segunda-feira, 15 de junho de 2020

A vocação do sector desportivo federado é a qualidade. Não a quantidade!


Nota prévia

Uma vez mais, depois de tantas posições assumidas ao longo dos anos sobre esta matéria, clarifico que não está em causa o dedicado esforço de muitos profissionais, mas tão-só questões de racional opção de política desportiva. E se aqui me debruço sobre os dados publicados é apenas porque, teimosamente, entendo que o desporto deve estar ao serviço do desenvolvimento humano e não ao serviço da política ou de interesses pessoais.

Com muita atenção li as duas páginas do dnotícias de ontem sobre a "demografia federada". Ali foram escalpelizados os dados que dão conta da existência de 20.122 desportistas inscritos no sector federado. Olhando, minuciosamente, para a estatística, eu diria que não existe nada de novo, para além de um natural acréscimo do número de praticantes filiados. Se consultarmos os anos anteriores conclui-se que o essencial do formato é igual. Desde há muitos anos. Ou, melhor dizendo, desde sempre. Não é a primeira vez que sublinho, quando o sector federado apresenta números daquela grandeza, que correspondem a cerca de 8% da população, o processo encontra-se errado na raiz. Simplesmente porque o sector federado visa a qualidade e não a quantidade. À excepção de uma ou outra modalidade, mormente pelas suas características e meios de prática, aos clubes não lhes deve competir a formação de base. É o sector educativo escolar que deve assumir essa responsabilidade. Clubes e associações com muitos praticantes, apenas significa que alguma coisa está errada no pensamento que estrutura a articulação entre sectores.


Neste quadro genérico, sabendo-se que o sector desportivo escolar mobiliza, grosso modo, cerca de 15.000 alunos ao longo do ano em todas as suas actividades (naturalmente com muitas repetições de modalidade para modalidade, o que pode pressupor, também, a inexistência de uma regularidade de prática), face ao sector federado onde a contagem atinge os 20.000, logo fica clara uma inversão da pirâmide dos praticantes. Juntando ambos os sectores (35.000), quase 57% do total dos praticantes pertencem ao sector federado. Isto é, onde deveriam existir muitos na formação de base de característica regular, o número apresenta-se inferior; onde seria desejável a existência de poucos, visando sobretudo a qualidade, existem, anormalmente, muitos. Com todos os encargos daí decorrentes (€ 10.346.823,24 - sector federado). Neste aspecto, o desporto escolar continua, obviamente, um parente pobre da política desportiva regional autónoma.
Por outro lado, em uma Região com 54 freguesias, apesar do associativismo ser constitucionalmente legítimo, a existência de 141 entidades desportivas (clubes, associações e sociedades anónimas desportivas) que enquadram 56 modalidades, parece-me completamente desajustada. Talvez se justifique porque a escola não esteja preparada para um formato mais adequado.

Depois, ainda, olhando apenas para o sector federado, há uns dados que, historicamente, continuam a merecer uma fina análise e justificação. Por exemplo, dos 20.122 praticantes, 70% são masculinos e só 30% femininos. Um claro desequilíbrio. Um outro dado curioso: o somatório, em ambos os sexos, entre os de 17 e 40 ou mais anos de idade é de 6.390 praticantes, quando entre 11 e 16 anos é de 5.661. Há mais seniores do que inscritos nas etapas da  formação de pendor mais específico. 

Está, portanto, em causa, a velha discussão organizacional e de complementaridade (interface) entre os sectores educativo escolar e o federado. Concomitantemente, a disciplina curricular designada por Educação Física. 
Desde há muitos anos que é meu entendimento que esta disciplina deixou de fazer sentido. Melhor seria que se designasse por Educação Desportiva, subordinada a um outro formato organizacional, programático e pedagógico. Trata-se de uma disciplina que não é igual às restantes do currículo. É diferente. E é na diferença que deve assumir o seu importantíssimo espaço de intervenção educativa. Ademais, o desporto na escola, sobretudo a partir do 2º ciclo, deveria assumir uma característica opcional em função do leque de modalidades que um dado estabelecimento de aprendizagem oferece. 

É na escola que se possibilita a formação de base; é na escola que se aprendem, também, as grandes virtudes da competição; e é entre escolas, com regularidade, que o desporto educativo escolar deve atingir os seus objectivos de interface com o sector federado. Portanto, é na escola que está a base de uma prática física e/ou desportiva para a vida e para a qualidade.  

Por outro lado, as grandes limitações espaciais e orçamentais da Madeira deveriam implicar, por tudo isto, um outro tipo de orientação. Centrar a política desportiva na conquista de títulos através da representação regional aos níveis nacional e internacional, com um largo contributo de praticantes nascidos fora da Região, esquecendo-se dos pressupostos de base, pode permitir um certo gozo pelos resultados imediatos, mas deixa, com toda a certeza, um amargo a outros níveis, sobretudo quando damos conta que, passados 45 anos de Autonomia, cerca de 70% dos habitantes não têm o hábito cultural de uma prática física ou desportiva regular.
Mas isto, para que não subsistam dúvidas, sublinho, não deslustra o meritório trabalho dos professores, treinadores e até dirigentes. Antes pelo contrário, pois existe muito e dedicado esforço. Apenas conduz-nos para o campo da reflexão sobre os caminhos que devem ser seguidos. Para mim é óbvio que para chegar ao "alto rendimento", como parece ser o desejo dos responsáveis políticos, todo o processo a montante terá de ser repensado. E para além de tudo, ninguém se pode esquecer das gravíssimas assimetrias sociais. Lembrem-se que o desporto é, apenas, "a primeira das segundas necessidades".
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

EDUCAÇÃO - Vira o disco e toca o mesmo!


Diz-se: “ano novo vida nova”. O próximo ano lectivo poderia corresponder ao aforismo. Mas não, enquadrar-se-á na lógica do “vira o disco e toca o mesmo”. Passei os olhos pela entrevista do secretário regional da Educação, publicada na edição de ontem do Dnotícias. Aquilo tudo espremido, para mim, valeu zero. Eu diria que, “nesta prova oral”, o secretário, à luz do conhecimento e do que seria expectável que dissesse, chumbou! 


A páginas tantas, pergunta a jornalista: “E em termos de organização?” A questão daria para anunciar, mesmo que sumariamente, o rol de políticas a desenvolver no próximo e, de forma interligada, nos anos seguintes. Mas não. Falou do número de alunos por turma, dos horários, da oferta educativa para grupos específicos, umas coisitas no plano da acção social educativa e meteu-se, perigosamente, no campo movediço e muito complicado de uma complementaridade da escola com o telensino. Talvez eu entenda o que ele estará a preparar! Adiante. 

Nem uma palavra sobre uma verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem (não de boca), sobre uma nova concepção estrutural do Ensino Básico, sobre a parte curricular, programática e, fundamentalmente, pedagógica. Zero! Não que a extensa listagem de preocupações se resolva em um ano face à complexidade do sistema. Mas, sabendo-se que este sistema já deu tudo quanto tinha para dar, condenado por tantos investigadores, pensadores e empresários, parece-me óbvio que esta entrevista poderia ter constituído uma oportunidade para, com meses de antecedência, anunciar as traves-mestras de um projecto portador de futuro. 

O secretário prefere, claramente, administrar um sistema sem ondas, com educadores e professores doces, que apenas se preocupem em debitar o manual, prefere a centralização aos actos autónomos, criativos e inovadores, prefere lidar com a submissão das inúmeras chefias e prefere, o que é grave, andar a reboque da República do que lançar as sementes de um sistema de ruptura com o passado. Pelo que li será mais um ano perdido face a uma sociedade que precisa, urgentemente, de alunos com pensamento e com qualidade. 

Depois, enaltece esta enormidade: as “aulas vão começar mais cedo”, possivelmente para compensar o que o telensino não conseguiu. Porém, nas suas palavras, o telensino “foi uma prova global da qualidade do sistema educativo da Região”. Apesar da ambiguidade das suas declarações (se foi eficaz, para quê começar mais cedo), um outro aspecto deveria o governante ter presente: mais escola não significa melhor escola. E assim sendo, pode multiplicar o número de horas, pode aplaudir uma escola a “tempo inteiro”, pode vangloriar-se de contribuir para que “os alunos portugueses sejam os que mais horas passam na escola”, que tudo isso não coloca o sistema regional a par do que de melhor se faz em outras latitudes. O sistema continuará, por causas, até, a montante da escola, com arrepiantes taxas de abandono, de insucesso e de gravíssima fragilidade na qualificação profissional. Os políticos do sistema precisam de estudar, necessitam de visão e, portanto, de serem prospectivos. Aquela entrevista foi, em função das respostas, papel com letras. 
Os jornalistas sofrem!!!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 6 de junho de 2020

A morte dos estudantes


Por 
António Guerreiro, 
in Público, 
05/06/2020

Giorgio Agamben, o filósofo italiano vivo mais traduzido, comentado e estudado no mundo inteiro, é, desde o final de Fevereiro, quando foi decretado em Itália o estado de emergência por causa da pandemia, a figura que concita as mais violentas polémicas e alguns ódios de estimação. Tornou-se um daqueles tios escandalosos que as boas famílias têm vergonha de exibir em sociedade.


