domingo, 13 de novembro de 2022

TEDX

 

É preciso "deixar os jovens saírem da sua bolha e ver o mundo" foi uma das frases emblemáticas no recente "TEDX - Funchal". Assumiu-a o Dr. Francisco Dionísio, jovem médico, para quem é "no sonho" que os jovens encontrarão sentido para as suas vidas. Isso implica "partir e quebrar as amarras que os impedem de sonhar", disse. 



É mais um que veio a terreiro tocar na ferida profunda que sangra. Parabéns, Dr. Francisco Dionísio. Desde há muitos anos que esse é o problema central que os adultos políticos não querem escutar, tampouco mexer uma palha, para que a Escola deixe de ser formatadora para dar lugar a um espaço de aprendizagem compaginada com a vida, para que eles possam ver "mais alto e mais além". Tem razão quando sublinha ser necessário "ceder poder aos jovens". Entendo o que quis transmitir, isto é, não se trata de poder político-partidário, mas o poder de serem escutados e sobretudo verem respeitadas as suas opções. O drama é que esta Escola mata o sonho desde muito cedo, exigindo-lhes respostas certas na idade das perguntas. E quando se mata o sonho, mata-se a criatividade, a inovação e o interesse pelas experiências cheias de aprendizagem e vida. 

Ao contrário do que Toffler enalteceu, esta geração política continua a querer meter o futuro nos cubículos convencionais do passado. E, de falência em falência, mais tarde, qual paradoxo, pedem aos jovens iniciativas "fora da caixa", que sejam inovadores, que tenham ambição e até propõem-lhes formação para empreendedores. Matam o sonho e, depois, desejam uma geração de jovens responsáveis, de pensamento livre e capazes de agarrar todas as oportunidades que o mundo coloca à sua disposição.

Não é possível Dr. Francisco Dionísio, quando os políticos mentem, apenas desejam conservar o seu poderzito, brincam com as estatísticas jogando no campo da "verdade que engana", quando são incapazes de perceberem as razões de só 11% dos rapazes e 15% das raparigas assumirem gostar desta escola; quando existe uma debandada de professores fartos e cheios deste sistema que os inferniza com programas e burocracias (84% deseja aposentar-se); quando os empregadores querem pessoas que pensem e não pessoas com "músculos na cabeça"; quando são mantidas as traves-mestras de um sistema com 200 anos, quando, ainda hoje, prevalece a "aprendizagem" segmentada (por disciplinas) quando tudo está interligado, quando se trabalha para "ranking's" e não para o conhecimento, pergunto-lhe, se pode haver alguém capaz de "quebrar as amarras"?

De qualquer forma, volto a dar-lhe parabéns pela lucidez e pela esperança que mantém.

Ilustração: Dnotícias.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Caso de Estudo? Chapéus há muitos...

 

Vasco Santana imortalizou a frase "Chapéus há muitos". Por aproximação eu diria que também "Case study" há para todos os gostos. Tal como os chapéus enfia quem quer. Ora bem, por várias razões, tenho pelo Dr. João Cunha e Silva consideração pessoal. Aliás, nas raras vezes que nos vamos cruzando na vida, a cordialidade e o respeito é mútuo. Portanto, aos que me lerem, peço que não confundam os quadrantes políticos que eu e ele protagonizámos ao longo da vida. Trata-se, apenas, de, democraticamente, estabelecer aqui um salutar contraponto.



Na sua habitual coluna "message" que assina no Dnotícias, escreveu hoje, na página 2, sobre aquilo que considera ser um "caso de estudo": a história dos manuais digitais com distribuição em curso na Região da Madeira. A determinada altura diz que a Samsung HQ enaltece que da Europa à Ásia os ditos manuais digitais tiveram "como inspiração o que está a ser desenvolvido na Região (...) exemplo pioneiro ao nível nacional e internacional". Espantoso, da Europa à Ásia! Ora bem, não acredito que o Dr. João Cunha e Silva não esteja por dentro deste importante tema e também porque sabe, muito melhor do que eu, sobretudo pelas importantes funções que desempenhou, as de vice-presidente do governo, que as empresas existem para venderem os seus produtos e produzirem lucros. E isso implica marketing e muita publicidade. Quantas não lhe passaram pelo seu gabinete pintando de cores garridas aquilo que, necessariamente, precisava de um outro tipo de abordagem! Permita-me Dr. João Carlos, a história da Samsung, do meu ponto de vista, é treta para consumo político. Nós, madeirenses, líderes na Europa e na Ásia! Caso de Estudo. "Só contaram prá você".

Levaria muitas páginas a explicar isto dos manuais digitais ou então aquela história das "salas de aula do futuro". Vou-me ficar por aquilo que, há poucos dias, o Professor Doutor Santana Castilho (Membro do VIII Governo Constitucional presidido pelo Dr. Francisco Pinto Balsemão), num encontro de professores, disse sobre a utilização dos manuais digitais. Sumariamente, assumiu que nos Estados Unidos, a implementação dos manuais digitais, iniciada há oito anos, foi abandonada, porque os cientistas concluíram que o desenvolvimento cognitivo das gerações mergulhadas no digital é equivalente ao das crianças de 8/9 anos de há 30 anos; por outro lado, são cinco vezes mais caros para além de ter crescido em 30% as doenças oftalmológicas. Explicou as razões e fez-se um sepulcral silêncio. Quando uma figura académica, autor de várias Obras e colunista do Público, espoleta uma situação destas, presumo que as campainhas de alarme deviam ter tocado de forma estridente nos ouvidos dos responsáveis políticos. O secretário da Educação devia, imediatamente, sentir-se preocupado e proceder à auscultação de todos os que directamente estão ligados ao sector. Com uma pergunta-chave tão simples quanto esta: "será que estamos no percurso certo ou teremos de arrepiar caminho?" Simples! Se os neurocientistas invocam que o que parece não é, então, que se estude e que se mude de orientação. Só lhe ficaria bem. Para sermos "exemplo para toda a Europa e Ásia"!

O problema da qualidade da aprendizagem e do futuro das novas gerações, entre muitos e muitos aspectos, não está, meu Caro Dr. João Cunha e Silva, na existência de manuais digitais em conjugação com algumas ditas salas de aula do futuro. O drama está no que deve ser o Sistema Educativo, no que deve ser a Escola do Século XXI, a sua organização interna, a mudança radical da mentalidade que obriga a actos rotineiros, no drama está nos currículos, nos programas extensos, complexos e desadequados, na cultura de aprendizagem, nessa meritocracia balofa que se alastrou, na reconversão da rede escolar e na tipologia dos edifícios, na formação dos professores, na burocracia, na doentia e obsessiva avaliação, na pobreza social e no respeito pelo sonho de cada um, rico ou pobre, onde a utilização da tecnologia, necessária e extremamente importante, não se esgote, genericamente, na colocação dos manuais em papel num tablet, mantendo intocável o formato pedagógico. Manter as traves-mestras do Século XIX só poderá dar "erro".

"Caso de Estudo" devia ser o facto de, numa Região Autónoma, com pouco mais de 40 000 alunos, a caminho de 50 anos de Autonomia, os indicadores serem, aproximadamente, estes: "65% da população da Madeira, com 15 ou mais anos, tem apenas até o 9º ano de escolaridade. O valor está acima da taxa nacional que, no ano passado, ficou pelos 61%. A Madeira continua a estar pior do que a média nacional, naquela que é a taxa de abandono precoce de educação e formação (jovens dos 18 aos 24 anos que estão fora do sistema de ensino e sem o secundário): 23% na Região e 14% no País". Fonte - DN-Madeira/Pordata/Jornalista Ana Luísa Correia / Junho de 2018. Refiro este estudo de 2018, pois, como se compreende, não é em quatro anos, de acordo com a mesma metodologia, que os dados venham a ser substancialmente diferentes.

Tudo isto significa que existe uma crónica teimosia em viver de modas e de aparências, onde o estudo fica sempre para mais tarde. Talvez possa dizer que a Escola está ao serviço da política e não a política ao serviço da Escola. E o Dr. Cunha e Silva percebe o que aqui deixo e, por isso, digo-lhe com consideração: oh Educação quando deixas de ser partidarizada, para que a Escola não seja "A Catedral do Tédio".

