, tenho vindo a seguir os seus pensamentos sobre a Escola e a Educação, com a maior acuidade, já que me revejo, bem, no seu método de reforma da curricula, em Portugal. Sabemos, em geral, que cada mudança de ministro (ou Secretário regional) da Educação, corresponde a uma nova visão, tendencialmente, pessoal. E as Educação e Cultura de um país - como noutras áreas da governação -, jamais poderão estar sujeitas a planos de quatro anos. Para bem de um país e do seu povo, os planos de governança deveriam ser consentâneos com uma visão para decénios. (...)"
Caríssimo, muito obrigado pelo seu comentário. Concordo consigo quando adianta a necessidade de um "Pacto Educativo para o Futuro" que, nas suas linhas estruturantes, dite o rumo que se deseja para o sector educativo. Aliás, na esteira do ex-ministro da Educação Doutor Marçal Grilo (1995) que defendeu, exactamente, a importância desse pacto político de pendor estratégico. É evidente que, constituindo um processo, um pacto sempre sujeito aos reajustamentos que a ciência e as circunstâncias forem ditando. Por isso, defendo o conceito de paradigma e não de modelo. Porque o paradigma afigura-se-me como qualquer coisa pela qual me guio, enquanto o modelo transmite-nos um sentido estático. No essencial, o modelo, é o que temos na política educativa há muitas dezenas de anos, independentemente de quem tem tido a responsabilidade de governar.
sábado, 1 de julho de 2023
Em dez anos a região perdeu 9 260 alunos
Obviamente que é grave assistirmos, em 10 anos, a um decréscimo do número de crianças e jovens (9 262 alunos). Ou porque se nasce menos, ou porque se emigra mais ou porque há cerca de 8 000 que não estudam nem trabalham. Seja como for, trata-se de uma diminuição que implicou menos 920 docentes e o encerramento de 93 estabelecimentos de aprendizagem. Obviamente que este facto não deve ser analisado de forma isolada, antes compaginada com muitos outros factores, entre outros, o económico. No essencial, para encontrar respostas às razões mais substantivas que conduziram a este decréscimo?
Porque a minha formação não o permite, pois trata-se de um estudo que outros mais habilitados em várias ciências o devem fazer, resumo este meu texto apenas ao que à escola diz respeito, na perspectiva organizacional do sistema. E aí pergunto aos políticos responsáveis pela governação se dominam o conceito da designada "matriz swot" e, se o dominam, por que não o põem em marcha?
Não basta assumir, estatisticamente, que a região da Madeira dispõe de menos alunos, porventura para, sub-repticiamente, justificar o encerramento de estabelecimentos de aprendizagem. Simplesmente porque esta putativa "fraqueza" pode(ia) e deve(ia) constituir um "oportunidade". É, pois, no cruzamento das "forças" e "fraquezas", "oportunidades" e "ameaças" que se constroem novos paradigmas no quadro do desenvolvimento.
Ora, a diminuição significativa do número de alunos (uma fraqueza) de forma simples se compreenderá que o sistema podia encontrar nesse decréscimo uma grande oportunidade. Isto é, trata-se de uma conjuntura favorável ao estabelecimento de um novo, inteligente, consistente, eficiente e eficaz paradigma da aprendizagem de qualidade com repercussões no futuro. Concretamente, uma oportunidade para mudar a escola. Oportunidade, portanto, para debater, cientificamente, onde estamos, onde desejamos chegar e, finalmente, a definição dos passos que têm de ser dados para lá chegar. Se o sistema, tão ao gosto dos governantes, quedar-se pelo repetitivo choro da "fraqueza" e da "ameaça", jamais encontrará a "força" e a "oportunidade" que as mudanças exigem.
O habitual chorinho apenas serve a mediocridade de pensamento, a ausência de ambição, inovação e a criatividade e, no essencial, corresponde às medidas do tipo "penso rápido" que não resolvem os problemas de uma ferida profunda que, para já, não deixa de sangrar. O chorinho acaba por ser, claramente, a antítese do que se pretende de uma Autonomia político-administrativa pujante. Em suma, passaram-se 47 anos e ninguém é capaz de assumir uma estratégia política para a Educação. Ninguém é capaz de dizer para onde caminha.
Ora, para os estabelecimentos de aprendizagem, não é a diminuição do número de alunos que está em causa, mas sim a incapacidade de aproveitar o momento para transformar o que manifestamente, até no plano pedagógico, está errado. E não estou a pensar, apenas, nos currículos, programas e no estático "modelo" organizacional das escolas. Refiro-me, por exemplo, por uma questão de bom senso, se alguém minimamente integrado no sistema educativo, aceita como natural que um estabelecimento tenha 1 000, 1 500, 2 000, 2 500 alunos? Esses números jamais poderão caracterizar uma escola, talvez caracterizem uma fábrica da Sociedade Industrial! O espaço escola que devia ser de uma enorme afectividade transformadora, tornou-se num espaço impessoal, rotineiro e "chato".
Com números tão expressivos quanto aqueles, muito dificilmente os professores se conhecem e debatem a escola, os alunos da manhã não conhecem os da tarde, pelo que se tornam, grosso modo, peças de uma máquina que funciona formalmente (abertura e fecho, cumprimento de horários, transmissão de conteúdos, avaliações do "produto", relatórios e remessas (muitas) para o arquivo morto), numa irritante rotina completamente desfasada das necessidades do mundo real. Tendencialmente, a escola acaba por ser um espaço para não PENSAR, um espaço e um tempo de vida quase perdidos e de angústia para todos. Tenhamos presente o que os alunos dizem da escola e os números assustadores de "depressões" entre professores.
Senhores da política, pensem na matriz SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats) e deixem-se de lamechas!
Ilustração: Google Imagens
















