Intencionalmente, porque o tempo é mestre, deixei que a poeira maior assentasse. Há, ainda, todos os dias, ondas de pó que continuam a sujar o edifício do sistema educativo. Um sistema que, há dezenas de anos, precisa de uma potente vassourada pela crónica ausência de inteligência política e visão, incapacidade de conduzi-lo a um pensamento estrutural desde a formação inicial até ao mais alto patamar científico, passando pela reorganização do todo social. Uma vassourada, ideológica, também, para que se respeite a Constituição, os princípios do desenvolvimento e o necessário planeamento.
Portanto, não é minimamente aceitável centrar como preocupação maior, debatida até à exaustão, apenas uma variável do processo, neste caso o(s) exame(s), quando a complexidade do sistema obriga a uma visão de conjunto do que deve ser a escola e a aprendizagem.
Não apenas neste, mas em todos os sectores da governação, os doze princípios do desenvolvimento assim obrigam: o da responsabilidade do Estado, a teleologia funcional, a auto-determinação, a prioridade estrutural, a auto-sustentação, a transformação graduada, a continuidade funcional, a interacção, a integração, a optimização dos meios e, finalmente, o princípio da participação: ou as pessoas participam ou os processos morrem. E sobre cada um destes princípios, obviamente, muito há a especificar. Fico pela caracterização genérica.
Ora, pensar, politicamente, para transformar o sistema, não tem constituído preocupação dos governantes. Falam de um hipotético e risível interesse de intenção "reformista" quando, na realidade, apenas estão a actuar numa parte específica do conjunto do sector. E essa parte, como é óbvio, não muda rigorosamente nada. Como me dizia um meu Amigo, é "timex", não adianta nem atrasa! Repensar o sistema, todo ele, implica olhar para a construção da sociedade que desejamos para o futuro. Desde logo porque, parafraseando o que por outros já foi dito, se esta sociedade está mal, a escola não pode estar melhor. Há, portanto, desde logo, uma necessidade de analisar e actuar na sociedade a montante da escola, aliás, porque a escola emerge da sociedade, enquanto necessidade e direito. Se a sociedade esconde vastas iliteracias por anos e anos de sucessivos enganos, tolerâncias e inversão de valores; se ela assenta na pobreza e se a mentalidade é, genericamente, desfavorecida; se a escola ainda está estruturada na ideia trazida das traves-mestras da Sociedade Industrial; se a escola se transformou, desde tenra idade, em armazém de crianças e jovens enquanto os pais labutam, circunstância que implicaria redefinir a estrutura do tempo de trabalho, após a importante e inevitável generalização da entrada da mulher no mundo laboral; se a escola privilegia a resposta e não a pergunta, ou melhor, o pensamento; se a escola é rotina e não espaço criador e libertador; se a escola despreza o talento individual e nada se rala com o sonho; se a escola continua a dividir o conhecimento, fragmentando-o (por disciplinas), quando "(…) as redes neuronais funcionam com a associação de ideias, não por temas estanques (...)" – Salman Khan; quando a escola nega Georges Gusdorf: "o discípulo nunca pode estar diante do Mestre, como o barro entre as mãos do escultor ou como um fantoche a quem se puxam os cordelinhos"; quando, por isso, a escola é, por força da tradição, excessivamente, curricular e programática; quando ela vive, obcecadamente, na e da avaliação e não no lastro do conhecimento poderoso; quando burocratizam a escola, confundindo ensino com aprendizagem; quando o sistema não se preocupa com a formação inicial, contínua e especializada dos professores, exigindo-lhes, por um lado, cultura, conhecimento e mentalidade abrangente e, por outro, rigor; quando o sistema se apresenta heterónomo, impondo decisões e medo, negando a verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem; quando a escola não é cultura e quando rejeita tudo o que já foi produzido pela Academia e tantos investigadores e autores, parece-me óbvio que o colapso, se agora se situou nos exames de 12º ano, amanhã, será por uma outra qualquer variável. Trago sempre comigo em pensamento a Doutorada Deborah Stipeck que fez um estudo ao longo de 35 anos: (…) Este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes
mentes (…) A maneira como a Educação está estruturada faz com que potenciais
vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos antes mesmo do final da educação
básica".
Não é pois de admirar que, segundo um estudo que já tem dez anos, a autora concluísse que só 14% das raparigas e 11% dos rapazes tivessem dito que gostavam da escola (Margarida Gaspar de Matos/FMH – Educare.pt; e que a Socióloga e Professora Universitária, Raquel Varela, tivesse concluído, num estudo à escala nacional, que 70% dos professores estão em exaustão emocional; 22.000 tomam medicação a mais e 84% deseja a aposentação. Compaginando estas percentagens, dir-se-á, então, que "cego não é o que não vê, mas o que não consegue ver". O Ministro, autodefinido "reformista", quis começar pelos exames e pelo rápido desmantelamento da estrutura existente, uma ideia que, a prazo, visa sacudir para outros a responsabilidade social da escola pública. E tinha tanto por onde caminhar! Aliás, não se lhe conhece uma proposta e um caminho que responda a três perguntas essenciais: onde estou, onde quero chegar e que passos tenho de dar para lá chegar. E sendo o Ministro Fernando Alexandre, Doutorado em Economia, mesmo dando mostras de desconhecimento do sistema, é imperdoável que não tentasse responder àquelas perguntas iniciais. Ainda para mais quando é Ministro da Educação, da Ciência e da, reparem, Inovação.
Os exames nacionais constituíram uma enorme "trapalhada à portuguesa". E só há um responsável político: o ministro. Mas a trapalhada não é mais do que um triste episódio de um sistema que, na sua práxis, está configurado para a mediocridade. O sistema é aquilo que é, porque interessa que assim seja. Merli, numa notável série de televisão, enalteceu: "Há qualquer coisa de podre na Educação (...)". Há dias, no facebook, li no espaço da "Agência Escola Colaborativa": "(...) a educação mundial está doente, formando pessoas doentes para uma sociedade doente. Nós precisamos repensar quem somos como espécie (...)". E logo de seguida: "O sistema está feito para entupir a cabeça das crianças com matérias praticamente inúteis que elas nunca vão usar na vida real. Na escola, as matérias não ajudam as pessoas a se tornarem prósperas na vida". Mais adiante: "a sala de aula é algo que inventaram para colocar na conta do professor a falta da família e do Estado". Ora bem, deixo, então, a questão que me parece nuclear: de que educação o país precisa e que sistema oferece?
O resto, o que vai acontecendo, são histórias consequentes! Preocupantes, sim, mas que não tocam no busílis da questão. E só mais uma achega para ficarmos a pensar: será que numa escola, portadora de aprendizagem séria, poderosa, só existe o exame para o acesso ao patamar superior da aprendizagem, sendo certo que não dispenso o rigor?
Ilustração: Google Imagens.

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