quarta-feira, 21 de novembro de 2018

"Desigualdade à nascença" é a principal ameaça aos direitos das crianças


Da morte à ignorância, passando pela pobreza, quais são as principais ameaças às crianças portuguesas, 59 anos volvidos desde a proclamação da Declaração dos Direitos da Criança, pela Assembleia Geral das Nações Unidas? “A pobreza e a ignorância andam associadas, porque sabemos que o sucesso escolar e o desempenho das crianças não são indiferentes ao meio em que nascem”, responde a demógrafa Maria João Valente Rosa.

Eliminar esta “desigualdade à nascença” das crianças deve surgir no primeiro lugar da lista de prioridades dos decisores políticos em Portugal, país em que “subsistem determinismos sociais que impedem que todas as crianças estejam em iguais circunstâncias na sua trajectória”, defende a também directora do Pordata – portal estatístico da Fundação Francisco Manuel dos Santos. 
“Em Portugal, a pessoa tem mais sorte ou mais azar consoante o sítio e a família em que nasce: os rendimentos e o capital social de que esta dispõe... E não pode ser. A sorte e o azar não podem continuar a ser os determinantes na trajetória das nossas crianças, e nós, enquanto adultos, não podemos permitir que a trajectória de uma criança seja determinada, por exemplo, pelo azar de ter nascido num meio que não valoriza suficientemente a escola”, aponta Maria João Valente Rosa. 


A questão está assim em saber se a escola – principal nivelador social – "está a contribuir como devia para atenuar as desigualdades e se está a fazê-lo à velocidade necessária para que estes determinismos terríveis se apaguem”, acrescenta a directora do Pordata, para concluir que não: “Continuamos a ser muito marcados pelo insucesso escolar e o insucesso não é algo que aconteça por acaso”, acusa, para lembrar, por exemplo, que, em 2017, 13% das crianças e jovens “já não estavam a estudar mas não tinham completado o secundário”. 


Se recuarmos a 2001, a taxa de abandono escolar precoce era de 44,3%. Muito foi feito, portanto. E muito mais há a fazer. “A reincidência no insucesso escolar é muito importante e a retenção é algo que mancha a trajetória escolar. Não defendo que todos tenham de passar de ano, mas é preciso aqui um esforço adicional para que as crianças de meios desfavorecidos ou culturalmente mais frágeis consigam acompanhar o ritmo das crianças vindas de outros meios e que beneficiam de outros suportes e apoios.” 
Por onde começar? “Podemos começar por olhar para a quebra demográfica como uma oportunidade”, responde ainda Valente Rosa. “Se há menos crianças a chegar à escola, porque nascem menos crianças, podemos começar por reduzir o número de alunos por turma, o que poderia fazer uma enorme diferença na atual dificuldade da escola em acompanhar todos os alunos”, sugere. 
Desde há sete anos que as crianças com menos de cinco anos são numericamente inferiores aos idosos com 80 ou mais anos de idade. Atualmente, as crianças e jovens até aos 15 anos de idade representam 14% da população residente, contra os 29% de 1971. Esta diminuição deu-se apesar de a taxa de mortalidade infantil (número de crianças que morre antes de completar um ano de idade) ter diminuído, no que Portugal se tornou, de resto, um exemplo à escala internacional: em 1987 morriam 14,2 crianças com menos de um ano de idade por cada mil nascimentos e 30 anos depois, em 2017, esse número tinha descido para as 2,6 crianças por cada mil nascimentos. 

Não há pediatra a residir em 163 concelhos 

Por outro lado, e apesar da diminuição do número de jovens, e do aumento do número de médicos pediatras, que passaram de 1329 em 2001 para 2085 em 2017, Portugal soma 163 municípios, dos 308 existentes, sem nenhum médico pediatra a residir. “Os dados que obtivemos assentam nos locais de residência e é óbvio que um pediatra pode residir num município e exercer noutro”, ressalva a demógrafa. Para assinalar, porém, que há vários municípios contíguos que têm em comum, além das fronteiras, o facto de não disporem de qualquer pediatra. “No Alentejo, por exemplo, Barrancos, Moura, Mourão, Reguengos de Monsaraz e Portel não têm nenhum pediatra”, exemplifica, apontando também o (mau) exemplo do arquipélago dos Açores, onde Corvo, Flores, Graciosa, São Jorge, Faial e Pico não dispõem igualmente de pediatra. 

Fonte: Público

terça-feira, 20 de novembro de 2018

RECUPERAR A DIMENSÃO POLÍTICA DA EDUCAÇÃO COMO BEM PÚBLICO


Serenamente, sem pressas, mastigando palavras e conceitos, indo à frente e regressando, ando a ler a última edição da notável revista A Página da Educação. Uma revista que todos os professores, todos os políticos, governantes ou não, deveriam assinar para conseguirem, creiam-me, sem qualquer sobranceria, poder ver mais longe. Porque a Educação e, claro, o sistema educativo, não pode quedar-se em um labirinto meramente administrativo, de insustentáveis e enervantes burocracias, de repetições e de ideias pré-concebidas, de rotinas próprias de quem não sabe fazer mais do que aquela tarefa. Como li em um artigo de Miguel Santos Guerra, "no hay connocimiento útil si no nos hace mejores personas". O problema está, portanto, entre a imensa e desarticulada tralha programática e a organização de um sistema que sirva a educação para uma sociedade melhor. Aos poucos e, intencionalmente, quando era expectável o seu reforço no quadro de um paradigma ajustado a um Mundo que corre sem freio, foram roubando pensamento crítico e, hoje, pergunta-se, afinal, qual o papel do conhecimento? Para que serve e ao serviço de quem está, pergunta Miguel Santos Guerra.

Por aqui chego a Susan L. Robertson, Professora de Sociologia da Educação, na Universidade de Bristol: "Em mais do que uma ocasião tenho sentido um claro desconforto em relação ao quanto, hoje em dia, a educação é enquadrada em termos económicos. Os alunos são "capital humano", ou usando a expressão cunhada pelo economista Gary Becker, "máquinas de habilidades"; a educação é um investimento cujo valor é medido pela dimensão do retorno financeiro que traz ao futuro do indivíduo (graduate premium); num número crescente de países a educação é referida como um setor de serviços que contribui, diretamente, para o produto interno bruto (PIB) (...)"
Este início de texto de Susan Robertson trouxe-me ao pensamento um artigo publicado na edição de Outubro de 2000, do Le Monde Diplomatique, artigo assinado por Riccardo Petrella, politólogo e economista italiano, na altura Conselheiro na Comissão Europeia e Professor na Universidade Católica de Louvain (Bélgica). Falava o autor das cinco armadilhas para a educação e de uma cultura de guerra, a saber:
1. Primeira armadilha: “A crescente instrumentalização da educação ao serviço da formação dos recursos humanos”. Isto é, o recurso humano, habilmente, passou a ser considerado como uma mercadoria económica. Melhor dizendo, direitos a um canto, porque o que interessa é o rendimento do Homem ao serviço da economia.
2. Segunda armadilha: “A passagem da educação do campo do não mercador para o do mercador”. É a educação considerada como um grande mercado. 
3. Terceira armadilha: a educação “apresentada como um instrumento-chave da sobrevivência de cada indivíduo” (...) nesta era de competitividade mundial. No essencial, dir-se-á que a escola está transformada no lugar onde, subtilmente, se aprende uma cultura de guerra.
4. Quarta armadilha: a da “subordinação da educação à tecnologia”. Ora, a mundialização é filha do processo tecnológico pelo que resta à educação fornecer os instrumentos de adaptação ao pensamento único.
5. Quinta armadilha: “a utilização do sistema educativo enquanto meio de legitimação de novas formas de divisão social”, isto é, uma sociedade dividida entre qualificados e não qualificados, entre os que dominam o conhecimento e os excluídos desse acesso. Estamos a falar do “e-comércio”, da “e-educação”, da “e-empresa” e do “e-trabalhador”.

