sexta-feira, 23 de junho de 2023

Entendam: "Mais escola não significa melhor escola"


Não tenho presente quem afirmou, sei, apenas, que há muitos anos é dito: "Mais escola não significa melhor escola". Recentemente li uma entrevista com o Psicólogo e Psicanalista Eduardo Sá, no decorrer da qual foi incisivo: "(...) Escola demais faz mal às crianças. A escola é fantástica e indispensável, claro, mas há uma tendência incompreensível para que, também em Portugal, as crianças passem tempo demais na escola. Mais escola (ou, se preferir, mais tempo de escola) não significa melhor escola. Se quisermos ser didáticos para os pais, devemos dizer que a família é mais importante que a escola e que brincar é tão essencial como aprender. E mais: devemos dizer que a hierarquia das prioridades para as crianças deveria ser em primeiro lugar a família, em segundo a "escola da vida", em terceiro o brincar e, finalmente, a escola propriamente dita. Ao imaginarmos a vida diária duma criança, não devíamos nunca deixar de levar em consideração que estes compromissos com o crescimento precisam de tempo para que, em conjunto, ajudem as crianças a namorar com a vida e, ao mesmo tempo, para que elas aprendam a crescer e aprendam a pensar (...)"



Mas os políticos, atrevo-me a dizer, coitados, dificilmente entendem isto. Li, na edição de ontem do Dnotícias, que os estabelecimentos de aprendizagem da Madeira iniciam o próximo ano a 7/8 de Setembro e os 2º, 3º e secundário na semana seguinte.

Olhando para o calendário nota-se a tendência para o encurtamento daquilo que antes era considerado "as férias grandes". Lá vai o tempo que tudo se iniciava a 07 de Outubro, pelo que, por este andar, não demorará que o final de Agosto seja apontado como data desejável. Tudo contra os interesses das crianças e dos jovens. A pergunta que julgo que deve ser feita é esta: para quê? E falam dos "Direitos da Criança"!?

Ah, sei, isto tem uma resposta: paulatinamente, a escola transformou-se numa espécie de armazém, por três razões: porque constitui uma solução para a desorganização social e económica, onde subsiste também a errónea ideia que "mais trabalho significa melhor trabalho"; segundo, porque, em devido tempo, não foram acauteladas as repercussões resultantes da natural e necessária entrada da mulher no mundo laboral, que implicava ter um outro e mais assertivo olhar para a família; terceiro, porque para quem, politicamente, assim define, a sociedade tem de acompanhar a cultura "da pressa e do nanosegundo" (Peter Drucker), logo, transmitir desde muito jovem essa cultura, a competição desigual, a meritocracia e a falsa necessidade de antecipar aquilo que designam por conhecimento. Só se esqueceram que o ser humano é o animal que mais tempo tem de infância. Por que será?


Regresso ao Psicólogo Eduardo Sá: "(...) parece-me que os pais ganham se entenderem que, em primeiro lugar, as crianças devem brincar com o corpo (...) crianças mais amigas do corpo são crianças que se expressam melhor, de modo mais expressivo e mais proativo. (...) Afinal temos cada vez mais adolescentes iletrados: que sentem, que discorrem mas que, ao não conseguirem traduzir a vida mental em língua materna, transformam em angústia aquilo que seria traduzido em palavras e com isso adoecem (...)". Adoecem, sublinho.

O jubilado Catedrático Professor Carlos Neto continua a insistir na tecla de sempre: "Libertem as crianças" (...) Todos os estudos apontam que as crianças activas têm mais capacidade de aprendizagem, de concentração, além de, a longo prazo, maior probabilidade de terem sucesso (...) Estamos a criar totós, dependentes, inseguros e sem qualquer cultura motora. Vemos crianças de 3 anos que, ao fim de dez minutos de brincadeira dizem que estão cansadas, outras de 5 e 6 anos que não sabem saltar ao pé-coxinho. Já as de 7 não sabem saltar à corda e algumas de 8 anos não conseguem atar os sapatos. É o que chamo de iliteracia motora" (...) Todos os estudos têm vindo a demonstrar que na infância, até aos 10/12 anos de idade, é absolutamente essencial brincar para desenvolver a capacidade adaptativa. E hoje não é isso que estamos a fazer. Estamos a dar tudo pronto, tudo feito, e não a confrontar as crianças com problemas que elas têm de resolver. Sejam eles com a natureza; sejam eles com os outros". Acrescento: estão a matar a infância, o tempo de ser criança, a aprendizagem, a curiosidade, porque secundarizam o jogo infantil e porque impõem um pensamento à revelia do desenvolvimento motor e cognitivo. Se desejem adultos capazes, libertem as crianças, não se preocupem com conteúdos fora de tempo e, sobretudo, não as fechem em salas.

Transformar a escola num "armazém" corresponde à antítese do que é defendido pela comunidade científica. "Aprender coisas", porque existem programas ou linhas programáticas, cada vez mais cedo, constitui um absurdo. Há um tempo próprio. Temos milhares e milhares de homens e mulheres que regressavam à escola a 07 de Outubro e que foram e são brilhantes nas suas vidas académicas e profissionais. E em todos os sectores e áreas do conhecimento, acrescento. Então, para quê tanta pressa? O Senhor Secretário regional da Educação já se esqueceu do que lhe transmitiram, entre outras, nas aulas de "Desenvolvimento motor" e "Psicofisiologia do comportamento motor"?

Ilustração: Google Imagens

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Uma vez mais... os famigerados "ranking's" (2022)

 

Assumiu o secretário regional da Educação da Madeira: "(...) nós não valorizamos muito os ranking's". Pois, assumo, também eu, com uma diferença, é que o político ainda valoriza alguma coisa (não muito) enquanto eu não valorizo rigorosamente nada. Diabolizo-os porque comparam realidades económicas, sociais e culturais completamente distintas. Por outro lado, diz o ministro: eles são "uma operação comercial (...) porque ignoram o contexto sócio-económico". Aí está, é verdade. Porém, comercial ou não, os exames e os dados saem do ministério, o que me parece uma crónica hipocrisia. Por mim, tal como li, sobre os ranking's do programa PISA, numa análise de Pablo Gentili, uns e outros são "um concurso de beleza da pedagogia". E em "concursos de beleza", na escola, não estou interessado.



Mas a pergunta que agora faço presumo que tenha o seu cabimento político: teria o secretário da Educação o mesmo posicionamento, se os lugares que os estabelecimentos de aprendizagem da Madeira apresentaram se situassem no topo nacional da aprendizagem básica? Talvez não! Não valoriza porque não lhe interessa, não por razões de pensamento estrutural. Que não o tem, é a minha modesta opinião. Até conseguiu aniquilar uma escola que, mantendo-se na fronteira das suas débeis regras, atingiu o pódio nacional. Refiro-me à escola do Curral das Freiras e transcrevo o que a edição do Jornal Público de então enalteceu: 

"(...) na freguesia mais pobre da Madeira e uma das mais carenciadas do país (Curral das Freiras), onde 92% dos alunos têm Acção Social Escolar e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias, existe algo supreendente. Numa vila enterrada num vale profundo, onde a única ligação com o resto do mundo faz-se por um túnel com quase 2,5 quilómetros, existe uma escola onde cabem todos os sonhos (saltou do lugar 1207º para 3ª no ranking nacional da época)".

Talvez, porque lhe falta(ou) pensamento e humildade para escutá-la e aceitá-la, bloqueou a sua autonomia pedagógica e anexou-a a uma outra, prejudicando as dinâmicas pedagógicas criadas. Não satisfeito, puniu o líder da escola através de um processo kafkiano. Processo que perdeu em Tribunal Superior. Em 2022, a escola (S. António) onde a do Curral das Freiras foi integrada quedou-se pelo 440º lugar. Conclusão primeira: não liga muito aos "ranking's" porque, primeiro, ninguém se atreva a ser inovador e criativo!

Ora bem, por aquilo que conheço da propaganda política, se outros tivessem sido os resultados, certamente que o Senhor Secretário cantaria a plenos pulmões os êxitos espelhados nos "ranking's". Porém, uma vez mais isso não aconteceu. Disse, laconicamente, não ligar "muito", mas, deduzo, que lá com os seus botões, ligue alguma coisa, talvez se enerve, porque, de facto, no sector público do Básico (9º ano), ter as escolas situadas entre o 213º e 1012º do todo nacional, com um dado relevante: todos com uma média inferior a 3 (numa escala de 0 a 5). É caso para dizer que para o político é melhor assobiar para o lado. Daqui a dias já ninguém fala disso, não é! Não liga muito, compreendo, mas como indicador global, talvez a situação o devesse conduzir a uma séria análise da situação. Mas não o fará. Quanto muito questionará as escolas sobre o insucesso da sua própria política centralizadora. Se fará, não sei, porque este quadro talvez interesse, porque um povo que não desfrute de uma aprendizagem de qualidade, vulnerável fica à cantilena que lhe vendem no plano político. Será?

