segunda-feira, 1 de junho de 2026

No Dia da Criança


O primeiro de Junho devia ser o dia do debate anual sobre o “estado da criança”. Normalmente fica pelas requentadas boas intenções. Os estabelecimentos de educação cumprem o ritual, levando-as para a rua, melhor dizendo, dão-lhes folga. Aqui e ali falam de direitos, com laivos de hipocrisia, porque o essencial nunca é discutido. E o essencial seria, paulatinamente, repensar e mexer na estrutura social, na pobreza e em tudo o que se esconde a montante no que concerne à família (direitos e deveres), para que a criança venha a beneficiar de um saudável crescimento. Sem distinções de famílias onde foram geradas.



Apenas algumas posições de investigadores e autores de referência. Para reflexão.

Disse a médica Pediatra Rachel Niskier:
"Se você não cuida da infância e da adolescência, que tipo de cidadão você terá?”

Eduardo Sá, Psicólogo, complementa e convida à reflexão: “A escola rouba a infância às crianças”. A escola é um novo tipo de trabalho infantil, que não deixa as crianças brincar (…) No entender do psicólogo, retirámos as crianças do trabalho para lhes devolver a infância e “empanturrámo-las com escola (…) A escola está a roubar a infância às crianças. A leviandade com que isto se faz é inacreditável. Da parte dos pais, com a melhor das intenções, e da escola, que vive numa distracção sem fim (…) Nunca ouvi falar tanto das crianças e nunca vi que se espatifasse tanto a infância.”

Luciana Leiderfarb num artigo publicado no Expresso:
"Bem-vindos à nova era, a das crianças que não têm tempo para brincar. E a dos adultos obcecados por ocupar-lhes os dias. Que mundo é este onde a brincadeira se tornou indesejável?"

Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto, concluiu que:
"Uma criança em idade escolar “trabalha” em média nove horas por dia, o equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto". (...) "Essas nove horas são sempre em função da matéria escolar. E mais: há pessoas que, quando elas têm um comportamento menos próprio, ainda as castigam com contas e cópias, isto é, o mesmo que lhes dizer que o conhecimento é uma chatice". (...) "Os adultos trabalham sete horas e meia e chegam ao fim cansados. Levam trabalho para casa? Não levam!" (...) "há mais de 20 anos que se denuncia este excesso de trabalho e os consequentes malefícios físicos, psicológicos e morais para as crianças".

Clarice Lispector (1920/1977) jornalista e autora de romances e ensaios: "O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar".

Reorganize-se, então, a sociedade para que não tenhamos uma Escola a Tempo Inteiro com famílias a meio tempo.

Do livro: A Escola é uma Seca / André Escórcio. 


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