quinta-feira, 5 de março de 2026

Respeitar o sonho e o talento


Li, com muito entusiasmo, uma entrevista publicada na edição do DIÁRIO do último Domingo, da autoria do jornalista Rúben Santos. Protagonista, o Engenheiro madeirense Guilherme Cristóvão, natural de S. Vicente. Um percurso de vida muito interessante, perseguindo o sonho e o seu talento. Uma entrevista, pelo menos para mim, deliciosa, porque vem ao encontro do que penso sobre o processo de aprendizagem e sobre um sistema educativo que não mate o sonho que cada um de nós transporta.



O engenheiro desta história não ficou pelo que o sistema educativo lhe impôs. Ao ponto de, tendo um Dissertação de Mestrado pronta para ser entregue e debatida, abandonou-a para seguir outro caminho que o sonho e mesmo o talento lhe indicavam. E, hoje, aos 26 anos, resume a sua vida numa frase tão simples quanto profunda: mais do que mil diplomas académicos (...) "nunca fui destinado a ser brilhante, mas sempre tentei brilhar". 

Ora, é isto que diferencia tanta luta (e até mesmo propaganda) por dezanoves e vintes nas médias finais do secundário, quantas vezes esmagando o verdadeiro e genuíno sonho de quem atinge esse patamar de resultados. Trata-se de uma velha história entre uma escola que propõe um "fatinho igual para todos" ou um "fato à medida de cada um".

É neste contexto que emerge um outro quadro de análise: a cada vez maior obsessão pela avaliação dos alunos. Tudo é conduzido no sentido do acto avaliador: o teste, a questão aula, a nota e o exame, a par de variadíssimos itens de muito subjectiva avaliação. Genericamente, neste sistema, o aluno continua a ser conduzido para a resposta dita certa, aquela que consta do manual programático e não para a complexidade da construção do seu futuro. Há, de facto, uma intencional dimensão política curricular e programática, arquitectada por adultos, difícil de desconstruir. Por isso temos tantos jovens que olham para a escola distantes da paixão pelo saber. Enaltece o Engenheiro Guilherme Cristóvão: 

"(...) Se alguém pensa que na Fórmula 1 não se falha, engana-se. Falha-se e falha-se muito. Mas a cultura é diferente. Quanto mais depressa se falha, mais depressa se aprende (...) O segredo não está em evitar o erro a todo o custo, mas na velocidade de reacção (...) A curva de aprendizagem é exponencial porque somos forçados a aprender com as falhas, imediatamente".  


"Tiro na mouche". Vários pensadores da Educação convergem para uma atitude que também considero básica: o professor não existe para oferecer respostas prontas, mas para desenvolver a curiosidade e o gosto pelo saber. É isso que nos leva longe. Ora, este sistema exige a resposta pronta e a nota correspondente a essa resposta, não a possibilidade do erro como pressuposto de uma aprendizagem de pensamento, com consistência e duradoura. 

O Engenheiro Guilherme Cristóvão soube romper com a lógica "by the book" e, hoje, está no topo da Fórmula 1, desenvolvendo projectos electrónicos de relevante interesse para todos e, especialmente, na Red Bull. Parabéns!

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A necessidade de uma obsessão pelo futuro

 

Ora bem, uma coisa é ser Licenciado(a), Mestre(a) ou Doutor(a) e ter um percurso académico de excelência reconhecido pelos seus pares; outra, bem diferente, é associar qualquer formação a dois campos de relevante interesse: uma visão da complexidade multidisciplinar do futuro; simultaneamente, uma capacidade para, politicamente, antecipá-lo, planeá-lo e executá-lo com convicção e determinação. Combinar a formação com a concretização no contexto da governação, não é fácil, eu sei. Um dia, um distinto Colega, qual metáfora, disse-me que, com esta minha leitura assente na exigência, no rigor e na responsabilidade, melhor seria eu "ir a uma olaria"! Pois, percebi e percebo a dificuldade.



Só que há aqui um princípio básico que sempre considerei de enorme relevância. É que só se deve aceitar um lugar de gestão/administração quando nos sentimos preparados para uma dada função ou missão. Da mesma forma que, a um outro nível de menor exigência, só se deve debater um qualquer assunto quando fazemos um esforço, mesmo que mínimo, para o dominar, pelo menos nas suas traves mestras. Quando isso não acontece, quando a via é a do "achismo", o melhor é assumir que, por alguma razão, temos dois ouvidos e uma boca. 

Perfazem, hoje, 15 de Fevereiro, cinco meses de governação da Doutora Elsa Fernandes como Secretária Regional da Educação. Para que fique claro: não a conheço no plano pessoal e nunca nos cruzámos em qualquer situação. Apenas nutro um natural respeito pelo seu percurso e, certamente, competência profissional na área que se especializou. É, portanto, no outro espaço, no da intervenção política, que me foco. Simplesmente porque é responsável pelas características da escola que ainda temos e pelo futuro dos que a frequentam. Ademais, não se trata de uma questão de natureza partidária, mas sim, repito, de responsabilidade política na construção do amanhã.