Primeiro, publicou uma série de textos num blog da editora de que ele próprio foi fundador (a Quodlibet, de Macerata) defendendo a ideia de que as medidas governamentais eram uma forma de instituir o estado de excepção como paradigma normal de governo, criticando ao mesmo tempo a passividade com que eram aceites as limitações da liberdade impostas por decretos privados de toda a legalidade, em nome de uma “bio-segurança” que leva ao extremo a lógica biopolítica. Ainda não se tinham extinguido os ecos, que atravessaram fronteiras, dessas intervenções em contra-corrente e já outra bomba Agamben estava a lançar, desta vez sobre a universidade: trata-se de um Requiem per gli studenti, publicado a 22 de Maio no site do Istituto Italiano per gli Studi Filosofici. Aí, tomando em consideração a medida que prolonga para o próximo ano as lições universitárias online, a didáctica à distância, vê na difusão cada vez mais alargada das tecnologias digitais a morte da ideia de universidade e afirma que é “barbárie tecnológica” a substituição da presença física por um ecrã espectral. O que o leva a declarar o fim do studentato como forma de vida e a lembrar que as universidades nasceram na Europa das associações livres de estudantes, chamadas universitates: 

“A vida dos estudantes era, antes de mais, uma forma de vida, em que determinante era sem dúvida o estudo e a escuta das lições, mas não menos importante era o encontro e as trocas assíduas com os outros scholarii”, ou seja, a relação entre os estudantes e entre estudantes e professores. Entoando um “requiem” por aquilo que durou dez séculos e que desde há tempos se encontrava fortemente enfraquecido e ameaçado, Agamben passa a uma analogia que indignou muita gente e pôs outra tanta a pensar: “Os professores que aceitam — como estão fazendo em massa — submeter-se à nova ditadura telemática e manter os seus cursos unicamente online são o equivalente perfeito dos docentes universitários que em 1931 juraram fidelidade ao regime fascista”. E terminava exortando os estudantes a constituírem novas universitates, recusando inscrever-se nas universidades, de modo a fazer nascer “uma nova cultura”.

Recordemos que Agamben sempre usou o seu prestígio para declarar guerra à universidade italiana (dela se retirou, aliás, prematura e orgulhosamente); e que desde há muito tempo se tinha aplicado a diagnosticar a “miséria estudantil”. Do seu ponto de vista, um dos sinais evidentes da degradação universitária é este: a “investigação”, que tem sempre em vista uma utilidade concreta, substituiu o “estudo”, uma palavra que lhe é muito querida, a cuja etimologia e história ele se refere muitas vezes, tendo mesmo escrito uma “idea dello studio” que começa pela afirmação de que “Talmud significa estudo”.

As ideias de Agamben sobre a universidade e a vida estudantil são mais facilmente compreensíveis se soubermos que elas fazem referência e devem muito a alguns textos de juventude de Walter Benjamin, escritos antes e durante a Grande Guerra, quando este filósofo alemão teve uma importante actividade nos movimentos estudantis, em Berlim. Um desses textos, de 1915, chama-se precisamente A Vida dos Estudantes e trata da “posição histórica dos estudantes e da universidade”, no momento presente, aquele em que, para Benjamin e para os seus colegas das associações livres de estudantes, se impõe uma tarefa urgente e revolucionária, com um teor de utopia que os tempos admitiam: fundar uma comunidade de homens conhecedores, em lugar de funcionários e licenciados, que deviam lutar pela arte, ao lado de escritores e poetas. A essa comunidade atribuía Benjamin um “valor espiritual”, ao qual correspondia uma “metafísica da juventude” que serviria de antídoto ao filistinismo da experiência adulta e da vida profissional. Condição indispensável da vida “espiritual” dos estudantes: a “educação erótica” que seria ao mesmo tempo uma erótica da educação.

domingo, 31 de maio de 2020

Os professores, os seus alunos e o efeito Pigmaleão


Por
Raquel Raimundo
Público - 29.05.2020


Muito se tem falado nas desigualdades de acesso à educação por parte das famílias, que num registo de ensino à distância, ainda se tornam mais evidentes.

Foto - Paulo Pimenta
Era ainda uma adolescente quando um dia chamei a atenção de um adulto desconhecido, que “acidentalmente” deixou cair um papel no chão da rua, dizendo: “Olhe desculpe... deixou cair este papel.” Ele voltou-se e olhou para mim, ao que acrescentei: “Não sei se é importante…” Visivelmente surpreendido com a minha interpelação apanhou o papel e agradeceu. Repeti este procedimento algumas vezes ao longo da vida e creio que chegará o dia em que confrontarei alguém que, porventura, terá uma reacção menos simpática comigo. Contudo, até hoje, tal não aconteceu.

Alguns anos mais tarde haveria de aprender em Psicologia que ter expectativas positivas sobre os outros conduz a um desempenho melhorado ou comportamento mais adaptativo. É o chamado efeito Pigmaleão, assim designado após um estudo que evidenciou que os professores que têm uma visão positiva dos seus alunos, tendem a estimular o lado bom desses alunos e estes alcançam melhores resultados. Inversamente, os professores que não demonstram apreço pelos seus alunos tendem a estimular, nos mesmos, posturas que comprometem negativamente o seu desempenho e/ou comportamento.

Escrevo sobre isto numa altura em que são conhecidos os resultados do mais recente estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), feito em colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e que conta com a participação de 45 países, nos quais se inclui Portugal (Matos & Equipa Aventura Social, 2020). Entre muitos dados interessantes de análise destaco, em particular, cinco resultados.

As boas notícias são que os adolescentes portugueses reportam um apoio social da família e dos amigos, superior à média europeia. Os rapazes percepcionam também um apoio social por parte dos colegas, superior aos restantes países. Por outro lado, é fraco o gosto dos adolescentes pela escola. Não só fraco em si mesmo, como também por comparação com os restantes países europeus. É elevada a pressão com os trabalhos escolares, sobretudo nos adolescentes mais velhos e nas raparigas. E estas, comparativamente com outros países, percepcionam um apoio social menor por parte dos professores.

Muito se tem falado nas desigualdades de acesso à educação por parte das famílias, que num registo de ensino à distância, ainda se tornam mais evidentes. Mas, não falar nas assimetrias patentes naquilo que está a ser proporcionado por diferentes contextos escolares, particularmente em tempos de pandemia, e/ou por agentes educativos distintos dentro de uma mesma instituição escolar, é ignorar o “elefante no meio da sala”.

O país tem conhecido muitos exemplos extraordinários de inovação pedagógica por parte dos professores e órgãos de gestão nos últimos tempos. Eu própria tenho testemunhado, de perto, essa dedicação e capacidade de se reinventarem em tempos de mudança. Contudo, os dados do nosso país (neste âmbito e em média), não são historicamente animadores e são cronicamente assim desde 1998.

Estes são resultados anteriores à fase pandémica em que vivemos. Como serão os que forem recolhidos daqui por dois anos? Confesso-me expectante e esperançosa de que se possa aproveitar o desafio desta pandemia para produzir mudanças nesta fatia do mundo que é o nosso país.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

O ensino online é uma forma de destruir a educação


Por
Raquel Varela
VozProf
24 de Maio, 2020

Podemos andar de comboio apinhado, de avião cheio, os alunos têm pais que andam de comboio cheio, e entram nas empresas e fábricas apinhadas de gente, mas dar aulas presenciais não podemos – é um risco. No fim das aulas on-line os alunos, 3 horas e meia fechados sem respirar, podem ir todos para a praia, de comboio. Podem ir ao jardim conversar juntos – o que aliás segundo vários relatos têm feito. Saem das aulas, tiram a máscara e vão – como prisioneiros libertos – conversar juntos para o jardim e a praia. 

