segunda-feira, 4 de abril de 2022

Uma manhã na Escola da Ponte. Uma verdadeira inspiração


Acabo de viver uma manhã na Escola da Ponte, na Vila das Aves. Confesso que, durante aquelas duas horas, momentos houve que me comoveram, talvez por ali encontrar a resposta ao vivo sobre o funcionamento de uma escola que sai dos cânones normais, isto é, dos princípios absolutos ditados pela hierarquia política.



Fui recebido à porta pela coordenadora dos auxiliares de educação. Falou-nos da sua escola com um sentido de pertença que nunca tinha vivido ao longo de 40 anos. No pátio de entrada deixou-me com os elementos do Conselho de Gestão. Cumprimentámo-nos e, logo depois, fiquei entregue a dois alunos, a Margarida e o Afonso. Eles os anfitriões da minha visita. Fizeram-me lembrar a história contada pelo falecido pedagogo brasileiro Rubem Alves que um dia visitou aquela escola. A aluna responsável pela visita guiada, ao abrir a porta de entrada, olhou para o Rubem Alves e disse-lhe: "O Senhor para visitar esta escola tem de esquecer tudo o que sabe sobre escolas". Não foi o meu caso, porque, ao longo dos anos, muitas vezes a visitei sem a visitar. Conheço o pensamento do seu mentor inicial, o Professor José Pacheco, e muito do que já foi publicado. E lá fomos...

A Margarida e o Afonso (7º ano), de forma fluente e segura explicaram-me tudo: logo à partida, que ali, as regras, os princípios e os valores da escola, os direitos e os deveres nascem dos próprios alunos e que são ratificados na assembleia de escola. São eles que determinam os compromissos. A qualquer momento retiram ou acrescentam os direitos e os deveres. A pandemia veio perturbar a nossa organização, disse a Margarida, mas aos poucos "estamos a retomar". E os currículos e os programas, questionei. Nas salas estamos por grupos, em mesas de configuração redonda, disse o Afonso, e na mesma sala podem estar alunos do 7º, 8º e 9º anos. Atalhou a Margarida, "eu estou no 7º, mas já me encontro a estudar temas do 8º. Nós decidimos por onde começar as tarefas quinzenais, os mais velhos explicam aos mais novos, nós procuramos, investigamos e, individualmente, quando sabemos, pedimos a avaliação ao professor, que pode ser escrita, oral ou através de trabalhos". Disse o Afonso em jeito complementar: "no mesmo espaço podemos aprender, cada grupo na sua tarefa, o inglês, o castelhano e o português".

O mais contagiante é a serenidade com tudo acontece. Espreito os espaços de aprendizagem e ali constato e experimento o interesse em saber, a compenetração, o computador e o telemóvel como auxiliares, a transversalidade das aprendizagens que rigorosamente nada têm a ver com a imagem de um professor que debita aos alunos tornados meros receptores de uma dada matéria. E que os avalia em conjunto!


Depois da visita, os alunos passaram o testemunho aos membros do Conselho de Gestão. E aí estive em amena cavaqueira com as Colegas Alexandra e Rosa. Passámos em revista tantas preocupações comuns a todas as escolas, falámos do acto de aprender, da função do Professor, da aprendizagem, de uma cidadania activa, da inclusão perante a diferença e do que sentem estes alunos quando saem para uma escola secundária. Que para muitos é um choque. Dialogámos, ainda, sobre a excessiva burocracia e sobre o problema de, apesar do "contrato de autonomia", trabalhar sempre nos limites, isto é, entre a Lei e a capacidade de gerar uma escola desejo, de felicidade e aprendizagem com vida e para a vida.

De regresso ao Porto, revivi todos aqueles momentos, mergulhado em pensamentos sem fim, mas que se esgotam em poucas perguntas: para quê tanta centralização e medo em não gerar uma autonomia plena dos estabelecimentos de aprendizagem? Para quê e para que servem estes inexplicáveis currículos, densos programas e formatos organizacionais padronizados, mesmo com alguma "flexibilidade curricular"? Será que ainda não perceberam que escolas com 1 000/2 000 e mais alunos não são escolas, antes, linhas de montagem de uma fábrica? Porque não se limitam a elencar junto dos estabelecimentos de aprendizagem, os pontos essenciais a atingir no final da escolaridade obrigatória, deixando às escolas a capacidade de se organizarem e de percorrerem caminhos distintivos?

Deixei, para a biblioteca, qual paradoxo, o meu livro "A Escola é uma seca". A Margarida quando viu a capa disse-me: "eu passei por uma outra escola antes desta. Aqui, garanto-lhe que não é uma seca. Na outra, sim".

Obrigado por me terem proporcionado uma manhã de excelência.

Ilustração: Arquivo próprio.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Há (ainda) felicidade na escola?




Por
Miguel Palma Costa
Professor de Filosofia

E nas escolas, o modelo educativo que temos (e que se quer inclusivo, inovador e agora capacitado para a transformação digital) inquieta-se com o bem-estar pessoal e profissional de todos aqueles que nela trabalham? A felicidade organizacional é realmente uma das preocupações (e deveres) do sistema educativo nacional e regional? Na Madeira, por exemplo, que entidade pública recolhe evidências e se ocupa da investigação sobre o impacto da felicidade na prática dos docentes e no sucesso escolar dos alunos?



Creio que a felicidade é para todos nós o (grande) objetivo – um desejo, a finalidade, projeto, a motivação, orientação… – das nossas vidas, apesar de vivermos, mais uma vez, numa época de horrores, alguns deles antigos (como os desastres ou catástrofes naturais), outros cíclicos, como a instabilidade política, as crises financeiras, económicas e sociais, os conflitos familiares e a Guerra, lamentavelmente esta última sempre prestes a eclodir em qualquer parte do mundo e a desencadear destruição, sofrimento inimaginável e morte em poucos minutos. O desespero de milhões de cidadãos, o terror que a tragédia da Guerra nos permite observar através da lente de uma câmara de filmar (e a televisão leva rápido as calamidades e as atrocidades aos nossos lares), torna quase impraticável pensar sobre a felicidade na atual conjuntura e é por um triz que não petrifica os nossos corações.

Sobre o importante conceito acima citado, um ex-colega de curso na UCP (pólo de Lisboa) e especialista nestas matérias, Jorge Humberto Dias, diz-nos que a definição de felicidade envolve três grandes tópicos: o primeiro é a avaliação (entre o que correu bem e menos bem); segundo, são os projetos (relativos às ações); e o terceiro, a consciência (a noção ou conhecimento do estado de felicidade), mas outros adicionam-lhe ainda um estado de harmonia, serenidade, paz e a experiência da plenitude. São abundantes os julgamentos e conceções sobre esta antiga e influente ideia grega (a eudemonia, diferente da makariotés ou felicidade suprema), ou seja, numerosas as definições apresentadas por distintos autores, mas numa coisa parecem todos comungar: a felicidade é resultante de se ter praticado e alcançado o Bem (e bastante distinta de prazer, alegria ou satisfação passageira ligada à sensibilidade).

Tema dominante na filosofia grega e tratado por diversos – e os mais relevantes –fundadores do pensamento ocidental, hoje este tema não é (ou então muito raramente) debatido e examinado nas escolas (muito menos dentro das salas de aula) e está, aparentemente, reservado unicamente para reflexão nas ciências sociais, onde sobressaem economistas, ensaístas, filósofos e até poetas. Porém, enquanto escrevo estas linhas, em território continental realiza-se a 1ª Conferência sobre “Happy Schools em Portugal – Da Formação à Intervenção”, uma Ação de Curta Duração, reconhecida e certificada pelo Centro de Formação do Instituto Universitário Atlântica, onde o tema da felicidade será pensado (e promovido) substancialmente na sua relação com a Educação. Do lado de cá, os responsáveis políticos pelo sector, preocupados apenas com os impactos negativos decorrentes dos constrangimentos impostos pela Covid-19 e com os bons resultados dos alunos (sucesso escolar), não aplicam sequer o vocábulo “felicidade” quando falam da escola e nem o apresentam como um dos mais elevados objetivos associados à frequência escolar. Por outras palavras, parece que o sistema educativo em geral, e a escola em particular, esqueceu uma das suas finalidades: a construção da felicidade, a edificação de cidadãos empáticos, autónomos e membros (felizes) de uma comunidade.

