segunda-feira, 31 de outubro de 2022

"A Escola é uma seca"

 

O problema não está na diminuição de 1 276 professores relativamente a 2010/2011 (7 105), uma vez que se verificou uma significativa diminuição da taxa de natalidade. Há menos crianças, portanto, menos são os professores necessários nos estabelecimentos de aprendizagem. O resto é conversa para entreter. (ver Dnotícias de hoje). Importante é saber onde se quer chegar com a actual política educativa. Repetir o passado com ligeiras alterações nas margens? Por aí eu diria que "vai dar erro". Aliás, o sistema vive, permanentemente, no erro. Nem tentativas faz para o evitar e, naturalmente, caminhar. Está acomodado e sobrevive da e na propaganda, não se percebendo como é possível se afirmar que se trabalha no sentido da "contínua melhoria do sistema". Mas alguém saberá para onde caminha?


Gostaria de assistir era ao debate, isso sim, não das ninharias, mas de tudo aquilo que é estruturante de um sistema desenhado para dar resposta às necessidades de uma escola compaginada com a vida. Não esqueço e continuarei a repetir até à exaustão o que escutei há mais de 50 anos:


"Como pode uma escola sempre igual 

competir com a vida que é sempre diferente. 

O desencontro é inevitável"


Eu já dei o meu contributo através da edição do livro "A Escola é uma seca". Não se trata de uma receita ou de um ponto de chegada. Trata-se, apenas, de um ponto de partida. Humildemente, peço que o adquiram e que façamos o debate.


À venda na

LIVRARIA ESPERANÇA
Rua dos Ferreiros - Funchal

Pode também ser solicitado:

https://www.livrariaatlantico.com/lis.../a-escola-e-uma-seca
Bertrand Livreiros - livraria Online
A escola é uma seca, uma pesquisa em Filosofia na Fnac.pt
Livros portugueses, livros estrangeiros, livros escolares e ebooks - Wook

terça-feira, 25 de outubro de 2022

CONVERSA SOBRE EDUCAÇÃO

 



A convite da Fundação Livraria Esperança, que muito me honra, na próxima Sexta-feira, com início às 18:00 horas, participarei numa "conversa sobre Educação". Darei o meu modesto contributo no quadro de um sistema que necessita, obrigatoriamente, de uma urgente revisão que vá ao encontro dos alunos, dos professores, dos pais e do desenvolvimento.

Espero lá encontrar aqueles que, de pensamento livre, desejem debater o actual estado da Educação. 
Até lá, Amigos.

Negar a ciência ou falta bom senso?

 

O Professor Doutor Santana Castilho esteve na Madeira e teceu algumas considerações relativamente à política de utilização dos manuais digitais. Sumariamente, tal como já neste espaço referi, assumiu que a estratégia dos tais manuais digitais, iniciada há oito anos nos Estados Unidos, está a ser abandonada. E explicou as razões.



Ora bem, quando uma figura académica, autor e colunista do Público, no decorrer de uma conferência para professores, despoleta uma situação destas, presumo que as campainhas de alarme deveriam tocar de forma estridente nos ouvidos dos responsáveis políticos. O secretário da Educação devia, imediatamente, sentir-se preocupado e proceder à auscultação de todos os que directamente estão ligados ao sector. Com uma pergunta-chave tão simples quanto esta: "será que estamos no percurso certo ou teremos de arrepiar caminho?" Simples! Se os neurocientistas invocam que o que parece não é, então, que se estude e que se mude de orientação. Só lhe ficaria bem, porque, diz a sabedoria popular a todos nós que "só os burros não mudam".


O que me parece é que o governo seguirá a sua orientação, sendo provável que o Professor Santana Castilho será considerado como uma pessoa a não tecer, no futuro e localmente, opiniões sobre a política educativa regional. E os manuais digitais continuarão e as tais "salas de aula do futuro" emergirão por aí, embelezando e servindo a propaganda de natureza política. O conhecimento científico ficará para depois.

A utilização da tecnologia, necessária e extremamente importante, não se esgota colocando os manuais em papel num tablet, mantendo intocável o formato pedagógico. Tudo isto significa que existe uma crónica teimosia em viver de modas e de aparências, onde o estudo fica sempre para mais tarde. Professores da minha terra, acordai!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Tecnologia não é "meter" os manuais em papel no tablet!


Quem o diz é o professor Santana Castilho, que aponta os Estados Unidos da América como um país que abandonou a estratégia. Entre as razões estava o aumento das doenças oftalmológicas.


Unsplash

O projeto Manuais Digitais arrancou em 2018, na Madeira. Desde então, tem vindo a transformar-se numa referência, incitando outros países a adotarem a estratégia da desmaterialização. Este ano letivo, a medida passou a cobrir 9.500 alunos e dois mil docentes – o que corresponde, respetivamente, a 45% e a 33% dos alunos e professores da região autónoma, avança a "SapoTek".

No entanto, cada vez mais se tem questionado o impacto a nível cognitivo que um futuro completamente digital pode ter nas crianças e jovens – e, afinal, não parece muito promissor. Quem o diz é o professor Santana Castilho, na conferência da Associação Nacional de Professores desta sexta-feira, 21 de outubro.

"Estudos feitos por centros de investigação e cientistas da neurociência concluíram que o desenvolvimento cognitivo dos jovens que tiveram um grande mergulho nas tecnologias digitais aos 11 anos está similar àquele que há 30 anos as crianças tinham com 8/9 anos de idade", explica Santana Castilho, em declarações à RTP.

Existem várias razões que, alegadamente, demonstram os efeitos nocivos da adoção desta medida. Uma delas é a situação dos Estados Unidos da América, onde "a experiência dos manuais digitais começou há 8 anos" – e, desde então, tem sido abandonada sistematicamente". Porquê? "Porque o custo relativamente aos manuais em papel disparou, é cinco vezes mais caro. E porque as doenças oftalmológicas aumentaram em 30%", frisou o professor.

Em Portugal, a desmaterialização abrange 66 agrupamentos e cerca de 12 mil alunos, segundo o “Jornal de Notícias”. Mas esta é uma iniciativa que se deve expandir por todo o País. Isto porque o ministro da Educação, João Costa, já havia revelado as suas expectativas no que ao assunto diz respeito – que todas as escolas tivessem manuais digitais até 2026, altura em que a sua legislatura termina.

sábado, 22 de outubro de 2022

O sistema está amarrado, estrangulado e centralizado numa pessoa!


Desde há muitos anos que nos conhecemos. Tenho pelo Engenheiro Arlindo Oliveira uma enorme consideração e estima. É um Homem esclarecido, de pensamento aberto ao Mundo, perspicaz e sensível face aos dramas sociais. Num tempo que não era fácil ter opinião, não se escondeu. Infelizmente, não foi aproveitado no plano do exercício da política. Ainda assim, em vários mandatos, servimos o Funchal enquanto Vereadores. Aquilo que escrevo relativamente ao sector da Educação, dos poucos que vêm a terreiro debatê-la, ele é um dos que se interessa apesar deste não ser o seu sector de actividade profissional. 



Há dias, publicou um texto sobre a Teoria da Relatividade de Albert Eintein - De Newton (1643-1727) a Einstein, (1879-1955) uma nova visão do mundo e do Universo. Republiquei-o no meu blogue pela importância que tal texto reflecte. É fruto do seu continuo interesse pelo estudo de temas apaixonantes e que a maioria de nós não domina. Já antes tinha acompanhado uma interessante e contagiante entrevista, melhor dizendo, diálogo com o Padre José Luís Rodrigues. Uma conversa que me encheu. E se o trago aqui é pelo facto de naquele trabalho sobre Einstein, o meu Amigo Arlindo, independentemente de todo o conteúdo, ter destacado o facto de Einstein ter sido um aluno mediano nas disciplinas de Física e de Matemática. Estava sempre distraído e teve que sair da escola. O seu texto começa assim: 

"Albert Einstein, nascido nos fins do século XIX, (1879) veio a revelar-se um génio, apesar de, na escola, alguns dos seus professores, não lhe alvitrarem grande futuro na vida, já que, não se revelou, tradicionalmente, um aluno normal, aliás, como a muitos de nós, muitas vezes incompreendidos, ouvimos, em versão semelhante, maus augúrios, da parte de alguns dos nossos professores (...)".


Perante isto, respondi-lhe: "Apenas um desabafo que vai muito para além da nossa Amizade: enquanto metáfora, quanto gostaria eu que toda a classe docente se chamasse Arlindo! Precisamos de um (AR)ejamento total e LINDO no quadro de um novo pensamento em harmonia".