O ensino on-line é uma forma de destruir a educação, o lobby é a poderosa economia de venda informática e a automação das empresas. Transforma-se o professor em robot e os alunos em sujeitos passivos viciados em ecrãs. A pandemia é a desculpa. A próxima pandemia será a da ignorância sistémica. E dos problemas neurológicos e de sociabilidade destes jovens e crianças. Psiquiatras e pediatras não descartam uma pandemia de doenças degenerativas daqui a 30 anos nesta geração da hiper estimulação dos ecrãs. Já está porém garantido hiper actividade, depressão, doenças oculares, obesidade. Sobre estas e os ecrãs já não há dúvidas. É preciso não saber nada de psicologia, neurologia, pedagogia, para ver qualquer vantagem em manter ensino on-line, mesmo que parcial. Isto quando fora da escola o desconfinamento de filhos e pais os coloca todos em presença de todos. 

Em França já há pais e sindicatos a mobilizar-se para levar um Estado que coloca os nossos filhos 5 horas por dia num ecrã a tribunal e mobilizar todos os neurologistas e investigadores sobre os efeitos gravíssimos para a saúde física e mental que tal proposta faz aos jovens e crianças. 

Há anos que estudamos educação e trabalho numa equipa multidisciplinar que coordenei – isto não é uma nota com a minha opinião pessoal, mas a nossa certeza científica. As doenças neurológicas, metabólicas e os problemas sociais são a ponta do icebergue da ideia mais triste e nefasta que alguns vez foi proposta no campo da educação. Não há “ensino on-line”, há venda de computadores, software e poupança a pagar professores – as cobaias do negócio são os jovens e crianças. Há alguns – poucos – professores que até gostam. São os que já não gostavam de dar aulas e que agora não precisam de mandar calar alunos, lutar por eles, disputar a sua atenção, pensar estratégias para os ganhar. Há poucos alunos que gostam – são os que já passavam grande parte do tempo ao telemóvel (até nos intervalos ). Para o país é mais um passo em frente rumo ao declínio da nação.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A vida em estado de sítio


Por 
Eduardo Sá

Um dia, vamos ter de falar melhor acerca disso a que temos chamado teletrabalho. E que, dadas as circunstâncias, nos fez fechar em casa, com o computador à nossa frente e um telefone sempre com o dedo no “gatilho”. E que, desde as reuniões muito cedo, para garantirem que não nos “vingamos” no sono, até aos últimos mails, a chegarem com os telejornais das 8, fazem dos nossos dias um “pequeno inferno”.

Uma pessoa não se levanta às 6; é verdade que não. Não perde uma hora no “pára-arranca” habitual das filas para o emprego; confirma-se, também. E está longe de lhe dar um piripaque, todas as manhãs, como quando o nosso nervoso miudinho chocava com a calma de um dos nossos filhos. Uma pessoa pode, até - muito importante! - trabalhar de pantufas, por exemplo. Mas o teletrabalho não dá atenção nem aos horários nem às folgas. E não cumpre com as regras de segurança no trabalho (tal é o modo “alarme permanente”, em que se vive). É verdade que o “teletrabalho” decorre num “open space”; outrora acolhedor (a nossa querida sala). Que se dá em regime de coworking. E que transforma a nossa mesa de jantar num “centro de negócios”. Mas pela forma como nos obriga a dividir o trabalho com a casa, a escola, as crianças, as refeições, as bulhas e etc. - desde manhã, até que nos deitamos - “consome-nos” os dias, todos os dias. E faz de nós (que, dantes, imaginávamos ter “relações desequilibradas” entre a família e o trabalho), “workaholics dos tempos modernos”. Que suspiram, a todo o momento, pelo hora de voltar ao trabalho! Quem diria?…

Trabalhar a partir de casa pode ser bom; claro. E, vendo bem, trabalha-se (muitas vezes) mais e, até, melhor. Mas assim, sem regras, com crianças agitadas a “ir à escola”, à mistura, não é fácil!! Quem é que, agora, sempre que o telefone toca, quando o atende, não vive num stress que faz mal à saúde, tal é o medo que, do outro lado, lhe perguntem: “estás ao pé do computador”?

Não há condições para trabalharmos (desta maneira!) todas estas horas a partir de casa! A sentirmo-nos obrigados a estar sempre disponíveis. E isto começa a ser tão exaustivo que, num destes dias, ainda entramos mas é numa espécie de burnout em relação à quarentena. E, depois... é “o cabo dos trabalhos”.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

E o próximo ano lectivo?


O presente ano lectivo, bem ou mal, vai terminar com este modelo que não se percebe muito bem ainda qual é, embora se apresente como um “novo paradigma” para a Educação. Confesso que não me apetece revisitar as decisões tomadas, preferindo perceber se algo está a ser preparado para o próximo ano e se, mais do que cenários entusiasmados, algo está a ser aprendido com a presente emergência a caminho de calamidade, numa evolução semântica que me levanta dúvidas.


Por isso, e quanto ao próximo ano, gostaria de deixar aqui algumas ideias que estão muito longe de esgotar o tema e que, como é natural, resultam das maiores preocupações que as últimas semanas me suscitaram.
Em primeiro lugar, é necessário abandonar o discurso do combate às desigualdades e a construção legislativa da igualdade e da “inclusão” para se passar a uma prática que as promova, para além da entrega caridosa de mais este ou aquele equipamento informático. A velha história do peixe, da cana de pesca e da aprendizagem da pesca em si aplica-se aqui como uma luva, porque não foi com Magalhães que se eliminaram as barreiras à aprendizagem no 1.º ciclo e não será apenas com o acesso à banda larga que os problemas sociais e económicos de parte importante dos alunos e suas famílias se resolverão. A desigualdade (resultante de uma disparidade enorme de rendimentos e da desigual posição no mercado de trabalho) só se combate com políticas que se desenvolvam também para lá dos portões das escolas. As medidas de promoção do sucesso escolar e de combate ao abandono são meros paliativos; são analgésicos para combater uma infecção antiga e persistente.
Em seguida, quanto ao modelo de ensino ou ao que alguns chamam um “novo paradigma da Educação”, há que esclarecer se, caso a situação de ensino à distância se mantenha de forma mais alongada ou mesmo intermitente, a rede criada continuará a assentar nos equipamentos privados dos docentes. E não chegam parcerias para aquisições de novos equipamentos com uma percentagem variável de desconto que mantém uma enorme margem de lucro para as empresas que andam, por estes meses, a pressionar imenso para que a opção por um modelo assente em equipamentos informáticos se generalize, independentemente de qualquer pandemia.
Ainda quanto a esse eventual “novo modelo”, é muito importante que o suporte digital tenha alguma coerência a nível nacional, independentemente das autonomias locais, e que sirva para aligeirar a carga de procedimentos burocráticos que se abateu, em nova camada, sobre os docentes desde meados de Março. A multiplicação insana de novos mecanismos de controle do trabalho docente e de representação dos actos pedagógicos ganhou em algumas “unidades orgânicas” um nível inaudito de desvario. Ou as novas tecnologias servem a Educação e os seus agentes ou servem apenas para uma nova forma de servidão laboral, só que com o verniz da modernidade digital. O chavão, velho, da necessidade de renovar mentalidades é outro que se aplica a uma realidade em que velhas formas de pensar dificilmente mudam em novos contextos, mesmo nos que, à partida, deveriam ser favoráveis a uma mudança.
Entroncando com esta questão, mantém-se outra, que vem de há mais de uma década e que passa pela forma como o modelo de gestão escolar se foi cristalizando nos defeitos, sem ganhar quaisquer novas qualidades. Porque o modelo hierárquico de liderança, baseado na nomeação e fidelidade, aliado a esta forma de decidir tudo à distância, também acentuou o que de pior tinha a lógica neo-feudal de governação das escolas e agrupamentos. Também aqui a retórica das boas enunciações acerca do “trabalho colaborativo”, da “partilha dos materiais e métodos de trabalho”, da “cooperação” não tem qualquer correspondência na prática, porque o que tem acontecido é – com naturais, honrosas e admiráveis excepções – que grupos pequenos e cada vez mais estanques têm assumido o domínio total das decisões tomadas, raramente reagindo bem a críticas ou pedidos de “aclaramento” dos procedimentos. A “partilha” é em circuito fechado e a ideia de “colaboração” é no sentido descendente, com as bases a colaborarem de forma cordata na implementação do que foi decidido pelo topo da pirâmide. Sendo que este modelo a nível local replica o modelo nacional, com maior ou menor capacidade de sedução, maior ou menor tentação pela pura e simples imposição.
Um “novo paradigma” não pode ser o mesmo de sempre em termos de procedimentos + computadores + sessões à distância em sincronia. Caso contrário é apenas o velho paradigma com roupagens novas.

