quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Encontros inesperados


Há dias interessantes que nos põem a reflectir. Ontem vivi dois momentos completamente díspares um do outro, mas que acabei por conjugá-los. Entrei em uma superfície comercial para adquirir um equipamento e o colaborador que me atendeu deixou-me surpreendido. Sabia de electrónica aquilo que eu já não vou a tempo de integrar nos meus circuitos! Fomos falando, pensando eu que se tratava de um licenciado em engenharia de sistemas, ali a trabalhar enquanto melhor não surge, quando, a páginas tantas, diz-me que apenas tem o 9º ano, mas que nutre uma paixão pela electrónica, que toca guitarra e bateria. Tudo conseguido de forma autodidacta, lendo, consultando e seguindo os seus interesses. Eu diria, sonhos! 

Ainda questionei, confesso, em tom de provocação: a base aprendeu na escola, certamente! Respondeu de enfiada: a escola foi uma maçada e, para além de "algumas coisas e do convívio", naquilo que eram os meus interesses, nada me deu. 
Saí dali a pensar na "aula" de tecnologia (e não só) que me tinha dado e, sobretudo, no testemunho sobre uma escola que, infelizmente, os jovens ainda têm. Conclusão do circunstancial encontro: continua tudo centrado nos gabinetes, onde adultos avessos à mudança, distantes da realidade, vertem para a escola as suas convicções primárias. E não se contentam com isso: infernizam quem lá trabalha com "paletes" de papelada, onde só em teoria os jovens estão no centro das suas preocupações educativas. 
Mais tarde, cruzei-me com um "velho" Coronel, porém, sempre novo em pensamento. Desde os tempos da Guiné, já lá vão 48 anos, julgo que falámos não mais de três vezes. Foi muito bom revê-lo, pela Amizade construída naquela ex-colónia. A conversa rapidamente entrou pelo âmbito da pobreza institucional em Portugal, pela indisciplina, pela corrupção, pela acentuada irresponsabilidade e degradação, dizia ele, na própria instituição militar, pela ausência de princípios e de valores, sobejamente sensíveis em um salve-se quem puder, pela falta de Homens e Mulheres referências de credibilidade e notoriedade política e social. Um diálogo muito distante, sublinho, de símbolos pessimistas, ao jeito de "no meu tempo é que era bom", mas factual, quando se passa em revista o que por debaixo dos nossos olhos vamos observando. Conclusão do encontro para além da satisfação de estarmos um com o outro: vive-se um tempo de mentira, de aldrabice e de espezinhamento.
Conjugando os dois encontros, o do tal jovem e o do meu distinto Coronel, constato um denominador comum que justifica, senão tudo pelo menos em uma grande parte, a escola que pretensamente "forma" para um falso conhecimento enciclopédico, mas que deixa de lado o estrutural, a pessoa, daí às consequências na factura na sociedade que estamos a viver. O resto, como me disse o jovem da tal superfície comercial, "está na net". Basta procurar. O problema é que a Escola continua a não querer perceber isto.
De facto, há dias que nos deixam a reflectir.
Ilustração: Google Imagens.
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domingo, 5 de janeiro de 2020

UM FATINHO IGUAL PARA TODOS

No passado dia 03 de Janeiro fez dois anos que publiquei um texto baseado na série televisiva "10 segundos para o futuro - O Mundo em 2077". "(...) Este primeiro programa de uma série de quatro, deixou-me completamente pregado ao sofá. Emocionante. Permitiu-me, por extensão, reflectir sobre o Sistema Educativo que, teimosamente, continua, parece que alegremente, a repetir o passado longe de se constituir como uma fonte prospectiva do futuro. Esta série deveria ser, "obrigatoriamente", vista por governantes, professores, responsáveis pelos estabelecimentos de ensino, motivo de reflexão que coloque em causa todo o sistema organizacional, os currículos, os programas e toda, toda a organização pedagógica. Estamos face à inteligência artificial, porém, o sistema educativo continua lá para trás na era industrial. Que pobreza! (...)"
A animação que aqui reproduzo, no essencial, transmite a preferência da Região pela "formatação" da aprendizagem, tal qual um "fatinho igual para todos". Com algumas mexidas nas margens, porque o miolo continua sempre igual. 
É a Escola sem pensamento crítico que prevalece.


Evolução das tecnologias na Educação

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Secretaria Regional da Educação recorre da decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal do Funchal


Recorrer de uma decisão é um direito que lhe assiste. Porém, em função dos factos apurados pelo Tribunal, inequívocos e que espelham, apenas, perseguição ao docente em causa, eu diria que é necessário ter uma descomunal lata para continuar uma luta que, já não falo no plano da Justiça, mas no ético, é demonstrativa da pobre mentalidade de quem a Educação está entregue. Aqui fica um texto (integral) que me foi enviado (Forum Sociedade).



3. Secretaria Regional de Educação recorre da decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal do Funchal, continuando a pressão sobre o professor Joaquim José Sousa e a sua família, até quando o dinheiro dos contribuintes será usado para prejudicar os mesmos.

4. Porque não disponibiliza a Secretaria Regional de Educação as Atas da escola do Curral das Freiras, que foram pedidas pela trabalhador a 4 de janeiro de 2019.

Síntese:

1ª A injustiça do processo teve consequências danosas para a comunidade (extinção da escola) e calamitosas para a família do visado (pobreza e humilhação social) https://www.jm-madeira.pt/capa/ver_edicao/2194 https://www.facebook.com/search/top/?q=Ricardo%20Araujo%20Pereira&epa=SEARCH_BOX;

2ª A pena injusta e ilegal teve consequências injustas para a vida do profissional de educação e para a sua família (das quais dificilmente recuperará) https://www.dnoticias.pt/impressa/hemeroteca/diario-de-noticias/esta-a-destruir-me-e-a-minha-familia-IL3782486;

3ª Como é possível que a Administração Educativa Regional saia impune depois de todo o mal que foi feito à comunidade, ao profissional de educação e à sua família https://sicnoticias.pt/pais/2019-03-26-Ex-diretor-da-Escola-Basica-do-Curral-das-Freirassuspensopor-seis-meses-e-sem-direito-a-salario;

4ª O estado não pode nem deve continuar a fragilizar a administração escolar, que é responsabilizada pelos recursos que não têm, pela legislação que não conhece, pela burocracia que entulha as secretárias, sendo culpabilizada numa autonomia onde só é autónoma dentro do que já decidem por ela https://www.publico.pt/2018/04/18/sociedade/noticia/director-de-escola-modelo-alvo-de-processo-disciplinar-1810755.

O Tribunal Administrativo e Fiscal do Funchal mandou anular os atos cometidos contra o Prof. Joaquim José Sousa pela Secretaria Regional de Educação da Madeira, no dia 17 de dezembro de 2019, devido a erros de vicio no decorrer do processo, a defesa evocou:

Ø PRESCRIÇÃO DO PROCEDIMENTO⇒ANULABILIDADE DA DECISÃO;
Ø VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA IMPARCIALIDADE (ART. 9.o, DO CPA E 32.o DA CRP)⇒NULIDADE DA DECISÃO;
Ø ILEGITIMIDADE DA SENHORA INSTRUTORA;
Ø PARCIALIDADE DA ACUSAÇÃO;
Ø OMISSÃO DE PRONÚNCIA;
Ø A DESCONTEXTUALIZAÇÃO E ERRADA APRECIAÇÃO DOS FACTOS.

Não obstante a extensa e raramente vista acusação (com 388. Artigos) os artigos onde se imputam comportamentos ao professor, resumem-se aos artigos: 371.º a 382.º.

