sexta-feira, 7 de setembro de 2018

SERÁ MESMO NECESSÁRIO? NA APRENDIZAGEM SÉRIA E COM FUTURO, NÃO!



Lê-se na Constituição da República Portuguesa em vigor:
Artigo 74.º
Ensino
1. Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar.
2. Na realização da política de ensino incumbe ao Estado:
a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito;


Calcula-se que atinja os 170 milhões de euros o que as famílias gastam em material escolar. Em média, dependendo, obviamente, do ano de escolaridade, as famílias desembolsam entre 200 e 400,00 euros em material escolar. Para quem tem salário mínimo e apenas um filho, dir-se-á que o salário já era!

Visitei vários sítios de escolas na Internet:
Para além dos manuais, caderno de "fichas" e da mochila a listagem é extensa: capa de elásticos A4 - bloco de desenho A4 (papel cavalinho) - caderno pautado A5 - lápis de minas (0,5) - minas (0,5) - borracha - compasso - régua de 30 cm - esquadro de 45º - capa tipo portfolio - cola líquida UHU - pano de limpeza - etiquetas para identificar o material do aluno - 5 folhas de papel vegetal A4 - 5 folhas de papel quadriculado - 4 folhas de papel Eva (cores surtidas) - 1 folha de cartolina A2 - pincéis n.º 2, 4, 8 - tesoura - suporte de lâmpada 220V (casquilho fino E14) - interruptor (tipo candeeiro) - ficha eléctrica - fio eléctrico com dois condutores (1,5 metros) Nota: Os alunos do 8º ano deverão substituir o material gasto e/ou estragado no ano letivo anterior. Obs. Algum material extra poderá ser solicitado ao longo do ano lectivo, de acordo com os projectos a desenvolver. Isto, para além de sapatilhas, sabrinas (ginástica), T-Shirt com manga (curta ou comprida), calção ou fato de treino e uma flauta de Bisel Honner (dedilhação alemã). A juntar a isto, o passe, entre muitas outras despesas. Um encarregado de educação remeteu-me uma mensagem salientando que lhe tinham solicitado algum material da marca de luxo Caran d'Ache (!).
Coloco algumas perguntas: e a Constituição da República? Os pais e encarregados de educação conhecê-la-ão? E as escolas, os órgãos de gestão e administração e os professores já pensaram nisto? E o que tem a dizer o governo da Região? Só mais uma pergunta: será necessário tudo aquilo para APRENDER, ou existem outros formatos pedagógicos que dispensam uma grande parte dos encargos?

"o sistema de educação gratuito não sai tão caro assim, é uma questão de organização", afirma Jaana Palojärvi.

Há poucos dias, recebi um comentário na minha página de facebook, assinada por Geraldo Freitas, a propósito de um texto que escrevi sobre o sistema educativo: 
"(...) permita-me que partilhe um pouco da minha experiência pessoal. Vivo na Escócia e tenho um filho no 6• ano nunca comprei nem um lápis para a escola, tudo é dado pelo governo para todos, compro apenas a farda no princípio do ano o que para mim também é bom para que os alunos se sintam “iguais” e não surja o bulling entre ricos e pobres. Podem dizer que aqui descontamos mais mas a nível percentual não é assim tão diferente do que descontam em Portugal a diferença é que aqui não temos Marinas, Bancos, Sociedades de Desenvolvimento, Assicom etc. para tapar buracos. Um abraço."
Uma nota complementar: na Finlândia (existem outros países) "o ensino e todo o material escolar básico são gratuitos para as crianças, incluindo uma merenda quente todos os dias, um plano de saúde escolar e transporte gratuito para as crianças que não podem ir a pé ou usar o transporte público." (...) só 2% das escolas são particulares (...) As crianças só entram na escola a partir dos 7 anos (...) a educação básica dura nove anos (...) só 2% dos estudantes repetem o ano, o índice de conclusão é de 99,7% (...) o sistema de educação gratuito não sai tão caro assim, é uma questão de organização", afirma Jaana Palojärvi.
Pergunta final: e se o governo aprendesse um pouco, por pouco que fosse, com os outros?
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

OS PEDITÓRIOS EXPRIMEM A POBREZA NA ESCOLA


Ponto prévio: sou solidário. Não há campanha alimentar na qual não participe. Às vezes, no mesmo fim-de-semana, em duas superfícies comerciais distintas. Parto do princípio que, amanhã, nunca se sabe, poderei precisar. Portanto, não é a solidariedade que está em causa. Apenas me insurjo contra o IVA pago pelas compras no âmbito da solidariedade social (pagamos para ser solidário) e também contra uma clara ausência de coordenação das várias instituições que prestam auxílio aos mais necessitados. O próprio Banco Alimentar Contra a Fome já fez sentir essa necessidade, sob pena de instalar-se na população um certo cansaço que conduz à diminuição dos números da recolha. E já aconteceu. Escrevo porque, hoje, há peditórios para tudo: desde produtos alimentares para as pessoas (necessidade básica) a produtos para os animais. E agora, até, para o material escolar dos alunos!






















Ontem fui às compras. À entrada duas senhoras propuseram-me colaborar para o "material escolar dos meninos". Aceitei o saco de plástico e colaborei. Mas fiquei a pensar nisto. Até para a escola é necessário um peditório? Pior, ainda, e que me deixou irritado: "para que não levem falta"? Falta?  Mas isso ainda existe? É pobre e ainda é "castigado" por isso! Espantoso. Ora, o que isto demonstra é, realmente, a FALTA de capacidade governativa para entender que, na educação, o sector público é prioritário, porque corresponde a um direito constitucional. Não é um favor, não é uma dádiva, mas sim um direito plasmado na Constituição da República Portuguesa. Porém, paradoxalmente, a magnanimidade do governo leva a que entregue mais de vinte e cinco milhões de euros anuais às escolas privadas da Madeira. FALTA é o que deveriam levar governantes que permitem que as autarquias gastem, em conjunto, setecentos mil de euros anuais na compra de livros, quando essa é uma responsabilidade do governo que, por seu turno, já deveria ter progredido para o patamar das tecnologias que dispensam os manuais. 
Não são os "meninos" os culpados da pobreza espelhada na necessidade de realizar peditórios para suprir carências. Se as instituições pedem é porque lhes batem à porta. Saberá o governo as razões mais profundas da pobreza? Mas, já agora, para que serve a Acção Social Educativa (ASE)? Não é para apoiar os mais desprotegidos? Se os indicadores demonstram que a Portaria da ASE está desconforme com as necessidades sentidas, este peditório assim aponta, então, no âmbito da Autonomia, corrija-se a Portaria, essa que, desde há muito, considero indecorosa. Dirão os senhores(as) eleitos, que a Educação é cara. Pois, é cara, mas como já alguém disse, experimentem a ignorância! 
Depois, estamos face a um outro problema: o IRS e a dupla e, muitas vezes tripla tributação pelo menos serviço. Todos pagamos IRS em função das receitas mensais. Quem mais recebe mais paga, no pressuposto que, nos serviços públicos, neste caso de educação, todos estejam e partam em pé de igualdade na acessibilidade. Não faz, portanto, sentido, que um cidadão pague mais em sede de IRS e, depois, volte a pagar de forma distintiva no acesso, por exemplo a uma creche, infantário, por aí fora. E não faz sentido que, depois, ainda, porque é solidário, volte a pagar para que a aprendizagem dos outros se faça com normalidade. A justiça social faz-se em sede de IRS. Apesar disso existem casos de dupla e de tripla tributação indirecta. Mas é isto que temos... Enfim, colaborei, ofereci o que julguei importante, mas critico este formato que me transmite a ideia dos governantes sacudirem o peso das suas responsabilidades políticas.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 2 de setembro de 2018

"SIM, NÓS PODEMOS SONHAR COM UM AMANHÃ MELHOR"


Dia 01 de Setembro, dia que os professores se apresentam para mais um ano escolar. Na perseguida Escola do Curral das Freiras (Câmara de Lobos), depois do sucesso alcançado, lamentável e inexplicavelmente, a secretaria da Educação acabou com a sua autonomia administrativa e gestionária, fundindo-a com uma escola do concelho do Funchal. Uma atitude que classifico de política de natureza rasteira, que ofendeu toda a comunidade educativa. Mas, enfim, os actos ficam com quem os pratica. Ontem, confesso, fiquei maravilhado com a carta aberta do Dr. Joaquim José Sousa, a figura que presidiu ao Conselho Executivo daquela escola. Transcrevo-a pela sua importância, pela humildade que transmite, envolvendo toda a comunidade educativa e porque, apesar do sucesso conseguido face à perseguição engendrada, continua a lutar por uma verdadeira ESCOLA DE APRENDIZAGEM.

