quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"O CONSTRANGIMENTO DA MADEIRA É A ILITERACIA"


Conduzida por Maria Catarina Nunes, li uma excelente entrevista publicada, no DN-Madeira, no dia 23 de Janeiro. Pelo seu interesse, deixo aqui um excerto que me provocou uma atenção especial. Aquelas palavras muito nos deixa a pensar sobre o Sistema Educativo. 


Não há páginas de imprensa suficientes para contar uma conversa com Manuel Sobrinho-Simões. É considerado o patologista mais influente do mundo e é dos maiores especialistas em cancro da tiróide. Criou escolas de patologia em diversos países e, em 1989, fundou o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP). Mais tarde, é também responsável pelo I3S, no Porto, o maior instituto de investigação português em Ciências da Saúde, cujo edifício foi agora escolhido para representar Portugal na Bienal de Veneza. É um conversador nato, e toca em temas que vão muito além da saúde e da investigação. Para si, os livros “são objectos vivos” e falta pensamento crítico aos alunos de medicina. Admite que a educação é a sua grande paixão mas, este ano lectivo, depois de completar 70 anos em Setembro, já não dá aulas na Universidade do Porto porque a reforma chegou. Confessa ter “terror” dela (assim como muitos outros medos) e por isso faz o que chama “uma fuga para a frente”. Foi agora eleito professor emérito da Faculdade do Porto e esteve na Madeira a propósito das conferências de Telesaúde e para falar sobre patologia digital. Com o DIÁRIO também conversou sobre a importância da família, a reforma, a morte ou os afectos.

"A cultura das nossas escolas secundárias e das universidades é a cultura da matéria (...) estão treinados para fazer exames"

(...)

"Como são os estudantes portugueses?

Tive alguns tipos depois da Revolução... Eu era vagamente esquerdista e não me podiam expulsar por ser de direita. Quando eles exageravam punha-os no olho da rua. Era um pânico porque ninguém mandava para o olho da rua na pós-revolução. Hoje os alunos de medicina são muito parecidos: muito bons alunos, bem educados, cumpridores. São excessivamente postos por ordem. Temos um problema: são muito bons alunos, tiveram que decorar muito para entrar em medicina, desenvolveram muitas capacidades de memorização, mas não são tipos que tenham vivido muito. Não contam bem histórias, são pouco narrativos, estão treinados a fazer exames de cruzinha, vêem-se muito aflitos nas provas orais. Mas são bem educados, sensíveis e inteligentes. Têm muita pouca graça.

São demasiado pragmáticos?

E postos por ordem, não estou muito contente. Estamos a seleccionar, no ensino secundário, para Medicina (e se calhar para outras áreas) com base na memorização, na capacidade de responder a perguntas teóricas em vez na base do pensamento crítico, da criatividade. Não sei até que ponto, na Medicina, não é mais importante haver criatividade, pensamento crítico. E gostar de pessoas mais do que de coisas. A nossa cultura das escolas secundárias e das universidades é uma cultura da matéria, sobretudo para estas áreas. Na Medicina era importante também desenvolver gosto pela música, pela dança, pelo trabalho colectivo.

Reflectia-se na prática clínica?

Tenho a certeza que sim. Melhorava a capacidade dos médicos conversarem. Também é fruto do que têm para fazer, têm muita informação, têm um computador com um interlocutor, não têm um treino de conversar com doentes que sejam chatos. Isso e a formação está a tirar qualidade à medicina clínica. Clínica significa inclinar, é o tipo que está sobre uma cama. ‘Clinos’ é cama. Médico é o que está no meio. O médico clínico é o que está no meio, mas que além disso se inclina para alguém. Nada disso se está a fazer hoje. Também porque os portugueses gostam muito de análises. Somos o povo mais medicamentado da Europa do euro. O português adora tomar pastilhas e pingos à noite. Outra coisa horrível é que somos, depois da Grécia, o país da Europa do euro que tem mais aparelhos de TAC por habitante. O português adora fazer TAC. Temos uma ideia muito retórica, o valor da palavra, o valor das análises."
(...)
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

É POSSÍVEL CONSTRUIR UM ESPÍRITO LIVRE?

"A espécie humana tem um longo período de infância e adolescência, para que aconteça o desenvolvimento e a maturação de sistemas vitais. É um processo lento, que requer determinadas condições, contudo, trata-se de uma oportunidade extraordinária para desenvolver competências e valores essenciais, através de experiências biopsicossociais e espirituais, em contextos lúdicos de aprendizagem que desenvolvem a resiliência, o comportamento adaptativo e a criatividade. Estes atributos permitirão aprender a interpretar os factos da vida, dentro da sua relatividade, de forma mais holística possível, transformando-os em variáveis que estimulam e desafiam para viver riscos. Estes serão aceites como factores naturais e fundamentais, para a estimulação individual e a consolidação da autoconfiança, vetores basilares para a autodeterminação e o propósito de ser livre. Contudo, se não construir uma visão clara do que pretende e um inabalável desejo de o atingir, esse propósito não passará de uma miragem, mesmo em liberdade, dificilmente um espírito será livre. Carlos de Andrade, nascido no dia 01 de julho 1967, era um menino com sonhos de uma vida melhor e mais feliz. Português, moçambicano de nascença, madeirense por assimilação. O Carlos de Andrade de hoje é o resultado de um conjunto de experiências e histórias do passado com impacto no presente e no futuro dos que o rodeiam, desde as origens em África, à fuga e pobreza provocada pela guerra; foi refugiado, atleta, estudante, professor, mentor, empresário, funcionário público e é sem dúvida um risk taker e um free spirit. Hoje, é mentor para muitos que procuram um caminho para a felicidade; excelente pai, querido amigo, líder e membro dedicado às suas equipas, que segue inspirando e orientando, sem nunca faltar o dom para o discurso, a boa disposição, a assertividade, a confiança, o bom senso, um bom ouvido e a vontade de mais alcançar e aprender todos os dias, passando pela luta para encontrar uma vida melhor para si e para aqueles que lhe são queridos."

 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

SOU MÃE E SOU PAI E ESTOU ASSUSTADA


Na edição do DN-Madeira, de 20 de Janeiro, na secção "Cartas do Leitor", assinada por Lurdes Camacho, li o texto que abaixo reproduzo. Não comento, mas, face à ausência de qualquer posição por parte da Secretaria Regional da Educação, julgo que competirá aos partidos políticos com assento na Assembleia, tomarem em mãos a causa da EDUCAÇÃO. Trata-se de um sector onde é evidente um preocupante silêncio, quando o nosso futuro colectivo dela depende. São as questões organizacionais, as de natureza curricular, os programas e está em causa como transmitir conhecimento. Mas não apenas nestes fulcrais aspectos. Convido os leitores a lerem, por exemplo, um texto no blogue Fénix do Atlântico sob o título "A Educação está a arder". Por onde anda o Presidente do Governo?  