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

“O professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é”


Entrevista a José Pacheco: 
por Ana Isabel Fernandes, 
29 Janeiro, 2020




A entrevista foi realizada em 2020, mas poderia ter sido ontem. Deveria ser lida por quem tem responsabilidades políticas no sector educativo e por todos os professores.

“Não há alunos com dificuldades de aprendizagem; há professores com dificuldades de ensinagem…”, ressalva-nos mais do que uma vez José Pacheco que, após mais de 30 anos na Escola da Ponte, em Vila das Aves, ruma ao Brasil, tal como Agostinho da Silva, porque crê que o desenvolvimento do ensino do futuro está-se a dar a Sul e não, como etnocentricamente gostamos de pensar, a Norte. Do outro lado do oceano apoiou, por exemplo, o nascimento do núcleo projecto Âncora, que auxilia alunos socialmente desfavorecidos e é tida, actualmente, como uma das melhores escolas do mundo. Chegou à Escola da Ponte como professor substituto de uma docente em baixa de maternidade, ainda nos anos 70, e tinha a seu cargo uma turma de 60 alunos das mais variadas idades. Foi esta situação que o instigou a pensar e repensar os paradigmas da educação. Assim, dessa forma, desenvolve, na época, um novo e dinâmico projecto pedagógico, juntamente com duas colegas, a partir do qual nascem as premissas que regem a Escola da Ponte até aos dias de hoje, agora em São Tomé de Negrelos. Autonomia, liberdade, responsabilidade, entreajuda, noção de comunidade e criatividade em que é o próprio aluno a propor-se para avaliação quando se achar preparado.


Um sistema de ensino que visa respeitar o aluno como ser humano que é, consciente e autónomo, ao permitir-lhe gerir e organizar o seu próprio tempo sem divisões por turmas ou idades. Ao invés do professor que debita a matéria numa aula, o aluno tem uma voz activa no que pretende aprender e o professor serve, antes, como tutor ou orientador. A comunidade assume, dessa forma, um papel fulcral, uma vez que a escola não deveria estar integrada na comunidade, mas ser parte dela, como um todo. Para José Pacheco, as aulas e respectivas salas já deviam fazer parte do passado uma vez que foram pensadas para responderem às necessidades da primeira revolução industrial do século XIX. Muito mudou desde então, menos o sistema educacional, uma das áreas que menos sofreu evolução. Algo difícil de compreender, uma vez que não faltam, como José relembra, grandes pedagogos e pensadores hoje esquecidos — como Irene Lisboa, António Sérgio, Bento de Jesus Caraça, Adolfo Lima, Faria de Vasconcelos, João dos Santos e Agostinho da Silva —, que já defendiam há mais de um século aquilo que hoje ainda denominamos de futuro. Por isso, José Pacheco pergunta “quando cessará o insustentável e obsceno silêncio dos especialistas das ciências da educação?” Mas vamos, agora, ao principal, à entrevista que o professor nos cedeu, por e-mail, há alguns dias.

Associamos, várias vezes, a inovação escolar à inovação tecnológica. De que uma escola do futuro é aquela tecnologicamente bem equipada. Como é que olha para a integração das novas tecnologias na educação? Ajudam, de facto, numa maior democratização, no sentido lato da palavra, ou só isso não basta e poderá nos induzir em erro?

“Inovação” é tudo aquilo que é novo, que possui valor e capacidade de se renovar/reinventar no decorrer do tempo, em permanente fase instituinte. O termo “inovação” tem origem etimológica no latim innovatio. Refere-se a ideias, métodos ou objetos criados que não semelhantes a ideias, métodos ou objetos conotados com padrões anteriores. Em suma: inovação é, efetivamente, algo novo, que contribui para a melhoria de algo ou de alguém. E que pode ser replicado, por exemplo, a partir da criação de protótipos. Inovação será algo inédito, útil, sustentável e de provável replicação. No campo da educação, será um processo transformador que promova ruptura paradigmática, mesmo que parcial, com impacto positivo na qualidade das aprendizagens e no desenvolvimento harmónico do ser humano. Consiste em superar aquilo que se manifesta inadequado, obsoleto. Significa trazer à realidade educativa algo efetivamente novo, ao invés de não modificar o que seja considerado essencial. Pressupõe, não a mera adoção de novidades, inclusive as tecnológicas, mas mudança na forma de entender o conhecimento. As escolas se têm enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. Onde há sala de aula, não existe inovação. É um absurdo proibir o uso de celular em sala de aula mas, infelizmente, o modo como as escolas utilizam as tecnologias de informação e comunicação apenas tem contribuído para fomentar imbecilidade e solidão.

Devem ou não estar nas escolas? Como é que os pais devem lidar com o «vício» de se estar sempre amarrado a um tablet, a um computador, a videojogos?

As ditas “novas tecnologias” vieram para ficar, são incontornáveis, mas a Internet não é uma ferramenta, é uma sociedade. Apenas será necessário saber o que fazer com ela. E que os pais não ajam com autoritarismo, mas com autoridade.

Acesso a muita informação é sinónimo de conhecimento e emancipação? Isso chega? Ou o desafio dos docentes está no modo de orientar o aluno na forma como se processa e trata a informação?

Com ou sem novas tecnologias de informação e comunicação, a escola precisa de ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias estão sendo introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, acriticamente consomem sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais. A Internet é generosa na oferta de informação. Basta clicar para repetir, até que a matéria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode “ensinar” numa aula está plasmado, de modo mais atraente, na tela de um computador. Mas os professores do “futuro” irão manter-se ancorados em aulas obsoletas servidas por lousas digitais ou irão atualizar-se? Irão replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets, ou irão usar o digital ao serviço da humanização da escola?

Os PowerPoints são ou não aliados da educação? Há sempre aquela questão, se o projector falha, parece que já não se consegue ensinar.

Um estudo conduzido na Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália) descobriu que utilizar um auxílio visual igual ao que está sendo falado, ao contrário do que se imagina, não facilita a compreensão. Outro estudo, feito por pesquisadores da Universidade de Harvard, afirma que não há um propósito de existência do Power Point. Isso, porque eles descobriram que o grau de satisfação de uma audiência para com uma apresentação é o mesmo, independente da presença ou não de auxílio visual. Os académicos também observaram que o editor de apresentações pode estar contribuindo para tornar as pessoas mais burras. A facilidade do auxílio visual de gráficos, listas e slides tem ajudado a promover um novo tipo de gramática corporativa, onde o importante não é passar uma informação correta, mas passar uma informação com estilo. Propostas com lógica sofista, informações sem contexto e que se apegam na causalidade de fatores são cada vez mais comuns. Com isso, essa nova argumentação, onde o modo como se fala é mais importante do que o conteúdo da fala, está ajudando a deixar as pessoas cada vez menos inteligentes.



O que acha da implementação, em Portugal, do projecto “Salas de Aula do Futuro”?

Se o projeto se refere a salas de aula, será mais um projeto-paliativo porque, no futuro, não haverá salas de aula.

A seu ver, o que é que haverá, então?

Certamente, a concepção e desenvolvimento de uma nova construção social de educação. Aquela que foi concebida no século XIX correspondeu a necessidades sociais do século XIX… Para uma Educação do Futuro, uma Escola de futuro. É absurdo falar em salas de aula, quando se fala de Educação do Futuro.

Gostava de saber, em específico, a sua opinião sobre a Educação Especial em Portugal.

Apesar da publicação de decretos e dos esforços de bons educadores, a inclusão continua a ser uma miragem. Será necessário assumir o princípio de que não há alunos com dificuldades de aprendizagem, mas professores com dificuldades de ensinagem. Será necessário reconhecer que todas as crianças são “especiais”. E de que as escolas deverão abandonar práticas fundadas no paradigma instrucionista, substituindo-as por práticas fundadas no paradigma da aprendizagem e da comunicação. A educação é um direito de todos. Só poderá ser inclusiva. Ou não será educação…


Olhando para a escola como um todo integrado, essencialmente, na comunidade, gostaria de saber a sua opinião sobre a importância do ensino na comunidade para os alunos com deficiência.

A escola não deverá estar integrada na comunidade, mas fazer parte da comunidade, ser mais um locus de encontro e de aprendizagem. E não há alunos (pessoas!) com deficiência – há práticas escolares deficientes.

Para se modificar o ensino, essa modificação não terá de começar na forma como a preparação dos professores, a partir do 5º ano, está demasiado fragmentada? 