Em 2021, o Ranking Mundial de Felicidade (ONU) menciona que os 8 países mais felizes do mundo estão todos localizados “dentro” da União Europeia (UE), e a Finlândia ocupa o primeiro lugar há quatro anos consecutivos, bem distante de Portugal que se situa em quinquagésimo oitavo lugar (dos membros da UE abaixo de Portugal, só mesmo a Grécia e a Bulgária). Ora, esta é uma situação que não nos pode confortar e deve fazer-nos interpelar e investigar as causas/motivos de tal posição. De acordo com o Índice Mundial da Felicidade, em Portugal, 56% das pessoas dizem que “são felizes muitas vezes”, mas este índice apenas usa alguns indicadores como o PIB, a esperança média de vida, o nível de solidariedade, a liberdade individual, a corrupção, mas não mede, por exemplo, o riso. (Parece-me que mesmo sabendo dos benefícios do riso – não só emocionais, mentais, mas também físicos –, depois da grande crise financeira de 2008-2009, agregada, nesta nova década, a uma pandemia sanitária e agora à Guerra na Europa, os portugueses riem cada vez menos.)


Condensando, estamos nós efetivamente mais felizes? Depois de uma pandemia que já dura mais de 2 anos e nos conduziu para a uma nova crise económica e social (entretanto, também política), e que já originou mais de 21 mil óbitos – num tempo em que as pessoas parecem queixar-se, lamentar-se e até refilar mais do poder político e das suas decisões (sobretudo, nas redes sociais) –, somos ou estamos, de verdade, mais felizes? E nas escolas, o modelo educativo que temos (e que se quer inclusivo, inovador e agora capacitado para a transformação digital) inquieta-se com o bem-estar pessoal e profissional de todos aqueles que nela trabalham? A felicidade organizacional é realmente uma das preocupações (e deveres) do sistema educativo nacional e regional? Na Madeira, por exemplo, que entidade pública recolhe evidências e se ocupa da investigação sobre o impacto da felicidade na prática dos docentes e no sucesso escolar dos alunos?

Em 2016, um estudo do Projeto aQeduto – uma parceria entre o Conselho Nacional de Educação e a Fundação Francisco Manuel dos Santos – referia que 14% dos alunos portugueses dizem “sentir-se infelizes na escola, com resultados médios em PISA Matemática de cerca de 30 pontos inferiores aos dos seus pares que se sentem felizes”. O mesmo estudo expunha que a maioria dos alunos ‘infelizes’ frequentava escolas situadas em meios sociais mais desfavorecidos e com piores resultados académicos, e que inclusive existe uma relação direta entre o (bom) relacionamento que os alunos têm com os professores e a felicidade.

Estamos agora em março de 2022 e estou persuadido que uma ligeira (mas apropriada) observação, tendo por base as múltiplas circunstâncias do passado recente e presente, nos conduziria para uma percentagem bem superior de alunos (e, por certo, professores) que se sentem infelizes na escola. Com regularidade se ouve nas salas de aula, corredores, pátios, cantinas ou mesmo na entrada das escolas expressões como “não gosto das aulas”, a “escola é uma seca”, “a escola não ensina nada de novo” ou “eu odeio a escola”… e “assim que puder vou deixar escola”. Fatigados, alheados e desinteressados da escola, pois esta não se adaptou (ou acompanhou) aos novos tempos e às motivações, expectativas e “utilidades” dos alunos, parte significativa das mais novas gerações não encontra felicidade no ato de aprender (prazer pelo conhecimento), não exibe curiosidade, não expressa empatia pela discussão de qualquer tema/problema, furta-se ao pensar e rejeita participar na generalidade das atividades propostas. (Além disto, há uma epidemia silenciosa de solidão e as crises de ansiedade e casos de depressão proliferam na adolescência.) O seu interesse é o telemóvel, os jogos e o que é ‘postado’ nas redes sociais (vivem, em certa parte, alienados do mundo real e o vício da tecnologia é inquietante).

Relativamente aos professores, o retrato – e nível/grau de felicidade – decerto não é muito diferente. Os efeitos desta pandemia, dos confinamentos, das consecutivas crises, das incessantes (e imprudentes) alterações na carreira docente, da revogação de direitos consagrados no seu estatuto profissional, do congelamento de vencimentos e de mais de 9 anos de tempo de serviço prestado, de um modelo de avaliação que não premeia o mérito, da excessiva burocracia, da indisciplina nas salas de aula…, levaram aqueles que muitos consideram como a “elite intelectual do país” a um estado de saturação, exaustão (“burnout”), frustração e de substancial desmotivação que já não olham para a escola como um local de “prazer” e incentivador, apesar de ainda lhe dedicarem grande parte do seu tempo e vida. Os mais ‘anciãos’ na profissão esperam e suspiram pela idade da reforma, e os mais novos, aqueles que saem agora dos bancos das universidades, estes já abdicaram de cobiçar uma carreira que não lhes dá garantias de futuro. O panorama está delineado e agrava-se a cada ano que passa, mas sobeja, pelo menos uma última interrogação: haverá (ainda) vontade política para reverter esta situação e a escola voltar a ser um lugar onde éramos felizes?

Miguel Alexandre Palma Costa

domingo, 20 de março de 2022

"A ESCOLA É UMA SECA" NA FNAC DO MAR SHOPPING (PORTO)



No Fórum FNAC, do Mar Shopping, no Porto, foi apresentado o livro "A Escola é uma Seca". Teve essa responsabilidade a Drª Cristiana Almeida, professora da conhecidíssima Escola da Ponte que falou sobre a sua experiência na sua escola em compaginação com o texto do livro.




Deixo aqui algumas partes do que enalteci:

O Sistema Educativo está calmamente sentado e muito próximo do olho do furacão. E os sinais do furacão são bem sensíveis por alunos, pais, professores e pelo sistema empresarial. Em síntese, a Escola está desfasada do tempo que estamos a viver. Quando, por um lado, os alunos dizem que “ali não se pensa, ali decora-se”, porque “a escola está desenhada em torno da matéria” e que “não existe um propósito”, por outro, 84% dos professores desejam reformar-se antecipadamente, significa isto que para os dois principais actores esta escola está conceptualmente desacreditada. Porque nos esquecemos que o papel da Educação é transformar.

O enciclopedismo que os currículos e os programas transportam, o ensino estático e segmentado por disciplinas, desfasados da vida real, não conduz a resultados proporcionais ao investimento na Educação. Aliás, faço minha a posição de Ilídia Cabral, docente universitária e investigadora, quando assumiu “que as escolas têm de aprender a ensinar no Século XXI, sob pena de se tornarem dispensáveis”. Estamos preocupados com conteúdos programáticos, quando existe uma grande diferença entre conteúdos e conhecimento. Nesta escola, o conteúdo está mais próximo da quantidade; o conhecimento constitui uma aposta na complexidade. Em síntese, confrontamo-nos com uma escola igual para todos, quando todos somos diferentes na origem e nos sonhos.

Hoje, se bem observarmos, continuamos a ter de um lado a Escola e do outro a Vida. Uma Escola acantonada dentro dos seus muros, incapaz de os trepar e olhar para o que se está a passar em todos os outros sistemas. Se a escola fizesse esse esforço de espreitar o mundo, mesmo por uma fresta, perceberia o crescente desencanto daqueles que diz querer formar. Perceberia as fragilidades e as causas do abandono e do insucesso. Perceberia, certamente, que pouco vale a imensa tralha de pseudo-conhecimento desarticulado que transmite. Aliás, o sistema continua a preparar para empregos que não vão existir. Porque estamos agarrados, de forma inflexível, aos currículos, aos extensos programas e aos formatos pedagógicos que matam a curiosidade e o sonho.