Há muito a fazer por uma escola de sucesso. Começa, a montante, por uma imprescindível actuação nos desequilíbrios sociais existentes, nas famílias e no combate à pobreza, na economia, na empregabilidade com salários decentes, na cultura e mentalidade que conduza, desde cedo, a saber desenhar o futuro, no pleno respeito pelos talentos e sonhos de cada um, nos currículos e programas disparatados porque desconexos com a vida real, pela aceitação que o professor, hoje, não pode ser um submisso face a absurdas lógicas hierárquicas ou um "magister dixit" desde logo porque "(...) o mais alto ensinamento do mestre não está no que diz, mas no que não diz" - Carl Rogers), pela aceitação que não existem duas escolas iguais, nem grupos de professores iguais, o que impõe uma total autonomia pedagógica, por uma nova estrutura da rede escolar, porque escolas com mais de 400 alunos deixam de ser escolas para se tornarem fábricas, enfim, o que está em causa não é se ficou no lugar x ou y do "ranking", é verdade, mas sobretudo o que lá se faz que seja portador de vida e para a vida. Pelo caminho seguido corre-se o risco de, todos os anos, o "chefe" da Educação assumir que não liga "muito" ao que se passa debaixo dos seus olhos de actor/espectador.

A muita propaganda mediática sobre os manuais digitais, salas do futuro, robotização, páginas e páginas de "ponto e vírgula", exposições, atribuição de prémios no quadro de uma meritocracia balofa, tudo isto conduz ao desastre, porque não há uma interligação entre todas as áreas que compõem o sector(es) e porque não são conhecidos os objectivos finais de uma dada política. Impõe-se, por isso, uma reflexão que conduza à mudança estrutural do pensamento que caracteriza o sistema.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 17 de junho de 2023

Tecnologia na escola


Segui um uma peça integrada no Jornal Nacional da TVI. No essencial: "A Suécia está a tirar os computadores das escolas". A diversa tecnologia que tem sido considerada o novo lápis, papel e livro dos estudantes, numa leitura superficial, sofre agora um revés, porque, disse a ministra da Educação, "(...) estamos em risco de criar uma geração de analfabetos funcionais na Suécia". "Um em cada cinco professores garante que os alunos nunca ou quase nunca escrevem à mão", escutei na referida peça.


Ora bem, esta posição, deduzi na compaginação com outras leituras, parecendo drástica não o é. Destina-se a recentrar o equilíbrio que deve existir entre a tecnologia e a aprendizagem. Não se trata de um regresso ao passado, a um "apagão digital na escola", mas tão somente corrigir pressupostos assumidos como única e irreversível via.

Ao seguir a peça lembrei-me do que deixei escrito no meu livro "A Escola é uma seca", onde transcrevi a posição de Tony Bates (Microsoft): "o bom ensino supera uma escolha tecnológica pobre, mas a tecnologia nunca salvará o mau ensino". Por isso, não me foi estranho que uma das figuras que abordou este tema tivesse sublinhado: "Alguns dos maiores gurus da tecnologia estão a mandar os próprios filhos para escolas sem computadores".

Portanto, a tecnologia tem de ser mais um meio, importantíssimo, ao dispor da aprendizagem. O que tem de mudar, e há políticos que não conseguem ver e aceitar isto, é tudo quanto de forma estática e ultrapassada se anda a propor às crianças e jovens: os currículos e os programas desfasados da vida real, a questão pedagógica, a posição que os professores devem assumir perante o novo mundo (de facto admirável), a obsessão por uma avaliação de sentido único, a morte do sonho e a falta de respeito pelo talento que cada um transporta, a infernal burocracia que invade os estabelecimentos de aprendizagem, as noções de aula e de turma, no fundo, o que tem de mudar é um sistema que não se centra numa aprendizagem com significado.

Isto conduz-me a assumir, uma vez mais, que não é com os "manuais digitais" ou com "salas de aula do futuro", falando de robótica ou de qualquer coisa parecida que, a prazo, a Região disporá de uma maioria de alunos felizes (professores, também) e com uma acrescentada capacidade de resposta aos novos problemas. Transportar o manual segmentado e estático para dentro de um digital, mantendo a mesma mentalidade que tem caracterizado a aprendizagem, equivale à obtenção, no futuro, dos mesmos resultados senão piores dos que hoje são públicos e notórios.

Ou por ignorância ou por ausência de responsabilidade política, a verdade é que continuam a insistir na tecla errada. Melhor dizendo, continuam a dar uma "resposta certa para um problema errado". Aliás, qualquer pessoa compreenderá que quem vende a tecnologia dos "manuais digitais", posteriormente, venha assumir, em conferência, que este é um mau produto ou mesmo desaconselhável. O produtor de conteúdos deseja vender e, por isso, faz a propaganda que mais lhe interessa. Parece-me óbvio. E é isso que está a acontecer. Paleio em que uns vendem e outros aceitam a compra como mezinha para todos os males. Aliás, explicou o Doutor Santana Castilho, em declarações à RTP-Madeira, que "(...) Estudos feitos por centros de investigação e cientistas da neurociência concluíram que o desenvolvimento cognitivo dos jovens que tiveram um grande mergulho nas tecnologias digitais aos 11 anos está similar àquele que há 30 anos as crianças tinham com 8/9 anos de idade".

Ora bem, a desconfiança está lançada. E porque os sinais deixam uma acentuada perplexidade, bom seria que o governo da Madeira (e o do país) assumisse a necessidade de provocar uma grande mesa de diálogo (debate) com cientistas, professores universitários e todos os outros, investigadores, autores, psicólogos, sociólogos, enfim, com todos os que pudessem oferecer um sustentado pensamento sobre este tema. Fechar-se, como tem sido apanágio, em uma pressuposta verdade, equivalerá seguir um caminho com consequências desastrosas no futuro.

Proponho mas, confesso, que são limitadas as minhas esperanças. Nem de propósito, esta manhã, recebi um cartoon interessante onde uma professora pergunta a um aluno: "qual é o tempo verbal na frase... "eu procuro um político que trabalhe para o povo". Resposta do aluno: "tempo perdido". 

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Provas de aferição. Para quê?

 

Podia enunciar vários quadros que me conduzem à não aceitação das designadas "provas de aferição". Fico, apenas, por duas que se me afiguram adequadas ao meu pensamento. 



Primeiro, as "provas de aferição" constituem uma profunda desconfiança sobre o trabalho que é realizado nos estabelecimentos de aprendizagem. Aliás, hoje, é factual a existência de uma obsessão pela avaliação interna, porque o sistema está desenhado não no sentido da aprendizagem consistente, mas com as respostas pressupostamente certas às questões desenvolvidas nos manuais. E sendo assim, estando os estabelecimentos pressionados com a avaliação determinada pela linha hierárquica superior, a qual estende-se em cadeia desde o Conselho Pedagógico até ao Conselho de Turma, pergunta-se, que razões justificam uma aferição externa.

Mas admitamos que o sistema português, extremamente centralizador, seja a que nível for, não nutre confiança no trabalho desenvolvido nos estabelecimentos de aprendizagem. Admitamos isso que, aliás, é o que me parece existir. Neste caso, em segundo lugar, bastaria que, aleatoriamente, definissem um quadro de alunos que se sujeitassem à tal avaliação externa. E que podia não assentar numa verificação anual. Se a amostra revestir-se de natureza científica, adequada à população, estatisticamente, os resultados, com um alto grau de segurança, podiam(em) ser extrapolados para toda a população. 

Aliás, isto não tem nada de novo. Por mera comparação, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) é divulgado de três em três anos pela OCDE. Um programa destinado a aferir, no conjunto dos países e de forma aleatória, sobretudo os níveis de aprendizagem da língua, matemática e ciências.

E anda o sistema num constante rodopio anual que envolve a complexa organização escolar, quando, por outro lado, feitas as contas, grosso modo, desde o Básico ao Secundário, o aluno submete-se a cerca de 516 avaliações no conjunto de todas as disciplinas curriculares, fora muitas outras, algumas de natureza subjectiva, questiono-me, se existe algum sentido, numa escola séria, honesta, de rigor e qualidade, fazer aferições e até exames! Presumo que a hierarquia parte do princípio que os estabelecimentos não são sérios, honestos, rigorosos e de qualidade. Mais, ainda. A prazo, com o esbatimento do secundário face ao superior, os próprios exames de acesso, deixarão de ter as características que hoje conhecemos. A acessibilidade será totalmente diferente, dizem tantos investigadores situados no estudo sobre a aprendizagem compaginada com a vida real.

Tudo isto conduz-me a sublinhar o interesse de uma profunda reavaliação do sistema educativo, no sentido de ultrapassar posicionamentos assumidos como certos, para que se possa partir em busca de uma aprendizagem que respeite os talentos e os sonhos e que não (sobre)viva dessa desadequada e  obsessiva avaliação interna e/ou externa. Torna-se importante uma ruptura com o passado trazendo, prospectivamente, o futuro ao presente. E neste campo de análise, o que pensarão os líderes da Madeira Autónoma?

Ilustração: Google Imagens

Maioria dos alunos no ensino profissional continua a vir de meios mais desfavorecidos


Por
Daniela Carmo
Foto de Manuel Roberto
Público


No secundário, 45% dos alunos estão no profissional. Portugal está no 19.º lugar da tabela da UE com mais alunos neste ensino Público.


