quarta-feira, 22 de maio de 2019

Há que desmantelar o Ensino Básico e reerguê-lo


As editoras não brincam em serviço. Nem aquelas empresas que vendem "salas de aula do futuro". Descoberta a falta de visão e a fragilidade conceptual, o quadro é logo aproveitado para o negócio. Sempre foi assim em qualquer sector de actividade. Procurar alternativas, discuti-las, contextualizá-las para definir um paradigma para o sistema educativo, sério, consistente, duradouro, que vá para além de uma legislatura, dá muito trabalho. Por isso, há sempre quem venda sonhos e quem esteja disponível para comprar, por vezes, gato por lebre. Os que saltam para o palco, falam, enfeitam com cores mil os seus produtos e vendem, cumprem os desígnios empresariais; os que compram, sentem-se bem com isso, porque, no plano mediático, dão a entender que laboram imenso por uma causa. Para o quase nada, digo eu!


Porém, se perguntarmos aos que compram quais são os princípios orientadores da sua acção, para onde pretendem conduzir um determinado processo, qual é a sua visão a oito, doze ou dezasseis anos, talvez não saibam explicá-los. Convicto estou que, de tanto se falar e de apontar a mudança como absolutamente necessária, porque há muitos anos reclamada, eu diria que pegam de empurrão e lá aparecem, embora com alguma desconfiança, a percorrer um caminho, neste caso, o da tecnologia ao serviço da aprendizagem. 
Todavia, o problema é muito mais complexo e não pode ser analisado, apenas, através de uma variável, a dos "manuais digitais". Se me questionarem: mas não será melhor? Responderei: obviamente que as dinâmicas de aprendizagem podem ser diferentes. Só que isso afigura-se-me muito redutor quando a finalidade, no essencial, pela cultura existente, por mais que exprimam o contrário, é a de replicar, travestir e enfeitar o manual de papel. Entendo, por isso, que a estratégia para o conhecimento necessita de uma abordagem muito mais profunda e, porque é complexa, deve ser analisada de uma forma global e transversalmente integrada. Mexer, apenas, em uma das variáveis conduzirá a que o sistema nunca obtenha resultados proporcionais ao investimento. 

Aliás,  o busílis da questão está aí. Interessante e importante seria que o secretário regional da Educação apresentasse, publicamente, o desenho do que pretende, os pressupostos, a conjugação das várias etapas do processo, a interligação entre sistemas e as fases específicas dentro do próprio sistema, os posicionamentos estruturais relativamente a tudo, de onde se percebessem as respectivas dinâmicas, de curto, médio e de longo prazo. Não assisto, e esta não é uma questão de somenos importância, a qualquer preocupação em discutir as limitações da Autonomia ou como contorná-las, em avançar com a preparação de uma futura revisão Constitucional no quadro ambicioso de um País e três sistemas educativos, tampouco preocupações em, paulatinamente, desmantelar e reerguer o Ensino Básico sob os desígnios de uma nova mentalidade, onde o CONHECIMENTO, por via da CURIOSIDADE, rompa com as penosas rotinas "pedagógicas", com os conceitos de aula e de turma, currículos desarticulados, programas minuciosos sem tradução na vida real, rompa com estruturas organizacionais caducas, infindáveis burocracias, sistemas de avaliação abstrusos, balofa meritocracia, obsessão pelos exames, subserviências sem fim, professores que ao invés de moderadores da aprendizagem, são impelidos a falar, falar muito, roubando ou matando o acto fecundante da descoberta. 

Quando tudo isto e muito mais não acontece, consolida-se a ideia que tudo não passa de disparos pontuais no quadro de uma "moda" e não como questões centrais e vitais. Parece-me óbvio que não basta falar de "nativos digitais", expressão muitas vezes metida a martelo no discurso político, porque, relembro Tony Bates (ex-vice-presidente executivo da Microsoft: "(...) o bom ensino supera uma escolha tecnológica pobre, mas a tecnologia nunca salvará o mau ensino". Por isso, como já aqui salientei em uma outra reflexão, não basta multiplicar as salas de informática ou substituir o quadro preto e o giz por quadros interactivos e multicolores. De nada valerá, qual metáfora, utilizar a tecnologia de hoje como substituição dos antigos acetatos copiados do manual. 
A propósito, regresso a Carl Rogers (1902/1987) que sintetizou tudo isto em uma frase que transporto em memória: "ensinar é mais que transmitir conhecimento – é despertar a curiosidade, é instigar o desejo de ir além do conhecido. É desafiar a pessoa a confiar em si mesma e dar um novo passo em busca de mais. É educar para a vida e para novos relacionamentos". Educar implica, pois, desde logo, criar um alicerce, que não se compagina com memorizações para esquecer, testes à procura do que não sabem, antes implica saber esperar pelo momento do despertar e das opções pessoais. 
Ora bem, embora louváveis todas as iniciativas, sob a forma de conferências, jornadas ou seminários, se o olhar ficar pelas margens e não no âmago dos assuntos, onde se entrecruza uma complexa teia de factores, tarde ou cedo, faltará sempre qualquer coisa ou muita coisa, o que significará que o sistema, tendencial e repetidamente, não passará da fase de arranque. Quando não existe uma ideia para o sistema ou as ideias surgem de forma avulsa, fica claro que tudo se resume a uma corrida conforme as pressões externas e/ou a necessidade de, politicamente, aparecer. A inexistência de um um fio condutor que integre todas as variáveis, só promove picos de entusiasmo e páginas da comunicação social.  
Portanto, falta ao sistema educativo, mais do que "manuais digitais", a capacidade de ver longe, falta ESTUDO, falta utopia e uma estruturada paciência e capacidade de integração das partes no todo. Falta ir ver como resultaram as experiências de sucesso; falta saber ouvir e ler; falta pensamento para uma firme actuação a montante da escola; falta acreditar que a centralização e a padronização constituem barreiras bloqueadoras do conhecimento; falta abrir o sistema à liberdade das escolas se organizarem de forma distintiva; falta acreditar que é fácil preparar para provas de exame e muito mais difícil preparar para a vida e que esta segunda dimensão deve prevalecer. Falta acreditar que a Matemática ou o Português não são mais importantes que a educação artística ou outras áreas de expressão; falta ter como bandeira que a escola deve transmitir aquilo que seja útil para a vida real e que cada aluno deve "pegar naquilo que lhe convém" (...) porque "não podemos dizer que tudo convém a todos" - Filósofo Gilles Deleuze (complicado, não é?). Falta transformar a Educação em uma grande mesa de diálogo. Falta CULTURA e uma outra cultura obsessiva pelo aluno, incutindo-lhe confiança e interesse. Falta uma mentalidade que individualize, com rigor, geradora de "uma escola por aluno", enfim, falta CORAGEM e seriedade. E isso, os "manuais digitais" não resolvem!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Leiam, pensem e, se concordarem, ASSINEM!


Será que o medo anda por aí entre os professores e educadores? Estarei enganado? Talvez não. Parece-me que a classe está, não diria em coma, mas adormecida. Pelo menos na Região Autónoma da Madeira, consequência de muitos anos de intolerâncias, de subtis perseguições, de abusos de poder, de controlo sobre as direcções das escolas, de uma intencional burocracia que traz acoplada a intenção de os manter em rédea curta, desviando de outras preocupações mais sérias. A classe anda cheia até ao pescoço, mas vive, em silêncio, a engrenagem.


Vem isto a propósito de uma clara ausência de solidariedade perante a VERGONHA de um processo disciplinar instaurado ao Professor Joaquim José Sousa que levou a uma inaudita suspensão por seis meses, o que equivale retirar da sua carteira cerca de € 11.000,00. Uma família foi, miseravelmente, visada. E perante isto, face a uma Petição Pública que está na Internet, segundo julgo saber, criada por pessoas fora da Região (interessante), até agora, só 240 pessoas assinaram o documento. https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=JJSousaCurralFreiras
Na Madeira trabalham mais de seis mil professores, mais de metade estão sindicalizados, portanto, das duas, uma, ou desconhecem a petição e, sendo assim, este texto não tem sentido, ou fica claro o receio, pois sabendo, pensarão, outros que assinem. 
Seja como for, porque há mais professores sob os holofotes dessa tal "inspecção", que de escola pouco ou nada sabe, e não apenas por isso, porque, amanhã, outros poderão ser os visados, convido a entrarem no sítio acima indicado, lerem a justificação e, se estiverem de acordo, assinarem. Simples. Porque lá diz a sabedoria popular: "quem muito se abaixa o rabo aparece". 
Eu já assinei, simplesmente porque me revolta a INJUSTIÇA. Sou aposentado, mas não deixei de ser  um cidadão que exerceu a docência.
Adianto que não gosto da palavra PETIÇÃO. Parece que se está a pedir clemência. E não é disso que se trata. A petição é um instrumento ao dispor dos cidadãos para que se olhe para um caso que nos revolta. Vamos a isso, caros Colegas e cidadãos em geral.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 19 de maio de 2019

O sistema educativo é muito mais que pianos e xilofones!