"Serve o presente para expor a situação, deveras preocupante, que se vive na Educação na Madeira, porque é que temos tantas crianças sem aulas, tanta desigualdade entre crianças? Temos escolas onde as turmas tem mais professores que alunos, e escolas onde tantos alunos não têm professores, escolas sem funcionários e outras onde os funcionários se atropelam. 
Eu, enquanto cidadã, sempre acreditei e muito nas pessoas da minha terra, sempre achei que eram honestas e se preocupavam com a valorização daquilo que é colocado à nossa disposição, à disposição do nosso desenvolvimento.
Sou mãe de uma aluna do 2.º ano, no início do ano a turma era pequena, mas a minha filha estava a aprender, agora as turmas estão juntas e a minha filha já não quer ir para a escola. A direção da escola mostrou-nos os documentos em que pede que a professora seja substituída, mas não tem resposta. Eu sei que escolas como o garachico, santana, madalena ou curral entre outras também têm turmas juntas, mas está mal, o futuro das nossas crianças não pode ser tratado com tanta irresponsabilidade, alguns meninos sem conhecimentos de português e outros com necessidades educativas especiais e estão em turmas de anos diferentes numa mesma sala, simplesmente porque a secretaria nunca colocou uma Professora para cada turma. 
Mas senhor Secretário e ao mesmo tempo: 
Há escolas na RAM no 1.º ciclo que, com 16 alunos por sala têm 2 professores efetivos e outras com 20 juntam salas. 
Há escolas na RAM que têm professores de informática no 1.º ciclo e outras são proibidas. 
Há escolas da RAM que no 2.º ciclo têm par pedagógico em todas as disciplinas e outras onde faltam professores. 
Há escolas da RAM que no 3.º ciclo têm par pedagógico (20 professores) em turmas de 3 alunos e outras onde alunos não tem aulas por falta de professores. 
Há escolas da RAM em que os alunos não têm professores e a secretaria não os coloca. 
Há uma escola da RAM que tem tantos alunos como professores, mas como o diretor é amigo do SRE está tudo bem. 
Há nas escolas da RAM professores e diretores que por não baterem palmas nem dizerem sim senhor ao SRE são perseguidos “pelo braço punidor/ Inspeção de Educação” do gabinete do secretário da educação. 
Há medo nas escolas senhor secretário, não deixe que isso aconteça. 
As escolas não deviam ser um serviço de igualdade senhor secretario da educação, não trate mal os nossos filhos, nós sabemos que a sua filha está numa turma de privilegiados numa escola pública, mas não se esqueça dos filhos do povo. 
Termino citando Francisco Sá Carneiro que em 1972, ainda que em ditadura nos dizia “O que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for.” Sá Carneiro era do PSD, o senhor supostamente também senhor secretário, não é o PSD o partido da Paz, do Pão do Povo e da Liberdade?"
Lurdes Camacho

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

NO FÓRUM DE DAVOS - JACK MA FALOU DE MUDANÇAS NO SISTEMA EDUCATIVO


Vale a pena escutar a intervenção de Jack Ma. Sabe-se que assim é, mas há políticos que, infelizmente, não sabem ou não querem mudar. Numa rápida tradução das legendas do vídeo, no essencial, disse: A EDUCAÇÃO é um grande desafio. Se não mudarem a forma como estão a ensinar, nos próximos 30 anos terão problemas. A maneira como ensinamos, as coisas que ensinamos aos nossos filhos são as coisas dos últimos 200 anos. Não podemos ensinar nossos filhos a competir com máquinas. Eles são mais inteligentes. Os professores devem parar. Transmitir conhecimento. Temos que ensinar algo único. A máquina nunca pode sobrepôr-se. Estas são as habilidades suaves que precisamos de ensinar: valores, o pensamento independente e o trabalho em equipa. Devemos ensinar aos nossos filhos: o desporto, música, pintura para fazer seres humanos diferentes. Tudo o que se ensinar deve ser diferente.

TUDO O QUE ENSINAMOS 
DEVE SER DIFERENTE DAS MÁQUINAS!


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

EM MACHICO OS ALUNOS PROTESTARAM CONTRA O SISTEMA EDUCATIVO



"Os estudantes da Escola Básica e Secundária de Machico encontram-se, hoje, em greve contra o actual sistema de ensino. Mais de uma centena de alunos aderiram ao protesto espontâneo que dá voz às principais inquietações dos finalistas do 3.º ciclo e secundário: carga horária excessiva, falta de opções curriculares, ‘abandono’ das área criativas e das Artes e um sistema de avaliação redutor baseado quase exclusivamente em testes.


“Estamos descontentes com o método de ensino actual. Estamos a ser todos encaminhados para as Ciências e Matemáticas e estão a cortar toda a nossa criatividade”, declara Marla Viveiros, uma das alunas que lidera este protesto estudantil. Marla, à semelhança de muitos colegas, considera que a actual oferta curricular da escola (direccionada sobretudo para as Ciências e Matemática), aliada a uma carga horária que “não para de aumentar” deixa pouco ou nenhum tempo aos jovens do 9.º e 12º ano para pensar e decidir sobre o que querem fazer no futuro. Por outro lado, os alunos mostram-se descontentes com o próprio sistema de avaliação, baseado quase exclusivamente num único teste por período. “O nosso conhecimento vai muito além dos testes”, defendem. Entre outras reivindicações, os jovens machiquenses reclamam ainda mais aulas práticas. “Como é que é suposto decidirmos o que vamos fazer se não experimentamos fazer nada?”, questionam. Em declarações ao DIÁRIO, os alunos alegam que o protesto iniciado esta manhã contava com uma adesão de “mais de 100 alunos”. Após uma intervenção do Conselho Executivo, que terá chamado ao seu gabinete dois dos ‘cabecilhas’ da manifestação por estarem a perturbar o silêncio em tempo lectivo, muito dos aderentes à greve terão começado a dispersar. (...)"

NOTA

Texto publicado pelo DN-Madeira (jornalista Erica Franco) e aqui reproduzido.

BREVE COMENTÁRIO

"SE O MUNDO MUDA, OS CURRÍCULOS E A ESCOLA TÊM DE MUDAR" - Maria Emília Brederode Santos, Presidente do Conselho Nacional de Educação.

Era uma questão de tempo e este Sistema Educativo rebentaria por onde seria mais natural: os alunos. Interessante é a chamada à responsabilidade dos ditos "cabecilhas". Contava-me um ilustre Amigo com quem tinha longas conversas, que há países que até ostentam estátuas à liberdade por defenderem a democracia. Mas, aquando de manifestações, não querem saber dos motivos que subjazem aos gritos de revolta. Apenas querem saber quem organizou e esses ficam com o destino definido!
Fico feliz por aquela chamada de atenção ter decorrido em Machico, terra de longas lutas pela democracia. E fico feliz por ver que os alunos tomaram consciência do logro deste sistema. Ao invés de ouvirmos, em coro, os professores contra um sistema absolutamente anacrónico, não, foram os alunos "chamados ao tapete" para que tudo continue igual. É a máquina da estupidez a funcionar em pleno.
Sou colaborador da revista A Página da Educação. No último número escrevi subordinado ao título "A máquina, os pingos de chuva e a ferrugem". Referi-me, a páginas tantas, a "uma certa ausência de questionamento sobre a máquina. Há silêncios a mais. Há braços caídos e até mesmo uma sensação de que não vale a pena. É mais fácil manter a rotina do que molhar o fato perante a chuva de críticas que a todo o momento cai". Curiosamente, foram os alunos, a ponta mais fraca, a enfrentar a chuva. Para mim é espantoso aquilo que o Conselho Executivo entende como quebra do "silêncio em tempo lectivo". Trata-se do toca-entra-toca-sai! Tal como na fábrica.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

UM LIVRO DE LEITURA OBRIGATÓRIA NÃO APENAS PARA PROFESSORES E TREINADORES


Do meu distinto Amigo Gustavo Pires recebi, ontem, o notável livro "Agon - Homo Sportivus", seu autor em parceria com o Professor António Cunha. No prefácio de um outro Amigo que quase todos os dias tenho presente, o Doutor Manuel Sérgio, leio: "Uma pequena introdução a um grande livro". Ainda não iniciei a leitura, apenas folheei as 300 páginas de sumo a avaliar pelo índice que começa em Tai Kung (Século XI aC - Estrategas e Estrategistas) até às Estratégias e Estratagemas dos tempos actuais. É um livro, de acordo com o Filósofo Manuel Sérgio, que obriga a um "faiscar de pupilas, de muita admiração e respeito" quando escrito por aqueles dois autores.


Tenho por Gustavo Pires, Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, uma admiração que vem de longa data. Temos uma Amizade recíproca. Comungamos de idênticos pontos de vista sobre a Educação Desportiva. A sua luta, incompreendida, ficará para "memória futura", da mesma forma que a sua persistente e profunda investigação em matérias de Olimpismo, com vários trabalhos publicados, um dia servirão para corrigir erros estratégicos cometidos e que fazem de Portugal um país sempre distante do topo. Faço notar que as duas vertentes estão interligadas: a educação desportiva, enquanto bem cultural, e o olimpismo que alia a cultura à educação. 
Parabéns Amigo Gustavo, extensivo ao António Cunha, Mestre em Ciências do Desporto, por este livro que Manuel Sérgio considera de extremo "rigor e originalidade".

domingo, 14 de janeiro de 2018

TIREM-ME DESTE FILME!