Paulo Guinote
Fonte: Público

quinta-feira, 7 de maio de 2020

"O Homem é do tamanho do seu sonho"


Chamem-lhe qualquer outra coisa menos Escola. Simplesmente porque, desde há muito, deixou de corresponder à sua etimologia. A palavra Escola, hoje, é sinónima de trabalho, obrigação, exigência, avaliação, luta individual por uma putativa profissão. Não tem nada a ver com o seu significado primeiro, do latim schola, sobre o grego schole, que traduz, grosso modo, espaço de lazer, recreação, liberdade e valorização do conhecimento. Mesmo que a Escola constitua, no nosso tempo, um direito Constitucional e um dever, ela está pervertida no que concerne à aprendizagem do que pode ser intelectualmente interessante e motivante. Dir-se-á que, no conceito inicial, não existe uma utilidade imediata, mas liberdade de aprender aquilo que é realmente importante.


Em uma série televisiva que acompanhei, registei, à entrada de uma escola, uma frase de Fernando Pessoa: "O Homem é do tamanho do seu sonho". Li, mais tarde, também de Pessoa, que "matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso". Mas aquela frase em uma tabuleta à entrada da escola fez-me pensar na grandeza e visão de alguém, professor ou aluno, que ali a deixou. Porque passado o portão, lá dentro, tudo é diferente. O sonho, desde o primeiro momento, sofre um rude golpe, porque a ninguém é permitido, paulatinamente, ser autor do seu "destino". Há um currículo, "paletes de programas" e um formato organizacional e pedagógico que bloqueiam o respeito pela diversidade dos públicos. 

O sistema educativo é, por isso, extremamente redutor. Mata a curiosidade e a criatividade e, se as golpeia a todo o momento, obviamente, mata o sonho. Não é possível a compaginação de ambas, isto é, encontrar as respostas ao turbilhão de perguntas a todo o momento disparadas por crianças e jovens e, simultaneamente, desejar que se mantenham no rebanho do que é superiormente determinado. A ternurenta e paternalista frase que assume que "as crianças estão no centro das políticas educativas" não passa de uma grosseira mentira. Uma falácia! Para já, se estivessem não seria necessário que os poderes a verbalizassem amiudadas vezes. Não estão. 

Elas são conduzidas segundo o pensamento dominante do adulto, político ou professor, orientadas pela visão estrábica de hierarquias impreparadas e, portanto, grosso modo, acabam sendo vítimas e não culpadas pelas trágicas taxas de insucesso, abandono e qualificação profissional. Porque a tal escola inclusiva, do prazer pelo conhecimento, que implica participação, curiosidade e respeito pelo sonho, salvo raras e honrosas excepções, não existe. A escola que ensina a sonhar não existe. O que é patente, imaginem em formato de desenho animado, é a escola que racha cabeças ao meio e lá para dentro atira livros e mais livros (leia-se conteúdos) sem qualquer interligação, pressupondo que de tal acção possa resultar percentagens ou notas de relevo nos testes de avaliação e, finalmente, uma meritocracia que mereça uns minutos de comunicação social para gáudio das hierarquias. Para que serve, não é pergunta que se coloque à discussão. Ademais, se sempre foi assim, porque raio alguns entendem que isto tem de ser diferente, certamente questionarão.

Ninguém pára para reflectir. Ninguém ouve os professores e estudantes, o pulsar das suas vidas e as suas reais angústias. "Não precisam de pensar porque há quem pense por eles" é a frase que continuam a trazer em memória activa, dos trágicos tempos do "Estado Novo". Dizer a certas pessoas, com responsabilidades várias, que "a criança nasce cientista. É a escola que a silencia" (Regina Steurer), face a alguns, dá-me a sensação de constituir uma enormidade, porque estão animadas do pensamento que a eles compete definir o melhor para a sua formação. Cresceram assim, viveram assim e respondem assim. 

Mais. Porventura, dirão, que é treta o que disse o Juiz Conselheiro Laborinho Lúcio, que as crianças começam a sentir que "têm um adulto dentro de si". Na escola do generalizado tédio - é o que os especialistas transmitem - a existir um "sonho" (perversamente, os adultos designam por projecto educativo), esse, digo eu, é colectivo, nunca em uma base individual. A linha de montagem é sequencial e superiormente determinada, pelo que, é o aluno que se tem de adaptar à escola e não a escola ao aluno! A escola não assume que "o sonho é uma planta que deve ser regada todos os dias para que cresça. Que é desta forma que se cultiva a esperança, o sentido de vida e o que nos faz, realmente, despertar depois de infelizes derrotas e melancolias" - escreveu a aluna Ariana da Silva Araújo.

O problema reside, portanto, na inexistência de uma certa dose de saudável loucura, de utopia, no sentido de uma ambição sustentada, que garanta que tudo, sublinho, tudo, possa ser motivo de aprendizagem, porém respaldado no sonho e no respeito pela diferença. E que tudo, transversalmente, está interligado. O manual, a acção dos professores que debitam e debitam, a memorização de conteúdos e a obsessão pela avaliação, não é, seguramente, o melhor caminho. 
"A escola mudou pouco, os adolescentes mudaram muito", avisou o Professor Joaquim Azevedo, investigador da Universidade Católica.

Perguntar-me-ão, mas afinal como é que se opera a transformação? Respondo de forma simples em quatro pontos que conduzem a inúmeras alíneas: primeiro, com uma verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem; segundo, com uma total ruptura do pensamento e da estrutura organizacional dominante, através de um princípio básico do desenvolvimento, o da "transformação graduada" no tempo; terceiro, com as instituições governamentais a assumirem o espaço da regulação de natureza administrativa que, necessariamente, se estende ao campo social, e não de abusiva interferência pedagógica, mesmo que de uma forma indirecta; quarto, chamando para a mesa do debate a instituição universitária, que estuda e é portadora de conhecimento.
O actual quadro tem uma característica absolutamente castradora, pela centralização de tudo quanto à escola diz respeito. Embora digam que não, sublinho! A verdade, porém, é que sentem prazer em ter as rédeas  do controlo na mão, daí o estendal burocrático que, por um lado, lembra quem manda, por outro, dita a orientação que convém à manutenção de um estado de ignorância.
Inspirado, deduzo eu, em Fernando Pessoa (1888/1935), Augusto Cury, Psiquiatra e Escritor brasileiro (1958) escreveu: "Que tamanho tem o universo? O universo tem o tamanho do seu mundo. Que tamanho tem o meu mundo? Tem o tamanho dos seus sonhos".
Finalmente, tão bom seria que tivessem presente "que o discípulo nunca está diante do Mestre, como o barro entre as mãos do escultor ou como um fantoche a quem se puxam os cordelinhos" - Georges Gusdorf.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 5 de maio de 2020

DESABAFO - "PIEDOSAS INTENÇÕES"


Tantos que eu conheci ao longo da vida, pessoas de coluna inquebrável, estudiosos, curiosos e criativos, de rigor extremo, sem necessidade de se colocarem em bicos de pés para serem notados, de uma extraordinária motivação intrínseca, de uma auto-confiança contagiante, de uma objectividade e transparência que me fizeram respeitar e até seguir, pessoas ousadas pelo conhecimento que transportavam, que tinham foco e determinação, que irradiavam felicidade e esperança, apesar de se saberem em contramão em função dos contextos políticos, económicos, financeiros, culturais e sociais.


Convivi com pessoas com distintas formações académicas, pessoas interessantes e a quem muito devo, pessoas que desejavam que os seus sectores profissionais conseguissem novos enquadramentos, mas de todo impossível. Apenas porque existiam poderosas condicionantes. Não deixaram de ser felizes, não perderam a adrenalina para um corre-corre no sentido da desejada mudança de paradigma, só que os vários poderes castravam a sabedoria que transportavam. Alguns, até, foram subtilmente perseguidos, pela sua frontalidade e conhecimento. Foram atirados para a margem, enquanto o barco seguia guiado pelas estrelas, jamais pelos instrumentos que a ciência disponibilizou. Não perderam a sua paz interior e nunca, mesmo nunca, trocaram a sua liberdade por posições viciadas de coluna vergada, deixando a cabeça entre os joelhos. Na minha profissão docente, por exemplo, vi autênticos gatinhos que se olhando ao espelho, viam um leão projectado na imagem. O que fazer? Deixá-los gozar o momento que é sempre efémero. 
No essencial, eu diria que as pessoas que me marcaram, seguiram o "Cântico Negro" de José Régio, que relembro:

"(...) 
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí!"