Não me deixa irritado, longe disso, mas deixa-me preocupado quando alguém mascara a realidade, ainda por cima deixando pontas soltas, pensando que outros, como alguém referiu, "são parvos ou andam a tirar documentos para estúpidos". Isto a propósito do "Estado da Educação na Madeira", onde o secretário regional tentou, em vão, desfazer (!) "três equívocos recorrentes" derivadas de "percepções incorrectas sobre o abandono escolar, o rendimento dos alunos e o número de licenciados (...)". Face a alguns dados estatísticos apresentados, em função de uma Região Autónoma, dotada de órgãos de governo próprio, com um poder político ininterrupto há 43 anos (estabilidade, dizem), com um número de alunos limitado em função do universo da população, questiona-se, como são possíveis tantas e significativas fragilidades? Como justificar o desencanto?


Uma intervenção que, no essencial, não trouxe rigorosamente nada de novo, no sentido de perceber-se uma ideia, pelo menos uma, mesmo que genérica, para o sector educativo. Fez-me lembrar a velhinha história da mãe de um recruta que, no dia do juramento de bandeira, levando o filho o passo trocado, aos seus olhos, todos os outros do pelotão marchavam de forma incorrecta! Reforcei ainda mais esta ideia, quando li o seu pedido por uma "avaliação rigorosa ao sistema educativo da Madeira". Todos os outros, professores, universitários, investigadores, pensadores e autores, aos olhos do político é que marcham de forma errada. Aliás, obviamente, não era crível que viesse testemunhar as fragilidades, porque o exercício de uma certa política favorece a cegueira, o que impede ser verdadeiro e visionário, eu sei, mas seria honesto que justificasse, politicamente, as suas opções, mesmo com "o passo trocado" aos olhos de outros, relativamente ao que se espera de um processo educativo integrado, desde as políticas de família até ao sistema organizacional, curricular, programático e pedagógico.
O que tem acontecido, isso sim, pegando nas suas próprias palavras, que se voltam contra si, têm sido sucessivos "equívocos recorrentes" de uma hierarquia política que se especializou em processos burocráticos, que o digam os professores, castradora da liberdade e do pensamento crítico, com tiques e atitudes de quero, posso e mando, facilmente provado através da perseguição e da imposição da subserviência, quando, no quadro do sistema, alguns tentam fazer mais e melhor. O que resta deste sistema é a centralização, a maximização e a padronização, algumas das características definidoras da Sociedade Industrial, atributos absolutamente desencontrados do tempo que estamos a viver.

Hoje, infelizmente, continua a não ser possível falar-se de estabelecimentos de aprendizagem. Fala-se de estabelecimentos de ensino. E isso faz toda a diferença, na mentalidade e na forma como se aborda a Educação, como deve ser pensada e gizada para este tempo de conflito entre o velho e o novo. É por isso que assistimos a posicionamentos "esquizofrénicos", pois ora falam de robotização esquecendo outros patamares primeiros, ora de "salas do futuro" (para poucos) esquecendo-se da paulatina transformação da arquitectura dos edifícios escolares, ora falam de uma inexplicável opção pelos "manuais digitais". Neste caso, tendencialmente, pretendem deixar o manual em papel para dar lugar à utilização do "tablet". Ora, se a internet está aí para quê o manual? O "tablet" deve servir para muitas outras coisas e não para replicar os manuais com alguns enfeites que pouco adiantam! 

Por outro lado, intencionalmente, porque não sabem ou porque não desejam, passam ao lado de uma actuação a montante, no sentido da mudança de mentalidade no seio das famílias, contornam a pobreza estrutural que se reflecte na escola e não ligam pevide, também, a uma nova organização da sociedade. O sistema para ser eficaz não pode estar desligado dos outros sistemas. Tem de interagir. A abordagem tem de ser transversal e integrada. E neste processo até se esquecem da autonomia dos estabelecimentos, porque denotam medo em facultar aos professores a capacidade de se organizarem de forma diferenciada. Preferem a uniformização à necessária variabilidade; preferem o controlo à inovação. 
Ora, o sistema é muito mais que taxas e estatísticas. Não sobrevive com máscaras nem com leituras estatísticas onde cada um extrai e enaltece, embora de forma pobre, o que lhe interessa em um determinado momento. Aos políticos pedem-se ideias portadoras de futuro, pede-se pensamento estrutural, pede-se que sejam prospectivos e pede-se que saibam para onde caminham. O sistema está esgotado e quando seria espectável, da parte do presidente do governo, uma posição marcando a diferença, eis que, ainda ontem, veio dizer que "não está aqui para brincar à política nem aos partidos" porque "não há tempo para politicadas (...)". Pois é, senhor Presidente, é exactamente isso que há muito acontece, politiquices e "politicadas". O sistema, saiba, é muito mais que pianos e xilofones!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

As crianças gostam que a escola goste delas. E nós gostamos que elas “fujam” para a escola!


A escola pode ser mais bonita, mais aconchegante e mais acolhedora! Pode ser séria e exigente, mais amiga do entusiasmo e divertida. Pode ser uma escola comprometida com a troca de ideias, mais centrada na sabedoria com que as crianças lá chegam e mais empenhada com a utilidade e a versatilidade dos conhecimentos com que de lá saem. E pode ser mais atenta ao seu corpo, à sua imaginação prodigiosa, à sensibilidade com que interpretam e à forma como intuem antes, ainda, de perceberem.

A escola vai ter de se reinventar: dos tempos de escola aos manuais escolares. Do modo como avalia aos métodos com que ensina e dá a conhecer. Da forma como prepara para a vida e como transforma em instrumentos úteis as pequenas coisas, aparentemente, insignificantes, que se aprendem todos os dias, quase sem querer.
A escola pode ser mais bonita. E é por isso que estamos tão determinados em transformá-la. Com boas ideias, com novas formas de a vivermos e com pequenos projetos que impliquem os pais e a escola numa parceria de pessoas que se confiem à construção de crianças sábias, humildes, com garra e com paixão, mas que sejam, sobretudo, pessoas melhores. É por isso que ansiamos por uma escola que escute; mais atenta aos interesses das crianças, desde o recreio à sala de aulas. E que as ajude a pensar, a discorrer e a escolher. E é, ainda, por isso que trabalhamos para que as crianças se tornem mais comprometidas, melhor educadas e mais civilizadas. Mais implicadas com o mundo à sua volta e mais solidárias. E mais convictas na forma como, todas juntas, conquistarão para a escola, todos os dias, um rosto mais humano.
É por isso que todos nós acreditamos que com a ESCOLA AMIGA DA CRIANÇA se iniciou uma “revolução tranquila” que, com a ajuda de todos, mudará a escola e transformará a educação. Com os pais, através da Confederação das Associações de Pais, reclamando para si o desafio de se ligarem à escola para que ela se ligue, mais e melhor, a tudo aquilo que leve a que os seus filhos cresçam melhor. Com a LeYa, traduzindo em compromisso social o reconhecimento pela confiança que tem merecido pela produção de conteúdos amigos do conhecimento e antecipando, com arrojo, as transformações que, desde já, a escola está a fazer para que o futuro comece hoje mesmo. E com todos os professores, como pessoas preciosas que vão de estranhos ou desconhecidos a pessoas insubstituíveis e da família, no espaço de alguns meses. Todos juntos, a construir uma escola onde conhecimento e humanidade se entrelacem mais e mais, todos os dias.
As crianças gostam que a escola goste delas. E nós gostamos que elas “fujam” para a escola! É por isso que as crianças agradecem a todos os pais e a todas as escolas que aceitaram juntar-se a este projeto! E ficarão, sobretudo, muito reconhecidas se, na segunda edição da ESCOLA AMIGA DA CRIANÇA, fizerem parte daqueles que sonham e trabalham por uma escola que ligue família, educação e mundo como uma ponte, irrequieta, para o futuro. Fazendo - todos juntos, todos os dias, de forma melhor - uma ESCOLA AMIGA DA CRIANÇA.

Psicólogo

segunda-feira, 6 de maio de 2019

NÃO ÀS NOTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA PARA A MÉDIA DE ACESSO AO ENSINO SUPERIOR


FACTO

Publicado no Expresso: "No Externado Ribadouro quase todos os alunos de nove turmas tiveram 19 valores ou mais a Educação Física. A Inspecção já está a investigar e o tema da inflacção de notas voltou à ordem do dia. Como controlar as classificações nas disciplinas onde não há exames" - Jornalista Isabel Leiria.

COMENTÁRIO

Desde sempre que assumo um posicionamento que, em síntese, se baseia na minha profunda convicção que a disciplina de Educação Física NÃO deve contar para a média de acesso ao ensino superior. O último artigo que escrevi sobre esta matéria foi, salvo erro, a 15 de Junho de 2012. Essa publicação, sublinho, foi a única vez que estive de acordo com o Ministro Nuno Crato, surgiu a propósito das notas deixarem de contar para a média. Agora, os alunos têm mais essa disciplina para "fazer contas". Deixo aqui esse artigo.