"Hoje é o primeiro dia dum novo recomeço.
Caros colegas, a Margarida e eu ficamos emocionados com todas as mensagens que recebemos nas últimas semanas. Mas hoje é minha vez de dizer obrigado. O ter falado com todos, não nas tascas nem em quaisquer patuscada, mas sim no posto de trabalho - foi o que me manteve fiel ao serviço público de educação com ética e elevação o respeito pelos direitos de todos e de cada um. Todos os dias, eu aprendi com vocês. Vocês, colegas (docentes e não docentes), pais e alunos fizeram de mim um melhor gestor, tornaram-me um homem melhor.
Eu vim para o Curral das Freiras há nove anos, cheguei com um sonho, acabar com uma taxa de abandono escolar altíssima, com uma taxa de conclusão miserável e para isso transportava um sonho utópico – no sítio mais difícil edificar a melhor escola pública de Portugal, uma escola que respondesse aos anseios de todos; e foi nestes corredores, entre estas montanhas que testemunhei o poder da escola e a dignidade tranquila dos pais diante das lutas e das perdas. Aqui eu aprendi que a mudança acontece quando as pessoas comuns se envolvem, quando acreditam, e vêm exigi-la.
Depois de nove anos como presidente do Conselho Executivo, eu ainda acredito nisso. E esta não é apenas a minha utopia. É o coração palpitante da nossa ideia de escola – da nossa experiência audaciosa de criar oportunidades para valorizar a importância de cada um para o sucesso de todos. É a convicção de que todos temos direito a um amanhã melhor, é o acreditar convictamente que a procura da felicidade é algo para todos e para a vida toda.
É verdade, o nosso desenvolvimento não foi tão harmonioso como queríamos. Em educação o trabalho sempre foi duro. Por cada passo em frente, muitas vezes parece que damos dois para trás. Sempre entendemos a educação como um movimento de futuro, um processo constante e sistemático para chegar a todos, e não apenas a alguns.
Eu disse-vos há nove anos que a escola do Curral das Freiras seria a melhor escola de Portugal, que formaríamos alunos de excelência – e eu sei que para a maior parte a nossa visão estava elevada demais.
Mas foi o que fizemos. Foi o que cada um de vós fez. Cada um de vós foi a mudança. Nós respondemos à esperança das pessoas, e porque cada um fez e fez bem o seu trabalho, as crianças que vos tiveram como professores estão mais capacitadas e terão maior confiança no futuro.
Afinal, é para isso que servimos - para melhorar a vida das pessoas, não para a piorar.
Ao longo destes nove anos, eu vi os olhares de desânimo passarem a olhares de esperança. Eu chorei com famílias aflitas, cujos maridos tiveram que emigrar, cujos conflitos ameaçavam a harmonia no lar ou cujos conflitos obrigaram à fuga pela sobrevivência. 
E foi essa esperança que com a vossa ajuda transmitimos aos nossos alunos e é gratificante sentir que o nosso trabalho foi recompensado de maneiras que eu não poderia ter imaginado.
A minha notável equipa: Nestes nove anos encontrei algumas pessoas fantásticas, bebi a vossa energia, alimentei-me do vosso saber e tentei refletir o que vocês exibem todos os dias: coração, caráter e idealismo. Eu vi-vos crescer, ter filhos, e começar novos projetos. Mesmo quando os tempos ficaram difíceis e frustrantes, vocês sempre deram aos alunos o vosso melhor. O que me deixa mais orgulhoso do que todo o bem que fizemos é o pensamento de que vamos poder replicar todas as coisas notáveis que vocês fizeram aqui.
Às famílias amáveis que nos acolheram, que nos confiaram os vossos filhos, cada um de vós com que tive o privilégio de trabalhar – vocês fazem parte dos melhores pais do mundo, e eu vou ser eternamente grato. Porque, sim, vocês mudaram o paradigma da escola.
Meninas e meninas - acreditem que podem fazer a diferença; Acreditem que podem fazer parte de algo maior do que vocês. A vossa geração, é maioritariamente - altruísta, criativa, empreendedora - eu vi isso em cada um de vós. Vocês acreditam numa sociedade mais justa e inclusiva; Vocês sabem que a mudança constante foi a marca da nossa escola, e isso nunca foi algo que tenhamos temido, mas que sempre abraçamos. Eu acredito porque vos conheço que o futuro está em boas mãos.
Caros colegas, pais e principalmente meus meninos, foi uma honra servir-vos. Eu não vou parar; Na verdade, eu estarei aqui com todos, como um cidadão. Deixo-vos com um último pedido - o mesmo pedido que eu fiz há nove anos.
Peço-vos que acreditem. Acreditem em vocês mesmos, não fui eu que mudei nada – foram vocês: colegas – pais – alunos.
Sim, é verdade nós fizemos a diferença.
Sim, nós podemos sonhar com um amanhã melhor.
Obrigado."

sábado, 1 de setembro de 2018

ESCOLA: O REGRESSO À "CATEDRAL DO TÉDIO"


Aproxima-se o início do ano escolar. Mais um com a marca da letargia de sempre. Em uma só palavra: rotina. A doentia rotina está de regresso. Aulas, muitas aulas, currículos, extensos programas, reuniões do conselho pedagógico (!), reuniões de departamento, de turma e de grupo, toques de entrada e de saída, muitos manuais, avaliações às dúzias, muita burocracia e, apesar de toda essa azáfama, na generalidade, o continuado e progressivo desinteresse pela escola. Sejamos claros: cansaço que envolve alunos e também professores. Basta perguntar aos alunos e basta ler, repito ler, os investigadores e autores que se debruçam sobre a escola do século XXI. Um chega ao ponto de designá-la, em contraponto ao que deveria ser, por “catedral do tédio”. Para Ilídia Cabral, docente universitária e investigadora, não subsistem dúvidas sobre o desfecho: “As escolas têm de aprender a ensinar no século XXI, sob pena de se tornarem dispensáveis.” 


Há um estudo, recente, que envolveu seis mil estudantes portugueses adolescentes, que coloca Portugal na 33ª posição entre 42 países e regiões sujeitas ao estudo. Disse, Daniela Guilherme, hoje com 20 anos, "(...) Não temos voz nas aulas e devíamos ter. É uma das formas de expressão mais importantes". Escreveu a jornalista Clara Viana no trabalho publicado no Público (2016), estudo que agora recupero, que "(…) nem sempre foi assim. Em 1997/98 o país ocupava a segunda posição neste indicador, mas em 2014/2015, ano do último estudo, apenas 25% dos alunos portugueses com 15 anos disseram que gostavam muito da escola. Mais concretamente, põem em causa as aulas, que consideram aborrecidas pela matéria que ali é dada (…)". Isto significa que estamos piores, provavelmente porque, ao contrário de outros, continuamos com uma estrutura de escola assente na linha de montagem do Século XIX. Sublinha a citada docente: permanece o "modelo de organização escolar padronizado, de inspiração fabril, do tipo linha de montagem, que permitiu às escolas darem o mesmo a todos". Porém, prossegue aquela investigadora, os alunos de hoje são bem diferentes do que eram há dois séculos. "São alunos cada vez mais heterogéneos, com acesso quase imediato a inúmeras fontes de informação, nativos digitais para quem as metodologias de ensino tendencialmente expositivas e fragmentadoras do conhecimento se revelam, muitas vezes, totalmente desadequadas e muito pouco apelativas". E é assim que o tempo escolar se "torna, em muitos casos, um tempo vazio de significado para os alunos, por se encontrar completamente afastado da sua realidade, dos seus interesses e das suas necessidades". Retorno a este trabalho jornalístico, porque, entretanto, passaram-se mais dois anos, e a rotina permanece.

"para a maioria dos jovens a escola não tem nada para oferecer neste momento"

