Por estatuadesal
Fernanda Câncio,
in Diário de Notícias,
05/09/2020
SOB A MAIS LIVRE DAS CONSTITUIÇÕES UM POVO IGNORANTE É SEMPRE ESCRAVO Condorcet (1743/1794)
Começo por questionar a razão da existência de ciclos de estudo? Fará algum sentido, na aprendizagem básica, dividi-la em 1º, 2º e 3º ciclos? O assunto não é novo, eu sei, e até o Conselho Nacional de Educação já sobre este assunto se pronunciou, embora de forma ténue e muito cautelosa. O problema é, portanto, político. E como é político e a comunidade pouco se rala com os assuntos da educação, o seu debate não é considerado prioritário. Fica pela estúpida normalidade de uma enervante centralização do pensamento e da práxis.
Ora bem, quando se acaba com qualquer coisa que faz parte da nossa organização social e que se intuiu como certa, obviamente que se deseja uma outra que se enquadre na necessidade de uma nova resposta que seja amplamente compreendida. Partamos desta imagem: o professor e o aluno dos séculos XIX/XX estavam confrontados com a "sala de aula", com as carteiras normalmente individuais e alinhadas, com a secretária do professor, com o quadro, com os mapas, com o giz, com o silêncio e até com a régua do castigo. O mundo estava confinado à sala e ao pensamento da época. O aluno do século XXI está confrontado não com a "sala de aula", mas com o planeta e com fortíssimas fontes de informação que circulam e o envolvem a todo o momento através da tecnologia. Dois mundos completamente diferentes. E a pergunta é, como encaixar o mundo de hoje nos cubículos e nas convenções de ontem?
Não é possível. Uma escola fechada sobre si própria, que não interage com o mundo, que não deita abaixo os seus muros, que se circunscreve aos programas, aos testes e aos exames, em uma falsa meritocracia, é uma escola condenada, onde o prazer da curiosidade não existe. Quero eu dizer com isto que a aprendizagem é um continuum interligado, de invenção e reinvenção diária e de descoberta e fortalecimento da autonomia individual. A aprendizagem, mais do que um "conhecimento" pontual com a preocupação do teste de avaliação (normalmente, logo esquecido), deve assentar na abrangência da vida, da cultura, da plena formação do ser, porque a escola é formada pelas pessoas que lá convergem e que transportam interesses e sonhos.
É pois pobre, muito pobre, chega a ser ridículo, cumprir o currículo, centrando a atenção, quase exclusiva, no domínio cognitivo. A vida é muito mais do que isso, do que disciplinas desconexas e assentes em uma segmentação por patamares. Existem outros domínios extremamente preocupantes que não podem ser ignorados: a origem dos alunos, a questão social, económica, cultural e o concomitante domínio emocional. Um fato de tamanho único, compreende-se que poderá assentar bem em uns poucos, mas muito mal na maioria. O que é gerador de infelicidade e de abandono. O insucesso passa a ser, e é, a marca indelével do actual sistema. Infelizmente, a escola está longe de conduzir à felicidade como não tem conduzido à plena construção do SER.
Portanto, esse continuum devidamente interligado, na incessante busca de um conhecimento alargado, não se constrói com escolas sobredimensionadas (1.000, 1.500, 2.000 e até 2.500 alunos), currículos restritivos e com programas pensados por adultos, em uma centralização que chega a ser intelectualmente obscena, programas sempre acrescentados de mais qualquer coisita, oferecendo boa guarida às editoras, à custa de milhões que saem das algibeiras dos pais e dos cofres públicos. O Estado apenas deve ser o moderador (fiscalizador, também) e, em poucas páginas, definir um conjunto de competências a atingir no final do percurso básico. O resto é à escola, à sua comunidade educativa, à sua autonomia, que deverá pertencer a definição dos caminhos para lá chegar. Convenhamos que não existem duas escolas iguais em todas as áreas e domínios de análise, pelo que é um disparate tratar de forma igual o que é diferente.
Esse continuum de aprendizagens constrói-se com um novo paradigma organizacional e PEDAGÓGICO. Mas como (?) quase oiço a interrogação de quem me lê. Construindo, é a resposta. Colocando em causa o velho sistema e não copiando ou transferindo experiências já realizadas. Essas apenas poderão servir de inspiração. Para além da não existência de ciclos, não não vislumbro qualquer interesse na existência de turmas ou na separação por idades. Da mesma forma que há famílias com crianças de diferentes idades que coabitam no processo de aculturação e aprendizagens diversas no seio onde se inserem. Trata-se de ver a escola segundo um ângulo diferente que rejeita o "modelo" convencional. Não existe uma resposta, mas várias. Essa postura exige que todos, refiro-me à comunidade educativa, não parem de aprender. O comodismo faz sofrer e mata. Que o digam os educadores. É nesta construção que o professor, mediador da aprendizagem, se torna uma peça fundamental. Não fazem pois sentido a existência de disciplinas, mas sim projectos onde cabem e disparam todos os conhecimentos.