No âmbito do I Encontro "Ambientes Inovadores de Aprendizagem", o secretário Regional da Educação falou do "Projecto Cap3r (capacitar a aprendizagem promovendo estratégias de robótica, realidade aumentada/virtual e impressão 3D). Fiquei estarrecido com o anúncio de aquisição de 50 óculos! Espero que alguns fiquem pela secretaria da Educação, melhorando a visão da realidade do sistema. Como vulgarmente se diz e seguindo o desabafo de um professor com larga experiência, com quem me cruzei, "por amor da santa, tirei-me deste filme". E porquê? Apenas por uma pergunta que dá aso a  muitas outras: este projecto faz parte de quê? Trata-se, digo eu, de mais uma fase orgásmica do sistema, pois não se integra de forma consistente em um novo paradigma da educação, consubstanciado em uma diferente organização dos estabelecimentos de ensino, em uma nova perspectiva curricular, programática e pedagógica. 


Ora, quando não existe uma preocupação pela estrutura do pensamento, sobre aquilo que, efectivamente, se deseja, é óbvio, que o sistema tende a (sobre)viver dessas fases orgásmicas em sentido figurado, enquanto efervescência de sentimentos que depressa passam. Momento de desejo, excitação, plateau, orgasmo e resolução. Lá virá outra, cheia de entusiasmo, a que se seguirá o repouso político. O trabalhinho fica feito. Lamento que assim seja. 
O sistema precisa de uma revolução face à qual não existe coragem para a fazer. Mexer no sistema com determinação e a consciência que são necessários quinze, vinte ou mais anos para que ele funcione com absoluta normalidade e capacidade de mudança a todo o momento, é difícil e não está ao alcance de qualquer. Joga com muitas variáveis. É, por isso, que a Região precisa de políticos com essa ambição, que saibam de todos os domínios do sector, que tenham engenho e a arte de produzir, capazes de seguir um processo e, sobretudo, determinados a relegarem impulsos de circunstância. Com frontalidade e de forma muito séria, os mentores do actual sistema assemelham-se a crianças a quererem subir degraus de três em três e estatelam-se. Eu sugeria, entre outros, a leitura deste texto, AQUI. 
Preferível seria, depois de mais de dois anos de mandato, que o secretário da Educação da Madeira, negando-se aos impulsos, apresentasse, publicamente, um documento profundo, fundamentado e actual, compaginado e de forma integrada com outros sectores da governação, que determinasse os caminhos a percorrer, passo a passo, onde ficasse evidente a capacidade de ruptura e inovação susceptível de projectar a Escola do Futuro. Esse documento não existe. Não foi apresentado na Assembleia Legislativa, tampouco publicitado por iniciativa do governo. Existe, sim, a repetição do passado, salpicado aqui e ali com iniciativas desconjuntadas. E vêm falar de "ambientes inovadores na aprendizagem"? Realmente, aquele professor tem toda a  razão: "tirem-me deste filme".
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 6 de janeiro de 2018

HÁ UM DÉFICE DE ATENÇÃO SAUDÁVEL


É preciso olhar com atenção para as práticas educativas globais

Por
DN-Madeira. 06 JAN 2018 


Pensar a adolescência de hoje é pensar no contexto e na forma como a integramos nos hábitos da vida atual. Tudo começa na infância. Basta observar alguns contextos que envolvem adultos e respetivas crianças. Existe um mundo criado para os adultos onde as crianças são distraídas com diferentes estímulos que as obriga a estar permanentemente ativas acompanhando o ritmo tantas vezes frenético dos pais.
São raras as situações em que observamos os adultos a interagir no mundo criativo das crianças permitindo-lhes usar o seu imaginário ou simplesmente partilhar momentos de contemplação. A falta de tempo do “nada”, essencial ao crescimento e desenvolvimento saudável, tornou-se um problema de adultos impingido às crianças.
Para além desta falha básica no ato de crescer os espaços educativos, ao tentar compensar com dinâmicas criativas pensadas mais para o coletivo do que para o individual, centram-se demasiado nos resultados comparando médias e níveis de crescimento. Desvaloriza-se a relação entre os níveis de maturidade e desenvolvimento de competências individuais que, ainda que obedeçam a padrões, têm uma dimensão individual significativa. Tudo o que sai da norma é alvo de análise e tentativa de enquadramento no padrão esperado com uma tendência marcante para considerar perturbação muito do que seria apenas nível de maturidade e tentativa de ajustamento aos infinitos estímulos propostos.
É preciso olhar com atenção para as práticas educativas globais e para a forma como nas últimas décadas as crianças têm sido desrespeitadas nas suas necessidades. Este modelo, que tem vindo a dar jeito aos adultos e ao estilo consumista que entra na vida das famílias e silenciosamente vai pervertendo as relações e destruindo o mundo imaginário, não está a resultar.
Quando chega a idade da adolescência e se associam a ela os primeiros desenhos que provocam preocupação é que alguns olham para trás e relembram esboços que, redesenhados no tempo certo, poderiam facilitar o crescimento dando mais segurança e consistência às experiências futuras.
Quanto mais rica tiver sido a infância mais deslumbrante será a adolescência e mais gratificante o ato de crescer. Riscos? Faz parte do processo. Erros? Estranho é não os cometer.
Ter quem nos ouça é sempre um privilégio, mas para ouvir é preciso estar desatento e desligado dos estímulos diariamente oferecidos por todos aqueles que o que mais desejam são pessoas formatadas à imagem de tudo o que lhes pretendem oferecer. A eterna conexão ao sistema atual não é sinal de vitalidade.
Há um deficit de atenção saudável que famílias, educadores e técnicos de saúde precisam de refletir.

NOTA
Artigo de opinião da autoria da Psicóloga Manuela Parente, publicado na edição de hoje do DN-Madeira e aqui reproduzido com a devida vénia.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

"10 SEGUNDOS PARA O FUTURO. O MUNDO EM 2077". OPORTUNIDADE PARA OS GOVERNANTES REPENSAREM O SISTEMA EDUCATIVO


Este primeiro programa de uma série de quatro, deixou-me completamente pregado ao sofá. Emocionante. Permitiu-me, por extensão, reflectir sobre o Sistema Educativo que, teimosamente, continua, parece que alegremente, a repetir o passado longe de se constituir como uma fonte prospectiva do futuro. Esta série deveria ser, "obrigatoriamente", vista por governantes, professores, responsáveis pelos estabelecimentos de ensino, motivo de reflexão que coloque em causa todo o sistema organizacional, os currículos, os programas e toda, toda a organização pedagógica. Estamos face à inteligência artificial, porém, o sistema educativo continua lá para trás na era industrial. Que pobreza!


A série da RTP, ontem iniciada, é absolutamente fascinante ao mesmo tempo que é geradora de uma enorme preocupação. Como será o futuro daqui por sessenta anos? "As próximas décadas vão sofrer a maior e mais veloz transformação de sempre. Na tecnologia, na ciência, no ambiente, nas relações interpessoais. Vivemos numa espécie de grande acelerador de ciência, em que o ritmo das descobertas não pára de surpreender. Nas últimas décadas acumulou-se mais conhecimento científico do que em toda a história da Humanidade. Em 2077 esse conhecimento científico terá duplicado várias vezes", leio na presentação desta fenomenal série de quatro programas. Estamos, ainda, convicto estou, na fase embrionária, que tal como Tofller sublinhou nos primórdios dos anos 80, jamais será possível meter o futuro nos cubículos convencionais de ontem. 