De facto, os seres humanos dispensam "piedosas intenções".
Apenas um desabafo de circunstância.
Ilustração: Google Imagens

terça-feira, 28 de abril de 2020

"Há qualquer coisa de podre na Educação"


Tenho dificuldade em encaixar, nos séculos que estamos a viver, um processo de aprendizagem que não parte do aluno, antes, de forma vertical, segue a lógica hierárquica que se inicia no decisor político e termina no professor. Partindo do pressuposto de uma certeza absoluta, o político, segundo as suas convicções, determina, e ao professor compete o rigoroso cumprimento das tarefas. E para que tudo decorra na tal apregoada "normalidade", sobre as suas cabeças deixa a espada da avaliação de desempenho, a tal que acaba por determinar ou não o marcar passo na carreira. Os alunos, esses, genericamente, são os que menos contam neste processo, embora o discurso político enfatize que eles estão no centro das preocupações educativas. Uma falácia!


Estou a seguir a série televisiva "Merlí". Delicio-me de episódio em episódio. Da sinopse da série destaco: "Merlí Bergeron é o novo professor de filosofia. Um professor desajeitado, irreverente e irónico, com uma personalidade forte e pouco convencional. Merlí irrompe pela escola, como um elefante numa loja de porcelanas, determinado a mudar a vida de estudantes e professores com os seus métodos revolucionários. O seu lema é: "Os adolescentes não são tolos, estão simplesmente adormecidos", e o seu objectivo é despertá-los. As suas armas são: Kant, Aristóteles, Platão... filósofos clássicos para ajudar os jovens a enfrentar os grandes desafios da actualidade. Do que podem estas crianças ser capazes se pararem de agir como parte do rebanho e começarem a pensar pelas suas próprias cabeças? Como professor, Merlí faz com que Sócrates, Hume, Nietzsche e outras figuras da história da filosofia ganhem vida para os seus alunos, de modo a ajudá-los, não sem conflitos, a resolver os problemas do quotidiano".

Merlí é apenas um exemplo de como é possível sair do convencional, de um sistema que olha, de forma cega para os rígidos currículos e programas, distantes de um olhar sobre a vida. Contextualizando-a, a atitude de Merlí permite romper com o passado e seguir uma característica transversal, permite aprendizagens significativas, duradouras e portadoras de futuro. O problema, portanto, não está, como por aí foi anunciado, na distribuição com traços políticos, repito, políticos, de mais algumas centenas de computadores, para que os jovens menos favorecidos sigam, a distância, os conteúdos programáticos superiormente definidos. O problema é mais profundo. 

Deste telensino restará zero, porque, fundamentalmente, repete o erro. Transporta o manual e só o manual para casa através dos meios tecnológicos. Naturalmente que a proposta deveria ser outra, com menos encargos e melhores resultados. Até no quadro de uma "experimentação social" de que falou Yuval Noah Harari num artigo recente no Financial Times. Portanto, o actual sistema pode satisfazer o interesse político face a uma população eleitora, ela própria com graves lacunas de formação e entendimento destes processos, mas não serve os desígnios de um conhecimento interligado e transferível. Regresso a Merlí: "há qualquer coisa podre na Educação". Há, obviamente que sim!
Em um episódio da série "Outra Escola" - episódio nº 13, da responsabilidade da RTP, o ex-Ministro da Educação, Guilherme de Oliveira Martins, sintetizou de forma assertiva: 

"Hoje os estudantes dizem que a escola é uma maçada. Nós temos que compreender. Para garantir que a escola não seja, temos de perceber, exactamente, que a escola é um lugar de aprendizagem e a aprendizagem tem a ver com a vida. Não há uma realidade lá fora, que é a vida, e a escola que está cá dentro, na sala de aula". Pergunto: de que vale, então, um professor papaguear o manual, seguindo conteúdos como quem "reza o Terço", se o que resta não se encontra integrado em uma dimensão maior da aprendizagem? Nesse episódio escutei um aluno: "(...) nós andamos tão à pressa para dar mais matéria que esquecemos da outra. Andamos sempre na pressa da próxima que não dá tempo para assentar a última". Outro referiu: "Eu tenho boas notas a História. Terminei com 16 no último período. Mas eu não sei nada do que se deu no período passado. Decorei aquilo para o teste (...)". 

Estas posições levam-me a trazer em pensamento Zygmunt Bauman (trazido à colação por Merlí no episódio de ontem) e o seu conceito de modernidade líquida. Segundo o sociólogo, conceito de acordo com uma época em que as "relações sociais, económicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos (...) o que se opõe à modernidade sólida do período anterior, caracterizada pela "rigidez e solidificação das relações humanas, das relações sociais, da ciência e do pensamento". Adequando o pensamento de Bauman à Escola, então, o problema situa-se no facto de os políticos governantes, teimosamente, continuarem a querer vender um "produto" pressupostamente de vanguarda, quando ele se encontra globalmente desadequado das  necessidades e dos interesses dos "clientes". Ora, "se a modernidade líquida tem instituições líquidas, pois cada pessoa é uma instituição, logo a modernidade líquida tem de ser ágil". Infelizmente, não é, sobretudo no espaço da instituição escola.

Neste contexto, confesso, senti um arrepio ao seguir algumas sessões de telensino. Tanto esforço e tanta propaganda para nada ou quase nada. Se na aprendizagem básica havia tanto por onde caminhar, aproveitando o momento para fazer pensar e descobrir a curiosidade na produção de conhecimento, no secundário e sobretudo no ano de acesso ao ensino superior, concordo com Maria Conceição Silva (Público, 19.04.2020) que sublinhou: "Nesta lógica de experimentação social a que a pandemia nos obrigou, seria interessante o Governo ter a coragem de experimentar este ano novas formas de acesso ao ensino superior". O governo preferiu a atitude mais fácil, a do exame conjugada com as folhas de Excel que determinam a ocupação de lugares, muitas vezes desadequadas das vocações.

Socorro-me do que disseram duas figuras na série documental "Outra Escola": por um lado, o Dr. Laborinho Lúcio: "(...) o que hoje se pede às sociedades modernas é cada vez mais cooperação, cada vez mais co-responsabilização para podermos viver aquilo que é a sociedade do risco (...) perante isto, nós não podemos ter uma escola que faz exactamente o contrário (...)"; por outro, a Professora Maria de Assis, Promotora de Práticas Colaborativas - Arte, Cultura, Educação: "(...) nós só aprendemos o que queremos, porque quero ou porque sou levado por alguém que me inspire. Mas depois aprendo por mim mesmo. O conhecimento é uma construção própria. Não é algo que eu fixei e que não sei aplicar em diferentes contextos. Portanto, esta coisa que há um especialista que transmite conhecimento é uma falácia. É fantástico que exista o especialista (...) mas o conhecimento constrói-se por cada um".
Termino, regressando a Merlí: "(...) Estou fartinho de pessoas que dizem que a Filosofia não serve para nada. Parece que o sistema educativo esqueceu as perguntas: quem somos, de onde vimos e para onde vamos. O que interessa é que empresa criaremos e quanto dinheiro ganharemos. A Filosofia serve para reflectir sobre a vida e sobre o ser humano. E para questionar as coisas. A Filosofia e o poder têm uma tensão sexual não resolvida. A Filosofia é virar do avesso tudo quanto damos por sabido. (...) quero-vos acordados, com as antenas ligadas ao que se passa à vossa volta. Preparados para assumir as contradições e as dúvidas criadas pela vida e para enfrentar as adversidades e aprender com as derrotas (...) - passagem do primeiro episódio.
Até onde tudo isto nos levaria... Ai se escutassem os alunos, os professores no quadro de uma visão  sistémica e de futuro! Desde logo perceberiam o tempo que andam a perder com este "telensino". O que assisto não é "estudar com autonomia", mas matar a autonomia e o interesse pelo CONHECIMENTO.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Agradeço ao meu Colega e Amigo Dr. João Luís, Professor de Filosofia, o facto de me ter sugerido o acompanhamento da série Merlí. Obrigado.

Texto publicado no blogue:

terça-feira, 21 de abril de 2020

A vida em estado de sítio: 19


Por
Eduardo Sá
Psicólogo

1. Os nossos filhos não estão de férias; mas também não estão nas aulas. Os próximos meses não serão, sobretudo, de “estudo acompanhado”. Como aquilo que temos para lhes dar não será, exactamente, ensino doméstico. A quarentena é um período tão híbrido de experiências e exige de todos um esforço tão grande que dá origem a uma nova “telescola”. Que, não sendo a solução “ideal” para responder ao confinamento a que os estudantes estão obrigados, será a (única) solução possível para que, em tempo recorde, eles não estejam sem “ir à escola” entre Março e Setembro.