É neste quadro que se dá o regresso à escola. Objectivo primeiro: cumprir o manual, debitando muito, mantendo, em simultâneo uma obsessão pela avaliação. Dir-se-á que, em conclusão, é o aluno que se tem de adaptar à escola e não a escola ao aluno! Daí o desencontro entre os interesses e talentos dos alunos e a mentalidade que permanece no sistema educativo. Pior é que não há quem veja isto. Não há, no governo, quem tenha o bom senso de dizer não, dando sinais de uma predisposição para a mudança. Não existe discurso político sobre esta matéria. Tenhamos presente o ridículo: todos os anos, jornais, rádios e televisões falam do peso excessivo das mochilas, os médicos mandam ter cuidado com a coluna das crianças, mas em vão. Continuam a transportar toda aquela tralha dos manuais, absolutamente dispensável se for utilizada, por exemplo, a tecnologia através dos tablets e smartphones. Impossível? Não, é bem possível e desejável. Foi público que, entre outros, o Agrupamento de escolas de Carcavelos, já este ano, dispensou a existência de manuais. Para bem da aprendizagem e para bem dos bolsos dos pais. 
Não há coragem para assumir que esta escola está doente, ferida de morte, porque se dedica ao ensino (estabelecimento de ensino), porém, a maioria não aprende, porque a escola ainda não assumiu que é um estabelecimento de aprendizagem. Basta ter presente os aflitivos números do insucesso, do abandono e as qualificações profissionais. Há medo em alterar o sistema. E o medo é de alto-a-baixo: desde o governo, claramente, instalado na sua torre de marfim, incapaz de se deixar fecundar pelo desenvolvimento, até às escolas sem voz nem poder para desenhar a escola onde se aprende. Não é de estranhar que uma aluna, Marta Martins, naquele trabalho a que me referi, tivesse salientado, notem bem: ser "importante reconhecer que mais não é necessariamente melhor" (...) "Passar mais tempo na escola, assimilar maior quantidade de informação, permanecer na escola mais anos, não é sinónimo de garantir a aprendizagem, a motivação ou o sucesso futuro, pelo menos para muitos alunos", alertou. Aliás, acrescentou, ainda: "para a maioria dos jovens a escola não tem nada para oferecer neste momento". Para ela, é esta a questão de fundo que hoje se coloca." 
Ora, os alunos sentem este problema, apenas o governo não tem noção da realidade. E assim irá (re)começar a rotina, a persistência no erro, esquecendo-se os mentores desta tragédia que quem repete o passado não pode, no futuro, obter resultados diferentes desse passado. Na Madeira Autónoma, esta Legislatura fica marcada pela ausência de uma qualquer tentativa de inovação. Pior, ainda, a Escola do Curral das Freiras atreveu-se a inovar e o que lhe fizeram foi drástico: fundiram-na com outra. Estou convencido que tal não aconteceu por razões do foro administrativo, mas por razões de organização pedagógica inovadora, porque há quem entenda que, nas palavras de Herman José, é o “presidente da Junta” e, portanto, não pode existir “desrespeito pela hierarquia”. Ora, se esta anda obcecada pela escola do passado, porque vive atulhada em papéis, porque entende que deve ter mão firme sobre tudo e sobre todos, porque, politicamente, pavonear-se é mais importante que a aprendizagem, nada mais lógico do que fechar-se ao mundo, atirando os alunos do centro para a periferia das preocupações.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 25 de agosto de 2018

AVÔ, NÃO HÁ NET!


Quase não vivemos sem o sinal de internet. Parece que tudo pára à nossa volta e que não temos soluções para a ausência desse sinal. Há dias, aqui em casa, durante uma manhã, por avaria de um equipamento, a net deixou de funcionar. Eu que venho de um tempo distante das tecnologias, hoje ao nosso dispor, eu e os quatro netos parecíamos ter entrado em desespero. Avô, não há net! Avô, quando é que o técnico vem? Até o mais novo, com três anos, para ver os programas do "Panda", a "Patrulha Pata" e outros no IPad, insistentemente, dizia: avô não há net. E eu, que não sou um "netdependente", lá no fundo, também, a olhar para as paredes! Para eles a net é tudo, desde os jogos à comunicação com os amigos. No tempo de escola é, também, a fonte de procura do conhecimento no quadro das aprendizagens. E quando jogam ficam em rede com dois, três e mais amigos, conversando e divertindo-se.

Os "carrinhos" do Século XXI!

Aquela manhã sem net fez-me também recuar no tempo, nada que não se saiba, mas as circunstâncias avivaram-me, naquele momento, as ocupações que tínhamos, os jogos tradicionais, eu sei lá, tantas as vivências que educavam no plano da educação motora, da leitura, da prática desportiva, da regra social, como na viagem sobre as profissões através do brincar fosse ao que fosse. Esse foi um tempo. 
Às vezes, repetindo o meu pai, hoje, quando, um neto me pergunta, por exemplo, o significado de uma palavra, digo-lhes, vai ao dicionário e, depois, conversamos. A resposta vem pronta: oh avô, abre aí o computador e deixa-me ver o significado. É mais fácil! E é!
Mas aquela manhã sem net proporcionou-me outras interrogações mais profundas. Entre várias, como é possível no tempo que estamos a viver, a escola, salvo raríssimas excepções, em muitos casos, ser difícil a acessibilidade (até por falta de pagamento do serviço), existir um condicionamento à plena utilização da tecnologia, desde os telemóveis aos Ipad, pior, não estar nem minimamente preparada, nos planos organizacional, pedagógico e dos equipamentos necessários para conduzir a aprendizagem de acordo com as exigências do tempo tecnológico. O drama é exactamente esse, quando apenas uma manhã coloca todos em casa em stress pela falta de sinal, imagino uma escola com centenas, durante semanas, meses e anos a fazerem um esforço para, sentados, ouvir, ouvir e ouvir um(a) professor(a) a debitar os conteúdos do manual em total fidelidade ao intocável programa. Quando tudo está à distância de um clique. Basta aconselhar os bons e fiáveis textos entre milhares que surgem sobre um determinado tema.
Acordem, porque, se se diz que, à data de Abril de 1974 tínhamos 50 anos de atraso em tudo e, particularmente na educação, a continuar assim, voltaremos a repetir, em breve, outros 50 relativamente à tecnologia. 
Ilustração: Arquivo próprio - André, o neto mais jovem.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

NÃO É A CRIANÇA QUE TEM DE SE ADAPTAR À ESCOLA. É A ESCOLA QUE TEM DE SE ADAPTAR A CADA CRIANÇA.


Sonhar o Futuro. A Escola do Futuro. Acompanhei os 50' de um programa da RTP2 - um filme de Pierre François Didek. Logo a abrir: "O mundo mudou muito e muito rapidamente. Mas um dos lugares que evoluiu menos rapidamente, infelizmente, foi a escola" (...) "temos de repensar a educação, pois a tecnologia está a mudar o mundo a um ritmo muito rápido; muda o modo como pensamos, aquilo em que pensamos, o trabalho que fazemos". (...) "Para que a educação e a escola mudem, é preciso investir em pesquisa. É preciso ver os professores também como investigadores. As crianças são investigadoras como todos nós e todos nós devemos pensar em novas formas de pensar, em novas formas de aprender, de ganhar conhecimento e acumular novos conhecimentos". (...) "A educação não deve apenas encher um vaso, deve antes acender uma chama. Deve oferecer às crianças um entusiasmo pela vida, para realizar algo que aos olhos delas mostre que vale a pena viver" (...) "Não pode haver aprendizagem sem prazer".


Hoje, com o auxílio da internet, "as crianças são capazes de aprender qualquer coisa sozinhas. O mais difícil é dizer aos professores para não interferirem". Na minha opinião o professor deixará de ser o de um fornecedor de informações, para ser uma espécie de facilitador de aprendizagem (...) o seu papel é observar em vez de disponibilizar conteúdos" (...) "O professor não nos disse o que devíamos pesquisar, tivemos de decidir por nós próprios sobre o que iríamos falar". (...) É engraçado quando se pergunta às crianças na escola: qual a melhor maneira de aprender? Quase todas dizem que precisam de um professor (...) depois de outras vivências, perguntamos como aprenderam aquilo tudo? Aprendemos sozinhas, foi fácil". É estranho vivermos num mundo, onde as crianças ainda têm medo de dizer que aprenderam sozinhas, porque acham que está errado. Precisam de dizer que alguém as ensinou". (...) "Queremos deixar de ser um centro de ensino do século XX e passar para um centro de aprendizagem do século XXI, onde os alunos aprendem fazendo coisas novas, com as ferramentas do século XXI". (...) Uma das grandes diferenças está no projecto de base, recai mais sobre a investigação, é motivado pelo contexto. Podem ter uma questão: é possível aterrar em Marte? Por aí vão estudar Física, Biologia, Química, tudo nesse contexto. É mais apelativo e os resultados são melhores (...) É muito melhor do que estar numa sala a ouvir um professor".

"O mais difícil é dizer aos professores 
para não interferirem"

Esta a síntese do filme exibido, entre muitas declarações de professores-investigadores e alunos. Tratou-se, apenas, de mais um programa sobre a escola que, infelizmente, ainda temos, e a escola que as crianças portuguesas deveriam ter. É um absurdo o governo continuar a insistir em um modelo completamente ultrapassado, desmotivador e arredado das preocupações portadoras de futuro. Sinto uma profunda tristeza que a Região da Madeira, com um número global de alunos limitado, que poderia ser um enorme centro experimental e, globalmente, inovador, se mostre incapaz de, paulatinamente, transformar a escola do século XVIII/XIX na escola do Século XXI. O governo prefere continuar enredado em currículos, (agora é a gestão do currículo, sempre com o mesmo "modus faciendi") extensos programas desarticulados, que partem de fora para dentro, manuais, muitos manuais quando tudo está na net, sirenes de entrada e de saída das salas, complexas e exaustivas avaliações, preocupado em "ensinar" e não em fazer "aprender". É um absurdo, por clara incompetência, continuar centrado na transmissão unilateral, no princípio que o professor é que ensina e não no princípio que o aluno é quem deve descobrir e aprender mediado por uma outra postura do professor. Há excepções, muito localizadas, que confirmam a regra! Um governo que continua bloqueado em processos administrativos, em resmas de circulares, normativos e circunstanciados relatórios, tarde ou cedo, destinados ao arquivo morto. Um governo autónomo que cumpre, religiosamente, rituais, incentiva uma falsa meritocracia, que visita escolas com o peito cheio de ar (viciado), inspecciona e persegue os que desejam ser inovadores e, naquilo que é fundamental, isto é, na paulatina mudança organizacional e pedagógica demonstra uma aflitiva e constrangedora tristeza. O secretário da Educação da Madeira deveria ver aquele e outros programas  e, ao contrário de andar por terras de Jersey, no "Portuguese Food Festival", seria de todo aconselhável  que visitasse países e sistemas onde pudesse aprender como gizar uma política de educação transformadora da sociedade que a prepare para o tempo que estamos a viver.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O LUGAR DO ESTADO


Artigo de Júlia Caré
DN - 16 de Agosto.