No essencial, Susan L. Robertson, no seu notável artigo, que conjuga o mercado e o Estado, o bem público e o privado, vem desafiar o economicismo, concluindo: "(...) e se desafiássemos o domínio do pensamento económico da educação? E se ousássemos construir um conjunto diferente de assunções baseadas em valores e considerássemos que é um bem societal que contribui para o bem público? Que ações poderiam resultar daí? Primeiro, discutiríamos como sociedade o que pensamos ser importante aprendermos;

em segundo lugar, provavelmente, não usaríamos a terminologia como "capital humano", mas referir-nos-íamos a pessoas, reconhecendo-as não como máquinas de habilidades, mas como seres sociais e morais complexos, com necessidades, capacidades e vulnerabilidades; terceiro, iniciaríamos um debate sobre a educação como bem societal (...); quarto, asseguraríamos um debate público contínuo sobre a centralidade da educação, na produção de um público e de um político capazes de pôr limites a qualquer grupo que pretendesse fixar os nossos presente e futuro de formas que colocam a economia para além da política e os mercados acima da política e da sociedade (...)".
Regresso ao início. Pois bem, "no hay connocimiento útil si no nos hace mejores personas". Pelo caminho que obrigam a seguir o desfecho continuará a ser trágico. Repensar a EDUCAÇÃO e todo o sistema é pois a maior obra que se pode edificar no sentido de um mundo melhor.
Ilustração: Google Imagens.
Publicado no blogue: https://www.gnose.eu/

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

ESTRANHO, MUITO ESTRANHO... DO CURRAL À UNIVERSIDADE!


O Professor Doutor Hélder Spínola foi dispensado pela Universidade da Madeira. Um caso muito estranho e que deveria o Senhor Reitor explicar a situação. Entretanto, esta "carta do leitor", publicada na edição de hoje do DN-Madeira, assinada pelo Catedrático António Brehm, é muito elucidativa. Na Região estão a acontecer casos estranhos, muito estranhos.

"Hélder Spínola, 
um exemplo a seguir

Veio mencionada no DN, uma carta assinada pelo meu antigo aluno e há vários anos, colega, Hélder Spínola, queixando-se de perseguição que lhe está a ser movida na Faculdade de Ciências da Vida (FCV) da Universidade da Madeira e que ditou o seu afastamento do conjunto de professores que aqui leciona. Mágoas justíssimas. Tenho por este meu amigo e colega, a obrigação moral de vir a público fazer o seu elogio e dar-lhe a minha solidariedade. Uma universidade constrói-se através das competências do seu pessoal docente e pela qualidade do seu ensino. Não me cabe aqui falar dos outros, mas sim do Hélder Spínola que, nos últimos 15 anos, foi mão para todo o trabalho em termos de lecionação. O Hélder deu de quase tudo, e deu com um nível de exigência máxima, de que só beneficiaram os alunos que tiveram o privilégio de serem seus.
Foi meu aluno, e logo lhe vi o potencial não só para desenvolver investigação, como de transmitir o seu saber aos discentes. Doutorei-o depois em genética molecular, e desde os primeiros momentos (mesmo antes do seu doutoramento) publicou inúmeros artigos científicos (mais de uma trintena), a maioria nas melhores revistas internacionais da especialidade. O seu curriculum científico (o único que me cabe aqui julgar) é impressionante e, seja em que universidade for, nomeadamente na da Madeira, é absolutamente exemplar.
A actividade do Hélder Spínola não se resumiu à investigação, que nos últimos tempos esteve dedicada ao estudo de marcadores genéticos específicos de certas patologias existentes na população madeirense. Decorreu deste estudo a implementação de testes que o Laboratório de Genética Humana desta universidade presta aos agentes de saúde da Região. Algumas destas técnicas são feitas a pedido de laboratórios muito bem credenciados do país, sinal do reconhecimento da nossa experiência e do saber do agora “dispensado” Hélder Spínola.
A dispensa dos serviços de um docente com qualidades tão evidentes, mesmo a nível nacional, é um triste fim, mesmo para aqueles que, como eu, sempre se bateram por um ensino de qualidade, com pessoas com qualidade. E se essas pessoas forem filhas da própria “casa” tanto melhor. Resta-me dizer, no entanto, que é com mágoa que verifico que, lutando por uma implementação de um ensino superior de qualidade, se ignorem, por santas e insondáveis razões, os produtos do nosso próprio trabalho e saber. Manifestações de um povo notoriamente superior."
António Brehm, FCV, Professor Catedrático.

domingo, 11 de novembro de 2018

COMPUTADORES, MUITOS COMPUTADORES PARA UM "SISTEMA DE SUCESSO". IMPRESSIONANTE.


Segundo o DN-Madeira o secretário da Educação anunciou que a governo vai entregar 490 computadores às escolas, de um total de 1582, fundamentalmente para substituir os existentes, segundo se sabe, velhos e muitos inoperacionais. Sai mais barato adquirir do que reparar! Só que o problema maior da aprendizagem não é a substituição computadores antigos por novos. Desde que haja orçamento, obviamente, não faltam interessados em fornecer equipamentos. O problema, portanto, é outro, e situa-se na premissa: o computador como ferramenta de aprendizagem. O que implica que, paulatinamente, cada aluno tenha o seu equipamento e que o processo pedagógico seja outro. 


Ora, isto entronca em um novo paradigma do sistema educativo e, consequentemente, em uma nova concepção do processo de como aprender. Se o computador se destina, prioritariamente, a salas específicas, isto significa que no processo de aprendizagem tudo continua igual. Pior, ainda, se o computador serve para repetir o que está no manual, visando o cumprimento do programa, significa que o computador é utilizado em substituição dos velhinhos acetatos. 
As tecnologias têm de ser utilizadas de forma adequada e concordantes com uma visão radicalmente diferente de como aprender. Por isso, distribuir computadores é o mais fácil; mais complicado é gerar um sistema onde o computador constitua uma excelente ferramenta de aprendizagem. Só que o secretário não fala deste pressuposto maior. Fica-se pela politicazinha do orçamento e da distribuição!
Mas nada disto me é estranho. 

Ainda ontem ouvi o presidente do governo assumir que o sistema educativo na Madeira é de "sucesso". Das duas, uma: 1. ou não tem presente os números do insucesso, do abandono, as carências dos estabelecimentos de aprendizagem e as graves fragilidades testemunhadas no facto de "65% da população da Madeira, com 15 ou mais anos, terem apenas até o 9º ano de escolaridade. 

Valor que está acima da taxa nacional que, no ano passado, ficou pelos 61%. Acresce dizer que a Madeira continua a estar pior do que a média nacional, naquela que é a taxa de abandono precoce de educação e formação (jovens dos 18 aos 24 anos que estão fora do sistema de ensino e sem o secundário): 23% na Região e 14% no País". Fonte - DN-Madeira/Pordata/Jornalista Ana Luísa Correia (Junho/2018); 2. ou, então, atira umas coisa para o ar talvez convencido que andam todos distraídos.
E para completar o ramalhete do desnorte e da ausência de ideias portadoras de futuro, ontem, o partido da força maioritária na Região, convidou o Professor Doutor David Justino, Licenciado em Economia e Doutorado em Sociologia, personalidade que foi ministro da Educação entre 2002/2004, e que nada deixou como marca. Se tivesse deixado, catorze anos depois, estava já o país a beneficiar da sua orientação política. E veio cá, dizer generalidades e até algumas banalidades. Fixei esta: uma Educação de Infância - dos 6 meses aos 6 anos - como uma prioridade e acima de tudo, como desígnio nacional - Fonte: DN. 
Eu diria que já vão aos três meses para um berçário, enquanto os pais trabalham horas a fio devido a um sistema organizacional da sociedade que não respeita o tempo de trabalho, o tempo de lazer e o tempo de descanso. 
Como me dizia uma Colega com algum desespero: "à mãe cui nerves!"
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

QUALQUER POLÍTICO COM BOM SENSO E RESPEITO PELOS PROFESSORES JÁ TINHA IDO EMBORA.


Já tinha ido embora, pedindo desculpa aos professores da Região, ao Professor Joaquim José Sousa e, particularmente, a toda a comunidade educativa do Curral das Freiras. É triste verificar que o assunto é tema nacional pelas piores razões políticas.

Fica aqui um excerto de um texto do PÚBLICO, assinado por Bárbara Reis.

