domingo, 31 de maio de 2026

Singapura tão distante... quando a solução está aqui tão perto!

 

Volta e meia regressam com um discurso sobre o sistema educativo de Singapura. Em tempos foi aquela ideia, também circunstancial, que a Madeira teria de ser ou viria a ser uma "Singapura do Atlântico". Não sei se morreu ou se ainda sobrevive pela propaganda política. Parece-me que sim, porque, agora, regressou no âmbito das conferências sobre o quinquagésimo aniversário da Autonomia. Na sede da Universidade da Madeira e com convidados vindos de fora, que nada acrescentaram, sublinho, foram ignorados aqueles que, certamente, terão pensamento científico e organizacional sobre este importante sector. Buscam inspiração em Singapura, a treze mil quilómetros de distância, quando a solução está aqui tão perto.



Aliás, não tenho presente os nomes dos responsáveis políticos madeirenses que, ao longo de 50 anos, visitaram Singapura, especificamente para estudar o respectivo sistema educativo; como não tenho presente o nome daqueles que procuraram os tão badalados países nórdicos tidos por referências de sucesso educativo. Não dei conta de eventuais estudos e relatórios publicados. Se alguma visita tivesse acontecido, enquanto preocupação política, os meios de comunicação regionais teriam feito alarde. Portanto, não sei se falam pelo Google, pelo Youtube ou através da IA. Sei que dizem coisas e que passam ao lado de toda a excelente investigação feita em Portugal, onde figuras académicas de topo, investigadores de excelência, Departamentos das Ciências da Educação das várias universidades e institutos, também autores, têm marcado o pensamento do que está por fazer e como o operacionalizar. Fica bem, pensam, nos momentos mais solenes, jogar com cartas que, embora não dominem, servem na perfeição o número político de propaganda. Logo depois a treta continuará e as palavras leva-as o vento.

Ora, qualquer pessoa minimamente informada reconhecerá que o sistema educativo, tal como todos os outros sectores, necessita de um pensamento estruturado para ter sucesso. E que tal não é possível sem o estudo de múltiplas variáveis: as de natureza económica e financeira e consequente estrutura produtiva, as heranças culturais, históricas, geográficas, os valores sociais e familiares, a estrutura administrativa do Estado e as prioridades estabelecidas, a limitada autonomia da Região e a dos estabelecimentos de educação, a necessidade de revisão do que está plasmado em sede de Constituição da República (possibilitando a existência de um país com três sistemas educativos autónomos), a diversidade populacional, o PIB per capita e os indicadores de pobreza, a organização curricular e programática, o pensamento pedagógico, a formação e selecção inicial dos professores, a arquitectura dos espaços escolares, estes, entre muitos outros, como factores determinantes no desenho de um sistema educativo portador de futuro. Não é possível de outra maneira, pelo que é ridículo imaginar um sistema que, leviana e descontextualizadamente, integra um elemento daqui e outro dali, como se isso servisse para ilustrar qualquer comparação com outros espaços e intervenções de sucesso na aprendizagem.

Curioso, também, é que, durante 50 anos, nunca registei qualquer manifestação de interesse por um grande debate regional sobre o sistema, que juntasse o mundo político-partidário, os professores e investigadores de todos os níveis, pais, alunos, empresas e instituições sindicais; nunca foi possível contextualizar a escola com a família, as suas dinâmicas, a demografia, as questões sociais e a organização dos tempos de trabalho; nunca constatei qualquer preocupação sobre os currículos, programas, horários, as centenas de metas curriculares, algumas perfeitamente inúteis; nunca escutei uma palavra sobre correntes pedagógicas, novos conceitos de aula, de turma, de sala de aula, tpc, avaliações; jamais registei uma preocupação para travar a infernal burocracia, o número de alunos por estabelecimento, a rede, a arquitectura dos espaços escolares e o financiamento aos estabelecimentos privados em detrimento do sector público; até mesmo estudar o rigor, a disciplina, a violência na escola em contraponto com a violência da escola. E houve tempo mais que suficiente para tudo ser reequacionado visando uma escola para o tempo que estamos a viver. Criada aqui e contextualizada aqui, com verdade, ciência e autenticidade. A rotina marcou o ritmo e a escola transformou-se num espaço de "normalidade e tranquilidade". Como se fosse um spa, quando ela tem de ser vida! 

Portanto, esta historieta de querer ser como Singapura não pega, porque não tem qualquer sustentabilidade no estudo, no trabalho e no discurso político. Nem Singapura nem a Finlândia como referências. Provam-no aqueles estabelecimentos de educação que tentam lançar projectos visionários e consequentes de acordo com a literatura existente. Na realidade não são bem vistos, porque os responsáveis políticos têm preferido a norma à inovação. A título de exemplo não deixa de ser paradigmático o que aconteceu na Escola 1,2,3 do Curral das Freiras. Lembram-se? Recordo que se encontrava no lugar 1 207º do ranking nacional e, consequência da paixão dos professores, liderados pelo Professor Joaquim José Sousa, saltou para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano: "tinha 300 alunos, não tinha campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batiam certo com os do autocarro. Os seus mentores tornaram possível um melhor conhecimento, apesar de 92% dos alunos terem Acção Social Educativa (pobreza) e a internet não fazer parte das prioridades da maioria das famílias". O que aconteceu? Perseguiram-na e fundiram-na com uma outra de S. António, no Funchal. Ao invés de procurarem as suas virtualidades, não, bloquearam-na e dividiram-na, não sei se para reinar. Esta é a prova da "Singapura local" em todo o seu esplendor, que deixa para trás cerca de 7 000 jovens que não estudam nem trabalham. Valham-nos alguns estabelecimentos particulares que, contra a corrente, nos limites da legislação normativa, seguem outros pensamentos organizacionais e pedagógicos. 

Ilustração: Google Imagens.

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