A Constituição da República deveria possibilitar a existência de um país com três sistemas educativos: Continental, Madeira e Açores, no pleno respeito pelas Regiões Autónomas. As regiões só deveriam ter como limite a acessibilidade ao nível superior, sublinho, enquanto permanecer o actual quadro de exames no 12º ano. Se todo o sistema for debatido, parece-me óbvio que surgirá outro formato onde o exame deixará de ser prevalente para a entrada no superior.

O livro está à venda:
Livraria Esperança - Funchal

Como ensinar


Por
Rubem Alves

Uma extraordinária crónica para ser lida por todos. Rubem Alves e a sua alma de educar, a delicadeza, o amor e o cuidado no ensinar.




Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.

Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.

Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias.

É muito simples. O mundo de cada pessoa é muito pequeno. Os livros são a porta para um mundo grande. Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. Lemos a estória de um grande amor e experimentamos as alegrias e dores de um grande amor. Lemos estórias de batalhas e nos tornamos guerreiros de espada na mão, sem os perigos das batalhas de verdade. Viajamos para o passado e nos tornamos contemporâneos dos dinossauros. Viajamos para o futuro e nos transportamos para mundos que não existem ainda.

Lemos as biografias de pessoas extraordinárias que lutaram por causas bonitas e nos tornamos seus companheiros de lutas. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. E isso é muito bom.

– Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

O dramatismo dos números. Alguém deve explicá-los.

 

Acompanhei a síntese de duas intervenções directamente relacionadas com a política educativa na Madeira. Alguém tem o dever político de explicar os números que foram apresentados nos últimos dias que, aliás, já eram do conhecimento público através das estatísticas. Valores que, devidamente analisados, arrepiam depois de 48 anos de Abril de 1974 e 46 de governo autónomo, sempre com a mesma cor política, à excepção dos últimos três anos onde o PSD governa em coligação com o CDS. A Madeira vai pagar muito cara a situação que a seguir descrevo.



"10% de abandono escolar precoce", o que significa que em cada 100 alunos dez ficam para trás; "somos a região com maior índice de risco de pobreza e exclusão social" (32,9%), o que significa que um em cada três madeirenses é pobre ou vive em significativa dificuldade; "os últimos Censos demonstraram que 49,7% dos madeirenses têm o ensino básico e 15,3% não têm equivalência a qualquer grau de ensino", o que significa que o sistema educativo é ele próprio um travão à criatividade, inovação e competitividade - dados assumidos pela Doutora Luísa Paolinelli. Por outro lado, o Dr. Rui Caetano sublinhou que 53% da população activa tem apenas o ensino básico e 46% dos desempregados têm menos do que o 9º ano (...) 10.500 jovens entre os 16 e 34 anos não trabalham nem estudam".

Um panorama desolador e extremamente preocupante. Por este caminho não há futuro para milhares de madeirenses, a não ser continuarem no círculo vicioso de um sistema educativo que eterniza a pobreza. Depois, os que se "safam" colocam os olhos para além da Ponta de S. Lourenço. Ficar por aqui, confinado ao espaço regional, obviamente que não é solução para uma grande parte.

É isto que acontece quando os governos são apenas de "gestão do negócio corrente", quando não dispõem de uma política educativa responsável e portadora de futuro, de uma política social de rigor e transparente e de uma política económica motivadora e capaz de fixar quadros. Entreter-se com discursos sobre "taxinhas marteladas em gabinetes" - basta ler Como Mentir com a Estatística, de Darrell Huff - entreter-se com elogios pouco sérios aos professores e com questões de pormenor dando a entender que a Madeira é um exemplo para o país e talvez para o mundo, fazer ouvidos de mercador às propostas sindicais, não escutar os investigadores, entreter-se com o "inimigo externo", com os ditos malvados que não deixam que a a Região avance (!), acaba por conduzir àqueles números, quando as soluções estão cá dentro, dentro da Autonomia e não têm sido salvaguardadas. Isto preocupa!

Do meu ponto de vista, só há um caminho: alterar, radicalmente, a política educativa, impregnada que está de muito folclore e pouca visão do futuro.

Nota 1
Elementos constantes na página Dnotícias - 27.02.2022, a propósito de uma conferência realizada sob a égide do Partido Socialista Madeira.

Nota 2
O livro da minha autoria: "A ESCOLA É UMA SECA" está disponível:

Livraria Esperança - Funchal
Ou através dos sites:

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

"Se a escola é a tua casa, foge de casa"


Para alguns pode ser cansativa esta luta por um melhor sistema educativo, para mim não é. Jamais deixarei esmorecer a opinião. Porque é o nosso futuro colectivo que está em causa. Serenamente, sem grandes expectativas e até esperança de uma significativa alteração nos próximos tempos, vale sempre a pena continuar a meter um grãozinho na ferrugenta engrenagem. Há dias li um texto da Professora Carmo Machado (revista Visão) que, logo no primeiro parágrafo, salientava: "(...) Se os alunos teimam em escrever no final dos textos – para que não nos esqueçamos – "eu odeio a escola" ou "se a escola é a tua casa, foge de casa", obviamente que este tipo de declarações constrangem quem entende que ali deveria ser um espaço de desejo, felicidade e aprendizagem. 



Preocupa-me a dor e o sofrimento  de uma escola que soçobra, por melhor que seja o esforço dos professores. Entendo o que sentem os alunos e milhares de professores quando se confrontam com um espaço onde a rotina e o desinteresse predominam. E uns e outros, por obrigação têm de lá estar. Alunos à procura de um diploma, professores pela sobrevivência. E ambos aguentam e aguentam. Queixam-se, mas aguentam. Até um dia!

Certo é que, ao longo da minha vida docente e posterior, nunca assisti a tanto queixume, tanto lamento de insatisfação. É crescente e notoriamente público o desconforto. Reclamam os professores, cujas percentagens de exaustão emocional não enganam, pelos penosos e desmotivantes atropelos na carreira onde a avaliação de desempenho é ignominiosa e por uma injustificável carga de trabalho burocrático; lamentam-se os alunos que escrevem, em alerta a quem tem responsabilidades de governo, que estão fartos. Porém, face a este preocupante e desesperante quadro, o político, neste caso, o secretário regional da Educação (Madeira), numa visita a uma escola assumiu: "sempre que houver estrada vamos continuar". Um pouco de mais atenção constataria que esta sua estrada tem um sinal: "sem saída". Os estudos demonstram exactamente isso. E não bastasse o que as verdadeiras estatísticas evidenciam face ao que o futuro nos reserva, seria suficiente um mínimo de atenção ao sentimento que sai pelas canetas dos alunos e pelas vozes, muitas audíveis, outras nem tanto, a dos professores, é verdade, porque refugiadas no silêncio que mata.

O político não está na estrada do sucesso, está no cruzamento com várias estradas em opção. E ali se encontra sem saber qual escolher. Aquela declaração do político fez-me lembrar a Doutora Fátima Vieira, investigadora especializada em estudos sobre a utopia: 

"(...) na utopia o que fazemos? Primeiro, definimos a visão: que sociedade quero ter? que escola quero ter? o que quero ser?... Depois de definirmos essa visão, então sim, escolhemos o caminho e tapamos os buracos. Não vale a pena tapar buracos de outros caminhos". 


O drama é que quem decide não tem visão (não sabe que sociedade quer construir) e não escolhe um caminho (que escola quer ter), prefere andar para trás, para o tempo dos nossos avós... tapando os buracos de outros caminhos que deram no que deram. Para combater isto, então, vale a pena, pelas nossas crianças, ser subversivo. Paul Ricour diz que a utopia é sempre subversiva contra o discurso ideológico dominante. A ideologia legitima, a utopia subverte. Então, por ela, vale a pena ser subversivo, mesmo quando o discurso oficial dominante nos bloqueia e sufoca". É isso, há medo em ser saudavelmente subversivo.