"(...) a história de uma escola pública que era a melhor do mundo, mas afinal é a pior — ou assim o dizem —, tão má que o director teve de ser afastado e a escola extinta.
Confuso?
Em 2009, o Governo Regional da Madeira abriu uma escola no Curral das Freiras, a freguesia mais pobre da ilha, num vale isolado de onde não se vê o mar. As crianças dos “sítios” do vale precisavam de uma escola ao pé de casa. Seria meio caminho para reduzir os chumbos e o abandono escolar. Joaquim Sousa, um professor de Geografia de Lisboa, foi nomeado director. Em 2010, quando a Escola Básica do Curral das Freiras ficou em 1207.º no ranking nacional das escolas, ninguém ficou espantado.
O espanto veio depois. Em 2015, o Curral ficou em terceiro lugar no exame nacional de Português do 9.º ano e no top 10 de Matemática, e foi a 12.ª melhor escola pública do país. O único aluno da Madeira que teve 100% no exame nacional de Matemática foi Dina Ascenção, aluna do Curral, e a melhor nota a Geografia da ilha foi de Albany Rodrigues, aluna do Curral.
Em cinco anos, a escola subiu 1000 posições.
Foram perguntar ao professor Joaquim Sousa o que tinha feito para conseguir isto. O que contou tornou o Curral uma inspiração nacional. Joaquim Sousa apareceu nos jornais, numa revista anual, num debate na Feira do Livro, na RTP. Quando quiseram saber se alguém, na Madeira, lhe dera os parabéns ou quisera conhecer os “truques” para uma mudança tão grande num lugar tão difícil e em tão pouco tempo, respondeu que “nem por isso”.(...)
É o retrato da Secretaria Regional da Educação. 
Enquanto professor sinto vergonha do que estão a fazer a um Colega.

NOTA
Ler o texto publicado AQUI.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

AFINAL NÓS É QUE PAGAMOS


Um artigo do Dr. Helder Melim
publicado na edição de ontem do DN-Madeira

Como é que se entende que, devido à quebra de natalidade haja escolas secundárias públicas em risco de fechar e o católico Colégio da Apresentação de Maria, com o auxílio do governo, tenha comprado e adaptado o ex. edifício da Ford para abrir uma escola secundária? Para onde vai o lucro deste negócio?

No passado dia 20 de outubro, o DN-M, trazia na 1ª pg. como título principal “30 milhões para as escolas privadas”, e no dia 26 do mesmo mês, o título era “Tribunal de Contas sugere revolução na educação” com um subtítulo que referia que “face à redução da população infantil (...) uma redução de 1.600 professores (...) fusão de escolas do ensino básico ao secundário”.
A população está efetivamente a diminuir e os governantes, em vez de resolverem ou minimizarem de base o problema, que é sumariamente devido ao trabalho precário e mal remunerado, aliada à falta de habitação a preços comportáveis para as famílias, optam aos vários níveis por medidas mais ou menos piedosas, do tipo subsídio por nascimento, livros gratuitos, etc., que embora possam dar alguma ajuda, não resolvem minimamente o problema, nem incentivarão ninguém a “procriar” com base em tão parcos argumentos.
Voltando ao assunto que aqui hoje nos traz, a “parte de leão” dos 30 milhões que a educação entrega aos privados vai para organizações ligadas à Igreja Católica, como são o caso do Colégio do Infante (1.566.568,06€), Salesianos (1.668.920,08€), Colégio da Apresentação de Maria (1.569.959,47€), Colégio de S. Teresinha (1.304.274,96€) e APEL (1.484.312,30€), para não referir as demais com os quais se perfazem os referidos 30 milhões. Justifica-se plenamente a existência de subsídios a organizações privadas, quando o Estado não está em condições de assegurar as funções que lhe estão constitucionalmente atribuídas. No continente, o Estado analisou caso a caso todas essas situações e terminou os “contratos de associação” nas situações em que verificou que havia redundância, ou seja, quando num determinado sítio havia escola pública com vagas disponíveis.
Reconheço o direito aos pais de escolherem para os seus filhos a educação e a saúde que considerarem ser a melhor. Acho, contudo, que do mesmo modo que não é suposto que o Estado subsidie clínicas e hospitais privados, por já subsidiar o SNS para todos, também não deveria subsidiar os colégios privados, quando há uma oferta pública de educação que responde com maior qualidade às questões de educação do que o SNS responde às questões da saúde. Os pais, têm pois, todo o direito de pôr os filhos na escola privada que entenderem; não podem porém é pretender que sejam os outros contribuintes a pagar por isso.
O dinheiro dado a estas instituições privadas é dinheiro que é sonegado e que faz falta ao ensino público, onde a penúria que já vem de há décadas persiste e se agrava, impedindo que os “filhos de todos os outros” tenham maior qualidade. Nas nossas escolas o equipamento, vai avariando e fica “encostado às boxes”, computadores e outros estão obsoletos, não há cortinas nas janelas, faltam corrimãos nas escadas, etc., etc., etc. 95% do orçamento das escolas públicas é exclusivamente para pagar ordenados e os 5% restantes são insuficientes para as escolas funcionarem com um mínimo de dignidade.
Há dias, chegou-me ao email um apelo dum colega, professor altamente motivado e com sobejas provas dadas, para que o ajudassem a comprar uma lâmpada cara, que se tinha queimado, para o videoprojector que ele tinha comprado com o seu dinheiro, e que usava para dar as suas aulas, na sua escola pública, em melhores condições, pois a escola não dispõe destes equipamentos em número suficiente para as necessidades.
Para além disso, as escolas privadas cobram ainda bom dinheiro aos encarregados de educação, e mesmo assim, pagam pior aos seus professores. Como é que se entende que, devido à quebra de natalidade haja escolas secundárias públicas em risco de fechar e o católico Colégio da Apresentação de Maria, com o auxílio do governo, tenha comprado e adaptado o ex. edifício da Ford para abrir uma escola secundária? Para onde vai o lucro deste negócio?
Para esta situação, encontro duas explicações: 1 - Este governo neoliberal de direita só vê virtudes no que é privado (e só para alguns) e pecado no que é público; 2 - a “santa aliança” firmada entre Jardim e o Bispo Santana, onde um dá o dinheiro e o outro o púlpito.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

UMA ESCOLA POR ALUNO


"Uma escola por aluno" é a expressão mais simples, mais profunda e de um enorme significado que alguma vez encontrei para dar consistência a tudo quanto penso sobre o sistema educativo, particularmente, sobre a escola com vida, vivência, convivência e aprendizagem. No essencial, uma escola por aluno significa um estabelecimento de aprendizagem personalizado, que respeita as origens culturais, sociais e económicas dos alunos, que demonstra uma organização comprometida com o sucesso individual assente na diferença e nos ritmos de cada um. A expressão, aliás, é muito mais que um slogan ou uma chamada de atenção metodológica, é, sobretudo, uma atitude que sacode a ideia da aula tradicional, o conceito de turma, a focagem obsessiva na avaliação e centra as preocupações na pessoa, conhecendo-a e indo ao seu encontro. Uma escola por aluno significa que este não é mais um, não é um número na engrenagem traiçoeira de uma escola dirigida para milhares, antes uma escola com um olhar inteligente que sabe como agarrar as margens trazendo-as para o centro das preocupações educativas.