Passaram-se cinco meses de governação e não detectei uma única situação, uma única ideia que despertasse atenção e me fizesse admitir a existência de um qualquer caminho. Seja ele qual for, mas um caminho, um objectivo: onde estou e onde quero chegar! Assisti a cinco meses de governação "caseira", de algumas visitas a escolas e a palavras que as circunstâncias impõem. Ah, e a uns diálogos com os sindicatos no âmbito da solução de velhíssimos problemas apresentados pelos professores. De resto, um absoluto vazio de ideias, tal como aconteceu na longa governação anterior, cheia de generalidades, de banalidades e silenciamentos, tudo muito administrativo, burocrático e repetitivo. Ora, recorda-nos Georges Santayana (1863/1952), filósofo e poeta, que "aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Isto é, torna-se necessário assumir uma memória histórica, conhecimento e capacidade de análise crítica para evitar a continuidade dos erros.

E se a escola se justifica em função da construção do futuro, esse futuro que se nos apresenta cheio de sinais complexos e paradoxais, que fazem prever o que aí vem, o sistema educativo e quem o interpreta, não pode evidenciar ausência de memória e de visão. Se outro não for o caminho, qualquer arrisca-se a repeti-lo deixando um rasto de uma enorme frustração. Confesso que não fiquei com qualquer esperança quando, há cinco meses, escutei as palavras ditas no decorrer da tomada de posse. Teria sido o momento da mensagem esclarecedora ao que vinha. Passado este tempo, infelizmente, confirma-se a minha continuada desilusão. Este sistema continua a viver na inconsistência do paleio político circunstancial e de tudo o que seja motivo de propaganda que promova a ideia pública que a escola está bem e se recomenda. Aliás, basta ler alguns autores e pensadores de referência, basta uma passagem pelo youtube e assistir a tanto e abundante pensamento, basta ter uma leitura transversal de todos os outros sistemas que interagem com o educativo, basta visitar países e escolas do topo da educação, basta ler as estatísticas, basta escutar o que, genericamente, os alunos pensam da escola que lhes oferecem, basta ter presente os números aterradores dos internamentos em psiquiatria (25% dos alunos do 5º ao 12º ano apresentam, no quadro organizacional deste sistema, um significativo mal-estar psicológico), basta ter presente o que dizem tantos professores que (sobre)vivem em Burnout (70 a 75%) pela pressão angustiante que os leva a se manifestarem: uns dizendo que tomam medicação a mais por causa da escola; outros, que se desejam aposentar, basta um olhar atento para os motivos que conduzem a 6 000 jovens que, por aqui, nem estudam nem trabalham, basta que tenhamos presente que 41% dos jovens diplomados revelam ter apenas competências para ler textos simples e fazer interpretações básicas, basta uma leitura profunda sobre o Mundo, sobre o nosso país, sobre a Região e as inúmeras iliteracias, basta ter consciência das graves limitações na qualificação profissional face às exigências da vida colectiva, enfim, tudo isto, sumariamente, exige pensamento e assertividade de quem assume um cargo político. Quando esse pensamento não existe, transmite-se a ideia do vazio e o político fica, naturalmente, reduzido a mais um de turno. Pelo contrário, precisamos de quem transporte uma mensagem portadora de futuro a qual, na esteira de Michel de Montaigne (1533/1592), assuma que "uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia". 


No dia 15 de Setembro de 2025, naquele dia da tomada de posse, deixei 60 perguntas à Senhora Secretária. Questões que me preocupam, que as trago em consequência do que vou lendo, dos Mestres que tive, dos 40 anos de experiência na escola (não uma experiência repetida 40 vezes), dos ambientes de formação, da presença em inúmeros conselhos pedagógicos e até do que restou das minhas sessões enquanto professor assistente no âmbito universitário. Sempre parti do pressuposto que a verdade é múltipla, pois "o erro é um agente construtor do conhecimento" - G. Bachelard. Por isso, o que defendo e assumo constitui o resultado de um continuado estudo, observação e escuta dos professores e alunos. E sendo esta a minha postura, entendo que podem coexistir outros posicionamentos importantes para o debate que urge. Grave é não debater, é fechar-se na "torre de marfim" e negar a necessidade de uma "festa das ideias" que conduza a um caminho, a uma utopia sustentável. 

Portanto, o problema da Educação e do desenvolvimento é o de colocarem na liderança dos processos políticos, pessoas que podem ser excelentes na sua actividade profissional, mas que não transportam capacidade acrescentada de como ela deve ser estruturada e como se implementa um sistema de sucesso. Tenhamos presente o caso da Senhora Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral: Doutorada em Direito, Catedrática, Juíza do Tribunal Constitucional e Provedora de Justiça. Todo este respeitadíssimo currículo de nada lhe serviu para Ministra da Administração Interna. Acabou por sair.

