segunda-feira, 23 de março de 2020

TORNAR A TRAGÉDIA PANDÉMICA EM UMA OPORTUNIDADE DE APRENDIZAGEM


Acabei de ler um artigo assinado por José Pacheco Pereira. Uma delícia. Compaginei-o com o que escrevi no blogue www.gnose.eu e aqui transcrevi, subordinado ao título "A Pandemia e a paranóia escolar". Daí a minha satisfação. Ora bem, vamos ao essencial. Quando os meus netos tiveram a possibilidade de passar uma semana do centro de Nova York, disse-lhes: aproveitem, visitem tudo, vivam e sintam a experiência cultural, porque isso vale mais que três meses de aulas. O "programa" (não curricular) que cumpriram deu-me razão.

Agora, com o Covid-19 e o respectivo confinamento em casa, deveria ser aproveitado para combater a "falta de preparação de muitos portugueses para poderem ter um olhar mais sabedor, ponderado, consciente, eficaz para o que se está a passar", sublinha José Pacheco Pereira. Deveríamos aproveitar este trágico momento para tornar o aluno mais "culto, interessado pelo mundo, curioso, atento, respeitador do saber alheio, e não necessariamente apenas do saber académico. Não é remédio absoluto, mas ajuda", enaltece o autor do artigo. 
E é verdade, de que vale umas quantas páginas dos programas curriculares, debitadas à distância, quando este maldito vírus nos pode transportar para outros patamares do conhecimento? Das ciências epidemiológicas e fisiopatológicas à História do Homem, da Economia à Geografia, das Ciências do Ambiente (a poluição está a diminuir) à organização e responsabilidade social, da Estatística à literatura, poesia e cinema. A este propósito, sintetiza Pacheco Pereira: 

"(...) Quem lê, seja por obrigação, por interesse ou por gosto, está mais preparado para olhar para a pandemia, aprendendo sobre ela mais e melhor. Por exemplo, saber o que é um crescimento exponencial, perceber os gráficos, ler um mapa, ter uma noção sobre os comportamentos humanos em situação de tensão, travar o pânico, entender as informações que recebe, saber distinguir o trigo do joio, conhecer minimamente os mecanismos sensacionalistas da comunicação social e deixar as fábricas de conspiração, intriga e falsidades nos esgotos sociais onde pululam. Como agora se diz, literacias. Não é remédio absoluto, mas ajuda. 

E não se trata apenas de conhecimentos científicos sobre as epidemias, sobre as mutações, sobre os mecanismos de contágio, sobre o que é um vírus e como funciona, trata-se de muito mais. Trata-se daquilo em que ler é único, importar experiência indirecta, viver em si o que o mundo dos livros, ficção, poesia, história, transporta. E na literatura e nos filmes também não se trata de procurar apenas ficções que sejam directamente associadas ao tipo de situações que vivemos, como A Peste, de Camus, ou os contos de Edgar Allan Poe (em ambos os casos, livros que têm tido uma grande procura nestes dias), mas muitos outros, seja o 1984, de George Orwell, seja a Montanha Mágica, de Thomas Mann (onde o lugar da tuberculose, o sanatório, funciona como um microcosmos), sejam as memórias e os contos de Tchekov médico, seja, em bom rigor, tudo. A tese é, para usar um exemplo não-pandémico: quem leu Cesário Verde não vê Lisboa da mesma maneira que se não o tivesse lido. E, por muito vaga que seja essa experiência estética, é provável que defenda melhor a sua cidade pelo voto, pela actividade cívica, pela opinião. Como em tudo, não é regra absoluta, mas mais vale ter lido do que ter passado ao largo. Não é remédio absoluto, mas ajuda. (...)" 
Conclusão: 
Há muito mais para além da "fúria" pelo cumprimento dos programas curriculares e pela doentia obsessão pelos exames. Como se não existisse alternativa, anda o país a despachar capítulos dos manuais, apenas para que os relatórios finais fiquem de acordo com o superiormente estipulado! Lamento, porque a aprendizagem deve estar contextualizada com a vida. E o Covid-19 está aí, na nossa vida.

sábado, 21 de março de 2020

Pandemia e paranóia escolar


Há qualquer coisa de patético entre a pandemia que nos cerca e algumas preocupações que tenho vindo a ler sobre o processo de avaliação dos alunos. Quando nos confrontamos com uma situação que pode colocar um indivíduo entre a vida e a morte, há pessoas, em pleno período de emergência nacional, a questionar, imagine-se, o "drama" da avaliação escolar. Não encontro uma racional explicação para isto, quando as autoridades de saúde enaltecem que o pico da pandemia poderá ser atingido no início de Maio, o que pode significar que, muito para lá desse momento, todos os cuidados na contenção serão poucos. A avaliar pelo que dizem as autoridades de saúde, pressuponho, especulação minha, que não haverá condições para um regresso à normalidade até ao final do ano escolar. A não ser que o prolonguem ou o "Covid-19" seja, por "milagre", completamente eliminado. Se assim acontecer, este texto deixa de ter sentido. 


Neste momento, face ao quadro que temos pela frente, a pergunta que se coloca é se, nesta complexa situação  de saúde pública que todos estamos a viver, onde existem claras prioridades, fará algum sentido algumas almas estarem preocupadas com os exames nacionais do 4º ano, do 9º, do 11º e 12º, bem como as designadas "provas de aferição"? Os de 4º, 9º e 11º anos são, do meu ponto de vista, absolutamente dispensáveis. Se outras fossem as características do sistema educativo, obviamente que nem disto se falaria. O verdadeiro conhecimento portador de futuro tem outros contornos que não se compaginam com o actual sentido organizacional, curricular, programático e pedagógico. Mas, situemo-nos no sistema em vigor.
Ora bem, tenhamos presente que, neste ano escolar, todos os alunos foram avaliados em, pelo menos, dois dos três períodos. No caso das escolas com avaliação semestral, há um registo e, em ambas as opções, uma exaustiva avaliação continua que teve início em Setembro. Com uma ressalva: na dúvida, face às circunstâncias, o aluno não deve ser prejudicado. Portanto, não vejo onde reside o problema. Quanto ao 12º ano e respectiva acessibilidade ao ensino superior, também não creio que seja um incontornável drama. Os alunos de todo o país estão em igualdade. Mesmo sem exames (imaginemos que a situação se prolonga e atravessa os meses de Maio, Junho ou mesmo Julho), apenas espero que exista o bom senso expresso em uma proposta que assegure uma acessibilidade que corresponda às avaliações anteriores e, sobretudo, respeite os interesses e vocações dos candidatos. O que para mim é completamente despropositado é que este assunto constitua um problema, repito, um drama, quando estamos confrontados com uma impiedosa e devastadora epidemia. O drama, esse, está no surto "Covid-19" e não nos exames nacionais. 

"Mais de 850 milhões de crianças e jovens em todo o mundo, quase metade da população escolar mundial, estão sem aulas devido às medidas de contenção para travar a propagação do novo coronavírus, anunciou ontem a UNESCO."

Mas há quem assim não pense e considere. Com os alunos retidos em casa, a paranóia da preparação para os exames (e não só) anda por aí. Li, no DN, um trabalho interessante subordinado ao título: "Escolas fechadas. Pais a trabalhar em casa desesperam com exagero de TPC". O texto começa assim: "Gravar um vídeo diário a praticar piano, flauta ou guitarra; resmas de exercícios que ultrapassam largamente os 50 minutos de uma aula; trabalhos que os alunos estranham, como um poema sobre conteúdos de Físico-Química; pais que recebem vários vídeos diários da professora do pré-escolar com atividades físicas e desafios, e depois devem devolver vídeos ou fotos para mostrar como as crianças praticaram... Passaram poucos dias do encerramento das escolas decretado pelo governo para combater o novo coronavírus, mas já há pais a dar em loucos. E os desabafos, em tom de desespero, nas redes sociais são prova disso - estão eles próprios a adaptar-se ao teletrabalho e sem a disponibilidade necessária para acompanhar os filhos 24 horas por dia e, ao mesmo tempo, fazerem o papel de professores. (...) "Para nós já é o quinto dia e começa a ficar difícil. Os trabalhos de casa, a falta de braços e de paciência. Acho que se entrou numa onda de loucura porque se está a pensar que os pais estão de férias e têm todo o tempo do mundo para acompanhar as crianças", diz Vítor Jorge, jornalista de publicações especializadas, que está fechado em casa desde sexta-feira com os dois filhos, um rapaz de 9 anos e uma menina de 4. (...) "Passou-se do 8 não para 80, mas para 800. Hoje a professora deve ter feito scanner do livro e mandou fichas até ao final do ano, sem timings. Temos de ver que os tempos não são fáceis e que os pais que estão em teletrabalho não estão no sofá a ver séries e filmes." (...) Crianças na idade das do Vítor exigem acompanhamento constante, ainda mais quando estão fechadas em casa, estão sempre a interromper, pedem ajuda para os exercícios. Depois há a questão logística: se antes da quarentena os pais deixavam as crianças na escola de manhã e iam buscá-las ao fim do dia, agora têm de lhes fazer o almoço, garantir que comem, dar lanches, sempre a interromper o trabalho - a adaptação é difícil." 