SÍNTESE

"Ao contrário de procurar a igualdade com as outras disciplinas, o professor de Educação Desportiva deveria procurar a diferença. Simplesmente porque os graus académicos de formação sendo iguais (Licenciatura, Mestrado e Doutoramento) a sua prática é substancialmente diferente. De resto, não há Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo ou da Europa de Português, de Ciências ou de História. Mas eles existem no desporto, plenos de beleza estética, de festa, de superação individual e que impelem e influenciam uma prática a qualquer nível. Sendo assim, enquanto uma bola saltitar frente aos olhos de um jovem, jamais alguém precisará de, muitas vezes, “castigar” os alunos com sistemas retrógrados de avaliação, pelo facto da dita bola, volto a ironizar, por um desajeitado pontapé, não ter entrado na baliza, no quadro dos superiores objectivos definidos na complexa Unidade Didáctico-pedagógica. Pois bem, "morra" a Educação Física que hoje constitui uma monumental fraude e viva a Educação Desportiva Curricular.

TEXTO COMPLETO

Provavelmente, a partir do próximo ano lectivo, a nota de Educação Física deixará de contar para a média do aluno no que concerne ao acesso ao ensino superior. A notícia, citando fontes do Ministério da Educação, foi hoje publicada no jornal PÚBLICO. Desde sempre entendi que tal não fazia sentido, pelo que aprovo esta medida. E vou mais longe, nem deveria contar para a média de curso. E cheguei a publicar, em livro, em 2004, exactamente no Ano Europeu da Educação pelo Desporto, definido pela União Europeia. De qualquer forma trata-se de um assunto que levantará muita celeuma entre os profissionais de Educação Física. Deixo aqui uma parte do texto que consta do citado livro publicado.
"Joana [1] teve uma mão cheia de cincos mas, na Educação Física, o nível foi um três “muito fraquinho”; Francisco precisou que outros professores votassem o nível de Educação Física para entrar no quadro de honra da escola; José obteve nível dois porque é um “desajeitado, coitado!”; Fernando, porque é obeso e descoordenado, viu um implacável dois na pauta; Teresa, idem, porque não “não gosta” e conheço o caso da Luísa, estudante de nível cinco, de excelentes predicados nas atitudes e valores, esguia, flexível, de uma grande disponibilidade corporal, expoente no ballet que pratica quase diariamente mas, ironizo eu, certamente porque, em três meses de futebol, não conseguiu acertar com a baliza ou porque teve um teste fraco, também não foi além do três. Ao lado destes casos, entre muitos que me chegam ao conhecimento, há também o daquela turma que, recentemente, registou cerca de 80% de negativas em Educação Física. Ao fim e ao cabo, situações que dão para pensar sobre o fundamentalismo, dito pedagógico, que por aí anda, desvirtuador da vocação primeira desta disciplina curricular e provocador de um enorme rasto de frustração. 
Ora, é por estas e múltiplas outras razões que defendo, há muitos anos, a morte da Educação Física e o nascimento da área curricular denominada por Educação Desportiva que se abrigue, inclusive, num quadro científico mais vasto e sustentado. Razão tem, pois, o Doutor Manuel Sérgio, ele, um filósofo, que melhor que ninguém neste país sabe interpretar e sintetizar as correntes filosóficas, sociais e o pensamento pedagógico ao longo dos tempos, ao assumir que: “(...) nem científica nem pedagogicamente existe qualquer educação de físicos (...) que a expressão Educação Física se acha incrustada numa ambiência social onde o estudo desta matéria não é conhecido (...) e que a Educação Física deve morrer o mais rapidamente possível para surgir em seu lugar uma nova área científica que mereça dos homens de ciência credibilidade, respeito e admiração” (O DESPORTO Madeira, 27.06.03) [2]. 
Trata-se, de facto, de uma luta contra um poderoso lobi corporativista, obsoleto e medíocre, entrincheirado nas universidades e em posições estratégicas de decisão política, que não consegue entender que as respostas encontradas nos anos 30 e melhoradas a partir da década de 70 já não se adequam, por um lado, ao actual conhecimento científico, por outro, às expectativas que o desenvolvimento determinou. Daí que não me espante nem me cause qualquer embaraço que aqueles que consideram que a mudança de paradigma terá de ser operada, sejam muitas vezes visados com graves dislates os quais, penso eu, não são mais do que o estertor de quem perdeu todos os argumentos e, naturalmente, sente que os alunos, paulatinamente, os das universidades e outros de idades mais jovens, estão a lhes voltar as costas, por sentirem que há um mundo novo de possibilidades de prática que não se restringe ao espaço de uma Educação Física bafienta, repetitiva e sem futuro [3]. 
Não compreendem, nem fazem um esforço por compreender, que a razão da existência de professores está hoje determinada pela necessidade de educar através do desporto e que isso implica, necessariamente, a mudança organizacional dos estabelecimentos de ensino, a completa ruptura com os actuais programas, melhor e mais adequada formação universitária dos futuros docentes, formação permanente e a assunção de uma nova mentalidade pedagógica. Metaforicamente, costumo sublinhar, basta de sopa fria, igual para todos e repetidamente servida. Ofereça-se, pois, o doce mais apetecido: a prática educativa do desporto [4], no pleno respeito pelas diferenças de ambos os sexos e pela segmentação de interesses que existem no meio escolar. Não está, portanto, em causa, beliscar a importância desta área obrigatória dos diversos currículos. Pelo contrário, o que está em causa é, através da mudança, ir ao encontro dos jovens, formando-os com princípios e valores para a vida, possibilitando, inclusive, o inegável direito à excelência através do Desporto Escolar [5]. A própria União Europeia percebeu que a via portadora de futuro é esta, não sendo por acaso que 2004 constituiu o “Ano Europeu da Educação pelo Desporto”. 
Ainda sobre as notas ou níveis que se atribuem aos alunos, eu diria que um professor não se afirma (se se trata de uma afirmação no contexto das restantes disciplinas) no seu mister por essa via. Afirma-se pelo estudo, pela capacidade cultural e crítica, pelo conhecimento, pela qualidade, pela capacidade de resposta aos interesses dos educandos, pelas dinâmicas que é capaz de operar no espaço escolar e pelo gosto que desperta, neste caso, por uma prática desportiva regular. Ao contrário de procurar a igualdade com as outras disciplinas, o professor de Educação Desportiva deveria procurar a diferença. Simplesmente porque os graus académicos de formação sendo iguais (Licenciatura, Mestrado e Doutoramento) a sua prática é substancialmente diferente. De resto, não há Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo ou da Europa de Português, de Ciências ou de História. Mas eles existem no desporto, plenos de beleza estética, de festa, de superação individual e que impelem e influenciam uma prática a qualquer nível. Sendo assim, enquanto uma bola saltitar frente aos olhos de um jovem, jamais alguém precisará de, muitas vezes, “castigar” os alunos com sistemas retrógrados de avaliação, pelo facto da dita bola, volto a ironizar, por um desajeitado pontapé, não ter entrado na baliza, no quadro dos superiores objectivos definidos na complexa Unidade Didáctico-pedagógica. Pois bem, morra a Educação Física [6] que hoje constitui uma monumental fraude e viva a Educação Desportiva Curricular [7]. 
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Todos os nomes são fictícios. 
[2] É no quadro da Ciência da Motricidade Humana que o filósofo fala de “uma nova Renascença, de uma época de construção de novas ciências, que procura encontrar a teoria da prática dos professores de Educação Física. Que (…) há que compreender como Heidegger, que existir humanamente é ser tempo. De facto, tudo é tempo e a Educação Física já teve o seu” – Manuel Sérgio, Da Educação Física à Motricidade Humana (2002). 
[3] (…) Esse estado dá hoje muito que pensar. Com efeito a análise dos dados levantados por várias investigações, bem como as declarações e tomadas de posição de organizações internacionais tornam evidente que esta área disciplinar vive, desde há alguns anos, uma crise sem precedentes na sua história. Esta crise traduz-se num declínio acentuado do seu estatuto, em reduções de tempo no horário escolar, em inadequação de recursos materiais e pessoais, em erosão dos padrões de qualidade e profissionalismo (…) Mas... como configura a Educação Física as suas relações com o corpo e com o desporto? Como é possível que a Educação Física esteja em crise, se o desporto nunca viveu uma fase de tamanha expansão e crescimento e se estamos a assistir a uma conjuntura corporal, a um regresso festivo do corpo trazido pela valorização da imagem, da estética e dos estilos de vida? Como é possível tal crise, se vivemos numa sociedade que nos ensina a valorizar o corpo como nenhuma outra antes dela e se já entrámos numa era que se funda não mais no trabalho, mas antes no lazer e no ócio criativo e em que será cada vez mais nestas referências que se firmará a nova identidade do indivíduo? Estas perguntas encaminham-nos para a necessidade de reconstruir a educação física à luz de novas e actuais premissas. (…) Para manter a sua presença no sistema educativo a área da Educação Física precisa de renovar argumentos que reforcem a sua real importância. E carece de agregar forças capazes de sustentarem que ela é parte genuína e indispensável da educação. Para tanto deverá começar por lançar pontes de cooperação entre a escola e o envolvimento familiar. – Olímpio Bento, Da Educação Física ao Alto Rendimento, pág. 79 e seg.. 
[4] Salienta o Doutor Gustavo Pires no livro Desporto e Política – Paradoxos e Realidades, pág. 352 e 353: “(…) O sistema de valores, os símbolos, a estética, o espaço e a estrutura do tempo são portadores de novas ideias e pensamentos que devem originar outras soluções organizacionais quando se trata de organizar actividades lúdicas, culturais, recreativas e formativas, em ambiente escolar. (…) Defender a Educação Física não é, por isso, insistir nos modelos e nas soluções do passado. Defender a Educação Física é sermos capazes de encontrar soluções de acordo com as realidades do nosso tempo. Numa dinâmica de futuro. E o futuro é o ensino do desporto”. 
[5] No livro Da Educação Física à Motricidade Humana (2002), editado pelo O Desporto Madeira, pode ler-se na pág. 36 a seguinte passagem do Doutor Olímpio Bento: “(…) é, portanto, curial reconstruir esta área à luz de um lema como este: “escolarizar o desporto – desportivizar a escola e a vida”. Mas atenção, como também salienta o Doutor Manuel Sérgio, desportivizar a escola e a vida num projecto que combata uma prática que constitui “uma das grandes alienações do nosso tempo”. Isto é, “para além do desenvolvimento desportivo, é preciso criar um desporto ao serviço do desenvolvimento”. E a Escola, neste aspecto, é determinante essencialmente porque é futuro. 
[6] Do livro Motricidade Humana, do Doutor Manuel Sérgio, pág. 82, cito: “(…) O trabalho prático e teórico (há-de ser sempre as duas coisas simultaneamente) ao nível da motricidade humana, exige uma visão complexa do Homem, da Natureza, da Sociedade e da História; espírito crítico designadamente em relação à própria profissão, descomprometimento com os grandes interesses partidários e empresariais; consciência da dignidade humana; capacidade de intervenção, principalmente através das ideias, na vida política nacional; informação e formação permanentes, quer no plano da preparação científica e pedagógica quer no da articulação prática-teoria; vivacidade de espírito e curiosidade constante em relação ao processo evolutivo da sociedade e da cultura – e não é tudo isto o que se entende por intelectual?”. E adianta: “Um homem é, a meu ver, como um cristal em movimento. Mede-se, acima de tudo, pelo número de faces iluminadas. O mesmo se aplica ao profissional da motricidade humana”. 
[7] Em 1999 foi divulgado um relatório conduzido por K. Hardeman, da Universidade de Manchester, patrocinado pelo Conselho Internacional de Ciências do Desporto e Educação Física e suportado pelo Comité Internacional Olímpico, que teve por objectivo investigar a situação mundial da Educação Física. As respostas ao questionário, aplicado em 126 países, alertou para o facto da Educação Física se encontrar numa profunda crise de identidade e de credibilidade social.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Nem chumbar, nem passar. Nesta escola, a única alternativa é aprender