2. Por mais que esta “telescola” preencha o seu espaço na RTP Memória, tem muito pouco a ver com a outra telescola, de “antigamente”. A primeira, tinha programas de televisão e grupos de alunos aos cuidados de um professor que fazia a “ponte” entre os conteúdos dados, a aprendizagem de cada um e as avaliações. Esta, tem as escolas, cada uma a seu modo, a fazer o seu trabalho da forma possível e a usufruir dos conteúdos suplementares trazidos aos estudantes pela televisão. Com os pais a desempenhar, pelas consequências óbvias do confinamento, o papel de ponte entre a escola e os filhos. E os professores que “melhor conhecem o conjunto do percurso educativo de cada aluno” a avaliá-los. Tomando em consideração o impacto que esta medida terá em todos os estudantes, ela poderá não representar a telescola de “antigamente”. Mas, no seu conjunto, não será só “estudo em casa”. Será, muito mais, escola em casa.

3, Apesar da sua benevolência, esta solução está longe de colocar as crianças em pé de igualdade. Sendo generosa na sua intenção, arrisca-se a acentuar (muito) mais as desigualdades das crianças no seu acesso à escola e ao conhecimento. Porque os recursos informáticos individuais que recomenda e os meios de comunicação que requer não estão, de facto, ao alcance de todos os alunos, por igual. Os números divulgados vão avançando que, do milhão e duzentos mil alunos em casa, haverá 200 000 alunos sem acesso a computador e sem rede. Se, de tudo isto, destacarmos as crianças com “necessidades educativas especiais”, algumas sem os meios adequados para acompanharem a escola, corremos o risco de as ver, nos seis meses que decorrem entre Março e Setembro, com as suas dificuldades aumentadas.

4. Uma família com dois filhos no ensino básico, por exemplo, que repartam o quarto e, naturalmente, a sala e a cozinha, estando (ainda, por algum tempo) os pais nos espaços comuns da casa em teletrabalho, não tem como conseguir dividir com equilíbrio a atenção pelas videochamadas (que, em certas alturas, serão simultâneas), uma aula pela televisão, mais a resposta às dúvidas de um dos filhos, a necessidade de gerir uma bulha ou um acesso passageiro de “mau génio” de uma das crianças. Isto é, a escola em casa corre o risco de funcionar mais como “aulas de compensação”. E compreende-se que seja, de certa forma, assim. Mas será muito difícil - muito difícil, mesmo - que as famílias, com este compromisso-extra sobre os seus ombros, não se “desequilibrem” mais, em muitos momentos. Porque estão cansadas. Porque começam a não saber para que lado se hão-de virar. Porque 960 000 crianças têm menos de 12 anos e isso vai exigir que um dos pais permaneça em casa, com todo o “pacote” de preocupações que a sua relação com o trabalho lhes irá, também, trazer. E porque se arriscam a ter as escolas a exigir-lhes “coisas” que, se em momentos normais seriam adequadas, nesta altura, correm o risco de se tornar exorbitantes.

5. Esta conjuntura obriga-nos a aceitar que nem a família é uma escola nem os pais são professores. E será muito menos uma “escola”, na balbúrdia em que, contra a vontade de todos, se transformaram muitas salas deste país. Com os pais e os filhos a manifestarem a agitação própria de quem está em isolamento há tempo demais. Ou seja, é natural que os conflitos escalem. Por outras palavras, quem imagina que, num contexto destes, as crianças estarão atentas - enquanto os pais, “fervem”, ao exigirem-lhes atenção, e enquanto elas saltitam entre a televisão, o computador e os trabalhos de casa - e que irão aprender, consolidar conhecimentos e interligá-los de forma a que tenham sucesso nas suas aprendizagens, estará a ser, muito “perigosamente”, optimista. Não é que os nossos filhos não queiram corresponder ao desafio que lhes colocamos; querem. Mas aquilo que lhes estamos a exigir é demais.

6. Não percam de vista que os nossos filhos na escola e os nossos filhos em casa não são, em circunstâncias normais, sempre “as mesmas crianças”. E que os nossos filhos antes, durante e a seguir à quarentena não serão, seguramente, iguais. Portanto, não lhes exijam aquilo que exigiriam em circunstâncias normais. Não transformem, por favor, a quarentena num período normal de aulas! Nem percam de vista que já há escolas que pretendem, desde já, que os nossos filhos tenham aulas diárias das 9 às 5. E isso não é razoável! Um esforço desmedido - com as crianças fechadas em casa há tempo demais, a tentarem aprender sozinhas no quarto ou sentadas na sala, com a presença física dos seus pais a tutelá-las o tempo todo (estando, eles, também, a trabalhar) tendo, para mais, esta nova “telescola” a garantir um suplemento de ensino à distância - pode dar lugar a excessos. Ou seja, esta quarentena, nalguns casos, pode traduzir-se em mais aulas, ainda, do que os nossos filhos já, antes, teriam. Tendo as mesmas explicações do costume. E mais trabalhos de casa. Tudo isto numa conjuntura muito difícil para todos. Que, feitas as contas, pode não representar os ganhos que desejaríamos. Quanto às avaliações, elas não poderão ter, neste pedido, o mesmo significado. Então se os nossos filhos forem adolescentes, por exemplo, um teste será muito mais um “trabalho de grupo” do que uma avaliação individual. E as notas que, entretanto, surgirem não podem ter senão um valor que precisa de ser relativizado.

7. Aceitem que os professores terão sobre eles, nesta altura, níveis de exigência quase absurdos para conseguirem chegar a todos os seus alunos: àqueles a quem darão aulas; e aos outros que, não tendo recursos informáticos, ficarão numa espécie de “terra de ninguém” nessas ajudas. E que, muitos, estarão a tentar mobilizar-se para terem os recursos pedagógicos adaptados a todas estas novas exigências, estando em tele-trabalho. E aceitem que os contactos personalizados da escola com cada um dos seus alunos facilmente fará com que não haja professores que cheguem para tantas “encomendas”. E que tudo isto vai exigir muito bom senso da parte dos pais. Acresce que muitos professores têm, também, filhos em idade escolar. E que vão ter, ainda, os pais a pedir-lhes mais colaboração do que já pediriam antes. Tudo junto, não vai ser fácil!

8. Prepararem-se para que o regresso às aulas, em Setembro, não seja fácil para ninguém. Depois de seis meses afastados da escola, dos professores e dos colegas, e com todos os “vícios de forma” que decorrem de estarem tanto tempo fechados - ora em climas um bocadinho “inflamados” ora com condescendências excessivas por parte dos pais - preparem-se para que o “choque” que se venha a dar se estenda por todo o próximo primeiro período. Os nossos filhos estarão entre o excitado e o receoso; estarão um bocadinho “entorpecidos” por terem estado tanto tempo “parados”; e terão, naturalmente, muitas carências de conhecimentos. Logo, a escola vai ter que os recuperar para a aprendizagem ao mesmo tempo que quererá introduzir novas matérias. Ou seja, preparem-se para um primeiro período muito difícil para todos. Professores e pais, claro. Mas, sobretudo para os nossos filhos.

9. Não se esqueçam, também, das crianças do pré-escolar. Daquelas que, em seis meses, poderiam ter “crescido” muito mais em meio escolar e que, na transição dos 5 para os 6, com seis meses de quarentena, vão precisar de famílias e de professores com muito bom senso e numa sintonia “premium” na transição para o ensino básico. Se, habitualmente, a dificuldade está em que elas estejam sentadas, desta vez, essa dificuldade será maior. E não se esqueçam daqueles que, com menos de 5, foram “morrendo de saudades” da sua educadora e dos seus colegas e que, quando regressarem, vão ter que passar, outra vez, por reacções que, nalgumas crianças, vos farão lembrar os primeiros meses de infantário.

10. Preparem-se, igualmente, para ajudar os vossos filhos entre os 10 e os 14/15. Aqueles que imaginam controlar todas as “cenas”. Que, por mais que nos tenham a repetir que não estão de férias, estarão a sentir um controle mais adocicado da nossa parte. Que repartem o dia pelas redes sociais, pelas séries e pelos jogos. Que vão reagir duma forma muito “sua” à obrigatoriedade das aulas, aos pais num estado de nervos permanente, a protestar com as horas a que se chega às aulas da televisão e ao aprumo com que se está numa “escola” que permite que se esteja de “pantufas” Que, quando têm o computador aberto, nem sempre estarão a estudar; e ora estão a jogar, ora a navegar pelas redes sociais como “a socializar”. E que tão depressa vão para a cama “a horas” como adormecem de madrugada. Eles vão precisar de algum “músculo” e de uma exigência “mais apertada” da parte dos pais. Porque aos 10 e aos 11 ou aos 12, aos 13 e aos 14 quase ninguém é compenetrado e metódico. Muito menos se um professor se for transformando num “teleprofessor”.