- Onde se encontram acusações como:

Enviar os horários por e-mail (decisão lavrada em ata de direção setembro de 2017 e em ata de Reunião Geral de Professores – em ambas aprovada por unanimidade);

Solicitação de não juntar turmas de ano no 1º ciclo à administração educativa (decisão lavrada em ata de conselho pedagógico, executivo e da comunidade educativa);

Atribuição de horas extraordinárias compensadas com descanso compensatório para que os alunos em virtude da falta de docentes pudessem terminar os respetivos cursos no ano letivo (com a concordância de todos os docentes e aprovado em sede de conselho executivo e de conselho pedagógico – decisão aprovada por unanimidade e lavrada em ata de ambos os órgãos e autorizada por escrito pelos docentes), o próprio presidente do órgão de gestão foi lecionar para suprimir a falta de docentes (decisão aprovada por unanimidade e lavrada em ata do conselho executivo);

Anulação de matrícula a um aluno que findo o 3º ciclo se candidatou a várias escolas e tendo entrado numa (CEFAD em Palmela), não anulou a candidatura na escola do Curral das Freiras, quando comprovadamente o encarregado de educação pediu a anulação da matrícula – a mesma foi anulada pelo conselho administrativo (decisão aprovada por unanimidade e lavrada em ata do conselho executivo);

Abertura da escola às 07.30 para acolher em espaço quente e acolhedor as crianças da creche, da pré e do 1º ciclo, monitorizado voluntariamente por docentes (em virtude da falta de funcionários) https://www.dnoticias.pt/madeira/e-imprescindivel-provir-as-escolas-com-funcionarios-de-carreira-CX3101747 https://www.dnoticias.pt/impressa/hemeroteca/diario-de-noticias/escolas-com-falta-de-funcionarios-YY2133166 que promoviam atividades lúdico-pedagógicas (com a concordância de todos os docentes, proposto pelo Departamento de Expressões e aprovado em sede de conselho executivo e de conselho pedagógico – decisão aprovada por unanimidade e lavrada em ata de ambos os órgãos e autorizada por escrito pelos docentes);

O Tribunal analisou o processo e mandou anular os atos praticados contra o Prof. Joaquim José Sousa por a Secretaria Regional da Educação não ter cumprido os prazos para investigar acusar e julgar o docente.

Porquê:

Acusação inicial - requisição a mais de professores de informática e economia para o ano de 2017/2018.
Acusação não contemplada na acusação final.
11 das 12 acusações são sobre factos que ocorrem posteriormente à abertura do processo disciplinar.

Factos:

O órgão de gestão era colegial – votações por maioria – em ata está plasmado que várias vezes o presidente do órgão votou vencido;

Existia um regimento interno com tarefas atribuídas - apenas uma das acusações estava sob a alçada do presidente do órgão (plasmado em regimento interno do conselho executivo e em atas do mesmo)

Apenas um membro foi acusado e punido – sem nunca ter sido ouvido em sede de instrução ao contrário dos restantes membros do órgão de gestão

Ao longo do processo foi privado:

Ø - do direito ao recurso hierárquico (o secretário da Educação que era o recurso quis ser ele a aplicar a pena e não o diretor da administração educativa que era a quem o competia fazer por lei);

Ø - da presunção de inocência (desde o início a administração tudo fez para o condenar, inclusive contar mochilas);

Ø - do acesso à informação que o ilibava (foi condenado antes de receber as atas solicitadas que estão em poder da administração);

Ø - do direito ao seu bom nome (enxovalhado publicamente pela Secretaria Regional de Educação);

Ø - do direito à saúde (teve de recorrer a empréstimos para pagar casa, escola, saúde aos filhos de 4 e 6 anos);

Ø - do dever de alimentar os filhos (só com o salário da esposa);

Ø - do direito de exercer a profissão (confinado ao riso e ao descredito dos pares);

Ø - do direito a viver em segurança e em liberdade – foi ameaçado e condenado em praça pública por fonte da SRE;

O que provocou que o mesmo tenha sido suspenso sem vencimento por 6 meses e sujeito a uma profunda humilhação pública por parte da Administração Regional de Educação da Madeira.

Para ver os seus direitos reconhecidos pagou um elevado preço, enquanto a administração usou o dinheiro dos contribuintes para perseguir, humilhar e destruir a honra, o prestígio e o seu bom-nome, o que coloca em causa o futuro da família do Prof. Joaquim José Sousa.

Joaquim José Sousa é um profissional que nos últimos dez anos recebeu três louvores, obteve quatro avaliações de excelência, cuja gestão foi reconhecida como de excelência a nível regional e nacional, que elevou a qualidade da educação regional a patamares nacionais, que sempre respeitou a escola democrática e a descentralização que a lei preconiza – pena – SUSPENSÃO POR SEIS MESES SEM VENCIMENTO

A Secretaria Regional de Educação continua a gastar fundos públicos e recorreu da decisão do Juiz a 30 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Educação (sem) paixão?


Por
Dnotícias - 31 DEZ 2019 

1. No início do passado mês de novembro, o Governo nacional, perante a nova controvérsia de acabar com os chumbos até ao 9º ano, sucessivos pedidos de esclarecimento a António Costa sobre o seu ‘plano’ para combater as retenções e desistências – cerca de 50 mil alunos, de acordo com os números ostentados – e diante a possibilidade de haver passagens administrativas (logo negadas) de alunos, levantou, na reta final da segunda década do milénio, mais uma vez, aquele que é talvez o maior problema cultural do nosso tempo: a Educação.

Ora, se o princípio de acabar com os chumbos se distendesse até ao 12º ano de escolaridade e estivesse em vigor, então, no corrente ano letivo todos os alunos que frequentam o ensino básico e secundário seriam já nascidos no século XXI, e todos os professores são, impreterivelmente, do século XX. Isto significa, como é evidente, que existiu um hiato de tempo (alguns autores falam de uma a duas gerações) e uma aceleração desse mesmo tempo – só possível com a tecnologia, inovação, informação, conhecimento, tudo efeitos do fulgor da globalização – que a escola procurou acompanhar para preparar os jovens para um mundo em permanente mudança e que prossegue para a era digital, a ciência dos dados, robotização e inteligência artificial. Contudo, se esta mudança e evolução é agora uma evidência, pois irá (melhor, já está) acontecer, também neste processo tudo é uma questão de oportunidades e prazos, e as instituições de ensino (e os professores que nelas trabalham) necessitam e exigem, agora mais do que nunca, de uma atenção especial, acompanhada de mais formação, novos meios materiais e “incentivos”, pois só assim conseguirão executar os compromissos profissionais agendados pelas oscilantes diretrizes políticas e prover as dinâmicas exigidas de visam corrigir desigualdades sociais, a que acresce o indispensável progresso do país.
2. Os “Millennials”, isto é, os cidadãos que nasceram durante os anos 80 e início dos 90, talvez ainda se recordem de um ex-Primeiro-ministro, agora Secretário-Geral da ONU, que encabeçou os XIIIº e XIVº Governos Constitucionais e utilizou um slogan deveras emocional para revigorar uma área que precisava (e continua a necessitar) de reformas e de um forte investimento público: refiro-me à famosa “Paixão pela Educação”, proferida por António Guterres.
René Descartes, por muitos considerado o ‘pai’ da época moderna da história da Filosofia e representante do racionalismo, antecipou o resultado desta “paixão”, na medida em que para ele “as paixões são todas boas por natureza e nós apenas temos de evitar o seu mau uso e os seus excessos”. Guterres tinha uma paixão com razão. Era (e continua a ser) um homem de diálogo, fazedor de pontes, um humanista, visionário, alguém que sabe que os resultados na área da educação não surgem de um dia para o outro, de forma rápida e mágica, e que a educação deve ser uma prioridade e um desígnio nacional que deve unir, mobilizar e não dividir ou ser motivo de disputa político-partidária. Mas não foi preciso esperar muito para que esta “sensibilidade apurada” e paixão pela educação – desde o primeiro ciclo até ao ensino superior, e não esqueço aqui Mariano Gago, referência incontornável de uma geração, quer como ministro quer o papel fulcral que teve na divulgação científica e no aumento da cultura científica dos portugueses sem paralelo na história – desse lugar a um divórcio espinhoso e conflituoso com os professores. Quem não recorda ainda o dia 8 de novembro de 2008, data da mega manifestação que juntou perto de 120 mil professores, em Lisboa, contra as políticas educativas de uma ministra (Maria de Lurdes Rodrigues) que proferiu a célebre frase “perdi os professores, mas ganhei os pais e a população”, a mesma responsável política que atacou, denegriu, desuniu e dividiu (entre professores e professores titulares) uma classe profissional que até então era dotada de respeitável credibilidade e autoridade junto da opinião pública.