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
NANOTECNOLOGIA
FUSÃO HOMEM/MÁQUINA 
GENÉTICA

"(...) Abandonámos as cavernas. Inventámos a roda, a locomoção a vapor, a electricidade, a internet. Construímos automóveis, aviões, foguetões. Lançámo-nos no Espaço. Criámos os mercados, a medicina, o armamento. Recriámos vida… Mas com uma insatisfação absoluta e permanente e uma vontade de alcançar sempre mais (...) Estamos no ponto de partida de uma mudança tecnológica exponencial. Nas próximas décadas viveremos a desmaterialização da tecnologia. Os computadores abandonarão as secretárias para se instalar nos olhos, nas paredes e em tudo o que nos rodeia. Os chips estarão integrados em praticamente tudo à nossa volta, transmitindo informação vital. A qualidade e a esperança média de vida aumentarão espantosamente e o envelhecimento será retardado. Teremos capacidade de escolher genes para os nossos filhos e criar novas formas de vida.
Em 2007, um smartphone tinha mais potência do que os computadores da NASA que levaram o homem à Lua em 1969. Em 2077 é provável que controlaremos os objectos à nossa volta através do pensamento. É unânime a opinião de que a revolução em curso é a maior e mais rápida de todas, com a intercepção da genética, da nanotecnologia e da inteligência artificial. As consequências são inúmeras e transversais, com grande impacto na saúde. No entanto, a ascensão da máquina lança desafios sem precedentes, até a possibilidade de extinção da própria Humanidade". (todo o vídeo aqui)
Este primeiro programa de uma série de quatro, deixou-me completamente pregado ao sofá. Emocionante. Permitiu-me, por extensão, reflectir sobre o Sistema Educativo que, teimosamente, continua, parece que alegremente, a repetir o passado longe de se constituir como uma fonte prospectiva do futuro. Esta série deveria ser, "obrigatoriamente", vista por governantes, professores, responsáveis pelos estabelecimentos de ensino, motivo de reflexão que coloque em causa todo o sistema organizacional, os currículos, os programas e toda, toda a organização pedagógica. Estamos face à inteligência artificial, porém o sistema educativo continua lá para trás na era industrial. Que pobreza!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

CURRÍCULO ESCOLAR DEVE SER RICO SEM PENALIZAR ARTES E CIDADANIA


A nova presidente do Conselho Nacional de Educação, Maria Emília Brederode Santos, defende um currículo escolar rico, em que as artes e a educação para a cidadania não sejam penalizadas por outras áreas. "Defendo um currículo rico. Tenho a sensação de que o currículo escolar está um bocadinho espartilhado, centrado em certas disciplinas que ainda bem que estão a ser trabalhadas, mas que não pode ser à custa de outras áreas como a educação para a cidadania ou a educação para as artes", explicou em entrevista (...).


Maria Emília Brederode Santos considera que não existe qualquer contradição nesta aposta nas áreas transversais, até porque, defende, "não há melhor maneira de aprender português do que através do teatro e da expressão dramática, por exemplo".
"Tanto quanto possível defenderei um currículo mais alargado e mais rico, sobretudo porque a maior parte dos meninos terá pouco acesso a essas áreas", frisou.
Do Conselho Nacional de Educação (CNE) gostaria que tivesse uma visão mais prospetiva, mais ligada ao que pode ser o futuro.
"Estamos a viver uma mudança de era que ainda vai acelerar mais na nossa própria relação com o trabalho. Será que faz sentido ter uma época de formação mais prolongada, depois uma época de trabalho e depois uma época de descanso? Não faz mais sentido uma educação permanente?", questionou, considerando que estas são questões sobre as quais o CNE deve pensar.
Na primeira reunião plenária sob a sua presidência, explicou, houve uma reorganização das comissões permanentes que estudam matérias relacionadas com a educação com a intenção clara de não estarem tão presas ao sistema escolar e mais ligadas "à pessoa que está por detrás dos alunos".
Assim, adiantou, a intenção é ter uma comissão que tratará das crianças e jovens dos 0 aos 15 anos, outra dos 15 aos 24 anos e outra dos 24 em diante, dando assim a perspetiva de educação permanente "porque todos nos desenvolvemos ao longo da vida".
Uma das questões que a nova presidente afirma que gostaria de o CNE fosse chamado a acompanhar prende-se com a iniciativa governamental de autonomia e flexibilidade curricular das escolas em que se dá às escolas um tempo para usar como entendem.
"Tenho muita curiosidade de ver como é que as escolas vão agarrar nesta possibilidade de gerir, como entenderem, 25% do tempo. Gostava que o CNE acompanhasse isto, de ir para o terreno, de ver como as escolas estão a trabalhar, de falar com os vários parceiros da educação. Gostava de o fazer, de começar a preparar desde já", disse.
A necessidade de uma aposta na educação de adultos será também um dos pontos que gostaria de ver analisada pelo Conselho Nacional de Educação.
"Gostava que a oferta de educação de adultos fosse o mais diversificada possível. Desde os analfabetos que ainda existem, aos imigrantes que precisam de aprender melhor português, à reconversão profissional, as atualizações tecnológicas. Uma oferta diversificada que respondesse as todas as expectativas dos adultos", disse.
Questionada sobre os resultados do último relatório do Conselho Nacional de Educação O estado da Educação 2016, a responsável destacou a questão da retenção escolar. Segundo o estudo, os alunos portugueses continuam a ser dos que mais chumbam na Europa. "Embora Portugal tenha feito avanços extraordinários em educação, ainda tem um nível de retenção muito elevado que começa muito cedo. No 2.º ano de escolaridade já há 5% de meninos reprovados e quando chegam aos 15 anos 40% já não estão no ano de escolaridade correspondente ao ano da sua idade e isto é demasiado e revelador de uma certa cultura", disse.
Maria Emilia Broderode Santos destaca a importância desta análise anual feita pelo CNE, por permitir relacionar as coisas, como por exemplo a ligação que se pode fazer para analisar a retenção das crianças e os métodos de ensino.
Professores cada vez mais velhos e aulas pouco práticas numa escola ainda dominada pela "cultura da retenção" e com um aumento de casos de abandono precoce caracterizaram o "Estado da Educação" em 2016.
As aulas expositivas são o método seguido por todos os docentes e não apenas pelos mais velhos: esta opção "não se co-relaciona com a idade dos professores, mas sim com práticas enraizadas nos diferentes países", sublinha o relatório.
Maria Emília Brederode Santos, nomeada para o cargo em Outubro substituindo David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação desde 2013, desempenhou as funções de presidente do Instituto de Inovação Educacional do Ministério da Educação entre 1997 a 2002, tendo ainda sido representante do Ministério da Educação na Comissão Nacional para a Educação em matéria de Direitos Humanos entre 1998 e 2004 e directora pedagógica do programa televisivo e da revista Rua Sésamo (da RTP).
Fonte: Público por indicação de Livresco.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

FALTA MUITO TPC POLÍTICO


Em complemento ao texto ontem aqui publicado, li a mensagem de hoje do secretário regional da Educação, dirigida aos jovens: desejamos "jovens activos, participativos, para que possam ter uma palavra a dizer na construção do futuro". Senhor Secretário Regional, importa-se de repetir? É que não podem existir jovens "activos e participativos" quando é o próprio sistema educativo que, desde início, coarcta tal meritório desígnio. O que hoje existe é a repetição de ontem, que por sua vez repetiu anteontem, é a existência de uma cadeia hierárquica de cega obediência que não possibilita, genericamente, é claro, ser activo, inovador, criativo e, por extensão, participativo. Nem por parte dos professores, muito menos por parte dos alunos. 