Há dias regressei à minha antiga escola. Falei com alguns colegas, mas dei atenção aos auxiliares de acção educativa. Já não os via há vários anos. Foi agradável o reencontro. Um deles foi claro ao referir-se aos alunos: "isto está cada vez pior". Pois, muita indisciplina, retorqui. Os olhos reviram-se dando a entender que eu nem faço ideia. Pois, percebo, disse. E se percebo! 

Portanto, aquela historieta de "enquanto houver estrada vamos continuar", prognostica, repito, que não sabe que aquela estrada tem o tal sinal de trânsito: "sem saída". É caso para dizer, regresse ao cruzamento e, com visão, escolha outra.

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Seria bom que se deixassem de tretas...

 

E volta e meia lá vem uma voz falar da "educação do futuro". Juntam a isto a "sala de aula do futuro"! Há cinquenta anos e outros há muitos mais, que ouço falar dessa tal educação do futuro, quando, por paradoxal que pareça, o futuro é hoje. Já começou ontem! Raramente falam do que está a acontecer, da clara falência do actual sistema, de um sistema que se encontra enfeitado mas podre por dentro. Tal como uma peça de fruta reluzente, apetecível, mas quando se abre, está em decomposição, com manchas por todo o lado! 



E como se nada estivesse a acontecer, do lado dos alunos e dos professores, em vez de pensarem as fragilidades deste sistema, entretêm-se a iludir as pessoas com estatísticas marteladas que só contribuem para a manutenção de um estado desordenado, extremamente confuso e claramente infrutífero relativamente ao que aí vem. 

Já li várias projecções para os próximos 30/40 anos. Entre outras, a RTP transmitiu uma fascinante série de quatro programas "10 segundos para o futuro - O mundo em 2077". Dali se conclui que  as "próximas décadas vão sofrer a maior e mais veloz  transformação de sempre" (...) "Em 2077 o conhecimento científico terá duplicado várias vezes". E perante isto, o que acontece na Escola? A rotina, como se nada estivesse a ocorrer. Dentro da escola, eis-nos face a uma montanha de projectos que a história nos diz serem infrutíferos porque de circunstância; fora dela os gritantes desequilíbrios sociais cujas causas não se resolvem apenas jogando dinheiro para cima do dramatismo. Resolve-se com uma política educativa séria, honesta, prospectiva, consistente e não com o habitual paleio de circunstância da "transição digital", com distribuição de "tablets" aos magotes, sem uma inteligência de suporte, enfim, sem um pensamento estruturante sobre o caminho a percorrer. É a festa dos impulsos que permanece! Continua a interessar-lhes a produção em série, tal como na fábrica do Século XIX/XX. Este é o modelo das múltiplas e persistentes ignorâncias, das iliteracias culturais e das incapacidades de transferência dos saberes para a vida real.

Estão mais preocupados com a avaliação do que com o conhecimento; mais preocupados com a resposta do que com a pergunta; mais preocupados com os edifícios do que com as pessoas que lá vivem uma significativa parte da vida; mais preocupados com os currículos e programas do que com os sonhos de cada um. Neste contexto, seria bom, ao contrário do espalhafato quase diário para mostrar serviço, que assistissem à série de que atrás enunciei. 

Deixo aqui o primeiro episódio:

2077 - 10 Segundos Para o Futuro: Mutação - Inteligência Artificial. Nanotecnologia. Fusão Homem/Máquina. Genética Estamos no ponto de partida de uma mudança tecnológica exponencial. 2077 - 10 Segundos Para o Futuro Episódio 1 - RTP Play - RTP

Depois de assistirem só têm um de dois caminhos: ou entregam a "pasta" a quem saiba e esteja disponível para trazer o futuro ao presente ou, então, partam para outra, que como vulgarmente se diz: desamparem a loja!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A ESCOLA CANSA-ME


Por
Luís Costa
17 de Fevereiro, 2022

Foi com esta frase que uma aluna minha, não há muito tempo, intitulou uma crónica que escreveu, no âmbito da disciplina que leciono (Português, 3.º ciclo). Respeitando a natureza deste tipo de texto (o tema deveria ser de interesse geral), a jovem refletiu criticamente sobre a sua experiência quotidiana, no legítimo pressuposto de que será idêntica à de tantos outros jovens da sua idade, por este país abaixo. Não se equivocou. A sua reflexão é a fonte de inspiração deste artigo.



Na sua crónica, a Gabriela — nome fictício — recorda, com saudade, o tempo em que tinha tempo para tudo e podia ser boa aluna, sem stresse; o tempo em que entre a casa e a escola havia uma fronteira mais bem definida, mais duradoura. Agora, diz não ter tempo para nada, sempre desdobrada entre trabalhos de casa, apresentações orais, trabalhos de pesquisa, questões de aula, testes, etc. Agora — sublinha — a escola ocupa quase todo o seu tempo. Chega tarde a casa e tem sempre algo para preparar para o(s) dia(s) seguinte(s). Ainda assim, tem de conviver com a sensação permanente de estar em falta, com a consciência de que podia fazer melhor. E conclui, resignada, admitindo que não pode reclamar, pois tem de trabalhar para preparar o seu futuro, mas remata com uma pergunta inquietante: para que futuro estará a trabalhar?

Em conversa com a aluna, desabafei também, dizendo-lhe que os professores estão a viver as mesmas experiências e os mesmos sentimentos. A escola também nos cansa, também nos absorve, também nos ocupa corpo e mente, de forma omnipresente; também nós temos de conviver com um inesgotável e crescente vórtice de funções e de tarefas; também nós levamos a escola para casa, ou é mesmo ela que invade o nosso lar, roubando-nos o sossego, o repouso, o salutar afastamento, o tempo familiar e social; também nós, infelizmente, depois de tanta entrega, temos de conviver com a frustrante sensação quotidiana de não estarmos a fazer o nosso melhor, porque há uma força que nos impele num sentido muito diferente daquele que nós seguiríamos, se, de facto, fôssemos nós a decidir; também nós, infelizmente, duvidamos muito do futuro que estamos a preparar. Porém, houve algo que ocultei à minha aluna. Que nós, os professores, temos uma obrigação moral que eles não têm: a obrigação de lutar para mudar este rumo.

Na verdade, é muito desolador o quadro que se oferece a professores e alunos, atualmente. As novas, e infindáveis, vagas que assolam constantemente as escolas — quase todas, agora, no lastro deste autêntico massacre formativo a que os professores estão sujeitos — trazem autênticas enxurradas de novas práticas, imediatamente instaladas no quotidiano pedagógico, de novos instrumentos, associados a atividades e à avaliação, que proliferam a olhos vistos, que se multiplicam descontroladamente. Os testes de avaliação sumativa estão, progressivamente, a ser substituídos por uma avalancha de pequenos instrumentos de avaliação, mais imediatos, mais próximos da lecionação dos conteúdos, das aprendizagens realizadas. São, por natureza, mais efémeros, ou melhor, testemunhos de um conhecimento mais efémero, que não teve que ultrapassar a barreira do tempo, que não teve tempo de se sobreviver às vicissitudes do esquecimento. É, em suma, a cultura da superficialidade, dado que esta autêntica parafernália pedagógica (na sua maior parte, associada à avaliação) não dá a ninguém, professores e alunos, o necessário tempo para ponderar devidamente, para amadurecer as ideias, para aprofundar as aprendizagens. Tudo é supérfluo, na quantidade, e superficial, na qualidade, porque o tempo é impiedoso, para todos. Tudo tem de ser para já, feito num instante e, cada vez mais, para o instante.