Preparam-se os professores, a nível de currículo, para a matéria daquela disciplina em si, mas falta o ensinamento a sério a nível de pedagogia. Não precisaremos de “modificar o ensino”, mas de criar condições de aprendizagem. A preparação dos professores está fragmentada como, cartesianamente, está fragmentado o sistema de ensino. A formação de professores continua imersa em equívocos, continuamos cativos de um modelo de formação cartesiano que impede um re-ligare essencial. Sabemos que um formador não ensina aquilo que diz, mas transmite aquilo que é, veicula competências de que está investido. 

Mas ainda há quem ignore a existência do princípio do isomorfismo na formação, quem creia que a teoria precede a prática, quem considere o formando como objeto de formação quando deveria ser tomado como sujeito em autotransformação no contexto de uma equipa, com um projeto. Prevalecem práticas carentes de comunicação dialógica, culturas de formação individualistas, de competitividade negativa, de que está ausente o trabalho em equipa.




Tenho curiosidade em saber, em particular, o impacto que o trabalho de Nise da Silveira teve em si.

Dizia o Sartre que há dois tipos de pessoas que dizem a verdade: as crianças e os loucos. E que os loucos são internados em hospícios, enquanto as crianças são educadas. Ambos estão “guetizados”: os loucos em hospícios, as crianças em prédios-escolas. A mesma sorte dos velhos relegados em lares da terceira idade. A salutar criatividade da infância é cerceada pela louca velha escola, mas a busca da verdade e da beleza é domínio em que nos é consentido ficar crianças toda a vida, como nos dizia o sábio Einstein. Andei pelo Engenho de Dentro, na boa companhia do Vítor Pordeus. Acompanhei a génese de uma comunidade de aprendizagem que a Nise e os loucos de dentro aprovariam, mas que os loucos de fora inviabilizaram.

Tendo em conta que Nise da Silveira foi a grande impulsionadora da terapia ocupacional no Brasil, dando destaque às técnicas projectivas como a pintura, gostaria de saber, na sua opinião, como essas mesmas técnicas projectivas poderiam ser transpostas para a escola comum e que impacto teriam no desenvolvimento do aluno. 

Quando falo de técnicas projectivas, falo da importância que o desenho e a pintura têm, mas, em especial, da forma como as imagens mentais que se dão antes da verbalização são essenciais e primordiais para o nosso desenvolvimento cognitivo, pessoal e verbal, também. E como é necessária uma aproximação afectiva e pessoal para esse processo se desencadear. Estás a falar de “educação integral”. O ser humano é multidimensional – intelectual, afetivo, ético, estético, emocional… que é algo ausente das práticas comuns. Mas as pinturas dos considerados loucos, nos quais reconhecemos genialidade, deram origem a um belo museu e são prova de que nem tudo está perdido.

O Museu de Imagens do inconsciente. Então, já teve a oportunidade de o visitar e travar contacto com as pessoas que o mantêm?

Sim. Conheço e visitei-o. Não tive oportunidade de contato com as pessoas. Gostaria…

A consciência dá-se antes do verbo? A não-compreensão disso poderá afectar o desenvolvimento e facilitar a rotulagem de alunos que, apenas, precisam de outra abordagem?

Não sei.

O que eu quis perguntar com isto é que o ensino apoiado numa lógica cartesiana começa pelo final e não pela base. Dá-se mais valor à verbalização e aos alunos que já têm essa faculdade mais desenvolvida, mas, porém, esquece-se o que há para trás, as tais bases de desenvolvimento para, efectivamente, todos se poderem desenvolver. A consciência de um bebé não se dá, apenas, com a primeira palavra. Depois, há outra questão. Não há um só tipo de linguagem. As formas de linguagem são múltiplas. Ao dar-se primazia a uma só, está-se a inviabilizar outros métodos de aprendizagem dos quais os alunos poderiam beneficiar. Não será por isso que é mais fácil a escola dizer que aquele determinado aluno que não entende tem um défice qualquer e não é capaz?
Desde sempre, a escola procurou explicações para o insucesso. E prevaleceram as teorias de referencial socioeconómico, ou sociocultural, para além da teoria dos dotes. A verdade é que o insucesso é sobretudo de origem sócio-institucional. Isto é: o insucesso decorre das práticas obsoletas da escola dita tradicional. Não há alunos com dificuldades de aprendizagem; há professores com dificuldades de ensinagem…

Segundo a sua concepção de pensamento em relação à escola, é ou não é possível levar todos no mesmo barco de desenvolvimento e compreensão?

É possível. Ressalvada a eventual manifestação de arrogância da afirmação, essa possibilidade existe, desde há mais de quarenta anos. E numa escola portuguesa.

A escola da Ponte, uma escola pública, escola a que já se refere como um fóssil, mas que, a seu ver, continua a ser a melhor do país. O que falta para, a nível público, se apostarem em mais escolas da Ponte sem esquecer a consequente evolução e inovação?

Falta cumprir o artigo 48.º da Lei de Bases.

[Administração e gestão dos estabelecimentos de educação e ensino.
1 – O funcionamento dos estabelecimentos de educação e ensino, nos diferentes níveis, orienta-se por uma perspectiva de integração comunitária, sendo, nesse sentido, favorecida a fixação local dos respectivos docentes.

2 – Em cada estabelecimento ou grupo de estabelecimentos de educação e ensino, a administração e gestão orientam-se por princípios de democraticidade e de participação de todos os implicados no processo educativo, tendo em atenção as características específicas de cada nível de educação e ensino.

3 – Na administração e gestão dos estabelecimentos de educação e ensino, devem prevalecer critérios de natureza pedagógica e científica sobre critérios de natureza administrativa.

4 – A direcção de cada estabelecimento ou grupo de estabelecimentos dos ensinos básico e secundário é assegurada por órgãos próprios, para os quais são democraticamente eleitos os representantes de professores, alunos e pessoal não docente, e apoiada por órgãos consultivos e por serviços especializados, num e noutro caso segundo modalidades a regulamentar para cada nível de ensino.

5 – A participação dos alunos nos órgãos referidos no número anterior circunscreve-se ao ensino secundário.

6 – A direcção de todos os estabelecimentos de ensino superior orienta-se pelos princípios de democraticidade e representatividade e de participação comunitária.

7 – Os estabelecimentos de ensino superior gozam de autonomia científica, pedagógica e administrativa.

8 – As universidades gozam ainda de autonomia financeira, sem prejuízo da acção fiscalizadora do Estado.

9 – A autonomia dos estabelecimentos de ensino superior será compatibilizada com a inserção destes no desenvolvimento da região e do País.]



Fala muito, nas suas TedTalks, na forma como o desencadeamento da educação do futuro vai partir do sul e não do norte. Pode explicar o porquê?

No Brasil, uma nova educação acontece, cumprindo a profecia do Mestre Agostinho. Um artigo seu, publicado ainda no tempo em que foi professor da Universidade de Brasília, rezava assim: Portugal desembarcou na África, na Ásia e na América; só falta a Portugal desembarcar em… Portugal. Proféticas palavras. Depois de me ter emancipado de um soberbo etnocentrismo europeu, me apercebi de que esse “desembarque” irá acontecer através de uma nova educação, que está a nascer no hemisfério sul. Está a nascer no Sul uma Nova Educação, aquela que muitos visionários anunciaram, desde há mais de um século. Acompanho uma revolução silenciosa, uma revolução que já não poderá ser silenciada. Convertido ao sul, busco fazer a minha parte. E, numa viagem ao Norte, expus essa intenção a europeus e norte-americanos. Etnocentricamente convencidos de que é no Norte que mora a novidade, desdenharam. Arrepender-se-ão…

No caso do Brasil, as políticas de Bolsonaro não põem em causa essa sua ideia? A realidade política tem um forte peso na educação. Aliás, falar-se de educação é falar-se de política.

É evidente que haverá estragos. Bastará atentar em energúmenos desabafos de afetos do regime, absurdos como “Toda civilização humana está construída em homens fortes, não em maricas. A mulher e a família precisam de homens fortes”. No tempo da “velha senhora”, envolvido em atividades antifascistas, todos os dias meditava sobre um provérbio oriental, que fala de “homens fortes”: Homens fortes produzem tempos fáceis. Tempos fáceis produzem homens fracos. Homens fracos produzem tempos difíceis. Mas, nos tempos difíceis, se produzem homens fortes. Isto talvez responda à tua pergunta.