"(...) Essa é a vertente da nova realidade escolar trazida pelo coronavírus que Leonor Santos enfatiza. "Não podem partir do princípio de que toda a gente tem computador, nem todos têm, nem têm de ter." Na sua casa, por exemplo, há apenas um - para Leonor trabalhar em casa e para os dois filhos, António (16 anos) e Pedro (11). Nesta terça-feira, o mais velho teve de fazer o TPC de Português antes de a mãe se sentar e iniciar o seu dia de teletrabalho. Da escola do Pedro pediram-lhe que se inscrevesse na Escola Virtual e no Google Classroom - Leonor ainda não tinha tido tempo para isso, mas o rapaz já sabia que teria de entregar trabalhos nesta quarta-feira. A questão é: como vai ser quando todos precisarem de usar o computador ao mesmo tempo?

"(...) Desde que as escolas fecharam na segunda-feira que Alice, aluna do 9.º ano, recebe na plataforma digital Inovar os trabalhos que devem ser realizados todos os dias, como se estivesse na escola. Está a cumprir-se o horário semanal. Ela concorda que os alunos tenham de continuar a aprender, mas discorda da "quantidade exagerada de exercícios, alguns completamente despropositados", que lhe estão a ser pedidos pelos docentes. "Seria bom se os professores nos mandassem ler umas páginas, uma pequena parte da matéria, e mandassem perguntas de consolidação. Mas o que estão a fazer é a pedir trabalhos como se tivéssemos todo o tempo disponível para a escola. Mandam mais trabalhos do que iríamos efetivamente realizar na aula. Quarentena não são férias, mas temos de ter tempo para fazer outras coisas, tal como tínhamos quando estávamos em aulas", diz a jovem.

Estamos, portanto, a viver um tempo de exageros. Uns preocupados com os exames, outros preocupados em despachar matéria. Ora, o tempo passado em casa, obviamente, deverá ser aproveitado para mais e melhor conhecimento. Esse é ponto assente, porque este não é um tempo de férias ou de pausa escolar. Mesmo que fosse! Deverá ser um tempo para ler, ler muito, tempo de aprender outros importantes domínios, tempo para escrever e ir ao encontro do que é estruturalmente importante. Se alguém julga que cumprir os "programas", mesmo que à distância, terá resultados no futuro, desengane-se. Ficará nos relatórios a apresentar, mais tarde despachados para o arquivo morto. Apenas isso. Haja bom senso. Lembrem-se do Professor José Pacheco que, olhando para uma extensa plateia de professores que o escutava, a páginas tantas, perguntou: todos os que aqui estão aprenderam a fazer a "raiz quadrada". Levante o braço quem ainda se lembra de a saber fazer! Levantaram uns poucos que leccionavam Matemática. Partamos, então, para o essencial.
Ilustração: Google Imagens.

Nota: 
Texto publicado no blogue: www.gnose.eu

quinta-feira, 19 de março de 2020

Escolas fechadas. Pais a trabalhar em casa desesperam com exagero de TPC


Gravar um vídeo diário a praticar piano, flauta ou guitarra; resmas de exercícios que ultrapassam largamente os 50 minutos de uma aula; trabalhos que os alunos estranham, como um poema sobre conteúdos de Fisico-Química; pais que recebem vários vídeos diários da professora do pré-escolar com atividades físicas e desafios, e depois devem devolver vídeos ou fotos para mostrar como as crianças praticaram... Passaram poucos dias do encerramento das escolas decretado pelo governo para combater o novo coronavírus, mas já há pais a dar em loucos. E os desabafos, em tom de desespero, nas redes sociais são prova disso - estão eles próprios a adaptar-se ao teletrabalho e sem a disponibilidade necessária para acompanhar os filhos 24 horas por dia e, ao mesmo tempo, fazerem o papel de professores.


"Para nós já é o quinto dia e começa a ficar difícil. Os trabalhos de casa, a falta de braços e de paciência. Acho que se entrou numa onda de loucura porque se está a pensar que os pais estão de férias e têm todo o tempo do mundo para acompanhar as crianças", diz Vítor Jorge, jornalista de publicações especializadas, que está fechado em casa desde sexta-feira com os dois filhos, um rapaz de 9 anos e uma menina de 4.
Na segunda-feira à noite, conta, um grupo de pais entrou em contacto com a professora do filho - aluno do 3.º ano - a dizer que era importante as crianças terem algumas tarefas. "Passou-se do 8 não para 80, mas para 800. Hoje a professora deve ter feito scanner do livro e mandou fichas até ao final do ano, sem timings. Temos de ver que os tempos não são fáceis e que os pais que estão em teletrabalho não estão no sofá a ver séries e filmes."
Crianças na idade das de Vítor exigem acompanhamento constante, ainda mais quando estão fechadas em casa, estão sempre a interromper, pedem ajuda para os exercícios. Depois há a questão logística: se antes da quarentena os pais deixavam as crianças na escola de manhã e iam buscá-las ao fim do dia, agora têm de lhes fazer o almoço, garantir que comem, dar lanches, sempre a interromper o trabalho - a adaptação é difícil.

E há a questão de pura e simplesmente não se ter conhecimento das matérias para poder ajudar os filhos - quem é da área de letras desespera com a matemática, há quem fique com os cabelos em pé com as artes plásticas. "O meu filho está no 3.º ano e alguns exercícios que ele tem de fazer são de matérias que eu só dei no 6.º ou no 7.º ano. Vejo-me obrigado a ter o computador ao lado para fazer pesquisa no Google."

(...) Os pedidos de trabalhos chegam por via eletrónica, por WhatsApp, pelas várias plataformas, como o Inovar ou o Moodle. E isso levanta outra questão: a existência de tecnologias em casa. Se é certo que praticamente toda a gente as tem, também é verdade que quem está em teletrabalho não pode dispensar o computador aos filhos a qualquer hora.
Essa é a vertente da nova realidade escolar trazida pelo coronavírus que Leonor Santos enfatiza. "Não podem partir do princípio de que toda a gente tem computador, nem todos têm, nem têm de ter."
Na sua casa, por exemplo, há apenas um - para Leonor trabalhar em casa e para os dois filhos, António (16 anos) e Pedro (11). Nesta terça-feira, o mais velho teve de fazer o TPC de Português antes de a mãe se sentar e iniciar o seu dia de teletrabalho. Da escola do Pedro pediram-lhe que se inscrevesse na Escola Virtual e no Google Classroom - Leonor ainda não tinha tido tempo para isso, mas o rapaz já sabia que teria de entregar trabalhos nesta quarta-feira. A questão é: como vai ser quando todos precisarem de usar o computador ao mesmo tempo?

"É uma medida que estimula a desigualdade"

Leonor faz questão de frisar que não está contra as aulas à distância depois do encerramento das escolas - o que defende é que o processo seja feito faseadamente. "Tem de se garantir que todos têm acesso, têm tecnologia, para serem autónomos."
E isso leva-a a apontar o que considera ser o segundo problema desta questão: "É uma medida que estimula a desigualdade e a discriminação, é elitista. O elo mais fraco são sempre os mesmos." Lembra ainda que "é preciso que os professores percebam que os pais não estão a viver a sua vida normal". "Fui de manhã ao supermercado e passei uma hora em filas, depois tive de fazer o almoço", o que não acontece quando está no seu local de trabalho e os filhos na escola.
O presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos entende que esta é igualmente uma oportunidade para se perceber que crianças e adultos têm de ter instrumentos e rede wi-fi nas suas casas. "É uma questão social a que o governo tem de estar atento, e as juntas de freguesia também", diz, não deixando de referir que a maioria dos alunos do escalão A têm excelentes telemóveis.
Na casa de Vítor Jorge existem dois portáteis, mas quando o filho precisar, ou ele ou a mulher terão de parar o trabalho. Os TPC que a professora enviou por e-mail - e ainda não começaram as videoconferências - vai ainda obrigá-lo a sair de casa para imprimir as folhas de exercício porque não tem impressora. "Isto quando toda a gente está a sugerir que não se vá à rua."

Mais matéria do que nas aulas

Desde que as escolas fecharam na segunda-feira que Alice, aluna do 9.º ano, recebe na plataforma digital Inovar os trabalhos que devem ser realizados todos os dias, como se estivesse na escola. Está a cumprir-se o horário semanal. Ela concorda que os alunos tenham de continuar a aprender, mas discorda da "quantidade exagerada de exercícios, alguns completamente despropositados", que lhe estão a ser pedidos pelos docentes.