Professores e alunos, movemo-nos todos, atualmente, numa espécie de mundo às avessas, onde a nossa inteligência e a nossa autonomia contam pouco, cada vez menos. Andamos todos, professores e alunos, no verso da nossa vontade e da nossa clarividência. Parecemos (talvez já sejamos) marionetas de um tempo que nos banaliza, nos ultrapassa, nos tritura e nos engole. Não pode ser luminoso o destino. Eles não, mas nós temos uma enorme responsabilidade sobre os ombros e uma culpa que, inclemente, nos espera, no fim da linha. Por eles e por nós, temos a obrigação de sair desta masmorra de sujeitos da passiva, porque nós, afinal, somos professores. SOMOS PROFESSORES!

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Rob Riemen. “A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise!”


Rob Riemen (1962) é um escritor e fundador do Instituto Nexus, um "Instituto que reúne os maiores intelectuais, artistas e políticos do mundo para pensar e falar sobre as questões que realmente importam". Estava eu a reler uma sua entrevista onde combina "conhecimento de história e filosofia com sensibilidade literária e explica o retorno global do fascismo, disfarçado nas falsas promessas de trazer liberdade e grandeza", eis que, quando vou por aí fora, dou com um outro texto arquivado que sublinha: "A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise".



Eu que, à minha pequena escala, tenho andado envolvido no livro que publiquei, "A Escola é uma seca", que nada tem a ver com a citada notável entrevista de Rob Riemen, aquela frase sobre a classe dominante, a crise e as soluções possíveis, aproximaram-me das minhas preocupações relativamente ao estado a que a política educativa chegou. De facto, na espuma dos dias (L'Écume des Jours, de Boris Vian (1920-1959), ressalta, neste caso, a gritante fragilidade de pensamento de quem deveria assumir a responsabilidade de analisar e ver longe todo o processo. Porque não sabem ou porque não querem, quando dependemos da Educação como de pão para a boca.

Rob Riemen é muito claro a este respeito: "(...) E não falo apenas da classe política, mas da educacional, da que controla os media, da financeira, etc. Não vão resolver a crise porque a sua mentalidade é extremamente limitada e controlada por uma única coisa: os seus interesses. Os políticos existem para servir os seus interesses, não o país. Na educação, a mesma coisa: quem controla as universidades está ali para favorecer empresas e o Estado. Se algo não é bom para a economia, porquê investir dinheiro? (...) Estamos a criar seres humanos vazios que querem consumir e ter coisas e que acabam por se vestir e falar todos da mesma forma e pensar as mesmas coisas. E a classe dominante está muito mais interessada em que as pessoas liguem a isso do que ao que importa". - Jornal I.

E dou comigo, hoje, nem por acaso, quase dez anos depois desta entrevista (23/04/2012) a ler um texto sobre um novo espaço designado por "sala de aula do futuro". Quando o problema não reside aí, antes na transformação da escola no seu todo enquanto espaço de verdadeira aprendizagem, reside na reorganização curricular, programática e em uma atitude pedagógica que rigorosamente nada tem a ver com aquilo que andam a oferecer às crianças e jovens. Apenas areia para os olhos! Por mais salas do futuro que espalhem, a constatação é que "estamos a criar seres humanos vazios". Rob Rimen tinha e tem razão, quando sublinhou que os políticos de turno "existem para servir os seus interesses, não o país". O verbo pensar deveria estar primeiro. Mas não está. Pensar o processo histórico-filosófico e os possíveis caminhos a percorrer. Aquele verbo não constitui a primazia do processo. Por isso ele fala de uma sociedade "kitsch, porque a classe dominante teme que as pessoas comecem a questionar tudo". Neste quadro, correspondendo à pergunta da jornalista, ele foi peremptório:

Claro que sim! (...) Todos temos um lado estúpido, frustrado, provinciano. Para alterar o rumo político, temos de encontrar a estupidez em nós. Mas se as pessoas fossem um bocadinho mais espertas, não iriam para universidades estúpidas, nem veriam programas estúpidos na TV. Existe uma elite comercial e política interessada em manter as pessoas estúpidas. E isso é vendido como democracia, porque as pessoas são livres de escolher e blá blá. (...) a essência da democracia é a liberdade, mas a essência da liberdade não é teres o que queres; é usares o cérebro para te tornares num ser humano bem pensante. Se não for assim, se não fores crítico perante a sociedade mas também perante ti próprio, nunca serás livre, serás sempre escravo. Daí que o que estamos a viver não tenha nada a ver com democracia. (...) Vivemos numa democracia de massa, uma mentira que abre os portões a mentirosos, demagogos, charlatães e pessoas más, como vimos no séc. XX e como vemos agora".


Ora bem, o sistema educativo, tal como os outros, não sei se vive se sobrevive desta porta escancarada aos demagogos e mentirosos. Incapazes, não tocam no âmago dos problemas, não apenas aqueles que enquadram a aprendizagem portadora de futuro, mas também e fundamentalmente, nos dramas que se escondem a montante da escola, numa sociedade marcada pela pobreza e por inúmeras iliteracias que uma "sala do futuro" nunca será capaz de esbater.

Na apresentação do livro "A Escola é uma seca" tive a oportunidade de dizer aos que lá me deram o prazer da sua presença e o favor de me ouvirem: 

"Hoje, se bem observarmos, continuamos a ter de um lado a Escola e do outro a Vida. Uma Escola acantonada dentro dos seus muros, incapaz de os trepar e olhar para o que se está a passar em todos os outros sistemas. Se a escola fizesse esse esforço de espreitar o mundo, mesmo por uma fresta, perceberia o crescente desencanto daqueles que diz querer formar. Se espreitasse para além do muro perceberia as fragilidades e as causas do abandono e do insucesso. Que tem origem a montante, nas famílias, sublinho. Perceberia, certamente, que pouco vale a imensa tralha de pseudo-conhecimento desarticulado que transmite. (...) A escola se espreitasse para além do muro, daria razão à investigadora Deborah Stipek, quando enalteceu que estamos a produzir especialistas em provas, prejudicando vidas promissoras (…) que este tipo de ensino provoca um verdadeiro extermínio de grandes mentes”. Deborah, conclui no seu estudo transversal de 35 anos: “quantos potenciais vencedores do Prémio Nobel são perdidos antes mesmo da escolaridade básica”. Porque estamos agarrados aos currículos, aos extensos programas e aos formatos pedagógicos que matam a curiosidade e o sonho. Em síntese, confrontamo-nos com uma escola igual para todos, quando todos somos diferentes na origem e nos sonhos". Repito: "a sala de aula do futuro" não resolve. Está mais configurada para repetir o passado do que para dar resposta ao presente. 

E assim se chega à conclusão que: "A classe dominante nunca será capaz de resolver a crise. Ela é a crise". Então, vão engodando ou enrolando com o "novo normal"!

Ilustração: Jornal I

O livro A Escola é uma seca pode ser adquirido:
Livraria Esperança - Funchal

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

A ESCOLA É UMA SECA


A Drª Júlia Caré apresentou, na sede do Sindicato de Professores da Madeira, o livro da minha autoria "A Escola é uma seca". Deixo aqui o seu texto, ao longo do qual deixou muitas interrogações aos presentes.



- Da primeira apresentação do livro do André Escórcio, em 21 de janeiro, retive duas expressões que me pareceram relevantes:

- do colega Valentim Remédios a expressão: “fazer flores”, pretendendo referir-se aos/às alunos/as que se adaptam à cultura tradicional de escola, que têm suporte familiar e ajuda para se prepararem para os rituais exigidos pela tradição e rotina escolar secular – a cultura das aulas, da memorização da “matéria”, dos testes, dos exames, da nota para o quadro de honra e para aceder ao Ensino Superior e com quem é mais fácil os professores trabalharem; mas e cada vez mais, a imensa maioria de crianças e jovens que não se identifica com a organização fragmentada da escola em anos, ciclos, turmas mais ou menos numerosas, disciplinas, aulas, práticas docentes de explanação dos programas instituídos e de avaliação, estudo para o teste que se esquece logo a seguir… uma escola a transbordar de conteúdos memorizáveis e pouca construção de sentido e conhecimento para a vida.