Quando for grande, a Laura bem pode ser a diretora desta escola. Tem 7 anos, está no 2.º ano e é mais desembaraçada do que muitos miúdos de 12. Com um brilho nos olhos, pergunta-nos se queremos fazer uma visita guiada pela Escola Básica de Fonte Santa, no agrupamento da Marinha Grande Poente. A resposta é afirmativa e Laura, vestindo a pele de anfitriã, mostra-nos tudo: o refeitório, a sala do pré-escolar, o sítio onde trocam os sapatos da rua pelas socas, os recantos do recreio, a horta do 1.º ciclo, a árvore onde costuma apanhar amoras — “Ou eram framboesas?” — e a sala da CAF. Não hesita quando lhe perguntamos o que quer dizer a sigla. “É a Componente de Apoio à Família, onde ficam as crianças até os pais as puderem vir buscar.”

O que vimos antes desta visita guiada, na escola que fica à beira de um pinhal, tem todos os ingredientes para ser uma receita de insucesso escolar. Antes do recreio, Laura partilhou uma sala de aula com mais 34 alunos, numa turma com crianças do 1.º ao 4.º ano. Na teoria, o cenário soa a péssimo. Na prática, não podia funcionar melhor. As estatísticas confirmam: por aqui, os chumbos são residuais e, garantem-nos os três professores permanentes daquela sala, isso só é possível porque as crianças, de facto, aprendem.
A Fonte Santa é uma das 10 escolas da Marinha Grande Poente, um dos sete agrupamentos do Projeto Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP), que, atualmente, tem 2800 alunos distribuídos entre a educação pré-escolar e o 12.º ano. Com esta experiência, um dos objetivos do Ministério da Educação é perceber se é possível chegar à taxa de retenção zero, como explicou o secretário de Estado da Educação ao Observador, João Costa, em dezembro passado. A alternativa a chumbar tem de ser sempre aprender e nunca uma subida artificial das notas. Mas para isso é preciso inovar e apostar na criatividade porque participar no projeto deu 100% de autonomia à escola, mas nem um recurso a mais.

“Aqui nunca pusemos a questão da retenção em cima da mesa, nunca me pareceu que fosse isso o fulcral. A nossa grande preocupação era a qualidade das aprendizagens dos alunos. A alternativa a chumbar tinha de ser aprender”, explica o diretor do agrupamento, Cesário Silva.

Os resultados estão à vista: “No último ano, no 1.º ciclo, houve sete retenções entre os cerca de 530 alunos. Em alguns casos, tivemos de perceber se a retenção significava um momento de aprendizagem, por exemplo, para alunos estrangeiros e para miúdos condicionais que entraram para a escola com 5 anos… No 2.º ciclo, tivemos apenas uma retenção em 350 alunos. No 3.º ciclo, ficámos nos 2%. E, praticamente, não temos abandono. Mas se me perguntar se fazemos o pino para os miúdos aprenderem, garanto-lhe que fazemos”, argumenta Cesário Silva.
Apresentada como “o problema mais grave do sistema de ensino em Portugal”, em 2015, a retenção dos alunos tem estado sempre no topo dos discursos de vários ministros da Educação. Naquele mesmo ano, o país estava no top 3 dos que mais chumbam na OCDE — sobretudo entre os alunos com mais dificuldades económicas e sociais. Todos concordam que é um erro simplesmente deixar passar os alunos, de forma administrativa. Mas é difícil encontrar a forma certa de conseguir que nenhum aluno tenha de reprovar, simplesmente porque aprendeu.

“Não é combater o insucesso, é promover o sucesso”

Quando começaram a olhar para o problema dos chumbos no agrupamento, onde, conta Cesário Silva, tanto andam os filhos dos operários das fábricas como os dos grandes industriais do concelho, perceberam que as soluções que ofereciam não passavam de remendos. “Antes de as dez escolas fazerem parte do mesmo agrupamento [em 2013], tínhamos um problema na escola secundária: os alunos chegavam ao 7.º ano com muitas lacunas que podiam ter sido resolvidas antes, de forma precoce. Mas não foram. A nossa atuação acabava por ser sempre remediadora.”
Já há muito tempo que o insucesso escolar preocupava Cesário Silva. Enquanto diretor da escola Secundária Engenheiro Acácio Calazans Duarte, uma escola independente por ser TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária), diminuir os chumbos era uma batalha antiga, que estava a ser ganha. Quando as dez escolas se uniram, e o carimbo TEIP se estendeu a todas, a possibilidade de melhorar aprendizagens interessava a todos, da pré ao secundário.
“Identificamos crianças que, logo no 1.º ano e algumas no pré-escolar, têm problemas. As educadoras queixam-se de que as crianças têm um vocabulário muito limitado e que têm de ser muito estimuladas. A nossa aposta começou aí: na comunicação. A intervenção começa no jardim de infância. Hoje estamos cada vez mais a deixar as medidas de remediação. Já tivemos cursos de formação e educação, já tivemos cursos vocacionais [permitem concluir a escolaridade obrigatória com percursos mais flexíveis] e deixámos de os ter porque não precisamos deles. Já não temos público”, sustenta o diretor.
Mesmo antes de integrarem o PPIP, a convite da Direção Geral de Educação, a retenção era cada vez mais residual, conta Cesário Silva. “Esse trabalho começou em 2013, com a entrada no novo agrupamento. O que fazemos não é combater o insucesso, é promover o sucesso. Combater o insucesso é a atitude remediadora. Não podemos perder sucessivas gerações de jovens porque todos falhámos, porque não estivemos atentos, porque não tínhamos recursos, porque a tutela nunca pensou que prevenir era mais barato e eficaz do que remediar. Sermos TEIP trouxe-nos este foco: detetar problemas, investir e ser criativos para os ultrapassar.”
A criatividade manifestou-se de várias formas. No ensino pré-primário e no 1.º ciclo, a grande aposta é na comunicação, garantindo que as crianças ganham gosto pela leitura e pela escrita, que adquirem vocabulário e são fortes na oralidade. As escolas tornaram-se espaços abertos de aprendizagem, onde os alunos também se ensinam uns aos outros.
“No nosso modelo de organização, o ensino pré-escolar funciona de uma forma deliciosa, são os espaços de maior aprendizagem. É ali que percebo que as nossas crianças são capazes de trabalhar de forma colaborativa, são capazes de negociar, de discutir, de correr riscos — nós, adultos, temos de perceber até onde podem ir e estar na retaguarda para os amparar. Temos salas heterogéneas e isso talvez seja um dos segredos: quando valorizamos a diferença, quando mostramos que aprendemos uns com os outros, as coisas funcionam”, explica o diretor.