Tantas vezes o digo, no ensino básico, na idade das perguntas o sistema quer, apenas, as respostas do manual. O manual deixou de ser um meio para tornar-se em um fim. Por outro lado, tome-se consciência que este é um sistema heterónomo que não deixa muitas possibilidades para que a diferença organizacional e pedagógica faça o seu caminho e tenha êxito. A padronização e a centralização matam, repito, esse meritório desígnio. Portanto, aquelas são palavras ditas, no espaço do politicamente correcto, porém, sem um substrato que conduza à sua concretização. Quando manifestamos aquele desejo, obviamente, que temos de ser consequentes, eu diria, através do TPC (trabalho para casa) político que implica a reinvenção do sistema educativo. Ora, um sistema travestido de democrata, onde, lamentavelmente, impera a norma, a subserviência e o concomitante medo, obviamente que o cumprimento do programa, a sensação patológica da angústia (de professores e alunos) não permite o espaço necessário para uma formação estruturada nos princípios e nos valores que conduzem a seres activos e participativos. O sistema, por mais pinceladas de cor, assemelha-se a uma espiral cinzenta para dentro, não a uma espiral verde que parte do aluno (centro) para fora. Portanto, o sistema não liberta para a acção e para a participação, antes convida a entrar no rebanho da repetição e do histórico convencimento salazarista, assente no princípio que os jovens não precisam de pensar porque alguém pensa por eles. O problema é esse. Salvam-se alguns, como em todas as épocas e mesmo com os piores sistemas, a maioria, no entanto, fica pelo caminho na tal participação na "construção do futuro".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

OH ROTINA QUE TANTO MAL FAZES ÀS CRIANÇAS E AOS ADOLESCENTES


A 20 de Setembro de 2009, em nome do grupo parlamentar do PS na Assembleia Legislativa da Madeira, apresentei um Projecto de Decreto Legislativo Regional sobre o Regime Jurídico do Sistema Educativo Regional. Tratava-se de um ponto de partida, não de chegada. Foi chumbado pela maioria PSD e contou com a aprovação dos restantes grupos parlamentares. O extenso documento foi objecto de muitas consultas, entre investigadores, educadores e professores de todos os níveis, conselhos executivos, sindicatos, análises comparadas com outros sistemas educativos e, naturalmente, uma revisão da literatura existente. Entretanto, passaram-se oito anos, duas legislaturas, e os valores, relativamente ao número de alunos por turma, continuam distantes do aceitável. Pelo contrário, a partir das recentes declarações do secretário da Educação e apesar dos números serem referenciais, as médias apresentadas assemelham-se à história de dois amigos em que um comeu dois frangos, porém, a média estatística foi de um frango por cada. Um exemplo: tenho um neto, no 2º ciclo, cuja turma tem 25 alunos, mas a média regional é de 22!



NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA*


PROPOSTA DO PS-MADEIRA
SECRETARIA DA EDUCAÇÃO
Creche
10
12
Pré-escolar
18
20
1º ciclo
18
21
2º e 3º ciclos
16
22
Secundário
14
22

Ora, o que está aqui em causa é a (re)organização do sistema que tarda, uma outra concepção da rede de estabelecimentos de educação e ensino e, tão importante quanto isso, a determinação do que se pretende atingir com o sistema educativo. Este aspecto não está, de todo, clarificado. Desde sempre o que o sistema tem pretendido é que as crianças e jovens vão ultrapassando as sucessivas etapas, porém, com que objectivo e de que forma, tal pouco tem interessado. Para que serve o currículo estipulado e para que servem os extensos programas com repetidas particularidades, tais interrogações não têm feito parte das preocupações estruturantes do sistema. Muita burocracia, muitas grelhas para preencher, muitas circulares, muitos normativos, muito big-brother, muitas reuniões ditas "pedagógicas", de departamento, de grupo e de turma, mas, afinal, tudo converge para uma pescadinha de rabo na boca. O sistema é circular! Obediência cega tornou-se exigência e quem sair fora do padrão estipulado pode ser visado. Adiante.
O conceito de turma e de aula não é discutido. Talvez porque dê muito trabalho PENSAR um sistema preparado e adequado aos novos tempos. Disse o experiente investigador e pedagogo José Pacheco respondendo a uma sua interrogação: "(...) se eu dou aula, preparada ao pormenor, e eles não aprendem, talvez não aprendam porque eu dou aula". Pois, é isso mesmo. Mudar o conceito de aula e de turma, alterar as preocupações de natureza pedagógica, onde no centro deve estar o aluno e não o "magister dixit" que fala, fala e fala, partir à descoberta para estruturar o conhecimento, utilizando toda a tecnologia pessoal ou da escola, gerar o princípio que a escola não pode nem deve confinar-se às ditas "salas de aula", a uma campainha, disciplinas, programas e testes, eu sei, dá muito trabalho! Só que, lá vem a propósito George Gusdorf: "o mais alto ensinamento do mestre não está no que diz, mas no que não diz". 

O Ensino Básico deveria ser, por isso, a grande explosão do pensamento crítico visando a estruturação do conhecimento secundário e universitário. Deveria ser, antes de mais, a explosão da cultura geral, a capacidade para cruzar toda a informação disponível, a competência para ler, compreender, escrever e elaborar textos com pensamento e qualidade. 

O Ensino Básico não é nada disto, por maiores que sejam as intenções das instituições e dos projectos de natureza avulsa que invadem os estabelecimentos de educação e ensino. O sistema chegou a um ponto que, grosso modo, se preocupa muito mais com a avaliação do que com o verdadeiro conhecimento. O manual continua a prevalecer relativamente à capacidade de PENSAR. Para o sistema, desde o primeiro dia do ano escolar, a grelha de avaliação, com tantas colunas e percentagens, vale mais do que a estrutura, o alicerce a partir do qual poderão ser erigidas as colunas e vigas dos patamares superiores do conhecimento. Para o sistema, os relatórios, muito enfeitados de palavras e números, mesmo que vão, logo de seguida, direitinhos para o arquivo morto, são mais importantes que as sementes que deveriam ser lançadas no tempo certo. 
Depois, tarde de mais, quando já é muito difícil corrigir percursos, quando o desânimo rouba a esperança, vêm os apoios e mais aulas, no quadro da mesma mentalidade pedagógica. Não sabem Português, pois bem, mais Português; não sabem Matemática, pois bem, tomem lá mais Matemática. E ninguém pára para reflectir, desde a estrutura e debilidades da sociedade a montante da escola, até à organização pedagógica vigente. É isso José Pacheco, "(...) se eu dou aula, preparada ao pormenor, e eles não aprendem, talvez não aprendam porque eu dou aula". O secretário que pense nisso! E que pense nas causas das 107 ocorrências criminais nas escolas, noticiadas na edição de hoje do DN-Madeira.

Nota
*A proposta (número de alunos por turma), constituía um primeiro passo para uma outra visão e enquadramento das aprendizagens.
Ilustração: Arquivo próprio. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

MANUEL SÉRGIO, O FILÓSOFO, O PROFESSOR.


Tenho uma enorme admiração pelo Professor Doutor Manuel Sérgio. Somos muito Amigos. Embora distante, quase todos os dias, nas minhas reflexões, sinto-o por perto. A sua Obra é intemporal. Isso, digo eu, diz tudo. Há dias foi condecorado pelo Senhor Presidente da República. Uma Comenda que só peca por tardia. Justíssima.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ORÇAMENTO REGIONAL PARA 2018 - SECTOR DA EDUCAÇÃO

 
Recebi, do Sindicato de Professores da Madeira, o seguinte comunicado:

Car@ colega,

Depois de a analisarmos com atenção, não podemos disfarçar a desilusão que sentimos ao conhecer a proposta de Orçamento Regional para 2018 apresentada no passado dia 24 de Novembro. 
Na verdade o Governo Regional ignorou por completo a vontade e as legítimas reivindicações dos docentes manifestadas nas várias iniciativas promovidas pelo SPM ao longo dos últimos meses. Efetivamente, os docentes têm demonstrado o seu descontentamento e determinação na luta pela recuperação dos seus direitos em vários momentos, nomeadamente:
- na adesão à greve nacional do dia 27 de Outubro com toda a Administração Pública e na manifestação do mesmo dia, que contou com a participação de mais de 200 docentes;
- na elaboração do Caderno Reivindicativo, aprovado na Assembleia-Geral do SPM no dia 23 de outubro e apresentado ao Sr. Secretário de Educação, na reunião do dia 8 de novembro;
- na adesão à greve nacional de professores e educadores do passado dia 15 de Novembro, na manifestação desse dia no centro do Funchal, que contou com a participação de várias centenas docentes, e na aprovação, por unanimidade, da resolução, posteriormente entregue nos gabinetes dos senhores Vice-Presidente e Secretário de Educação;
- no promoção das reuniões com todos os partidos com assento na ALR, realizadas entre os dias 16 e 28 de novembro, para apresentação das preocupações e reivindicações do SPM (foram distribuídos a todos o Caderno Reivindicativo, a Resolução aprovada na manifestação de 15 de novembro e as petições, além do diploma sobre a transição dos docentes do Conservatório do regime privado para o público), tendo em vista o Orçamento Regional para 2018;
- na subscrição das petições, promovidas pelo SPM, “Trabalhamos, o tempo de serviço é nosso” e "Redução da Componente Letiva para o Pré-Escolar e 1.º Ciclo", que, em cerca de 3 semanas, ultrapassaram, largamente, o mínimo exigível para serem debatidas em plenário da ALR;
- na participação no processo de auscultação online sobre o processo de descongelamento, recuperação e contagem integral do tempo de serviço dos períodos de congelamento, na RAM, promovido entre 20 de Novembro e 3 de Dezembro.
Porque em todas estas iniciativas, ficaram claras as posições dos docentes quanto às matérias em causa e a determinação de continuarem a lutar pelo respeito dos seus direitos, o SPM prepara novas ações de luta neste período de discussão e aprovação do Orçamento Regional para 2018. 
Certos de que esta luta é de todos os docentes, independentemente do seu vínculo contratual, tempo de serviço, idade ou escalão em que se encontre, contamos com o seu envolvimento nas ações que se avizinham, para obrigarmos os nossos governantes a respeitar-nos e a repor os direitos que nos foram sonegados por motivos alheios à nossa atuação e competência profissionais.

Saudações sindicais,

A Direção do SPM

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

APENAS UM PRIMEIRO PASSO



O problema é, no quadro da AUTONOMIA regional, não se saber para onde caminha o Sistema Educativo. Neste momento, constata-se uma política de mera gestão administrativa. Lamentável!

domingo, 3 de dezembro de 2017

DIA INTERNACIONAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA


A agenda das consciências determina que hoje se cumpra o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Como sempre, umas notas que não se desactualizam, lamentavelmente. Talvez menos do que o habitual. é Domingo, durante o dia de hoje surgirão peças na comunicação social, ouvir-se-á alguma da retórica política aplicável à matéria em apreço com referência a iniciativas ou intenções, teremos até alguns testemunhos, positivos e negativos, de pessoas com deficiência. Assistiremos a algumas eventos das instituições e movimentos que operam nesta área, referir-se-ão alguns avanços de natureza tecnológica, como se sabe as tecnologias mudam mais depressa que as pessoas e amanhã o mundo volta-se para outra questão que a agenda das consciências determine.


Participei em algumas iniciativas e tive de recusar convites para outras.
Em primeiro lugar deve dizer-se que, como acontece em outras áreas, a legislação portuguesa é globalmente positiva (no caso da educação tem alguns aspectos a carecer de ajustamento pois são facilitadores de exclusão como muitas vezes tenho defendido) e promotora dos direitos das pessoas, mas a sua falta de eficácia e operacionalização é bem evidenciada na tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia-a-dia. Durante este ano regista-se o avanço na legislação sobre a independência e autodeterminação e apoios sociais.
No entanto e como exemplo é notória a falha na fiscalização e cumprimento das disposições legais relativas às questões das acessibilidades e barreiras nos edifícios, mobiliário urbano e acessibilidade em geral. As normas de construção não são respeitadas, mantendo-se em edifícios novos a ausência de rampas ou a sua existência com desníveis superiores ao estabelecido, constituindo, assim, um risco sério de queda.
O resultado é a existência de muitos serviços públicos e outro tipo de equipamentos de prestação de serviços com barreiras arquitectónicas intransponíveis, a que os cidadãos com deficiência só podem aceder com ajuda de terceiros e, mesmo assim, com dificuldade.
Os transportes públicos de diferente natureza também colocam enormes problemas na acessibilidade por parte de pessoas com mobilidade reduzida.
Para além deste quadro, suficientemente complicado, ainda há que contar com a prestimosa colaboração de muitos de nós que estacionamos o belo carrinho em cima dos passeios, complicando ou proibindo, naturalmente, a circulação de cadeiras de rodas. Os passeios, nem sempre com as medidas determinadas por lei, são, por vezes e quase na totalidade, ocupados com esplanadas que, claro, são só mais uma dificuldade para muita gente.
A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode implicar. No entanto, muitos dos obstáculos têm a ver com barreiras físicas, remetem para a falta de senso, incompetência ou negligência com que gente responsável(?) lida com estas questões.
Na verdade, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.
Também para as crianças com deficiência e respectivas famílias a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios educativos e especializados necessários apesar do empenho e profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas. Os tempos que correm são particularmente gravosos nesta matéria como muitas vezes tenho afirmado.
Como é evidente, existem muitas outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente apoios sociais, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são elevados traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo superiores à verificada com a população sem deficiência.
Uma referência ainda ao que deve ser um princípio não negociável, a inclusão em todos os domínios da vida das comunidades.
É verdade, como escrevia há pouco que a questão da inclusão, em particular da inclusão em educação, é presença regular nos discursos actuais. É objecto de todas as apreciações, ilumina todas as perspectivas e acomoda todas as práticas, incluindo, cá está a inclusão, o que manifestamente não promove inclusão, antes pelo contrário. O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Cada vez mais me lembro do Mestre Almada Negreiros que na "Cena do Ódio" falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".
A inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com deficiência não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ver os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível.
Este é o caderno de encargos que nos convoca a todos, todos os anos, todos os dias.

NOTA
Texto assinado por José Morgado, no blogue INCLUSO

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

PROVAS DE AFERIÇÃO


As provas de aferição servem para aferir o quê? Que consequências elas têm no plano material, pedagógico e didático? Fazer uma prova de aferição num segundo ano quando a criança ainda nem sabem ler e escrever com desembaraço suficiente? Aberração! Fazer provas de aferição para dizer que as escolas de Lisboa e do Porto têm melhores resultados do que as escolas do interior? Que as escolas inseridas em meio sócio-económico desfavorecido apresentam resultados aquém da média regional e nacional? E daí? 


Que consequências vamos obter desta reflexão de estatísticas vazias de sentido? Vão os professores das “best scholls” vir às outras escolas transmitir a magia de ensinar melhor? Ou vão dizer apenas que os seus alunos provêm de estratos sócio-económicos mais favorecidos, onde não falta o pão, onde o peso das dívidas não é preocupante para os encarregados de educação, onde os pais têm mais formação para apoiar didaticamente os seus filhos. Mude-se o País por completo, tornando-o menos desigual do ponto de vista económico e social e só depois disso tudo (...)"

NOTA

Texto publicado, hoje, nas "Cartas do Leitor" do DN-Madeira, assinada por Carlos Pereira.

sábado, 25 de novembro de 2017

ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO


Se há algo que ainda hoje não percebi, esse algo é o ódio de estimação que a opinião pública nutre pelos professores. É um sentimento quase irracional que redunda na diabolização destes profissionais e que se revela, sem pejo, sempre que eles são notícia, seja por este, seja por aquele, seja por qualquer motivo. Tudo vale para que, em uníssono, a sociedade lance as mais imaginativas imprecações contra os docentes como se estes fossem a real encarnação do mal.