Um simples exemplo: uma garrafa de vinho como projecto de estudo. Ali acomodam-se a Geografia, a História, a Geologia, o Português, a Química, a Biologia, a Economia, várias outras indústrias, a música, eu sei lá... o que é possível organizar, em famílias de alunos (grupos), o estudo, em conjunto, sob a mediatização dos professores! E quem fala de uma garrafa de vinho, obviamente que pode enunciar muitas centenas de projectos que fogem à peregrina ideia de uma escola de espaços fechados, com disciplinas e patamares de aprendizagem. E com faltas! Tudo está interligado e tudo deve ser interpretado como um desafio. A escolha está entre uma atitude passiva (velha escola) e uma atitude activa (nova escola). É a sociedade que o exige. Se não fosse trágico, daria uma gargalhada com a recente polémica em redor da disciplina "Cidadania e Desenvolvimento". Então as questões da cidadania não são transversais na aprendizagem e trazidas a todo o momento para a formação? Ou dela querem fazer mais uma segmentação sujeita, até, a avaliação e perda de ano? É paranóico o que estamos a assistir.
Finalmente, não deixa de ser curioso que a VIDA real, o mundo laboral, cada vez mais pede trabalho em equipa, isto é, o êxito de uma empresa está directamente proporcional ao sentido de grupo e de pertença. Porém, a escola, no decorrer da formação básica (e não só), fechou-se na sua torre de marfim, como instituição que promove o individualismo, desde as primeiras idades até ao acesso ao superior. É cada um por si. Que raio de paradoxo é este entre a escola e a vida que pede competências! Deixem-se fecundar pelas ciências.
Ilustração: Google Imagens.
Daí que, professor que ensina cumpre o ritual, repete ao gosto da hierarquia, condiciona, não faz da sua acção um exercício de imortalidade. Quem cumpre o superiormente definido mantém os pássaros na gaiola, jamais promove e encoraja o voo. Um pouco por tudo isto trago em memória o ensinamento de André Berge: "Em vez de opor a educação nova à educação tradicional, mais avisado seria opor a educação educativa à educação não educativa". Situo-me nesse espaço de entendimento, de uma educação libertadora e criadora, que conduza à assunção da própria responsabilidade do educando e onde a "disciplina não gere o medo" (Erich Fromm, psicanalista, filósofo e sociólogo - 1900/1980). Hoje, a educação é, genericamente, geradora de medo.
"Dar aulas" significa que, na tal metáfora do autocarro, o professor é o detentor do conhecimento, o que conduz, inevitavelmente, a apoderar-se do "discípulo". Uns esquecem-se do que aprenderam na sua formação pedagógica, esquecem-se, rapidamente, dos livros que leram e do que escreveram em monografias e em dissertações, pior, esquecem-se que foram alunos e quanto detestavam aquelas "aulas" a pedir "mais paciência que Jó". Há pais chamados à escola porque o aluno, pasme-se, desinquieta a classe porque faz muitas perguntas! E a pergunta, quando o ambiente é criado nesse sentido, pode significar que o aluno é curioso, até pela idade que o impele nesse sentido. De resto, é um absurdo privilegiar a palavra do professor relativamente à do aluno. O professor, em todas as circunstâncias, deveria assumir o importante papel de mediador da aprendizagem, jamais o de figura central, o protagonista em palco. A personagem principal é o aluno.
Assisti, no Funchal, há quatro, cinco anos, a uma palestra do Professor José Pacheco, palestrante em todo o mundo, hoje "exilado" no Brasil, onde desenvolve um notável trabalho. A determinada altura contou que, nos primeiros anos de carreira docente, planeava de forma irrepreensível as suas "aulas". E mesmo assim, com todas as preocupações e olhares atentos para a diversidade dos membros da classe, muitos não aprendiam. Este facto levou-o a concluir: "se eu preparo ao pormenor as "aulas" e, mesmo assim, eles não aprendem, então, posso deduzir que eles não aprendem porque eu "dou aulas". Simples.
Há um livro de Pierre Vayer, "Objectivos da Educação Psicomotora", no qual ele interroga-se: "o que é preciso fazer para que a criança se interesse". Ficou-me esta questão de princípio: "para aceitar a criança o adulto deve, primeiro, aceitar-se a si próprio". O problema é que o adulto, neste caso professor, tem um programa a cumprir com centenas de itens, e na condução do "autocarro" ele sabe que tem duas ou três paragens obrigatórias que o obrigam a uma avaliação do percurso. Avaliação que ele sabe ser dos alunos, mas também do seu próprio desempenho, no quadro de um sistema onde o tempo foge para cumprir determinações, algumas abstrusas, e sobre as quais não tem voz (mesmo que tivesse!). Portanto, "aceitar a criança" não passa de uma miragem. Resta-lhe "dar aulas" ou, melhor dizendo, "vender aulas" a troco de um salário mensal. Alguns furam as regras, é certo, mas correm o risco de um processo disciplinar. A hierarquia política não gosta de quem saia do "anormal".