"Seria bom se os professores nos mandassem ler umas páginas, uma pequena parte da matéria, e mandassem perguntas de consolidação. Mas o que estão a fazer é a pedir trabalhos como se tivéssemos todo o tempo disponível para a escola. Mandam mais trabalhos do que iríamos efetivamente realizar na aula. Quarentena não são férias, mas temos de ter tempo para fazer outras coisas, tal como tínhamos quando estávamos em aulas", diz a jovem.
Por exemplo, para a aula de Francês desta terça-feira teria de fazer dois exercícios do livro e vários outros - ouvir duas músicas e responder a questões sobre as mesmas e ainda visualizar um vídeo na internet para responder a outras três perguntas. "É óbvio que em 50 minutos de aula - e não são 50 minutos porque entre sentar e começarmos a trabalhar perdemos 15 minutos - nunca conseguiríamos fazer isto. Mesmo em casa, sem a confusão da turma, levei mais de uma hora."

O que custa alterar rotinas

Quando os trabalhos pedidos pelos professores começaram a chegar, Inês Malhão precisou de ajudar o filho, aluno do 8.º ano, a organizar-se. Chegaram apenas exercícios de cinco disciplinas, mas dado o volume - e até porque o filho é um pouco desorganizado - teve de ser ela a pôr ordem nas coisas. "Ele estava completamente assoberbado com tanta coisa."
A solução foi estabelecerem um horário por disciplina para que o rapaz trabalhe como se estivesse na escola que frequenta, a Padre António Vieira, em Lisboa. Inês não tem do que se queixar, considera que aquilo que está a ser pedido pelos professores é equilibrado. Ao contrário do que pensa Vítor, Leonor e a aluna Alice e tantos pais que desesperam nas redes sociais. E até o representante dos diretores de turma, que admite alguns exageros nestes primeiros dias.

A cambalhota na rotina das famílias com filhos em idade escolar ilustra bem como as vidas se alteraram de um dia para o outro. "É uma aprendizagem para as famílias, que devem encontrar estratégias para diminuir a pressão de ter as crianças em casa e estarem em teletrabalho, mas não deixa de ser difícil", diz Cláudia Vieira, psicóloga educacional.
Aconselha, contudo, a que as famílias se organizem no sentido de estabelecer horários, porque o teletrabalho exige muita disciplina e é interrompido pelos pequenos-almoços, almoços, lanches... Mas alerta os pais que os miúdos precisam de monitorização, mas têm de ter alguma autonomia na realização dos trabalhos, tal como na escola. Outra dica é estimular a interação entre os irmãos.

A psicóloga educacional entende que, quando as crianças são obrigadas a passar tanto tempo em casa, deve-se trabalhar para o seu desenvolvimento integral e não apenas os conteúdos escolares. "É a oportunidade para, por exemplo, realizar um trabalho-projeto com a família, em várias áreas - se for sobre uma borboleta, pode ter uma abordagem de Biologia ou um poema para Português. Não estamos preparados para a flexibilidade de conteúdos."
O vídeo, com Margarida Pinto Correia, sublinha que o primeiro passo é garantir que os horários são cumpridos e a verificação de que todos os trabalhos preparados foram realizados. E incentiva os pais a participar e a ajudar a identificar dúvidas.
A Direção-Geral da Educação diz ainda que os pais devem manter o contacto com os professores e os diretores de turma porque os alunos não estão de férias. Mas também faz questão de lembrar que as crianças precisam de tempos livres e que se deve incentivar a leitura.
Fonte: DN

sábado, 14 de março de 2020

"Sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós"


Faz hoje quatro meses. Li na edição do JM de 14 de Novembro de 2019: “(...) Já que estamos no início de um novo mandato, queria assumir, junto da comunidade educativa desta escola, toda a disponibilidade, por parte da tutela, para continuarmos a colaborar e a apoiar aqueles que são os projetos educativos de cada escola e, neste particular, o projeto educativo da Escola Dr. Ângelo Augusto da Silva (...)” - Dr. Jorge Carvalho, secretário Regional da Educação.


E li mais: "(...) Nós entendemos que só assim, respeitando as especificidades, os diferentes contextos e os diferentes ambientes de aprendizagem é que é possível conseguirmos dar resposta letiva, mas também uma resposta individual” (...) “Ou seja, termos a capacidade de proporcionarmos as condições para que cada um, à sua medida, possa atingir o sucesso (...)". 
Guardei o documento e, serenamente, aguardei. Passaram-se quatro meses e regressei ao arquivo para tomar o pulso a tão extraordinárias preocupações. De um fatinho de tamanho único para todos, característica do sistema educativo desde a Revolução Industrial, finalmente, o secretário desejava e apontava para um fatinho à medida de cada um. No essencial, uma resposta individual de acordo com os interesses e expectativas de cada jovem. Por outras palavras, o que ele quis dizer é que o "sonho comanda a vida" e que é o sistema que tem de se adaptar às novas circunstâncias e não o aluno à imposição vertical que determina tipos de organização, de currículos, de programas e de toda a zona pedagógica. O que ele, naturalmente, quis dizer é que a noção de estabelecimento de ensino seria alterada para um conceito de estabelecimento de aprendizagem. E o que ele, deduzo, ainda quis transmitir aos professores é que, sendo o aluno prioritário, iria tomar medidas para acabar com a excessiva burocracia que monopoliza e inferniza os docentes.

Cheguei a pensar que o secretário, finalmente, seguiria o que tantos investigadores e autores de diversos sectores e áreas do conhecimento há muito têm vindo a salientar. E pensei mesmo que aquela esclarecida posição vinha na sequência de um qualquer roteiro sobre o que de bom vem sendo realizado em vários países, mesmo em muitas escolas de Portugal, na sequência, até, dos alertas de tantas instituições. Mas não, erro meu. Passados quatro meses, aqui sentado frente ao teclado, perpassa-me, uma vez mais, as palavras do Professor Doutor Licínio Lima "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". 
O resto é paleio circunstancial para entreter incautos.

As rotinas mantêm-se e a escola continua a ser aquilo que, por um lado, a ausência de pensamento determina, por outro, o espelho de uma centralização que evita ou mesmo bloqueia diferentes formatos organizacionais e concomitante pedagogia diferenciada. E nisto, lamento, há um ruidoso silêncio, uma submissão irritante, uma abdicação do pensamento, perseguições e mensagens subliminares nesse sentido, o condicionamento e o medo de uma qualquer mudança, um incentivo à desconfiança nos e dos professores, agravada pela avaliação do desempenho docente que tem gerado muitas incompatibilidades. 
Eu diria que a engrenagem é perfeita. No mau sentido, mas é! Até sob a capa da democracia muitos eternizam-se nos executivos dos estabelecimentos, como se fossem "correias de transmissão", incapazes de assumir que tudo tem um tempo, que "uma escola sem pensamento crítico não é escola" e que tantos outros poderiam fazer muito mais e melhor do que aqueles que, ilusoriamente, julgam ser os portadores de uma escola com futuro. 
Há dias dizia-me uma pessoa por quem nutro uma enorme consideração: há especialistas em "juntar palavras". E isso não chega. É preciso ser consequente. Passados quatro meses tudo continua enervantemente igual. E continuará, certamente.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 4 de março de 2020

A cidadania vive-se, não se aprende por discursos ou a estudar


Professor por inteiro e diretor da escola Tangerina todos os dias, Manuel Rangel nunca deixou de dar aulas desde que concluiu o curso do Magistério Primário, no Porto. Da formação de educadores e professores ao 1o Ciclo, ser professor foi o seu “múnus” e a Tangerina o projeto central da sua vida – que terminou apenas algum tempo depois desta entrevista, que seria a última. Recebeu a PÁGINA com o sorriso que era marca da sua imagem, e como tal irá perdurar na memória de tantos que com ele partilharam a construção de saberes. Até sempre! [1956 / 2015]

A Tangerina é um projeto que nasceu em condições muito especiais.

Sim. Era um projeto já antigo, de algumas pessoas. Há cerca de 20 anos, quando a escola foi fundada, não havia um espaço com um projeto educativo que, do ponto de vista da filosofia de base, fosse realmente diferente. O projeto acabou por nascer de uma forma um bocadinho diferente do que é costume, a partir dos próprios pais. Um grupo de professores estava a trabalhar numa escola, também privada, onde se começou a aplicar um programa de Matemática que acabou por ser um êxito, o Comprehensive School Mathematics Program. Os pais organizaram-se para avançar com uma escola onde se desse continuidade a esse programa, que é o que ainda usamos. Teve o lado bom de ter partido dos pais, mais ainda por ter começado pelo lado da Pedagogia, da Educação.

O que é que distingue esta escola das outras?

Isto não tem nada de especialmente novo. O que seguimos aqui são os princípios que há cento e tal anos se anda a dizer que deviam orientar a chamada Escola Nova. A grande questão é traduzir isso em mais do que declarações de intenção. Foram criados os chamados projetos educativos e aquilo é papel do princípio ao fim… Ou seja, são princípios, objetivos, intenções, e depois burocracia, caracterização pseudossociológica dos meios, mas não tem influência nenhuma sobre a ação. Costumo dizer que não temos nada de novo, a não ser tentar fazer o que está dito nesses princípios. O que tem sido difícil para a instituição Escola é encontrar em cada uma das disciplinas, em cada um dos conteúdos, e até na forma de estar, a tradução prática desses mesmos princípios no dia-a-dia, gesto a gesto. Acho que, em geral, as pessoas acreditam neles, mas depois vão trabalhar a Matemática e nem a Matemática é posta daquela maneira, nem os professores se colocam daquela maneira. Mas isto em tudo, mesmo na centralidade que é dada à criança. 