É claro que a reação é ainda mais veemente quando, sobre a mesa, está a demanda de direitos como aconteceu há uma semana. Aí é o deus nos acuda! A população, qual donzela ofendida, indigna-se a viva voz como se assistisse a uma inaudita ousadia por parte de quem, supostamente, já tem muito a agradecer pela simples razão de existir e de ter trabalho. Para comprová-lo, aliás, é só se demorar nas “análises” de alguns comentadores e/ou jornalistas que, usufruindo de jeitosas retribuições para glosar o lugar comum, logo se aprontam a fazer contas sobre o impacto das reivindicações docentes no erário. Ou, para quem preferir um exercício menos intelectual, basta perder algum tempo nos comentários de autoria duvidosa que acompanham as notícias online sobre os professores. Quer uns, quer outros, deixam transparecer, claramente, a bílis comunitária a fervilhar, destilando raiva contra esses malandros que têm férias três vezes ao ano.
Nem os maiores escândalos políticos ou financeiros nem a diferença salarial de género nem mesmo o delírio patológico de Sócrates conseguem mobilizar tanta antipatia como os professores. Eles são o alvo a abater. Porque ganham mais do que merecem. Porque são uns mandriões. Porque só trabalham meio dia. Porque querem progredir na carreira automaticamente. Porque não se fazem respeitar. Porque se armam em espertos. Porque são uns tiranos. Porque não sabem ensinar... Porque não sabem nada... Porque... Porque... Porque...
Como se não bastasse tanta energia negativa do lado de lá, do lado de cá, o do sistema educativo, a situação não é melhor. Bem pelo contrário. Quem faz a lei, com efeito, vai paulatinamente transformando os professores num espécime estranho, cuja última função é a de abrir caminhos para mentes mais ou menos brilhantes. Antes de chegar à sala de aula, o professor, na verdade, perde-se em meandros de burocracia absurda; em telefonemas a encarregados de educação que fazem da escola um mero armazém dos seus educandos; em contactos sistemáticos com psicólogos, assistentes sociais e até agentes policiais; em insultos, ameaças e humilhações de discentes que, conhecendo as sinuosidades do sistema, o ludibriam descaradamente; e ainda em muitas outras coisas mais que, por decoro e amplitude, não caberiam numa prosa deste tipo.
E, mesmo assim, para muitos, os professores não valem o chão que pisam. E, mesmo assim, para os professores, a docência ainda continua a valer a pena. Mesmo que, cada vez mais, entrar numa sala de aula seja um verdadeiro desafio, não intelectual, mas, sobretudo, de resiliência, porque, diante de cada docente, há uma geração hipersensível a qualquer observação sobre o seu comportamento e que exige um tratamento de igual para igual. Uma geração que cresceu ouvindo à mesa os pais dizer que os professores são uns pacóvios ao serviço de um sistema pleno de direitos mas sem deveres para quem está na escolaridade obrigatória. Uma geração que, paradoxalmente, brinca com a tecnologia mas desdenha o saber, sem mediano termo entre o direito de afirmação e o dever do respeito.
Por isso, não deixa de ser irónica a impopularidade da classe docente. É que, se é verdade que a mão que embala o berço é a mão que governa o mundo, também é um facto que, quando essa mão falha, é a dos professores que pode salvar esse mesmo mundo. Quem ainda não o percebeu, precisa de voltar aos bancos da escola. Não para rever teorias, mas para aprender a lição de que a humildade é a fonte de toda a sabedoria. Eu, jornalista, professora, encarregada de educação e, sobretudo, mãe, já a aprendi.

NOTA
Artigo de opinião, da autoria da Drª Eker Sommer, publicado na edição de hoje do DN-Madeira, e aqui reproduzido com a devida vénia.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

ESTÃO EM CAUSA O SECRETÁRIO REGIONAL DA EDUCAÇÃO DA MADEIRA E OS PROFESSORES QUE DIRIGEM ESCOLAS


Apenas mais um contributo, em desenho animado, visando um Sistema Educativo decente e com futuro. Parem, reúnam e pensem no caminho errado que estão a seguir. Professores, revoltem-se, não apenas pela justa contagem do tempo de serviço prestado, mas também pela mediocridade do sistema educativo. Revoltem-se contra a apatia e a inexistência de políticas portadores de futuro. Revoltem-se contra políticos que "juram" repetir o passado, maltratam as actuais gerações e coarctam as iniciativas que tentam a ruptura. Revoltem-se contra a pobreza que chega à escola. Revoltem-se contra a excessiva burocracia e contra um sistema tipo pronto-a-vestir. Revoltem-se contra um sistema que bloqueia a imaginação, a  criatividade e que não dá margem a emergência do pensamento. Revoltem-se contra o cumprimento de programas desarticulados, sem nexo e desprovidos de cultura. Revoltem-se contra a falta de autonomia nas escolas, contra um sistema hierarquizado, centralizado, padronizado, estúpido e que impede organizações diferenciadas. Revoltem-se contra reuniões de departamento, de grupo e de turma que, genericamente, nada adiantam. Revoltem-se contra uma cretina avaliação baseada em "conhecimentos de manual", muitos para esquecer. Revoltem-se contra a subserviência e o medo. Revoltem-se contra a falta de financiamento. Revoltem-se contra o espezinhamento da função docente. Revoltem-se contra o excessivo número de alunos por escola e por turma. Revoltem-se contra a ausência de assertivas políticas de família. São tantos os sinais que evidenciam que este é um caminho errado e que o futuro não se constrói com receitas mofentas. Professores, acordem e ponham em sentido quem não tem sentido do futuro! 

Agora, convido-vos a assistir a este vídeo.  


             

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O QUE TORNA OS PROFESSORES FORTES


Assistimos ainda hoje a outras tentativas e subalternizar o papel dos professores. Darei outro exemplo: há países em que as entidades responsáveis pela Educação compram a empresas privadas o currículo, os materiais, os livros e mesmo a supervisão do processo educativo. Este “franchising” educacional leva a que o professor se converta num mero “entregador” do currículo, tendo somente seguir e cumprir rigorosa e atempadamente os planos que a empresa fez para ele. Tem-se chamado a este modelo de “currículo à prova de professor”. Segundo o modelo planeado, o modelo só pode não funcionar se o professor não cumprir obedientemente os ritmos, os conteúdos planeados e não usar os materiais que lhe são fornecidos.