A manter-se esta intenção, o Ensino Secundário deixará de estar presente em todos os concelhos, ficando reduzido a apenas quatro.


1. Reduzir o Ensino Secundário a apenas duas escolas no Funchal, uma a leste e outra a oeste da ilha, e ainda outra no Porto Santo, é a intenção a concretizar lá para 2026, segundo declarações de responsáveis regionais de Educação, face à gradual diminuição de população escolar... À falta de melhor estratégia para contrariar a descida demográfica, a solução é extinguir este nível de ensino em alguns locais... Medida de política educativa a acrescentar à discutível extinção, perdão, fusão de escolas públicas... Aos ouvidos ainda nos soam os discursos de congratulação, aquando de tantas inaugurações de escolas por essa ilha fora, algumas de duvidosa necessidade... E agora, em localidades marcadas por crescente despovoamento, decide-se encerrar o Ensino Secundário, esse reconhecido patamar mínimo de escolaridade e modernidade educativa, consagrado na Lei de Bases do Sistema Educativo, consensualmente aceite da direita à esquerda... E numa região onde mais de metade da população ativa não vai além do 3º ciclo do Ensino Básico...
A manter-se esta intenção, o Ensino Secundário deixará de estar presente em todos os concelhos, ficando reduzido a apenas quatro. É claro que hoje há muitas vias rápidas e facilmente as pessoas poderão deslocar-se, argumenta-se. Já não estamos na Madeira de antigamente, quando só quem podia pagar colégio interno, moradia alternativa, ou tinha familiares a viver perto da cidade, podia seguir estudos. Não deixa de soar, todavia, a um entrave ao direito universal à Educação, uma das responsabilidades do Estado, consagradas na Constituição. Seguir-se-á o encerramento de outros serviços públicos, centros de Saúde, repartições públicas? É certo que cada vez temos menos crianças... Diminuem os nascimentos... Pelo menos nos espaços rurais... Sobram casas que vão ficando vazias de novos que, à falta de perspetiva de futuro partem em busca de rumo. Os velhos vão ficando até à demanda da etapa final da vida... Parece ser mais simples abdicar da escola... Menos despesa pública? Não se sabe a opinião de autarcas destas zonas sobre esta matéria, nem se terão sido consultados, mas não deixa de ser uma curiosa estratégia de desenvolvimento, ou repovoamento do desertificado espaço rural e da costa norte da ilha! Uma empresa privada não faria melhor...
2. Interessante é a indignação de certas figuras públicas face à degradação dos serviços de correios, com encerramento de estações, principalmente após a sua transformação de instituição de serviço público da responsabilidade do Estado, em empresa privada, na sequência da polémica venda efetuada pelo governo anterior. Que me lembre, (mas posso estar errada!), não vi essas mesmas figuras manifestarem-se contra essa decisão política; muito pelo contrário: tratava-se tão só de uma simples operação de liberalização de serviços, defensável para certos quadrantes da nossa racionalidade, onde o mercado podia operar e que traria, dizia-se, importantes lucros ao Estado. Atitude igual à liberalização do transporte aéreo para a Madeira, vão já dez anos: que era bom; que traria viagens baratas; que a concorrência entre as empresas transportadoras de e para o destino Madeira (uma urbe em termos populacionais igual a Nova Iorque!) faria baixar os preços dos bilhetes; e blá, blá, blá... A realidade está aí, com o direito à mobilidade refém das políticas de preços e das condições operacionais das transportadoras, acrescidas da meteorologia a que se junta a vergonhosa situação atual com a empresa concessionária do transporte aéreo para o Porto Santo...
3. Quando em causa está o acesso a direitos de cidadania nas diversas esferas de intervenção junto das populações, o lugar é do Estado; não há paciência para retórica parlamentar ou joguinhos políticos. Há questões que ultrapassam dicotomias doutrinais, ou espectros cromáticos. E quanto às sentenças de Salomão das entidades reguladoras estamos conversados...
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

"HAY UNA GRAN PRESIÓN ECONÓMICA PARA HACER OBSOLETOS A LOS HUMANOS


En su libro 'Vida 3.0', el profesor del MIT propone argumentos para un debate global que evite que la llegada de la Inteligencia Artificial acabe en desastre.

Por
El País

Max Tegmark, director del Future of Life Institute (MIT). JOSH REYNOLDS / GETTY IMAGES

Cuando el rey Midas le pidió a Dionisio transformar en oro todo lo que tocase cometió un fallo de programación. No pensaba que el dios sería tan literal al concederle el deseo y solo fue consciente de su error cuando vio a su hija convertida en una estatua metálica. Max Tegmark (Estocolmo, 1967) cree que la inteligencia artificial puede presentar riesgos y oportunidades similares para la humanidad.
El profesor del MIT y director del Future of Life Institute en Cambridge (EE UU) estima que la llegada de una Inteligencia Artificial General (IAG) que supere a la humana es cuestión de décadas. En su visión del futuro, podríamos acabar viviendo en una civilización idílica donde robots superinteligentes harían nuestro trabajo, crearían curas para todas nuestras enfermedades o diseñasen sistemas para ordeñar la energía descomunal de los agujeros negros. Sin embargo, si no somos capaces de transmitirle nuestros objetivos con precisión, también es posible que a esa nueva inteligencia dominante no le interese nuestra supervivencia o, incluso, que asuma un objetivo absurdo como transformar en clips metálicos todos los átomos del universo, los que conforman nuestros cuerpos incluidos.
Para evitar el apocalipsis, Tegmark considera que la comunidad global debe implicarse en un debate para orientar el desarrollo de la inteligencia artificial en nuestro beneficio. Esta discusión deberá afrontar problemas concretos, como la gestión de las desigualdades generadas por la automatización del trabajo, pero también un intenso esfuerzo filosófico que triunfe donde llevamos siglos fracasando y permita definir y acordar qué es bueno para toda la humanidad para después inculcárselo a las máquinas.

Si se mira a las motivaciones de las compañías que están desarrollando la IA, la principal es ganar dinero.

Estos y otros temas relacionados con la discusión que Tegmark considera más importante para el futuro de la humanidad son los que recoge en su libro Vida 3.0: ser humano en la era de la inteligencia artificial, un ambicioso ensayo que han recomendado gurús como Elon Musk en el que el cosmólogo sueco trata de adelantarse a lo que puede suceder durante los próximos milenios.
Pregunta. Los humanos, en particular durante los últimos dos o tres siglos, hemos tenido mucho éxito comprendiendo el mundo físico, gracias al avance de disciplinas como la física o la química, pero no parece que hayamos sido tan eficaces entendiéndonos a nosotros mismos, averiguando cómo ser felices o llegando a acuerdos sobre cómo hacer un mundo mejor para todo el mundo. ¿Cómo vamos a dirigir los objetivos de la IAG sin alcanzar antes acuerdos sobre estos asuntos?
Respuesta. Creo que nuestro futuro puede ser muy interesante si ganamos la carrera entre el poder creciente de la tecnología y la sabiduría con la que se gestiona esa tecnología. Para conseguirlo, tenemos que cambiar estrategias. Nuestra estrategia habitual consistía en aprender de nuestros errores. Inventamos el fuego, la fastidiamos unas cuantas veces y después inventamos el extintor; inventamos el coche, la volvimos a fastidiar varias veces e inventamos el cinturón de seguridad y el airbag. Pero con una tecnología tan potente como las armas atómicas o la inteligencia artificial sobrehumana no vamos a poder aprender de nuestros errores. Tenemos que ser proactivos.
Es muy importante que no dejemos las discusiones sobre el futuro de la IA a un grupo de frikis de la tecnología como yo sino que incluyamos a psicólogos, sociólogos o economistas para que participen en la conversación. Porque si el objetivo es la felicidad humana, tenemos que estudiar qué significa ser feliz. Si no hacemos eso, las decisiones sobre el futuro de la humanidad las tomarán unos cuantos frikis de la tecnología, algunas compañías tecnológicas o algunos Gobiernos, que no van a ser necesariamente los mejor cualificados para tomar estas decisiones para toda la humanidad.

P. ¿La ideología o la forma de ver el mundo de las personas que desarrollen la inteligencia artificial general definirá el comportamiento de esa inteligencia?