Vivemos anos quase disparatadamente pedocêntricos; a criança tornou-se a ‘rainha’, mas nas partes mais inúteis, fúteis e perigosas. As crianças têm tudo, é-lhes dado tudo, é-lhes proporcionado tudo. Não digo que seja universal, mas com frequência tornam-se chantagistas, birrentas... E os pais acabam por ceder. Mas depois, no essencial, e isso é muito nítido na Escola, elas não ocupam o centro, porque não lhes é reconhecido o estatuto de pessoa, de cidadania, de quem tem opinião.

Nas escolas, o foco pedagógico não está ‘bem direcionado’?

Não. Diz-se que a criança tem de ter opinião, mas depois isso não se traduz, sobretudo nas matérias. A Escola continua a querer as coisas fechadas e padronizadas. Por exemplo, o Português é dado com respostas fechadas e aquilo que no fundo se ensina às crianças é a responder ao que o professor quer. A criança preocupa-se mais em saber o que o professor quer que ela responda do que aquilo que ela acha. Não se lhe dá o estatuto de maioridade no pensamento. É evidente que não é de maturidade, mas é de maioridade. As crianças são pertinentes naquilo que dizem, têm um pensamento válido, são capazes de discutir entre elas. Nós vamos aplicando aqui esse programa da filosofia para crianças. No fundo, a intenção de explorar questões a partir do grupo. E com a convicção de que as crianças são capazes de fazer perguntas pertinentes, de discutir, de argumentar. Mas isto é uma aprendizagem que se faz. E o programa de Matemática é isto, também.

Como é ensinada-aprendida a Matemática?

No fundo, trabalhamos os mesmos conteúdos previstos no programa oficial do 1o Ciclo do Ensino Básico, mas com uma metodologia totalmente diferente, mais assente em conceitos do que em técnicas. A Escola em geral preocupa-se em ensinar rapidamente truques e técnicas às crianças, como se o 1o Ciclo fosse o fim da escolaridade obrigatória. Este programa é mais centrado em conceitos e, sendo da área da Matemática, reclama-se um programa socrático. Temos uns manuais que seguimos, onde os professores têm o que devem fazer aula a aula. E a coisa mais espantosa, que até assusta um bocadinho, é que, parecendo que o professor vai ter de estar condicionado àquilo, ao fim de algum tempo, percebemos que esses manuais são em si um instrumento de formação dos próprios professores, porque não há fala do professor que não acabe com um ponto de interrogação. Portanto, o que nós aprendemos com este programa é que até na Matemática, que parece distante, tudo pode ser tirado das próprias crianças.

O programa não dá margem aos professores?

A princípio é um bocadinho condicionante, porque os professores têm ali toda a aula, as situações e até as respostas possíveis dos alunos. Mas, no fundo, para condicionar o professor a que continue a fazer perguntas. O que acontece é que, ao fim de uns meses, ele vai-se libertando daquilo, vai adaptando aquela estrutura ao grupo, vai mudando a situação e o contexto, vai suprimindo aulas ou juntando aulas... Os professores são todos diferentes, mas todos usam o mesmo programa.

E os resultados?

De facto, o que é espantoso é o resultado. Porque ao fim destes anos, todos os dias temos dúvidas: se é este o caminho, se estamos a fazer bem, se podíamos ir mais longe... Acho que ter dúvidas é o que nos torna vivos. E nessa vigilância quotidiana nunca estamos muito seguros de que chegamos ao modelo final, mas o que nos dá mais gosto – e talvez seja a nossa maior vitória – é termos demonstrado nestes já quase 20 anos que é possível manter todos os princípios e ter bons resultados. O que se tem dito muito nos últimos anos é que nas escolas onde os alunos estão contentes, alegres, felizes, não se aprende e os resultados baixam. Parece que para haver bons resultados é preciso ser tudo uma chatice. E eu acho que aqui na escola o mais gratificante para nós é o feedback dado pelos pais, de que os alunos vivem bem aqui dentro, têm um grande à-vontade e depois têm muito bons resultados.

Não estamos aqui a trabalhar para o exame. A nossa preocupação vai muito mais longe...

Portanto, a escola segue os currículos e o que muda é o método?

Não diria que seguimos, mas temos como referência final os conteúdos. Por exemplo, em Estudo do Meio praticamente não seguimos o programa; trabalhamos por projetos e, portanto, é o que aparecer. Partimos do princípio inverso. Os conteúdos de Estudo do Meio nos quatro primeiros anos são, e bem, as coisas mais próximas da vida das crianças: elas próprias, o meio onde vivem, a família, o bairro… Os programas tentam dar uma visão enciclopédica do mundo que cerca as crianças. Nós chegamos lá de outra maneira, fazemos um bocadinho ao contrário: em vez de darmos no primeiro ano um bocadinho do corpo humano, da família, do bairro e das instituições, e no segundo ano outro bocadinho do corpo humano, um bocadinho do espaço, do meio... Deixamos que as coisas fluam, que eles peguem nos temas que lhes interessem e vão trabalhando e estudando, confiando que na maior parte das vezes vão ao encontro do que é pretendido. E o que nós, professores, temos de fazer é a leitura oposta, ou seja, eles já trabalharam isto, isto e isto. É certo que há coisas importantes a que não se chega, acontece muito no 4o ano, mas então nós acrescentamos isso. É isto que eu distingo entre ter como referência ou seguir o programa. E na Matemática é um bocado a mesma coisa.

E vão cumprindo as metas...

Temos de cumprir, até porque os nossos alunos são sujeitos a exame. Mas fazemos o nosso programa normalmente. Temos é de fazer um levantamento daquilo que está nas metas e não está no nosso programa e de chegar ao 3o e 4o anos e, consideremos absurdos ou não, acrescentar os pontos em falta. Temos essa preocupação, mas não deixamos que a pressão exterior estrague as nossas perspetivas. Uma coisa muito frequente – e é um dos problemas dos exames – é as pessoas estarem sempre a desculpar-se por não fazerem isto ou aquilo porque têm exames, porque têm muito programa para dar... O que nós temos vindo a provar é que podemos fazer aquilo em que acreditamos e que consideramos mais importante: que eles tenham a cabeça bem estruturada, que saibam pensar nas coisas. O resto torna-se mais fácil.

Valorizam muito os verbos “aprender” e “divertir”.

Sim. Uma coisa e outra não são inconciliáveis, pelo contrário.

E acham que essa conjugação se tem perdido nas escolas?

Sim. Sobretudo agora, com a competição que existe na entrada para as faculdades, as pessoas acham que tudo é decisivo desde os primeiros anos. E a história dos rankings veio agravar isso. As pessoas preferem os bons resultados académicos, embora isso, às vezes, nem traduza exatamente o bem-estar e o contentamento das crianças. Tenho dito a vários pais que talvez esta não seja a escola que procuram. Nem toda a gente educa da mesma maneira: há pessoas que são, de facto, rígidas, centradas no estritamente académico, nos resultados, e há outras que pensam um bocadinho mais longe. 

O que acontece muitas vezes é que os resultados são conseguidos a partir de sistemas muito estreitos, muito forçados, em vez de se pensar em alunos mais autónomos, mais interessados, capazes de se governarem a si próprios. Essa é a nossa preocupação. Nós não estamos aqui a trabalhar para o exame; a nossa preocupação vai muito mais longe. Para nós, é mais importante que eles se submetam a exame sem demasiado nervosismo, com alguma segurança, que façam o seu melhor e que percebam que quatro anos da sua vida não se resumem a um exame. Para nós, é muito mais importante que estejam emocionalmente bem, que gostem de vir à escola, que gostem de aprender, que sejam interessados por questões culturais. Gratifica-me mais saber que os nossos alunos são fabulosos num museu, enquanto outros acham uma seca. Para mim, o interesse cultural, o saber discutir um tema, é muito mais importante do que uma boa nota nos exames.

Eles são desafiados e estimulados para isso?

Uma criança com a cabeça bem organizada faz a parte escolar, que é a mais simples. O resto é muito mais complicado: estudar, saber procurar, levantar questões, ir mais longe... A parte escolar é como os algoritmos na Matemática: se souberem os conceitos, os algoritmos são mais simples; se não perceberem o que estão a fazer, falham sistematicamente. E este é o erro do ensino mais tradicional, estar tão preocupado com um certo tipo de eficiência que queima etapas e portanto não lhes dá as armas para que percebam o que estão a fazer. Portanto, quando os pais põem aqui as crianças, têm de ter muito claro que o nosso trabalho não é para bons resultados traduzidos em questões académicas. Mas temos a segurança das notas dos nossos alunos serem muito boas no 5o ano, e tanto faz irem para o setor público ou continuarem no privado.

Há uma boa integração?