Brasil poderá ter Paulo Freire, Nise, mas Portugal também tem Irene Lisboa que, pura e simplesmente, não é relembrada.

São muitas as memórias assassinadas. A Irene não está sozinha. E António Sérgio? E Bento de Jesus Caraça? E Adolfo Lima? E Faria de Vasconcelos? E João dos Santos, E Agostinho da Silva? E tantos outros, que os professores não conhecem, ou não praticam. Vão à Finlândia, quando têm muitas Finlândias cá dentro.

Agostinho da Silva que, tal como o José já teve a oportunidade de frisar, também partiu para o Brasil e tinha a crença que a evolução começaria por aí. Também tinha uma visão universalista, essencialmente da educação. Não lhe parece um contrassenso que pessoas nascidas já no início do século XX tenham descoberto e defendido o que hoje ainda chamamos de futuro?

Respondo com uma pergunta: quando cessará o insustentável e obsceno silêncio dos especialistas das ciências da educação?

Voltando à questão do desenho e artes em geral. Como pessoa, essencialmente, curiosa da cultura livresca e artística, facilmente compreendo como a arte é o grande pólo em que as diversas áreas do saber se encontram e como se podem influenciar entre si. Tendo em vista isso mesmo, pergunto se a fragmentação das próprias disciplinas não atrapalham, por um lado, o desenvolvimento do indivíduo e um entendimento mais profundo das coisas. Relembrando a minha experiência pessoal, eu era boa aluna, mas uma autêntica nulidade a matemática. O que sei e não esqueço a esse nível devo-o à música e até à filosofia. Até é possível relacionar a grande literatura com a ciência. O desenho, por exemplo, pode até ajudar na verbalização, noção espaço-temporal e orientação espacial.

Como diria o saudoso João dos Santos, só pergunta quem sabe… Por isso, a tua pergunta é longa e a resposta é breve: as escolas, que eu ajudo a criar (e que são escolas que a todos garantem o direito à educação) têm por centro a arte. O núcleo do Projeto Âncora, por exemplo, é uma tenda de circo, uma ágora. E essa escola está no rol das melhores escolas que o mundo tem.

Outra questão importante para a qual a sociedade ainda está a tentar encontrar uma resposta. A hierarquia da escola tradicional não ajudará a espoletar ou piorar os casos de bullying? Como é que se deve lidar com esta questão?

O bullying é, também, consequência da manutenção de um modelo educacional obsoleto. Por que se age sobre consequências, se já é tempo de agir sobre as causas? Se o discurso é unânime — é preciso reforçar a autoridade dos professores! —, a prática contraria o discurso. A regra é a transferência da autoridade do professor para os órgãos de gestão e para burocráticos procedimentos disciplinares. Autoridade não rima com controlo, imposição, submissão. Etimologicamente, a palavra autoridade significa “ajudar a crescer”. Ajudar a crescer pressupõe o exercício do diálogo e a desocultação de perversos modos de relação. Como diria o Brecht, diz-se das águas de um rio que são violentas, mas nada se diz das margens que as comprimem… Por mais que custa reconhecer, perante a violência simbólica imposta pelas escolas, a desobediência, a indisciplina, o bullying, poderão ser manifestações de sanidade mental. Longe vai o tempo em que o pai era a autoridade na família e em que o professor era a autoridade na escola. Os jovens deveriam obedecer a ordens e estar atentos às lições. Hoje, a indisciplina — herdeira do autoritarismo e da permissividade — ocupa o lugar desse “respeitinho” de antigamente.

O bullying não é um fenómeno recente. Há mais de quarenta anos, deparamo-nos com situações de bullying. Nos apercebemos de que não poderíamos resolver os problemas da criança sem resolver os problemas dos adultos — ninguém dá aquilo que não tem, ninguém transmite aquilo que não é. Compreendemos que a aprendizagem é antropofágica: não aprendemos o que outro diz — aprendemos o outro. E o professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. De uma educação para a cidadania, passámos a uma prática de educação na cidadania. O adestramento não define a educação. A educação é incompatível com a organização autoritária da vida. E, para que consiga recuperar a autoridade, é necessário que o professor se conheça afetivamente e se reconheça no outro. A segurança gerada permite ao professor ser senhor de si, elevar a autoestima e beneficiar de hétero-estima. Mas quem cuida da melhoria da formação pessoal e social do professor? Quando se operará a ruptura com a cultura do “cada qual por si”, que infesta as nossas escolas?

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

"A Escola é uma seca"

 

O problema não está na diminuição de 1 276 professores relativamente a 2010/2011 (7 105), uma vez que se verificou uma significativa diminuição da taxa de natalidade. Há menos crianças, portanto, menos são os professores necessários nos estabelecimentos de aprendizagem. O resto é conversa para entreter. (ver Dnotícias de hoje). Importante é saber onde se quer chegar com a actual política educativa. Repetir o passado com ligeiras alterações nas margens? Por aí eu diria que "vai dar erro". Aliás, o sistema vive, permanentemente, no erro. Nem tentativas faz para o evitar e, naturalmente, caminhar. Está acomodado e sobrevive da e na propaganda, não se percebendo como é possível se afirmar que se trabalha no sentido da "contínua melhoria do sistema". Mas alguém saberá para onde caminha?


Gostaria de assistir era ao debate, isso sim, não das ninharias, mas de tudo aquilo que é estruturante de um sistema desenhado para dar resposta às necessidades de uma escola compaginada com a vida. Não esqueço e continuarei a repetir até à exaustão o que escutei há mais de 50 anos:


"Como pode uma escola sempre igual 

competir com a vida que é sempre diferente. 

O desencontro é inevitável"


Eu já dei o meu contributo através da edição do livro "A Escola é uma seca". Não se trata de uma receita ou de um ponto de chegada. Trata-se, apenas, de um ponto de partida. Humildemente, peço que o adquiram e que façamos o debate.


À venda na

LIVRARIA ESPERANÇA
Rua dos Ferreiros - Funchal

Pode também ser solicitado:

https://www.livrariaatlantico.com/lis.../a-escola-e-uma-seca
Bertrand Livreiros - livraria Online
A escola é uma seca, uma pesquisa em Filosofia na Fnac.pt
Livros portugueses, livros estrangeiros, livros escolares e ebooks - Wook

terça-feira, 25 de outubro de 2022

CONVERSA SOBRE EDUCAÇÃO

 



A convite da Fundação Livraria Esperança, que muito me honra, na próxima Sexta-feira, com início às 18:00 horas, participarei numa "conversa sobre Educação". Darei o meu modesto contributo no quadro de um sistema que necessita, obrigatoriamente, de uma urgente revisão que vá ao encontro dos alunos, dos professores, dos pais e do desenvolvimento.

Espero lá encontrar aqueles que, de pensamento livre, desejem debater o actual estado da Educação. 
Até lá, Amigos.

Negar a ciência ou falta bom senso?

 

O Professor Doutor Santana Castilho esteve na Madeira e teceu algumas considerações relativamente à política de utilização dos manuais digitais. Sumariamente, tal como já neste espaço referi, assumiu que a estratégia dos tais manuais digitais, iniciada há oito anos nos Estados Unidos, está a ser abandonada. E explicou as razões.



Ora bem, quando uma figura académica, autor e colunista do Público, no decorrer de uma conferência para professores, despoleta uma situação destas, presumo que as campainhas de alarme deveriam tocar de forma estridente nos ouvidos dos responsáveis políticos. O secretário da Educação devia, imediatamente, sentir-se preocupado e proceder à auscultação de todos os que directamente estão ligados ao sector. Com uma pergunta-chave tão simples quanto esta: "será que estamos no percurso certo ou teremos de arrepiar caminho?" Simples! Se os neurocientistas invocam que o que parece não é, então, que se estude e que se mude de orientação. Só lhe ficaria bem, porque, diz a sabedoria popular a todos nós que "só os burros não mudam".


O que me parece é que o governo seguirá a sua orientação, sendo provável que o Professor Santana Castilho será considerado como uma pessoa a não tecer, no futuro e localmente, opiniões sobre a política educativa regional. E os manuais digitais continuarão e as tais "salas de aula do futuro" emergirão por aí, embelezando e servindo a propaganda de natureza política. O conhecimento científico ficará para depois.