Senhora Secretária Regional da Educação, esta Escola que alguns dizem ser inclusiva, tenha presente que começa a ser um factor de exclusão social. De facto, esta escola mata o talento e mata sonho. Ela é castradora do pensamento. E não são as limitações Constitucionais que impedem que o sistema educativo da Madeira não possa ser uma referência nacional e europeia. Rita Bonança, Doutorada em Educação, foi muito clara: “ensina-se para o teste, aprende-se para o teste, vive-se para o teste. E, depois, lamenta-se que os alunos não tenham criatividade, pensamento crítico ou paixão pelo saber".  Pense nisto, Senhora Secretária. 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Não fosse o "vício de trabalhar para a nota", a IA era menos angustiante


Por
Andreia Sanches
Público

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.



Cara leitora, caro leitor

Primeiro foi um manifesto publicado por um grupo de professores que diz que a Inteligência Artificial (IA) está a criar verdadeiros “cretinos digitais”. Quer que ela seja banida dos “processos de ensino-aprendizagem”.

Depois foi um relatório da OCDE, que alerta para os riscos e potencialidades das novas ferramentas que o manifesto denuncia.

No dia em que escrevi sobre o relatório da OCDE perguntei à professora catedrática da Universidade de Lisboa, Margarida Gaspar de Matos, que opinião tinha sobre o assunto. Não só por ser professora, mas por ser uma investigadora que há décadas estuda os comportamentos dos jovens e a sua relação com a escola.

No email que me enviou mais tarde reconhece que as redes sociais, os smartphones, a IA entraram de rompante pelos sistemas educativos e atingiram formas e intensidades terríveis. O que fazer então nestes tempos de alguma justificada angústia?

“Imaginar modos de integrar todas estas novas possibilidades e ficar com o melhor de dois mundos potenciando o progresso” será mais útil, diz, do que pensar em proibições.

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.

Estamos a falar de uma das coordenadoras de um estudo internacional de referência, o Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde, realizado a cada quatro anos. A análise tem vindo a mostrar um aumento continuado dos adolescentes que se dizem pressionados para terem bons resultados, que consideram que a matéria é muita, aborrecida, inútil, que a avaliação é um stress e as aulas demasiado grandes.

A OCDE defende no seu relatório que a IA generativa “tem potencial para transformar a qualidade e a eficácia da aprendizagem”. E para “apoiar os professores”. Mas que, “quando usada como atalho, em vez de ferramenta de aprendizagem, pode substituir o esforço cognitivo e enfraquecer as competências que sustentam a aprendizagem profunda”.

No terreno, os professores, sejam contra ou a favor, estão a sentir-se obrigados a mudar a forma como dão aulas e avaliam. Que sentido faz mandar trabalhos para casa que possam ser escritos “às escondidas” pelo Copilot? Ou o que fazer, como também nos relatou um professor, quando um aluno numa aula decide “humilhar” quem está ali para o ensinar, fazendo-lhe perguntas geradas por um chatbot, só com um objectivo: provar-lhe que não “sabe”.

Este é também um momento de indefinição, com muitas experiências em curso mas também muita improvisação, sem regulamentação, sem reflexão, sem literacia digital suficiente, nem de alunos, nem de professores, nem de encarregados de educação. Num contexto em que, como diz a OCDE (organização que dificilmente pode ser acusada de ser avessa à inovação tecnológica), os riscos do uso da IA na educação têm de ser “cuidadosamente geridos”.

Vários estudos citados evidenciam que quem pede à IA que lhe faça os trabalhos propostos pelos professores consegue ter notas mais altas nesses trabalhos. O problema (um dos) é que quando tem de fazer uma apresentação oral, ou um teste sem consulta, se sai bem pior do que os outros.

O "vício de trabalhar para a nota" tem os dias contados?
A conclusão que a OCDE destaca é esta: quando usadas de forma pedagógica, as ferramentas de IA “generalistas” podem funcionar como apoio aos alunos. Essencial é que os professores desenvolvam competências pedagógicas que as integrem no ensino e nas tarefas que propõem. Incentivem a autonomia dos estudantes. E “dêem ênfase ao processo — como os alunos pensam e aprendem — em vez de ao produto final”.


Além disso, várias experiências apontam para um impacto muito mais positivo nas aprendizagens quando se usam ferramentas de IA especificamente criadas para serem usadas em contexto escolar (que não promovem a chamada "preguiça metacognitiva") do que outras. “A educação deve ir além dos chatbots genéricos e avançar para ferramentas especificamente concebidas para fins educativos.”

Nesta discussão, os portugueses até se revelam dos mais optimistas da União Europeia: 25% (16% na UE) consideram que “a IA pode melhorar o ensino e a aprendizagem” pelo que “a comunidade educativa não deve ter receio de fazer experiências com ela”, segundo um Eurobarómetro divulgado no ano passado pela Comisão Europeia.

Mas a posição dominante é mesmo de expectativa: “A IA pode beneficiar e trazer riscos ao ensino e à aprendizagem, a comunidade educativa deve aferir e explorar ambos”, é uma frase com a qual se identificam 52% dos portugueses (a média na UE é de 54%).

Apenas 16% defendem que “a IA não pertence à sala de aula”. Essa é a convicção de 22% dos inquiridos na União.