Há um choque na forma de estar, sobretudo. Uma mãe contou-me que há tempos foi chamada à escola e todas as queixas que lhe fizeram eram coisas que ela considerava boas: que o filho fazia muitas perguntas, que estava sempre a responder às questões, que tratava os professores com uma proximidade muito grande – tudo o que essa mãe sempre quis. Existe esse choque relativamente à forma de estar, mas as crianças têm uma grande capacidade de se adaptarem e de perceberem quais são as novas regras. E a verdade é que têm sucesso escolar, e isso dá-nos gozo. Embora não trabalhemos para a nota académica, é bom saber que aquilo que elas aprenderam aqui funciona como um bom suporte, mesmo no ensino mais tradicional. Acreditamos que, no fundo, estamos aqui para perceber o mundo e para colocar questões sobre o mundo. Nós estamos muito mais interessados nas perguntas dos miúdos do que nas respostas, e o ensino preocupa-se muito mais com o contrário: a resposta, o fechado, o tipificado, o estereotipado, o não questionar. É triste que a Escola se preocupe sempre mais com a avaliação do que com o ensino. Aliás, pouco se ensina para se avaliar imenso. A Escola devia estimular a linguagem, a expressão, o conhecimento, o contacto, a experiência.

A escola deve servir para as crianças perceberem o mundo e expressarem ideias e sentimentos sobre ele.

É necessário mais espaço para as expressões?

Os nossos dois pilares são as expressões e os projetos; são as nossas opções metodológicas instrumentais. A expressão é o que nos permite respeitar as crianças e dar um sentido correto ao trabalho que fazemos com elas; é pensar que toda a escola deve servir para as crianças entenderem o mundo e expressarem ideias e sentimentos sobre ele. E só podemos fazer isto se dermos uma importância grande à expressão. As pessoas reduzem as expressões a umas pinturinhas, a uns ‘macacos’ expostos na parede. Não é isso! É a centralidade da expressão efetiva das crianças! A primeira coisa que uma criança faz é exprimir-se por desenho, por gestos. E o que temos é de dar abertura e espaço para ela se exprimir, porque aos três, quatro anos é isso que ela tem de fazer: exprimir as suas preocupações, os seus medos, as suas ideias… Por outro lado, trabalhar as expressões é trabalhar diferentes linguagens. Aqui, as expressões são centrais e atravessam todas as áreas. São o reflexo do nosso olhar sobre o papel da escola, que é tornar a criança capaz de entender o mundo através de múltiplas linguagens, para depois saber exprimir o seu pensamento, as suas ideias e os seus sentimentos sobre o próprio mundo. Por isso, uma das nossas linhas é a Educação pela Arte. Esta é uma escola geral, mas a Arte é um instrumento fundamental, que valorizamos muito.

E relativamente aos projetos?

Os projetos são um instrumento que nos permite dar às crianças a noção do que é a escola, onde elas podem estudar o que quiserem saber. Esta é a diferença em relação ao Estudo do Meio – não é dar-lhes 20 aulas sobre o corpo humano, mais cinco sobre o espaço ou mais sete sobre História. Há coisas que nós sabemos, que são o nosso património cultural e histórico, que é importante passar, mas isso que venha delas, que venha a propósito das suas inquietações. Há algum tempo, entrei na sala dos quatro anos e vi que estavam a estudar Matisse. Estranhei, mas a educadora explicou-me que um dia estavam a fazer colagens e, ao ver um dos trabalhos, comentou que parecia um quadro de Matisse. Um dos miúdos perguntou quem era e ela explicou que era um pintor que trabalhou muito com recorte e colagem. E uma das crianças disse que esse podia ser um assunto a estudar. Isto é um pequeno exemplo. Aos 4 anos eles já tinham percebido para que deve ser a escola, que é para estudar aquilo que nos despertar a curiosidade.

Falemos da proximidade entre alunos e professores. Eles almoçam juntos nas salas de aula...

Sim. Nós temos, oficialmente, um espaço de cantina, mas este acaba por ser mais um momento de convívio muito importante. Cria responsabilidade e envolvimento. E para nós faz parte da educação. Em cada sala, temos equipas responsáveis por limpar a sala depois de trabalharem, ir buscar a louça e pôr a mesa e limpar no fim. Isto trabalha muito a questão dos papéis. Todos estamos ali, todos temos obrigação de fazer; se sujamos, temos de limpar. É a tal educação para a cidadania, uma expressão que, sinceramente, até me incomoda, porque não se traduz em nada. Há escolas que têm aulas de Educação para a Cidadania, mas depois estão organizadas de forma anti-cidadã. É mais um conteúdo que os alunos têm de decorar para ‘papaguearem e vomitarem’ nos testes. A cidadania não se aprende por discursos, por se dizer ou por estudar. A cidadania vive-se e só se aprende se se viver.

A Tangerina é o projeto da sua vida?

É um projeto central na minha vida. E continua a dar-me gozo vir para aqui todos os dias, reencontrar as crianças, e pensar no que fazemos. Tenho sempre uma grande inquietação, nunca estou satisfeito. Mas tenho um grande gozo nisto!

Maria João Leite (entrevista)
Ana Alvim (fotografia)

NOTA
Com a devida vénia, transcrito da Página da Educação.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A indisciplina e a propaganda


FACTO

Enaltece a secretaria da Educação através do JM: "Os casos de indisciplina nas escolas da Região estão a diminuir de forma significativa. Apesar de alguns episódios mais mediatizados, nos últimos seis anos os comportamentos desviantes dos alunos madeirenses desceram quase 40%. (...) No ano lectivo 2013/2014 registaram-se 13.216 participações disciplinares em contexto escolar, com este número a descer para 8.267 registados em 2018/2019". - Fonte: Jornal da Madeira.

COMENTÁRIO

Oxalá estes números fossem sérios. Mas tudo leva a crer que não são. Cruzo-me com professores e não há um, repito, um, que me diga da sua satisfação na função que exerce e na escola que vive. Pelo contrário, queixam-se, veementemente, de dois aspectos: da crescente indisciplina (má educação) e da burocracia que se multiplica. Portanto, isto cheira a propaganda. Os dados de 2014 não são da responsabilidade do actual titular da pasta. Foi em 2015 que assumiu funções e, curiosamente, daí para cá a quebra foi de quase 40%. É um aspecto a ter em consideração.
Ora bem, porque as características da sociedade não se alteraram, nada aconteceu nas políticas de família com efeitos directos nos aspectos comportamentais, a todos os níveis de análise, nada de novo e de substantivo se verificou nos estabelecimentos de aprendizagem, então, é possível concluir uma de duas situações, ou as duas em simultâneo: que os estabelecimentos de aprendizagem, para não terem "chatices", não comunicam os actos inapropriados considerados indisciplina, tentando resolvê-los no plano interno; ou existem indicações precisas para só dar nota dos mais insustentáveis. Há uma terceira hipótese que se situa em contabilizações distintas entre a metodologia de registo de 2014 e a de 2019. Há qualquer coisa aqui que não bate certo.

Ficaria muito feliz que os dados demonstrassem que um conjunto de acções, devidamente conjugadas, estavam a produzir efeitos positivos a um surpreendente ritmo de quase 1.000 casos por ano. Significaria isso que, no final da presente legislatura (2023), a Região apresentaria, grosso modo, 4.000 casos e, a manter-se o ritmo, em 2027 seriam absolutamente marginais. 

À luz do que dizem os professores a situação não é essa. Os casos narrados que chegam a várias instituições colocam os dados apresentados em uma grosseira dúvida, só justificável pela propaganda. Um estudo de 2018 enaltece que "mais de 60% dos professores sofre de exaustão emocional (...) Mais de 65 mil professores revelaram "níveis preocupantes de exaustão emocional", uma das três características do síndrome de 'burnout (...)". Isto é, na Madeira, quanto mais cresce a exaustão, mais diminui a indisciplina. É curioso, porque, por alguma razão, os professores estão exaustos. Ademais, e isto para mim constitui um dado politicamente relevante, é que o anúncio daquelas cifras estatísticas colocam em causa os anteriores secretários que tutelaram a Educação. Trata-se mesmo de uma ofensa a essas pessoas. "Fui eu que resolvi a situação, enquanto os outros andaram por aqui a passar o tempo!"
Mas continuo a sublinhar... oxalá fossem verdadeiros. Porque a serem teria eu a certeza que muito tinha mudado nas famílias e na organização do sistema educativo.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Ouviram, senhores membros do governo?