A utilização da tecnologia, necessária e extremamente importante, não se esgota colocando os manuais em papel num tablet, mantendo intocável o formato pedagógico. Tudo isto significa que existe uma crónica teimosia em viver de modas e de aparências, onde o estudo fica sempre para mais tarde. Professores da minha terra, acordai!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Tecnologia não é "meter" os manuais em papel no tablet!


Quem o diz é o professor Santana Castilho, que aponta os Estados Unidos da América como um país que abandonou a estratégia. Entre as razões estava o aumento das doenças oftalmológicas.


Unsplash

O projeto Manuais Digitais arrancou em 2018, na Madeira. Desde então, tem vindo a transformar-se numa referência, incitando outros países a adotarem a estratégia da desmaterialização. Este ano letivo, a medida passou a cobrir 9.500 alunos e dois mil docentes – o que corresponde, respetivamente, a 45% e a 33% dos alunos e professores da região autónoma, avança a "SapoTek".

No entanto, cada vez mais se tem questionado o impacto a nível cognitivo que um futuro completamente digital pode ter nas crianças e jovens – e, afinal, não parece muito promissor. Quem o diz é o professor Santana Castilho, na conferência da Associação Nacional de Professores desta sexta-feira, 21 de outubro.

"Estudos feitos por centros de investigação e cientistas da neurociência concluíram que o desenvolvimento cognitivo dos jovens que tiveram um grande mergulho nas tecnologias digitais aos 11 anos está similar àquele que há 30 anos as crianças tinham com 8/9 anos de idade", explica Santana Castilho, em declarações à RTP.

Existem várias razões que, alegadamente, demonstram os efeitos nocivos da adoção desta medida. Uma delas é a situação dos Estados Unidos da América, onde "a experiência dos manuais digitais começou há 8 anos" – e, desde então, tem sido abandonada sistematicamente". Porquê? "Porque o custo relativamente aos manuais em papel disparou, é cinco vezes mais caro. E porque as doenças oftalmológicas aumentaram em 30%", frisou o professor.

Em Portugal, a desmaterialização abrange 66 agrupamentos e cerca de 12 mil alunos, segundo o “Jornal de Notícias”. Mas esta é uma iniciativa que se deve expandir por todo o País. Isto porque o ministro da Educação, João Costa, já havia revelado as suas expectativas no que ao assunto diz respeito – que todas as escolas tivessem manuais digitais até 2026, altura em que a sua legislatura termina.

sábado, 22 de outubro de 2022

O sistema está amarrado, estrangulado e centralizado numa pessoa!


Desde há muitos anos que nos conhecemos. Tenho pelo Engenheiro Arlindo Oliveira uma enorme consideração e estima. É um Homem esclarecido, de pensamento aberto ao Mundo, perspicaz e sensível face aos dramas sociais. Num tempo que não era fácil ter opinião, não se escondeu. Infelizmente, não foi aproveitado no plano do exercício da política. Ainda assim, em vários mandatos, servimos o Funchal enquanto Vereadores. Aquilo que escrevo relativamente ao sector da Educação, dos poucos que vêm a terreiro debatê-la, ele é um dos que se interessa apesar deste não ser o seu sector de actividade profissional. 



Há dias, publicou um texto sobre a Teoria da Relatividade de Albert Eintein - De Newton (1643-1727) a Einstein, (1879-1955) uma nova visão do mundo e do Universo. Republiquei-o no meu blogue pela importância que tal texto reflecte. É fruto do seu continuo interesse pelo estudo de temas apaixonantes e que a maioria de nós não domina. Já antes tinha acompanhado uma interessante e contagiante entrevista, melhor dizendo, diálogo com o Padre José Luís Rodrigues. Uma conversa que me encheu. E se o trago aqui é pelo facto de naquele trabalho sobre Einstein, o meu Amigo Arlindo, independentemente de todo o conteúdo, ter destacado o facto de Einstein ter sido um aluno mediano nas disciplinas de Física e de Matemática. Estava sempre distraído e teve que sair da escola. O seu texto começa assim: 

"Albert Einstein, nascido nos fins do século XIX, (1879) veio a revelar-se um génio, apesar de, na escola, alguns dos seus professores, não lhe alvitrarem grande futuro na vida, já que, não se revelou, tradicionalmente, um aluno normal, aliás, como a muitos de nós, muitas vezes incompreendidos, ouvimos, em versão semelhante, maus augúrios, da parte de alguns dos nossos professores (...)".


Perante isto, respondi-lhe: "Apenas um desabafo que vai muito para além da nossa Amizade: enquanto metáfora, quanto gostaria eu que toda a classe docente se chamasse Arlindo! Precisamos de um (AR)ejamento total e LINDO no quadro de um novo pensamento em harmonia".

Poucos minutos depois retorquiu: "Gostei meu caro amigo André Escórcio, mas sei que não mereço, no entanto, sempre tive curiosidade em conhecer cada vez mais e que o conhecimento chegasse a todos, especialmente àqueles que não são ouvidos nem têm voz para exprimirem o que lhes vai na alma  (...) quando era universitário constatei que era mais fácil mudar o mundo começando na nossa família, no nosso sítio e na nossa aldeia, etc. etc., (...) mas, afinal, quando regressamos, “formados”, armámo-nos em doutores e perdemos a parte genuína que nos levou à universidade - a nossa pureza de espírito - sim quando regressamos estamos vendidos ao sistema que nada diz ao povo, pelo contrário, oprime-o. Caso contrário a revolução estaria feita por dentro e bem! (...) Um abraço e não disserto mais porque estou a comover-me tão claro é para mim, este meu sentir da realidade - a mudança está em nós, em todos nós e a começar pelos que estão mais perto. Um abraço André."


Pois é, Amigo Arlindo, em todos os sectores "a mudança está em nós". Infelizmente, a maioria não a quer ver. Ainda neste fim-de-semana esteve na Madeira o Professor Doutor Santana Castilho que teceu algumas considerações que deveriam merecer atenção e debate (RTP-M/TJ de Sexta-feira). Caríssimo Arlindo, creia que dei uma gargalhada quando escutei o Professor dizer que, nos Estados Unidos, a implementação dos manuais digitais, iniciada há oito anos, foi abandonada, porque os cientistas concluíram que o desenvolvimento cognitivo das gerações mergulhadas no digital é equivalente ao das crianças de 8/9 anos de há 30 anos; por outro lado, são cinco vezes mais caros para além de ter crescido em 30% as doenças oftalmológicas. Por aqui, andam com a peregrina ideia da "sala de aula do futuro" (a Educação é hoje, não é amanhã) e com os manuais digitais que não são mais do que os de papel "metidos" no digital. E o que quero dizer com isto? Que a putativa novidade pegou, porque não se debate, porque não sabem para onde caminham, porque poucos são capazes de dizer que este rei vai nu, porque o sistema está amarrado, estrangulado, centralizado numa pessoa assessorada por uma meia-dúzia incapaz de dizer que esse não é o caminho. Tecnologia na escola não é aquilo que andam a fazer! Há um défice de estudo quanto à necessidade de reinventar o sistema, que passa por assumir a autonomia plena dos estabelecimentos de aprendizagem, por desenhar novos currículos, por ter uma nova visão programática, por alterar profundamente o paradigma da aprendizagem, por entender a escola como cultura, por trazer a vida para dentro da escola respeitando o sonho individual e por colocar em cima da mesa essa doentia obsessão pela avaliação, tudo isto, entre outros, são assuntos que os políticos de turno não querem e não desejam.


Não imagina, Amigo Arlindo, quanto perplexo fico quando assisto ao silêncio, ao cansaço dos professores, à generalizada angústia dos alunos que olham para uma escola que pouco lhes diz, por ser repetitiva, rotineira, previsível e em que todos, professores e alunos, não se sentem bem. Uma escola burocrática, de uma falsa meritocracia e distante da vida real. O que fazer, Arlindo? Continuar ou desistir? Assumiu o Dr. Mário Soares: "só é vencido quem desiste de lutar". Por isso, mesmo que não queiram aprender, continuemos a escrever e a debater. Um abraço.