Na Fonte Santa, a sala de Laura — e dos outros 34 colegas — tem três professores em permanência. Fernando Emídio, Geraldina Silva e Paula Botas têm turmas atribuídas no papel, mas, no dia a dia, as fronteiras diluem-se. “Aqui não há a minha sala, estamos todos juntos e vamos partilhando”, diz a professora Geraldina, que tanto pode estar a dar um conteúdo de 1.º como de 4.º ano. Da mesma forma, se um aluno do 2.º ano souber tudo o que há a saber sobre uma matéria, não há motivo para não poder avançar e até partilhar o que aprendeu com os mais velhos.

“Administrativamente, temos as turmas atribuídas, temos de ter, mas, na prática, elas não existem. Quando fazemos o grosso da planificação, não sabemos qual de nós vai trabalhar que matéria. Não temos essas tarefas definidas. Tem é de haver uma grande cumplicidade para as coisas funcionarem. Mas não estamos sempre de acordo: é a partir dessa discórdia que conseguimos criar mais alguma coisa, porque vamos descobrindo uns com os outros”, acrescenta Paula.
A turma de 35 alunos tanto pode estar toda junta, como tem momentos em que é dividida em grupos mais pequenos e que não têm necessariamente de estar relacionados com o ano que cada estudante se encontra a frequentar. É assim que o trabalho colaborativo passa também para os alunos. “Um dia por semana há o conselho de cooperação de turma, onde fazemos a reflexão semanal entre alunos e professores. Fica tudo registado em ata e eles já sabem como presidir uma reunião: há sempre um presidente e um secretário. É um momento muito importante da nossa semana”, conta Paula.
Outro momento alto é quando os mais velhos vão ensinar os mais novos, conta a educadora Aida Mira, responsável pela sala da pré. “O que mudou mais foi esta articulação entre os diferentes ciclos. Hoje vejo que os miúdos estão mais autónomos e com mais vontade de comunicar. Como os grupos não são homogéneos, aproveitamos os saberes dos mais velhos. Eles sentem-se importantes por estarem a explicar aos pequenos e ficam mais responsáveis.”
Cada ciclo de ensino tem as suas necessidades e não há receitas repetidas. Para o 5.º e o 6.º ano, porque se concluiu que a passagem de um professor para vários era um dos obstáculos às aprendizagens, reduziu-se o número de docentes. Em vez de se ter um professor por disciplina, diminuiu-se o conselho de turma: o professor de matemática passou a dar também ciências, o de português acumula com inglês ou história e geografia, e a educação visual e a tecnológica foram fundidas numa só disciplina.
“Foi fundamental para os professores poderem trabalhar melhor em equipa. Como tínhamos turmas com muitos alunos, decidimos criar as oficinas projetos — acabam por ser semelhantes aos DAC (Domínios de Autonomia Curricular) que a Flexibilidade Curricular trouxe mais tarde para as escolas”, detalha Cesário Silva.
Nesses momentos, as turmas são desdobradas e trabalha-se em grupos mais pequenos, normalmente com dois professores na sala. “A grande mais-valia de trabalhar por projeto é o trabalho colaborativo. É estar sempre a fazer ajustamentos. Os alunos planificam o trabalho, escolhem coisas difíceis e têm de ir arrepiando caminho, vão reajustando o trabalho até chegar a qualquer coisa palpável que vão produzir”, defende Maria Fernanda Cruz, coordenadora do projeto PPIP do 5.º e 6.º ano e que, na Marinha Grande Poente, envolve 16 turmas.
“Quando se apresenta um projeto, pratica-se a oralidade, o à-vontade e nota-se a diferença nos alunos. Estão mais libertos e mais seguros do que estão a fazer. Quando cá chegarem os que começaram com o PPIP logo no 1.º ano, acredito que se vai notar uma grande diferença”, acrescenta a professora de História e Geografia de Portugal.
“Se houvesse uma palavra para distinguir estes alunos dos outros, se fosse um sentimento, eu diria alegria. Até a relação com o professor é diferente e eu tenho 38 anos de serviço. Não são salas de aula silenciosas: se não estou a fazer uma ficha, se estou a fazer uma colagem, uma pintura, a preparar um cenário, é diferente. Até as crianças com necessidades educativas especiais permanentes brilham em coisas que não estávamos à espera. Saem delas talentos que não conhecíamos”, remata Maria Fernanda Cruz.
Nem tudo são mares de rosas, acrescenta. Entre o corpo docente, nem todos acreditam que este é o melhor caminho, nem todos têm a mesma filosofia ou visão de escola. Por outro lado, o PPIP não trouxe mais recursos, nem humanos nem materiais, e alguns espaços não acompanham o andamento do projeto. “É a queixa que mais ouço. Precisamos de mais pessoas, mais recursos, mais tecnologia. Apesar disso, isto não volta atrás. O caminho vai ser por aqui e, entre os sete agrupamentos, há até quem esteja a fazer percursos mais ambiciosos”, conta a professora.
O projeto piloto começou em 2016/2017, um ano zero que serviu para reflexão da equipa. No ano letivo passado, começou a funcionar nas turmas do 1.º ciclo e nas do 5.º ano. Este ano, estendeu-se ao 6.º e, pouco a pouco, ao 7.º ano. Falta chegar ao ensino secundário. Mas antes disso, Cesário Silva defende que há um longo caminho a fazer: o currículo está muito pulverizado e o foco continua a ser nos exames nacionais. (...)"

Fonte: Observador
Os interessados em ler todo o trabalho podem segui-lo AQUI.

NOTA

Se isto acontecesse na Região Autónoma da Madeira, provavelmente, já tinham retirado a autonomia à escola e o director tinha já um processo disciplinar que viria a resultar em, no mínimo, seis meses sem salário, tal como aconteceu com o Professor Joaquim José Sousa, da escola do Curral das Freiras. O secretário e o "inspector-mor" que leiam esta passagem: “Administrativamente, temos as turmas atribuídas, temos de ter, mas, na prática, elas não existem!"

sexta-feira, 26 de abril de 2019

DAVID JUSTINO E A POLÍTICA EDUCATIVA


O facto de uma pessoa ser professor universitário e de ter sido ministro da Educação não lhe confere, automaticamente, competência e reconhecimento público, no plano científico, para falar sobre este complexo sector. Sabe-se como é que, genericamente, alguns chegam a ministro ou a secretário de Estado. A fidelização partidária é determinante. E sabe-se, também, como há gente convidada para isto e para aquilo, conferências, encontros, seminários, eu sei lá, sem nunca terem deixado uma marca distintiva, através daquilo que escrevem(eram) ou, então, na sequência de uma passagem pela governação. Vem isto a propósito do Professor Doutor David Justino. Um Economista, depois doutorado em Sociologia, que foi ministro da Educação entre 2002/2004 (Durão Barroso) e que, há dias, teve um desabafo partidário, absolutamente deselegante, inapropriado e completamente desenquadrado para quem é professor e foi ministro da Educação. Eu diria que o partido cega!  

Como evitar o desinteresse?
Em uma fase de negociação com os elementos das organizações representativas dos Magistrados, o vice-presidente do PSD, David Justino, disse: "(...) A ministra esteve a negociar quanto é que vai receber quando sair do governo". A Drª Francisca Van Dunem, Jurista, ministra da Justiça e ex-Procuradora-Geral Adjunta, devolveu com uma simples frase: "O autor da afirmação está, seguramente, a julgar outrem à luz dos seus padrões comportamentais". E ficou-se por aí.
Sobre o que declarou, passo à frente. Mas serve para dele eu ter uma leitura política. O Professor David Justino foi ministro dois anos e presidente do Conselho Nacional de Educação, neste caso, não sei bem por que artes. De uma coisa sei eu, é que não deixou, nos dois anos que passou pela pasta da Educação, qualquer registo que mereça ser olhado com respeito e admiração. O esquisito disto, ou talvez não, é que se trata de uma figura muito requisitada, como se não existissem académicos com vasto currículo e professores com pensamento e trabalho científico produzido relativamente ao sistema educativo. Ora, é esta figura que irá estar, uma vez mais, na Região da Madeira, agora, entre os dias 9 e 11 de Maio, no quadro da "Escola do Século XXI", tema do IV Seminário de Educação, promovido pela Câmara Municipal de Câmara de Lobos. 

Quando li o que se segue, interroguei-me, como pode ser conferencista sobre a Escola do Século XXI um político que defendeu, em Janeiro de 2019, que a Educação deve, repare o leitor, "(...) contrariar o fetichismo tecnológico" e rejeitar a tecnologia como "solução mágica" para tudo, contrapondo que deve continuar "assente em relações humanas". Não bate certo, porque uma coisa, a tecnologia, não é fetiche educativo e não impede a outra, o acto pedagógico, que deve ter sempre o professor como mediador !