Como é que isso se consegue? Pondo tudo em causa, estudando e mudando, destruindo e reconstruindo, paulatina mas radicalmente, um sistema que está velho, caduco, enervante, imbecil e que mata a esperança. Consegue-se, rompendo com entranhados conceitos tradicionais, partindo para outros mais complexos, ao encontro do desenvolvimento tecnológico e da diversidade dos públicos. Não é possível de outra forma, quando, por um lado, calcula-se que, em 2025, 91% dos portugueses vão estar ligados à internet; por outro, a discrepância já evidente entre um mundo que avançou em turbilhão e uma escola que parou no tempo curricular, programático e pedagógico. Em 2016, o Professor Joaquim Azevedo, investigador da Universidade Católica, sintetizou: "A escola mudou pouco, os adolescentes mudaram muito". É esta tomada de consciência que deve ser colocada em cima da mesa, com coragem, firmeza e inteligência. Basta um  olhar atento sobre a iniciativa Web Summit. Será que perante o que ali se passa a escola pode ficar indiferente? Pode alguém ignorar o interesse de 170 países e de 70.000 visitantes? Eu diria que a escola de hoje é um beco perante a interminável avenida da Web Summit.
É óbvio que a construção de um novo paradigma não é possível com escolas com 2.500, 2000, 1.500 ou 1.000 alunos. Infelizmente, há quem se vanglorie disso, ao jeito da minha escola é maior que a tua, ou, então, é a maior do país. Um pouco de reflexão e perceberiam quanto errados estão. A escola não deve ser salas e professores que mudam a cada hora. A aprendizagem para a complexidade guia-se por enquadramentos muito distintos do passado. É possível com estabelecimentos de limitada dimensão. Escolas com aquela vastidão, os alunos e os professores, todos são números por maior que seja o empenhamento e as quase intermináveis reuniões, de repetição em repetição, desde o conselho pedagógico ao de turma. No verdadeiro sentido, ninguém conhece ninguém. Nem os professores entre si. Conhecem, apenas, o vaivém. Com este formato, espécie de linha de montagem, não são possíveis projectos de vida, antes o rigoroso e acéfalo cumprimento do estabelecido, de característica uniforme, quando todos são diferentes. Junta-se a este quadro, a infernal burocracia, o big-brother da hierarquia política, a incapacidade dos quadros intermédios dizerem não, na esteira de José Régio "(...) não vou por aí". E o círculo vicioso fecha-se e recomeça a cada ano, como se o mundo terminasse nos muros da escola.
Uma escola por aluno, enquanto conceito, rompe, necessariamente, com a ideia de "um fatinho igual para todos". Terão de ser feitos por medida, acautelando a diversidade dos interesses e das vocações. A isto eu chamo uma escola de cultura e com cultura. Porque tudo pode ser aprendido, os formatos para lá chegar é que, obviamente, terão de ser diferentes e múltiplos. Não enxergar isto, parece-me grave! Disse Clarice Lispector (1920/1977): "o óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar".
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 4 de novembro de 2018

“UMA CLASSE ADOECIDA PELA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO"


Setenta e cinco por cento dos professores e educadores do Ensino Básico e Secundário dão aulas em exaustão emocional. Praticamente metade demonstra sinais preocupantes e 24% têm sinais críticos ou extremos de desgaste. Quarenta e dois e meio por cento não se sentem realizados profissionalmente. Quase 22 mil confessam que tomam medicação a mais e cerca de nove mil falam em consumo excessivo de drogas e álcool para enfrentar o ritmo de trabalho e fazer face às exigências do sistema. Cerca de 3% apresentam consumos combinados de álcool, droga e medicamentos. Oitenta e quatro por cento desejam reformar-se antecipadamente sem penalizações. O maior estudo realizado no nosso país sobre a vida e o trabalho dos professores portugueses mostra uma “classe doente”. 


“O primeiro resultado completamente esmagador revela que estamos perante uma classe adoecida pela organização do trabalho”, refere (...) Raquel Varela, coordenadora do “Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal”, realizado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa a pedido da Federação Nacional dos Professores (FENPROF). “A maioria dos docentes está a trabalhar doente”, avisa. 
As imagens que sobressaem deste estudo são preocupantes. Uma parte significativa de quem ensina, e que tem uma enorme responsabilidade de transmitir conhecimentos às futuras gerações, está cansada, exausta, desmotivada, num desgaste contínuo. E uma classe doente empobrece um país. Por tudo isso, fala-se numa revisão do modelo de gestão das escolas. Raquel Varela, investigadora e historiadora da Universidade Nova de Lisboa, alerta para o perigo de uma alienação por parte de uma classe profissional e para um sentimento de não pertença a um lugar, neste caso, à escola. 
O desgaste emocional é uma das áreas que mais salta à vista no estudo: 47,8% dos professores revelam sinais no mínimo preocupantes, dos quais 20,6% exibem sinais preocupantes, 15,6% sinais críticos e 11,6% demonstram sinais extremos de esgotamento. Os professores sentem-se operários numa linha de produção que não pára. Raquel Varela refere, a propósito, que os professores “sofrem um processo de proletarização”. Ou seja, os docentes sentem que não são parte interveniente e pensante no processo educativo, em que as suas ideias, a autonomia, e a criatividade não são tidas em consideração, “e passam a estar sujeitos a ordens externas”. 
No entanto, o estudo mostra uma baixa taxa de despersonalização, que acontece quando alguém olha e trata as pessoas como objetos. Uma taxa de 7,6%. “O que significa que os professores ainda têm muito carinho pelos alunos. Adoeceram mas não explodiram nos alunos”, diz Raquel Varela. E este “adoecimento”, sustenta, não acontece “por um processo individual de culpa”. “É a organização do trabalho que os adoece”. Um trabalho amarrado a um modelo de gestão autoritário e a um sistema de ensino padronizado.

Indisciplina e burocracia 

O trabalho burocrático, a indisciplina, a pouca autonomia, a falta de reconhecimento público, o salário, a desmotivação. A coordenadora do projeto toca nestes pontos que se cruzam no estudo, com quase 120 perguntas e perto de 16 mil inquéritos completos respondidos por professores de norte a sul do país, incluindo ilhas, do ensino público e privado. E alerta para a necessidade de se rever um modelo de ensino “nos meios e nos fins”. Isto porque, em sua perspetiva, a escola continua a ensinar para o mercado e não para o capital humano. Educa-se para as necessidades das empresas, em constantes mudanças, esquecendo-se o essencial. “Precisamos de um ensino universal que dê acesso a todo o conhecimento produzido pela humanidade”, defende. 
Mais de 70% dos professores estão preocupados com a indisciplina e este é um ponto que se relaciona com esse “adoecimento”. E os problemas de indisciplina e de insucesso escolar aumentam e preocupam porque “não têm um tratamento coletivo”, ou seja, não se resolvem num trabalho e esforço conjuntos. “Os professores culpabilizam pais, pais culpabilizam professores, diretores culpabilizam professores. Entopem-se escolas de faltas disciplinares, processos burocráticos demorados e a questão da indisciplina tem-se revelado cada vez mais importante como fator de adoecimento dos docentes e de perturbação das escolas”, lê-se no estudo. 
O estudo confirma que o excesso de trabalho burocrático também está relacionado com o estado de exaustão emocional. “Aumenta toda a gestão burocrática. Aumenta a quantidade e multiplicidade de tarefas que os professores não devem, não podem, e não sabem fazer. É urgente que as escolas contratem profissionais que façam esse trabalho”. Por outro lado, é urgente valorizar as carreiras de quem ensina, fundamental para quem passa os dias na escola, transmite conhecimentos, contribui para o desenvolvimento do país. 
“A equipa de investigadores consegue provar que o problema é de organização do trabalho. O afastamento entre as expetativas dos docentes e a realidade do exercício da sua profissão é a principal causa dos problemas diagnosticados, bem refletidos nas conclusões que, nesta fase, é possível tirar, num estudo que, até pelo volume dos dados (cerca de dois milhões), não está e não podia estar terminado”, refere a FENPROF, em comunicado.
Fonte: Educare

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

DA ESCOLA ENCICLOPÉDICA AO GOT TALENT


A escola tem de ser mais do que manuais, sumários e pormenorizadas grelhas de avaliação, radiografando obsessivamente e encaixotando a sua diversidade em escalas percentuais. A escola tem de ser fermento de e para a vida, lugar e oportunidade de paixão e de sonho, de aprendizagem e de produção de saberes consistentes.

A Escola
… precisa de serenidade e isso não é possível com posturas centralizadoras ou da peregrina ideia da municipalização;
… necessita de autonomia organizacional e pedagógica, não de sufocantes políticas padronizadoras;
… precisa de financiamento para que as dívidas não perturbem a aprendizagem;
… tem de sair dos seus muros convencionais e projectar-se na vida real, interagindo com todos os outros sistemas, analisando-os e compreendendo-os com o necessário pensamento crítico;
… não pode ser a mera repetição que prepara exames, quando os alunos, hoje, se relacionam com o conhecimento de forma diferente das gerações passadas;
… não precisa de um fato de tamanho único ou de um velho com arranjos marginais, mas do respeito pela diversidade cultural, expectativas, potencialidades de cada um, liberdade de escolher e decidir o que aprender e como aprender;
… não pode ser professores, por um lado, alunos, por outro, auxiliares que cumprem ordens, pais distantes, antes uma comunidade em permanente aprendizagem;
… não deve caracterizar-se pela imensidão de pequenos projectos desarticulados no tempo, antes pela existência de um caminho, aglutinador e portador de futuro;
… não deve ser conservadora e reprodutora de modelos sociais, com um currículo e disciplinas desconjuntadas, antes um espaço de inspiração, criação, inovação, de cultura, de auto-estima e de afectos, capaz de gerar, paulatinamente, os pressupostos da curiosidade;
… é muito mais que manuais, sumários e pormenorizadas grelhas de avaliação, com percentagens para tudo, radiografando e encaixotando obsessivamente a diversidade social entre 0 e 100%, antes uma instituição de aprendizagem disponível para o conhecimento, produção de saberes consistentes e fermento de e para a vida;
… não pode ser um local de obrigação, triste, enfadonho, antes um espaço que apaixone, de prazer pelo estudo, pela descoberta e pelo desejo que conduz ao conhecimento sustentado;
… não pode caracterizar-se por um sentido individualista, quando as áreas de intervenção profissional fazem apelo ao sentido de grupo;
… não pode assentar em exaustivos programas e duvidosos conteúdos, injectados qual vacina, antes o foco da sua missão deve centrar-se na observação, experiência, raciocínio, questionamento integrado de tudo e na mútua descoberta de respostas, não aquelas exigidas em testes de exclusão, antes as que se alimentam na interrogação, na capacidade de argumentação e nas soluções criativas;
… não deve (a)fundar-se na burocracia, nos papéis, muitos papéis que circulam e enervam, uns repetitivos, outros desnecessários, tarde ou cedo destinados ao arquivo morto, que apenas justificam os lugares que a hierarquia política ocupa.

Lugar de paixão e sonho

Ora, criar instituições de aprendizagem, não estabelecimentos de ensino, dá muito trabalho! Romper com o passado e com as rotinas da fábrica, assentes na lógica do toca-e-entra-toca-e-sai, é complexo. É difícil operar uma revolução na aprendizagem, depois de dezenas de anos de rédea curta, de condicionamento da inovação, com uma classe docente trabalhadora, porém, envelhecida, cansada e desmotivada. Não é tarefa fácil assumir que aprender é muito mais do que transmitir conhecimento enciclopédico segmentado e que o papel do professor deve ser hoje a de mediador e potenciador da descoberta. Mas é por aí que o caminho deve de ser trilhado, para que o êxito aconteça e baixem os números do abandono, do insucesso e das qualificações que perturbam o desenvolvimento.
Há uma frase de Izabel Grispino que me cativa: "(...) antes de colocar a educação numa vala comum, é recomendável examinar cada indivíduo, cada anseio, cada desejo embutido na personalidade (...)". Baseado nessas palavras, à medida que digito, perpassam-me, por aproximação, algumas imagens que retenho do programa “Got Talent”, onde crianças e jovens mostram as suas capacidades em um hino à beleza sensorial das múltiplas artes. A estética em todo o seu esplendor atravessando, de uma ponta à outra, através do corpo, a música, a dança, o canto, a declamação, a magia, a comédia… No essencial, tudo quanto a imaginação, a vontade e o sonho podem conduzir. Ora, se tudo aquilo que nos toca e muitas vezes emociona até às lágrimas é possível, fico a pensar nas razões da escola não ser, igualmente, para a maioria, um local de paixão e sonho. A resposta está numa outra visão que conduza a excelentes ambientes de aprendizagem. Daí que o sistema educativo necessite de uma revolução, nunca de uma evolução através de acertos marginais.
Ilustração: Google Imagens.

Nota
Texto da minha autoria publicado na revista nacional A Página da Educação e no blogue Gnose. 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

OS SINDICATOS E OS PROFESSORES QUE SE CUIDEM. ESTÁ EM MARCHA UM DESPEDIMENTO EM MASSA.


Ainda que o assunto seja muito sério e com ele não se deva brincar ou mesmo gozar, a entrevista do secretário da Educação da Madeira ao Diário de Notícias, para quem dedica atenção a este sector, teve qualquer coisa de anedota política. Não consigo exprimir de outra forma. Li e não foi necessário voltar atrás para entender qualquer coisita eventualmente mais complexa. Foi de enfiada e fiquei esclarecido. Fez-me lembrar um sketch do Herman: "ainda bem que me fez essa pergunta". Razão têm aqueles, tal como eu, que assumem que, de titular em titular da pasta da Educação, é sempre a descer. Muito preocupante! Infelizmente, assisto a uma gritante e arrepiante ausência de visão, tudo se quedando na natalidade, nas fusões de estabelecimentos de aprendizagem e na concomitante dispensa de professores. É o Senhor Bispo com a fé e a caridade e o secretário com uma lengalenga de "papas e bolos...". A ordem é fechar escolas, reduzir professores e apostar no sector privado. O resto é treta!  


A entrevista resume-se a uma página, porque a outra foi preenchida com uma foto de alto abaixo do dito. Muito esquisito! Bem a poderia ter aproveitado para trazer à colação as fragilidades do sistema, sobretudo, se tem, qual o seu pensamento organizacional, curricular, programático e pedagógico e, na esteira disso, como fazer das alegadas fragilidades uma oportunidade para traçar um sistema ajustado ao século que estamos a viver e daí aprendizagens com futuro. O resto, repito, é treta. Dizia-me há dias um colega que é importante, pelo menos "de vez em quando, ler umas coisas". Aliás, é extensa a produção de livros e documentos de investigação, não bastasse isso chegaria um pouco de bom senso e um olhar sereno mas ambicioso, para traçar um rumo concordante com os estudos há muito experimentados e divulgados. Ou, então, mais facilmente, uma simples passagem pelo Youtube.
Disse o secretário nessa entrevista: "Estamos preparados para enfrentar os problemas". Uma frase que, ao querer resumir a complexidade, rigorosamente nada de substancial adiantou. Mas quais problemas, questiono, quando o sistema não deve ser visto pela óptica de mais ou menos professores, de mais ou menos estabelecimentos? Essa é uma parte da dinâmica do sistema. Ele tem múltiplas relações interdependentes. Os sindicatos e os professores em geral que se cuidem, desde já, porque os dados são muito claros: encerramento de escolas, política de desemprego e aposta no ensino privado. A responsabilidade constitucional do direito à Educação ficará a um canto, para os mais pobres, porque, ideológica e politicamente, o caminho está definido.  
Recordo, a propósito, que há mais de dez anos, na Assembleia Legislativa da Madeira, insisti na necessidade de uma profunda e prospectiva revisão da rede escolar e do pensamento acerca da organização do sistema, que implicaria, naturalmente, reformulações significativas a todos os níveis. A maioria política sempre defendeu que a Madeira era um exemplo nacional! No diário das sessões constam as intervenções chamando à atenção que o mundo estava a mudar muito rapidamente, consequência do desenvolvimento tecnológico e da consequente globalização, o que implicaria uma tomada de consciência sobre esta escola, alicerçada nos pressupostos do século XIX, portanto, a necessitar de uma reestruturação enquanto resposta ao mundo que estava a surgir. Cegamente, tudo foi chumbado.       
E eis que, a um ano do final do mandato, depois de 42 anos ininterruptos de governação, ridiculamente, vem o secretário assumir que “estamos preparados para enfrentar os problemas”. É evidente que não está e, solidariamente, não estão e,  pior, não querem. A Educação é cara, há muito assumiram, com um discurso baseado no facto de que sendo constitucional, logo deveria ser a República a pagá-la. Ora, sendo este o pensamento dominante, pensarão, que continue a ignorância como provam os números estatísticos do insucesso, do abandono, das qualificações profissionais, da cultura em abstracto e da mentalidade dominante. É comum nos meandros do exercício da política dizer-se que "o que parece é". Pessoalmente, não tenho grandes dúvidas da intencionalidade.
Em suma, o sistema chegou a um ponto que obriga os professores a tomarem posições muito firmes ou serão literalmente esmagados. Quando acordarem será muito tarde. Basta um olhar para estes três anos de governo no sector da Educação, para constatar que não se registou uma única ideia política para o futuro, antes o controlo de tudo e de todos, a perseguição, o fecho de escolas, a dispensa de professores e a propaganda no sentido de levar as pessoas a acreditarem que tem de ser assim. 
Duas notas finais: primeira, no âmbito da transparência, deve o Tribunal de Contas esclarecer, publicamente, o que o motivou para apresentar um "estudo", tipo fatinho por medida, que, subliminarmente, determina as políticas que devem ser seguidas no sistema educativo; segundo, tenha o secretário presente que aquilo que hoje está a semear, pode vir a colher mais cedo do que pensa.  
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 28 de outubro de 2018

ESCOLA DO FUTURO

O secretário da Educação da Madeira disse, hoje, no DN-Madeira: "Estamos preparados para enfrentar os problemas". Quais os verdadeiros problemas? O das fusões de escolas? Ou preparados para enfrentar os desígnios de um sistema que não pode ser aquilo que é? Ah, já percebi, preparados para fechar estabelecimentos de aprendizagem e mandar professores para fora do sistema. Lindo!

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O SONHO



"Não se esqueçam do sonho. 
Quem esquece do sonho envelhece depressa" - Rubem Alves

Estive a reler textos de alguns pedagogos. Cruzei-me com esta frase, simples, mas profunda. E fiquei a pensar nos sonhos que ficam pelo caminho, porque há adultos políticos que matam o sonho das crianças logo nas primeiras idades, no tempo que deviam desenvolver a curiosidade. 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 20 de outubro de 2018

"HÁ QUEM QUEIRA FECHAR AS ESCOLAS PRIVADAS". É ESPANTOSO COMO O SECRETÁRIO TENTA GENERALIZAR UMA QUESTÃO DE BASE IDEOLÓGICA!


A declaração em título é do secretário regional da Educação da Madeira. Esta espécie de "sentença" é totalmente gratuita e, talvez, por isso mesmo, enquadra-se na lógica de uma propaganda política de trazer por casa. É pobre. Melhor e mais compreensível seria dizer que se trata de uma opção ideológica que corresponde ao pensamento dominante no partido ao qual o governante pertence. Competiria, depois, no momento do julgamento, no acto eleitoral, o povo decidir se deseja que trinta milhões dos seus impostos sejam aplicados em um sector que não é prioritário à luz do texto constitucional. As questões políticas, esclarecidas junto dos eleitores, decidem-se no plano democrático. Ora, o governo tem maioria absoluta no parlamento, entende que deve oferecer trinta milhões ao sector educativo privado, pois bem, está no seu pleno direito. Não deve é colocar na consciência de outros aquilo que entende ser correcto.   


Não conheço um professor ou um sindicalista que seja contra a existência de um segmento privado na Educação. Até os corpos sociais dos sindicatos contam com a presença de representantes das escola ditas privadas. Pode existir, eu é que não conheço! Todos com quem me cruzei ao longo da vida são favoráveis à existência de estabelecimentos de aprendizagem privados, complementares do sector público, na esteira da livre opção das famílias. Daí que, repito, seja gratuito dizer que "há quem queira fechar as escolas privadas". É um tiro de pólvora seca! Politicamente, um desastre e uma desonestidade intelectual.
O que está em causa são três aspectos essenciais: primeiro, a questão ideológica, isto é, o privado é bom, o público não serve. Tudo, ou quase, deve ser privatizado! Daí, a crescente tendência para a desresponsabilização do sistema constitucional público passando-a para a esfera do privado; segundo, em contraponto, perguntar-se-á, se é bom para o privado, que razões sustentam que não seja bom para o público? Terceiro, trata-se de uma questão economicista (também ideológica, claro), porque reduz os encargos orçamentais públicos ao mesmo tempo que transfere para os pais e encarregados de educação uma "dupla tributação", isto é, pagam em sede de IRS para que tenham direito à Educação e, depois, voltam a comparticipar na escola privada.
O interessante disto é que de privado a maioria das escolas têm muito pouco. Quem subsidia tem a faca e o queijo na mão, simplesmente porque quem paga, tendencialmente controla. Coloca uma parte dos professores, supervisiona e até interfere na organização pedagógica. Afinal, onde está a pureza do privado, questiono? Ora, pessoalmente, nada tenho contra o sector privado na Educação. É um  sector com existência legítima. Outra coisa é quem paga a legitimidade de alguns poderem optar. São trinta milhões, montante significativo, quando as escolas públicas andam com atrasos relevantes nos pagamentos a fornecedores, quando o dinheiro é escasso para cumprirem os seus projectos educativos, quando se sabe que há associações de pais que recolhem dinheiro para ajudar com algum material e quando se sabe que até papel higiénico, pasme-se, tantas vezes falta. 

A escola pública é a prioridade, porque é Constitucional, é pois um dever do Estado. E essa escola pública tem o dever de ser universal, inclusiva, de rigor, de qualidade e assente na excelência. Não entendo a escola de outra maneira. 

E há aqui um facto muito curioso que, aliás, já reportei: "Investigadores compararam notas do curso e avisam: pagar pelo ensino pode valer acesso à faculdade, mas não garante uma preparação de qualidade". "(...) Os estudantes de Medicina provenientes do Ensino Secundário privado reprovam mais do que os colegas que vieram das escolas públicas. (...) O estudo, que comparou os resultados de 1700 alunos que frequentaram a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) entre 2007 e 2014 (...) A análise dos resultados revelou que, no primeiro ano do curso, a taxa de reprovação a pelo menos uma unidade curricular dos estudantes provenientes do privado foi de 43%, enquanto a dos alunos do público foi de 34%."Além disso, os alunos do privado apresentaram, em média, notas inferiores aos do público até ao quinto ano." 
Finalmente, perante este estudo (existem outros) o secretário da Educação deveria então assumir que se trata de uma  mera aposta ideológica e, já agora, dizer, publicamente, "quem é que quer fechar as escolas privadas"?
Ilustração: Google Imagens.
Fonte: DN-Madeira, edição de hoje.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

INOVAÇÃO E LIDERANÇA. BEM PREGA FREI TOMÁS...



FACTO

O secretário da Educação da Madeira esteve presente na abertura de um encontro sobre "Inovação e Liderança Educacional". O secretário definiu a “inovação como a capacidade de correr riscos” e a liderança como a soma de “todos os processos que necessitam de visão” (...) e pediu aos professores: "tenham a capacidade de liderar essa mesma inovação”. Fonte: DN.

COMENTÁRIO
E PERGUNTAS

Frontalmente, não gosto de governantes faz-de-conta. Em todo o lado, sublinho. Não aprecio as frases feitas, muito menos quem apregoa uma coisa e pratica o contrário. De forma muito directa: nestes três anos de mandato, onde estão os factos que provam a inovação política no quadro do sistema educativo? 
E antes de mais, inovação prende-se com o processo criativo, transformador e de ruptura com o passado; a capacidade de correr riscos, neste contexto, tem um significado diferente. O que tem sido evidente é uma política de não querer enfrentá-los (os riscos) antes eliminá-los ou contorná-los.
Por outro lado, salientou, que é necessário ter "visão". Tê-la, significa possuir a capacidade para prognosticar o futuro, ser prospectivo e planear em função dos objectivos pretendidos. "Visão" não tem nada a ver com optometria! E aqui, pergunto: que objectivos inovadores quando não existe liderança capaz de os enfrentar? Só mais uma pergunta: como é possível pedir aos estabelecimentos de aprendizagem para que sejam inovadores, quando as "lideranças" estão, maioritariamente, sob controlo de uma enorme burocracia que impede que o "cordão umbilical" possa ser cortado, concedendo espaço à gestão e administração com liberdade e responsabilidade?
Ocorre-me "frei Tomás...". Tenho presente aquele estabelecimento de aprendizagem do Curral das Freiras que tentou a inovação com visão de futuro, porém, o que aconteceu foi a liquidação do processo de liderança. Morreu!
Por aqui fico, embora muito tivesse por escrever.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

É TÃO BOM QUANDO UM EX-ALUNO RECONHECE O TRABALHO REALIZADO!


Para quem exerce(eu) a docência é gratificante quando um ex-aluno reconhece o trabalho realizado, isto é, a influência positiva que o professor teve na sua vida. Não há palavras que exprimam as sensações. Significa que foi deixada uma semente que germinou. A "carta do leitor" que hoje li, assinada por Luis Andrade, teve o condão de levar-me a relê-la com todo o cuidado. Uma carta que não fala das múltiplas, quase infindáveis disciplinas curriculares, não fala de programas e conteúdos e não coloca o acento tónico na, por vezes, execrável mexeriquice da hierarquia política. É uma carta que destaca o que um professor lhe deixou: sonho, vida, esperança, ousadia, futuro, sociedade justa, liberdade, democracia, solidariedade, causas, princípios, convicções e muita inquietação. Tudo palavras que estão no texto de elogio ao seu ex-professor Joaquim Sousa, da Escola do Curral. Mais do que aquilo que designam por "conhecimento" na ponta da língua, para debitar no dia do teste ou do exame e, mor das vezes, para logo ser esquecido, no aluno ficou a perenidade de um conjunto de padrões de conduta, base determinante na formação e afirmação do ser. Eu diria que, neste caso, a ESCOLA funcionou. A CULTURA funcionou! E a partir dali, naturalmente, o professor acaba por ter o mérito porque possibilitou a abertura da grande janela do conhecimento que, sublinho, se encontra muito para além da escola.


A escola, enquanto estabelecimento de aprendizagem, deveria ser todas aquelas palavras e outras mais, inculcadas de uma forma transversal, enquanto alicerce estrutural do edifício da formação. Como dizem vários autores, o resto, felizmente, está na net. O que lá não está é a empatia, o saber colocar-se no lugar do outro, a compreensão e a capacidade de constituir-se como o mediador entre o ser e o mundo. 
A propósito, li, há muitos anos, um livro cujo autor, julgo que Gusdorf, G., dizia que "ninguém ensina nada a ninguém", apenas tocamos e fazemos despertar o conhecimento adormecido. Ou então, na esteira de Paulo Freire, "(...) ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo". O que lá não está, na net, é o fazer despertar o pensamento crítico e o gosto pela curiosidade. Aí não existe tenologia que substitua o professor. Deixo-vos, então, com esta carta que é o melhor tributo que um ex-aluno pode fazer a um professor.

"Pensei que não passaríamos mais por estes tempos.
Nem parece que já vai fazer quarenta e cinco anos que renasceu a Liberdade em Portugal!
E depois de tudo o que se tem sabido que a Secretaria Regional de Educação tem feito a esse grande Homem que é o Professor Joaquim Sousa, não posso deixar de prestar a minha homenagem ao Homem que me ensinou que nunca é tarde para ser feliz nem para sonhar.
Fui aluno do professor e ainda hoje sou influenciado por este Homem, a quem muito devo. Obrigado por nunca me ter deixado desistir professor!
Porque se há pessoas em que profissão e a vida se confundem, ele é um deles.
Não havia aula que não transmitisse, passo a passo, a essência da vida, a esperança num mundo melhor, mais igual, mais amigo do ambiente, um ambientalista, um sonhador.
Mas quem era este jovem, que tinha mais 10 anos do que eu e era mais novo que o meu irmão, que nos dizia que podíamos ser mais do que nos diziam, que podíamos sonhar com as melhores universidades, com profissões que víamos na televisão, que podíamos poder ousar sonhar.
Ao longo dos anos fui acompanhando a sua inquietação.
Disse-me um dia que estes meninos iriam surpreender o país, a escola do Curral seria a curto prazo a escola com melhores resultados da Madeira e ainda seria a melhor escola portuguesa nos exames nacionais, na altura ri-me era como a académica ser campeã nacional.
No 20 de fevereiro atravessou as montanhas a pé e esteve com os alunos e aí mostrou a sua capacidade de estar com os seus.
Ao fim de quase 20 anos vejo o Professor como um viajante infatigável, como alguém que prefere perder a abdicar dos seus princípios, que acima de tudo acredita que pode contribuir para uma sociedade mais justa. São raros esses Homens.
Um dia perguntei-lhe porque não vinha para o continente e ele respondeu-me que estava no solo em que edificaria as suas raízes. Tentei demovê-lo, disse-lhe que a Madeira era uma terra perdida para além dos poderosos ninguém poderia crescer, fez-me uma proclamação de esperança.
E, um a um, foi alcançando os objetivos que se propôs. No Natal de 2015 disse-lhe para ir embora, tinha conseguido o que se propusera e as invejas eram muitas. Disse-me que ia sair, mas não saiu e está a acontecer esta vergonha. Também por isso não volto, a liberdade e a democracia ainda não chegaram verdadeiramente à Madeira.
A sua voz e entusiasmo sempre nos ligou ao futuro.
É de enaltecer que passados vinte anos continue o mesmo. Apaixonado por causas. Desligado dos interesses. Valente nas convicções. Intransigente na solidariedade, arrojado nas refregas e uma incessante capacidade de sonhar.
Continua fiel a si próprio. Sempre fiel como muitas vezes nos dizia.
Obrigado Prof. Joaquim Sousa
Luís Andrade"

sábado, 13 de outubro de 2018

"ESTAMOS PREPARADOS" PARA O FURACÃO! E PARA A EDUCAÇÃO?


Disse o presidente do governo, a propósito da tempestade "Leslie", que estávamos "preparados". Uma declaração infeliz se considerarmos a força devastadora que este tipo de fenómenos ocasiona. Mas admitamos, em um sentido mais tolerante, que se referia estar tudo a postos para acudir às populações. Bom, digo eu, nada de mais, pois constitui um dever dos eleitos com responsabilidades. Entretanto, vasculhando e visionando vídeos sobre EDUCAÇÃO, dei com este que coloquei nos meus prioritários. Sem que nada tenha uma coisa a ver com a outra, ainda assim, questiono: e no sistema educativo estamos "preparados" para os desafios de hoje e do futuro? Não,  não estamos, claramente!

 

A NECESSIDADE DE UM SÉRIO E ALARGADO DEBATE


Se, no Básico, do meu ponto de vista, à luz de muitas análises, sobretudo de um novo conceito de aprendizagem, não faz sentido a realização de exames, já no acesso ao Superior, embora sendo, para já, mais complexo, não significa que, em uma perspectiva mais globalizante de todo o percurso escolar, não se caminhe em um sentido que promova a qualidade. Julgo ser necessário, a par de uma mudança estrutural do sistema educativo, do pré-escolar ao 9º ano, um sério e alargado debate entre o secundário e o acesso ao superior. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior entende que não. Falta-lhe coragem para debater e rever o processo. 


Deixo aqui um excerto de um texto publicado no Público e no blogue Incluso.

"(...) Nos últimos tempos, professores e pais têm insistido na necessidade de rever este regime de modo a que os exames nacionais do ensino secundário deixem de ser determinantes no acesso ao ensino superior, condicionando assim tudo o que faz no secundário. Esta posição foi reforçada pelo diagnóstico feito em fevereiro pelo diretor da Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, Andreas Schleicher. O sistema de exames nacionais ligado ao acesso ao ensino superior é um dos “principais problemas” do sistema educativo português pela pressão que exerce sobre professores, alunos e famílias e pela uniformização do ensino que promove (...)".

Em matéria de avaliação, questiono: quem fracassa, o aluno ou a instituição?

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

ENTRE UM PRESIDENTE DO GOVERNO QUE CONSENTE E EXECUTIVOS DE PROFESSORES QUE VIRAM COSTAS, VENHA O DIABO E ESCOLHA!


Tenho a plena consciência que levei uma vida profissional a defender os professores e uma vida a combater os sucessivos estados de letargia no sistema educativo. Continuo nesse rumo, mas não me calo perante os sinais de injustiça e a manifesta indiferença. Por isso retorno à Escola do Curral, ao Dr. Joaquim José Sousa e ao processo que este secretário da Educação lhe moveu. Li, com avidez mas contextualizando e decifrando, a entrevista que o professor concedeu, hoje, ao Diário de Notícias. Os factos foram ali escarrapachados, tim-tim-por-tim-tim, com passagens de quem se sente vítima de uma perseguição suja e doentia que abala o equilíbrio, até, no plano familiar. 