Ilustração: Google Imagens

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A "questão aula" e a obsessão pela avaliação

 

Nos finais dos anos 60 fui aluno de um professor que dedicava os primeiros minutos de um novo encontro connosco, à resolução do essencial do que tínhamos escutado e debatido na sessão anterior. Essas respostas eram individuais, não eram recolhidas pelo Professor e apenas serviam para nós (colectivamente) nos situarmos na compreensão da matéria (conhecimento), repito, escutada e debatida. Só passávamos adiante quando 80% estava percebido e consolidado. Não havia qualquer preocupação avaliadora e registada no sentido professor-aluno, mas apenas o aluno como centro da aprendizagem. Isto, há 50 anos!



Nos últimos anos, um ministro, cujo nome, intencionalmente, não quero recordar, entendeu lançar, generalizar e até "obrigar" à realização daquilo que se designa por "questão-aula". Rapidamente, passou-se de uma atitude formativa para o aluno, que muitos professores já desenvolviam, para um âmbito classificativo, embora, numa percentagem reduzida no cômputo geral da avaliação. É a espada avaliadora, onde qualquer outra preocupação só marginalmente reside no aluno. Isto, 50 anos depois!

Aliás, nos estabelecimentos que deviam ser de aprendizagem (ainda os designam por estabelecimentos de ensino) é cada vez maior a obsessão pela avaliação, não pela aprendizagem. São muitas as paranóias que os invadiram: a centralização dos processos, hierarquicamente definidos, que impedem a autonomia e a liberdade de cada estabelecimento criar as suas próprias dinâmicas de escola e de aprendizagem. 

Vivem num espartilho onde tudo se acomoda dando a entender formas naturais, quando, se retirarmos as amarrações,
o corpo desintegra-se em bocados mil;

é o excessivo número de alunos por estabelecimento; é o processo burocrático, onde muito para nada serve, que enche o arquivo-morto e continua a retirar tempo e disponibilidade para pensar a aprendizagem centrada no aluno; é a irresistível motivação para a realização de actos irracionais, como a da obsessão pela avaliação de natureza classificativa; é a manutenção de um arcaico conceito de aula e de turma; é essa praga da uniformidade que padroniza currículos, programas e conceitos organizacionais de aprendizagem, como se todas as populações fossem iguais, os professores não tivessem capacidade para entender a aprendizagem de forma diversificada e a forma como se aprende fosse de sentido único. É a louca correria por uma enganadora meritocracia que traz para dentro da escola muitas taras e desigualdades sociais. Tanto que sobre isto há a dizer e a debater!  

Regresso ao princípio a essa história da "questão-aula", onde até já existem cadernos com enunciados. Aquela expressão não me agrada, sobretudo porque tenho um entendimento negativo da palavra "aula". Aliás, na linha do que tantos autores já assumiram. Tenho presente o Professor José Pacheco, incontornável na forma como entende o processo de aprendizagem. Ele assume: "a aula não ensina e a prova não prova". Portanto, é tempo de parar com essa lógica que assenta no pressuposto que "o modo como o professor aprende é o modo como ele ensina". E andamos neste círculo vicioso e sem tempo para pensar e sobretudo para fazer pensar. Ora bem, porque não me quero alongar, fazem todo o sentido as preocupações de natureza formativa, nunca as obsessões pela avaliação subordinada na repetição e na memória, onde 90% se esfuma passados 30 dias. A aprendizagem tem contornos diferentes e o conhecimento nada tem a ver com pontuais "questões-aula" de natureza classificativa. Não é pela existência de uma "questão-aula" que a motivação para o estudo (curiosidade) se desenvolve. É tempo de fazer um "resert" ao que andamos a fazer, muitas vezes até por convicção!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Perguntas simples de resposta complexa

 


O sistema educativo está envolto numa teia, tecida ao longo de muitos anos por políticos que denunciam uma claríssima dificuldade em responder a questões básicas. Deixo aqui apenas duas de um extenso rol que deveria preocupar os que ocupam cadeiras de poder político:

1ª Sabendo-se que a capacidade de atenção dos alunos oscila entre 10 e 18 minutos, que razões científicas sustentam a manutenção de "aulas" entre 45 e 90 minutos?

2ª Sabendo-se que, aproximadamente, em 30 dias, 90% do que, pressupostamente, se aprende numa "aula" apaga-se, que razões científicas sustentam a manutenção do actual "modelo de aprendizagem"?

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

"Sala do Futuro"? Não seria melhor designarem por "laboratório tecnológico"?


Na política, deixa-me um rasto de pena aqueles que, discursivamente, conduzem ao engano através da artimanha das palavras, dos sentidos e dos ares convencidos que uma determinada orientação é a melhor para o povo. Sinto comiseração quando cruzo, o pouco que sei com aquilo que dizem, em função do conhecimento que existe. Vem isto a propósito das anunciadas "salas de aula do futuro". Sobre este assunto já diversas vezes escrevi (ver links no final do texto), mas entendo que vale a pena voltar ao assunto.



Façamos estas contas: 20 alunos x 14 "salas do futuro" = 280 alunos abrangidos a prazo. A população de estudantes na Madeira é de cerca de 40 000. Se dividirmos este global por 280 (7%), chegamos a uma necessidade de 143 salas, no quadro organizacional do actual conceito de escola. Por outras palavras, o tal futuro é inatingível para a esmagadora maioria desta geração. Com alguma ironia aqueles dados fazem-me ter presente o dístico à entrada de uma taberna: "Amanhã fia-se, hoje não". E assim taberneiro empurra o problema para depois.

Só é inteligível uma sala equipada para a aprendizagem nos dias que estamos a viver, se ela corresponder a um novo pensamento acerca do que se deve entender por Escola. Concomitantemente, se apresentar uma relação mútua com uma nova organização interna que determine, no plano pedagógico, como chegar ao conhecimento relevante e em conexão. Não é, pois, carregando os manuais em papel para dentro do digital ou com uma série de salas referenciadas "do futuro", porém, mantendo o formato pedagógico, que se despertará o interesse dos alunos e, por aí, os patamares do conhecimento superior. Não sou eu que o digo, são tantos os autores que o referem. Apenas sou um "porta-voz" do que outros escreveram. Portanto, porque aquele tipo de sala não deve ser de experiência pontual, mas permanente, estamos face a um logro, a uma propaganda sem sentido, ou, pior, face a uma fraude conceptual.

Aliás, pergunto, onde podemos ler o estudo, devidamente fundamentado através de uma extensa revisão bibliográfica, que fundamente os passos entre o "onde estou" e o "onde quero chegar"? Se existe, a comunidade educativa desconhece, o que pode significar que o sistema anda ao sabor de algumas modas, de interesses políticos e de empresas que apenas desejam vender equipamentos. Alguém foi ouvido? Leiam, entre outras, a entrevista do Professor Pepe Ménendez que, em 2019, esteve na Madeira (Jaime Moniz) onde proferiu uma conferência subordinada ao título "Uma Escola transformada para ser transformadora". Na Catalunha, levou alguns anos a Ratio Studiorum do Século XXI (Jesuíta). Do debate, disse Pepe Ménendez, surgiram 56 000 ideias e, dessas, 17 propostas foram seleccionadas para servirem de base ao "modelo sincrético". "(...) Só depois deitaram abaixo as paredes das salas tradicionais, transformando-as em espaços de conhecimento, eliminaram a ideia de disciplinas separadas, testes, horários e trabalhos de casa. Tiveram a coragem de romper com a ideia de que o professor dá o conhecimento (...)" - Do livro da minha autoria, A Escola é uma seca - pág. 148. Para justificar as "salas de aula do futuro", questiono, assim, que estudos foram realizados?

Perante isto, sumariamente alinhavado, não seria mais avisado esquecerem essa infeliz designação de "sala de aula do futuro" (na escola, o futuro é hoje - sentido prospectivo), antes designando-a por "laboratório tecnológico"? Em simultâneo, senhores políticos, digam o que pensam sobre a Escola para os tempos que vivemos. É a escola que encontra as traves-mestras no Século XIX ou uma outra projectada para o Século XXI? Eu adoro a improvisação (leia-se criatividade), mas no Jazz. No sector da Educação a improvisação é música dissonante para os ouvidos de quem pensa. Fico com a sensação de ausência de estudo e sobretudo com a ideia de "desenrasque" no pior sentido.

Ilustração: Google Imagens.