O ministro Nuno Crato, aquele que considerou o Dr. Passos “um herói nacional”, não reativou a paixão pela educação, pior, desinvestiu na área e entregou-se cegamente a um impulso que a arrastou para o excesso de burocracia, a elitização do sistema educativo (sobrevalorização dos exames, resultados e rankings); congelou as progressões nas carreiras, propagou a desconsideração social dos professores, alterou currículos e modelos de avaliação dos alunos várias vezes, em suma, foi um ministro que contribuiu ativamente para deterioração das condições de trabalho nas escolas e a redução inopinada e desequilibrada de custos e de professores, que agora tanto escasseiam em algumas áreas científicas e que as muitas escolas procuram contratar. 

Tiago Brandão Rodrigues, a escolha de António Costa, também não reavivou a “paixão pela educação” enquanto titular da pasta no XXIº Governo Constitucional, e nem parece querer fazê-lo nesta sua segunda passagem enquanto ministro. Assiste, de modo impávido e sereno, ao naufragar do sistema público de ensino e, depois de 4 anos no poder, ainda acusa e responsabiliza o seu antecessor no cargo, por exemplo, pelas oscilações negativas nas áreas das ciências e leitura, registadas pelos alunos portugueses na última edição do PISA (Programme for International Student Assessment). Ao mesmo tempo, nada declara nem concebe para inverter uma realidade anunciada que é a de que a maioria dos grupos de recrutamento vão perder mais de metade dos docentes do quadro até 2030; que algumas disciplinas poderão inclusive desaparecer dos currículos com a aposentação de mais de 90% dos seus respetivos professores; que continuam a existir turmas sem professor a certas disciplinas ao fim de mais de três meses de aulas; que apesar da redução, a taxa de abandono precoce na educação e formação, em Portugal, ainda ronda os 12%; para não mencionar que mais de 60% dos professores portugueses estão desmotivados e sofrem de “exaustão emocional”, não esquecendo aqui os mais recentes dados sobre a violência (e a indisciplina dos alunos) contra professores, creio que agora talvez “mais reais”, apesar de muitos silenciarem os factos e não apresentarem queixa por receio de represálias e de serem acusados de não demonstrarem ‘orgulho’ em pertencer a uma determinada instituição de ensino.
3. Em Portugal, se a paixão pela educação ainda existe, ela não passa já há alguns anos nem pela 5 de Outubro (agora transferida para a Avenida Infante Santo) nem pelo Palácio de São Bento, mas encontra-se sim nas milhares de escolas do país onde educadores, professores, pessoal técnico e auxiliar (verdadeiros “mestres” incógnitos), no seu quotidiano, continuam a demonstrar um profissionalismo – com elevado sentido de vocação – e uma dedicação muito especial à missão que lhes foi confiada, despertando nos alunos “poderes e sonhos além dos seus” (George Steiner), ou seja, está patente nas salas de aula, anfiteatros, laboratórios, ginásios e até os corredores e pátios escolares, onde o trabalho diário exercido pelos profissionais da educação visa fundamentalmente que todos os alunos alcancem os seus objetivos e sejam felizes, e só assim podemos falar verdadeiramente de sucesso educativo que não tem “um dono”.
É um facto indubitável que hoje se assiste a uma desvalorização do trabalho realizado pelos professores, que são assim os únicos responsabilizados pela situação da educação em Portugal. No entanto, a necessidade de transmitir conhecimentos, competências e até valores, e de os adquirir, são uma constante da natureza humana e, portanto, a relação de ensino-aprendizagem entre professor-aluno(s), reconhecida numerosas vezes pelos próprios alunos, deverá continuar a subsistir pelo menos enquanto existirem sociedades e humanidade. Els não esquecem o impacto dos verdadeiros mestres sobre o presente e o seu futuro e, adaptando a célebre frase de Bernardo de Chartres, mencionada por João de Salisbúria (Metalogicon III), se hoje “podem ver mais e mais longe não é porque a sua visão seja mais aguda, mas porque eles os carregaram no alto e os levantaram acima da sua altura”.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

PISA visa um modelo educativo colonial


PISA (Programme for International Student Assessement) nada me diz. Na sua essência é uma fraude. Tal como assumiu o Doutor em Educação Pablo Gentili*, Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro,  "las pruebas PISA son el concurso de belleza de la pedagogia" (...) "El PISA construye un mecanismo artificial, lo impone y nadie lo cuestiona, y luego compara (...)". 

A páginas tantas, enaltece o Professor: "(...) La OCDE parte de un principio equivocado, de que hay una forma de pensar el desarrollo y el mundo, que es universal, de Shanghái hasta República Dominicana, todos los jóvenes con 15 años tienen que saber un conjunto de cosas que son fundamentales para sobrevivir y progresar en la vida. El fundamento se basa en lo que piensan "un conjunto de burócratas" de una organización dedicada a la economía mundial "de los países más poderosos del mundo" y que se impuso como la visión dominante "a partir de la cual es posible pensar y presentar los objetivos de la educación". Concordo, em absoluto. E porquê? Porque não existem duas economias iguais, duas histórias e culturas iguais, taxas de pobreza iguais, graus de desenvolvimento vs desigualdade idênticos, sistemas educativos semelhantes, existência ou não de experiências educativas distintas, idênticas taxas de investimento na educação em percentagem do PIB, taxas de abandono e de insucesso iguais, por aí fora. Logo, compara-se e alinha-se em um "ranking" o que é incomparável. Trago, novamente, à colação o Doutor Gentili: "(...) Esto no es nada menos que una evaluación de los sistemas educativos nacionales a la luz de estos principios y estas competencias que nunca se ponen en duda y que establece un horizonte, un modelo educativo colonial, dominante y para nada universal ni científico" (...) las pruebas PISA son "un verdadero desastre", se imponen por la fuerza que ejerce la organización poderosa que las realiza en los medios de comunicación (...)".

Ora bem, apesar disto, lá veio o secretário da Educação da Região da Madeira falar dos méritos do sistema, das posições, embora modestas, no quadro das regiões do país, porém sem qualquer preocupação de análise ao que se esconde para além do PISA. Como se os números falassem por si. E não falam! Deveria ter explicado, entre múltiplos aspectos, o seu entendimento entre o grau de pobreza na Região e os resultados; qual a relação entre a gravidade do abandono e do insucesso e os resultados; finalmente, como é que são seleccionados os alunos que fazem os testes PISA, se a amostra é, rigorosamente, aleatória, ou se são por escolha de alguém.  