El Gobierno español ha rechazado unirse a otros países en la ONU para prohibir las armas letales autónomas

R. Muchos de los líderes tecnológicos que están construyendo la IA son muy idealistas. Quieren que esto sea algo bueno para toda la humanidad. Pero si se mira a las motivaciones de las compañías que están desarrollando la IA, la principal es ganar dinero. Siempre harás más dinero si reemplazas humanos por máquinas que puedan hacer los mismos productos más baratos. No haces más dinero diseñando una IA que es más bondadosa. Hay una gran presión económica para hacer que los humanos sean obsoletos.
La segunda gran motivación entre los científicos es la curiosidad. Queremos ver cómo se puede hacer una inteligencia artificial por ver cómo funciona, a veces sin pensar demasiado en las consecuencias. Logramos construir armas atómicas porque había gente con curiosidad por saber cómo funcionaban los núcleos atómicos. Y después de inventarlo, muchos de aquellos científicos desearon no haberlo hecho, pero ya era demasiado tarde, porque para entonces ya había otros intereses controlando ese conocimiento.
P. En el libro parece que da por hecho que la IA facilitará la eliminación de la pobreza y el sufrimiento. Con la tecnología y las condiciones económicas actuales, ya tenemos la posibilidad de evitar una gran cantidad de sufrimiento, pero no lo hacemos porque no nos interesa lo suficiente o no le interesa a la gente con el poder necesario para conseguirlo. ¿Cómo podemos evitar que eso suceda cuando tengamos los beneficios de la inteligencia artificial?
R. En primer lugar, la tecnología misma puede ser muy útil de muchas maneras. Cada año hay mucha gente que muere en accidentes de tráfico que probablemente no morirían si fuesen en coches autónomos. Y hay más gente en América, diez veces más, que mueren en accidentes hospitalarios. Muchos de esos se podrían salvar con IA si se utilizase para diagnosticar mejor o crear mejores medicinas. Todos los problemas que no hemos sido capaces de resolver debido a nuestra limitada inteligencia es algo que podría resolver la IA. Pero eso no es suficiente. Como dice, ahora mismo tenemos muchos problemas que sabemos exactamente cómo resolver, como el hecho de que haya niños que vivan en países ricos y no estén bien alimentados. No es un problema tecnológico, es un problema de falta de voluntad política. Esto muestra lo importante de que la gente participe en esta discusión y seleccionemos las prioridades correctas.
Por ejemplo, en España, el Gobierno español ha rechazado unirse a Austria y muchos otros países en la ONU en un intento para prohibir las armas letales autónomas. España apoyó la prohibición de armas biológicas, algo que apoyaban los científicos de esa área, pero no han hecho lo mismo para apoyar a los expertos en IA. Esto es algo que la gente puede hacer: Animar a sus políticos para que afronten estos asuntos y nos aseguremos de que dirigimos la tecnología en la dirección adecuada.

En los próximos tres años comenzará una nueva carrera armamentística con armas letales autónomas

P. La conversación que propone en Vida 3.0 sobre la Inteligencia Artificial en el fondo es muy parecida a la que se debería tener sobre política en general, sobre cómo convivimos entre nosotros o como compartimos los recursos. ¿Cómo crees que el cambio en la situación tecnológica va a cambiar el debate público?
R. Creo que va a hacer las cosas más drásticas. Los cambios producidos por la ciencia se están acelerando, todo tipo de trabajos desaparecerán cada vez más rápido. Muchos se ríen de la gente que votó a Trump o a favor del Brexit, pero su rabia es muy real y los economistas te dirán que las razones por las que esta gente está enfadada, por ser más pobres de lo que eran sus padres, son reales. Y mientras no se haga nada para resolver estos problemas reales, su enfado aumentará.
La Inteligencia Artificial puede crear una cantidad enorme de nueva riqueza, no se trata de un juego de suma cero. Si nos convencemos de que va a haber suficientes impuestos para proporcionar servicios sociales y unos ingresos básicos, todo el mundo estará feliz en lugar de enfadado. Hay gente a favor de la Renta Básica Universal, pero es posible que haya mejores formas de resolver el problema. Si los gobiernos van a dar dinero a la gente solo para apoyarles, también se lo puede dar para que la gente trabaje como enfermeros o como profesoras, el tipo de trabajos que se sabe que dan un propósito a la vida de la gente, conexiones sociales...
No podemos volver a los criterios de distribución del Egipto de los faraones, en los que todo estaba en manos de un puñado de individuos, pero si una sola compañía puede desarrollar una inteligencia artificial general, es solo cuestión de tiempo que esa compañía posea casi todo. Si la gente que acumule este poder no quiere compartirlo el futuro será complicado.
P. Si no hacemos nada, ¿cuál serían las principales amenazas provocadas por el desarrollo de la IA?
R. En los próximos tres años comenzaremos una nueva carrera armamentística con armas letales autónomas. Se producirán de forma masiva por los superpoderes y en poco tiempo organizaciones como ISIS podrán tenerlas. Serán los AK-47 del futuro salvo que en este caso son máquinas perfectas para perpetrar asesinatos anónimos. En diez años, si no hacemos nada, vamos a ver más desigualdad económica. Y por último, hay mucha polémica sobre el tiempo necesario para crear una inteligencia artificial general, pero más de la mitad de los investigadores en IA creen que sucederá en décadas. En 40 años nos arriesgamos a perder completamente el control del planeta a manos de un pequeño grupo de gente que desarrolle la IA. Ese es el escenario catastrófico. Para evitarlo necesitamos que la gente se una a la conversación.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O PIOR PARA UM POLÍTICO É NÃO DEIXAR NADA PARA O FUTURO


"Todos sabemos que as boas práticas são um fator de economia. Mas a sua implementação não dependerá só da nossa vontade. Cada escola terá, no âmbito da sua autonomia, de assumir as opções que melhor entender" - discurso do secretário regional da Educação, constante na página na secretaria regional. Discurso que assenta bem, digo eu, porque está em linha com o pensamento vigente, porém, completamente distante da prática. Isto, embora fique por explicar o que são, para ele, "boas práticas" relacionadas com a "economia" (!). Enfim, um discurso apenas para fora. O que é absolutamente lamentável. Na prática, o que se passa ao nível da interferência directa nas escolas, de múltiplas maneiras, umas subtis, outras descaradas, o número de normativos que lá chegam, os telefonemas... ai os telefonemas, acabam por evidenciar que a tal autonomia não existe. É uma farsa. 


Quando alguém tenta implementá-la surgem os problemas. Quando alguém tenta ser inovador, começa a ser olhado de esguelha. Quando alguém tenta sair fora do padrão imposto, mas no quadro da autonomia constante na Lei, tem logo a inspecção à perna e, eventualmente, um processo de inquérito e as ameaças de processo disciplinar. São tantos os casos ao longo dos anos, o mais flagrante e revoltante, o da Escola do Curral das Freiras. 
A este propósito, há dias, circunstancialmente, em uma das minhas últimas passagens pelo Funchal, cruzei-me com uma distinta Colega que estimo pela sua qualidade intelectual e paixão pela escola. Chegámos a trabalhar no mesmo estabelecimento de aprendizagem. Há muito que não falávamos. Perguntei-lhe sobre a sua vida profissional. Respondeu-me mais ou menos isto: estou na escola do Curral e os últimos anos têm sido fantásticos e muito gratificantes. Isto, depois de muitos outros que me deixaram um rasto de angústia, por não conseguir fazer aquilo que mais desejava. Ali, no Curral, sentimo-nos úteis, vivemos a escola, porque a dinâmica da direcção possibilita que sejamos professores a sério. No meio da conversa, perguntou-me: conhece o professor Joaquim Sousa? Obviamente, respondi. Pois, adiantei-lhe, porque a escola tentou ser diferente, logo terminaram com a sua autonomia! Fundiram-na! E a conversa continuou extremamente interessante, baseada, sintetizo, entre a cultura e a incultura. De facto, há rudeza e ignorância, não entre os alunos, mas entre quem, circunstancialmente, se sente dono de qualquer coisa.
Ora, este diálogo, na presença de um jovem meu ex-aluno, pessoa que também muito considero, que, não sabia eu, desempenha funções políticas, demonstra a falácia daquela frase que o sítio da internet da secretaria regional da Educação encima com grande destaque. Ele, incrédulo, perante o rosário espontâneo daquela minha Colega. Aquela frase personifica, então, a mentira que tenta passar por verdade. E lá me vem à memória, uma vez mais, a frase do Professor Licínio Lima sobre a autonomia das escolas: "(...) sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Pois bem, digo-o com frontalidade: deixem-se de tretas, de frases feitas, de uma prática que não corresponde à teoria, e sejam autênticos, valorizem a autonomia como o fermento necessário a uma escola de e com futuro. Quem por esse caminho não se aventura, não deixa rigorosamente nada. Fica a pose, que nada vale! Simplesmente, porque não existem duas escolas iguais, dois públicos iguais, dois grupos de professores iguais e dois contextos sociais e económicos rigorosamente iguais. Ser distintivo é a marca que deve ser assumida. E isso só com AUTONOMIA.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 5 de agosto de 2018

O FIM DOS MANUAIS. E POR AQUI?


recorte
Imagine-se o estudo de um qualquer tema. Entra-se em um qualquer motor de busca e são milhares as informações que ficam disponíveis. Basta o professor orientar a selecção das pesquisas. Para quê, então, os manuais? Apenas para retirar dinheiro do bolso dos pais e "enriquecer" as editoras. Nada mais! 

