sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A "Democracia vive de Liberdade e contraditório, não de unanimidade"


"A escrita foi uma forma de resistência. Mas não uma resistência contra pessoas. Foi uma resistência à possibilidade de perder a liberdade de pensar, de me deixar aprisionar pelo ressentimento ou de permitir que acontecimentos exteriores determinassem a minha identidade", disse a Professora Doutora Liliana Rodrigues em entrevista ao DN-Madeira. Se eu tivesse de caracterizá-la, enquanto cidadã, académica ou política, era exactamente na substância e implicações desta frase que me inspiraria. 



Conheço-a há muitos anos, desde a sua adolescência. Mais tarde, muitos anos depois, comungando princípios e valores sociais que nos são caros, cruzámo-nos e consolidámos a nossa Amizade, nessa capacidade de ver o mundo e de interpretar pessoas, circunstâncias e rumos. 

Li a entrevista de ontem, duas páginas de uma narrativa superior que, oxalá, desejo eu, chegue a muitos com responsabilidades nos vários mundos da construção da sociedade. Confesso que me detive numa frase que explica muito dos desacertos com os quais, diariamente, somos confrontados: "(...) a relação entre o conhecimento, formação humana e transformação social". Uma síntese perfeita. De facto, é sensível uma clara ausência de estudo, não aquele rotineiramente programático e sujeito a uma obcecada avaliação escolar, mas daquele "conhecimento poderoso" de que falou o Professor Domingos Fernandes, que induz à observação e reflexão, só possível quando alicerçado numa acrescentada capacidade de pensar, no rigor, na responsabilidade, no fundo, como utilizamos o que se sabe para transformar a vida dos demais. 

Estamos a viver um tempo de enorme complexidade que exigem a presença activa de pessoas como a Professora Liliana Rodrigues. Pessoas que não se deixam "aprisionar", que transportam mundo, embora sejam visadas porque ousam pensar e se expõem. Ora, eu percebo o contexto quando sublinhou: "nunca fui perseguida politicamente". Entendo-o, mas discordo. Sabe, distinta Amiga, há muitas formas de provocar o silêncio, quando o objectivo é o de abrir a estrada subterrânea dos interesses pessoais. E neste quadro, roubando-lhe a tribuna, obviamente que foi perseguida e silenciada! Mas com isso, tenho a certeza que convive bem. O seu percurso académico até à Cátedra explica as razões de "nunca ter abdicado de si própria". De resto, a História narrará a mediocridade e enaltecerá os valores desperdiçados na lógica da "transformação social", preocupação central do seu pensamento.

Parabéns pelo seu novo livro, que será hoje apresentado, porque a "Democracia vive de Liberdade e contraditório, não de unanimidade". 

Ilustração: DN- Madeira