- do Padre Martins, a questão: “como agarrar as margens?” eles/elas serão os/as que ficam de fora, que não se identificam com a cultura monocultural, monocurricular, etnocêntrica da escola, pensada neste país conservador, tradicionalista, para alunos/as maioritariamente de classe média urbana: Os/as outros/as da imensa e complexa diversidade cultural deste país profundamente desigual, pós-colonial, desenraizado da ruralidade interior e fixado nas indistintas, populosas e degradadas periferias habitacionais urbanas das grandes metrópoles, com índices de baixa escolaridade familiar, pobreza estrutural transgeracional, a quem a democracia falhou na realização da esperança. Que “elevador social” para “as margens”, que escapam à meritocracia do apelido familiar, do berço e do bairro elitista e consequente estatuto socioeconómico, da pertença cultural, ou da cor adequada do cartão partidário no poder?


IDEIAS QUE CONSIDERO CENTRAIS NO LIVRO


APROPRIAÇÃO DOS CONTEÚDOS PELOS/AS ALUNOS/AS HOJE – nunca será ao mesmo tempo, nem da mesma maneira; o facto de a matéria ser dada, não quererá dizer que ficou sabida – (wishful thinking da escola) - porque a construção do conhecimento é sempre única, pessoal, condicionada pelos contextos pessoais, pelas experiências de aprendizagem anteriores, pelo grau de interesse sobre o assunto, pela motivação para aprender, pela utilidade ou sentido que o assunto lhe merece, em termos de presente ou futuro, etc…

A ESCOLA HOJE E A IGUALDADE DE OPORTUNIDADES PARA APRENDER – cooperação ou competição na vida de todos os dias? (alguém diz tratar-se de uma cultura de guerra). De que modo se opera a preocupação com a diferença, a diversidade na escola? Integração e inclusão em Unidades Especializadas, devidamente cuidada, ou apenas de corpo presente? Que equilíbrio nesta tensão entre o que deveria ser – a utopia de que fala o André Escórcio no seu livro – e o que é possível, necessário, conveniente, desejável para determinados grupos sociais?

A CONSTRUÇÃO DA EMANCIPAÇÃO - da verdadeira igualdade de oportunidades, ou a consolidação /reprodução das desigualdades? Como estimular as capacidades que o ser humano tem para aprender sozinho, atingir o momento síntese, “Eureka!” Um processo individual de descoberta – o saber que passa pelo coração, no dizer de Rubem Alves, desperta curiosidade, sensibilidade, fica para a vida e quer sempre mais, numa eterna insatisfação e incompletude? (José Paulo Serralheiro, os 5%(?) que se aprendeu, à saída do Secundário…) Já esquecemos o objetivo europeu da Educação permanente, o lifelong learning?

A ESCOLA POR ALUNO/A - a verdadeira escola à medida de cada um/a – respeitadora da individualidade de cada criança / jovem. Uma utopia?
- como enfrentam as escolas as diferentes realidades sociais, familiares, por detrás de cada criança / jovem? Ou isso é suposto não ter importância?

QUE MARGENS DE AUTONOMIA TEM A ESCOLA? - E que autonomia quer ter?
- quem define/decide tudo o que se passa na escola? E que liderança seria desejável? Pode a escola aprender a ser diferente?
- o que conta para a escola? As metas? Os 20 da pauta do quadro de honra e da efémera massagem ao ego? E os que parecem escorregar para o desinteresse, o insucesso, a desistência, com todos os custos individuais e sociais?
- até quando esta organização fragmentada da escola em currículos transbordantes, períodos, disciplinas, aulas, tempos e espaços, iguais para todos?
- e porque não à volta de temas aglutinadores envolvendo a generalidade dos saberes disciplinares? A inter / trans / disciplinaridade não será mais apropriada à diversidade e complexidade social e cultural na escola, mais justa para quem ensina e aprende, e para o desenvolvimento de competências para continuar a aprender pela vida fora?

O PAPEL DOS EXAMES / OS RANKINGS – ou a perversão da avaliação
- os exames servem para seriar, selecionar, excluir e esquecer o que se memorizou. E os rankings pretendem comparar o incomparável, fazendo-se dos resultados dos exames, bitolas de qualidade educativa, sucesso e insucesso, responsabilizando escolas, promovendo outras, havendo defensores e comentadores em profusão, todos os anos na ladainha habitual… Que interesses defendem?
- como entender que se continue a fazer testes e exames iguais para todos? Por que se convencionou e ninguém tem coragem de fazer diferente? A Escola é uma convenção e todas estas práticas, meros rituais iniciáticos e de passagem?

OS CHUMBOS E AS RETENÇÕES – fracasso dos apoios em dose cavalar em catadupa, que apenas sobrecarregam os horários das crianças com mais do mesmo, mais horas na escola… Quando se poderia intervir na própria aula, coadjuvando o colega titular… Mas para isso era preciso que a porta da sala de aula – a caixa negra da relação pedagógica, no dizer de Maria Teresa Estrela – fosse franqueada sem receio nem desconfiança…. Para isso, precisávamos de outras culturas profissionais, de mais cooperação e partilha, parceria pedagógica, “team teaching” e afins… E quanto a repetências, só a escola se repete em mais do mesmo, redundante no ano seguinte, porque a criança será uma pessoa diferente. Na escola por aluno/a, não haveria chumbos nem retenções (ler pg 184, Avaliação na Escola da Ponte)

O PAPEL DOS MANUAIS – serão eles indispensáveis a uma educação de qualidade? Ou uma questão de sobrevivência económica das editoras e que juntamente com a indústria dos explicadores eterniza práticas escolares seculares continuadoras da desigualdade, desenquadradas do século que vivemos… e da era digital…

OS PROFESSORES – o peso da tradição, do “status quo”, do conservadorismo, da burocracia esmagadora e sem sentido, a solidão docente, a resistência à mudança, a insegurança, a ausência de lideranças inspiradoras nas escolas… A urgência do tempo para pensar, - meia hora por dia (Santos Guerra) - dialogar, trabalhar em equipa, colaborar, desmistificar as manobras pseudo avaliativas de desempenho docente, que apenas servem para dividir e criar animosidade… Talvez repensar a formação inicial? Que papel para as universidades, da nossa UMa, no desenvolvimento de projetos de investigação-ação em parceria com as escolas, de modo a ajudar o desenvolvimento docente?... As mexidas no Estatuto, na carreira com a finalidade única de pagar menos salário e evitar que a esmagadora maioria chegue ao topo e tenha uma aposentação condigna…

A RELAÇÃO ESCOLA-FAMÍLIA – A ESCOLA A TEMPO INTEIRO – armazém de crianças, ou estratégia ao serviço da desregulação laboral, ataque aos direitos dos trabalhadores? Excesso de tempo na escola para as crianças, mais do que o horário de trabalho dos pais, curricularização do tempo livre, eliminação do tempo para brincar – amputação da infância…

A IMPORTÂNCIA DA CULTURA na escola – como condição indispensável à sensibilização para a riqueza que a diversidade cultural representa em democracia, enquanto aprendizagem e humanização freireana com o outro, à promoção da tolerância e respeito pelos Direitos Humanos, ao combate ao estereótipo e preconceito, e central à construção do pensamento crítico (pg 103 – “É a globalidade que está em causa…”)

O QUE A AUTONOMIA DA MADEIRA poderia ter feito, para além do discurso laudatório e narcisista de efémeros pioneirismos, indo mais além da retórica em matéria educativa…

Júlia Caré
SPM, 7 de fevereiro de 2022

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Aprender, não decorar


Por
Joana Petiz
24 de Janeiro, 2022

Há 20 anos, os miúdos da Escola da Ponte sentavam-se em mesas redondas e participavam na sua própria aprendizagem, contribuindo com ideias e, na prática, para os programas e o ritmo a que assimilavam informação capaz de os fazer gente. Não havia filas direitas de alunos silenciosos e aborrecidos em frente a um professor que despejava matéria – não havia nada disso. Mas havia ordem, disciplina, respeito e a aprendizagem era real. As turmas juntavam crianças de várias idades e em vários estádios de ensino e eram elas próprias, quando sentiam que o conhecimento tinha passado, que se propunham para as avaliações que as fariam progredir, não em anos letivos, mas em blocos de conhecimento.