EDUCAÇÃO : FALAM DE SALAS DO FUTURO QUANDO O FUTURO COMEÇOU HÁ MUITO! (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)
EDUCAÇÃO : Seria bom que se deixassem de tretas... (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)
EDUCAÇÃO : AFINAL, QUAL O PARADIGMA DE SISTEMA EDUCATIVO QUE O SECRETÁRIO REGIONAL PRETENDE? (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Faltam professores?

 

Segundo li no jornal Público faltam 871 professores, o que significa 12 967 horas por preencher (60% nos distritos de Lisboa e Setúbal). A pergunta que coloco é esta: temos professores a menos ou sistema educativo a mais? 



A mais pela existência de uma política educativa que mantém o padrão organizacional do passado, os currículos densos, complexos e disparatados, os programas extensos e sem interligação, que privilegiam a manutenção de um conceito de "conhecimento fragmentado" (decompondo as partes, por disciplinas, quando a sociedade funciona na globalidade), que prefere a centralização de todos os processos, à abertura da Escola à comunidade (não há duas escolas iguais) e que assume a rotina em detrimento de uma escola que faça pensar. Significa isto que este sistema está morto, pois já nem consegue atrair jovens para o exercício da profissão docente! Não é, pois, de estranhar que a classe dos professores esteja cada vez mais envelhecida e desejosa de lá sair.

Esta sumária caracterização leva-me a questionar se faltariam professores se outro fosse o pensamento organizacional (a todos os níveis), curricular, programático e pedagógico? Estou em crer que não faltariam. Neste pressuposto, considero que o problema reside, não no número de professores, mas no pensamento sistémico do que se deve entender por verdadeira e consistente aprendizagem, no quadro de uma escola onde o professor assuma o papel de mediador e não de "debitador" de matéria. 

Por isto mesmo, a preocupante fragilidade relativamente ao cada vez menor número de alunos, deveria transformar-se numa oportunidade para gerar uma escola para o tempo que estamos a viver e para o futuro que fervilha à nossa frente. Há, portanto, uma nova mentalidade a implementar, que implica um novo caminho a percorrer. Ainda hoje, para salvaguardar o número de alunos sem as ditas "aulas" (conceito ultrapassadíssimo), o Ministro veio assumir a necessidade de um terço do recrutamento ser da iniciativa do próprio estabelecimento de aprendizagem. Porquê um terço? Isto é, descentralizam um pouco o recrutamento ("enquanto o pau vai e volta folgam as costas"), mas o funcionamento da Escola permanece rotineiramente igual. 

Paralelamente, não se pode ter professores com uma tabela salarial miserável face à responsabilidade que lhes é atribuída. O Público, este é um mero exemplo, destaca uma Professora de Alemão, Manuela Laginha, que preferiu emigrar para a Suíça (recrutamento aberto pelas escolas e municípios) a penar pelas estradas portuguesas com a "casa às costas". Lá, está a 12 minutos de casa e recebe € 9 223,00, o equivalente a Francos suíços que é de 8 900,00. Espantoso! 

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

E por aí, alguém disse que a taxa de participação era de 50%!


Por
Facerbook

Olympikamente... os melhores resultados de sempre.

Eu, se nos últimos 20 anos tivesse sido durante mais de 12 responsável por várias organizações da cúpula do desporto nacional e um dos grandes, senão o maior, "influencer" das políticas públicas em matéria de desporto, perante os dados agora divulgados no relatório do Eurobarometer (2022), em vez de ter ido a Cuba em busca da "pedra filosofal", devolvia as condecorações e os "honoris causa" acumulados e, simplesmente, demitia-me.

No relatório do Eurobarometer relativo a 2017 a proporção de pessoas que se exercitavam ou praticavam desporto regularmente ou com alguma regularidade era maior na Finlândia (69%), Suécia (67%) e Dinamarca (63%).

Os países cujos entrevistados afirmavam nunca praticar qualquer atividade física ou desportiva eram a Bulgária, a Grécia e Portugal onde, em cada um deles, 68% cidadãos afirmou nunca se exercitar ou praticar desporto.

No relatório do Eurobarometer relativo a 2022, a proporção de pessoas que se exercitam ou praticam desporto regularmente ou com alguma regularidade é maior na Finlândia (71%), Luxemburgo (63%), Holanda (60%) e Dinamarca e Suécia (59% em ambos os países). Os países cujos entrevistados afirmam nunca praticar qualquer atividade física ou desportiva são Portugal (72%), Grécia (68%) e Polónia (65%).

Ficamos a aguardar o que é que os políticos dos vários partidos, que nos últimos vinte anos se deixaram ir no canto das sereias das medalhas olímpicas, têm a dizer sobre o descalabro nacional das políticas públicas em matéria de desporto do ensino ao alto rendimento.

Pode ser uma imagem de mapa e texto que diz "QB2R And how often do you engage in other physical activity such as cycling from one place to another, dancing. gardening, etc.? By other physical activity" we mean physical activity for recreational non-sport-related reasons. (%-Never) PT RO ES EU27 27 23 Map Legend 46-100 31-45 14-30 0-13 LT DE 18 15 14 13 13 HU RO BE BG NL FI SE Base: All Respondents (N=26,578)"


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Entre rotos e esfarrapados...


A propósito da contagem do tempo de serviço congelado aos professores, o Ministro fez umas declarações quanto a mim inócuas e, portanto, sem qualquer relevância política. Considero que não merecia contraponto. É daquelas situações que o Ministro deveria estar calado e o governante regional mudo. Mas não, o secretário resolveu ripostar: "(...) Nós entendemos que estas declarações, sendo completamente despropositadas, não deixam de ter também uma outra intenção que é a de encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal", disse Jorge Carvalho, secretário da Educação, Ciência e Tecnologia da Madeira - Dnotícias, 14.09.2022.



A parte interessante, aqui sim, de natureza política está na passagem "(...) encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal". Admitamos que sim. A questão é perceber as incompetências do Partido Social Democrata para governar a educação na Madeira. A questão reside aqui. No quadro da Autonomia Político-Administrativa, pergunta-se, então, que avanços foram proporcionados?

Estou completamente imune às questões partidárias. Como vulgarmente se diz, "por aí passei e por aí perdi o cabelo". Tenho convicções, obviamente que sim. Tenho leituras de processo, claro que sim. Como qualquer um outro português insulano. Sobretudo porque tento perceber e cruzar a informação dos vários dossiês. Mas não entro no despique inconsequente porque se esgota na espuma dos dias. Por isso, é caso para dizer que há qualquer coisa ali de roto e de esfarrapado!

Ainda há dias, li um desabafo de um professor que sublinhava o facto de, na Madeira, no sector educativo, nada restar que faça a diferença. Apenas foram "10 anos perdidos... como é possível? Já não é folclore é algo totalmente absurdo". Mas há muitas outras posições sobre o que a Região poderia ser em matéria de política educativa e aquilo que realmente é. No mínimo, eu diria que é uma cópia do Continente. Não é em vão, também na Educação, que se diz que a Assembleia é mais adaptativa do que legislativa. No leque das tais incompetências, vá lá, portanto saber-se quem ocupa o primeiro lugar!

O debate deveria centrar-se em matérias muito mais profundas. As de natureza estrutural, de pensamento, de aferição do que dizem e escrevem os grandes pedagogos e cientistas da actualidade (e não só) face ao mundo que está na frente dos nossos olhos. Constata-se a existência de um claro desfasamento, quase total e muito perigoso, entre a rotina do sistema que é proporcionada e a estabilidade e êxito da população em todos os sectores e áreas do desenvolvimento. Enquanto uns buscam a antecipação do futuro, outros amam o passado, idolatrando figuras e conceitos absolutamente desadequados. A universidade nada lhes deu. É caso para perguntar a quem interessa uma população distante, alienada, ignorante, pobre e dependente?


O futuro não se constrói com paleio, repetições, centralização de políticas abstrusas, intencionais perseguições e silenciamentos, distribuição de algumas benesses, controlo total da máquina e imposição de uma lógica de medo. Esse é o caminho do desastre colectivo. Que egoísmo por aí vai! Defender a imagem pública, puxar dos galões, manobrar por detrás do palco, ameaçar ou mandar ameaçar, comprar silêncios e muito mais, deixará uma indelével marca que só prejudicará a afirmação de uma Educação ao serviço do desenvolvimento. São os rotos a vangloriarem-se face aos esfarrapados!