O ensino profissional foi inicialmente construído como veículo de inclusão social. São alunos que não querem ir além do ensino secundário, com baixo desempenho escolar e muitas vezes provenientes de um meio socioeconómico desfavorecido. Este é o grupo dominante de estudantes a terminar o ensino secundário pela via profissionalizante, ou seja, no ensino secundário profissional (ESP). A caracterização do perfil dos alunos do ESP é publicada hoje no estudo Como Valorizar o Ensino Secundário Profissional? Dilemas, Desafios e Oportunidades, desenvolvido pela plataforma Edulog, uma iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo, em colaboração com a Universidade de Aveiro.

Apesar do segmento dominante de estudantes, há dois outros grupos em crescimento: são eles os alunos orientados para o mercado de trabalho e os que pretendem continuar os estudos no ensino superior. A análise do Edulog debruça-se sobre os percursos de formação no ESP em Portugal, os constrangimentos e vantagens a ele associados, assim como sobre a imagem social deste tipo de ensino.

Inicialmente construído como veículo de inclusão social e de combate ao desemprego, descreve a análise, o ensino profissional evoluiu nas últimas décadas e a abordagem actual “é mais funcional e orientada para o capital humano”.

Quase metade dos alunos do secundário (45%) frequenta o ensino profissional, o que coloca Portugal no 19.º lugar do ranking europeu de países com mais alunos a frequentar esta tipologia de ensino, de acordo com os dados agora divulgados. Nos patamares mais acima estão países como a República Checa (73%), a Finlândia (71%), a Croácia e a Áustria (70%), a Holanda e a Eslováquia (69%), a Eslovénia (67%), e a Suíça (65%), com mais alunos no profissional. O ranking internacional consta do relatório intermédio Caracterização do Ensino e Formação Profissional em Portugal, Análise de Dados Secundários — 20152019, publicado em 2020.

Ao PÚBLICO, David Justino, membro do conselho consultivo do Edulog e antigo ministro da Educação, refere que “o estudo pretende ser um contributo” para a reflexão sobre o ensino profissional no secundário em Portugal, sobre o qual persiste ainda “um défice de imagem e pouca notoriedade social”, como refere o relatório.

“Há muitas escolas com ensino profissional, públicas e privadas, que estão a trabalhar muito bem. Elas existem um pouco por todo o país. Há que as incentivar, dotá-las dos recursos indispensáveis, aprender com elas e divulgar essas experiências bem-sucedidas. Eu diria que é urgente criar uma rede de escolas de referência, seleccionadas a partir de uma avaliação rigorosa do seu desempenho e do seu contributo”, abona David Justino quanto à imagem social do ESP.

No caso português, apesar da evolução, “os estudantes do ESP continuam a ser quase exclusivamente oriundos de segmentos menos favorecidos da sociedade”. Segundo informação disponibilizada pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), de 2020, e publicada no relatório, há alguns indicadores que têm vindo a marcar o ensino profissional em comparação com os estudantes do ensino regular: nesta tipologia, os diplomados têm uma idade média mais elevada, têm notas mais baixas (em concreto a disciplinas como Matemática, Português e língua estrangeira), e pertencem a famílias menos escolarizadas.

É por isso que o antigo ministro da Educação destaca “dois contributos inestimáveis” do ensino profissional: “Ajudou a reduzir os níveis de abandono escolar, contribuindo para a concretização da escolaridade obrigatória através de níveis cada mais elevados de escolarização da população mais jovem” e, por outro lado, “é um contributo para a qualificação dos recursos humanos e para o desenvolvimento económico em vários sectores que se têm distinguido na economia portuguesa”.

Quando analisado o nível de escolaridade dos pais dos alunos que escolhem a via profissionalizante no ensino secundário conclui-se que apenas 9% fazem parte de famílias com o superior como o nível de escolaridade dominante, estando a maioria inserida em níveis de escolaridades inferiores. A análise do Edulog deixa várias recomendações para a valorização do ensino profissional. Entre elas está a clarificação do perfil dos alunos do profissional. Além do grupo dominante de alunos, há outros dois grandes segmentos a optar por esta via.

O segundo grupo que mais alunos engloba é o dos estudantes cuja escolha pelo ESP é determinada pelas saídas profissionais e pela maior ligação ao mercado de trabalho. “São estudantes com bom desempenho escolar anterior, tendo uma preferência específica por uma determinada profissão, e que pretendem aumentar o sucesso na integração no mercado de trabalho”, refere o documento. A escolha pelo ensino profissional é determinada pelas saídas profissionais e pelos níveis de empregabilidade. Já o terceiro grupo, ao contrário dos restantes, não tem intenção de entrar no mercado de trabalho uma vez terminado o ciclo de estudos, mas, antes, no ensino superior. Os alunos vêem no ensino profissional uma ferramenta capaz de aumentar a probabilidade de entrada no ensino superior, “seja por facilitar a conclusão do secundário, seja por permitir a obtenção de médias finais mais elevadas”. De acordo com o relatório, trata-se de “um grupo ainda muito reduzido de estudantes, mas que se afigura como uma tendência crescente”.

Apesar do crescimento, estes dois últimos grupos de alunos são ainda minoritários. A percentagem de jovens que se inserem no mercado de trabalho após concluir o curso profissional, a maioria, é muito maior do que nos cursos científico-humanísticos. De acordo com os dados recolhidos, em relação aos diplomados entre 2010 e 2019, 38% dos alunos que concluíram o ensino secundário profissional estavam a trabalhar nos 14 meses após a conclusão.

Cerca de 43% dos estudantes que se formaram em Ciências, Matemática e Informática estavam empregados, em Serviços eram 36% e 35% em Engenharia, indústrias transformadoras e construção. Quanto aos alunos que seguem estudos no superior, segundo dados de 2021, quase três quartos das vagas da “via verde” para alunos do profissional ficaram vazios. São números que não surpreendem o antigo ministro da Educação. “Os cursos profissionais não foram concebidos para prosseguimento de estudos no superior. Foram pensados para a formação de profissionais qualificados prontos a entrar no mercado de trabalho”, reflecte. Vê com bons olhos a existência de uma via de acesso ao superior para os alunos dos cursos profissionais, “mas essa não é a finalidade central deste ensino”.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Ou mudam ou serão mudados!


Por 
Isabel Leiria
Jornalista
Expresso - 07.06.2023

“Se o mundo mudou, o ensino tem de mudar”: Tim Vieira queria uma escola sem turmas, salas de aula e horários. Conseguiu abrir mais de 40.



Brave Generation Academy é o nome do projeto fundado há três anos pelo empresário sul-africano para alunos entre os 11 e os 19 e que vai agora ser estendido à qualificação de adultos

A ideia já existia, mas ganhou força após uma volta ao mundo com a mulher e os três filhos. Regressado ao ponto de partida, Tim Vieira decidiu lançar mãos à obra e criar uma escola diferente, “mais relevante” para a sociedade atual, centrada nos alunos e menos na instituição. “Se o mundo mudou, o ensino tem de mudar”, explica o empresário nascido na África do Sul e radicado em Portugal, que acredita que “as crianças serão mais felizes se também lhes for dada a oportunidade de fazer o que mais gostam”, conciliando passatempos com o estudo e permitindo que se concentrem nas áreas que mais lhes interessam.

Tendo o currículo britânico por base, o primeiro hub da Brave Generation Academy (BGA) foi aberto no concelho de Cascais. Hoje são mais de 40, espalhados pelo país e frequentados por 700 alunos entre os 11 e os 19 anos. Não são escolas, mas espaços abertos, sem salas de aula numeradas, sem horários fixos, sem calendários e sem professores à espera que a turma se sente à sua frente.


Num dos dois hubs localizados na vila de Cascais, os alunos entram e saem de portátil na mão, sentam-se sozinhos ou em grupo nas diferentes divisões, à secretária ou num sofá, estudam quando querem e o que querem, ao ritmo que conseguirem, ajudando-se uns aos outros e orientados por “learning coaches” (uma espécie de treinadores de aprendizagem).

Se as dificuldades aumentam com algum conteúdo, entram em ação os “course managers”, professores que ajudam a tirar dúvidas e a seguir em frente na matéria. Não é ensino doméstico ou só presencial nem apenas online, mas um modelo híbrido que permite aos seus alunos acompanhar, através de uma plataforma digital, programas do currículo britânico segundo os horários que mais lhes são mais adequados aos ritmos de aprendizagem, explica Tim Vieira.

A BGA tem a acreditação de Cambridge como escola online e os alunos podem completar o chamado o “lower secondary” - equivalente ao 3.º ciclo português -, o International GSCE e os A-levels, correspondentes ao ensino secundário, e que são concluídos através de exames internacionais, reconhecidas instituições de ensino superior em todo o mundo e permitem equivalências para o sistema de acesso ao ensino superior português.

Entre as razões que têm levado pais portugueses e estrangeiros a residir em Portugal a escolher a BGA estão a maior flexibilidade, autonomia e capacidade de gerir o tempo, aponta o fundador da BGA.

“Todos os alunos têm de vir ao hub todos os dias, por cinco horas, entre as 8h00 e as 18h00. Mas eles escolhem a que horas querem vir. É importante terem esse sentido de responsabilidade desde cedo. Podem preferir ir fazer surf de manhã e só vir à tarde. Além disso, a escola está aberta praticamente o ano inteiro. Só para duas semanas em dezembro, pelo natal, e uma em abril, pela Páscoa”.