O secretário evidencia, no seu discurso, "o caminho do sucesso" mas fica a pergunta, qual caminho?  Alguém o conhece? Haverá algum caminho ou esse caminho é o da repetição de processos completamente desadequados em função do Mundo que estamos a viver e daquele que facilmente se adivinha ali ao virar da esquina?
As declarações de Pablo Gentili, ex-secretário executivo do "Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO)" são evidentes: "las pruebas PISA son el concurso de belleza de la pedagogia". A propósito, transcrevo o que escrevi há três anos: "(...) Há, por um lado, diversas realidades históricas, económicas, sociais e culturais, que não permitem, com rigor, comparar o que é incomparável, e, por outro, sabe-se que não é seguro o carácter aleatório de escolha dos alunos que se submetem aos testes. Factos que distorcem e colocam em causa o resultado final. Bastam estes dois aspectos para que se fique de pé atrás na análise dos resultados. Muito mais importante seria conhecer a estrutura dos diversos sistemas educativos, se eles estão ou não adequados ao tempo que vivemos, à própria investigação, se transportam ou não um princípio hierárquico contrário à verdadeira autonomia dos estabelecimentos de aprendizagem, o grau de formação dos docentes e a sua disponibilidade para aceitar novos paradigmas pedagógicos, mais ainda, qual a relação entre o sistema educativo (a jusante) e as preocupações de natureza social (a montante). São estes aspectos que determinam se os sistemas são ou não portadores de futuro (...)".   
"(...) (PISA), repito, passando ao lado das realidades históricas, económicas, sociais e culturais, trazem no seu bojo uma intenção subliminar conducente à visão do Mundo que a teia deseja operacionalizar. OCDE é uma sigla que significa "Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico". Certo? Portanto, não sejamos inocentes e não façamos de um qualquer "ranking" a radiografia do País ou Região para esgrimir ou enaltecer, partidariamente, posicionamentos que, tarde ou cedo, rebentarão nas próprias mãos". Uma região com altas taxas de repetência, com 30% de pobres, com sérias dificuldades na qualificação profissional, com baixos salários, com altíssimas necessidades de Acção Social Educativa, do básico ao universitário, "com lacunas graves na mentalidade e usufruto dos bens culturais, é lógico que não pode ser uma região cujas crianças, globalmente, sejam felizes e com apetência pelo conhecimento". Mais. Uma região "com uma estrutura do Sistema Educativo assente no Século XIX não pode ter aspirações ao desempenho de países que ultrapassaram o analfabetismo há mais de um século e cujas economias nada têm a ver com a situação portuguesa. É comparar o incomparável. Esqueçamos, pois, os "ranking's ou olhemos para eles de forma distante e fria. Mais avisado será estudar as traves-mestras da estrutura em que assenta o sistema educativo. Porque mais escola e mais horas de Português, de Matemática ou de Ciências, não significam melhor escola e melhor futuro. PISA, por tudo isto, não prova nada. E para que fique claro, sou pelo rigor e pela exigência, só que através de um paradigma organizacional e pedagógico completamente diferente de tudo quanto enformaram os Séculos XIX e XX.
Senhor secretário, integrei, com o decorrer dos anos, duas sínteses que observei dos Mestres com quem muito aprendi e privei: primeiro, só é legítima uma opinião séria e fundamentada quando se faz, também, um esforço sério e fundamentado de estudo das variáveis de um determinado tema; segundo, complementarmente, à partida, todos têm razão, desde que a justifiquem de forma consistente e inequívoca a sua análise. É básico. 
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
A ler, complementarmente, um texto contraditório sobre as políticas da OCDE

* Pablo Gentili. Nascido na Argentina. Doutor em Educação pela Universidade de Buenos Aires. Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Autor de A falsificação do consenso: simulacro e imposição na reforma educacional do neoliberalismo (Vozes, 1998) e organizador de Pedagogia da exclusão: crítica ao neoliberalismo em educação (Vozes, 2004).

sábado, 7 de dezembro de 2019

"Não, porque Não"


Um clássico que se mantém entre as expressões dos pais...


O "Não porque não!" de hoje e o "Não porque não!" de há uma geração têm pouco a ver. É claro que, do ponto de vista da forma, são iguais. Mas em relação aquilo que querem dizer são muito diferentes.
Há uma geração, a educação era, seguramente, mais austera. Sem dúvida, mais autoritária. Mais distante. Menos comprometida com os exemplos que os pais davam, todos os dias. E muito pouco implicada a ter, da parte duma criança, uma concordância tácita em relação aos nãos dos pais. Daí que o "Não porque não!" servia para que os pais jamais se dessem ao trabalho de explicar um “Não!”. E com isso seriam, muitas vezes, prepotentes.
Hoje, a educação é, incomparavelmente, mais democrática. Mais acolhedora. Mais desejosa de criar uma autoridade igual para todos só que uns a exercem e os outros a sufragam. Daí que o "Não porque não!" surge, muitas, depois de se terem explicado muitos "nãos", talvez vezes demais. Sendo assim, o "Não porque não!" quer dizer que os pais chegam a um limite em que, com um "Não" mais impetuoso, esperam que uma criança os compreenda. Mais do que os tema.
Há uma geração, o "Não porque não!" representava, sobretudo, uma afirmação autoritária dos pais. Mesmo quando os seus exemplos e aquilo que eles exigiam não coincidissem em nada.
Hoje, o "Não porque não!" quer dizer quase completamente o contrário. Estamos tão convictos dos nossos exemplos e tão certos da justiça das nossas exigências que entendemos não ter de explicar um não. Porque o que somos explica aquilo que exigimos.
Há uma geração atrás o "Não porque não!" gerava medo - muito medo - e a insegurança de, ao desafiá-lo, virem represálias furiosas da parte dos pais.
Hoje, o "Não porque não!" gera receio. E espaço para perguntar "Porquê?" ou para reclamar que "Não é justo!". Mesmo quando se reconhece justeza no acto de exigir.
É claro que nenhuma criança do mundo gosta de ser contrariada. E que, ontem como hoje, o "Não porque não!" nunca mereceu reacções entusiásticas por parte dum filho. Mas enquanto o “Não porque não!” era tudo aquilo que separava os pais dos filhos, o "Não porque não!" de hoje aproxima-os. Sobretudo quando põe algumas regras nalguma "anarquia" que o excesso de explicações ajuda a criar.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O Impacto da Revolução Tecnológica na Educação


Por
Arlindo Oliveira
PÚBLICO
2 de Dezembro de 2019


A profundidade do conhecimento não perdeu importância, mas tornou-se mais relevante ter a capacidade de procurar informação adicional e específica sobre determinados temas do que memorizar dados específicos, métodos ou algoritmos


O impacto da chamada quarta revolução industrial no emprego tem sido amplamente debatido e discutido, dando origem a centenas de estudos e artigos de opinião com as mais variadas conclusões. Porém estes estudos exibem bastantes divergências no que respeita ao previsível impacto da tecnologia no número de empregos que virão a estar disponíveis num futuro a médio prazo, eles são geralmente convergentes num aspecto em particular: a importância de preparar os jovens e os adultos para um futuro onde tecnologias como o digital, a robótica, a inteligência artificial, a biotecnologia, os materiais e as nanotecnologias terão um papel importante.
O moderno sistema educativo, baseado no ensino massificado, onde turmas de alunos com idades semelhantes adquirem um conjunto de competências muito semelhantes definidas por currículos padronizados evoluiu nos últimos dois séculos e é por vezes designado de “modelo fabril”, por analogia às linhas de produção em série que caracterizaram a revolução industrial. Embora o mérito desta analogia tenha sido alvo de bastante discussão, não deixa de ser verdade que o actual modelo, baseado na ideia de uniformidade (“one size fits all”) se tem vindo a revelar progressivamente mais desajustado das necessidades dos estudantes e da sociedade, enfrentando pressões com diversas origens.
Por um lado, existe cada vez mais informação disponível na Internet, que permite aos estudantes terem acesso a aulas, seminários, textos e exercícios sobre as mais diversas matérias, o que torna as aulas puramente expositivas menos atractivas. Há 40 anos, um aluno de engenharia interessado em aprender, por exemplo, cálculo diferencial e integral ou mecânica clássica apenas tinha como opções sentar-se em aulas na universidade ou aprender directamente a partir do estudo individual de livros de texto. Hoje, existem centenas de recursos publicamente acessíveis. Acresce que estas novas metodologias, baseadas em sessões de aprendizagem curtas, interactivas e apelativas, são muito mais adequadas aos jovens de hoje, cuja capacidade de concentração em aulas expositivas mais longas é, em regra, inferior à das anteriores gerações, por força da constante e permanente exposição aos novos media.

Por outro lado, a importância da memorização ou do domínio aprofundado de temas muito específicos, em determinadas áreas técnicas e científicas, caiu com a permanente disponibilidade de recursos especializados, acessíveis à distância de um telemóvel, de um computador ou de um programa que execute um determinado conjunto de cálculos. Um especialista poderá sempre aceder a informação adicional sobre uma doença ou usar um programa para calcular o dimensionamento de uma estrutura, para dar apenas dois exemplos. A profundidade do conhecimento não perdeu importância, mas tornou-se mais relevante ter a capacidade de procurar informação adicional e específica sobre determinados temas do que memorizar dados específicos, métodos ou algoritmos.

Finalmente, existe uma crescente percepção da importância da interdisciplinaridade. Cada vez mais as organizações valorizam profissionais que aliam os conhecimentos da sua especialidade (seja ela engenharia, economia, medicina ou outra área técnica) com competência de trabalho em equipa, conhecimentos de outras áreas e capacidade de comunicação. Muitos dos desafios das organizações exigem abordagens interdisciplinares, porque a adopção com sucesso de novas tecnologias requer abordagens sociais, económicas e psicológicas adequadas.