Ouvi, na RTP-M, o Dr. Luís Sousa, Mestre em Direito Administrativo e Contratação Pública, CEO da ACIN iCloud Solutions. 
Não o conheço no plano pessoal, mas tenho uma especial admiração por esta figura madeirense. E ontem, a propósito de equipamentos oferecidos para uma sala de informática da Universidade da Madeira, disse de forma muito clara e assertiva:

"As escolas seguem um programa tecnológico que está atrasado 15 anos. E nós não podemos estar a gastar dinheiro em professores e nas infra-estruturas com um  programa que está atrasado quinze anos. Os alunos percebem. Ao perceberem isto desmotivam-se (...) Portanto, isto está tudo errado. 
Tem de haver um esforço muito grande para que as escolas adaptem os seus currículos e não estejam de costas voltadas para as empresas"

Ouviu, Senhor secretário da Educação? Não é com uma salinha aqui e outra ali, pomposa e ridiculamente designada por "sala de aula do futuro" (o futuro é agora), tampouco com umas experiências sobre robótica, que se ganham os desafios que as novas gerações têm pela frente. Isto implica uma mudança, em alguns casos radical, no que concerne à organização do sistema educativo autónomo (regionalizado), dos currículos, dos programas e dos princípios pedagógicos nos quais deve assentar o conhecimento. Ainda mais, não é com um sistema estupidamente centralizado, sistema que mata a autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, não é padronizando e burocratizando cada vez mais o sistema que se chega à inovação. Não é massacrando os professores com papelada inútil que se abre espaço ao conhecimento. 
Se desejam construir o futuro terão de respeitar a diferenciação entre escolas e a diferenciação pedagógica, o número de alunos por estabelecimento e gerar uma política de total respeito pelas vocações. O que depreendi das palavras do Dr. Luís Sousa é que, por aquele caminho, a desmotivação acontece porque, no plano tecnológico, há alunos que sabem muito, mas mesmo muito mais que os próprios professores. É contra esta escola amarrada, bloqueada e ao serviço da propaganda política que me insurjo. Isto não vai com "Ponto e Vírgulas"
Parabéns Dr. Luís Sousa, pelo seu êxito profissional e pelo contributo que veio dar com as suas esclarecidas palavras. O Senhor sabe, por experiência própria, pelo percurso que fez que "isto está tudo errado". Não apenas na tecnologia, mas na generalidade das aprendizagens.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Carência de boa educação


Entro no supermercado, dirijo-me à peixaria e, enquanto escamam o peixe, oiço uma discussão sobre folgas de serviço (!). Passo por um "cash & cary", vou à frente e faço marcha atrás para colocar o automóvel dentro do espaço correcto. Entra um sujeito e estaciona exactamente o carro a meio de dois espaços de estacionamento. Em silêncio, fiquei a olhar, e o sujeito lá foi à sua vida. Desço uma escada rolante, com duas pessoas a ocuparem todo o espaço, peço licença para passar e oiço: "não tenho culpa disto andar devagar". Há tempos, estava entretido a pescar, aproximou-se um sujeito e, no cais, lá vai isto: dois sacos de plástico, cheios de restos, tudo para o mar. Vou na estrada e assisto a  velocidades desadequadas, gestos e palavrões de arrepiar. Vou a um serviço, aguardo, e quando chega a minha vez o funcionário(a) fica a olhar para o computador como se eu fosse transparente. Calo-me, até que me olhe nos olhos e perceba ao que vou. Até em um simples cumprimento, a muito custo somos correspondidos.


Há excepções, muitas, obviamente que sim. Não tomo o todo pela parte. O que quero dizer é que a Educação já teve melhores dias. E isto tem pouco a ver com a origem social, mas tão-somente com regras básicas que se aprendem. Cumprir horários, tarefas definidas, prazos de execução, ser rigoroso e responsável, não ser corrupto, eu sei lá, tudo o que tem a ver com a vivência em sociedade, tem por base os princípios orientadores de uma boa educação. 
E porque é que isto acontece, bastas vezes me questiono.  
Ora bem, nunca aceitei que empurrassem para a escola tudo o que as famílias não assumem como deveres. Muitos erros comportamentais têm origem exactamente aí, na ausência de consistentes, sensibilizadoras e punitivas políticas de família. E com o passar dos anos, a liberdade com responsabilidade foi, paulatinamente, resvalando para uma certa libertinagem, para uma ausência de subordinação a regras, desde as mais elementares àquelas que chocam. Quase tudo é possível e quase tudo é tolerado, não vão os meninos ficarem complexados ou revoltados! E o círculo vicioso fecha-se, agora, com adultos que se comportam em função das suas próprias vivências e tolerâncias intuí durante muitos anos.
Mas isto não significa que a escola, enquanto estabelecimento de aprendizagem não tenha responsabilidades. Tem e muitas. Escrevi, se bem repararam, "estabelecimento de aprendizagem" e não "estabelecimento de ensino", daí que a aprendizagem não deva se quedar pela simples ou complexa transmissão de conhecimentos programáticos. Há um ambiente e uma mentalidade que  lá deveria nascer, e que está muito para além do sentido enciclopédico a que subordinam os alunos. Está muito para além dos níveis e notas atribuídos, muito para além de exaustivas grelhas de avaliação, com percentagens para tudo, mas, paradoxalmente, sem que essa aprendizagem tivesse sido transversalmente vivida e sentida no dia-a-dia. Portanto, em suma, há responsabilidades de ambas as partes, da família e da escola e, naturalmente, por extensão, dos que desempenham cargos de natureza política, também eles culpados por este constante deslizar, entre o que deveria ser assumido como luta por uma população educada, culta e distante de lacunas que não ajudam uma saudável vida de relação social. A percepção que existe é que andam, mor das vezes, atrás do prejuízo e raramente na dianteira da prevenção.

Os casos "Maregas" que nos deixam com um sentimento de profunda tristeza e revolta, não são mais do que a falência de uma humanista aprendizagem para a aceitação dos outros. A aprendizagem tem estado mais focada em um enciclopedismo bacoco do que naquilo que é prioritário e estrutural. E o que é estrutural suporta todos os posteriores conhecimentos relevantes.  Prepara-se para um exame, repetindo até à exaustão, mas não se prepara para a vida que é muito mais complexa do que uma série de matérias, muitas vezes desconexas, desligadas do sentido vocacional, dos múltiplos caminhos que cada um deseja seguir e, daí, destinadas ao esquecimento depois de uma dada prova de "avaliação". A educação é muito mais do que isto!

Nesta escola, melhor, neste sistema dito educativo, não há tempo para a aprendizagem, apenas subsiste o tempo para o "ensino"; não existe tempo para a reflexão, mas para a repetição, a memorização e para a luta de uns contra os outros, raramente, o trabalho com os outros; nesta escola, grosso modo, aprende-se a violência, não a tolerância; nesta escola que deveria funcionar de braço dado com as famílias e com as instituições em geral, não há margem para o crescimento de uma mentalidade diferente daquela que nos arrelia, mas sim para a recorrência do erro que acaba por se multiplicar em actos desprezíveis. É, por isso, que crescem como cogumelos programas televisivos e de rádio, sobretudo desportivos e políticos, indescritíveis, de permanente ofensa, com pessoas que não aprenderam e que trazem consigo a matriz da má educação e, quantas vezes, do ódio. Os "Maregas" são vítimas de uma escola que "ensina" as regras das modalidades desportivas, promove, até, testes de avaliação sobre essas regras, mas não promove a aprendizagem dos princípios e dos valores que contrariem, entre outras, as rivalidades doentias. De que estávamos à espera? 
Há uma profunda necessidade de rever tudo e de tudo questionar. A lei não resolve a questão central: a da educação. Temos de procurar as causas, a montante e a jusante, não no pressuposto de tudo resolver, mas de caminhar em um sentido de celebração do ser humano. Essa é a grande obra que está por edificar e "inaugurar".
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Artigo publicado no blogue:
www.gnose.eu

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A educação positiva


Será "pela positiva" que os pais se tornam melhores pais?
Há ideias simples que representam sínteses inteligentes de um conjunto de princípios da psicologia e que, muito depressa, se transformam em termos que ganham tracção na opinião pública e se repetem, repetem e repetem. Exemplo disso serão, a "inteligência emocional" ou a "educação positiva". Por mais que nem sempre essas ideias sejam utilizadas com a robustez e fundamentação que o bom senso exigiria, há quem, a propósito delas, fale de "estudos científicos" e lhes junte algumas pitadas avulsas de "neurociências" e, de repente, temos pessoas das mais diversas profissões a fazer "couching parental". Isto é , tudo aquilo que não ousamos fazer a propósito da medicina, da engenharia ou do direito. Com um risco (grande) desse voluntarismo levar alguns pais ao engano.



Uma ideia assim estruturada duma "educação positiva" pretende colocar-se como alternativa a uma "educação repressiva", que seria severa e ancorada na obediência. Ao contrário da "educação repressiva", a "educação positiva" tomaria em consideração a empatia e o respeito pelas emoções das crianças.
Foquemo-nos na empatia. E na ideia de, para não interferirem negativamente no equilíbrio entre desenvolvimento mental e equilíbrio nervoso, os pais "terem de ser" empáticos. Ora, ninguém é empático porque tenha ser empático. Ninguém é empático num contexto de "faz de conta". E não é por uma pessoa reivindicar a sua empatia que é empático. [Aliás, empatia, vinculação e tantos outros termos da psicologia, por mais que sejam um património de todos, mereciam ser compreendidos com outro rigor por parte de quem os reclama para se evitarem muitos equívocos.] Por outras palavras: para muitos pais, ser-se empático é entendido como condescender, não culpabilizar as crianças como sinónimo de ser-se justo, respeitar as emoções delas e persuadi-las a não expressaram algumas delas, e negociar com os filhos (por tudo e por nada) como a alternativa "positiva" a repreendê-las ou a ordenar-lhes o que os pais muito bem entendam que será protector para elas.