Há 20 anos, quando visitei a Escola da Ponte, em Vila das Aves, a fórmula ali aplicada por José Pacheco não era nova – fora estreada ainda na década de 70, a mesma em que eu nasci -, mas continuava a ser extraordinariamente inovadora e a somar resultados incríveis, e por isso referências em todo o mundo.

Passaram outras duas décadas e essa realidade mantém-se: a Escola da Ponte, pública mas com autonomia, continua a ser um case study mundial. Ali não se culpa quem não segue o mesmo ritmo nem se desresponsabiliza quem não se esforça, não se castiga mas também não se passa a mão pela cabeça dos miúdos que falham, que fazem asneira. A escola existe com as crianças no centro – com cada uma delas e as suas diferenças, dificuldades e especificidades – e para delas fazer o melhor que podem vir a ser, passando-lhes valores de solidariedade, de autonomia e de responsabilidade. Ensinando-as a aprender e a raciocinar pela sua cabeça, em vez de se tornarem exímias caixas de repetição.

Ali não se decora, entende-se, aplica-se, usa-se a informação que se vai assimilando. Há regras e elas são respeitadas e, quando não o são, quem as quebra – aluno, professor, auxiliar ou dirigente – é chamado a explicar-se perante a comunidade escolar. Há, evidentemente, um tutor que acompanha, orienta e assegura que os valores e as matérias estão a ser passados, apreendidos e os trabalhos cumpridos. Que orienta e ajuda, como cada um dos colegas orienta e ajuda os outros.

A Escola da Ponte foi criada em Portugal, há mais de 40 anos e continua a ser um exemplo – para o bem e para o mal. É que se lá fora os métodos da escola aberta têm sido estudados e replicados, por cá reconheceu-se repetidas vezes o seu valor mas ninguém aceita alargar o conceito a outras.

Debate-se o estado de esgotamento dos professores, mas obriga-se todos eles a cumprir um programa maioritariamente desenhado há 50 anos. Fala-se em formação, transição digital e necessidade de novos formatos de passar conhecimento, mas as alterações que se cumprem são estéticas e estéreis – quando não produzem resultados piores ainda. Discute-se o abandono e o insucesso escolar, mas querem-se os miúdos a escutar e a papaguear o que ouvem, como se isso lhes fosse útil para a vida. Questiona-se o valor da avaliação quando se devia repensar a sua forma, longe dos obsoletos e tantas vezes injustos testes (que pouco mais atestam além da capacidade de decorar, em vez de se centrarem na evolução das capacidades individuais dos miúdos), reconhecendo-a como essencial em todos os níveis e agentes da educação.


Mesmo em pandemia, a mudança radical que vimos acontecer limitou-se a passar para o lado de lá do ecrã o que acontecia na sala de aula: um professor a falar grego para 30 alunos. Que já não ouviam coisa nenhuma quando o professor estava a três passos.

José Pacheco ainda vai ter a sorte de ver mais crianças portuguesas poderem beneficiar do que uma escola deve ser, mas teve de desistir de o fazer no ensino público, onde continua a mandar a forma, a burocracia e o espartilho do que é igual para todos – e que só cria mais desigualdade.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

"A Escola atual está fora da lei e à margem das ciências da educação"


Neste dia Internacional da Educação, o fundador da Escola da Ponte diz que é preciso rasgar um modelo de escola que vem do século XIX, que "condena à ignorância" e não cumpre o direito constitucional de "uma educação para todos".



José Pacheco fundou a Escola da Ponte há 46 anos. Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Rui Frias
24 Janeiro 2022

José Pacheco anda há quase 50 anos a criar, como diz, a "utopia" da educação. O seu projeto implementado ainda na década de 1970, Escola da Ponte, na Vila das Aves, é referência citada em todo o mundo quando se debatem modelos educativos.

Há 20 anos entre Portugal e o Brasil, onde replicou o modelo da Ponte em vários projetos que acompanha, do Âncora à Escola Aberta de São Paulo, o professor e pedagogo portuense continua a lutar, aos 70 anos, contra um modelo de escola que, diz, promove a ignorância e não respeita a Constituição.

Quarenta e seis anos depois de ter fundado a Escola da Ponte, abraça agora um novo projeto, o Open Learning School, que abriu em Portugal como A Quinta, a primeira escola de aprendizagem aberta com iniciativa privada no país. "Eu sou um professor de escola pública, mas não posso ser preconceituoso. Se a escola pública não faz, que outros façam", diz José Pacheco, que anuncia ainda para julho um grande congresso internacional, em três locais do interior de Portugal, onde vão "reunir mais de 150 projetos de cinco países diferentes para debater as novas construções sociais de Educação" e mostrar que "outra escola" é possível.

Diz que temos alunos do século XXI, com professores do século XX, a trabalhar como no século XIX. Porquê?

Este modelo correspondeu a necessidades sociais da primeira revolução industrial. Mas nós vamos já na quarta, ou quinta. No início do século XX, houve uma tentativa de resgate daquilo que é a humanização da educação. Da Maria Montessori à pedagogia Waldorf, etc... Só que isso só aconteceu em duas escolas durante o século XX: em Reggio Emilia, na Itália, e na Escola da Ponte, em Portugal. Mas entrámos no século XXI e a maioria das escolas, quase a totalidade, funciona com um modelo herdado do século XIX, da Revolução Industrial, da produção em série. E o resultado está à vista. É uma Escola fora da lei e à margem das ciências da educação. Aliás, ainda há poucos dias recebi do meu amigo António Nóvoa um texto que sintetiza as conclusões de um estudo da OCDE e da Unesco, que diz que este modelo escolar não funciona. Basta olhar para a quantidade de jovens que estão em centros de explicações, centros de estudo, para as doenças dos professores, para o suicídio juvenil...

É esse modelo do século XIX que "condena à ignorância", para continuar a usar palavras suas?

É evidente. Os alunos não aprendem; decoram, colocam num papel e esquecem. A escola não cumpre aquilo que está na Constituição da República. O que está na lei é que a escola deve garantir o direito à educação a todos. Mas eu pergunto: a todos? Mais de metade são marginalizados. Mesmo aqueles que fazem testes bem feitos. Um dia perguntei a uma colega: Sabes fazer raiz quadrada. Ela: "Não". Tiveste aulas de raiz quadrada? "Tive". Fizeste teste? "Fiz". Mostraste que sabias? "Mostrei". E tu sabes? "Não". Quantas vezes na tua vida precisaste de raiz quadrada? "Nunca". Já perguntei isto a milhares de pessoas.

A educação do futuro é aquela que o prof. José Pacheco já vislumbrou em 1976, na Escola da Ponte?

Há tempos um senador brasileiro convidou-me para ir a casa dele e disse que precisava de mim porque ele ia à Unesco para apresentar um projeto. Então eu perguntei-lhe que projeto era e ele disse-me que era sobre a educação do futuro. Caramba, há 50 anos que ouço falar da educação do futuro, e essa educação nunca mais chega. Temos de olhar para a Escola Aberta, temos de olhar para o Projeto Âncora e, agora, para a Open Learning School e ver o que está a acontecer. A educação do futuro já está aí, hoje, agora.

Defende uma nova construção social de aprendizagem. Quais os fundamentos?