Há anos que tantos andam a defender o fim dos manuais, perante a resistência dos governantes, incapazes de travar as ondas de interesses vários. E na Madeira, como é? Onde podia e devia ser pioneira, há quem deseje manter o passado a escrever o futuro. Ah, talvez sirva para alimentar o foguetório eleitoralista dos municípios, nos apoios que prestam aos mais vulneráveis da sociedade. Mas também é verdade que alinham nisso porque a secretaria da Educação não demonstra ter uma visão de e com futuro.
Fonte: Expresso, edição de ontem.

domingo, 29 de julho de 2018

O REI VAI NU OU O SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO VAI NU



Excerto de um artigo de opinião, assinado pela Drª Fátima Ascensão, publicado na edição de hoje do DN-Madeira.

"(...) Rapidamente terá de explicar o que se passa na educação. Como é possível a extinção da Escola Básica dos 1.º 2.º e 3.º ciclos com Pré-escolar do Curral das Freiras, em que os seus 253 alunos passarão para a Escola de Santo António? Uma escola vencedora de vários prémios, com resultados brilhantes, responsável por proporcionar oportunidades de evolução a uma comunidade isolada. Um caso de estudo em todo o país e mencionada em toda a Europa pelos resultados atingidos. Governar é perceber a dimensão territorial onde vivemos. Expliquem como vão reduzir os custos? Por acaso a escola já não está construída? Vão despedir os funcionários ou vão realocá-los noutras escolas? Onde está a poupança? Qual é, então, o futuro das outras escolas com menos alunos? Suécia, Noruega e Finlândia optam por manter as suas escolas o mais próximo das comunidades e têm turmas com máximo de 10 alunos. E porque só se falou na sua extinção após a eleição do atual Presidente do Conselho Diretivo? Não se percebe qual linha de orientação governativa para a rede escolar. Mas também não se percebe a atitude do Presidente de Junta do Curral em ser a favor da extinção da escola e esperava-se uma atuação mais ativa do Presidente da Câmara de Câmara de Lobos. Estarão estes autarcas conscientes das consequências políticas destas atitudes? E já agora qual a postura dos outros partidos face a isto? Se ganharem as eleições o que vão fazer quanto a isto? (...)"
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 24 de julho de 2018

SISTEMA EDUCATIVO EM COMA E LIGADO À MÁQUINA


Fiz toda a minha vida profissional no sector da Educação. Assisti e tenho o desfile dos sucessivos secretários regionais dos vários governos. Sobre cada um deles tenho uma opinião, no plano político, obviamente. Reservo um comentário para mais tarde. Neste momento, o que mais me entristece e preocupa é, passados 40 anos, depois de tanta investigação e produção de textos, ler, quase todos os dias, comentários muito pouco abonatórios ao actual titular da Educação. Basta procurar algumas fontes de informação e ler os artigos e comentários para que qualquer cidadão fique preocupado. Mesmo dando um certo desconto e mesmo considerando o facto de muitas vezes terem origem em fontes anónimas. Mas o que é escrito em português escorreito, não deixa de ser revelador de que existe fogo, muito fogo, proporcional à onda de fumo que alastra. Não aprecio o anonimato porque os cidadãos devem ser frontais e autênticos. Não o são, por medo da represália, o que pode ser caracterizador da ainda menoridade da vida democrática. Desde logo, não existe educação para a liberdade responsável. Aliás, as peças que tenho lido, são mais denunciadoras do que ofensivas, mas mesmo assim, os seus autores preferem resguardar-se. Entendo, perfeitamente.

Esta é lógica do sistema. Cordelinhos na mão, professores que debitam e alunos
desmotivados para um conhecimento que já não passa por ali.

Há dias, o DIÁRIO, e bem, fez uma sucinta análise a nove meses de mandato do vice-presidente do governo. Houve pessoas que ficaram abespinhadas com tal análise. Porquê aos nove meses e não mais tarde, questionaram-se. Ora, os políticos devem estar sob permanente escrutínio, aos 30 ou 100 primeiros dias, aos seis meses, aos nove ou no final do mandato. Simbolicamente, talvez aos nove para perceber-se se conseguiu, permitam-me a palavra, "parir" alguma coisa de jeito. O da Educação, sector vital do futuro colectivo da população, está há três anos, tantas ou mais razões para uma leitura, profunda, sobre o que anda ali a fazer. Os textos que tenho lido, confesso, deixam em pé os poucos cabelos que tenho! 
De facto, este secretário regional da Educação da Madeira, passados três anos, não conseguiu apresentar uma única opção de política estratégica. Se perguntarmos, indiscriminadamente, às pessoas, presumo que o principal registo que ficará é a do "secretário das fusões" de escolas, entre as quais a do Curral das Freiras. Porém, leio denúncias de um "secretário das perseguições" e, entre outras designações, de um "secretário dos processos disciplinares" e de um "secretário que detesta ver a seu lado pessoas capazes". Há, até, colaboradores credíveis que se puseram a andar, porque há mais vida profissional para além dos meandros da governação estrábica. Até com os sindicatos não conseguiu acertar o passo. Isto é preocupante, porque se conjugam dois aspectos relevantes: primeiro, a ausência de uma ideia portadora de futuro para o Sistema Educativo, a qual não se resolve com "acertos" meramente marginais; segundo, o problema da instabilidade interna que é sempre provocadora de entropia. Exactamente tudo o que o sistema não precisa, a ausência de inovação estrutural, conjugada com a fragilidade e flutuação de comportamentos. É um desastre quando estes dois aspectos se conjugam.
O problema é que, por agora, já não há volta a dar porque a legislatura caminha, rapidamente, para o final. Ninguém, sendo poder, arriscará mexer na estrutura do sistema, a meses de uma pré-campanha eleitoral. Se não fez até agora, não o fará nos meses que faltam. Deduz-se, então, que foram mais quatro anos a navegar à vista, com festas, festinhas, apoios aqui e ali (privatização), presenças para a fotografia, suplementos promocionais, peças por "encomenda", entrega de prémios, enfeitados discursos de circunstância em jornadas, conferências e pouco mais. Por outro lado, há um aspecto que reputo de relevância maior: dispor de uns subalternos que deixam o marfim correr, ter uma grande parte das direcções das escolas curvadas às orientações em um ensurdecedor silêncio, tal não significa o apoio da generalidade dos mais de seis mil professores, quase 70% dos quais sindicalizados. Simplesmente porque há muito perceberam que há um vazio de projecto que vem de muito longe e persiste. A investigação não passou por ali e, se passou, através de jornadas, conferências, etc., o secretário tem feito ouvidos de mercador. Nada de ondas!
Ora, tudo isto é preocupante, quando os índices de abandono e insucesso são assustadores, a qualificação profissional péssima, a desmobilização dos professores um facto incontornável e quando tentam remediar com pensos rápidos as feridas que têm uma natureza profunda. Sobre tudo isto há um aspecto que me deixa perplexo: porque é que o presidente do governo não consegue ver o desnorte, parecendo que antes o apoia? Há muita história para perceber e contar! Uma questão de tempo.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 17 de julho de 2018

STOP


Bolsa de Especialistas da Revista Visão
05.07.2018

Parem com esta vergonha, senhores políticos! Porque nós estamos fartos de ver a educação ser tratada como uma mulher de alterne, por quem se vive uma paixão que logo desaparece na legislatura seguinte.


Sim, parem. Mas parem de vez. Se não vivem o vosso dia a dia numa escola pública, se não vos passa pela cabeça o que é ensinar alunos de escolas de territórios educativos de intervenção prioritária ou outros, se nunca foram professores na vossa vida ou se o foram apenas em ambientes controlados como é ensinar no ensino universitário ou em colégios privados de elite, caros senhores, por favor, calem-se! Posso excluir deste rol aqueles que fizeram da sua vida e da sua carreira um estudo permanente das Ciências de Educação mas mesmo vós, excelentíssimos doutores, peçam aos políticos que nos consultem antes de legislar porque, de mudanças coladas com cuspo, estamos já fartos. Eis chegada a hora de dizermos Basta! Consultem-nos com tempo e honestidade. Consultem-nos para saber que projeto temos nós, professores, para a Educação em Portugal. E a vós, caríssimos diretores escolares, façam reuniões gerais para discutirmos medidas de inovação, medidas de combate à indisciplina, estratégias de motivação dos nossos alunos que estão, muitas vezes, tão fartos deste sistema quanto nós... Parem de nos convocar para nos contarem novamente quais as regras a cumprir nas vigilâncias dos exames nacionais, por amor de Deus!
Vivemos tempos difíceis para os professores. Como é injusta esta afirmação! Vivem-se tempos difíceis para quase todos, exceção feita a alguns banqueiros e a todos os corruptos, políticos ou não, com contas chorudas adormecidas à sombra de offshores. O resto vai vivendo como pode. E os professores carregam às costas as disfunções deste país desgovernado, desta justiça em banho-maria, desta saúde adoentada e, sobretudo, desta sociedade onde os atores de telenovela, os futebolistas, os presidentes dos clubes de futebol e os participantes nas casas dos segredos são hoje os verdadeiros heróis nacionais.
Os professores têm feito milagres nas últimas décadas com matéria-prima de fraca qualidade e recursos que deixam muito a desejar. Já não bastava andarmos com a casa às costas, termos seis turmas diferentes, darmos aulas a trinta alunos numa sala apertada, passarmos humilhações difíceis de imaginar, darmos aulas em horário não letivo (que ninguém nos paga), sermos verdadeiros administrativos quando deveríamos era termos tempo para pesquisar, ler e estudar, termos a culpa pelos maus resultados dos alunos, sermos agredidos por pais e encarregados de educação... como agora também sermos alvo desta grande injustiça nacional: apagar nove anos, quatro meses e dois dias de vida profissional aos docentes. Parece estar encontrado o verdadeiro saco de boxe da sociedade portuguesa da atualidade