A mensalidade tem um custo de 485 euros por mês, mas são garantidas bolsas de estudo a estudantes que não podem pagar e mostrem ter o perfil para seguir este modelo de estudo, explica ainda o empresário, que conta abrir mais hubs em Portugal e no estrangeiro, incluindo nos Estados Unidos.
ESTUDAR NUMA UNIVERSIDADE ESTRANGEIRA EM PORTUGAL

Para já, o projeto da BGA vai ser alargado a outras idades, oferecendo formação a pessoas com mais de 18 anos em duas modalidades: cursos mais curtos que permitam reconverter e atualizar competências, em regime pós-laboral; e cursos de ensino superior em parceria com um conjunto de cerca de 150 universidades estrangeiras com quem a BGA tem parcerias.

Nesta última modalidade, a licenciatura é obtida através da frequência dos hubs da BGA em Portugal nos dois primeiros dois anos do curso e só o terceiro é feita na universidade parceira, com a vantagem de permitir às famílias poupar nos custos da deslocação, destaca Tim Vieira.

terça-feira, 6 de junho de 2023

TRÊS DIAS, TODOS OS MESES, TODA A VIDA COM A CRIANÇA...






Passaram-se os três dias ímpares e, dentro deles, a ponte que une um ao outro os meses do ano – de 29, 31 de maio a 1 de junho – e quem encheu o palco das horas ininterruptas?... A Criança, a Educação dela e a Comunidade!

Ao invés de ‘normalidade’ dos eventos que se esgotam na espuma do efémero, o acontecimento que ocorreu no último fim-de-semana em Machico (com o modesto título de ‘Seminário’ na forma, mas merecedor da genuína definição de ‘Simpósio’ em fundo) deixou um rasto luminoso que se projecta pelos meses e pelos anos fora, por toda a vida, já porque a tríade ‘Criança-Educação-Comunidade’ é indissociáveel do algoritmo existencial, já pela amplitude e proficiência com que foram tratados os seus conteúdos.

Em breves linhas tentarei sintetizar a magnitude da iniciativa que congregou uma mão-cheia (uma prestimosa dezena) de docentes e promotores da Educação, a que se juntaram os destinatários e protagonistas, as muitas dezenas de discentes, desde a mais tenra idade que, or direito próprio, ocuparam a ribalta privilegiada do palco, como que concretizando em música e dança o esforço pedagógico dos seus educadores.

Nesta escala ascendente da descoberta evolutiva da personalidade, o Pro. Doutor Mário Fortes, da Universidade da Madeira, agitou o auditório com a ‘provocatória’ interrogação – ESTAMOS A MATAR TALENTOS? - em cuja intervenção pôs em causa a didáctica expositiva do ensino tradicional, fechado nas quatro paredes da uma sala e, por isso, redutora, senão mesmo castradora, dos talentos naturais e da criatividade que toda a criança traz consigo desde o seio materno. Ao ouvir o Prof. Fortes, ocorreu-me o código ‘vanguardista’ do nosso conterrâneo Prof. André Escórcio, no seu livro “A ESCOLA É UMA SECA”, onde preconiza um outro, inovador e libertador, módulo de ensino, precisamente orientado para promover o desenvolvimento das aptidões inatas dos alunos. Neste entendimento, refere Mário Fortes, o professor deve despir a veste de ‘Magister’ para assumir a modesta, mas nobre, missão de ‘Tutor’.

A actuação de várias turmas das Escolas de Água de Pena, Machico e Sant’Ana e o desempenho do ‘Grupo Cordofones A Caçoar’, de Santo António da Serra, confirmaram o espírito criativo, a graciosidade rítmica, a leveza infantil que lhes dão ânimo e nos transmitem saúde, esperança no futuro.

A prova real da autonomia dos estabelecimentos escolares aliada à força afirmativa das populações ficou em evidência plena no testemunho vivo do Pro. Doutor Bravo Nico, da Universidade de Évora, que relatou ao ‘Seminário’ o potencial de resiliência de um restrito aglomerado populacional alentejano – São Miguel de Machede – desprovido, ambora, dos mais elementares equipamentos sócio-culturais conseguiu ultrapassar barreiras, suplantar dificuldades insuperáveis e catapultar-se até aos níveis do Ensino Superior, valorizando todos os segmentos da actividade local, desde a literacia à informação, à economia e ao trabalho - um programa totalizante que substitui o aleatório “eles” pelo personalizado “nós”, ou seja, o apelo à dinâmica endémica do local em vez da mão estendida à intervenção de terceiros alheios à comunidade.

Integrante à “Educação em Comunidade” emerge a incontornável VIA PARA A SUSTENTABILIDADE, focalizada neste concelho que o Mestre Marco Teles, da organização municipal ‘Ecos Machico’, cujo objectivo consistiu em chamar a atenção das camadas jovens para a preservação do património natural e arquitectónico do município.

E porque, como dizia Louis Pasteur, “diante de uma Criança sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é e cheio de respeito pelo que poderá vir a ser mais tarde” – aqui ouso adicionar, cheio de espanto e medo – o Seminário trouxe um horizonte, a um tempo, estranho e surpreendentemente inclusivo, titulado TRÉGUA: A RECLUSÃO DE OLHOS POSTOS NO FUTURO, a cargo da Mestre Catarina Claro, da ‘instituição ‘Casa Invisível’, uma entusiástica viagem pelos caminhos desviantes da Criança de ontem, hoje Recluso de hoje, onde se num condenado às prisões se descobrem talentos e anseios de uma vida nova na construção da Comunidade, expressos naquele sentido mural, à saída da cadeia da Cancela, “Nós não somos os nossos erros”..

No crescimento civilizacional das nossas gentes, a Profª. Doutora Luísa Polinelli, da Universidade da Madeira, situou-se no patamar da CRIATIVIDADE E LITERACIA MEDIÁTICA, um acurado manual de ‘Didáctica Militante’, para escapar à pseudo-cultura da ‘informação em panados’ e ganhar a ‘capacidade de não perder-se na navegação total, observando o ‘princípio da relevância, pelo qual nos tornamos interacores críticos, conscientes’.. Na sua dissertação, senti-me conduzido às fontes inspiradoras do “Prazer do Texto” ou “Pazae de Ler”, na esteira de Roland Barthes.

Quase no vértice da evolução educativa, os docentes participantes no evento foram brindados pela brilhante intervenção do Prof. Doutor José António Moreira, da Universidade Aberta, que através da EDUCAÇÃO DIGITAL PARA O EMPREENDEDORISMO provou a positividade da denominada Inteligência Artificial, explicitou, contra os opositores publicamente declarados, que a I.A. não má nem é boa, tudo ‘dependente do uso que dela se faz, bem como das múltiplas redes comunicacionais hoje existentes’.

A culminar a iniciativa do Município, a Profª Doutora Liliana Rodrigues, da Universidade da Madeira, abriu as fronteiras da etapa maior da aprendizagem global, apresentando as linhas gerais do Mestrado e Doutoramento que dirige na cátdra da EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO REGIONAL, uma comunicação seguida com particular atenção pelo auditório e digna de mais ampla apreciação neste blogue.

Ao Prof. Doutor Jacinto Jardim, da Universidade Aberta, líder do projecto “Piratas dos Sonho” que tem dinamizado desde o “I Seminário”, agradecem os docentes e a população de Machico o valioso contributo que tem dado ao magno Plano de construção do Futuro, a começar pelo berço da vida, as Crianças, “o melhor que o mundo tem”.

À Câmara Municipal os parabéns por ter feito a opção mais alta e segura que todos os volumes de betão, qual seja a “EDUCAÇÃO EM COMUNIDADE, POR UM NOVO COMPROMISSO EDUCATIVO”, o mais belo preâmbulo para as comemorações do Dia Mundial da Criança na Madeira, razão pela qual decidi ocupar os três dias ímpares na ponte pênsil que liga Maio a Junho.

29-31.Mai. 1.Jun. 23
Martins Júnior

domingo, 4 de junho de 2023

JOANA VASCONCELOS


Segui a entrevista a Joana Vasconcelos, conduzida por Goucha no programa "Conta-me". Conheço a sua Obra, a dimensão mundial que tem, mas esta entrevista teve o condão de a descobri naquilo que é como Mulher, como pessoa e pelo pensamento estruturado que a acompanha. Fiquei rendido. Entre muitas passagens, gostei deste seu posicionamento:

Que mundo é este que vive diariamente, perguntou Goucha.
Eu fui educada no gosto pela beleza (...) Eu vivo no mundo do sonho, do mágico onde criamos realidades que não existem, de projectos que nunca foram feitos, onde de qualquer maneira construímos todos os dias um futuro diferente."
Não há limites para a criatividade, para o sonho... retorquiu Goucha. 
Não.

O que terá isto a ver com a Escola que temos, pensei!

A sua última Obra, "A Árvore da Vida", via há duas semanas, na Saint Chapelle do castelo de Vincennes, nos arredores de Paris. Um trabalho fantástico, do qual deixo aqui um breve vídeo, embora não deixe transparecer a monumentalidade e todo o trabalho de pormenor.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Quadros de honra “para inglês ver”










Por
Ana Catarina Mesquita
Professora e Investigadora
Jornal PÚBLICO - 30.05.2023



A diminuição da exigência a que assistimos diariamente no ensino público conduz a situações, no mínimo caricatas, em que, em algumas turmas, chegamos a ter metade dos alunos no quadro de honra. Como é isto possível, pergunto-me? Temos 15 Einsteins numa turma e os outros 10 são os falhados?