Aliás, ainda bem que o disse, porque clarificou o que dele penso e aqui escrevo, quando confessou à plateia, a sua, por vezes, "visão excessivamente conservadora em relação à escola" que o levam a rejeitar soluções disruptivas e utopias". Utopias, questiono? Ainda ontem o Senhor Presidente da República foi claro no discurso do 25 de Abril: "(...) a História faz-se sempre de programas, ideias e de sonhos impossíveis". Portanto, ao contrário do que disse, viva a disrupção, viva o rompimento com o passado.
Perante isto, confesso, tenho dificuldade em perceber o Professor David Justino, enquanto pensador, ele que é assessor do Presidente para os assuntos sociais, mas preocupa-me que venha falar para uma plateia de professores. Espero, no mínimo, que seja igual a si próprio, pois consultando múltiplos registos, as notas dominantes que li são marcadas por afirmações em um determinado sentido e quase o seu contrário em outros momentos. O professor David Justino, julgo eu, ainda é Professor Universitário. Respeito que tenha uma opinião conservadora, desajustada do mundo que estamos a viver e das crianças e jovens que nasceram rodeados de tecnologia, porém, por uma questão de elegância e de respeito pelos seus pares, seja qual for o grau de ensino, nunca deveria assumir, por exemplo, com a precisão de um relógio suíço, que "25% dos professores são excecionais, 60% dos professores são bons e 15% dos professores nunca deviam ter entrado" no sistema de educativo. Os professores que estarão presentes na iniciativa "Escola do Século XXI", deveriam questioná-lo: o Senhor Professor vem falar para quem, para os 15%? É que nos 15%, certamente, estão muitos desajustados com a escola dos Séculos XIX e XX e, por isso mesmo, são considerados maus professores. 
Aliás, no programa "Fronteiras XXI", da RTP, transmitido a 04.10.2017, subordinado ao tema "Que Escola Precisamos", no qual participou o Professor Joaquim José de Sousa, da Escola do Curral das Freiras, assisti à diferença de conhecimento prático entre o Professor Doutor David Justino e o Professor Joaquim Sousa, no que concerne ao funcionamento de uma escola do Século XXI. O programa está disponível na RTPPlay. Ora, quem sou eu para tecer considerações sobre as opções dos organizadores, mas tendo, na Madeira, um professor com experiência e resultados, humildemente o digo, que seria de todo muito mais interessante e motivador para uma plateia de professores escutar a voz da experiência sentida e vivida, a tal utopia, o tal direito ao sonho, relativamente a outro que se mostra mais vocacionado para a defesa da escola do passado do que para uma escola portadora de futuro. Aliás, ressalvo, em iniciativas anteriores e mesmo nesta, é justo sublinhar o convite dirigido a figuras de relevantíssima importância na Educação.
Finalmente, são palavras do Professor David Justino: "precisamos de políticos mais qualificados na educação". Concordo. Na Madeira existem vários, embora silenciados. Percebo. Partidariamente, não interessam. Até são perseguidos. Só que a Educação deve dispor uma visão POLÍTICA e não PARTIDÁRIA. O Professor David Justino que foi militante do Movimento da Esquerda Socialista, "emendou-se", dizem, com humor. Daí que seja o orador de serviço, embora, com toda a certeza, pelas suas posições anteriores, não traga na bagagem nada de substancialmente novo. Se eu estivesse na Madeira, inscrevia-me para escutar o Professor Pepe Menéndez: "(...) O problema do ensino é que é muito aborrecido. Nós mudámos o olhar (...) Pode parecer um pouco naïf, mas o modelo é mudar o olhar. Em vez de ver as coisas de perto, abrir os olhos e tentar ver o que no século XXI pode fazer crescer uma pessoa num ambiente de globalização, tecnologia, com tanta incerteza. O filósofo [Zygmunt] Bauman fala de um mundo líquido. Neste contexto, como posso ligar-me ao coração dos alunos, à sua motivação?" Esta é a utopia e a disrupção face às quais o Professor David Justino coloca reticências.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
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terça-feira, 23 de abril de 2019

Educação -. Quando matam o direito ao sonho, o que restará à Escola?


Começa a ser hora de balanço. Hoje, os estudantes entraram na derradeira etapa do ano escolar. Já escutei, com humor, que se trata de um "período-anão" face ao número de semanas. Se, para os estudantes, o ano corre para as férias mais longas, para o sistema é tempo de deitar contas à vida e de analisar, globalmente, não apenas o que foi realizado em 2018/19, mas no período da Legislatura. O secretário, esse, obviamente, não tem qualquer dúvida: "Quatro anos de progresso na Educação". Ninguém esperaria outra leitura. Para ele foi de sucesso a 100%! Não consegue descobrir uma pontinha de fragilidade. Dizia-me há tempos um político que, até na cadeia, se perguntarmos, a maioria dirá que é inocente! Aliás, a entrevista de auto-elogio, toda ela fez-me lembrar um notável sketch do Herman que, na situação de entrevistado, invariavelmente, iniciava a resposta com um "ainda bem que me fez essa pergunta". 


O secretário teve duas páginas para abordar questões sérias e profundas, mas preferiu uma descabida gabarolice de trazer por casa que, no fundo, acrescenta ao sistema mais um zero à esquerda. Fugir às questões estruturantes, porque não quer ou porque não sabe, tornou-se a sua indelével marca. Não está para aí virado, para a reorganização do sistema que implique uma nova e estruturada visão de toda a sua complexidade, desde a família à escola, passando por todo o sistema de organização da sociedade. Só para o secretário e alguns próximos é que foram "quatro anos de progresso na Educação". Qualquer pessoa que estude, minimamente, o sistema, concluirá que nas suas traves-mestras, o sistema continua aquilo que sempre foi, um sistema acomodado, repetitivo, limitador de horizontes, castrador do pensamento livre, incrustado em uma densa teia burocrática, condicionador da acção dos docentes, sobretudo dos que pretendem seguir e gerar as condições de uma escola com direito ao sonho. Um secretário que, de forma cega, impõe a sua regra, que fecha os olhos ao mundo, que demonstra receio pelo que de bom os outros são capazes de operacionalizar, que vive incomodado com os êxitos que escapam ao seu controlo, que não sabe potenciar as experiências de sucesso, que manifesta o desejo de ter tudo debaixo do seu ávido controlo, que exprime vaidade e necessidade de holofotes, torna-se em um construtor da antítese de quatro anos de progresso. Simplesmente porque não é possível o progresso quando este não assenta em uma estrutura transversalmente consistente e cientificamente substantiva. 

"Pensar é mover-se no infinito" escreveu Henri Lacordaire (1802/1861), padre, jornalista, educador, deputado e académico. Acho interessante esta frase, porque a escola continua a não estar, passe o pleonasmo, pensada para fazer pensar. Esta escola rouba o direito ao sonho e este direito de sonhar não pode ser apenas para alguns, mas para todos. 

Ora, o sistema é mais do que fundir escolas e derramar 25 milhões por ano na educação privada. A arte visionária de educar é muito mais do que horários, campainhas, livros de ponto, cumprimento dos manuais, reuniões e mais reuniões para repetir o óbvio, mofentas burocracias destinadas ao arquivo morto, estéreis paleios sobre a "robotização" ou salas ditas do "futuro". A escola tem de ser vida e dela não pode estar desligada. Os muros que a circundam não devem  obstar o direito de cada um ser culto e de optar pelo futuro que lhe interessa. A escola não pode ser um "fatinho" de padrão e número igual para todos. Preferível seria, ao contrário de uma apregoada escola para todos, dispor de uma escola para cada um. Esta imagem implica que a escola tenha de fugir, de forma integrada, ao pressuposto de remediadora social, à ideia de armazém, para situar-se no plano do pensamento que se move para o infinito. Porque o mundo não termina na Ponta de S. Lourenço, embora o sistema creia que sim. Um sistema que assenta nos princípios do Século XIX, obviamente, que denota descontextualização com o presente e desconectamento com o futuro. Não existe, pois, progresso quando se assiste à morte do pensamento crítico e da liberdade de ensinar e de aprender.
Então, o que restou desta Legislatura, questiono? Lamentavelmente, sobressaiu a vergonhosa sansão aplicada ao Dr. Joaquim José Sousa da Escola do Curral das Freiras. A entrevista ao DN é clara nessa matéria, quando o secretário, sacudindo a água do capote político, afirma ter sido a Inspecção Regional a decidir-se por uma sanção de seis meses sem salário, quando foi o próprio secretário que os aplicou, impedindo desta forma um eventual recurso. Atirou-se a toda a comunidade educativa através de um docente. Ficou limpinho que uma escola que pretendeu ser inovadora, no quadro da sua autonomia administrativa e gestionária, uma escola que, no entendimento político, fez "sombra" ao secretário, uma escola que foi tema, pela positiva, em todo o espaço nacional, uma escola que ganhou prémios nacionais, no fundo estava a mais no quadro das suas regras assentes no excesso de valor que tem de si próprio. O bloqueio à autonomia da escola, consubstanciada na sua fusão, tratou-se de um "crime social", porque quando se coarcta o direito à diferença, com resultados, sublinho, quando a escola é portadora de um sonho para todos e se corta a cabeça do líder, porque infringiu(?) umas regras burocráticas de treta, isto significa que quem está a mais no sistema não é o professor que desejou ir longe, mas o secretário que quer ser o centro da atenção embora com aparência política falsa. Pior ainda, o que fica destes quatro anos, são os reflexos desta sansão como quem quis dizer aos mais de seis mil professores, cuidado, não queiram seguir o mesmo caminho, pois levam! Só acrescentou desmotivação e medo a uma classe já de si dividida e pouco solidária. 
Portanto, o essencial desta Legislatura centra-se na memória que fica relativamente à história das fusões de estabelecimentos de educação e ensino e na ridícula, indecorosa e vexatória humilhação da escola do Curral das Freiras. Sobre a sanção aplicada ao Dr. Joaquim Sousa caberá, agora, ao Tribunal Administrativo pronunciar-se. Há que aguardar. O processo só agora começou e, em Setembro, há eleições legislativas regionais. Porém, politicamente, não partidariamente, o secretário, em jeito de balanço, tem muito que explicar. O que é que o sistema ganhou com a extinção da autonomia da escola do Curral? Que engrenagem (sofisticada) foi montada para matar uma tentativa de uma escola que desejou ser coerente com os novos tempos? Em que está a resultar a "destruição" do seu projecto educativo? Como se sentem, hoje, a generalidade os professores que lá trabalham? Por que permitiu eleições na escola, ganhas pelo Professor Joaquim Sousa e, logo depois, a funde com outra? E o que pensam os alunos, pais e a comunidade em geral? Tem muito que explicar sobre estes quatro anos perdidos e de culto da imagem. Certo, segundo julgo saber, é que o êxito que a escola apresentou no passado recente, poderá vir a ser tema de uma Dissertação de Mestrado ou tese de Doutoramento.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
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www.gnose.eu

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Não dêem às notas a importância que elas não têm!


Há momentos do ano em que tenho medo. Como este, que é altura de notas. Porque muitos pais, orgulhosíssimas dos seus filhos, lhes criam a eles e às outras crianças circunstâncias muito difíceis!


Por favor,
Fiquemo-nos por aquilo que se passa nos quatro primeiros anos do ensino básico. O que se ganha quando se expõem, nalgumas escolas, as notas destas crianças? Na verdade, não se trata de esperar que quer as suas dificuldades como os seus méritos sejam clandestinos, até porque as crianças se comparam entre si. Mas, mesmo assim, o que é que se ganha quando há mães e pais (embora, “regra geral”, os pais vão muito menos ver as notas dos filhos) a anotar as classificações dos amigos dos filhos, a comentá-las e a insurgirem-se com elas, em público, diante das próprias crianças? O que se ganha quando algumas destas crianças - que terão ficado aquém daquilo que as mães entendiam ser justo para os filhos - são severamente repreendidas, à frente de todos, e, muito pior, com o argumento de que o colega A e B tiveram melhores resultados que ele? O que se ganha quando algumas destas mães debatem no WhatsApp as notas das crianças, dando-lhes uma importância que elas não têm? 

O que se ganha quando há pais a premiar com comentários públicos de parabéns no Instagram as notas dos filhos, quando não fica muito claro se se congratulam com os resultados do seu trabalho ou com a forma como parecem alimentar a sua vaidade? E o que dizer quando são as próprias crianças a competir entre si por melhores notas e a chamar aos colegas com mais dificuldades, naquele momento, alguns nomes feios (porque, afinal, não aprendem da mesma maneira e à mesma velocidade)? 

E o que se ganha quando os pais, de forma demasiado passiva, reconhecem que há turmas do primeiro ano (!!) em que as crianças são “muito competitivas” entre si, como se os pais e as escolas fossem estranhos a isso, e nada pudessem fazer para pôr cobro a essa deriva e as escolas destas crianças fossem campeãs dos défices de atenção e não só não entendessem o absurdo que isto lhes representa como não deixassem de o incentivar, mais do que parece?
Por favor, as crianças saudáveis não tiram sempre boas notas! Aprendem com os erros. Precisam dos enganos. E crescem com os insucessos. E, convém não esquecer, que as notas delas são mérito seu, claro, mas também não são estranhas à sensatez dos programas, e à qualidade da escola e do ensino. 
Por tudo isso, o que se ganha ao transformarmos crianças, que todos desejamos que aprendam a aprender, em bons alunos? Haverá, por acaso, bons alunos sem bons professores? E não é, igualmente, verdade que as notas de algumas destas crianças são um trabalho de parceria com alguns destes pais e mães, que estudam com elas, e que, por vezes, prescindem do seu trabalho em nome dos resultados escolares dos seus filhos? E não é verdade que todas as crianças são inteligentes e todas elas têm, nalgum “cantinho” da sua aprendizagem, algumas necessidades educativas especiais?
Por tudo isso, por favor, não atribuam às notas a importância que elas não têm. E não se esqueçam que, na ânsia de as terem a conquistar bons resultados, há pais e escolas a transformar crianças saudáveis em “alunos” com dificuldades…
Eduardo Sá
Fonte: eduardosa

terça-feira, 16 de abril de 2019

Rejeitar a indignidade


"Rejeitamos os novos muros civilizacionais, rejeitamos a escravatura moderna e a exploração dos mais frágeis e indefesos, rejeitamos o egocentrismo esmagador de todas as solidariedades e a indiferença perante o sofrimentos de quem se vê privado dos seus direitos individuais básicos.


Rejeitamos a indignidade de jogar com a fraqueza e a ignorância de tantos para as por ao serviço de alguns, poucos e perversos, candidatos a alcandorar-se em todos-poderosos do mundo e rejeitamos que continue a haver minorias perseguidas ou marginalizadas, que as mulheres não sejam ainda tratadas como, de facto, livres e iguais em direitos e que tantos milhões de crianças, por todo o mundo, estejam a ser privados de alimentação, casa e família...
Rejeitamos a frieza esmagadora do "admirável mundo novo" que Huxley nos apresentou e com o qual talvez tenha querido alertar-nos... Era tão cedo (1932) e deixamos que, de repente, se fizesse tarde e o tempo parecer-se esgotar-se...
No entanto, contra ventos e marés, provaremos que o tempo não se esgotou, e não! Não é tarde de mais! Queremos dar à Democracia todo o virtuosismo e toda a força que pode comportar, anulando o que de sinistro aberrante pode ser gerado a partir dela. Somos profissionais de Educação ou do Ensino e temos em mãos um manancial inesgotável de ferramentas transformadoras, de mentalidades e de práticas.
Queremos perpetuar Mandela - A Educação é a arma mais poderosa para transformar o mundo - em cada momento, em cada dia do nosso caminho, atravessando gerações. (...)"

Excerto da Editorial da revista A Página da Educação, com assinatura de Ana Brito Jorge.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Quatro anos perdidos no Sistema Educativo


Um autêntico navio sem rumo. Navega ao sabor dos ventos e das marés. Guia-se pelas estrelas e não pelos instrumentos ao dispor. Não tem um verdadeiro comandante. Sobe e desce escadas, anda, desnorteado, entre a proa e popa e manda pela borda fora quem não lhe interessa. Apresenta-se risonho, rindo, talvez, de si próprio, distribui diplomas, ridículos prémios de meritocracia e nem conta dá que a tripulação boceja e apenas não tem coragem de o mandar cantar para outra freguesia. Agacha-se, porque precisa do salário, desencantada, cansada, muitos com sinais de "burnout", contando os dias para a pausa pedagógica e as férias. Chegará o dia. Inevitavelmente. Porque nestas águas, mesmo que turvas, os barris de azeite tenderão vir à tona. A tripulação já não aguenta tanta incompetência, tanto papel, tanta grelha, tanta "ordem de serviço" vindas do ineficaz "comando", tanto paleio desconforme com a sua formação na "escola náutica". É sensível que o navio, com 6.500 tripulantes e quarenta e tal mil a bordo, tem a proa bem dentro de água, neste mar de ondas alterosas. E o comandante continua impávido e sereno. Ri-se! Ele e o seu superior hierárquico que, algumas vezes, parece um chefe distraído e sem opinião. 


Deixo a metáfora e fixo-me no assunto mais sério. Apressadamente, caminhamos para mais quatro anos de insucesso no sistema educativo. Quatro anos de paleio, de mistificações, de alheamento das obrigações constitucionais públicas para oferecer, de bandeja,  quase cem milhões ao privado. Quatro anos de um arrepiante faz-de-conta, de algumas perseguições, directas e indirectas, de total submissão dos quadros intermédios, de continuado sequestro da autonomia administrativa, gestionária e financeira dos estabelecimentos de aprendizagem, de sucessivos cinismos e ouvidos de mercador, relativamente ao que é dito em jornadas, congressos, seminários, revistas, livros e outros, onde tudo entra a cem e sai a duzentos, prevalecendo a vontade de um ou de uns que abdicam do conhecimento para seguir os caminhos da ideologia dominante. Não existe(iu) um rasgo de pensamento crítico, de provocação bem intencionada, de colocar, em cima da mesa, sem qualquer receio, os assuntos mais importantes, discutindo-os com humildade, frontalidade e profundidade. Quatro anos onde se continuou a assistir, sensível publicamente, a um divórcio com as instituições universitárias, instituições que investigam, que possuem excelentes quadros, mas que deles o "comandante" parece nem querer ouvir os necessários alertas e conselhos. Mais quatro anos vividos na torre de marfim, escudado em falsas verdades, de palavras de circunstância em fóruns para escutar os aplausos da plateia (normalmente, a plateia aplaude toda a gente), quando nos estabelecimentos de aprendizagem continuam as eternas rotinas de uma máquina velha, ferrugenta e desadequada no tempo. 

Se alguém pensa que compra o voto dos professores com os nove anos, quatro meses e dois dias de tempo congelado, está totalmente enganado. Alguns poderão ficar agradecidos, mas não esquecem os tormentos, as tensões, as depressões, as incompreensões, as ameaças, as intermináveis burocracias, as fusões de escolas, a indisciplina, as faltas de tanta coisa necessária, as violações de consciência e os atentados contra a sua dignidade profissional. 

Não esquecem, porque são adultos, e porque, na cabina de voto, naquele acto solitário, em segundos sobressairá a história das angústias relativamente ao merecido docinho do avanço na carreira. O que aqui escrevo é o resultado de conversas que tenho com vários professores, mensagens que me chegam de pessoas identificadas, que assim pensam e com os quais concordo nas observações globais que produzem. Uma coisa são os direitos salariais, outra é a questão mais profunda e que a milhares preocupa: o sistema educativo. No fundo, que sistema estão a proporcionar para que, daqui por dez, quinze anos, o sentimento que reste seja o de que valeu a pena.

A robótica e as salas de aula do futuro são acenos marginais. Quem por aí caminha está a ver o problema ao contrário ou, no mínimo, não demonstra qualquer sentido de prioridades. E essas são, desde logo, no quadro da Autonomia, as de natureza organizacional, curricular, programática e pedagógica e, a montante, as de natureza social. A robótica não vem resolver nada de fundo. Antes disso há muitos aspectos a rever. Servirá a uns, certamente, servirá algumas empresas interessadas em vender equipamentos, obviamente que sim, mas não servirá de caminho seguro na antecipação do futuro, simplesmente porque é um erro encurtar etapas. Da mesma forma que uma, duas ou três "salas do futuro" de nada servirão quando a lógica organizacional e pedagógica do sistema assenta em uma base de genérica incultura. 

Há medo de mudar, de forma serena e consistente, há medo de questionar, há medo de sair do conhecido e de partir no sentido da descoberta. Há receio em perder a mão e o controlo sobre as escolas e há pavor daqueles que fogem à rotina e tentam ver para além do horizonte. A mentalidade reinante do regime, salvo os contextos e a distância histórica, "é que os jovens não precisam de pensar porque há quem pense por eles". Nem os jovens nem os professores. Isto significa que o sistema enferma de uma genérica falta de inovação e, daí, de qualidade, porque é centralista, não permite espaço à criação, funda-se no repetitivo e em uma pressuposta aprendizagem de assuntos para esquecer, ainda porque está, sobremaneira, obcecado na avaliação e não no conhecimento e na cultura. Vive do anúncio de iniciativas desfasadas da realidade o que me leva a concluir da existência de um espartilho que comprime e sufoca a liberdade de ensinar e o gosto por aprender. E sendo assim, foram mais quatro anos a ver navios... a afundar!
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Publicado no blogue
www.gnose.eu

domingo, 7 de abril de 2019

AO SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO... DEITE O AR FORA E SEJA HUMILDE


Li o artigo de opinião da Drª Sara André,ex-Deputada do PSD-M, publicado na edição de hoje do DN-Madeira. A páginas tantas, sobre o processo movido ao Professor Joaquim Sousa, o do Curral das Freiras, a quem o secretário, maldosamente, retirou seis meses de salário, a articulista foi contundente e absolutamente assertiva. Já em Março de 2019, registei uma sua interessante passagem sobre os silêncios, embora em um outro contexto: "(...) Silêncios de quem nada faz. Silêncios de quem pode fazer. Silêncios de quem tem responsabilidade e obrigação de fazer (...)". 

Mas, hoje, o que ela quis transmitir, dedução minha, claro, é que o secretário da Educação deve deitar fora o ar que lhe enche o peito da vaidade e que seja humilde. Porque só é grande quem é humilde.

"(...) Sobre o caso do professor Joaquim da escola do Curral das Freiras, tanto por dizer que se resume a isto, em “bom” madeirense: “deixem-se de p***********, já mete nojo”. Quem deve ter bom senso, acabe com esta novela que já é nacional e só nos envergonha. Para além dos editoriais, artigos de opinião, intervenções na TV ao nível nacional, até motivo de gozo somos pelos humoristas de referência, tendo em conta o ridículo da situação".

Considero esta passagem frontal e sobretudo de BOM SENSO. Parabéns Drª Sara André, pela sua sensatez e lucidez.

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

RANKINGS DAS ESCOLAS - UMA ABERRAÇÃO SOCIAL E PEDAGÓGICA


FRANCISCO SIMÕES
Escultor
JM - 31/03/2019

É absolutamente incrível como não existe ninguém no Ministério da Educação que diga ao Ministro que os Rankings são um erro pedagógico.

É absolutamente inconcebível que não exista ninguém no Governo que diga ao Primeiro Ministro que os Rankings das Escolas são um terrível erro social.
Francisco SimõesÉ absolutamente inacreditável que não exista na Assembleia da República um só deputado que diga ao Governo que os Rankings das Escolas são um erro político.
Todos parecem aplaudir esta competição reles e vil, todos parecem regozijar-se com as escolas que ficam nos lugares do pódio.
Poucos ou quase ninguém se preocupam com as escolas que ficam mal classificadas, ou mesmo, nos últimos lugares do Ranking.
Porque se criaram os Rankings? Para se diminuir e humilhar as escolas públicas e publicitar e promover o ensino particular contra o qual, devo dizer, não tenho nenhuma adversidade.
A realidade demonstra-nos várias realidades:
Primeira realidade – Quem vai para o ensino particular são os filhos de pessoas com bom nível de vida e, eventualmente, bons conhecimentos literários.
Os estabelecimentos de ensino particular, podem seleccionar, rejeitar, um aluno, se este for menos dotado, logo aqui, começa uma selecção elitista profundamente injusta;
Segunda realidade – As escolas públicas ou privadas dos grande centros urbanos têm uma frequência de alunos provenientes de classes sociais, no mínimo, instruídas e com acesso a bibliotecas, museus e outros locais de culto intelectual e/ou artístico;
Terceira realidade – As escolas públicas ou privadas existentes em zonas periféricas ou em regiões rurais, de forte isolamento, terão, eventualmente, alunos de classes sociais menos instruídas economicamente, mais carentes e onde quase sempre se verifica uma grande ausência de estruturas de cultura e de comunicação.
Então, achamos que estas realidades são comparáveis?
O nosso País é, na Europa, o que apresenta maiores desigualdades sociais e, pelo facto, não podemos deixar de responsabilizar os sucessivos governos e os sucessivos ministros da educação, que não se apercebem destas disparidades e destas desgraças sociais. Exige-se pois ao Ministro da Educação algum pudor pelo que provoca de humilhação às escolas, aos professores e aos alunos. Um governo e um ministro da educação que humilha milhares de famílias para poder demonstrar que “os dele” são os melhores, são os primeiros, são os sabichões.
Pudor, senhor Ministro da Educação, tenha pudor, vá para casa pensar, porque será que alguém que nunca deu aulas na vida e nunca teve na sua frente alunos para poder compreender as realidades socioculturais do país, porque será que é ministro?

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Os peões vão derrubar o rei. O xeque-mate anda por aí!


Permito-me transcrever um comentário de Helena Bento, deixado na minha página de facebook, a propósito do texto que publiquei sobre a sansão de seis meses sem salário, aplicada ao Professor Joaquim José Sousa.

"A traição sempre trai o traidor. A professora Sílvia lá terá o que merece. Infelizmente competência, trabalho, dignidade, lhaneza, excelência (e outras tantas qualidades) são vistas por chefes e superiores como uma afronta pessoal. Quem ousa demonstrá-las sempre paga um alto preço (há muitas Sílvias disponíveis para levar a cabo o trabalho sujo de alguém)". 

Há, de facto, em abstracto, muitas Sílvias por aí. Por razões múltiplas. Quando li o comentário, que agradeço, lembrei-me da "Chuva" cantada por Mariza:

"(...) 
Há gente que fica na História
na história da gente
E outras de quem o nome
lembramos ouvir" 
(...)

Pois é. Não ficam na História os protagonistas desta novela de baixíssima qualidade. Sobretudo não gosto(ei) do desempenho de Sílvia Morgado de Carvalho. O papel é tão fraquinho na novela que não dá sequer para reciclar. Estou certo que o realizador, encenador e o "artista" transportarão, ao longo da vida, o remorso pela participação. Nem sei com que à-vontade se cruzarão daqui para a frente com outros actores. Mas vamos ao que interessa, deixando para traz participações que, tal como canta Mariza, no futuro, "de quem o nome lembramos ouvir".   
Para além do Professor Joaquim Sousa há mais casos. Tenho recebido mensagens particulares muito interessantes e até denúncias de casos que, para já, mantenho sob reserva. O que me leva a dizer, porque se trata de assuntos políticos (sistema educativo), daí a sua natureza pública, que o secretário da Educação tem muito que explicar. Por isso, tenho muita dificuldade em aceitar o silêncio desde  os líderes dos estabelecimentos de aprendizagem até à generalidade dos professores. Será por medo? Medo de quê? Medo, quando há Colegas encostados à parede, sancionados com perdas de salário e outros em vias de o serem, por razões que nem ao diabo lembra? Para já fico por aqui. Entretanto, convido a personagem Sílvia Morgado de Carvalho a cantarolar a "Chuva" de Mariza. Vá lá... um, dois, três...

"(...) 
Há gente que fica na História
na história da gente
E outras de quem o nome
lembramos ouvir" 
(...)

Ilustração: Google Imagens.