Nós temos três grandes paradigmas educacionais. O primeiro é o paradigma da instrução, que nasce na Prússia militar no séc XVII e em França e Inglaterra no séc. XIX; temos o paradigma da aprendizagem, que nasce no início do séc. XX com a Escola Nova, em que diz que o centro não é o professor, é o aluno, defende a autonomia do aluno e nunca foi praticado a não ser na Escola da Ponte, em Reggio Emilia, no Projeto Âncora e na Escola Aberta [de São Paulo]; e depois há um terceiro paradigma, que é o da comunicação, que vem de nomes como Lauro de Oliveira Lima ou Paulo Freire, que coloca o ênfase na relação entre o aluno e o professor. Dentro desses três paradigmas, o que nós temos de fazer é uma nova construção social. O que está hoje em causa é que o centro não é aquele que o paradigma da aprendizagem propõe, o aluno; o centro é a relação, a ligação entre o jovem e o mediador/professor, e entre eles e o objeto de aprendizagem. Para atribuir significado e abrir um vínculo, sem o qual não acontece nada. Esse vínculo não é só cognitivo, é também afetivo, emocional, estético, ético, até espiritual. O que aconteceu na Ponte, no Âncora e noutros locais foi só isto: se antes nem todos aprendiam, o direito à Educação não era dado, a partir desse momento todos passaram a aprender. Até muito mais rapidamente. Nós tivemos jovens que aos 13 anos tinham feito o básico, o secundário e o superior.

Como funcionam esses círculos aprendizagem?

Esse círculo tem entre 7 a 15 pessoas. Pessoas. Porque escolas não são prédios, são pessoas. Pessoas que têm território físico, espiritual, psicológico e até virtual. Um território onde partilham valores, uma mesma visão do mundo, onde definem princípios de ação para que todos tenham oportunidades de aprender e ser felizes. É uma família. Depois tem outro círculo ao lado, são os círculos de vizinhança, que também são círculos de aprendizagem. Quando temos vários círculos de aprendizagem, criamos aquilo que chamamos protótipo de comunidade de aprendizagem. E nós já temos mais de 150, todos diferentes, porque cada um vive o seu projeto.


O que acontece nessas comunidades? Como são as aprendizagens?

O professor não prepara projetos para os alunos, o professor constrói projetos com pessoas, que são alunos, a partir de necessidades, desejos e sonhos de cada um. Construindo projetos de vida. O professor não prepara aula, não planifica aula, ajuda o aluno a planificar a sua vida.

Não há plano curricular, metas curriculares a cada ano?

Há, mas são aquelas que são definidas pelo currículo de subjetividade, comunidade. E para ver se se aprende, não é aplicando testes, que são instrumentos muito falíveis. Nós construímos evidências de aprendizagem em portfolios digitais. Se nós hoje tivermos consciência de que aqui por dez anos 80% dos empregos de hoje não existem, as profissões desaparecem, como é que nós estamos a preparar os alunos para algo que existe no imediato? Não. Nós temos é de ter uma mente muito aberta, utópica, para lhes dar autonomia intelectual, moral, prepará-los para qualquer atividade que venha a existir no futuro. Autonomia. Mas não é estar sozinho. Ninguém aprende só com o computador. Ninguém aprende a partir da Inteligência Artificial. Aprendemos uns com os outros. O Professor não ensina o que diz, transmite aquilo que é. A aprendizagem é antropofágica. Isto está nos livros há 200 anos.

Como se enquadra uma escola sem turmas, sem notas, sem salas de aulas, com uma sociedade que valoriza a quantificação de metas, o cumprimento de objetivos, a hierarquização, rankings nos acessos às universidades?

Os pais há 40 e tal anos já me perguntavam isso lá na Ponte. Mas eles depois vão aprender tudo para entrar na faculdade? Aprendem tudo, e o que os outros não aprendem. E entraram na universidade. O que nós propomos aos pais é que reflitam, porque alguns viram o engodo que é o trabalho nas escolas durante a pandemia, porque as escolas entraram nas casas e as casas nas escolas através da internet. O António Nóvoa pôs cá fora um documento que diz que é preciso acabar com essa escola do século XIX, criar a utopia. Os secretários e os ministros convidam o António Nóvoa para falar, ele faz assessoria nos ministérios. Eu pergunto: porque é que os ministérios continuam a impor um modelo caduco do séc. XIX? Será que não entendem o que o António Nóvoa diz? Há tempos atrás o Goucha convidou-me para ir à televisão e no final da entrevista perguntou: e se você fosse ministro da Educação? Eu disse: mandaria publicar um decreto a dizer extinga-se o Ministério da Educação. Tudo mudaria para melhor.

Como se geria a Educação sem ministério?

É claro que tem de existir ministério. O que está em causa é a prepotência e o autoritarismo, infundado, do poder político. Que se cumpra o que está na Constituição e na Lei de Bases do Sistema Educativo, que eu ajudei a fazer. O que é que eu quero dizer com isso? Concretizar a Lei de Bases é concretizar o artigo 48.º: as pessoas podem ir ler. No ponto 3, ele é explícito: na gestão de estabelecimentos de ensino, os critérios de natureza administrativa não se podem sobrepor aos de natureza científica. Ora, o que acontece na prática? O contrário.

domingo, 23 de janeiro de 2022

"A ESCOLA É UMA SECA"


AQUISIÇÃO DO LIVRO



Recebi muitas dezenas de contactos perguntando-me onde o livro poderá ser adquirido. Dentro de algum tempo estará à disposição nas principais livrarias. Por enquanto, está disponível através do seguinte site:



Cómodo e rápido!
Custa mais € 1,50 (se não for expresso) e é recebido quatro dias depois da aquisição. Preço de capa (Editora) € 14,00.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A Escola é uma seca


Caríssimos Amigos,

Depois de muitos anos de investimento pessoal no conhecimento do Sistema Educativo, decidi publicar o essencial do meu pensamento sobre este importante sector. Atribuí o seguinte título ao livro: "A Escola é uma seca", que tem como editora a Lisbon Internacional Press do Grupo Editorial Atlântico.

Como é evidente, gostaria que este livro constituísse motivo de alguma reflexão e debate. Neste sentido, apesar das limitações que a pandemia impõe (uso de máscara), ficarei imensamente feliz e grato se me concederem a honra da vossa presença no Museu de Electricidade da Madeira, no dia 21 de Janeiro, às 17:45 horas.

Muito obrigado.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

“A educação não pode ignorar a curiosidade das crianças” - Edgar Morin


Entrevista a Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nascido a 8 de Julho de 1921 (100 anos). É um antropólogo, sociólogo e filósofo francês. Esta entrevista foi publicada há dois anos.

Mudanças profundas ocorreram em escala mundial nas últimas décadas do século 20, entre elas o avanço da tecnologia de informação, a globalização econômica e o fim da polarização ideológica nas relações internacionais. Diante desse cenário, o sociólogo francês Edgar Morin, hoje com 98 anos, defende que a maior urgência no campo das ideias não é rever doutrinas e métodos, mas elaborar uma nova concepção do próprio conhecimento. No lugar da especialização, da simplificação e da fragmentação de saberes, Morin propõe um dos conceitos que o tornaram um dos maiores intelectuais do nosso tempo: o da complexidade.



Em entrevista, o pensador critica o modelo ocidental de ensino que, segundo ele, separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. Para Morin, as disciplinas fechadas ensinam o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas impedem a compreensão dos problemas do mundo e de si mesmo.

Entrevista concedida à Andrea Rangel/O Globo

Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?
A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo “ideal” de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então, eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado. É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.

Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual?

O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o erro e a ilusão.


O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?
Vamos pensar em um conhecimento mais simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam um tamanho similar. Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.

O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento?
As disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro O homem e a morte é tipicamente transdisciplinar, pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.

Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?
É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise económica que a Europa está vivendo atualmente.

A literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por quê?
Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário.

Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro de ensino?
O Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas, a revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão.