Ora bem, uma coisa é ser Licenciado(a), Mestre(a) ou Doutor(a) e ter um percurso académico de excelência reconhecido pelos seus pares; outra, bem diferente, é associar qualquer formação a dois campos de relevante interesse: uma visão da complexidade multidisciplinar do futuro; simultaneamente, uma capacidade para, politicamente, antecipá-lo, planeá-lo e executá-lo com convicção e determinação. Combinar a formação com a concretização no contexto da governação, não é fácil, eu sei. Um dia, um distinto Colega, qual metáfora, disse-me que, com esta minha leitura assente na exigência, no rigor e na responsabilidade, melhor seria eu "ir a uma olaria"! Pois, percebi e percebo a dificuldade.

Só que há aqui um princípio básico que sempre considerei de enorme relevância. É que só se deve aceitar um lugar de gestão/administração quando nos sentimos preparados para uma dada função ou missão. Da mesma forma que, a um outro nível de menor exigência, só se deve debater um qualquer assunto quando fazemos um esforço, mesmo que mínimo, para o dominar, pelo menos nas suas traves mestras. Quando isso não acontece, quando a via é a do "achismo", o melhor é assumir que, por alguma razão, temos dois ouvidos e uma boca.
Perfazem, hoje, 15 de Fevereiro, cinco meses de governação da Doutora Elsa Fernandes como Secretária Regional da Educação. Para que fique claro: não a conheço no plano pessoal e nunca nos cruzámos em qualquer situação. Apenas nutro um natural respeito pelo seu percurso e, certamente, competência profissional na área que se especializou. É, portanto, no outro espaço, no da intervenção política, que me foco. Simplesmente porque é responsável pelas características da escola que ainda temos e pelo futuro dos que a frequentam. Ademais, não se trata de uma questão de natureza partidária, mas sim, repito, de responsabilidade política na construção do amanhã.
Passaram-se cinco meses de governação e não detectei uma única situação, uma única ideia que despertasse atenção e me fizesse admitir a existência de um qualquer caminho. Seja ele qual for, mas um caminho, um objectivo: onde estou e onde quero chegar! Assisti a cinco meses de governação "caseira", de algumas visitas a escolas e a palavras que as circunstâncias impõem. Ah, e a uns diálogos com os sindicatos no âmbito da solução de velhíssimos problemas apresentados pelos professores. De resto, um absoluto vazio de ideias, tal como aconteceu na longa governação anterior, cheia de generalidades, de banalidades e silenciamentos, tudo muito administrativo, burocrático e repetitivo. Ora, recorda-nos Georges Santayana (1863/1952), filósofo e poeta, que "aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Isto é, torna-se necessário assumir uma memória histórica, conhecimento e capacidade de análise crítica para evitar a continuidade dos erros.
E se a escola se justifica em função da construção do futuro, esse futuro que se nos apresenta cheio de sinais complexos e paradoxais, que fazem prever o que aí vem, o sistema educativo e quem o interpreta, não pode evidenciar ausência de memória e de visão. Se outro não for o caminho, qualquer arrisca-se a repeti-lo deixando um rasto de uma enorme frustração. Confesso que não fiquei com qualquer esperança quando, há cinco meses, escutei as palavras ditas no decorrer da tomada de posse. Teria sido o momento da mensagem esclarecedora ao que vinha. Passado este tempo, infelizmente, confirma-se a minha continuada desilusão. Este sistema continua a viver na inconsistência do paleio político circunstancial e de tudo o que seja motivo de propaganda que promova a ideia pública que a escola está bem e se recomenda. Aliás, basta ler alguns autores e pensadores de referência, basta uma passagem pelo youtube e assistir a tanto e abundante pensamento, basta ter uma leitura transversal de todos os outros sistemas que interagem com o educativo, basta visitar países e escolas do topo da educação, basta ler as estatísticas, basta escutar o que, genericamente, os alunos pensam da escola que lhes oferecem, basta ter presente os números aterradores dos internamentos em psiquiatria (25% dos alunos do 5º ao 12º ano apresentam, no quadro organizacional deste sistema, um significativo mal-estar psicológico), basta ter presente o que dizem tantos professores que (sobre)vivem em Burnout (70 a 75%) pela pressão angustiante que os leva a se manifestarem: uns dizendo que tomam medicação a mais por causa da escola; outros, que se desejam aposentar, basta um olhar atento para os motivos que conduzem a 6 000 jovens que, por aqui, nem estudam nem trabalham, basta que tenhamos presente que 41% dos jovens diplomados revelam ter apenas competências para ler textos simples e fazer interpretações básicas, basta uma leitura profunda sobre o Mundo, sobre o nosso país, sobre a Região e as inúmeras iliteracias, basta ter consciência das graves limitações na qualificação profissional face às exigências da vida colectiva, enfim, tudo isto, sumariamente, exige pensamento e assertividade de quem assume um cargo político. Quando esse pensamento não existe, transmite-se a ideia do vazio e o político fica, naturalmente, reduzido a mais um de turno. Pelo contrário, precisamos de quem transporte uma mensagem portadora de futuro a qual, na esteira de Michel de Montaigne (1533/1592), assuma que "uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia".
No dia 15 de Setembro de 2025, naquele dia da tomada de posse, deixei
60 perguntas à Senhora Secretária. Questões que me preocupam, que as trago em consequência do que vou lendo, dos Mestres que tive, dos 40 anos de experiência na escola (não uma experiência repetida 40 vezes), dos ambientes de formação, da presença em inúmeros conselhos pedagógicos e até do que restou das minhas sessões enquanto professor assistente no âmbito universitário. Sempre parti do pressuposto que a verdade é múltipla, pois "o erro é um agente construtor do conhecimento" - G. Bachelard. Por isso, o que defendo e assumo constitui o resultado de um continuado estudo, observação e escuta dos professores e alunos. E sendo esta a minha postura, entendo que podem coexistir outros posicionamentos importantes para o debate que urge. Grave é não debater, é fechar-se na "torre de marfim" e negar a necessidade de uma "festa das ideias" que conduza a um caminho, a uma utopia sustentável.
Portanto, o problema da Educação e do desenvolvimento é o de colocarem na liderança dos processos políticos, pessoas que podem ser excelentes na sua actividade profissional, mas que não transportam capacidade acrescentada de como ela deve ser estruturada e como se implementa um sistema de sucesso. Tenhamos presente o caso da Senhora Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral: Doutorada em Direito, Catedrática, Juíza do Tribunal Constitucional e Provedora de Justiça. Todo este respeitadíssimo currículo de nada lhe serviu para Ministra da Administração Interna. Acabou por sair.
Senhora Secretária Regional da Educação, esta Escola que alguns dizem ser inclusiva, tenha presente que começa a ser um factor de exclusão social. De facto, esta escola mata o talento e mata sonho. Ela é castradora do pensamento. E não são as limitações Constitucionais que impedem que o sistema educativo da Madeira não possa ser uma referência nacional e europeia. Rita Bonança, Doutorada em Educação, foi muito clara: “ensina-se para o teste, aprende-se para o teste, vive-se para o teste. E, depois, lamenta-se que os alunos não tenham criatividade, pensamento crítico ou paixão pelo saber". Pense nisto, Senhora Secretária.
Ilustração: Google Imagens.