Sejamos prudentes: eu acho que muitas destas receitas "positivas", imaginadas para se retirar o medo às crianças, sempre que são manuseadas de forma precipitada, se tornam excelentes para trazer medo e insegurança à espontaneidade dos pais. Como se, a determinada altura, a empatia fosse uma espécie de "dieta parental", que - independentemente de não ser muito claro se os pais passam a escutar, de forma genuína, os filhos ou se dão atenção àquilo que eles consideram "politicamente correcto" - resulta sempre. Na verdade, muitas destas "receitas positivas" têm sido responsáveis por crianças inseguras, agitadas, com falta de regras, desafiadoras (e, por vezes, insolentes). E muito "cheias de si"; em vez de serem saudavelmente seguras. Por carência de boa educação.

Para mais, parece-me a mim, que continuamos, perigosamente, a confundir autoritarismo e autoridade, como se fossem sinónimos. A autoridade dos pais é tão opressiva para as crianças como o direito para a democracia. Isto é, as crianças precisam da autoridade dos pais, não tanto porque nasçam para serem subjugadas por eles, mas porque, para elas, a autoridade dos pais é sinónimo de bondade, de sabedoria e de sentido de justiça. Logo, negociar por sistema é exercer a autoridade num registo medroso. Que, em vez de as ajudar a crescer de forma saudável (com nãos, com advertências e com alguns episódios mais "imperativos" dos pais, sempre que eles entendem, de forma intuitiva, que os tenham de assumir), parece cultivar uma ideia de um presumível respeito pelas crianças que, no fim de contas, os leva a lidar, muitas vezes, com elas como se fossem "peças de porcelana". Em resumo, é estranho que o respeito pela infância pareça levar muitos pais a sentirem-se tolhidos por tantas "receitas" e a demitirem-se, mais do que seria sensato que o fizessem, de ser pais. Tudo ao contrário ao contrário daquilo que o respeito pela infância merecia.
Tenhamos, então, a ponderação de poupar os pais a meias-verdades que os levam ao equívoco. As crianças ganham se os pais as sentirem, sim. Ganham se eles, ao mesmo tempo que se recordam das suas infâncias, forem capazes de as imaginar; sem dúvida. E ganham se eles não as culpabilizarem, claro. Mas ganham, também, se, sempre que for necessário, as repreendam. Se exigirem aquilo que, em bom senso, entendam que não só não é negociável como, sobretudo, as protege. E ganham, também, se eles assumirem que o colo não as estraga. Mas que colo sem nãos é um alimento sem sal. E, sim, ganham se compreenderem as emoções dos filhos sem que isso suponha que deixem de compreender as suas. E que compreender as emoções não é domesticá-las; é entender os motivos pelos quais elas são como são. E actuar sobre elas. Se for o caso.
Por isso mesmo, tenho medo que muitas destas "receitas positivas", em nome da empatia, reprimam o "instinto maternal" e o "sexto sentido" dos pais. Que são termos de senso comum que dão a entender que somos pais em função de muitos sinais que o nosso "equipamento de base" é capaz de intuir. Que não perdemos nada se a isso juntarmos a nossa experiência de filhos e os exemplos dos nossos pais. E se, para mais, escutarmos quem, de forma fundamentada, nos traga contraditório a tudo aquilo que supúnhamos saber como pais. Sem que com isso nos tornemos tecnocratas em parentalidade, que é aquilo que os pais não podem ser. Sem que se ponha no mesmo cesto pessoas tecnicamente experimentadas, pessoas voluntariosas sem formação e, já agora, alguns blogs que, tudo junto, confundem os pais e que lhes tiram espontaneidade e autenticidade. E que lhes trazem muito medo e culpabilidade de se deixarem ir pela sua intuição. E que os põem a reproduzir conceitos que, parecendo slogans, não lhes trazem os recursos de que eles precisariam para serem melhores pais. Sempre com a salvaguarda de que reproduzir não é escolher, condescender não é entender e aceitar não é compreender.
Afinal, será "pela positiva" que os pais se tornam melhores pais? Se for de forma inconsistente, não. E será que a infância dos filhos ganha com isso? Receio que não.

Por 
Eduardo Sá
Psicólogo

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

É preciso proibir tablets e telemóveis nas escolas


Por
Raquel Varela
VozProf
31/01/2020 

A ignorância, e a falta de relações sociais nas escolas deste país galopam a olhos vistos. Mas a responsabilidade é dos adultos. De todas as distopias a que mais me convence é a do colapso cultural pelo domínio tecnológico, o uso do telemóvel e tablets. O homem agarrado à máquina, dependente da máquina. Dou aulas em Associações, sindicatos, centros culturais, municípios, tenho com frequência públicos de centenas de pessoas, na sua larga maioria ou reformados ou mais velhos, todos com mais de 50 anos estão com caderno na mão a tomar notas, a escrever, a questionar, a rir-se comigo. Não sei como e quando se deu a ruptura nos hábitos de leitura das gerações mais novas. Mas ninguém se iluda – o nosso cérebro precisa de ler, descansar sobre o que leu, pensar sobre o que leu, escrever com a mão (cujo tempo e fixação na memória e reflexão é distinto do teclado), para criar mais, pensar mais e melhor.



Em Silicon Valley, onde se inventaram os telemóveis, os quadros superiores criaram escolas para os seus filhos onde não existe qualquer aparelho tecnológico, e os telemóveis estão proibidos. 
Descobriram por exemplo que quem usa telemóvel tem mais depressão, mais obesidade. E que quem constrói um cubo físico ganha noção de volume, quem o faz no tablet não. Que brincar e pular, colectivamente, é fundamental para produzir hormonas de bem estar, ter um fisico saudável, e saber relacionar-se. Precisam de horas e horas por dia destas brincadeiras. Os mesmos engenheiros que colocaram um tablet ou telemóvel na mão de milhões de crianças e jovens permanentemente hiper estimulados por um écran, cuja luz “azul”, brilho, repetição, e hiper actividade são destrutivos para o pensamento abstracto, e as emoções. Vou a escolas e nos intervalos há dezenas de miúdos ao lado uns dos outros cada um, sós, sozinhos, a olhar o telemóvel. Os psiquiatras já alertaram para uma epidemia de depressão por falta de afetos provocada pela solidão das redes sociais, que são uma aparência de relação. Não são “redes sociais” mas a destruição da sociabilidade. Não nos dão bem estar porque, embora elevem níveis de prazer cerebrais imediatos, no médio prazo têm o efeito contrário, destroem esse centros de bem estar localizados no nosso cérebro. Têm um efeito que hoje muitos médicos comparam à droga, como a cocaína – no imediato prazer, no médio prazo depressão. Sim, podemos estar à beira de uma catástrofe emocional, relacional e intelectual pelo domínio que os telemóveis têm hoje. Não sei como esta geração vai pensar, criar, sorrir, convencer ou discordar, gerir conflitos, e mesmo fazer amor, construir amizades, cuidar dos seus e ser cuidado.

Os meus filhos sempre tiveram regras apertadas no uso destas máquinas, às quais não tiveram algum acesso até aos 12 anos, a TV estava desligada de segunda a sexta. Liam 2 livros por dia para crianças. Este mês um deles, que aprendeu trompete, lê Sagan e Sachs, toca cavaquinho, é auto didacta de italiano, um desportista, e um tipo super bem disposto (não é um chato, marrão) informou-nos que tirou todas as redes sociais porque aquilo “distrai-o de pensar e porque não precisa de filmar e tirar fotos porque o melhor fica cá, na nossa cabeça”. Estuda ciências mas conseguimos convencê-lo que se for para ciências, ou medicina, precisa de ser culto, e abrir horizontes. 