O sistema educativo, em geral, e o sistema de ensino superior, em particular, tem sido relativamente lento a reagir a estes ventos de mudança. A Academia é muito conservadora e resiste, tenazmente, a alterações no modelo de ensino. Na esmagadora maioria dos casos, a formação numa universidade portuguesa de hoje é muito semelhante à formação de há quatro décadas, embora existam relevantes e meritórias excepções. 

Não só os currículos dos cursos são semelhantes ao que eram, muitos deles rígidos e permitindo aos alunos poucas alternativas, como as aulas são, em si mesmas, muito semelhantes às que eram leccionadas quando eu andei na universidade, no princípio dos anos 80. Existem excepções, naturalmente, e o curso de estudos gerais da Universidade de Lisboa, que dá aos alunos grande flexibilidade na definição do seu currículo, é uma dessas excepções, aliás muito bem documentada num livro da autoria de António Feijó e Miguel Tamen publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Num relatório da OCDE, sobre o ensino superior português, elaborado a pedido do governo e tornado público em 2018​, pode ler-se que “Os programas têm tipicamente estruturas rígidas e são orientados para profissões específicas, permitindo aos alunos uma flexibilidade muito limitada na combinação de disciplinas. Adicionalmente, métodos centrados em aulas tradicionais, com um elevado número de horas de contacto são a norma.” A legislação criada com o Decreto-Lei n.º 65/2018, que extingue os mestrados integrados (cursos monolíticos de cinco anos), com excepção de uma minoria imposta por (muito originais) directivas europeias, veio permitir a diversas áreas, mas especialmente às engenharias, reformular os seus cursos para estarem mais de acordo com as modernas tendências e necessidades.
O Instituto Superior Técnico encarou o desafio criado pela obrigação de transformar os mestrados integrados em cursos de primeiro ciclo (três anos) e segundo ciclo (dois anos) como uma oportunidade para modernizar o ensino da engenharia. No caso do Técnico, a alteração nos currículos incluirá mais interactividade do ensino e uma maior flexibilização dos cursos, permitindo aos alunos uma muito maior liberdade na escolha de opções e áreas de especialização fora da sua área central de conhecimento, como inovação, gestão ou comunicação. Os estudantes terão também, pela primeira vez, a possibilidade de escolher disciplinas de outras faculdades da Universidade de Lisboa, tais como Economia, Direito, Medicina ou Literatura.
Abordagens análogas estão a ser seguidas por outras escolas de engenharia portuguesas, entre as quais a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, as faculdades de ciência e tecnologia da Universidade de Coimbra e da Universidade Nova, a Escola de Engenharia do Minho e a Universidade de Aveiro, que integram, com o Técnico, o Consórcio das Escolas de Engenharia, criado no passado mês de Julho para coordenar e potenciar a capacidade educativa de Portugal nesta área.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Conversa entre avô e neto



Avô, diz-me lá o que pensas sobre isto: eu sei que não defendes que os professores façam testes, mas eles existem, ok? Sim. Defendo a avaliação mas não nestes moldes, porque aprender, como tantas vezes te digo, é muito mais do que repetir, decorar e debitar em uma folha de papel para logo esquecer. Mas diz lá, adiantei. Sabes, avô, não entendo como é que nos pedem a "interpretação de um texto", com várias perguntas, quando o que está em causa é a "compreensão ou o significado de alguma coisa". E a minha compreensão pode ser distinta da dos professores. Retorqui: o que me estás a dizer é que dentro de parâmetros aceitáveis, a tua leitura do texto possa não ser idêntica àquela que o professor espera ler como resposta. Quase nem me deixou acabar: não, não se trata de inventar, nem de face a alhos eu responder bugalhos. Pois, percebo, o que me queres dizer é que a compreensão exige a predisposição para o outro aceitar e respeitar a diversidade de opiniões. E eu não sendo dessa área de estudo, julgo que a compreensão se situa na análise (decodificação) ao que está escrito, portanto, a análise pode ser diversa, enquanto que a interpretação remete-nos para a conclusão. Avô, é como estar frente a uma pintura cuja compreensão fica muitas vezes na capacidade e olhar de cada um. Por isso, julgo que não devo dar as respostas que o professor entende como certas. Pois, meu querido, isso é muito complicado. O avô gosta muito de ler um Professor brasileiro, já falecido, Rubem Alves, que um dia disse: "para o burocrata o que interessa é o que vem no relatório, não as crianças". E os professores são hoje mais burocratas que professores. A escola não está organizada para fazer pensar e permitir a compreensão dos fenómenos, mas para dar respostas certas na idade das perguntas. E tu acabaste de me fazer uma pergunta. O Cardeal Tolentino Mendonça, sabes quem é, escreveu que "estamos muito preocupados com as respostas, quando o que nos salva são as perguntas". Estás no caminho certo. Aprendi contigo, porque nunca me tinha passado isso pela cabeça!   

domingo, 24 de novembro de 2019

A simplificação da Escola, precisa-se!


Por SOFIA CANHA 
Dnotícias
24 NOV 2019 

Os conselhos executivos e direções escolares estão envoltos em papéis

Sofia Canha

A Escola é constituída por dois principais grupos de atores: Alunos e Professores, tendo por guião de atuação os programas definidos e por base o currículo formal e o informal. Todas as estruturas à volta devem servir para facilitar as aprendizagens, começando na administração escolar e acabando nos encarregados de educação.
O que se verifica não é isso. Por motivos enraizados numa cultura burocrática, como a portuguesa, é difícil contrair o paradigma vigente. Pior, numa era tecnológica, em vez de se simplificar os processos e práticas administrativas, cada vez mais se complexificam e vão desviando o principal enfoque da Escola. Em comparação (se é comparável) uma escola com 800 alunos, terá 10 a 12 assistentes técnicos, na Madeira; uma escola na Holanda com o mesmo número de alunos tem apenas um. E acreditem que os assistentes técnicos, cá, não brincam, têm muito trabalho administrativo.
As aprendizagens deixaram de ser a principal preocupação dos agentes escolares. Agora são os resultados e a avaliação que mais interessam.
Os encarregados de educação tiveram de acompanhar a nova terminologia escolar e aprender a interpretar um sem número de tabelas de avaliação, em cada disciplina e os diferentes parâmetros avaliativos.

Os professores, por sua vez, têm de preencher mil e uma tabelas de avaliação contínua para expressar os resultados dos conteúdos programáticos, das atitudes e valores e das competências, elaboram programas e projetos para tudo e mais alguma coisa, relatórios, reuniões, etc, em vez de se ocuparem na preparação dos conteúdos e sua abordagem pedagógica e respetiva avaliação contínua e sumativa dos alunos.

Os conselhos executivos e direções escolares estão envoltos em papéis, legislação e processos, também mais preocupados com a gestão do estabelecimento e a avaliação, que os professores apresentam resultantes da sua atividade cada vez mais condicionada. Entretanto, deixam de ter disponibilidade para o mais importante: os alunos. Pois, mas os bons resultados, independentemente das condições para exercerem as suas funções, têm sempre de aparecer e exige-se que sejam cada vez melhores. Estabelecem-se metas de resultado irrealistas independentemente do sucesso ou insucesso dos processos.
Os alunos ficam, com tudo isto, secundarizados. E desculpem, mas reconhecer o mérito de 5% dos alunos, em cerimónias públicas não são argumento para contrariar a realidade.
Temos então Alunos e Professores no meio deste turbilhão administrativo e os encarregados de educação ficam de fora a olhar e com pouca margem para mudar o estado de coisas.
Simplifiquem a Escola, por favor. Deem condições aos alunos e professores para aprender e ensinar. Voltemos ao essencial; não ao currículo mínimo, mas sim a uma Escola simples e rica em diversidade, centrada nas aprendizagens. Podemos diversificar, sem complicar.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Quando faltam espelhos...

FACTO

“Só é possível estarmos hoje aqui e termos estudantes a assumir este papel, porque estamos numa sociedade e numa escola onde a democracia impera (...)" - Secretário Regional da Educação, no acto de posse de uma Associação de Estudantes. Fonte: DIÁRIO.