António Sampaio da Nóvoa publicou em 1987 um ensaio notável e seminal sobre “O tempo dos professores” (Le temps des professeurs: analyse socio-historique de la profession enseignante au Portugal (sec. XVIII – XX). Trata-se de um livro de leitura indispensável que, além de traçar a evolução da profissão docente ao longo de 300 anos, mostra como os professores surgiram e como à custa de longos e penosos processos se puderam afirmar como uma classe profissional indispensável ao(s) desenvolvimento(s) humano(s).
Mesmo recentemente não deixaram de aparecer duvidas sobre o caráter imprescindível da profissão de professor. Lembro, por exemplo, que quando surgiram as primeiras e desastradas experiências de introdução das Tecnologias Digitais na Educação, havia teóricos que profetizavam o desaparecimento a curto prazo dos professores porque seriam substituídos (e segundo eles com vantagem) pelos computadores. Dizia-se para anunciar o “admirável mundo novo” dos computadores na Educação que eles eram mais pacientes que os humanos (aqui havia uma incompreensível confusão entre ser paciente e ser repetitivo…), os computadores eram mais disponíveis, mais versáteis, etc. O certo que cedo se verificou que todas estas vantagens eram inúteis se não existisse um professor que contextualizasse as aprendizagens, que explicasse as suas dificuldades e implicações, um professor, enfim, que falasse humanamente com os alunos. Assistimos ainda hoje a outras tentativas e subalternizar o papel dos professores. Darei outro exemplo: há países em que as entidades responsáveis pela Educação compram a empresas privadas o currículo, os materiais, os livros e mesmo a supervisão do processo educativo. Este “franchising” educacional leva a que o professor se converta num mero “entregador” do currículo, tendo somente seguir e cumprir rigorosa e atempadamente os planos que a empresa fez para ele. Tem-se chamado a este modelo de “currículo à prova de professor”. Segundo o modelo planeado, o modelo só pode não funcionar se o professor não cumprir obedientemente os ritmos, os conteúdos planeados e não usar os materiais que lhe são fornecidos.
Muito mais exemplos poderiam ser dados de tentativas (felizmente mal sucedidas) de substituir o professor, de acabar este “Tempo dos Professores” com lhe chamou Sampaio da Nóvoa. O facto destes exemplos caricaturais terem sido desmontados não deve esmorecer a nossa vontade de encontrar respostas para a questão de “Como se pode reforçar e valorizar o trabalho dos professores?”
Os últimos anos de governação em Portugal foram um verdadeiro laboratório sobre como retirar relevo e autonomia aos professores. Muitos aspetos se poderiam evocar mas referir-nos-emos a três que nos parecem mais importantes:
Os professores tornam-se mais fortes quando se reforça a autonomia e a possibilidade de gerirem o seu trabalho pedagógico. Isto quer dizer que currículos extraordinariamente extensos e complexos vão “engessar” o professor e retirar-lhe tempo e disponibilidade para usar com os alunos outros métodos que não sejam os estritamente transmissivos. Com currículos destes escasseia tempo para que os alunos aprendam a resolver questões em grupo, para apoiar os alunos que “descolem” da “velocidade de cruzeiro” a que são transmitidos os currículos e não permite qualquer veleidade de interdisciplinaridade ou mesmo de aplicação a contextos reais. A tão criticada opção governamental de reforçar os exames faz parte deste problema: as escolas usam a desculpa dos exames para justificarem práticas ainda mais tradicionais e conservadoras no seu trabalho pedagógico.
Em segundo lugar não se desenvolveram modelos que incentivem, encorajem e recompensem o trabalho cooperativo dos professores. Sabe-se hoje que um professor que trabalhe sozinho tem uma enorme probabilidade de ser incompetente dado que os problemas que se lhe deparam são de tal complexidade que só em colaboração com outros docentes e mesmo outros técnicos é possível encontrar respostas adequadas. A organização da escola, a avaliação dos professores, o modelo de resolução de problemas na escola passa sempre por um professor solitário, e único responsável por assuntos em que na verdade ele não é capaz de resolver sozinho.
Por fim, precisamos de professores apoiados. A formação em serviço precisa de ser reconcetualizada para que possa desempenhar o papel fundamental de inovação e de supervisão do trabalho docente. A formação em serviço tem passado quase sempre ao lado das reais necessidades dos professores e das reais necessidades das escolas. Precisamos de professores apoiados e, assim sendo, fortalecidos para enfrentar os complexos problemas do quotidiano escolar.
Hoje, como antes, estamos - como escreveu Sampaio da Nóvoa - o tempo dos professores. Não dos professores, sozinhos, dos professores sabe-tudo, mas no tempo de uma classe profissional que tem cada vez mais de entender como se convence e seduz os alunos para a importância do conhecimento, da inovação e da pesquisa. Mas também como é que se chega a estes objectivos usando valores e práticas que sejam humanas, solidárias e participativas. É este o tempo presente dos professores.

Autor: David Rodrigues
Presidente da Pró-Inclusão / Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, Conselheiro Nacional de Educação.
Fonte: Público

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PARABÉNS ESCOLA DO CURRAL. PARABÉNS PROF. JOAQUIM SOUSA. PARABÉNS A TODO O CORPO DOCENTE


A comunidade educativa da Escola 123PE do Curral das Freiras (Madeira) está de parabéns. Hoje, na Fundação Calouste Gulbenkian, o Dr. Joaquim José Sousa (Director) e a própria Escola serão distinguidos no âmbito das "Personalidades com Corações que Constroem". O Professor foi convidado a integrar a mesa de debate "O Poder da Educação na Conquista da Igualdade". A cerimónia, entre outras figuras, registará a presença do Senhor Presidente da República.


Esta distinção não surge por mero acaso. É consequência de estarmos em presença de uma ESCOLA que, paulatinamente, tenta ser diferente das demais, apesar das constantes ameaças e perseguições da tutela. Ao contrário do que seria desejável, entusiasmarem e criarem as condições para que a escola em causa funcione como um laboratório de experiências, isto é, de mudanças paradigmáticas organizacionais e pedagógicas, susceptíveis de serem universalizadas a toda a Região, há políticos que têm dado a entender que não gostam de perder palco quando outros avançam, inovando e rompendo com as caducas estruturas do sistema educativo, apenas motivados pelo princípio que um aluno "não é um número, mas um indivíduo".
Felizmente, outros reconhecem aquilo que cá dentro parece ser gerador de dores de cotovelo! Parabéns a todo o corpo docente, liderado pelo professor Joaquim José Sousa.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

POLÍTICA EDUCATIVA - AGORA NUNCA É TARDE... PARA SONHAR



Pedro Barroso foi Professor de Educação Física durante vinte anos. 
Caríssimos Professores, por favor, oiçam este texto: "nunca é tarde de mais para exigir e para sonhar.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

LAMBEM PARA CIMA ESCOICEIAM PARA BAIXO


Este é um desabafo. Inabitual, da minha parte, sobretudo pela frontalidade e crueza das palavras. Estou cansado de ver sinais dados por alguns políticos que tentam secar tudo à volta. Normalmente escolhem ou os menos bons ou, intencionalmente, zangam-se com os melhores, gerando entropia nos serviços que tutelam, para que eles próprios sobressaiam. Subtilmente, como se ninguém estivesse a ver o jogo, descomprometem-se relativamente aos seus pares, baralham o jogo, habilidosamente perseguem, silenciosamente fazem o que lhes dá na real gana, mas vergam-se ao "chefe", isto é, como é vulgar dizer-se, "lambem para cima e escoiceiam para baixo". E lá vão sobrevivendo no meio político sem que lhes descubram a careca e o vazio interior que faz eco. O poder está entregue, em alguns sectores, a desmiolados, a pessoas sem conceitos, "analfabetos" naquilo para que foram convidados, jurando pela honra cumprir com lealdade as funções confiadas. Lealdade ao "chefe", obviamente que sim, porque, facilmente, sabem que lhes podem ser oferecidos um par de patins e lá vão avenida abaixo! Lealdade e humildade em função da grandeza do acto de bem governar, com visão de futuro, isso aí, calma, primeiro o lugarzinho, depois, a imagem pública, depois, ainda, o que fica para o futuro. Se ficar...


O drama desta situação é pensarem que são donos da verdade, demonstrarem excesso de vaidade, desejarem ser referência de qualquer coisa, passarem, até, a imagem de excelência, quando, ao fim e ao cabo, existem tantos na sociedade, de professores universitários a investigadores com "cabeça", capacidade e mestria. Até alunos melhores! Então, julgo eu, eriçados pelo ciúme, com o receio de perderem o pódio, tentam fazer a vida negra aos outros, àqueles que trazem o novo e conseguem resultados entusiasmadores. Instauram processos disciplinares, mandam inspecionar desde a tasca à escola, porque todos devem vergar-se à padronização e à centralização do poder. Vergar-se ao seu "chefe", melhor dizendo. O egoísmo é tal que não conseguem olhar para o lado, ver e aplaudir o que de bom alguns fazem com enorme paixão. Aí, alto e parem o baile, porque "eu sou o presidente da junta", o meu umbigo é o centro do mundo e tudo tem de passar pelo meu crivo. Entristece-me gente assim. Magoa-me quando vejo alguém magoado por andar com a coluna direita.
Não é novo este quadro de tentativa de apagão e de, intencionalmente, provocarem o conflito onde não existe, para fazerem os outros baixar os braços, pelo que pensam, pelo que dizem e pelo que fazem. Ao longo da minha vida profissional assisti a tantas situações com esta raiz de pensamento abstruso e indigno. Até um tolinho me instaurou um processo disciplinar na lógica da perseguição maquiavélica e ao jeito político de "para os amigos tudo, para os inimigos nada e para os restantes aplique-se a lei". Hoje, olho à volta e detenho-me não nessa apregoada "renovação", mas na frase histórica que ditava a mentirosa "evolução na continuidade". Não suporto políticos medíocres, que infernizam a vida dos outros, que preferem a rotina do passado a demonstrarem um rasgo portador de futuro. Olho com preocupação para sujeitos científica e culturalmente fracos que ocupam lugares institucionais e vê-los atravessar a passerelle como iluminados. Não conseguem irritar-me, mas fico em estado de desassossego sobre o futuro. Este é um desabafo. Um dia destes, sei lá, regressarei com a denúncia. Vão mas é bugiar!
Ilustração: Google Imagens.