Parem com esta vergonha, senhores políticos! Porque nós estamos fartos de ver a educação ser tratada como uma mulher de alterne, por quem se vive uma paixão que logo desaparece na legislatura seguinte. Não podemos, professores, alunos, pais e encarregados de educação, continuar a depender destas alternâncias políticas nem dos caprichos de ministros que nunca deram uma aula na escola básica e/ou secundária e que, por isso mesmo, não sentem nem sabem o que os livros sobre educação não lhes podem contar. A educação tem de deixar de ser uma paixão para ser um amor para a vida inteira.

A sociedade mudou, meus senhores. A mobilidade social é cada vez mais difícil de alcançar. A educação não pode ser um uniforme de tamanho único que, nestas condições, acabamos por ser obrigados a vestir a todos os alunos (com a tão proclamada redução, parece que iremos passar de 30 para 28 alunos, o que fará certamente toda a diferença), quer eles caibam lá dentro quer não. Porque, meus senhores, a dinâmica das estratégias políticas limita a implementação e o desenvolvimento dos processo de mudança. E além disso, não há nem haverá nunca mudanças sem os professores. Não há, os professores sabem disso, um projeto estruturado para a Educação em Portugal. Fazem-se mudanças – geralmente abruptas - de acordo com quem entre e quem sai dos cargos políticos, mudanças que nos chegam desse Deus invisível que se chama Ministro da Educação mas a quem, nós, professores, não conseguimos nunca rezar. Por que será? Seremos todos nós descrentes e vazios de fé, esta classe de gente perdida, estes insatisfeitos e exigentes funcionários do estado, com a vida tão facilitada e férias a não ter fim? Ou seremos nós, professores de Portugal, demasiado pacientes? Talvez... talvez seja defeito profissional visto trabalharmos diariamente com crianças e jovens - muitos deles provenientes de famílias desestruturadas - que connosco contam como âncora ao longo de tantos anos das suas vidas.
Não, senhor Ministro, nós não somos meros funcionários do Estado. Talvez não saiba mas somos muito mais do que isso! E dizemos-lhe que até funcionamos muito bem tendo em conta os contextos de mudança em que temos vivido desde a revolução de abril. Mas, senhor Ministro, agora chegou a hora de lhe dizermos que estamos cansados de funcionar.
Saberá o senhor Ministro que a concretização das políticas educativas falha e falhará sempre sem os professores? Saberá ainda, caro Ministro da Educação, que estamos velhos e cansados, alguns até mortos já? Mas não se iluda, caro senhor. Os professores nunca até aqui mostraram a sua força. Estamos divididos. Contando por alto, são catorze estruturas da FNE e da Fenprof, mais oito sindicatos independentes e o recentemente criado S.T.O.P., feito (segundo parece) por professores que dão aulas para professores que dão aulas e ainda por cima, apartidário. Mas não deixa de ser demasiada gente a decidir, ou pior, a dividir...
Senhor Ministro: os professores precisam do respeito da sociedade, dos pais, dos alunos. Sejam vocês a dar o exemplo ao país. Ou então, só nos resta defender um novo caminho por onde a Educação deve seguir. Afastada dos partidos e dos seus interesses e ligada a uma sociedade livre, pensante, preocupada com o Presente e com o Futuro sem nunca se esquecer do seu Passado. Utopia? Talvez, senhor Ministro! Porém, lembre-se: somos professores, partilhamos o sonho e oferecemos criatividade. É que nem todos os professores deste país morreram ainda, senhor Ministro da Educação.
Sindicatos: a partir de setembro esqueçam as greves aos primeiros tempos da manha bem como as manifestações na avenida! A partir de setembro, quando quiserem abrir as escolas e começar as aulas, promovam a união da classe docente! Mostrem-nos que têm coragem para promover a verdadeira união da classe docente! Mostrem ao país que defendem a qualidade da educação. Convoquem a verdadeira revolução: que nos vistamos todos de preto e fiquemos às portas das escolas; que ninguém dê aulas; que os professores mais motivados arrastem consigo os colegas adormecidos; que os diretores se unam aos professores numa luta comum; que os pais e encarregados de educação se juntem a nós. Sem medo, colegas! Os alunos apoiar-nos-ão na nossa luta e os pais, que nos conhecem como bons professores e diretores de turma, seguir-nos-ão e trarão os outros. Porque só eles sabem que somos professores vinte e quatro horas por dia e estamos e estivemos sempre lá, desde o primeiro dia em que nos entregaram os seus filhos ainda pequenos... Eles sabem disso.
Colegas: uma vez o acesso à educação está praticamente garantido em Portugal, falta agora arregaçar as mangas e lutar pela sua qualidade. Somos nós professores, que temos de fazer esta luta. Mais ninguém – exceto por razões e com fins políticos - parece ter coragem ou capacidade de a iniciar. O que ensinar? Como? Com que fins? Somos nós, colegas, que temos de tomar içar as velas desta barca que naufraga. Os problemas da escola são os problemas da sociedade e vice-versa mas a sociedade parece ainda não ter entendido isto.
Chegou a hora de pararmos de obedecer cega e estupidamente a este desnorte! Somos profissionais pensantes. Queremos mudanças! Queremos o tempo de serviço a que temos direito (nem sequer estamos a pedir retroativos)! Exigimos qualidade! Exigimos respeito! Se somos nós que no terreno lutamos diariamente contra os muitos constrangimentos do sistema, seremos nós também que temos de mostrar aos nossos políticos que não estamos interessados nos seus jogos de poder. Sem medo, colegas!
Pessoa, tu sim, tu tinhas razão. É hora!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 14 de julho de 2018

FUNDIRAM-SE


Li, na página de facebook do Dr. Joaquim José de Sousa, professor responsável pela escola do Curral das Freiras, o seguinte texto:

OBRIGADO MENINOS - OBRIGADO COLEGAS
Resultados fantásticos, agradeço do fundo do coração a todos aqueles que contribuíram para que nesta última janela a escola do Curral das Freiras tivesse resultados muito bons:

Português - 74.43 = 4
Matemática - 52.21 = 3

Escola = 63.32

Abandono escolar 2017/2018 = 0%
Retenção = 6%

Peço-vos que continuem a acreditar, como nós acreditamos que a escola é a grande janela de oportunidade da nossa sociedade. Não nos devemos nunca esquecer daqueles que vivem nas periferias da sociedade de que tanto fala o Papa Francisco.

Apesar dos resultados, em uma escola com mais de 80% com Apoio Social Educativo, a escola entrou em processo de fusão com uma do concelho do Funchal. Curiosamente, perante o ensurdecedor silêncio do presidente da autarquia de Câmara de Lobos. Os alunos da escola deram a resposta à intolerância e à perseguição. NÃO há razões objectivas e sustentadas, digam o que disserem, para a fusão de uma escola apenas por tentar ser diferente.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

UMA CARTA DE UM PROFESSOR


ESCOLA PÚBLICA

12 JUL 2018 - Publicada no DN-Madeira

A Escola pública também é minha! Poderia bem ser o mote para uma mobilização nacional. Está a definhar, numa agonia lenta. E não me refiro às fusões ou encerramentos, essa é, assim acredito, uma inevitabilidade da conjuntura económica e demográfica. Pior! Deixou de ser o lugar onde o aluno quer estar e passou a ser, não raras vezes, onde tem de estar. Porquê? Porque fomos imprudentes. Porque a demos como adquirida. Porque não nos reinventámos. Porque nem sempre demos o melhor de nós. Porque nos desviámos do fim a que se destina, o aluno, para satisfazer interesses e vaidades pessoais. Porque exigimos o que não estamos dispostos a dar. Porque..., enfim. Mudemos de paradigma. Por vontade de preferência. Por decreto se necessário.Temos de admitir que falhámos. Todos. Por ação ou omissão. Por interesse ou desinteresse. Por incúria ou desleixo. E o aluno, bem raro e precioso, precisa, urgentemente, que a Escola Pública seja adulta e responsável, que o receba e cuide, ou alguém o fará. Pouco importa lamentar pelas escolas que fecham. Cuidemos das que estão abertas! Que o aluno seja a razão de ser do sistema educativo sem carregar as culpas pelas falhas do mesmo. Que os professores se valorizem e façam valorizar. Que a comunidade educativa seja exigente, atenta e participativa. Que as políticas educativas não percam recursos humanos, preparados, motivados e fundamentais à mudança de paradigma para uma escola pública inclusiva. Que se antecipe, gradualmente e de forma sustentada, o rejuvenescimento da classe docente. Que se estabeleçam, porque não, numerus clausus à contratação, aquém ou além, de cabimentos orçamentais. A Escola pública também é minha!
Paulo Serra
Professor contratado

segunda-feira, 9 de julho de 2018

O NECESSÁRIO REGIME DE EDUCAÇÃO INCLUSIVA: AS CONFLITUALIDADES DO "TEMPO E DA URGÊNCIA"