COMENTÁRIO

"(...) Onde a democracia impera (...)". Acredito que sim, naquela escola e, provavelmente, não em muitas outras. Como é evidente, o secretário regional da Educação sabe que a democracia não se esgota nos actos eleitorais. E sabe também que existem muitas formas de a condicionar. E que existem, também, muitos apetites político-partidários. Recordo um político que uma vez disse, já neste tempo "democrático", que não descansava sem ter uma célula partidária por turma! Portanto, sobre "democracia" e jogos de poder, penso eu, estamos conversados. 
A questão agora é outra. Sou totalmente contra os poderes "duracell". Sejam eles quais forem. Aqueles poderes que se eternizam por todo o lado, inclusive, nas direcções dos estabelecimentos de aprendizagem. Fazem três, quatro, cinco, seis, sete mandatos e por aí fora e não deixam de ser alegadamente "democráticos". Mas a pergunta é esta: à semelhança de outros espaços de intervenção cívica, não deveria existir limitação do número de mandatos nas direcções das escolas?
Na minha opinião, sim, devia. Até o Presidente da República está limitado a dois mandatos. Por uma razão simples: pela não acomodação, pela não subserviência (existe tanta), pela autonomia dos estabelecimentos, pela criatividade e pela inovação. 
Não deixa de ser interessante a declaração do secretário, pois em uma escola (Curral das Freiras) cuja direcção foi democraticamente eleita (80% dos votos, s.e), mas com cujo resultado eleitoral o secretário parece não ter gostado, vinte e quadro horas depois o acto eleitoral não contou, a escola perdeu a sua autonomia, foi integrada em uma outra e ao presidente eleito, Professor Joaquim José Sousa, escarafuncharam e descobriram ninharias administrativas (uma delas ter enviado por e.mail os horários dos docentes, quando deveria ter remetido por carta!), levou com um processo disciplinar de onde resultou seis meses sem vencimento. Mas que democracia esta, pergunta-se, ou será que falar de democracia implica estar sempre submisso ao chefe?
Finalmente, que tal o secretário levar à Assembleia Legislativa uma proposta de Decreto Legislativo Regional para que a democracia funcione melhor nas escolas?
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Que tipo de educação queremos?

Chumbos: desistir é que é fácil


Por 
Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 18/11/2019

É quando fala de educação que a direita portuguesa mais sublinha a sua natureza reacionária. Funciona quase exclusivamente com base no preconceito e no senso-comum, recusando qualquer dado que lhe seja oferecido pelos estudiosos.


Criou mesmo uma carapaça – a que chama “eduquês” –, que a autoriza a não reconhecer qualquer autoridade científica que ponha em causa as suas certezas. Como sabemos, isto faz escola noutras áreas. Claro que não estou a dizer que os pedagogos e cientistas da educação carregam consigo a verdade. Estamos a falar de uma ciência social que se cruza com muitas convicções políticas e filosóficas.
Como dizia José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, um projeto de escola é um projeto de sociedade. Mesmo – ou sobretudo – daqueles que a apresentam como politicamente neutra. Mas há coisas que ultrapassam isto. É o caso das retenções, que popularmente são chamadas “chumbos” – a deputada Cecília Meireles até com a utilização do termo rigoroso parece embirrar. Se faz questão em usar o calão, faço-lhe o favor.
O debate renasceu quando o Governo propôs, no seu programa, “criar um plano de não retenção no ensino básico, trabalhando de forma intensiva com os alunos que revelam mais dificuldades”. Qualquer pessoa de boa-fé percebe que ninguém quer acabar com os chumbos por decreto, apenas reforça que eles não são a forma “normal” de lidar com as dificuldades de aprendizagem.

Vamos aos factos sobre o nosso verdadeiro facilitismo. Somos o terceiro país da OCDE com mais retenções. 35% dos alunos até aos 15 anos reprovaram pelo menos uma vez, o que é uma brutalidade. Na OCDE anda por volta dos 13%. Em 15 anos de testes de PISA, os alunos portugueses subiram de forma extraordinária nos resultados em literacia científica, leitura e matemática. Estão melhores, portanto. E isso deve-se ao trabalho feito pela escola. O que não evoluiu o suficiente? As retenções, que estão nos antípodas dos países que estão à nossa frente. Apesar de se ter conseguido reduzir o número de retenções, pelo menos no ensino básico, nos últimos quatro anos. O que é sinal de um esforço coletivo.

Passar de ano sem saber o que se tinha de saber no ano anterior, pelo menos enquanto a escola continuar a funcionar no modelo que tem cerca de 200 anos e se mantém quase inalterado, é um erro. Porque são necessárias bases para avançar. Há quem use outros modelos, nunca ensinando tudo igual e ao mesmo tempo a alunos que são muito diferentes, mas deixemos isso para outra conversa. Fiquemos por isto: um aluno que não sabe somar não estará preparado para contas mais complexas, um aluno que lê mal não está preparado para compreender textos literários. Estamos todos de acordo. Perante um aluno que não está a acompanhar o ritmo de aprendizagem, há duas possibilidades: a fácil e a difícil.
A fácil é deixar andar as coisas e, no fim do ano, avaliar se o aluno aprendeu e mandá-lo repetir tudo outra vez, da mesma forma, até ele decidir perceber. Usando um termo técnico, chamaria “idiota” a esta estratégia. Porque ela parte do princípio que o aluno não aprendeu porque não quis. E que se for castigado, ouvindo tudo o que já ouviu e passando a estudar com outros miúdos mais novos do que ele, acabará por aprender. Para quem tanto pede que se use o senso-comum, não seria mau socorrer-se dele agora. Compreendo porque há muita gente que se conforma com esta solução e tem resistido a tutorias e várias alternativas de intervir aos primeiros sinais de dificuldade, com bons resultados em muitas escolas. A escola em que o chumbo é a resposta é facilitista. Basta um mero ato administrativo e o problema fica resolvido. Ou fica para outros resolverem.

Basta olhar para a distribuição regional e social dos chumbos para perceber que a escola ainda não conseguiu contrariar a origem dos alunos. Partindo do princípio que os alunos mais pobres e do interior não são mais preguiçosos ou menos inteligentes, foi ela, no seu conjunto, que falhou, avaliando o que recebeu — e não o que fez com o que recebeu.

Ser exigente com os alunos sem ser exigente com a escola não é ter cultura de exigência alguma. Por isso, o caminho difícil obriga os educadores a estarem atentos e a definirem, antes do ato administrativo de chumbar um aluno, uma estratégia para que isso não aconteça. Percebendo que as coisas não estão a correr como deviam, não se continua em frente como se nada fosse. O objetivo é passar o aluno porque o objetivo é que ele aprenda antes de ficar para trás. Para que ele continue ao ritmo normal, estudando com crianças e jovens da sua idade e que conhece. O que passa por a escola se concentrar mais nele, mudando estratégias que não estão a resultar. Esta é a escola exigente. Exigente com o aluno, porque o obriga a tentar fazer as coisas de forma diferente. Exigente consigo mesma, porque não substitui o ato de ensinar pelo mero ato burocrático de avaliar.
Dirão que a escola que temos não está preparada para esse esforço com resultados verdadeiramente eficazes. Ou até que alguns professores não o conseguem fazer. Então é só esse o debate. Assim como não nos passa pela cabeça dizer que se deve deixar morrer doentes porque os hospitais não têm meios. Se isso acontece, concentramo-nos nos meios que temos de dar aos hospitais para cumprirem a sua função, não propomos que se desista dos doentes.
Claro que todas as estratégias podem falhar. E é por isso que ninguém propõe acabar com as retenções (termo correto, porque descritivo), mas torná-las difíceis, para que a escola não a substitua pela sua verdadeira função. No fim, se nada funcionar, ela até pode ser eficaz. Por isso é uma última possibilidade. Excecional, por natureza. Mas para não ser um expediente, tem mesmo de ser a última. E o Estado deve dizê-lo e dar meios para que o seja.
O excesso de retenções ainda é causa e consequência de um falhanço. Consequência, porque nos diz que a escola não se esforçou o suficiente para as evitar. A incapacidade de aprender o que foi definido para miúdos de uma determinada idade com capacidades cognitivas medianas ou até baixas é responsabilidade da comunidade escolar, no seu conjunto. Causa, porque fazer um aluno repetir um ano, voltando a aprender tudo de novo com crianças mais novas, é péssimo para a qualidade do seu percurso de aprendizagem.