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

O folclore - "Repisa rapaz, repisa e torna a repisar..."

 

"Folclore" foi como o secretário da Educação do governo da Madeira caracterizou uma manifestação, no essencial, de chamada de atenção para os problemas, alguns muito graves, apontados pelo Sindicato de Professores da Madeira. Eu que liderei, durante dois mandatos, a mesa da assembleia geral de professores do SPM, fiquei estupefacto com aquela forma de caracterizar o importante trabalho de alerta e tentativa de correcção dos processos que aos professores dizem respeito. Participei em inúmeras reuniões de professores e nunca me apercebi de qualquer ausência de bom senso na análise dos temas em debate. Os professores sempre partiram do pressuposto que numa negociação todos perdem. Perde-se para que todos possam ganhar alguma coisa.



A resposta veio célere, educada e apropriada, através do Coordenador do Sindicato, Dr. Francisco Salgueiro Oliveira: "O folclore não vem da parte do sindicato nem dos professores. O sindicato denuncia aquilo que encontra nas escolas. O folclore fá-lo-á quem não reconhece a realidade das escolas e, para nós, não nos espanta que isso aconteça. A música que encontramos nas escolas é uma música que está claramente dita por esses colegas que rejeitam colocação na Madeira. É uma música que não é agradável (...)".

Transcrevo de um site (meusdicionários): "folclore é um termo proveniente do inglês, com a junção das palavras folk, cujo significado é povo, e lore, que tem o significado de conhecimento, de saber. A palavra foi usada pela primeira vez pelo arqueólogo William John Thomas, em 1846. Assim, entende-se como folclore o conjunto de tradições e manifestações populares, com todas as lendas, mitos, danças, costumes e provérbios de um povo, passadas oralmente de geração em geração". 

Em aproximação, parafraseando, eu diria que o saber do povo, leia-se professores, porque entendem que há que acabar com os mitos e as lendas passadas ao longo das últimas décadas por uma certa casta de políticos, decidiram, uma vez mais, juntar-se para alertar para os erros que o tal "folclore" apresenta no quadro de uma escola portadora de futuro. Erros estruturais de concepção e de atitudes que os tem levado, serenamente, mas contrariados, a dançar ao ritmo desajeitado do chefe (diferente de líder). Tenho por assumido que eles estão fartos de dançar o "baile pesado", curvados e com o nariz quase colado aos joelhos. Portanto, se há "folclore" na Educação, diz o Dr. Francisco Oliveira, não é da parte dos professores, tampouco de quem os representa, mas de quem tem tido a responsabilidade de conduzir o sistema educativo regional autónomo. É o que nos diz o "baile pesado" uma das quadras dita: "Repisa rapaz, repisa e torna a repisar (...)". O que corresponde a uma manifestação de desconsideração pelos professores.

Ademais e, finalmente, pergunto, quais são as linhas programáticas conhecidas, susceptíveis de uma mudança para uma escola de resposta às exigências do século que estamos a viver? Oficialmente, não existe. 

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Regresso às aulas ou o regresso à rotina?

 

A pergunta tem a sua razão de ser. Não tolero a expressão "regresso às aulas", porque a aprendizagem é permanente, mesmo em tempo de pausa, mas sobretudo pela carga que ela transporta no quadro do sistema educativo; muito menos me conformo com a "rotina". Ambas, por múltiplas razões tantas vezes aqui equacionadas, constituem a antítese da escola que aos jovens deveria ser proporcionada, enquanto espaço de conhecimento significativo, como, por outro lado, traduz o oposto relativamente a um mundo que não se compraz com repetitivas atitudes tradicionais. De forma absurda e ininteligível, os políticos são capazes de olhar e até compreender a velocidade com que a ciência acontece, mas continuam a preferir encostar os olhos e o nariz numa parede. Ainda ontem, em contraponto, o Papa Francisco, numa entrevista na TVI, embora num outro contexto, alertava para a necessidade de "abrir a janela" para ver o mundo, digo eu, de oportunidades que os novos caminhos sugerem. Abram a janela, disse! Escancarem a janela.



Ora, o tal regresso às aulas corresponde à janela fechada. É o regresso à turma, aos currículos, à "liturgia" programática, ao condicionamento do pensamento através do manual, à segmentação da aprendizagem por disciplinas, logo, sem interligação consistente entre elas e muito menos com a vida, à imposição do que os adultos entendem como importante, à matança de talentos, porque não se respeita a vocação, o regresso ao débito das matérias, aos testes, à nota e ao exame. É isto que configura o "regresso", palavra que significa "retorno à circunstância inicial". Uma escola assim corresponde a salas vazias de significado.

Aos que seguem a leitura deste texto, obviamente que é legítima uma pergunta: então, existirá outro formato de escola? Respondo: existem muitos, mesmo em Portugal, basta que os estudemos. O que tenho por adquirido é que o "modelo português" (trata-se, de facto, de um modelo (estático) e não de um paradigma), ano após ano, afugenta da escola os alunos e os professores. Os primeiros assumem que é "uma seca", vendo nela mais obrigação do que utilidade, e os segundos, na generalidade, não encontram o momento de fazer um corte com a profissão que abraçaram e muitos amaram. Mais grave é que são poucos os jovens candidatos ao exercício da docência. Mesmo no actual sistema, a renovação dos quadros já é deficitária. O retrato da situação é público e notório.

E não é preciso ir lá fora copiar um qualquer paradigma de escola, porque a solução está cá dentro. Há que olhar, obviamente que sim, para aquilo que outros fazem e de forma consequente, há que reflectir e produzir pensamento a partir de experiências vividas, mas sempre com a preocupação de fugir à tentação de criar um "modelo nacional" desadequado das inúmeras circunstâncias caracterizadoras do povo português. 

Ademais, os estabelecimentos de aprendizagem precisam de uma completa autonomia, de gerar a diferenciação entre eles e de deixarem de vez a trela política centralizadora.

Hoje, estamos perante um "cocktail" explosivo de graves consequências para o futuro colectivo. Os penosos resultados desta cega política estão a caminho. Aliás, já são sensíveis e devastadores os sinais em todos os sectores e áreas da sociedade. Cinquenta anos depois de Abril tudo continua estruturalmente igual, apenas com alguns enfeites e muita propaganda balofa. Para quem decide, face às configurações da IV Revolução Industrial, basta responder com os enquadramentos que provêm da I Revolução Industrial. Pergunto, será que ninguém dá conta que estamos a preparar para empregos que não vão existir e, pior ainda, estamos a gerar uma grave carência de especialistas em variadíssimos espaços profissionais? Ainda ontem, cruzei-me com um empresário que foi claro: "preciso de colaboradores que saibam do ramo a que me dedico. Não encontro". Ele não me falou de habilitações académicas, falou-me de pessoas com talento e capacidade profissional. Ora, concluo, há um evidente divórcio entre as duas faces do problema.

Depois, com uma gritante facilidade, oiço por aí frases do tipo: geração de malandros, não querem trabalhar, vivem dos subsídios, eu sei lá o que tenho escutado. Desabafos que caracterizam a situação actual, mas que ficam pela superficialidade, distante da causa dos problemas. E na causa está a estrutura da sociedade em todos os aspectos, a mentalidade enraizada por anos a fio de encolher de ombros, a ausência de rigor e de uma escola desadequada da realidade. Ninguém se questiona para onde vai, ninguém apresenta uma preocupação de sentido prospectivo, trazendo ao presente o futuro que é desenhável. E como quadros iguais resultam em respostas iguais, ninguém espere amanhã outros resultados que não os de hoje.

Preocupam-se, apenas, e este é um mero exemplo local, que este ano o sistema terá menos 800 alunos (como se martelam as estatísticas!), que os professores estão colocados (!), as salas preparadas, os diversos serviços em funcionamento, os apoios garantidos e pronto, tal qual na fábrica, as portas abrirão às 08:00 e encerrarão ao anoitecer. Pobre escola esta! Os de plantão, no topo da hierarquia política, vão-se entretendo na propaganda e nas palavras rotineiras para enganar tolos. Sem qualquer vergonha, dirão, dentro de dias, que as "aulas" recomeçaram dentro "da normalidade". Pois... o que interessa é a eleição seguinte e não a geração seguinte.

Ilustração: Google Imagens