Não pode só estudar biologia e matemática. Não pode não ler os clássicos. Está a tirar um curso de desenho, e ontem perguntou-nos quando vamos começar o nosso recém baptizado Clube de Cinema José Mário Branco, ao qual, sugeriu ele “podemos adicionar um clube de leitura”. Não vos digo isto para “mostrar” os meus filhos, que “geniais”. Eles são novos, educá-los tem sido um desafio, às vezes sem grandes certezas. O que vos posso garantir é que esta atitude dele vai fazê-lo mais autónomo, mais inteligente, mais critico, menos manipulável e, por isso, mais livre. Por ser ele a fazer, e não a máquina a fazer por ele.
Tenho, porém, a certeza, que esta decisão não pode ser individual, e familiar, não pode estar na mão de um tipo qualquer mais auto controlado, ou de pais mais conscientes – esta é uma questão de saúde pública. É preciso proibir a utilização de telemóveis e tablets nas escolas, seja no intervalo ou não. O Governo anunciou que vai comprar mais telemóveis e tablets para as escolas para melhorar a qualidade destas, quando as escolas para terem sucesso precisam de docentes bem pagos, turmas pequenas, intervalos maiores, redução do tempo de escola, muita brincadeira e muita ciência e pedagogia séria. Para aprender é preciso ser feliz, e para ser feliz é preciso aprender. O tablet vai ainda piorar tudo. As crianças são a nossa responsabilidade, dos adultos. Não nos podemos demitir.
Fonte: RaquelVarela

NOTA

Uma opinião que deveria ser exaustivamente debatida. Tenho a minha opinião sobre esta matéria, não coincidente com o texto da Doutora Raquel Varela, porque entendo que o que está em causa é um novo sentido organizacional da escola, um outro paradigma curricular e programático, onde a tecnologia entre de forma necessária, sem exclusão de todas as outras preocupações referidas no artigo. Está em causa uma nova MENTALIDADE no uso das tecnologias.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Antes do sucesso escolar, há que trabalhar as emoções


Por

Bárbara Wong
2 de Fevereiro de 2018

O dia não corre melhor se, antes de sairmos de casa, alguém nos disser umas palavras simpáticas? “A predisposição que tivermos para os outros vai ser diferente porque o amor é contagiante”, defende Maria Caldeira, directora do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, em Lisboa. Trabalhar o pensamento emocional é a proposta desta professora para conquistar os alunos, oriundos de meios desfavorecidos, para que, no futuro, possam estar mais predispostos para estudar. 


Já existem vários projectos, a nível nacional e internacional, onde se procura trabalhar as emoções dos alunos, aponta a directora deste agrupamento que fica num Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP) e que é uma das experiências em curso no país. “Tenho o privilégio, a honra e a graça de trabalhar com um grupo de pares e de parceiros extraordinários”, orgulha-se Maria Caldeira, enumerando os professores, a mediadora escolar, os técnicos da Junta de Freguesia do Lumiar, as universidades, associações e organizações que estão a colaborar com o agrupamento.
Dulce Martins, investigadora do ISCTE, faz parte da equipa que acompanha 19 agrupamentos TEIP e recorda que a ideia de trabalhar sobre as emoções surgiu quando um dia houve um grave problema de indisciplina numa das escolas do Alto do Lumiar. Maria Caldeira defendeu na altura que “o pensamento emocional pode ser um promotor de disciplina”, recorda a investigadora.
E foi assim que começou. Por exemplo, numa escola do 1.º ciclo do agrupamento há aulas de ioga três vezes por semana, um projecto com a colaboração da autarquia e da Universidade de Aveiro que está a monitorizar os resultados. Noutra, também do 1.º ciclo, os alunos de Psicologia da Universidade de Lisboa trabalham com as crianças as suas competências emocionais – “há um défice grande de afectos”, justifica a directora. Na Escola Básica das Galinheiras, o campeão de kickboxing Miguel Reis dá aulas aos alunos do 1.º ciclo. “O atleta é filho de mãe cigana e pai negro, o que mostra que a relação entre as duas culturas é possível, que se pode viver em paz”, explica ainda a directora. Se um aluno se portar mal, o mestre fala com ele; não participar numa prova pode ser o castigo. Os meninos “estão a trabalhar as emoções de uma forma física”, continua Maria Caldeira.
O agrupamento — que tem resultados académicos abaixo da média nacional, em todos os ciclos — tem ainda trabalhado com os professores e com a associação de pais. O fim último é melhorar o desempenho escolar dos alunos? “Quando conseguimos trabalhar estas competências, quando os alunos estão disponíveis para ouvir, claro que contribui para melhorar os resultados”, responde Maria Caldeira.
“É preciso estimular o pensamento emocional para promover competências emocionais que são essenciais para o sucesso escolar. Os estudos dizem que os alunos mais competentes a nível emocional têm maior sucesso académico”, acrescenta Dulce Martins. E é isso que se pretende com estes e outros projectos que o agrupamento está a levar a cabo. “Em primeira e em última análise queremos que estes alunos tenham sucesso académico, mas também queremos muito que sejam felizes e encontrem um equilíbrio interno”, conclui a directora.
As inscrições para as jornadas esgotaram — o que "é muito revelador da necessidade que as pessoas sentem em trabalhar os afectos", avalia Maria Caldeira.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Uma Educação contextualizada


Fui convidado a visitar a Quinta Pedagógica da Associação Santana Cidade Solitária. Fantástico! Foi uma manhã diferente e que, confesso, me encheu. A Educação contextualizada, vivida e sentida tem uma incalculável dimensão. Hoje foi dia de um encontro intergeracional: crianças de uma escola, com os seus professores e um número alargado de seniores de Santana. Os alunos puderam viver o tema tradicional da época, para que as tradições não se percam: a construção dos bonecos (Compadres), a feitura dos sonhos e a vivência da quinta com os animais, árvores de fruto e hortícolas. Um espaço maravilhoso, rústico em uma paisagem lindíssima, onde tudo está no seu lugar. Deixo aqui algumas fotos que marcaram esta actividade.

Quem ali entra pela primeira vez, naturalmente como convidado, como foi o meu caso, é "baptizado" na adega, sob os olhares do Patrono São Joaquim.

E, no final, especificamente para os adultos, nada melhor do que milho e cavalas com molho de vilão. 
















quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A exigência de uma revolução no Sistema Educativo


Gosto de ler e, simultaneamente, cruzar a informação que nos chega. Hoje, por exemplo, dei conta de um texto sobre a baixa qualificação dos candidatos a um emprego (Dnotícias, página 2) e, mais à frente, de um notável artigo (mais um) da autoria do Professor Miguel Palma Costa. 

O DIÁRIO puxou para 1ª página:

"Só foram colocados 11% dos candidatos a emprego (...) Baixa qualificação da maioria dos inscritos e desajustamento entre a oferta e a procura são os principais motivos" - Fonte: 1ª página do DIÁRIO, edição de hoje.

Escreve o Professor subordinado ao título: Não Pensar:

"(...) Lamentavelmente, também nas escolas as crianças (e adolescentes) são cada vez mais incentivadas a não pensar. A nova composição social que estamos a erigir não lhes dá tempo para pensar, não lhes admite “tempos livres”, momentos para o ócio; elas têm de estar sempre ocupadas, ligadas, em atividade, a queimar tempo, nem que seja num ecrã de computador, tablet ou telemóvel e a viver um mundo virtual que não reflete o eu nem sobre o eu, mas que distrai (e até mata). O pediatra e professor, Mário Cordeiro, afirma de modo muito claro que as crianças “estão a ser habituadas a não pensar” e os próprios professores parecem estar a ser impossibilitados, pelo sistema que se pretende implementar, de lançarem nos alunos o desafio de estudar e pensarem sobre determinadas temáticas. O que a acontece é que a escola está a deixar de incentivar a dúvida construtiva, o pensamento crítico e parece pretender que os alunos fiquem somente pela concordância dos factos, pela superficialidade, pelas “aprendizagens essenciais”, pois a profundidade, a revindicação de um conhecimento que vá para além da opinião – que exige mais tempo e labor – esse caminho é gradualmente eliminado dos programas ministeriais. (...)"

Ora bem, em síntese, quando não há nem coragem nem sabedoria para mexer na estrutura, é óbvio, como alguém sublinhou, "que se torna insano fazer a mesma coisa, repetidamente, e esperar resultados diferentes". E a escola tem sido isso, nos planos organizacional, curricular, programático e pedagógico. Procedem a uns "acertos" nas margens, fundamentalmente com preocupações mediáticas, porém, PENSAR e OUSAR são dois verbos muito distantes no exercício da política. Fogem deles como o diabo da cruz. A par disto emerge a questão social. Quando não existem consistentes políticas a montante da escola, portadoras de futuro, geram-se, então, os ingredientes para as "baixas qualificações" e "desajustamentos" entre as ofertas e as procuras. Alguém estaria à espera de outro resultado? 
Neste pressuposto, o artigo do Dr. Miguel Palma Costa constitui um tiro certeiro em um problema que é vasto e complexo.

"(...) Aliás, hoje, no geral o ser humano considera que vive melhor se pensar pouco ou não pensar, posição a que determinados tipos de liderança dão grande utilidade). O pensar traz a dúvida, desconforto, a ideia de culpa, de pecado, a melancolia, o medo... e ainda por cima é um exercício difícil, custoso, exige sofrimento e treino, isto é, tempo, horas sobre horas de consistente análise e/ou reflexão. (...)"

Para alguns, PENSAR é perigoso! Portanto, melhor será que, na escola, não se pense. Uma teoria que encontra no Estado Novo de Salazar um defensor: "os jovens não precisam de pensar porque há quem pense por eles". Insiste o Professor nesse artigo: "Ora, perante este cenário que favorece uma espécie de cegueira e surdez intelectual, parece que já não há nada a fazer, mas tal não é verdade. O homem não perdeu ainda a capacidade de pensar, pelo que é urgente, talvez agora mais do que nunca, e porque novos contratempos e desafios se agigantam, exercitá-la!"
Só acrescentaria: os jovens e os políticos.
Ilustração: Google Imagens.