Após a leitura atenta do novo regime de educação Inclusiva hoje [ontem] publicado em Diário da República, Decreto-lei nº 54/2018, de 6 de julho, que estabelece os princípios e as normas que garantem a inclusão, enquanto processo que visa responder à diversidade das necessidades e potencialidades de todos e de cada um dos alunos, através do aumento da participação nos processos de aprendizagem e na vida da comunidade educativa, constatamos que corresponde ao já previsto na Proposta que esteve em discussão pública, com a introdução de algumas alterações resultantes das propostas e pareceres de diferentes Organizações e Entidades de referência, algumas já avançadas em Comunicações Públicas e também através da Formação de Formadores desenvolvida pela DGE.


Colocamos em destaque a importância da convergência e interdependência do diploma da educação inclusiva com Decreto-Lei nº 55/2018, também publicado hoje [ontem] e que estabelece o currículo dos ensinos básico e secundário, os princípios orientadores da sua conceção, operacionalização e avaliação das aprendizagens, de modo a garantir que todos os alunos adquiram os conhecimentos e desenvolvam as capacidades e atitudes que contribuem para alcançar as competências previstas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Este diploma entra em vigor no dia seguinte ao da sua publicação e prevê a gradualidade no que se refere à produção de efeitos (art.º 38º).
Neste âmbito, compreendemos a necessidade de planear e agilizar a preparação do próximo ano escolar/letivo mas saliento a conflitualidade que gera a publicação tardia do Diploma da educação Inclusiva face ao momento do ano escolar em que nos encontramos, pois apesar de o mesmo referir que “o presente decreto-lei produz efeitos a partir do ano escolar 2018-2019 (nº 1 do artº 41º) refere também no nº 2 do mesmo artigo que “sem prejuízo do disposto no número anterior, e do regime previsto no artigo 31.º, devem as escolas proceder à sua aplicação na preparação do ano letivo 2018-2019”. Refira-se que o artº 31.º para além de outros aspetos estipula que “o aluno que à data da entrada em vigor do presente decreto-lei se encontre abrangido pela medida currículo específico individual, prevista na alínea e) do artigo 16.º e no artigo 21.º do Decreto-Lei n.º 3/2008, de 7 de janeiro, alterado pela Lei n.º 21/2008, de 12 de maio, deve ter o seu programa educativo individual reavaliado pela equipa multidisciplinar para identificar a necessidade de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão e para elaborar o relatório técnico-pedagógico previsto no artigo 21º do presente decreto-lei (ponto 1) e que “o relatório técnico-pedagógico e o programa educativo individual referidos nos n.os 1 e 2 devem ser elaborados em momento anterior ao início do ano letivo a que se reporta a produção de efeitos do presente decreto-lei (ponto 6).
Nesta data e quando ainda desenvolvemos nas Escolas todo um conjunto de trabalho necessário à finalização do ano escolar que decorre e também à preparação do seguinte, tendo como base que, pelo menos na última semana deste mês, é suposto termos direito a gozar o nosso período de férias (docentes e famílias), pergunto se estarão criadas as condições (tempo e capacitação) para que os agrupamentos, os professores, incluindo os de educação especial em corresponsabilização com todos os restantes, procedam à análise dos processos destes alunos que garantam a aplicação das opções metodológicas subjacentes ao presente decreto-lei e que “assentam no desenho universal para a aprendizagem e na abordagem multinível no acesso ao currículo (…) modelos curriculares flexíveis, no acompanhamento e monitorização sistemática da eficácia do contínuo das intervenções implementadas, no diálogo dos docentes com os pais ou encarregados de educação e na opção por medidas de apoio à aprendizagem, organizadas em diferentes níveis de intervenção, de acordo com as respostas educativas necessárias para cada aluno adquirir uma base comum de competências, valorizando as suas potencialidades e interesses”. 
Salientamos aqui, de forma consciente e com um forte sentido ético e profissional, neste processo de transição das medidas e apoios a adotar para os alunos que atualmente se encontram abrangidos pela alínea e) do decreto-lei nº 3/2008, de 7 de janeiro, que venham a requerer medidas adicionais e até seletivas, a pertinência e necessidade da salvaguarda de tempo para desenvolver processos sérios, responsáveis, equilibrados e devidamente fundamentado através de processos colaborativos e reflexivos dos diferentes intervenientes, com base em evidências. 
Enquanto se aguarda a disponibilização do manual de apoio à prática inclusiva que “é elaborado e disponibilizado no prazo de 30 dias após a entrada em vigor do presente decreto-lei” (artº 32º, ponto 2) e a entrada em funcionamento das equipas multidisciplinares de apoio à educação inclusiva que deverá ocorrer também no prazo de 30 dias a contar da data da entrada em vigor do presente decreto-lei (artº 35º), em que assenta o caráter de urgência destes casos se, de facto, foram os que mereceram uma atenção especial da parte de todos os envolvidos neste processo de revisão legislativa por se considerar que o Currículo Especifico Individual se tratava de uma medida muito restritiva, nem sempre corretamente aplicada por se traduzir em respostas educativas que, em muitos casos, se traduziam em processos de exclusão e discriminação de crianças e jovens?
É com o objetivo de prevenir que situações destas nunca mais se repitam, que estas crianças e jovens têm DIREITO ao desenvolvimento de um PROCESSO de reavaliação com base nos pressupostos que esta legislação, na nossa perspetiva muito bem, propõe. 
Neste contexto, não compreendemos em que medida o caráter de urgência desta transição possa garantir efetivamente uma “educação inclusiva onde todos e cada um dos alunos, independentemente da sua situação pessoal e social, encontram respostas que lhes possibilitam a aquisição de um nível de educação e formação facilitadoras da sua plena inclusão social. Sobretudo “nos casos em que se identificam maiores dificuldades de participação no currículo, cabe a cada escola definir o processo no qual identifica as barreiras à aprendizagem com que o aluno se confronta, apostando na diversidade de estratégias para as ultrapassar, de modo a assegurar que cada aluno tenha acesso ao currículo e às aprendizagens, levando todos e cada um ao limite das suas potencialidades” (Preâmbulo do decreto-lei nº 54/2018). 

É PRECISO FAZÊ-LO COM CARÁTER DE URGÊNCIA, SIM! 
MAS COM A SALVAGUARDA DO TEMPO MÍNIMO QUE GARANTA OS MESMOS DIREITOS E PERMITA AS MESMAS CONDIÇÕES, OS MESMOS INTERVENIENTES COM CAPACIDADE DE DECISÃO QUE O DIPLOMA PREVÊ PARA TODOS OS ALUNOS.

Esta nossa reflexão surge porque nos situamos, revemos e identificamos na necessidade urgente deste processo de mudança de paradigma de educação inclusiva, onde todos os alunos aprendam e atinjam o limite máximo das suas capacidades, a par da construção de percursos pessoais, sociais e profissionais de sucesso e congruentes com os desafios deste século. Por isso, consideramos que é fundamental que não haja o menor risco de que, nesta fase de transição normativa, algum aluno fique para trás, evitando que se verifiquem “disparidades e desigualdades no acesso, na participação e nos resultados de aprendizagem” já cometidos no passado. 
O que nos é exigido a TODOS é que tenhamos a capacidade e a competência para garantir o efetivo “acesso, na equidade e na inclusão, bem como na qualidade e nos resultados da aprendizagem de Todo e de Cada um dos alunos” (UNESCO, 2015).
É para isso que TODOS, mesmo TODOS temos que trabalhar!

Manuela Prata

Blogue: Incluso

quarta-feira, 4 de julho de 2018

JOGAR FORA O MANUAL




"Depois de 100 anos do mesmo modelo de ensino, é hora de jogar fora o manual.
Ao olhar para a educação dos meus pais nos anos 50 e 60 e para minha própria educação nos anos 90 e 2000, preocupa-me o facto de, apesar dos enormes avanços que vimos na tecnologia, pouco ter mudado, quando se trata de como ver a aprendizagem e como projectar ambientes de aprendizagem.(...)"
Ilustração: Google Imagens.