quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Não fosse o "vício de trabalhar para a nota", a IA era menos angustiante


Por
Andreia Sanches
Público

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.



Cara leitora, caro leitor

Primeiro foi um manifesto publicado por um grupo de professores que diz que a Inteligência Artificial (IA) está a criar verdadeiros “cretinos digitais”. Quer que ela seja banida dos “processos de ensino-aprendizagem”.

Depois foi um relatório da OCDE, que alerta para os riscos e potencialidades das novas ferramentas que o manifesto denuncia.

No dia em que escrevi sobre o relatório da OCDE perguntei à professora catedrática da Universidade de Lisboa, Margarida Gaspar de Matos, que opinião tinha sobre o assunto. Não só por ser professora, mas por ser uma investigadora que há décadas estuda os comportamentos dos jovens e a sua relação com a escola.

No email que me enviou mais tarde reconhece que as redes sociais, os smartphones, a IA entraram de rompante pelos sistemas educativos e atingiram formas e intensidades terríveis. O que fazer então nestes tempos de alguma justificada angústia?

“Imaginar modos de integrar todas estas novas possibilidades e ficar com o melhor de dois mundos potenciando o progresso” será mais útil, diz, do que pensar em proibições.

“Não seria mais adequado uma mudança cultural, com ajuste do uso da IA e novas competências para a sua gestão? E se não houvesse este vício nacional de ‘trabalhar para a nota’ e se valorizasse mais o conhecimento (o progresso e o processo)? Será que a IA era assim tão útil se os alunos fossem motivados a adorar pensar e entender as coisas?” — pergunta Gaspar de Matos.

Estamos a falar de uma das coordenadoras de um estudo internacional de referência, o Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde, realizado a cada quatro anos. A análise tem vindo a mostrar um aumento continuado dos adolescentes que se dizem pressionados para terem bons resultados, que consideram que a matéria é muita, aborrecida, inútil, que a avaliação é um stress e as aulas demasiado grandes.

A OCDE defende no seu relatório que a IA generativa “tem potencial para transformar a qualidade e a eficácia da aprendizagem”. E para “apoiar os professores”. Mas que, “quando usada como atalho, em vez de ferramenta de aprendizagem, pode substituir o esforço cognitivo e enfraquecer as competências que sustentam a aprendizagem profunda”.

No terreno, os professores, sejam contra ou a favor, estão a sentir-se obrigados a mudar a forma como dão aulas e avaliam. Que sentido faz mandar trabalhos para casa que possam ser escritos “às escondidas” pelo Copilot? Ou o que fazer, como também nos relatou um professor, quando um aluno numa aula decide “humilhar” quem está ali para o ensinar, fazendo-lhe perguntas geradas por um chatbot, só com um objectivo: provar-lhe que não “sabe”.

Este é também um momento de indefinição, com muitas experiências em curso mas também muita improvisação, sem regulamentação, sem reflexão, sem literacia digital suficiente, nem de alunos, nem de professores, nem de encarregados de educação. Num contexto em que, como diz a OCDE (organização que dificilmente pode ser acusada de ser avessa à inovação tecnológica), os riscos do uso da IA na educação têm de ser “cuidadosamente geridos”.

Vários estudos citados evidenciam que quem pede à IA que lhe faça os trabalhos propostos pelos professores consegue ter notas mais altas nesses trabalhos. O problema (um dos) é que quando tem de fazer uma apresentação oral, ou um teste sem consulta, se sai bem pior do que os outros.

O "vício de trabalhar para a nota" tem os dias contados?
A conclusão que a OCDE destaca é esta: quando usadas de forma pedagógica, as ferramentas de IA “generalistas” podem funcionar como apoio aos alunos. Essencial é que os professores desenvolvam competências pedagógicas que as integrem no ensino e nas tarefas que propõem. Incentivem a autonomia dos estudantes. E “dêem ênfase ao processo — como os alunos pensam e aprendem — em vez de ao produto final”.


Além disso, várias experiências apontam para um impacto muito mais positivo nas aprendizagens quando se usam ferramentas de IA especificamente criadas para serem usadas em contexto escolar (que não promovem a chamada "preguiça metacognitiva") do que outras. “A educação deve ir além dos chatbots genéricos e avançar para ferramentas especificamente concebidas para fins educativos.”

Nesta discussão, os portugueses até se revelam dos mais optimistas da União Europeia: 25% (16% na UE) consideram que “a IA pode melhorar o ensino e a aprendizagem” pelo que “a comunidade educativa não deve ter receio de fazer experiências com ela”, segundo um Eurobarómetro divulgado no ano passado pela Comisão Europeia.

Mas a posição dominante é mesmo de expectativa: “A IA pode beneficiar e trazer riscos ao ensino e à aprendizagem, a comunidade educativa deve aferir e explorar ambos”, é uma frase com a qual se identificam 52% dos portugueses (a média na UE é de 54%).

Apenas 16% defendem que “a IA não pertence à sala de aula”. Essa é a convicção de 22% dos inquiridos na União.

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