Um estudo do Banco de Portugal, realizado por Manuel Coutinho Pereira e Hugo Reis, confirma que o chumbo na fase inicial do trajeto educativo (até ao 6º ano) tem um efeito negativo, e não positivo, no percurso académico a longo prazo. Em geral, sobretudo nos primeiros anos, o aluno não segue mais sólido para a frente, segue em piores condições: “a retenção numa fase inicial da vida escolar - prática particularmente prevalecente em Portugal - parece ser prejudicial para o desempenho educativo no longo prazo. Desta forma, poderá́ haver vantagem em substituir, em parte, esta prática por programas alternativos de apoio.”

Reter um aluno deve ser considerado um gesto extremo, quando todas as outras estratégias falharam. Os números absurdos de retenções mostram que ainda não é o caso. Mostram, como diz a professora Lucília Salgado, que a opção pela retenção é massiva, porque está muito acima da maioria dos países com que nos comparamos, seletiva, porque atinge muito mais os alunos que vêm de famílias com menores qualificações, e precoce, porque começa logo nos primeiros anos, e é cumulativo, porque quem chumba tende a voltar a chumbar.
Infelizmente, quando se assiste a debates parlamentares sobre este tema, a demagogia é tal que se percebe que, para muitos deputados, é só mais uma oportunidade para sacar uns votos. Num tema onde não seria difícil construir consensos que nos continuassem a fazer evoluir. Sim, a evoluir. Porque a parte mais estúpida de todos estes debates é a forma como se negam as evidências estatísticas e da experiência: a escola é melhor hoje, as novas gerações estão mais bem preparadas. Mesmo que seja muito tentador falar dos bons velhos temos de exigência, esse reconfortante mito nacional. E o caminho é o que tem sido feito, não é um recuo para a máquina de chumbar que vigorava no tempo em que fui estudante.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A cultura do chumbo é a cultura do facilitismo


RTP 3 - Notícias, edição de anteontem. O jornalista abordou a questão dos "chumbos zero" no Ensino Básico. A partir das posições assumidas no Parlamento por Rui Rio (PSD) e Cecília Meireles (CDS), relativamente às preocupações enunciadas no "Programa de Governo da República", acabou por questionar as "passagens administrativas", isto é, de alunos que não atingindo um nível satisfatório acabam por transitar de ano. O espaço de informação teve dois momentos sobre o mesmo assunto: primeiro, através da presença dos jornalistas comentadores, Luísa Meireles e Manuel Carvalho; depois, com João Teixeira Lopes (BE) e José Matos Correia (PSD). Curiosamente, todos convergentes na necessidade de travar os "chumbos" e de garantir uma assistência e acompanhamento precoce aos alunos que experimentam dificuldades.

Eu diria que os Deputados Rui Rio e Cecília Meireles ou não leram o programa de governo, ou seguem uma lógica de bota-abaixo político ou, ainda, não estão, minimamente, informados sobre uma escola para o tempo que estamos a viver. Bastaria que lessem o relatório do Conselho Nacional de Educação (2015), assumido pelo Doutor David Justino (PSD), curiosamente "assessor" do Deputado Rui Rio, onde é enaltecida "a manifesta ineficiência desta medida (retenção) para a melhoria do desempenho escolar" (...) e onde é defendida "uma mudança da cultura de retenção, para um investimento em programas contextualizados de combate ao insucesso e de melhoria das condições de ensino e aprendizagem".

Ora, a "cultura do chumbo" está enraizada e essa, do meu ponto de vista, corresponde à cultura do facilitismo na organização escolar. Não sabe, chumba, ponto final. Investir na criança e no jovem, desde o pré-escolar, dá muito trabalho, se dá! A "cultura do chumbo" é, por ausência de investimento correcto, deprimente no quadro, até, das desigualdades sociais. E há políticos que insistem na tecla errada, porque, repito, não estudam ou porque, demagogicamente, preferem seguir as convicções mais populares, muito distantes de um conhecimento cientificamente sustentado.

Entretanto, ontem, segui o "Eixo do Mal" (SIC) onde o mesmo tema esteve em debate. O jornalista Daniel Oliveira foi muito assertivo: "somos o País da OCDE com mais chumbos. 35% dos alunos até aos 15 anos chumbam, pelo menos, uma vez, quando a média da OCDE é de 13%". Para sustentar a sua posição, trouxe à colação a Professora Lucília Salgado que escreveu que os chumbos em Portugal "são massivos, selectivos, precoces e cumulativos". Ora, a ideia de uma hipotética "passagem administrativa" não tem sentido, porque esta não se decreta, quando em causa está, e bem, um investimento na criança e no jovem para que adquiram os conhecimentos considerados fundamentais. Obviamente que este caminho implica, necessariamente, a prazo, um criterioso e compaginado trabalho a montante da escola, nas famílias, uma reorganização do funcionamento da sociedade (horários de trabalho, entre muitos outros), número de alunos por estabelecimento de aprendizagem, substancial mudança ao nível dos currículos, dos programas, da organização da escola e da sua autonomia, uma profunda revisão dos conceitos de aula e de turma e, ainda, no quadro do paradigma pedagógico. Tenhamos presente que, hoje, não se forma, formata-se!
A este propósito li uma oportuníssima reflexão do Padre José Luís Rodrigues, que aqui deixo, porque, a partir dela podemos chegar, facilmente, a um novo conceito de estabelecimento de aprendizagem (não de ensino):

"Ninguém com bom senso nega que todos nós precisamos de espaços que nos iluminem, que nos instruam para as novidades e para todas as mudanças que vão ocorrendo na vida e no mundo. Porém, todas as vezes que oiço vozes insistir tanto em formação, concluo logo que se está a falar mais de formatação do que formação.

Toda a educação, formação e ou a singela transmissão de informação só se revela útil se preparar pessoas para a vida concreta. O que importa mesmo é que tenhamos bons cidadãos, comprometidos na luta pela justiça, cientes de que a transformação do mundo só se fará com uma séria militância pelos valores universais da igualdade, liberdade e fraternidade. E precisam as pessoas que lhe ofereçamos razões para terem esperança. Quase nada se fala nisto.

Toda a educação, catequese, preparação, formação... Entre outras coisas importantes preparara as pessoas para vida, se não tem como horizonte a diversificada e a multidisciplinariedade da existência nunca passará da inútil formatação. Tudo será mais rico quando se ensina para a autonomia, para a diversidade e para a abertura quotidiana à riqueza da novidade que a vida hoje nos oferece a toda a hora. Zero é o que interessa termos pessoas certinhas no cumprimento de ritualismos, mas pobres ou vazias quanto ao pensamento e abúlicas quanto ao dever de se expressarem perante o pulsar quotidiano da vida concreta.
Melhor para todos nós homens e mulheres livremente pensantes, mesmo que sejam poucos, do que multidões de gente que não pensa, mas faz os rituais todos certinhos." JLR

Nota
Texto publicado no blogue
www.gnose.eu

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Por uma escola aberta ao mundo



Vezes sem conta dou comigo a pensar se, tal como outros, não estarei a pregar no deserto. Por isso, consola-me escutar tantos que estudam, investigam e transmitem posicionamentos para um novo mundo que está aí ao virar da esquina. Lamento, por isso, não sei se por teimosia se por ignorância, o pensamento de políticos que preferem as rotinas do passado a traçar as linhas portadoras de futuro.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo


Não é desvalorizando o professor, mantendo-o em rédea curta, descaradamente através da burocratização, gerando o medo e a incerteza, que se formam pessoas para a vida. Este vídeo foi-me remetido pela professora Tânia Fernandes. Vale a pena segui-lo.

sábado, 9 de novembro de 2019

POR UMA EDUCAÇÃO VIVIDA E CONTEXTUALIZADA



A verdadeira sala de aula é aquela que contextualiza a aprendizagem com a vida, vivência e convivência. Tudo é possível aprender. Olhar, ver, sentir, descobrir e cruzar transversalmente o conhecimento deverá constituir a prioridade da Educação. Decorar apenas para debitar com a ideia fixada na avaliação, NÃO. A Educação tem de ser vista pelo lado da cultura.
Ilustração: Ontem, registei estes quatro momentos. Na foto, em baixo à esquerda, um jovem divulga a informação que recolheu, com a professora sentada na primeira fila.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

E a Autonomia?