11. Não se esqueçam dos vossos filhos que, agora, estão no 9º ano e que irão transitar para o 10º. Porque se, em circunstâncias normais, essa transição já é “turbulenta”, depois destes seis meses, será mais dura e mais susceptível de os fazer passar, ainda mais depressa, do sonho de se ser “top” numa determinada área de estudo a uma espécie de “pré-reforma” em relação ao entusiasmo por aprender.

12. Não suponham, por favor, que vos tenho estado a tentar traçar um quadro “negro” do que podemos esperar da escola em casa. A intenção não é essa. Mas se a quarentena está a ter o mérito de colocar as crianças, de todas as idades, a manifestar, de forma declarada - e, talvez como nunca - o seu amor pela escola, este confinamento que nos fecha em casa, com a vinda desta “telescola” vai fazer com que o papel da escola e dos professores, aos olhos dos pais, seja, hoje, entendido com mais carinho. E vai levar a que a escola e os professores acolham melhor (do que nunca) a função da família como complemento interpelante da escola. Levando a que pais e professores se respeitem, depois disto, mais, ainda.

13. Foi-se alimentando, desde há muito - e de uma forma trapalhona, acho eu - a ideia de que há crianças que têm vontade de aprender e crianças que são preguiçosas. A preguiça será uma forma habilidosa de ocultar o medo de não se ser capaz de aprender. Ou seja, todos as crianças têm uma ilimitada vontade para aprender. Mas nem sempre os contextos e as pessoas que medeiam a sua relação com a aprendizagem as ajudam. Hoje, este imenso reboliço que estamos a viver irá ser, ainda, mais exigente para elas. E vai obrigar-nos, pelos próximos tempos, a reconhecer que a vontade de aprendermos, muito depressa, muitas estratégias de aprendizagem muito inovadoras poderá nem sempre ir contando com o compromisso de todos para o fazer. A ponto de uns, entre todos nós, aprenderem; e outros parecerem “preguiçosos”. Mas temos pela frente uma oportunidade histórica de, com tudo isto, repensarmos a escola: nos seus conteúdos, nos seus métodos e na forma como avalia. Assim a nossa vontade de aprender com esta “avalanche” conte com todos!

Artigo publicado originalmente no

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A tragédia de não procurar caminhos alternativos


"ENSINEM-LHES A PENSAR, ENSINEM-LHES COISAS DIFERENTES... NÃO FIQUEM ANSIOSOS COM O MUNDO REAL. PORQUE DO MUNDO REAL TRATAMOS NÓS"

A frase que constitui o título deste texto é do Professor Miguel Tumen, director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. No essencial, constitui a síntese do que escutou dos "empregadores" (do mercado) quando a Faculdade decidiu criar a Licenciatura em Estudos Gerais.
Ora bem, há muito que sustento o princípio que a Escola deve ser vista pelo lado da cultura. Cultura aqui, não no sentido, por exemplo, de uma específica manifestação artística, mas no sentido de uma ampla acção de cultivo de conhecimentos que estão muito para além dos manuais. É óbvio que não é essa a característica da escola portuguesa (e de muitas outras). A escola portuguesa, até por razões ideológicas, vive, obcecadamente, do e para o currículo, para os diversos e pormenorizados programas, cada vez mais cheios de tralha, vive para avaliação, vive para a burocracia e, paradoxalmente, não vive para o conhecimento sustentável, transferível e duradouro. 

Parafraseando o meu Amigo, Catedrático Jubilado, Doutor Manuel Sérgio, a escola aferrolhou-se em uma espécie de torre de marfim e não permite que seja fecundada pelas diversas ciências do Homem. Falta-lhe uma cultura geral, transversal e abrangente. O que subsiste é um hermetismo, a que todos se sujeitam, que percorre anos, currículos densos e programas. 
Sair deste formato, extremamente condicionador, é difícil, porque existe uma carga de duzentos anos de repetição. Prefiro um paradigma de escola (em permanente adaptação) e não um modelo de escola (por isso mesmo, estático).

Neste sentido, tenho muita dificuldade em aceitar esta paranóia pela necessidade de cumprir os programas, para já, os do Ensino Básico, estas "aulas" através de plataformas informáticas ou as sessões emitidas pela televisão. E com avaliação final, claro, o que constitui outra paranóia, porventura com um altíssimo grau de mentira! 
O Covid-19, essa tragédia que a todos nos constrange, apavora e que nos enche de medo, no caso da Educação, deveria ser aproveitada para o estudo das tais "coisas diferentes" de que falam os empregadores. No essencial, para despertar nos alunos o interesse que traga no seu âmago a obrigatoriedade de fazer "pensar", descobrir e ganhar o gosto pela curiosidade. E existe tanto para propor, de forma interessante, despertando a paixão pelo conhecimento e com a característica desta paixão ser portadora de futuro. A fragilidade (confinamento obrigatório) poderia e deveria constituir uma oportunidade. Mas não, será a repetição do modelo, agora através de meios tecnológicos. 
Neste vídeo que aqui deixo  e recomendo, entre outras, destaco quatro interessantes posições, três das quais de alunos da Licenciatura em Estudos Gerais da Universidade de Lisboa:
Duarte Bernardo da Costa - "Até ao 11º ano sabia exactamente o que queria ser, qual seria a minha profissão. A partir daí comecei a duvidar. Achei que poderia ser professor de Latim e Grego, Engenheiro Agrónomo, Homeopata, não sei, agora, agora... estou em experimentação".
Mariana Pancada - "Agora sinto que me estou a formar (...) quero aprender, porque quero conhecer, não porque tenha de ficar nesta profissão. Acho que é muito importante a curiosidade pelo conhecimento".
João Oliveira - "O mercado actual é muito flexível (...) a Faculdade é feita para ensinar, não é um centro de emprego."
António Feijó, Professor da Universidade de Lisboa - "(...) Liberal, no sentido de artes liberais, das disciplinas da universidade medieval, queria dizer liberto da necessidade de satisfazer necessidades práticas ou contingentes. Ou seja, os alunos aprendiam coisas, mas não estavam a pensar na utilidade imediata dessas coisas. O que aprendiam (...) eram coisas intelectualmente interessantes. Era pensar que o ensino da razão, da racionalidade era, em si mesmo, virtuoso, em si mesmo, bom (...) Hoje os alunos têm três anos e durante esses três anos têm uma barragem ininterrupta de pessoas a lhe dizerem que têm de pensar no emprego, nas saídas profissionais, e estas mantras, saídas profissionais, são uma espécie de cassetete sistemático nos alunos (...) não vivem, estão sob uma forma de ansiedade contínua em relação àquilo que vão fazer (...) isto é uma brutalidade".
Curiosa e complementarmente, em muitos casos, digo eu, ensina-se para "profissões" que, certamente, não vão existir.
Sublinhou o Professor Miguel Tumen, director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: "foi refrescante saber que as pessoas com quem todos se preocupam (os empregadores, o mercado de trabalho) eram as pessoas menos preocupadas". Por isso, enalteço eu, ao nível básico, "ensinem-lhes a pensar, ensinem-lhes coisas diferentes e não fiquem ansiosos com o mundo real", porque desse mundo real, dizem os empregadores, "tratamos nós". 
A mensagem que fica deste episódio, transmitido pela RTP2, talvez possa ser esta: é tempo dos políticos com funções de governo entenderem que é residual, para não dizer nulo, o interesse em memorizar para debitar e logo esquecer. Eu diria que, ao lado de algum conhecimento específico (inegável), mas através de um outro formato pedagógico, deve correr uma dimensão cultural que faça o lastro necessário, sobre o qual possam ser construídos os pilares que suportarão o conhecimento superior. E isto deve começar muito cedo. 
Uma Licenciatura em Estudos Gerais é de uma relevância maior, mas entendo que tais preocupações devem começar no básico. Para isso, a importância dos professores é determinante. Logo à partida deverão passar a falar menos, muito menos, subordinando-se às perguntas dos alunos, pois o "mais alto ensinamento do mestre não está no que ele diz, mas no que não diz" - Georges Gusdorf. De resto, "quem pode cria, quem não pode ensina" - Bernard Shaw.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 13


Como combater o insucesso escolar? O debate não é recente e os argumentos contra a chamada cultura de retenção desmultiplicam-se: o insucesso está diretamente relacionado com o meio sociocultural dos alunos, tratando-se, por isso, de uma questão de justiça social. Economicamente é uma prática muito cara para o Estado, sendo ainda pedagogicamente ineficaz, pois quem fica retido de ano repete quase sempre a mesma experiência negativa que o conduz ao abandono escolar.
Um debate em que os alunos não podem ficar de fora. - Sinopse RTP2.