Certo é que, por este caminho, nem a escola prepara para o mundo do trabalho, tampouco consegue formar cidadãos críticos e disponíveis. Por um lado, porque a escola está desfasada do mundo real; por outro, porque, através da "aula" bloqueia o pensamento, o talento, o interesse e o sonho. O drama de tudo isto aqui aflorado, tanto que há a dizer sobre isto, é que os professores ainda não deram conta, parece-me, que estão "reduzidos a meros técnicos e supervisores na fila da assembleia da educação, isto é, que são objectos em vez de sujeitos da história", salientou Lipman (2004).
A Escola que deveria constituir um ponto de partida continua, assim, a ser um ponto de chegada. Há um livro de Pascal Paulos com o título: "A Escola faz-se com pessoas". Pois é. Faz-se, também, com utopias, não messiânicas, mas na esteira do Filósofo Agostinho da Silva, sempre na "busca incessante, inquietante, da Pessoa-Indivíduo e da Comunidade, que são os alicerces da Sociedade livre e civilizada". Valha-nos o facto de, em Portugal Continental, florescerem muitas iniciativas no sentido que aqui explanei.
Ilustração: Google Imagens.
Pois, é o maldito programa, definido por alguns adultos de conhecimento débil, de adultos que não escutam a voz dos investigadores, de adultos que têm a desfaçatez de complementar as suas políticas, afirmando que tudo é feito colocando a criança no "centro das políticas educativas". Que grosseira mentira!
Ora, aquela lista apresentada por essa escola, semelhante a tantas outras listas de material, constitui a prova da falência de um pensamento adequado às verdadeiras necessidades do desenvolvimento das crianças.
Desde logo esquecem-se, intencionalmente, do importantíssimo acto de brincar e da descoberta, porque brincar é estruturante a todos os níveis. Tenho presente Luciana Leiderfarb em um artigo publicado no Expresso:
"Bem-vindos à nova era, a das crianças que não têm tempo para brincar. E a dos adultos obcecados por ocupar-lhes os dias. Que mundo é este onde a brincadeira se tornou indesejável?".
Nem mais, logo aos 3/4/5 anos matam a vivência de uma infância que não volta mais. Tudo porque existe uma absurda pressa em "ensinar", não sei bem o quê, quando no jogo infantil está lá tudo o que é fundamental. Como Gross (Les jeux des animaux - 1902) mostrou, "o jogo prepara a vida séria, como um projecto de vida séria que esboça, com antecedência, essa vida. Pelo jogo a criança conquista, pela primeira vez, a autonomia, a personalidade e até os esquemas práticos de que a actividade adulta terá necessidade".
De facto, vivemos um tempo de iliteracia motora de péssimas consequências. Em 2016 escrevi um texto subordinado ao título: "Andam a matar a importância de ser criança e de brincar". Transcrevo uma parte:
“(...) As crianças são dotadas para brincar, é o seu estado natural. Precisam de ser perseguidas, de perseguir, lutar, correr, esconder-se, inventar. E a sociedade faz um esforço para as ter quietas e em silêncio”, comenta o especialista Doutor Carlos Neto. Num quadro de quase permanente institucionalização, em que os mais novos passam na escola quase tantas horas diárias quanto um adulto no trabalho, a configuração do seu tempo livre nesse espaço revela-se determinante. E a escola “ainda trata o recreio como algo avulso ao processo de ensino”, sem perceber que “o tempo para brincar deve ser bem estruturado e encarado como um contributo para aprender (...) No jardim de infância a situação é semelhante. Em Portugal, de Fevereiro a Maio — a estação invernal — as crianças passam apenas uma média de 10,8% do seu tempo em espaços exteriores, mais apetecíveis para a brincadeira livre. Este é um dos dados que constam do estudo “Interação Criança-Espaço Exterior em Jardim de Infância”, da autoria de Aida Figueiredo. A professora da Universidade de Aveiro concluiu ainda que, nas creches observadas, os bebés com menos de um ano só saíram ao exterior duas vezes em quatro meses. O estudo serve também para comparar realidades educativas opostas: se na Noruega, por exemplo, são exigidos entre 24,2 e 33 m2 por criança, em Portugal apenas são previstos 4 m2 por criança.
FACTO
Secretário da Educação garante que o novo ano lectivo arranca na "MAIS COMPLETA NORMALIDADE". Fonte: 1ª página do Dnotícias de 30.08.2020
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