FACTO

"República deve assumir custos da Saúde e da Educação" - Título de uma peça jornalística do DN-Madeira sintetizando o programa do governo regional PSD/CDS.

COMENTÁRIO

Apenas algumas perguntas: estes dois sistemas não estão regionalizados? Quem paga, por norma, MANDA, daí o que restará da "Autonomia"? E se assim é (ou for) para quê dois secretários? Fará sentido continuar a alimentar, politicamente, guerras sem sentido, quando existem outras formas de atenuar os encargos dos dois sistemas? Passará pela cabeça de alguém que "eles pagam e nós mandamos"?
Para reflectir!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Ocultar o grito dos/as professores/as


Por Laíz Vieira
Cartas do Leitor
DNotícias
04 Nov. 2019 


Mais de 70% dos professores e professoras sofre de exaustão emocional, uma das três características de ‘Burnout’, revelou Raquel Varela num estudo recente feito em Portugal.


Muitos de nós na nossa comunidade, ainda não sabem ou não querem saber, em que condições humilhantes a maioria dos/as professores/as tenta trabalhar nas escolas. Tentam trabalhar, com alunos/as de famílias problemáticas, sem motivação para aprender/evoluir, sem respeito pelos colegas ou pelos mais velhos, sem atitudes cívicas de convivialidade ou gentileza, onde o que impera são as satisfações imediatas ou de alienação, como usar o telemóvel...
Principalmente os que tem por volta de trinta ou mais anos de serviço, estão no limite das suas descrenças e capacidades. Faltas ao trabalho ou baixas médicas são sintomas que ninguém quer assumir como um pedido de socorro.

Não nos ouvimos uns aos outros. Alguns Órgãos de Gestão não ouvem nem protegem os seus docentes e funcionários. O importante é fazer obedecer e subjugar. Não há verdadeira equidade, participação e consequência democrática nas posições que só alguns tomam.

Não há efetivamente consequências, penalizações para quem desrespeita, agride ou insulta. Nem nas escolas nem na esfera da vida doméstica ou pública. Os/as alunos/as tem mais poder que os adultos!
Aos docentes tudo se lhes pede, desde as centenas de grelhas burocráticas (de pouco conteúdo ou consequência didática) a encontrar estratégias e receitas milagrosas para jovens desacompanhados pelos progenitores, sem estímulos culturais, emocionalmente imaturos, mimados e demasiado protegidos das dificuldades diárias da Vida.
Flexibilidade curricular, inclusão, desenvolvimento de competências para o perfil do aluno à saida da escolaridade?!.. Novas nomenclaturas e modismos para problemas e demagogias ou falácias antigas! Saiu-se de uma ditadura para entrar em outra, floreada de palavras cor-de-rosa.
A escolaridade é obrigatória por decreto, mas o saber, a evolução e o conhecimento não é uma exigência enraizada para os seus, nas famílias portuguesas! Só interessa os caminhos e soluções ‘aparentemente’ mais fáceis, o lucro e a ostentação. O valor da determinação, da coragem, do carácter, da auto-responsabilização e exigência não existe.

Também é verdade, que os/as alunos/as passam muito tempo na escola, com muita carga lectiva e tem pouco tempo para o lazer, para passear e socializar. Fecham-se dentro das casas e pouco se relacionam com a Natureza, com as circunstâncias sociais ou leis e dificuldades naturais da existência.

É preciso dar um BASTA a estas circunstâncias que de educativas e evolutivas têm muito pouco! É urgente e vital que os/as professores/as ou educadores/as possam ir para o seu lugar de trabalho com alegria e leveza fazer realmente o que lhes compete que é ajudar os jovens a evoluir, a se emanciparem e não irem com o sentimento depressivo de pesar e impotência. É grave, permitir que alguns jovens estejam na escola só de ‘corpo presente’, a passar por vários anos lectivos sem desenvolver competências, atitudes e conhecimentos que a Vida (a grande Mestra) de certeza lhes vai exigir.
Os jovens que agora estão na escola, são filhos daqueles que num passado recente, também estiveram na escola, mas não fizeram a maturação e evolução pretendida! Afinal quando se faz a mudança, quando deixam de se repetir ciclos antigos?!
O Estado Português gasta anualmente mais de 6.000 euros por cada aluno/a que frequenta o ensino público. Há mais de 8000 jovens em acolhimento residencial em Portugal, ou seja jovens retirados de famílias negligentes e tantos outros milhares assinalados pelas impotentes Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.
E para finalizar para quando, a aprovação de uma Lei Regional, para o limite de mandatos, (no máximo dois) para os que estão (há demasiado tempo) nos Órgãos de Gestão das Escolas?!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 2 de novembro de 2019

É pena a Região Autónoma da Madeira estar paralisada!


"Há escolas que já conseguiram acabar com os chumbos". Alteraram as orientações pedagógicas, reorganizaram os currículos, turmas e calendários escolares. - Fonte: Semanário Expresso, edição 2453, 01.11.2019. Afinal, a "autonomia" anda pelo espaço continental, enquanto na Região Autónoma da Madeira preferem centralizar e perseguir com os resultados negativos que são públicos e notórios. O que fizeram à escola do Curral das Freiras e ao seu director é o exemplo mais evidente.


O objectivo centrou-se no "chumbo zero", o ministério abriu o caminho, as escolas reorganizaram-se e conseguiram. Através do "Projecto-Piloto de Inovação Pedagógica", no Agrupamento de Escolas do Freixo, em Ponto de Lima, há dois anos que nenhum aluno chumba no Ensino Básico. "Em Cristelo, Paredes, num agrupamento inserido num meio com sérias carências - 85% são apoiados pela acção social escolar - passou-se de taxas de insucesso de dois dígitos para zero no primeiro e segundo ciclos (...)". 

A liberdade curricular dada pelo ministério, "foi aproveitada para fazer uma revolução nos horários e na forma de trabalhar com os alunos" (...) "os alunos nem sempre estão na mesma turma, há semanas que não têm disciplinas, e há horas que articulam matérias, competências e atitudes (...).

"Criaram-se quatro áreas transversais que são trabalhadas por todos os anos de ensino ao longo de oito semanas, pela ordem que os alunos quiserem (...)". Na última semana de cada área "o horário escolar desaparece e o tempo é dedicado à apresentação de trabalhos, visitas e debates".
Dizem os responsáveis que "os alunos partem muito mais motivados e aprendem de forma significativa" (...) o paradigma "exige que sejam criativos, que pensem melhor, que falem mais e que resolvam problemas".
Uma curiosidade: "o director de turma deu lugar ao director do aluno". Segundo um estudo realizado junto dos mais de 4000 alunos do agrupamento, 70% dos alunos consideraram que as mudanças ajudaram a "aprender mais" e "mais facilmente".

Estou convicto que estes são, apenas, os primeiros passos de um processo. Tempos virão que, sobretudo no ensino básico, a partir de uma concepção genérica, os currículos, os programas e os paradigmas pedagógicos serão, totalmente, da responsabilidade de cada escola no quadro da sua autonomia. Simplesmente porque não existem duas escolas iguais, dois públicos iguais, dois grupos de professores exactamente iguais, pais e encarregados de educação iguais e enquadramentos sociais iguais. 

É na diversidade que podemos encontrar o sucesso e é respeitando um princípio de uma escola para cada um e não de uma escola para todos, que não devem existir estabelecimentos de ensino, mas estabelecimentos de aprendizagem, que tempos virão que a velha concepção de escola será derrubada.
Lamento que a Região da Madeira que grita pela Autonomia, continue aferrolhada em uma centralizadora e burocrática torre de marfim. Abram os olhos!
Ilustração: Google Imagens.