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domingo, 12 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 12


O Perfil dos Alunos Para o Século XXI inclui, "A Consciência e Domínio do Corpo", como uma das competências chave que os jovens devem possuir à saída da escolaridade obrigatória. Como é que o corpo está presente na aprendizagem? E qual a relação do espaço físico com a aprendizagem dos alunos? Aprender a pensar está intimamente relacionado com a aprendizagem do corpo, do sentir, da conexão com a natureza, da relação com os espaços físicos que nos rodeiam, relembrando a antiga máxima "Mens sana in corpore sano", ou seja, uma mente sã num corpo são.

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sábado, 11 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 11


Todos temos algum professor que deixou uma marca em nós para sempre. É uma profissão muito criticada talvez por ser tão importante.
Para este episódio pedimos a cinco professores do ensino básico e secundário que fizessem um registo do seu dia-a-dia em forma de diário visual, permitindo-nos um olhar mais próximo sobre uma realidade tão exigente quanto complexa.

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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 10


"A Academia Sénior de Carnide oferece um leque de ocupação de tempos livres promovendo um envelhecimento saudável dirigido a pessoas com mais de 50 anos. Sendo um espaço de socialização, esta Academia tem como finalidade quebrar a solidão e o isolamento social, promover o convívio, despertar interesses, valorizar os conhecimentos da população sénior e ampliá-los. É a partir deste lugar que partimos para uma reflexão sobre a importância da aprendizagem ao longo da vida, desmistificando a ideia de que a reforma é a etapa final, mas que vivemos todos - novos e velhos - na contemporaneidade, ou seja, dentro do mesmo tempo, o presente." - Sinopse RTP2

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quinta-feira, 9 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 09


"No colégio Park International School, os alunos do 4º ano aprendem a usar a tecnologia como mais uma ferramenta de aprendizagem em sala de aula. Através da metodologia trabalho de projeto, que cruza conteúdos de várias disciplinas, os alunos são movidos pela sua curiosidade e criatividade, pelo que já sabem e pelo que querem saber.
Os professores, mais do que transmitirem informação, apoiam e desafiam os alunos na construção do seu próprio conhecimento. Uma pedagogia interativa, focada no aspeto social dos alunos, que vê a educação mais como um processo, onde se exercitam competências de comunicação, autonomia e responsabilidade." - Sinopse RTP2.

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quarta-feira, 8 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 08


A conquista do ensino dos zero aos três anos é recente e ainda não integra o sistema de ensino público, embora todos os estudos indiquem que uma educação de qualidade nos primeiros anos de vida produza um retorno a longo prazo, pois cria uma sociedade mais resiliente e criativa.
Neste episódio vamos mergulhar no mundo dos bebés, das creches, lugar de encontro entre crianças, pais e comunidade, ficando a conhecer novas visões sobre o que é ser criança nos dias de hoje. - Sinopse RTP2

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terça-feira, 7 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 7


"A Licenciatura em Estudos Gerais tem uma característica que a diferencia de todas as outras em Portugal: permite uma combinação única entre as artes, as humanidades e as ciências. Os estudantes podem construir o seu percurso curricular definindo o perfil que mais se adequa aos seus interesses.
Assim, neste episódio, vamos conhecer a Mariana o João e o Duarte, alunos deste curso, e ficar a conhecer de perto, a forma como estes alunos constroem o seu percurso universitário dentro desta licenciatura em particular. - Sinopse da RTP2

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segunda-feira, 6 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 06


"A escola pública é um lugar onde vive e habita a diversidade total e a turma de artes do décimo ano da Escola Secundária de Camões é reflexo dessa heterogeneidade e complexidade. Que implicações trazem ambientes multiculturais, como aprendemos com a diferença, que mecânicas de solidariedade, entre alunos e entre alunos e professores, são ativadas nestes contextos? O que pode correr bem e o que pode correr mal, num sistema educativo que quer ser o mais abrangente possível, sem deixar ninguém de fora?" - Sinopse do episódio.

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domingo, 5 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 05


"Na Escola Jardim do Monte em Alhandra as atividades incluem aulas ao ar livre, trabalhar com materiais naturais, como troncos de madeira, conchas e cortiça, ou o contacto com animais. Segundo a corrente pedagógica Waldorf, estas atividades desenvolvem os sentidos das crianças, estimulam a imaginação, a vitalidade e a alegria de viver.
Uma proposta educativa que inclui uma visão holística do ser humano nas suas vertentes física, afetiva, cognitiva e espiritual." - Sinopse RTP2

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sábado, 4 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 4


O Ministério da Educação define o ensino doméstico como, "aquele que é leccionado, no domicílio do aluno, por um familiar ou por uma pessoa que com ele habite". Os dados mostram que há cada vez mais famílias a optarem por esta modalidade de ensino. Neste episódio, ficamos a conhecer a família Fox Val, que escolheu colocar os seus dois filhos no ensino doméstico, desfazendo mitos e preconceitos sobre esta alternativa à escola convencional.

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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 3

"O Centro de Formação e Reabilitação Profissional de Alcoitão, pertencente ao Instituto do Emprego e Formação Profissional, tem como missão promover a criação e a qualidade do emprego e combater o desemprego através da formação profissional.
Neste episódio, vamos conhecer os alunos do Curso de Cabeleireiro Unisexo que dá equivalência ao 9º ano de escolaridade. Muitos alunos frequentam o curso porque são obrigados, outros, apenas para obter o certificado, e outros, pela oportunidade de recomeçarem as suas vidas profissionais.
O que os motiva realmente? Que desafios encontram aqueles que desejam regressar à escola?" - Sinopse do episódio.

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quinta-feira, 2 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 02


Ter de escolher a área que vão seguir no Ensino Secundário pode ser um drama para muitos alunos e encarregados de educação. 


Os alunos da Turma A do 9º ano do Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes estão prestes a ter de escolher. Ciências? Humanidades? Artes? Escolher porque tem saídas, porque os outros acham que é o melhor para mim ou ouço o meu coração e sigo os meus sonhos?
O processo está estabelecido para que os alunos comecem a fazer escolhas muito cedo, mas a escola pode ser um espaço para experimentar, errar e voltar a tentar.

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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Outra Escola - Episódio 01


Outra Escola procura que a escola que está dentro de cada um de nós se revele, mais imaginada, mais utópica, mais livre e mais real.

OUTRA ESCOLA
PORQUE ESTA JÁ DEU TUDO QUANTO TINHA PARA DAR

A RTP 2 transmitiu uma série de 13 episódios sobre a Escola. A par de todos os outros, o episódio de ontem foi extremamente importante. Neste tempo de confinamento, seria muito bom que os governantes, políticos, professores, pais, responsáveis pelos estabelecimentos de aprendizagem, comunidade em geral, todos, assistissem a esta série. Os quarenta e quatro minutos de ontem foram deliciosos, profundos e reais. 
"Esta série documental, com autoria de Filipa Reis, João Miller Guerra e Maria Gil, tem como premissa inicial a pergunta, como é que se aprende? O programa apresenta de forma caleidoscópica diversos projectos de ensino, focando-se na pluralidade de vários contextos de aprendizagem e na experiência da educação como um momento de transformação que pode ocorrer tanto dentro como fora da escola. Dá a conhecer diferentes lugares de aprendizagem, com diferentes modos de operar que guiam diferentes formas de aprender e de pensar a educação". - sinopse da RTP2.
Não será preciso "inventar" e organizar mais formações visando "créditos" que justifiquem uma subida no escalão remuneratório. Para já, sentem as pessoas em anfiteatros e passem estes treze episódios. Depois, concedam liberdade aos estabelecimentos de aprendizagem para criarem o novo.
A partir de hoje, diariamente, vou partilhar todos os episódios, onde várias personalidades abordam a "Outra Escola". Estejam atentos. Visualizem. Vale a pena seguir esta série documental com autoria de Filipa Reis, João Miller Guerra e Maria Gil.
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