Poucos minutos depois retorquiu: "Gostei meu caro amigo André Escórcio, mas sei que não mereço, no entanto, sempre tive curiosidade em conhecer cada vez mais e que o conhecimento chegasse a todos, especialmente àqueles que não são ouvidos nem têm voz para exprimirem o que lhes vai na alma  (...) quando era universitário constatei que era mais fácil mudar o mundo começando na nossa família, no nosso sítio e na nossa aldeia, etc. etc., (...) mas, afinal, quando regressamos, “formados”, armámo-nos em doutores e perdemos a parte genuína que nos levou à universidade - a nossa pureza de espírito - sim quando regressamos estamos vendidos ao sistema que nada diz ao povo, pelo contrário, oprime-o. Caso contrário a revolução estaria feita por dentro e bem! (...) Um abraço e não disserto mais porque estou a comover-me tão claro é para mim, este meu sentir da realidade - a mudança está em nós, em todos nós e a começar pelos que estão mais perto. Um abraço André."


Pois é, Amigo Arlindo, em todos os sectores "a mudança está em nós". Infelizmente, a maioria não a quer ver. Ainda neste fim-de-semana esteve na Madeira o Professor Doutor Santana Castilho que teceu algumas considerações que deveriam merecer atenção e debate (RTP-M/TJ de Sexta-feira). Caríssimo Arlindo, creia que dei uma gargalhada quando escutei o Professor dizer que, nos Estados Unidos, a implementação dos manuais digitais, iniciada há oito anos, foi abandonada, porque os cientistas concluíram que o desenvolvimento cognitivo das gerações mergulhadas no digital é equivalente ao das crianças de 8/9 anos de há 30 anos; por outro lado, são cinco vezes mais caros para além de ter crescido em 30% as doenças oftalmológicas. Por aqui, andam com a peregrina ideia da "sala de aula do futuro" (a Educação é hoje, não é amanhã) e com os manuais digitais que não são mais do que os de papel "metidos" no digital. E o que quero dizer com isto? Que a putativa novidade pegou, porque não se debate, porque não sabem para onde caminham, porque poucos são capazes de dizer que este rei vai nu, porque o sistema está amarrado, estrangulado, centralizado numa pessoa assessorada por uma meia-dúzia incapaz de dizer que esse não é o caminho. Tecnologia na escola não é aquilo que andam a fazer! Há um défice de estudo quanto à necessidade de reinventar o sistema, que passa por assumir a autonomia plena dos estabelecimentos de aprendizagem, por desenhar novos currículos, por ter uma nova visão programática, por alterar profundamente o paradigma da aprendizagem, por entender a escola como cultura, por trazer a vida para dentro da escola respeitando o sonho individual e por colocar em cima da mesa essa doentia obsessão pela avaliação, tudo isto, entre outros, são assuntos que os políticos de turno não querem e não desejam.


Não imagina, Amigo Arlindo, quanto perplexo fico quando assisto ao silêncio, ao cansaço dos professores, à generalizada angústia dos alunos que olham para uma escola que pouco lhes diz, por ser repetitiva, rotineira, previsível e em que todos, professores e alunos, não se sentem bem. Uma escola burocrática, de uma falsa meritocracia e distante da vida real. O que fazer, Arlindo? Continuar ou desistir? Assumiu o Dr. Mário Soares: "só é vencido quem desiste de lutar". Por isso, mesmo que não queiram aprender, continuemos a escrever e a debater. Um abraço.

Ilustração: Google Imagens

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A "questão aula" e a obsessão pela avaliação

 

Nos finais dos anos 60 fui aluno de um professor que dedicava os primeiros minutos de um novo encontro connosco, à resolução do essencial do que tínhamos escutado e debatido na sessão anterior. Essas respostas eram individuais, não eram recolhidas pelo Professor e apenas serviam para nós (colectivamente) nos situarmos na compreensão da matéria (conhecimento), repito, escutada e debatida. Só passávamos adiante quando 80% estava percebido e consolidado. Não havia qualquer preocupação avaliadora e registada no sentido professor-aluno, mas apenas o aluno como centro da aprendizagem. Isto, há 50 anos!



Nos últimos anos, um ministro, cujo nome, intencionalmente, não quero recordar, entendeu lançar, generalizar e até "obrigar" à realização daquilo que se designa por "questão-aula". Rapidamente, passou-se de uma atitude formativa para o aluno, que muitos professores já desenvolviam, para um âmbito classificativo, embora, numa percentagem reduzida no cômputo geral da avaliação. É a espada avaliadora, onde qualquer outra preocupação só marginalmente reside no aluno. Isto, 50 anos depois!

Aliás, nos estabelecimentos que deviam ser de aprendizagem (ainda os designam por estabelecimentos de ensino) é cada vez maior a obsessão pela avaliação, não pela aprendizagem. São muitas as paranóias que os invadiram: a centralização dos processos, hierarquicamente definidos, que impedem a autonomia e a liberdade de cada estabelecimento criar as suas próprias dinâmicas de escola e de aprendizagem. 

Vivem num espartilho onde tudo se acomoda dando a entender formas naturais, quando, se retirarmos as amarrações,
o corpo desintegra-se em bocados mil;

é o excessivo número de alunos por estabelecimento; é o processo burocrático, onde muito para nada serve, que enche o arquivo-morto e continua a retirar tempo e disponibilidade para pensar a aprendizagem centrada no aluno; é a irresistível motivação para a realização de actos irracionais, como a da obsessão pela avaliação de natureza classificativa; é a manutenção de um arcaico conceito de aula e de turma; é essa praga da uniformidade que padroniza currículos, programas e conceitos organizacionais de aprendizagem, como se todas as populações fossem iguais, os professores não tivessem capacidade para entender a aprendizagem de forma diversificada e a forma como se aprende fosse de sentido único. É a louca correria por uma enganadora meritocracia que traz para dentro da escola muitas taras e desigualdades sociais. Tanto que sobre isto há a dizer e a debater!  

Regresso ao princípio a essa história da "questão-aula", onde até já existem cadernos com enunciados. Aquela expressão não me agrada, sobretudo porque tenho um entendimento negativo da palavra "aula". Aliás, na linha do que tantos autores já assumiram. Tenho presente o Professor José Pacheco, incontornável na forma como entende o processo de aprendizagem. Ele assume: "a aula não ensina e a prova não prova". Portanto, é tempo de parar com essa lógica que assenta no pressuposto que "o modo como o professor aprende é o modo como ele ensina". E andamos neste círculo vicioso e sem tempo para pensar e sobretudo para fazer pensar. Ora bem, porque não me quero alongar, fazem todo o sentido as preocupações de natureza formativa, nunca as obsessões pela avaliação subordinada na repetição e na memória, onde 90% se esfuma passados 30 dias. A aprendizagem tem contornos diferentes e o conhecimento nada tem a ver com pontuais "questões-aula" de natureza classificativa. Não é pela existência de uma "questão-aula" que a motivação para o estudo (curiosidade) se desenvolve. É tempo de fazer um "resert" ao que andamos a fazer, muitas vezes até por convicção!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Perguntas simples de resposta complexa

 


O sistema educativo está envolto numa teia, tecida ao longo de muitos anos por políticos que denunciam uma claríssima dificuldade em responder a questões básicas. Deixo aqui apenas duas de um extenso rol que deveria preocupar os que ocupam cadeiras de poder político:

1ª Sabendo-se que a capacidade de atenção dos alunos oscila entre 10 e 18 minutos, que razões científicas sustentam a manutenção de "aulas" entre 45 e 90 minutos?

2ª Sabendo-se que, aproximadamente, em 30 dias, 90% do que, pressupostamente, se aprende numa "aula" apaga-se, que razões científicas sustentam a manutenção do actual "modelo de aprendizagem"?

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

"Sala do Futuro"? Não seria melhor designarem por "laboratório tecnológico"?


Na política, deixa-me um rasto de pena aqueles que, discursivamente, conduzem ao engano através da artimanha das palavras, dos sentidos e dos ares convencidos que uma determinada orientação é a melhor para o povo. Sinto comiseração quando cruzo, o pouco que sei com aquilo que dizem, em função do conhecimento que existe. Vem isto a propósito das anunciadas "salas de aula do futuro". Sobre este assunto já diversas vezes escrevi (ver links no final do texto), mas entendo que vale a pena voltar ao assunto.



Façamos estas contas: 20 alunos x 14 "salas do futuro" = 280 alunos abrangidos a prazo. A população de estudantes na Madeira é de cerca de 40 000. Se dividirmos este global por 280 (7%), chegamos a uma necessidade de 143 salas, no quadro organizacional do actual conceito de escola. Por outras palavras, o tal futuro é inatingível para a esmagadora maioria desta geração. Com alguma ironia aqueles dados fazem-me ter presente o dístico à entrada de uma taberna: "Amanhã fia-se, hoje não". E assim taberneiro empurra o problema para depois.

Só é inteligível uma sala equipada para a aprendizagem nos dias que estamos a viver, se ela corresponder a um novo pensamento acerca do que se deve entender por Escola. Concomitantemente, se apresentar uma relação mútua com uma nova organização interna que determine, no plano pedagógico, como chegar ao conhecimento relevante e em conexão. Não é, pois, carregando os manuais em papel para dentro do digital ou com uma série de salas referenciadas "do futuro", porém, mantendo o formato pedagógico, que se despertará o interesse dos alunos e, por aí, os patamares do conhecimento superior. Não sou eu que o digo, são tantos os autores que o referem. Apenas sou um "porta-voz" do que outros escreveram. Portanto, porque aquele tipo de sala não deve ser de experiência pontual, mas permanente, estamos face a um logro, a uma propaganda sem sentido, ou, pior, face a uma fraude conceptual.

Aliás, pergunto, onde podemos ler o estudo, devidamente fundamentado através de uma extensa revisão bibliográfica, que fundamente os passos entre o "onde estou" e o "onde quero chegar"? Se existe, a comunidade educativa desconhece, o que pode significar que o sistema anda ao sabor de algumas modas, de interesses políticos e de empresas que apenas desejam vender equipamentos. Alguém foi ouvido? Leiam, entre outras, a entrevista do Professor Pepe Ménendez que, em 2019, esteve na Madeira (Jaime Moniz) onde proferiu uma conferência subordinada ao título "Uma Escola transformada para ser transformadora". Na Catalunha, levou alguns anos a Ratio Studiorum do Século XXI (Jesuíta). Do debate, disse Pepe Ménendez, surgiram 56 000 ideias e, dessas, 17 propostas foram seleccionadas para servirem de base ao "modelo sincrético". "(...) Só depois deitaram abaixo as paredes das salas tradicionais, transformando-as em espaços de conhecimento, eliminaram a ideia de disciplinas separadas, testes, horários e trabalhos de casa. Tiveram a coragem de romper com a ideia de que o professor dá o conhecimento (...)" - Do livro da minha autoria, A Escola é uma seca - pág. 148. Para justificar as "salas de aula do futuro", questiono, assim, que estudos foram realizados?

Perante isto, sumariamente alinhavado, não seria mais avisado esquecerem essa infeliz designação de "sala de aula do futuro" (na escola, o futuro é hoje - sentido prospectivo), antes designando-a por "laboratório tecnológico"? Em simultâneo, senhores políticos, digam o que pensam sobre a Escola para os tempos que vivemos. É a escola que encontra as traves-mestras no Século XIX ou uma outra projectada para o Século XXI? Eu adoro a improvisação (leia-se criatividade), mas no Jazz. No sector da Educação a improvisação é música dissonante para os ouvidos de quem pensa. Fico com a sensação de ausência de estudo e sobretudo com a ideia de "desenrasque" no pior sentido.

Ilustração: Google Imagens.

EDUCAÇÃO : FALAM DE SALAS DO FUTURO QUANDO O FUTURO COMEÇOU HÁ MUITO! (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)
EDUCAÇÃO : Seria bom que se deixassem de tretas... (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)
EDUCAÇÃO : AFINAL, QUAL O PARADIGMA DE SISTEMA EDUCATIVO QUE O SECRETÁRIO REGIONAL PRETENDE? (educacaopensamentoautonomia.blogspot.com)

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Faltam professores?

 

Segundo li no jornal Público faltam 871 professores, o que significa 12 967 horas por preencher (60% nos distritos de Lisboa e Setúbal). A pergunta que coloco é esta: temos professores a menos ou sistema educativo a mais? 



A mais pela existência de uma política educativa que mantém o padrão organizacional do passado, os currículos densos, complexos e disparatados, os programas extensos e sem interligação, que privilegiam a manutenção de um conceito de "conhecimento fragmentado" (decompondo as partes, por disciplinas, quando a sociedade funciona na globalidade), que prefere a centralização de todos os processos, à abertura da Escola à comunidade (não há duas escolas iguais) e que assume a rotina em detrimento de uma escola que faça pensar. Significa isto que este sistema está morto, pois já nem consegue atrair jovens para o exercício da profissão docente! Não é, pois, de estranhar que a classe dos professores esteja cada vez mais envelhecida e desejosa de lá sair.

Esta sumária caracterização leva-me a questionar se faltariam professores se outro fosse o pensamento organizacional (a todos os níveis), curricular, programático e pedagógico? Estou em crer que não faltariam. Neste pressuposto, considero que o problema reside, não no número de professores, mas no pensamento sistémico do que se deve entender por verdadeira e consistente aprendizagem, no quadro de uma escola onde o professor assuma o papel de mediador e não de "debitador" de matéria. 

Por isto mesmo, a preocupante fragilidade relativamente ao cada vez menor número de alunos, deveria transformar-se numa oportunidade para gerar uma escola para o tempo que estamos a viver e para o futuro que fervilha à nossa frente. Há, portanto, uma nova mentalidade a implementar, que implica um novo caminho a percorrer. Ainda hoje, para salvaguardar o número de alunos sem as ditas "aulas" (conceito ultrapassadíssimo), o Ministro veio assumir a necessidade de um terço do recrutamento ser da iniciativa do próprio estabelecimento de aprendizagem. Porquê um terço? Isto é, descentralizam um pouco o recrutamento ("enquanto o pau vai e volta folgam as costas"), mas o funcionamento da Escola permanece rotineiramente igual. 

Paralelamente, não se pode ter professores com uma tabela salarial miserável face à responsabilidade que lhes é atribuída. O Público, este é um mero exemplo, destaca uma Professora de Alemão, Manuela Laginha, que preferiu emigrar para a Suíça (recrutamento aberto pelas escolas e municípios) a penar pelas estradas portuguesas com a "casa às costas". Lá, está a 12 minutos de casa e recebe € 9 223,00, o equivalente a Francos suíços que é de 8 900,00. Espantoso! 

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

E por aí, alguém disse que a taxa de participação era de 50%!


Por
Facerbook

Olympikamente... os melhores resultados de sempre.

Eu, se nos últimos 20 anos tivesse sido durante mais de 12 responsável por várias organizações da cúpula do desporto nacional e um dos grandes, senão o maior, "influencer" das políticas públicas em matéria de desporto, perante os dados agora divulgados no relatório do Eurobarometer (2022), em vez de ter ido a Cuba em busca da "pedra filosofal", devolvia as condecorações e os "honoris causa" acumulados e, simplesmente, demitia-me.

No relatório do Eurobarometer relativo a 2017 a proporção de pessoas que se exercitavam ou praticavam desporto regularmente ou com alguma regularidade era maior na Finlândia (69%), Suécia (67%) e Dinamarca (63%).

Os países cujos entrevistados afirmavam nunca praticar qualquer atividade física ou desportiva eram a Bulgária, a Grécia e Portugal onde, em cada um deles, 68% cidadãos afirmou nunca se exercitar ou praticar desporto.

No relatório do Eurobarometer relativo a 2022, a proporção de pessoas que se exercitam ou praticam desporto regularmente ou com alguma regularidade é maior na Finlândia (71%), Luxemburgo (63%), Holanda (60%) e Dinamarca e Suécia (59% em ambos os países). Os países cujos entrevistados afirmam nunca praticar qualquer atividade física ou desportiva são Portugal (72%), Grécia (68%) e Polónia (65%).

Ficamos a aguardar o que é que os políticos dos vários partidos, que nos últimos vinte anos se deixaram ir no canto das sereias das medalhas olímpicas, têm a dizer sobre o descalabro nacional das políticas públicas em matéria de desporto do ensino ao alto rendimento.

Pode ser uma imagem de mapa e texto que diz "QB2R And how often do you engage in other physical activity such as cycling from one place to another, dancing. gardening, etc.? By other physical activity" we mean physical activity for recreational non-sport-related reasons. (%-Never) PT RO ES EU27 27 23 Map Legend 46-100 31-45 14-30 0-13 LT DE 18 15 14 13 13 HU RO BE BG NL FI SE Base: All Respondents (N=26,578)"


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Entre rotos e esfarrapados...


A propósito da contagem do tempo de serviço congelado aos professores, o Ministro fez umas declarações quanto a mim inócuas e, portanto, sem qualquer relevância política. Considero que não merecia contraponto. É daquelas situações que o Ministro deveria estar calado e o governante regional mudo. Mas não, o secretário resolveu ripostar: "(...) Nós entendemos que estas declarações, sendo completamente despropositadas, não deixam de ter também uma outra intenção que é a de encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal", disse Jorge Carvalho, secretário da Educação, Ciência e Tecnologia da Madeira - Dnotícias, 14.09.2022.



A parte interessante, aqui sim, de natureza política está na passagem "(...) encobrir aquilo que são as incompetências do Partido Socialista para governar a educação em Portugal". Admitamos que sim. A questão é perceber as incompetências do Partido Social Democrata para governar a educação na Madeira. A questão reside aqui. No quadro da Autonomia Político-Administrativa, pergunta-se, então, que avanços foram proporcionados?

Estou completamente imune às questões partidárias. Como vulgarmente se diz, "por aí passei e por aí perdi o cabelo". Tenho convicções, obviamente que sim. Tenho leituras de processo, claro que sim. Como qualquer um outro português insulano. Sobretudo porque tento perceber e cruzar a informação dos vários dossiês. Mas não entro no despique inconsequente porque se esgota na espuma dos dias. Por isso, é caso para dizer que há qualquer coisa ali de roto e de esfarrapado!

Ainda há dias, li um desabafo de um professor que sublinhava o facto de, na Madeira, no sector educativo, nada restar que faça a diferença. Apenas foram "10 anos perdidos... como é possível? Já não é folclore é algo totalmente absurdo". Mas há muitas outras posições sobre o que a Região poderia ser em matéria de política educativa e aquilo que realmente é. No mínimo, eu diria que é uma cópia do Continente. Não é em vão, também na Educação, que se diz que a Assembleia é mais adaptativa do que legislativa. No leque das tais incompetências, vá lá, portanto saber-se quem ocupa o primeiro lugar!

O debate deveria centrar-se em matérias muito mais profundas. As de natureza estrutural, de pensamento, de aferição do que dizem e escrevem os grandes pedagogos e cientistas da actualidade (e não só) face ao mundo que está na frente dos nossos olhos. Constata-se a existência de um claro desfasamento, quase total e muito perigoso, entre a rotina do sistema que é proporcionada e a estabilidade e êxito da população em todos os sectores e áreas do desenvolvimento. Enquanto uns buscam a antecipação do futuro, outros amam o passado, idolatrando figuras e conceitos absolutamente desadequados. A universidade nada lhes deu. É caso para perguntar a quem interessa uma população distante, alienada, ignorante, pobre e dependente?


O futuro não se constrói com paleio, repetições, centralização de políticas abstrusas, intencionais perseguições e silenciamentos, distribuição de algumas benesses, controlo total da máquina e imposição de uma lógica de medo. Esse é o caminho do desastre colectivo. Que egoísmo por aí vai! Defender a imagem pública, puxar dos galões, manobrar por detrás do palco, ameaçar ou mandar ameaçar, comprar silêncios e muito mais, deixará uma indelével marca que só prejudicará a afirmação de uma Educação ao serviço do desenvolvimento. São os rotos a vangloriarem-se face aos esfarrapados!

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

O folclore - "Repisa rapaz, repisa e torna a repisar..."

 

"Folclore" foi como o secretário da Educação do governo da Madeira caracterizou uma manifestação, no essencial, de chamada de atenção para os problemas, alguns muito graves, apontados pelo Sindicato de Professores da Madeira. Eu que liderei, durante dois mandatos, a mesa da assembleia geral de professores do SPM, fiquei estupefacto com aquela forma de caracterizar o importante trabalho de alerta e tentativa de correcção dos processos que aos professores dizem respeito. Participei em inúmeras reuniões de professores e nunca me apercebi de qualquer ausência de bom senso na análise dos temas em debate. Os professores sempre partiram do pressuposto que numa negociação todos perdem. Perde-se para que todos possam ganhar alguma coisa.



A resposta veio célere, educada e apropriada, através do Coordenador do Sindicato, Dr. Francisco Salgueiro Oliveira: "O folclore não vem da parte do sindicato nem dos professores. O sindicato denuncia aquilo que encontra nas escolas. O folclore fá-lo-á quem não reconhece a realidade das escolas e, para nós, não nos espanta que isso aconteça. A música que encontramos nas escolas é uma música que está claramente dita por esses colegas que rejeitam colocação na Madeira. É uma música que não é agradável (...)".

Transcrevo de um site (meusdicionários): "folclore é um termo proveniente do inglês, com a junção das palavras folk, cujo significado é povo, e lore, que tem o significado de conhecimento, de saber. A palavra foi usada pela primeira vez pelo arqueólogo William John Thomas, em 1846. Assim, entende-se como folclore o conjunto de tradições e manifestações populares, com todas as lendas, mitos, danças, costumes e provérbios de um povo, passadas oralmente de geração em geração". 

Em aproximação, parafraseando, eu diria que o saber do povo, leia-se professores, porque entendem que há que acabar com os mitos e as lendas passadas ao longo das últimas décadas por uma certa casta de políticos, decidiram, uma vez mais, juntar-se para alertar para os erros que o tal "folclore" apresenta no quadro de uma escola portadora de futuro. Erros estruturais de concepção e de atitudes que os tem levado, serenamente, mas contrariados, a dançar ao ritmo desajeitado do chefe (diferente de líder). Tenho por assumido que eles estão fartos de dançar o "baile pesado", curvados e com o nariz quase colado aos joelhos. Portanto, se há "folclore" na Educação, diz o Dr. Francisco Oliveira, não é da parte dos professores, tampouco de quem os representa, mas de quem tem tido a responsabilidade de conduzir o sistema educativo regional autónomo. É o que nos diz o "baile pesado" uma das quadras dita: "Repisa rapaz, repisa e torna a repisar (...)". O que corresponde a uma manifestação de desconsideração pelos professores.

Ademais e, finalmente, pergunto, quais são as linhas programáticas conhecidas, susceptíveis de uma mudança para uma escola de resposta às exigências do século que estamos a viver? Oficialmente, não existe. 

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Regresso às aulas ou o regresso à rotina?

 

A pergunta tem a sua razão de ser. Não tolero a expressão "regresso às aulas", porque a aprendizagem é permanente, mesmo em tempo de pausa, mas sobretudo pela carga que ela transporta no quadro do sistema educativo; muito menos me conformo com a "rotina". Ambas, por múltiplas razões tantas vezes aqui equacionadas, constituem a antítese da escola que aos jovens deveria ser proporcionada, enquanto espaço de conhecimento significativo, como, por outro lado, traduz o oposto relativamente a um mundo que não se compraz com repetitivas atitudes tradicionais. De forma absurda e ininteligível, os políticos são capazes de olhar e até compreender a velocidade com que a ciência acontece, mas continuam a preferir encostar os olhos e o nariz numa parede. Ainda ontem, em contraponto, o Papa Francisco, numa entrevista na TVI, embora num outro contexto, alertava para a necessidade de "abrir a janela" para ver o mundo, digo eu, de oportunidades que os novos caminhos sugerem. Abram a janela, disse! Escancarem a janela.



Ora, o tal regresso às aulas corresponde à janela fechada. É o regresso à turma, aos currículos, à "liturgia" programática, ao condicionamento do pensamento através do manual, à segmentação da aprendizagem por disciplinas, logo, sem interligação consistente entre elas e muito menos com a vida, à imposição do que os adultos entendem como importante, à matança de talentos, porque não se respeita a vocação, o regresso ao débito das matérias, aos testes, à nota e ao exame. É isto que configura o "regresso", palavra que significa "retorno à circunstância inicial". Uma escola assim corresponde a salas vazias de significado.

Aos que seguem a leitura deste texto, obviamente que é legítima uma pergunta: então, existirá outro formato de escola? Respondo: existem muitos, mesmo em Portugal, basta que os estudemos. O que tenho por adquirido é que o "modelo português" (trata-se, de facto, de um modelo (estático) e não de um paradigma), ano após ano, afugenta da escola os alunos e os professores. Os primeiros assumem que é "uma seca", vendo nela mais obrigação do que utilidade, e os segundos, na generalidade, não encontram o momento de fazer um corte com a profissão que abraçaram e muitos amaram. Mais grave é que são poucos os jovens candidatos ao exercício da docência. Mesmo no actual sistema, a renovação dos quadros já é deficitária. O retrato da situação é público e notório.

E não é preciso ir lá fora copiar um qualquer paradigma de escola, porque a solução está cá dentro. Há que olhar, obviamente que sim, para aquilo que outros fazem e de forma consequente, há que reflectir e produzir pensamento a partir de experiências vividas, mas sempre com a preocupação de fugir à tentação de criar um "modelo nacional" desadequado das inúmeras circunstâncias caracterizadoras do povo português. 

Ademais, os estabelecimentos de aprendizagem precisam de uma completa autonomia, de gerar a diferenciação entre eles e de deixarem de vez a trela política centralizadora.

Hoje, estamos perante um "cocktail" explosivo de graves consequências para o futuro colectivo. Os penosos resultados desta cega política estão a caminho. Aliás, já são sensíveis e devastadores os sinais em todos os sectores e áreas da sociedade. Cinquenta anos depois de Abril tudo continua estruturalmente igual, apenas com alguns enfeites e muita propaganda balofa. Para quem decide, face às configurações da IV Revolução Industrial, basta responder com os enquadramentos que provêm da I Revolução Industrial. Pergunto, será que ninguém dá conta que estamos a preparar para empregos que não vão existir e, pior ainda, estamos a gerar uma grave carência de especialistas em variadíssimos espaços profissionais? Ainda ontem, cruzei-me com um empresário que foi claro: "preciso de colaboradores que saibam do ramo a que me dedico. Não encontro". Ele não me falou de habilitações académicas, falou-me de pessoas com talento e capacidade profissional. Ora, concluo, há um evidente divórcio entre as duas faces do problema.

Depois, com uma gritante facilidade, oiço por aí frases do tipo: geração de malandros, não querem trabalhar, vivem dos subsídios, eu sei lá o que tenho escutado. Desabafos que caracterizam a situação actual, mas que ficam pela superficialidade, distante da causa dos problemas. E na causa está a estrutura da sociedade em todos os aspectos, a mentalidade enraizada por anos a fio de encolher de ombros, a ausência de rigor e de uma escola desadequada da realidade. Ninguém se questiona para onde vai, ninguém apresenta uma preocupação de sentido prospectivo, trazendo ao presente o futuro que é desenhável. E como quadros iguais resultam em respostas iguais, ninguém espere amanhã outros resultados que não os de hoje.

Preocupam-se, apenas, e este é um mero exemplo local, que este ano o sistema terá menos 800 alunos (como se martelam as estatísticas!), que os professores estão colocados (!), as salas preparadas, os diversos serviços em funcionamento, os apoios garantidos e pronto, tal qual na fábrica, as portas abrirão às 08:00 e encerrarão ao anoitecer. Pobre escola esta! Os de plantão, no topo da hierarquia política, vão-se entretendo na propaganda e nas palavras rotineiras para enganar tolos. Sem qualquer vergonha, dirão, dentro de dias, que as "aulas" recomeçaram dentro "da normalidade". Pois... o que interessa é a eleição seguinte e não a geração seguinte.

Ilustração: Google Imagens

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

José Pacheco: merecemos uma escola muito melhor do que imaginamos


Por
AbrilAbril
15 de Agosto de 2022

A educação do presente está prestes a virar passado. Ao AbrilAbril, José Pacheco, co-fundador de um novo projecto educativo em Portugal, expressou a sua intenção de transformar, de vez, este ensino de «infelicidade dos professores e desinteresse dos alunos».


O professor José Pacheco, numa sessão da ANDEA, Associação Nacional de Dificuldades de Ensino e Aprendizagem (São Paulo, Brasil), em 2019. Créditos/ ANDEA


Se a educação é um direito, não há como fugir a um dilema moral: se os alunos não aprendem, para que é que continuamos a dar aulas? A impingir centenas de testes e exames ao longo da escolaridade obrigatória? Porque é que teimamos em dividir alunos por turmas, de 30 alunos cada? Duzentos anos depois, insistimos num modelo que já provou, uma e outra vez, que não funciona.

Há 50 anos, esta mesma dúvida assolou o professor José Pacheco, recém chegado à Escola Básica da Ponte, em Vila das Aves: «Se eu continuasse a fazer isso [dar aula], seria anti-ético». Não é o aluno que não aprende, são as aulas que não o ensinam.

Desta inquietação nasceu um novo projecto pedagógico, único no mundo, numa escola pública no meio de uma das comunidades mais pobres em Portugal. A Escola da Ponte tornou-se numa referência internacional pelos seus resultados: são os alunos que gerem e organizam o seu próprio tempo, sem divisões por turmas ou idades, sem testes nem exames, numa avaliação verdadeiramente contínua.

A partir de 2007, José Pacheco apoiou a formação de centenas de espaços educativos em comunidades por todo o Brasil (de que são exemplo o Projecto Âncora e a Escola Aberta de São Paulo), sustentados na experiência acumulada em 28 anos de coordenação do projecto da Ponte.

A Open Learning School, da qual é co-fundador, marca o retorno, em definitivo, do professor a Portugal. A escola, do ensino privado, pretende «romper definitivamente com as práticas do passado», oferecerendo «uma educação conectada com as necessidades e desafios do séc. XXI».

Mas a revolução no sistema educativo não fica por aí: em Setembro, centenas de professores da escola pública portuguesa vão assumir o mesmo compromisso ético que norteou a vida de José Pacheco, estabelecendo turmas-piloto em vários pontos do país. A nova escola está a passar por aqui.

A Open Learning School pretende transformar a educação em Portugal pela força do exemplo?

Toda a aprendizagem nasce do exemplo e da imitação.
A intenção é exatamente essa: concretizar aquilo que já o Baden-Powell dizia (o criador do escotismo): nenhum ensino pode prescindir do exemplo. Nesse sentido, a Open Learning parte de uma referência incontornável: a Escola da Ponte.

Essa escola foi a primeira no mundo que logrou fazer aquilo que ainda hoje é um mito: colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem. Nos dias de hoje continua, nas escolas, na velha aula, com o professor como centro. A Escola da Ponte deu autonomia aos alunos, criou aquilo que se chama o protagonismo juvenil, há 46 anos. Ela é conhecida em todo o mundo, excepto em Portugal, claro.

[A Open Learning] surge quando voltei do Brasil (estive 20 anos fora) e me deparo com uma situação que nunca imaginaria: alguém, no espaço empresarial, possuía sensibilidade suficiente para criar uma escola na linha da Escola da Ponte, Projecto Âncora, da Escola Aberta de São Paulo (porque a Ponte não está sozinha, no estrangeiro tem muita, não é réplica, mas semelhança com outros projectos). Um empresário que tem dois filhos, e quer para eles a educação que a escola não dá.

Quando eu falo de escola não é apenas a escola da rede pública, de Portugal, que não dá. A escola da rede pública de Portugal é a uma escola do séc. XVIII, séc. XIX. Nós temos alunos do séc. XXI, com professores do séc. XX, a trabalhar no séc. XIX.

As escolas privadas, em geral, são muito diferentes?

Não... As escolas particulares são iguais às escolas da rede pública, apenas têm um marketing muito forte, mais computadores, mais telas digitais, mas é a mesma história... Não, não há diferença nenhuma. Aliás eu digo sempre que toda essa publicidade é fake news. Esta [a Open Learning] posso assegurar que não é.

Esta é uma iniciativa séria, de um homem que quer o melhor para os seus filhos, como todos os pais querem. Só que nós vivemos numa sociedade em que existe uma doença mortal, que é considerar que essa escola que aí está, é a escola que nós merecemos. Não é.

Tal como aceitamos e imitamos os bons exemplos, também repetimos os maus...

Exacto. A sociedade civil, as famílias, vivem com esse pecado, essa doença: foram formatadas naquilo que viveram, enquanto alunos. Mas é possível sair disso. É possível, é necessário e é urgente.

Nós vamos ter, muito em breve, companhia para a Open Learning. O que a Open Learning já fez foi, em muito curto espaço de tempo, conseguir abrir alguns lugares onde os pais assumiram um projecto idêntico. Está a formar tutores, professores-tutores, enfim, está a avançar de uma forma que eu não esperaria.

Isto tudo, embora o mercado da educação seja muito competitivo e onde há, como te disse, muitos maus exemplos, um marketing muito agressivo e que não fala a verdade.

Numa palestra o professor José Pacheco afirma que «ninguém sozinho faz o que quer que seja». Para além dos professores, dos tutores e dos alunos, quem são os autores da nova escola?

A escola, como a temos hoje, também tem referências, tem autores. São é autores do séc. XVII e do séc. XVIII. Tem Comenius (1592-1670), que dizia que é possível ensinar todos como se fosse um só, temos o Fröbel (1782-1852), depois temos, no paradigma da aprendizagem, que é aquele que a Escola da Ponte segue, Maria Montessori (1870-1952), Claparède (1873-1940), John Dewey (1859-1952), Kilpatrick (1871-1965), Steiner (1861-1925), Francisco Ferrer (1859-1909), do movimento da escola moderna, o Piaget (1896-1980), o Wallon (1879-1962)... não faltam autores.

«É essa nova construção social que vai substituir a que está aí há 200 anos e que só cria desigualdade: infelicidade nos professores e desinteresse nos alunos.»


Mas nós estamos a entrar já num período em que reina a inteligência artificial e onde já há, infelizmente, robôs que substituem dadores de aula.

Estamos no tempo do paradigma da comunicação, que também tem autores que são referências para nós, a começar por Seymour Papert (1928-2016), por exemplo, Agostinho da Silva (1906-1994) (o grande Agostinho da Silva, português), Siemens (1970 -), Castells (1942 -), Maturana (1928-2021), Paulo Freire (1921-1997) (incontornável) ou Lauro de Oliveira Lima (1921-2013).

Aquilo que a Open Learning está a fazer tem fundamento científico. Se eu pergunto numa escola particular:

- Olhe, porque é que tem aula? não sabe;

- Porque é que a aula dura 50 minutos? não sabe;

- Sabe fazer a raiz quadrada? Não? Então, mas teve aula sobre a raiz quadrada, aprendeu? Não...

Ninguém aprende numa sala de aula.
Como explica esta perspectiva tão antiquada de escola? Tanta gente consagrada na área de pedagogia, tanto trabalho realizado sobre a questão, professores formados nestas matérias. No concreto, nada acontece...

Esses génios, esses inspirados educadores, acontecem apesar da escola. Tudo o que eles foram, e aprenderam, foi à margem da escola, à margem dessa escola. Um exemplo: houve um aluno cuja mãe recebeu um aviso de que ele era um idiota, que seria melhor tirá-lo da escola, e a mãe retirou-o. Esse idiota chamava-se Thomas Edison. Outro que era um aluno mediano a física e a matemática mas estava sempre distraído, teve que sair da escola: Albert Einstein. Outro passava a vida a fazer riscos e o professor queixava-se de que ele não estava com atenção, saiu da escola aos 14 anos: Pablo Picasso. Queres que continue?

Eu não me comparo a qualquer um desses, é evidente, quem sou eu... Coitado de mim... Mas, repara, eu vim da engenharia, eu resolvi ser professor pensando, e agindo, de forma diferente do professor formado como professor. Eu aprendi a ser professor à margem da escola.

Quando eu tenho que fazer o magistério, a que fui obrigado para poder exercer, eu não aprendi nada, absolutamente nada. O que eu aprendi veio de leituras que eu fiz: Maria Montessori, Ferrer, por aí abaixo. Foi aí que eu aprendi.

Foi à margem da escola. Apesar da escola. Se tivessem sido um produto da escola seriam trabalhadores acéfalos, que servem todo o mercado, vendendo a vida para ganhar a vida, mantidos num tripálio, sem sentido nenhum, sem realização pessoal, sem desenvolvimento de talentos... As salas de aula são cemitérios de talentos.

O professor Agostinho da Silva costumava dizer que esta escola tinha a mesma função de uma fábrica militar: formando um exército de mãos para servir as necessidades do mercado, autómatos que garantem o funcionamento desta sociedade.



Trabalhamos, ainda, como se isto fosse o séc. XIX. É preciso pensar numa alternativa, agora. Se daqui por dez anos, 80% dos empregos actuais deixarão de existir, cada um tem de ser um designer da sua própria formação, tem que ter um projecto de vida. Isso não acontece na sala de aula, não acontece. Há um livro do Charles Dickens, o Tempos Difíceis (Hard Times, 1854), que, logo nas primeiras páginas, descreve um sistema educativo que, com diferenças pontuais, é igual ao que existe hoje, em Portugal (a obsessão pelos factos rigorosos, a cultura do silêncio e da humilhação, o professor no palanque). Como é que tudo fica igual, passados 200 anos?

É uma, das duas únicas instituições que não mudaram nos últimos 200 anos: a Escola e a Igreja.

Temos aqui um problema sério, porque há muitos obstáculos à mudança, e o primeiro obstáculo sou eu, é cada um dos professores, é a cultura profissional. Formataram-nos numa cultura e nós reproduzimo-la, reproduzimos um modelo social do séc. XIX.

Depois, há a sociedade, que pensa que a escola tem que ser como sempre foi. Os pais acham que sim. 'Acham', é achismo...

Depois, os alunos. Quando fui trabalhar para a universidade, tive alunos que queriam que eu desse aula, então perguntei:

- Porquê? O que é que querem ser?

- Nós queremos é dar aula e manter a disciplina, responderam.

- Então mudai de profissão, porque ides ser pessoas infelizes e ides fazer os alunos infelizes.

Que é que é isso? Dar aula e manter a disciplina? Isso é séc. XVIII! É a Prússia Militar, que foi uma das criadoras desta escola. Militar. Já Maria Montessori, em 1907, dizia que a escola da modernidade (esta que nós temos aí) é a que gera competitividade, é a origem remota de todos os conflitos, de todas as guerras. Têmo-la aí, na Europa, no séc. XXI.

Não é por acaso: é a educação familiar, a educação social e a educação escolar que estão na base desses atitudes, desses valores. É, também, uma nova visão do mundo que vem com a Open Learning, uma nova Visão do mundo e da educação.

Vai ser difícil penetrar nesse mercado, que está povoado de fake news, de particulares que não são mais, ou até são menos, do que a escola pública.

Quais são esses princípios? Fomentar a Autonomia, a Solidariedade?

Sim, a Autonomia é um conceito relacional: ninguém é autónomo sozinho, ninguém aprende sozinho, muito menos com um computador. Computador não tem alma, não tem espírito, não dialoga, está programado.

A diferença, fundamental, é que nesta escola, a Open Learning, todos têm direito à educação. Na outra escola não: olha para os centros de explicações, cheios, olha para o burnout dos professores, olha para o suicídio juvenil, basta olhar para aí para perceber que aquilo não funciona.

Há diferenças fundamentais e a primeira é essa: é que eles aprendem mesmo.

O que está escrito na Constituição da República Portuguesa é que a educação é um direito de todos. As escolas particulares, ou públicas, não cumprem esse direito. Muitos miúdos não aprendem, ficam analfabetos, literais ou funcionais. A escola está à margem da lei, não cumpre a lei.

As escolas têm projectos educativos e não cumprem esse projectos educativos, a prática nas escolas é o contrário daquilo que está escrito, está tudo fora da lei e assim não se aprende.

Não será porque a escola pública está, hoje em dia, demasiado focada em dar resposta a problemas sociais demasiado graves?



A escola tem de ter um tipo de currículo que não seja esse que aí está, um currículo de pronto-a-vestir, como diria um amigo meu, o João Formosinho [professor catedrático e presidente da Associação Criança], é coisa de pronto-a-vestir, igual para todos...

Pergunto. Alguma vez precisaste de usar a raiz quadrada na tua vida?
Não [o entrevistador não se recorda. Assim como assim, não a saberia fazer sem uma visita ao Google]...

Eu já perguntei a milhares e milhares: ninguém precisou. Então para que é que isso está no currículo? Se eu quiser saber a raiz quadrada, se eu precisar, pego no meu iPhone e, em cinco minutos, aprendo.

Sabes porquê? porque eu aprendi a aprender.
É esse o principal propósito da escola? Ensinar a aprender?

É um deles, vou explicar-te.

Tudo parte de um axioma: escolas são pessoas. Não são prédios... NÃO são prédios! São pessoas... As pessoas são os seus valores. Esses valores determinam princípios da acção que, eticamente, a pessoa desenvolve. Chegados aqui, temos a necessidade de rever o que é um professor. Professor não é aquele que prepara projectos para os outros; é aquele que constrói projetos com os outros. Porque a minha liberdade não termina onde começa a liberdade do outro: a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro.


O professor faz planificação de aulas; O tutor, da Open Learning e de outras escolas, não faz planificação de aula, porque aula é inútil. O tutor não vai planificar, o tutor ensina o outro a gerir a sua vida, a planificar a sua vida, a gerir o seu tempo, o espaço, a construir um projeto de vida pessoal a partir das vocações, dos talentos, que cada um tem. E todos nós somos diferentes.

«Porque a minha liberdade não termina onde começa a liberdade do outro: a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro.»

Os professores dão aulas; os tutores organizam roteiros de estudo de tripla dimensão curricular, onde não é concebido um currículo... É produzido currículo e conhecimento, a partir, sempre, de uma necessidade concreta, através da pesquisa. Os tutores têm que ensinar os alunos a saber seleccionar a informação.

Se o aluno for sozinho, pesquisar, investigar, ele perde-se na Internet... tanta informação, tanta fake news, ele perde-se...

O aluno tem que saber seleccionar a informação pertinente; ao seleccionar a informação pertinente, tem de a criticar e analisar (é esta que eu preciso!); depois, tem de ter outro processo complexo de pensamento, que é o de sintetizar; ao sintetizar, comparar com outras informações: a comparação; tem de saber avaliar essa informação; ao avaliá-la, está a construir uma evidência da aprendizagem.

Ele aprendeu. Ele transformou uma necessidade num processo de pesquisa; de um processo de pesquisa, trabalhou a informação; e agora, comunica a produção desse conhecimento: socializa essa comunicação.

Quando sinto que já sei. Quando eu sinto que já sei algo, eu partilho com os outros. Isso é a avaliação através de evidências de aprendizagem: há todo um processo de pesquisa, de metacognição, de pensar sobre o pensar, que ajuda o ser humano a saber procurar, a saber estudar, a aprender a aprender.

Como é que a Open Learning School inclui a tecnologia no seu processo de aprendizagem? 

Esta conversa seria muito diferente há 20 anos, quando não havia Internet e os computadores eram, ainda, coisas muito rudimentares.

Em todas as escolas com que eu trabalho, e a Open Learning é uma delas, os alunos trabalham a todo o momento com computador, com iPhone, com tablet, com tudo o que é tecnologia digital.

É através da tecnologia que os alunos vão recolhendo informações e vão aprendendo, ao contrário de escolas que eu conheço em que quando chego, por exemplo, durante o intervalo, toca a campainha (PRRrrriIIiin) e as crianças e os jovens saem, pegam no telemóvel, sentam-se no chão e passam o tempo de intervalo agarrados às redes sociais e a jogos idiotas. Toca outra vez (PPRrriiiIInn), e voltam todos para dentro, têm é que deixar ficar cá fora o telemóvel.

Uma loucura.

As tecnologias digitais têm de estar ao serviço da humanização, do acto de aprender e de ensinar, humanizar. Aquilo que está a acontecer é uma desumanização, ainda maior de algo que já era, em si, desumano.

Os telemóveis devem estar presentes em todos os momentos? Acesso constante a um computador?

Nós aprendemos em qualquer lugar, não precisamos de uma sala de aula... Nós aprendemos na observação de uma floresta, na conversa com uma pessoa, numa biblioteca, no centro cultural, numa igreja, numa praça, desde que tenhamos acesso à informação.


O digital é excelente nesse aspecto. A Open Learning não está apenas dependente do digital: há o papel, há o livro, há a pessoa, há o espaço diferente onde eu aprendo.

Uma das grandes diferenças é que a aprendizagem pode acontecer em múltiplos locais e não só nas quatro paredes de uma sala de aula. Também acontece dentro de salas, também acontece em casa, claro...
Há umas semanas, ouvia uma entrevista do antigo ministro da Justiça, Laborinho Lúcio, que falava sobre como o nosso sistema escolar, para além dos chumbos, tinha, no seu âmago a total desigualdade dos exames. Como é que uma sociedade como a nossa, que está sempre a referir-se à integração escolar tem, como base do seu modela, esta fixação com os exames e os testes?
É tratar igual aquilo que é completamente diferente.

A (des)igualdade dos exames nacionais


Também neste domínio a escola está fora-da-lei (totalmente fora da lei!), e eu posso afirmá-lo e confirmá-lo. Sei que este discurso não é comum, mas eu também não me preocupo com isso: faço afirmações e fundamento-as.

Um teste, um exame, pouco (ou mesmo nada) avalia. Avalia, sim, a capacidade de memória a curto prazo, a capacidade de reter informação para colocar num teste e... esquecer. Se tu fizeres o mesmo teste passado um mês, a nota desce... O que está na lei é que a avaliação deve ser formativa, contínua e sistemática. Ora, um teste não é formativo, um teste não é contínuo (é periódico) e não é sistemático (porque incide numa parte de uma matéria de uma disciplina)... Ou seja, está fora-da-lei.


Pior ainda, os professores dão a nota final a partir das notas de testes. A nota de teste é feita numa escala intervalar, de variável contínua, mas a nota de pauta, de um a cinco, é uma escala ordinal variável.

Um exame de acesso ao ensino superior não é só uma coisa... É um instrumento de darwinismo social, que desvia o jovem uma centésima daquele que seria o seu destino enquanto profissional e pessoa realizada socialmente.

Como é que funciona a avaliação contínua na Open Learning? Não poderá ser demasiado subjectiva?

Não. Ela funciona em três dimensões curriculares: a dimensão da subjectividade, a dimensão da comunidade e a dimensão da consciência planetária universal.

As crianças, os jovens e os adultos vão partir de necessidades concretas, fazendo o levantamento de tecnologias sociais, saberes populares, tudo o mais que está na sua comunidade, para dar resposta a um problema ou uma necessidade comunitária: esse é o currículo de comunidade.

Vou dar um exemplo: uma menina entrou numa salinha onde eu estava, numa escola, e disse para a pessoa que lá estava

- Oh fulana (que era a tutora), acho que já sei fazer raiz quadrada (repara: eu acho que já sei fazer);

- Mas porque é que tu foste aprender raiz quadrada?, perguntou a tutora;

- Olha, é que o meu pai pediu ajuda para projectar um campo de jogos: marcações para a linha de penalty, para o lançamento da bola de basquetebol... e ele não sabe. Nós fizemos um projecto, estou a trabalhar com mais três amigos e, no meio de tudo, estudámos o que era o segmento de recta; o que era um ângulo recto, agudo, obtuso; aprendemos a fazer uma circunferência; a calcular a área de um círculo; o que era o quadrado; o que era um cubo; acabámos na raiz quadrada.

A tutora pegou no telemóvel e pôs a câmara a gravar o que estava a acontecer. Gravou-a enquanto descrevia as planificações diárias do seu trabalho. A menina descreveu uma semana inteira de trabalho em cinco minutos, explicou tudo, tudo a ser gravado

- E agora o que é que queres?, perguntou a tutora;

- Quero que me passe uma raiz quadrada para ver se tudo aquilo que eu fiz, eu aprendi.

A turora passou uma raiz quadrada de seis dígitos (por exemplo, 390497) e a criança rapidamente resolveu a raiz quadrada. A tutora assistiu, confirmou que está certa e mostrou para a câmara. E agora?

- Agora que já sei vou para lá, para ajudar.

A rapariga desfez uma necessidade social da própria comunidade. Quando ela sai, a tutora pára a gravação, manda para a plataforma digital de aprendizagem, para o arquivo daquela criança, com a data e a prova de aprendizagem que ela mostrou através da construção de todo o conhecimento e a manifestação da produção de uma raiz quadrada.

Resta só acrescentar a idade da menina: 6 anos.

É uma ocorrência diária?

Cada criança, cada jovem, faz a sua planificação, diariamente, com o seu tutor: diz onde vai estar, o que vai estar a fazer e com quem vai estar no dia seguinte, as horas, etc...
Não será, num momento como este, em que ainda são precisas notas de acesso ao ensino superior, em que as notas, e as notas dos exames, determinam o futuro dos jovens, demasiado perigoso para não estar a ensinar estas crianças a fazer testes e exames?

Os rankings das escolas só «confundem e distorcem a realidade»


O ensino superior é um direito. É um direito! Devia ser obrigatório até ao final da universidade. É um absurdo haver exame de acesso, que não avalia absolutamente nada, nada, é apenas um embuste. Para além disso, é um instrumento de darwinismo social.

Houve um período na história da educação portuguesa em que não houve exame de acesso. Qual foi o argumento para introduzir estes exames? É que as notas do secundário, sem exame de acesso, eram menores... depois quando introduziram os exames de acesso, as notas pioraram... O problema não está aí, está no facto de que nem na universidade se pratica a avaliação.

Perguntava mais especificamente sobre as crianças da Open Learning e de outras escolas com modelos alternativos... alternativos. Não será um problema para o aluno que nunca fez testes, ser, em certo ponto do seu percurso, forçado a fazê-los?

Já nos apontavam esse problema há 40 e tal anos. Diziam: mas estes alunos não fazem teste... depois como como é que é, vão ser capazes de responder bem às perguntas? Completamente.

Aliás, deixa-me que te conte um pequeno episódio. Eu falo sempre da minha prática... Quando foi feita a primeira prova de aferição, há 22 anos, em 2000, exactamente, eu fui aplicador da prova. Como os nossos alunos não faziam testes, fui pedir um teste à EB 2 3: um teste de sexto ano, os nosso alunos ainda estavam no quarto. Iam fazer na segunda-feira seguinte a prova de português.

Levei o teste e fizemos cópias para aqueles que queriam ver o que era um teste (porque eles nunca tinham visto um teste na vida deles, excepto alguns que tinham vindo de outras escolas).

- Olhem, o teste é isto. É um texto com perguntas de interpretação, perguntas de gramática e uma composição escrita, só isso, só que são só 50 minutos;

- Porque é que são 50 minutos? perguntaram eles;

- Meus filhos, não sei.. ninguém sabe... eu já perguntei, ninguém me soube dizer, são 50, pronto, acabou;

- Se acabarmos antes dos 50, podemos ir embora?

- Não, tens de ficar aqui, a perder tempo... acabou! toca de fazer... (Estava a ficar zangado já com aquilo).

Conseguiram gerir bem as regras arbitrárias dos testes?

Olharam para o teste e voltaram a chamar-me. Era um texto retirado do Cavaleiro da Dinamarca, da Sophia de Mello Breyner (como eles não têm livros de estudo, didácticos, eles lêem obras completas, já tinham lido os livros todos da Sophia).

- Olha aqui esta pergunta, o que foi que o cavaleiro viu ao longe? E tem aqui cinco linhas, é para passar o cavaleiro viu ao longe, x, y, z, etc... que está no primeiro parágrafo? É? Não, professor... eu faço uma setinha aí e depois a pessoa vai ver em cima... está aqui, não vou estar aqui a perder tempo a passar...

Eu fiquei louco. Era para passar, tinham de o fazer... Expliquei-lhe o que era um item de transcrição simples, o que era escolha múltipla, tudo isso. Estávamos a perder tempo.

- Toca de fazer! fiquei encostado à mesa e eles a olhar para mim.

- O que é que foi?

- Oh professor, o que é que está aí a fazer? Vá embora, vá trabalhar, a gente olha para o relógio e quando passarem os 50 minutos, a gente leva-lhe as provas.

- Não, eu tenho que ficar.

E diz um moço que estava lá há 2, ou 3, meses: eu sei porque é que fica, fica para não deixar copiar! Um aluno dos meus pergunta-me: o que é que ele disse? O que é copiar?

O que é copiar...

Foi aí que caí em mim. Eu estava ali a representar o papel do professor que fica na sala, no dia do teste, no pressuposto que aqueles jovens são potencialmente desonestos, ou seja, mesmo que o professor esteja calado, o não-verbal fala mais alto, está a transmitir valores: o valor da falsidade, da mentira, da corrupção.

Tiveram bom resultado nesses testes de aferição?

Sim, os melhores. Eu estava no Conselho Nacional de Educação, à época. Estive a orientar os correctores e tive acesso, os nossos tiveram os melhores resultados. Eram praticamente 100% de respostas certas.

Nós temos ex-alunos com 60 anos, são pessoas realizadas, pessoas sociáveis, pessoas com um quadro de valores que nos orgulha. Todos entraram na universidade (aqueles que quiseram). Muito mais do que entrar na universidade, elas são pessoas, cidadãos, de pleno direito, são autónomas, são responsáveis, são solidárias.

A falta de professores sente-se um pouco por todo o mundo ocidental. Em Portugal, apenas 1% dos profissionais, numa média de todos os graus de escolaridade, tem menos de 30 anos. Como é que se mobiliza uma sociedade a aderir, de novo, à escola?





Não há falta de professores. Ou melhor, há falta de professores e há uma fartura de dadores de aula.

Em 1971/72, tive a minha primeira crise profissional. Dava aula, como qualquer pessoa, dava aula porque tinha feito o meu estágio, de vários anos, ouvindo aula, por isso dava aula. O modo como o professor aprende, é o modo como o professor ensina. Eu dava aula, mas percebi que nem todos aprendiam.

Sendo a educação um direito de todos, criei um dilema moral: se eu continuasse a dar aula, eles não iriam aprender... Eu resolvi esse problema, deixando de estar na sala de aula.

Mais tarde, encontrei uma turma de analfabetos que era o lixo da escola. Perguntei porque é que não tinham aprendido a ler e eles disseram que todos os anos (eles tinham já 14 anos, estavam prestes a sair), as pessoas lhes tentavam ensinar o A E I O U, o PA PE PI PO PU. Olhei para aquilo e fiquei na segunda crise.

Eu tinha, perante mim, uma turma, enorme, de jovens analfabetos, que tinham sido ensinados durante seis anos pelo A E I O U, o PA PE PI PO PU. A Cartilha Maternal.

Era isso que eu sabia fazer. Agora, a pergunta é: se eles continuassem a ensinar com essa metodologia, eles iriam aprender? Não... Já tinham feito seis tentativas.

Se eu continuasse a fazer isso, seria anti-ético. Eu tomei uma decisão ética, deixei de ser professor para ser tutor (ou melhor, professor-tutor). Foi uma decisão ética e é essa a decisão que as pessoas têm que tomar. Não são coitadinhos. Têm de tomar uma decisão ética e dizer: eu vou mudar a minha prática (juntamente com os outros, claro, sozinho não se consegue nada).

Se os professores não são responsáveis, quem é responsável é um burocrata ministerial, que determina que eles façam deste ou daquele modo, o responsável passa a ser um modelo de gestão e administração errado, em que o diretor de escola recebe uma ordem e, mesmo que não concorde, tem de cumprir, porque tem obediência hierárquica. É uma indignidade. Uma pouca-vergonha.

Os professores têm que ser professores, não podem ser dadores de aula. Têm que dizer que são dignos e que vão ensinar tudo, a todos. Porque isso é possível, é urgente e necessário.
E onde se vão buscar esses professores? Os nossos formandos, nas universidades, aprendem a dar aulas.

Saem de lá já mortos. Não sei, não quero criticar a universidade. Posso-te é dizer que, em Setembro, centenas de professores portugueses, que tomaram a decisão ética de mudar, vão mudar.

Vou informar o ministro e o secretário de estado que isso vai acontecer. Aquilo que a Open Learning vai fazer no particular, vai também acontecer na escola pública. Porque esses jovens e velhos, de todas as idades, que hoje tomam essa decisão ética, vão ter uma formação consentânea com mudança e inovação.
«A cultura começa por todas as pessoas poderem comer o que devem comer, por ter uma casa como devem ter uma casa e por ter um vestuário que querem, depois é que começam a ter interesses culturais», dizia Agostinho da Silva. Como é que uma escola moderna convive com a pobreza e a carência? Acabamos, muitas vezes, por dizer, só, que estas crianças não estão interessadas.




A pergunta é: porque é que as crianças não estão interessadas? Essa é que é a pergunta.

É exatamente neste tipo de escolas, como a Open Learning e as escolas públicas que eu acompanho, que se dá a igualdade de oportunidades. A escola é um berço de desigualdades (conforme ela funciona), um berço de desigualdades.

Eu trabalhei em escolas rodeadas de muitas favelas, com jovens que já estavam fora da escola, analfabetos aos 13, 14 anos, todos eles, todos eles, aprenderam tudo. Ou seja, demos-lhes a oportunidade de serem úteis à sua comunidade, em ter uma vida digna, através de uma nova educação.

O que é preciso hoje, não é arranjar projectinhos para as escolas ou fazer mais umas pesquisas... Já está tudo pesquisado, falta é fazer o que é preciso! Hoje! Não é a melhorar esse sistema, esse sistema está morto há muito tempo! É preciso uma nova construção social, uma construção social de aprendizagem e educação. É essa nova construção social que vai substituir a que está aí há 200 anos e que só cria desigualdade: infelicidade nos professores e desinteresse nos alunos.

Essa nova construção social já está pensada ao nível da socialização, da história da educação, da filosofia da educação, há muitos anos, só que as escolas não são geridas pela pedagogia.

O que me apraz, neste momento, saber, é que há muitos directores de agrupamento que me pedem ajuda, muitos professores, muitas famílias, que tomaram consciência da necessidade de mudar. E vão mudar.

Agostinho da Silva entendia que, neste momento, ainda não era possível concretizar essa tal escola do futuro. Seria ainda necessário criar uma espécie de escola mista. É possível uma escola moderna sobreviver numa economia de mercado?

Os nossos alunos estão preparados para respeitar regras, ou seja, dançar conforme a música, mas não se esquecem daquilo que são, mesmo dentro desta selva capitalista que nós temos aí, o capitalismo selvagem. Aquilo que é preciso pensar é que o sistema não muda todo, de um só modo, e que as escolas não mudam todas ao mesmo tempo. Mudam aqueles que tomam consciência e tomam decisões éticas.

Em Setembro, o que vamos fazer é avançar com turmas piloto em várias escolas. O resto vai continuar a dar as suas aulas, os seus costumes, e que deus os proteja (e nos perdoe, não é), mas nós vamos trabalhar com aqueles que tomaram uma decisão ética.

São eles que vão dar o exemplo (acabamos como no início, sobre o exemplo), vão dar exemplo daquilo que deve ser feito. Tudo vai ser avaliado pelos próprios agrupamentos e pelo Ministério.
Esse passo era indispensável?

Temos necessidade de uma nova construção social.

Já estou na recta final. Daqui a pouco tempo, vou ficar só com o Open Learning e mais algumas escolinhas, outros que façam porque eu já estou com quase 72 anos e tenho direito a parar um pouquinho. Mas hei-de morrer em chão de escola, com certeza, porque é assim que os professores se devem comportar.