Como é do conhecimento geral, os quadros de honra, de há uns anos a esta parte, constituem uma realidade de várias escolas/agrupamentos escolares, gerando polémica. Estes quadros têm como objetivo premiar a excelência, fomentando o empenho dos alunos e um aproveitamento excelente a todas as disciplinas.

Pergunto: mas os alunos têm mesmo de ser excelentes a tudo? Parece-me difícil… Um aluno que, por exemplo, seja ótimo na disciplina de português e exímio na matemática, mas não tenha aptidão para as artes, é menos digno de pertencer a um quadro de honra? Ou o contrário! Os alunos, por natureza, revelam tendência para determinada(a) área(s), sendo que muitos deles demonstram competências brilhantes a áreas específicas. Então, imaginemos que um aluno que redige textos brilhantes, os melhores daquela escola, ou um aluno que revela competências desportivas irrepreensíveis. Estes alunos devem ser excluídos do quadro de honra, porque não tem tão boas notas às restantes disciplinas?

Tudo isto goza, na verdade, de muito pouca lógica. Ou seja, estamos a premiar, no fundo, o quê? Um concurso para ver quem tira melhores notas a tudo? Com que objetivo? O que ganham os estudantes com isso? Definitivamente, acaba por ser fomentada uma competitividade não desejável entre os alunos. A competição connosco mesmo, dentro de limites racionais, pode ser algo ótimo, que nos impele a ir mais longe na conquista dos nossos sonhos e objetivos. Isso é positivo. Mas e a competição desenfreada com colegas, como se de rivais se tratassem? Julgo que só conduz a que se perca a cooperação entre os alunos.


Por outro lado, onde fica a valorização das atitudes diárias, o respeito pelos professores, pelos colegas, por funcionários, enfim, por toda a comunidade escolar? Um aluno que luta com dificuldades para ter boas notas, mas que não consegue a excelência a todas as disciplinas, sendo, no entanto, um exemplo de conduta, deve ser excluído de um quadro de honra, como se da ovelha negra se tratasse? Parece-me que a resposta é óbvia, pelo menos na minha ótica.

Outro aspeto a ser considerado é a existência de desigualdades sociais no acesso a recursos de educação fora do espaço escolar e que estes quadros de honra só evidenciam. Efetivamente, se uma disciplina for muito exigente ou um professor for menos competente, os alunos que tiverem condições financeiras para obter apoio fora da escola terão, certamente, mais facilidade em brilhar nessa área do conhecimento, sendo que os restantes ficarão, logicamente, mais para atrás. O que quero com isto afirmar é que estes quadros de honra acabam por não avaliar conhecimentos adquiridos apenas no espaço escolar, mas envolvendo valências que ultrapassam o mesmo.

Paralelamente, fomentam algo que considero perigoso para o futuro dos alunos: a ilusão de que já fizeram o suficiente e de que não é preciso trabalhar mais para atingir objetivos mais ambiciosos. Na verdade, hoje, em dia, a diminuição da exigência a que assistimos diariamente no ensino público, em relação ao que acontecia no passado, conduz a situações, no mínimo caricatas, em que, em algumas turmas, chegamos a ter metade dos alunos no quadro de honra. Como é isto possível, pergunto-me? Temos 15 Einsteins numa turma e os outros 10 são os falhados? Parece-me muito pouco verosímil… Além de se criar uma ideia errada do que é a excelência e do que a mesmo abarca, podemos levar os 10 alunos que ficaram de fora do quadro de honra a perderem confiança nas suas capacidades, como se valessem menos do que os outros, e isto é inconcebível.

Pelas razões apontadas e por outras que poderiam ser referidas, não consigo encontrar razões sólidas que justifiquem a manutenção destes quadros de honra, que, na minha perspetiva, não apresentam critérios coerentes, apenas promovendo a competitividade e a ilusão, e não contribuindo em nada para a criação de valores realmente relevantes para a sociedade.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Tenham consciência... a vossa política educativa está errada!


A edição de ontem do Jornal Público, assinado por António Pedro Pereira, traz um texto com o título "A tecnologia tem de estar ao serviço do aluno, que ainda é o futuro da educação". A peça fala da Escola de Alcanena, no âmbito de "Perguntar Futuro". "À boleia deste tema, Tim Vieira, fundador da Brave Generation Academy, e Ana Cláudia Cohen, directora do Agrupamento de Escolas de Alcanena, lançam-se ao futuro com entusiasmo. Com o aluno no centro das políticas educativas e no papel de agregador de forças comunitárias", salienta o jornalista.



Assume a directora do Agrupamento de Escolas de Alcanena, "(...) as escolas inovadoras conseguem pôr os agentes a trabalhar em prol de uma sociedade madura" (...) Centrar a educação no aluno é colocar o foco nas comunidades, permitindo uma partilha das responsabilidades e assim formar melhores alunos. Por seu turno, sublinha Ana Cláudia Cohen: "Colocámos os alunos a olhar para problemas que os circundam e a resolvê-los". E explica: "A aprendizagem tem de se fazer também fora dos muros da escola e, quando trazemos a comunidade científica e empresarial, então somos bem-sucedidos. Nesta equação, é importante ouvir alunos. Se queremos uma civilização transformadora, temos de saber como aprendem e como é que os professores conseguem ensinar".

Depois, são os "alunos que escolhem projectos com base na comunidade próxima e alargada", e chega-se, assim, a patamares superiores de evolução e cidadania. Tim Vieira olha para o futuro com os mesmos valores. 

"A escola tem de ser mais personalizada, não pode ser feita para todos, mas para cada aluno, e temos as tecnologias para ajudar neste processo”


- diz o fundador e CEO da Brave Generation Academy (BGA), que surgiu em Portugal e está presente em vários países com um sistema de ensino diferenciado.

"Vejo a escola a mudar bastante, o secundário e a universidade a ficar só um, a fundirem-se, não vamos ver diferenças. A educação não vai ser vista por idades, mas por maturidade, em função do interesse e da velocidade a que cada um vai”, antevê.


E, tal como Ana Cláudia Cohen, prevê que o grande foco será na formação psicossocial do aluno. 

"Vamos ter mais uma educação por projecto e menos por avaliação. Hoje, os alunos precisam sobretudo de ser mais criativos, de saber convencer pessoas. Isto é aquilo de que vamos precisar mais”, diz, sublinhando o papel do agente agregador que o aluno tem de ter." 


"A escola do futuro será mais personalizada, mais flexível", sintetiza Tim Vieira. 

"Os professores terão de ser cada vez mais virados para as pessoas e não tanto para o conteúdo e de ter mais competências psicossociais, professores mais jovens e mais velhos, uns mais criativos e outros com muita experiência de vida”, conclui.


O que significa que o sistema educativo nacional, onde se incluem as regiões autónomas, está errado. Por aqui, não é com o folclore político dos manuais digitais, das salas do futuro e dos disparos no âmbito da Inteligência Artificial ou da robotização, tudo com pés de barro, que a Escola, a verdadeira Escola de Aprendizagem compaginada com a VIDA, com os interesses das novas gerações e com as exigências que estão aí ao virar da esquina, conseguirá dar passos consistentes em direcção ao futuro. Tenham, pois, consciência: a vossa política educativa está errada. Melhor dizendo: constitui uma boa resposta para um problema errado.

Ilustração: Google Imagens

terça-feira, 30 de maio de 2023

A ESCOLA E A DECISÃO DE PROMOVER UMA APRENDIZAGEM PORTADORA DE FUTURO

 

Na página de FB do Dr. Varela de Matos li um interessante texto  no que concerne aos formatos pedagógicos, melhor dizendo, entre o que a escola portuguesa é e aquela que deveria oferecer às crianças e jovens portugueses. No essencial, o texto compara a Educação tradicional da escola pública com aquela que os reis de Espanha estão a proporcionar às suas filhas. No caso concreto o da Leonor, herdeira do trono. Confesso que não conheço a história e o seu percurso em pormenor, nem tratei de estudá-las, porque o que aqui me traz resume-se a alguns aspectos da sua formação, os quais vêm ao encontro do que defendo para todos.



Diz o texto que o programa de formação de Leonor contemplou, numa escola escocesa, a filosofia, a literatura, as ciências naturais, as línguas, o ambiente e o teatro. Escola essa onde "não são utilizados computadores". E com toda a certeza, digo eu, Leonor não é uma info-excluída. Leonor, agora com 18 anos, passou por "um curso interdisciplinar comum sobre teoria do conhecimento e uma monografia com carácter de investigação. Participou num programa especial de criatividade com formação em teatro, música, arte, desportos e serviço à comunidade, apoio a escolas locais, trabalho com crianças com incapacidade intelectual, terceira idade e primeiros socorros" (...) Que trabalhou na "aquisição de conhecimentos de manutenção de costas e bosques, controlo de índices de contaminação do meio ambiente e recuperação de espécies animais (...) teoria do conhecimento, com livros, cultura, arte e vida na comunidade (...) trabalho de grupo com relações reais e não virtuais". No verão, campos de férias. Conclui o texto que a futura herdeira do trono, doravante, fará três anos de instrução militar, no exército, na marinha e na força aérea."

Salvaguardando que se trata de uma situação muito específica de uma jovem que, desde cedo, está a ser preparada para um dia exercer as mais altas funções de figura do Estado, o que sobressai desde conjunto de preocupações, é que bem poderiam ser os desígnios de toda a população escolar, notem bem, a filosofia, a literatura, as ciências naturais, as línguas, o ambiente, o teatro, a teoria do conhecimento, a criatividade, a música, a arte, os desportos, o serviço à comunidade, o apoio a escolas locais, o trabalho com crianças com incapacidade intelectual, terceira idade e primeiros socorros. Com um acento tónico nas "relações reais e não nas virtuais".

É esta mudança de paradigma que Portugal precisa. Centrar-se, cegamente, nos currículos e programas, estanques e desarticulados, é extremamente limitador. E não é com "salas do futuro" ou com "manuais digitais" que se adequa a formação que corresponda a uma efectiva resposta ao mundo que estamos a viver, tampouco o sistema conseguirá responder aos talentos e vocações que todos transportam. Repito o que ainda há dias aqui desenvolvi: é pela CULTURA transversal e integrada que o sistema deve seguir, jamais pela teimosa e incoerente segmentação das disciplinas, decompondo a totalidade da vida (aprendizagem) em partes, quando a própria vida funda-se na integralidade e na universalidade. De que serve, pela enésima vez pergunto, decorar as respostas insertas no manual (agora digital) se, por um lado, se destinam ao esquecimento após um teste, por outro, normalmente não visam a transferência para novas situações?

Vive-se, obcecadamente, o débito da matéria que consta dos programas, depois, a avaliação e, por fim, um falso mérito, onde, pasme-se, já se entregam prémios pecuniários àqueles que, no entendimento de alguns, foram os melhores. Tudo isto passando ao lado da total heterogeneidade da escola e da palavra conhecimento. Formatar é uma coisa; formar é outra! É por isso que o notável Filósofo Edgar Morin, hoje com 102 anos, se apresenta com a lucidez que faz corar de vergonha tantos "politicozinhos": "A escola mata a curiosidade (...) instigar a curiosidade da criança é a melhor forma de despertá-la para o saber (...) se vivemos em um mundo complexo e interligado, e novas informações nos fazem, a toda hora, mudar de planos, por que a escola ainda teima em ensinar certezas e conhecimentos que parecem únicos e absolutos? A educação ainda não está fazendo sua parte. O sistema educativo não incorpora essas discussões e, pior, fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade. As disciplinas curriculares "eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação. A educação deveria romper com isso mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem. Caso contrário, será sempre ineficiente e insuficiente para os cidadãos do futuro."

O Professor David Rodrigues publicou um texto, tem já algum tempo, onde explicita: "(...) Afirma-se que os jovens devem ser empreendedores, dinâmicos, criativos, autónomos, capazes de resolver problemas (...) mas defende-se a escola transmissiva, directiva, estrita e uniformizadora". Só em redor desta síntese, sinónima de contradição absoluta entre o que é e o que deveria ser, torna-se exigível que os governos se pronunciassem sobre que escola afinal querem! Mas não, enquanto governantes, demonstram que não entendem que o "insucesso da escola é também o insucesso da organização da vida". Pois é, regresso a Mark Twain: "(...) para quem só tem um martelo como instrumento, todos os problemas parecem pregos". Ademais, a Educação não pode ser um negócio (salas do futuro e manuais digitais), tampouco pode ser um instrumento político-ideológico com os olhos colocados na dominação. E esta existe, é factual se analisarmos os dados estatísticos.

E portanto a pergunta fica: perante isto, como pode o secretário regional da Educação da Madeira assumir (ontem) que esta escola "dá resposta a cada um dos nossos alunos, porque permite que cada um concretize o seu projecto de vida e os seus sonhos"? Só pode estar a brincar como se todos os presentes naquela plateia fossem mentecaptos. Não só não dá resposta, como mata os sonhos e justifica o provadíssimo desencanto dos alunos, o "Bernout" dos professores, as inúmeras iliteracias, mostrando-se, por outro lado, que está em contraciclo ao que dizem notáveis investigadores, pensadores, a inúmera bibliografia publicada, os bons e prestigiantes exemplos em vários países e em muitos estabelecimentos de aprendizagem, inclusive, em Portugal. 

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 23 de maio de 2023

É pela cultura que a aprendizagem se faz


Vi-os por todo o lado e lembrei-me, vezes várias, por aproximação, de Carlos do Carmo: "(...) Parecem bandos de pardais à solta". Uma vez mais, vi-os em catedrais, museus, palácios, praças, por todo o lado grupos de alunos com professores, à descoberta do que se estende para além do que a vista alcança. Vi-os alegres, vivos, interessados, tirando notas e sentindo o pulsar da verdadeira vida que não se resume àquele espaço, por vezes mórbido, da sala de quarenta metros quadrados, onde o mundo se fecha nos cubículos labirínticos dos currículos e programas impostos. Por vezes exclamei: é pela cultura que tudo o resto trazemos por arrasto. Estes alunos estão a escrever o seu futuro!



Não essa cultura sinónima de um conhecimento profundo e específico sobre qualquer área, mas aquela que absorvemos, integramos e que permite a leitura do mundo, a plasticidade de compreensão e o transfere para tudo o resto. Um exemplo comezinho: mais do que saber datas históricas, interessa perceber e conjugar a compaginação dos temas ao longo dos tempos. De resto, tudo na vida se apresenta interligado. Portanto, mais do que saber e papaguear o manual escolar com o fim último de responder ao que consideram certo (!), a cultura permite uma visão dialéctica no quadro das contradições. E por aí tudo se aprende. 

Não os vi de tablet entre mãos, vasculhado o manual digital, antes olhando e certamente reflectindo, com a importante e potenciadora presença dos tutores, a vida e toda a ciência em unidade. Não os vi sentados a escutar, voltados para a frente e em atitude não desestabilizadora, interminavelmente, o professor a debitar seja lá o que for do manual. E num determinado momento, quando vi um desses "bandos" de crianças, talvez em idade equivalente ao pré-escolar português, no museu do espantoso escultor francês Auguste Rodin (1840/1917) confirmei que a aprendizagem se conduz por aí, negando a segmentação das disciplinas nessa visão tendencialmente unívoca e estática, antes compaginando o que se vê com tudo o que rodeia e que dela faz parte. Até onde nos pode levar, de forma integrada, pergunto, Le Penseur de Rodin!

E assisto a adultos que atafulham em manuais digitais (que outros países já abandonaram) um pressuposto conhecimento, criam, pomposamente, "salas do futuro", quando a grande sala de aprendizagem não tem paredes, não tem tecto, não tem cadeiras nem mesas, faz-se em qualquer sítio ligando intimamente tudo. Não significa que a sala (tradicional) também não seja importante para a aprendizagem e descoberta, predominantemente em grupo, mas a vida real é muito mais que disciplinas conjugadas com aquela obsessão pelas avaliações, relatórios e processos burocráticos absolutamente discordantes da importância de dar asas aos talentos e aos sonhos de cada um. Ao contrário de um fatinho à medida de cada um, continuam a preferir a fábrica que produz um único fato para todos.

Tanto que gostaria de ver "bandos de pardais à solta" pelas nossas cidades escrevendo o seu futuro!

Ilustração: Google Imagens

sexta-feira, 28 de abril de 2023

A pressa que descamba na queima de etapas

 

Por outras razões já aqui trouxe o nome de Peter Drucker. Estávamos nos finais dos anos 80 quando li um seu livro que, a páginas tantas, falava que a década seguinte seria a da "cultura da pressa e do nanosegundo". Articulado que esta sua posição, um outro guru da gestão, Tom Peters, enalteceu que doravante só teríamos dois tipos de gestores: "os rápidos e os mortos". Certo é que a aceleração em todos os sectores foi tal que, aos poucos, veio influenciar a instituição Escola e as correspondentes etapas da aprendizagem. A Escola foi, claramente, contaminada o que fez esquecer que o ser humano é o animal que mais longa infância tem. Por algum motivo será!



Eu diria que trouxeram para dentro da escola as taras da sociedade, talvez melhor dizendo, essa cultura da pressa, traduzida na competição, na meritocracia, no diploma, no quadro de honra que é a desonra de muitos outros, nos prémios pecuniários, nas várias avaliações onde radiografam a criança e nas cerimónias das "capas de fim de curso", logo nas primeiras idades. 

Raros são aqueles que olham de forma crítica para a situação que o sistema está a oferecer. Bastaria que os decisores políticos tivessem alguma formação, mesmo que ténue, sobre os estádios do desenvolvimento cognitivo. Bastaria alguma predisposição para a leitura, entre muitos outros, cito-os de cor, Piaget, Vygotsky, Wallon, Claparéde, Alain, Gross, Montessori, Chateau, Freire, Niza, Pacheco, até aos fundamentais livros publicados em Portugal pelo Professor Carlos Neto, Professor Jubilado da Faculdade de Motricidade Humana. Há centenas de autores, talvez milhares, inclusive portugueses, com uma produção científica respeitadora das necessidades da infância. Trago em memória Jean Chateau (1961), autor do livro A Criança e o Jogo que, logo na página 7, enaltece: "(...) o ser mais bem dotado é aquele que mais joga". Ele não escreveu que o ser mais preparado para as etapas futuras da vida é aquele que "aprende" a ler aos três anos! A leitura tem de ser outra. Talvez, com um pouco de estudo, não se cometeriam tantas barbaridades e atropelos.

Tanto assim é que, há dias, no decorrer de um diálogo, escutei: ela tem apenas dois anos, já conta até 20, identifica as letras do abecedário, já começa a somar parcelas e por aí fora! Porventura já ensaia os primeiros acordes no piano ou na guitarra, imaginei. Creiam que fiquei apavorado com esta cultura da pressa, com o desejo de tornar a infância numa quase obrigatoriedade de saber as ditas "coisas da escola"! E todos ficam contentes, de pais a avós, pela antecipação precoce das etapas. Esta forma de estar e de entender a infância generalizou-se nas famílias, sobretudo nas economicamente mais favorecidas ou estáveis, que corresponde a uma ânsia de queimar as etapas do crescimento e do desenvolvimento. Eu diria que, hoje, as primeiras etapas da infância estão a tornar-se num perigoso "castigo". 

Nem os decisores políticos nem os pais e avós sabem que "(...) há uma correlação muito forte entre as crianças que brincaram muito e adultos empreendedores e felizes", sublinhou o Professor Carlos Neto, para quem "o acto de brincar não é uma coisa menos importante, pelo contrário, deve ser assumido como primordial no desenvolvimento saudável de qualquer criança e de futuro adulto. De uma forma frontal, em 2015, ele chamou à atenção que "(...) estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável", pelo que o seu livro "Libertem as crianças" constitui uma espécie de "grito de alerta para os pais e educadores".

Mais do que saber o abecedário ou de contar até 20, importante é olhar para a iliteracia motora, porque há muito que "o corpo está esquecido na escola", enalteceu Carlos Neto. Há um estudo elaborado por Carol Kolyniak que situa bem este problema: "(...) a prática observada na grande maioria dos estabelecimentos escolares evidencia a centralização das intervenções pedagógicas na construção de abstrações conceptuais, especialmente no que se refere à língua escrita, ao raciocínio lógico-matemático e às ciências exatas, naturais e humanas. Tais práticas vêm recorrendo, quase que exclusivamente, ao trabalho em sala de aula, em situações de relativa imobilidade, exigindo dos alunos quietude e concentração, desde os primeiros anos da escolarização. A progressiva universalização da educação básica vem evidenciando as insuficiências da metodologia de ensino que recorre, quase que exclusivamente, à atividade mental, mantendo os alunos em relativa imobilidade. Tais insuficiências revelam-se nas inúmeras dificuldades de aprendizagem apresentadas por muitos estudantes, que têm redundado em abandono da escola ou, mais recentemente, na conclusão da educação básica sem apropriação de conhecimentos básicos, como a leitura, a escrita e o cálculo aritmético (...)".

E o problema, dramático, é que todos os actuais ciclos de estudo enfermam desta "doença" assente no pensamento curricular e programático. Predomina essa cultura da pressa, a falsa aprendizagem, a ilusão de uma consistente preparação para o futuro, consequentemente a pressão exercida sobre os educadores, os professores, as extensas folhas com dezenas de itens avaliadores e a imposição de relatórios que não servem para nada. Queixam-se, depois, ainda na etapa básica, que muitas crianças, sejam catalogadas de hiperactivas e portadoras de défice de atenção. Pudera, porque aquilo que lhes é exigido é a antítese da natureza das primeiras idades.

Seria bom que não nos esquecêssemos que a educação não é para ontem é para amanhã. Pressa para quê? Respeitem a cadência do tempo.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Chega de vergonha, a comunicação social e a Escola

 

O que se passou na Assembleia da República (25 de Abril) através do "partido político" Chega, não apenas o envergonhou, mas envergonhou a esmagadora maioria dos portugueses, quando foi Portugal que convidou, sublinho, para a nossa casa, o Presidente da República do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva. Tratou-se de um acto vexatório, de desonra, eu diria mesmo, indecoroso, que nada tem a ver com o exercício da política feito de oposição mas com decência. No dia evocativo da conquista da Liberdade, um partido demonstrou não ter um mínimo de decoro e de respeito o que, para mim, significa ser inferior no quadro da democracia. 



Aliás, se já estavam bem definidas, neste 25 de Abril, as suas atitudes demonstraram, claramente, o sentido da sua existência: um partido de protesto rasca, jamais um partido de proposta séria. 

Bem disse o Coronel Vasco Lourenço, um dos operacionais do 25 de Abril de 1974, que nesse tempo "soubemos travar o ELP" - 1975 (Exército de Libertação de Portugal, organização terrorista de extrema-direita criada por Barbieri Cardoso (ex-subdiretor-geral da PIDE/Direção-Geral de Segurança), hoje, tal como ontem, sublinhou Vasco Lourenço, é povo que tem de travar este tipo de organização que esconde os verdadeiros objectivos e que, portanto, não se enquadra nos parâmetros de uma Democracia adulta e civilizada.

Há tanta forma de discordar, de fazer oposição e de propor novos caminhos. Há lugares e momentos para o fazer, nunca numa sessão solene de boas-vindas a um Chefe de Estado de um País com o qual temos uma História comum e centenárias ligações afectivas e empresariais. A questão é determinarmos por que razão se chegou a este ponto. Por que razão, ainda que escassa, uma determinada percentagem eleitoral segue esta lógica de descontrolada berraria? 


Ora bem, não sendo eu sociólogo, nem tendo estudado, profundamente, esta tendência para a radicalização discursiva e o afrontamento, venha de que quadrante político vier, atrevo-me dizer que tudo isto não surge apenas por um certo descontentamento popular. Obviamente que tem outros contornos vastos e bem evidentes, a avaliar pelo que se passa em vários países, com o despontar de figuras (entre outros, Marine Le Pen, Alice Weidel e Alexander Gauland, Matteo Salvini, Jussi Halla-aho, Viktor Órban, Santiago Abascal, Trump, Bolsonaro), e com ataques e mortes perpetrados por essas "sementes" populistas que varrem não apenas a Europa mas um pouco por todo o Mundo. Daí que, sustento eu, só existam três formas de conter esta escalada, pelo menos no nosso país: 1. através do combate democrático, nas instituições próprias, estabelecendo princípios e valores que a Democracia e a concomitante liberdade jamais possam considerar como linhas ultrapassáveis; 2. com a responsabilidade da comunicação social que deve deixar de ir à procura de "sangue"; 3. preventivamente, a Escola, mais do que exigir definições para esquecer, eduque para a cidadania. Aliás, a tarefa da escola está por realizar. É evidente um vazio, quando estas questões delicadas e profundas não podem ser do tipo toca-e-foge, isto é, falar o mínimo, não debater e não questionar para além de uma certa treta programática. Quando assim acontece significa que estamos a deixar caminho aberto para a incapacidade de ver à distância o que alguns pretendem. Porque LIBERDADE não significa LIBERTINAGEM.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

"O melhor ensino de Portugal é aqui"

 

A frase foi dita ontem pelo Senhor presidente do governo regional da Madeira, no decorrer de uma visita a uma denominada "sala do futuro", no âmbito, li, da criação de "ambientes inovadores de aprendizagem". "O melhor ensino de Portugal é aqui", disse, no ensino em geral, nas artes e no desporto. Fiquei estarrecido face à sua continuada preocupação pela "inteligência artificial"! Fez-me lembrar o saudoso Jornalista Carlos Pinhão (A Bola) na sua página de corrosivo humor e que eu trago sempre em memória.



Na altura do Professor Carlos Queirós, quando Portugal ganhou vários títulos no futebol jovem, escreveu mais ou menos isto: "(…) somos os melhores do mundo em sub-20, os melhores da Europa em sub-18 (…) somos os melhores em subdesenvolvimento".

Pois, há governantes que têm uma tendência para ver uma fotografia 10x15 em 18x24. Pessoalmente tento ver a realidade despida de sentidos político-partidários. Porque com a Educação não se brinca! E eu que sou, visceralmente, contra os "ranking's" na educação, porque só se pode comparar o que é comparável, para este efeito, enquanto mero indicador, podia o Senhor presidente passar os olhos pelos "ranking´s" nacionais para verificar, de uma maneira geral, a posição que os estabelecimentos da Madeira ocupam. Com toda a certeza que não diria o que afirmou.

Mas quanto às declarações eu percebo-as no quadro da propaganda política. Mas isso não deixa de incomodar e de revelar desconhecimento do que deve ser uma política educativa de qualidade e portadora de futuro. A que vivemos prova-se, através de muitos indicadores, que não é. E quanto à tecnologia torna-se necessário repensar todo o processo ao invés de embarcar em modas ou ideias sem a devida sustentabilidade científica. É óbvio que a tecnologia tem de estar presente, não a podemos ignorar, o problema é saber como, quando e porquê utilizá-la. 


Michel Desmurget escreveu A Fábrica de Cretinos Digitais. Entretanto, li um oportuno artigo assinado por António Carlos Cortez, professor, poeta e crítico literário, que transcreve uma parte interessante do livro de Michel Desmurget. Escreve o ensaísta francês, Prémio Femina de Ensaio em 2020: 

"Aos 2 anos as crianças dos países ocidentais consagram todos os dias quase 3 horas ao ecrã. Entre os 8 e os 12 anos, esse tempo aumenta para cerca de 4h e 45 min; entre os 13 e os 18, a exposição é, em média, de 6 h e 45 min. Em termos anuais são cerca de 1000 horas para um aluno do 1.º ciclo; e 1700 para um aluno do 2.º ciclo. Para alunos do 3.º ciclo e Secundário, falamos de 2400 horas anuais, o equivalente a um ano e meio de trabalho a tempo inteiro." Não é suficiente para alterar o plano de transformar as escolas em centros de informática? Não é suficientemente grave? Então há mais: Desmurget confirma (com recurso a gráficos, mapas neuronais, estatísticas) os males que o digital inflige a toda uma nova geração de adictos (drogados) dos ecrãs: os smartphones, os tablets, a televisão, os computadores contribuem para a obesidade, o aumento de doenças cardiovasculares; potencia a agressividade (experimentem proibir o uso do telemóvel a crianças e adolescentes... a reação será sintomática do grau de adição), perturba o regime do sono, promove, ao nível do comportamento, a depressão e a ansiedade, e, cognitivamente, afeta a linguagem (que empobrece), a concentração (6 minutos é o tempo de leitura dos estudantes, hoje), a memorização (o ChatGPT virá cavar mais fundo ainda o buraco negro da memória onde todas as aprendizagens - as poucas dignas desse nome - se afundam e perdem). Não, o digital não é a solução. A solução é o regresso ao livro e à cultura!"

"(...) Escreve Michel Desmurget: "Quanto mais "inteligentes" se tornam as aplicações, mais substituem o nosso pensamento e mais nos permitem tornarmo-nos idiotas. "Para quem ainda insista em defender o digital no ensino, vale esta nota: a própria Microsoft explica que a capacidade de atenção dos seres humanos tem vindo a regredir e a deteriorar-se nos últimos 15 anos. Atingiu-se um valor histórico: a nossa atenção é hoje inferior à do peixe-dourado. Tal se deve às tecnologias digitais, comprova-o, neste livro urgente, o neurocientista."

Em função deste enquadramento, sensato seria debater, jogando para cima da mesa de diálogo, todas as dúvidas, de tal forma que não se tome por único e imprescindível caminho aquilo que as consequências estão a demonstrar. Repito: não podemos ignorar a tecnologia, ela está aí, é fundamental na aprendizagem, a questão é determinar como utilizá-la. Não é por acaso que, nos Estados Unidos, a política dos manuais digitais está a ser abandonada. Explicou o Professor Santana Castilho na sua recente passagem pela Região: "Estudos feitos por centros de investigação e cientistas da neurociência concluíram que o desenvolvimento cognitivo dos jovens que tiveram um grande mergulho nas tecnologias digitais aos 11 anos está similar àquele que há 30 anos as crianças tinham com 8/9 anos de idade" (...) Existem várias razões que, alegadamente, demonstram os efeitos nocivos da adoção desta medida. Uma delas é a situação dos Estados Unidos da América, onde "a experiência dos manuais digitais começou há 8 anos" – e, desde então, tem sido abandonada sistematicamente". Porquê? "Porque o custo relativamente aos manuais em papel disparou, é cinco vezes mais caro. E porque as doenças oftalmológicas aumentaram em 30%", frisou o professor.

Ilustração: Google Imagens

segunda-feira, 17 de abril de 2023

O digital no ensino: uma fábrica de cretinos


Por
António Carlos Cortez *


Não sei se os diretores de escola, os pais, ou muitos professores leram o livro de Michel Desmurget, A Fábrica de Cretinos Digitais (o título do meu artigo glosa o livro do neurocientista francês), mas, num país como o nosso onde quem governa só segue modas e obedece a obscuras razões de interesse nacional para, como é o caso do digital na Educação, obrigar alunos, professores e pais a serem os técnicos de informática que nunca escolheram ser; num país assim, convém jogar forte e chamar os bois pelos nomes: a ditadura digital existe e a reboque dela estamos a perder gerações inteiras de estudantes e de docentes que seriam melhores estudantes e melhores docentes se tivessem tempo para fazer do livro o meio essencial das aprendizagens. Queixamo-nos de se ler pouco em Portugal.



Pois bem, para que tal aconteça, quem ensina precisa de ter três condições fundamentais (as condições do investigador), sem as quais a Escola e a Universidade não existem: dinheiro, tempo e habitação. Dinheiro para comprar cultura livresca; tempo para fruir essa cultura, casas dignas onde ter "um quarto só seu". Escreveu Rousseau: "A questão no ensino não é ganhar tempo, mas perdê-lo." Para quando, em Portugal, medidas que tornem este país mais livre e menos provincianamente fascinado pelas "luzes impuras" do suposto progresso tecnológico que, se existe, nos põe, a todos, e contrariamente às promessas de uma vida melhor, de gatas.
Quarenta e duas plataformas digitais, eis o que os professores têm de dominar para, nos diferentes estabelecimentos de ensino, serem considerados "professores de excelência". Sumários eletrónicos, portarias, horários, reuniões com colegas e com direções, com pais e com alunos, tudo passa pelo ecrã. Temos o GIAE, o SIGAE/ IGA; ele há o site da DGE, o Extranet e o IAVE; ele é o MEGA (manuais escolares) e o portal dos Recursos Humanos; temos o DGEST/Recorra e o DocGest; não faltam o SIIESTE (edifícios escolares) e o SISE (Segurança Social); e para assuntos relacionados com o acompanhamento psicológico dos alunos, vamos ao Psicólogos POCH e para matricular os estudantes vamos ao Portal das Matrículas; para compras públicas o VORTAL e, se ainda se lembram de bibliotecas, temos o SIRBE... Enfim, a lista é longa, o tempo para ensinar, de facto, é pouco.





Dizemos que não há uma "cidadania ativa". Constatamos que se lê pouco ou nada neste pobre país, que é um país pobre. Como haver consciência política, cidadania ativa, gente culta e, por isso, mais exigente consigo e com os outros, com os governantes e empresários, se tudo, hoje, está de cabeça caída por sobre os ecrãs e não são poucos os escuteiros que pugnam pelo computador em vez do livro? Isso é especialmente verdade no campo do ensino. Mas quem defende o computador, o manual digital, a parafernália dos ecrãs, leu Michel Desmurget? Não? Aqui ficam, então, alguns excertos que deveriam fazer soar os alarmes nas escolas e nas universidades, nas famílias e nas empresas.

Escreve o ensaísta francês, Prémio Femina de Ensaio em 2020: "Aos 2 anos as crianças dos países ocidentais consagram todos os dias quase 3 horas ao ecrã. Entre os 8 e os 12 anos, esse tempo aumenta para cerca de 4h e 45 min; entre os 13 e os 18, a exposição é, em média, de 6 h e 45 min. Em termos anuais são cerca de 1000 horas para um aluno do 1.º ciclo; e 1700 para um aluno do 2.º ciclo. Para alunos do 3.º ciclo e Secundário, falamos de 2400 horas anuais, o equivalente a um ano e meio de trabalho a tempo inteiro." Não é suficiente para alterar o plano de transformar as escolas em centros de informática? Não é suficientemente grave? Então há mais: Desmurget confirma (com recurso a gráficos, mapas neuronais, estatísticas) os males que o digital inflige a toda uma nova geração de adictos (drogados) dos ecrãs: os smartphones, os tablets, a televisão, os computadores contribuem para a obesidade, o aumento de doenças cardiovasculares; potencia a agressividade (experimentem proibir o uso do telemóvel a crianças e adolescentes... a reação será sintomática do grau de adição), perturba o regime do sono, promove, ao nível do comportamento, a depressão e a ansiedade, e, cognitivamente, afeta a linguagem (que empobrece), a concentração (6 minutos é o tempo de leitura dos estudantes, hoje), a memorização (o ChatGPT virá cavar mais fundo ainda o buraco negro da memória onde todas as aprendizagens - as poucas dignas desse nome - se afundam e perdem).


NÃO, O DIGITAL NÃO É A SOLUÇÃO!
A SOLUÇÃO É O REGRESSO AO LIVRO E À CULTURA.


O neurocientista escreveu este libelo contra o digital após observar, criteriosamente, as consequências nefastas dos ecrãs em crianças e adolescentes de diversos países. Contra a alienação de gerações inteiras de jovens (e dos menos jovens, também), Desmurget insurge-se, apelando a que não sigamos o Santo Graal que é hoje o smartphone, a arma dos "sugadores de cérebro", "o derradeiro cavalo de Tróia da nossa descerebração". Escreve Michel Desmurget: "Quanto mais "inteligentes" se tornam as aplicações, mais substituem o nosso pensamento e mais nos permitem tornarmo-nos idiotas. "Para quem ainda insista em defender o digital no ensino, vale esta nota: a própria Microsoft explica que a capacidade de atenção dos seres humanos tem vindo a regredir e a deteriorar-se nos últimos 15 anos. Atingiu-se um valor histórico: a nossa atenção é hoje inferior à do peixe-dourado. Tal se deve às tecnologias digitais, comprova-o, neste livro urgente, o neurocientista.

* Professor, poeta e crítico literário.