Desde logo emergem dois aspectos que ressaltam nesta oportuna entrevista: primeiro, que não se trata de incumprimentos de natureza burocrática, mas de uma lamentável e grotesca perseguição a um professor. Retiro da entrevista: "(...) basta verificar o processo de extinção, enviam-nos o documento para realizarmos as eleições, as mesmas são realizadas, ganhámos e, 24 horas depois, a escola é extinta, sem qualquer comunicação com a direção ou com a comunidade educativa, em total desrespeito pela autonomia da escola, pela democracia, pelos eleitores e pelos eleitos. Isto, depois de uma reunião, em Maio, em que foi dito que até 2025/2026 a escola era viável"; o segundo aspecto tem uma natureza de pendor pessoal: 

"(...) o processo está como a secretaria regional da Educação quer que esteja, está a destruir-me e à minha família (...)" e complementa: "(...) todo o processo, da maneira como foi instaurado e conduzido, pela discriminação e pela perseguição que representa, é desprestigiante para a educação, para a região e para o país. Tendo como cereja no topo do bolo a proteção a alguém que é co-responsável pelos atos e que, premeditadamente, adultera, acusa, engana, que mente e que é premiada pela secretaria regional da Educação".


A longa história que a edição do DN publica levanta-me ainda, dois outros aspectos complementares: primeiro, o silêncio do presidente do governo regional, jurista de profissão, que olha para isto como se nada tivesse a ver com o que se está a passar. Das duas, uma: ou não tem mão nos seus secretários, ou existem aqui indecifráveis cumplicidades e medos que conduzem a este lavar de mãos. O segundo aspecto tem uma outra natureza. Todos somos diferentes, pelo que, diferentes são, também, os princípios e os valores que conduzem na vida uns e outros. Eu, por exemplo, nunca, repito, nunca, aceitei em benefício próprio, uma situação que soubesse estar a desagradar ou a pôr em causa outrem. É, por isso, que não entendo como é que a solidariedade entre colegas parece extinta. Não dei conta que uma única direcção de escola da Região, neste e em outros casos, tenha vindo a público solidarizar-se e demonstrar repúdio pela maquiavélica engrenagem de perseguição a uma escola, a um director e a uma comunidade educativa. Sepulcral silêncio. Mais ainda. Questiono-me, como é que a direcção da escola de S. António, no Funchal, "sem tugir nem mugir" aceitou a anexação da escola do Curral das Freiras, conhecendo todo este obscuro processo. Falo por mim: confrontado com essa situação, colocaria o meu lugar à disposição. Daria 24 horas para me substituírem. Simplesmente porque, muito acima de qualquer interesse, medo foi coisa que nunca tive e a palavra SOLIDARIEDADE sempre teve para mim particular significado.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 6 de outubro de 2018

NA ESCOLA OS JOVENS TÊM DE "METER A MÃO NA MASSA"


Estava a jantar, em amena cavaqueira, quando, a propósito de uma figura, hoje empresário de sucesso na região norte, veio à baila a sua avó que um dia disparou: "o Francisco (nome fictício) todos os dias entra na escola; a escola é que não entra nele". Rimos, naturalmente, porque encaixava como a última peça do puzzle que a nossa conversa acabava de construir. Falávamos da escola, da desmotivação dos alunos, do insucesso, mas sobretudo da dissintonia entre a escola que estes jovens dispõem e aquela que deveriam ter. Em um tempo tecnológico, infelizmente, há cérebros políticos tão pequeninos que teimam em manter as estruturas organizacionais e pedagógicas do passado. Fazem-me lembrar o Raul Solnado quando, com refinado humor, dizia que há testas tão pequenas que para as ideias entrarem têm de ir de gatas!


Aliás, esta história das crianças que entram na escola, mas a escola não entra nelas, já começa a cansar tantos são os autores e especialistas em educação que têm vindo a se debruçar sobre o tema. Vêm agora falar de percentagens na iniciativa curricular. Um pronto-socorro para um enorme incêndio. Deixem-se, por favor, de tretas, porque o êxito não passa por aí. A questão reside na aparência de uma mudança, mas que mantém as mesmas características, ou semelhantes, do ensino tradicional. O que deve ser colocado em cima da mesa, enquanto reflexão séria, não é a manutenção de um modelo, mas a configuração de um novo paradigma pedagógico que conduza à aprendizagem e não ao ensino. De que vale, pergunto, dizer a uma escola que pode dispor de 25% na gestão do currículo se, na prática, o formato pedagógico é o mesmo ou idêntico? 
Sejamos claros, há uma diferença entre modelo e paradigma. O modelo tem uma característica estática, que respeita, escrupulosamente, as fases de construção de qualquer coisa que os adultos entendem como necessária; o paradigma tem um significado diferente, pois é qualquer coisa global pela qual me guio mas, permanentemente, me adapto. O modelo não permite adaptações. Portanto, a escola não precisa de modelos, precisa de um novo paradigma organizacional e pedagógico, onde as crianças possam aprender distantes do modelo de ensino. Eu diria que elas precisam de "meter a mão na massa" e, para isso, exigem, para serem felizes na escola e aprenderem a desaprender, de um sistema mais horizontal e colaborativo do que de um verticalizado e castrador do pensamento. É, por isso, que hoje se fala de estabelecimentos de aprendizagem e não de estabelecimentos de ensino.

Ora, ter a capacidade de configurar uma determinada percentagem na gestão do currículo, significa que a hierarquia política não quer perder a mão sobre o controlo das escolas e dos professores. Trata-se de uma mistificação, pelo que não faz qualquer sentido meter o mundo que os adultos idealizam e querem na cabeça de crianças que não o desejam.

Eu sei que tudo isto é muito complexo e que a conjugação de todas as variáveis não se resolve com um simples estalido de dedos. Tem muitas implicações, directas e indirectas. Mas de uma coisa estou certo, é que não vale a pena jogar com a sorte do talvez dê, como quem "atira barro à parede". Há necessidade de estudo, planeamento e muita assertividade. E isso leva tempo, muito tempo, desde a conceptualização de um novo paradigma até à formação dos professores. Só neste âmbito, no caso dos professores, convenhamos, que, genericamente, não estão sensibilizados para a imprescindível mudança. São muitos anos, cada um na sua disciplina, em um "dá e avalia", "chumba ou passa", quando hoje o caminho já não pode ser esse, envolve uma enorme transversalidade no conhecimento que em nada se assemelha à segmentação por disciplinas.
E tenham a certeza de um outro aspecto: quanto mais retardarem a partida pior será. A classe dos professores está cada vez mais envelhecida e cansada e os mais novos, uns, estão arredados do sistema, outros andam com a casa às costas, deambulando pelo país "vendendo" aulas. Muitos dos mais novos, os que desejaram ser professores e que, por necessidade, procuraram alternativas de vida, se porventura um dia regressarem, das duas uma, ou perderam o fulgor ou estão desactualizados face às novas dinâmicas. Assim, é grande a probabilidade do sistema ficar confrontado e refém de novos dilemas. Não ver o que se está a passar é grave, muito grave. É caso para dizer que, a continuar desta forma, "o(s) Francisco(s) (nome fictício) todos os dias entra(rão) na escola; a escola é que não entra(rá) neles".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

OS TPC AOS TRÊS ANOS - "FAZER RISCOS"


Achei muita graça, mas fiquei a pensar. Saí de casa para dar, apenas, setenta passos em direcção à escola do meu neto mais novo, de três anos. Cheguei à sala, vi-o divertido, obviamente. Olhou-me e correu ao meu encontro. O ritual seguiu-se: ir à sala onde estão penduradas a mochila, o casaco e a lancheira. Tudo preparado e ala para casa. Foi-me falando do dia com os amiguinhos. Relatório feito e, já em casa, colocada a "bagagem" no sítio certo, olhou-me e disse naquela voz infantil: "vou fazer os tpc". Os tpc?, retorqui. A "pessoura" mandou fazer riscos, concluiu. E lá foi fazê-los em cores variadas.


Achei muita graça, repito, pelo quadro vivido, pois trata-se de um neto, mas aquilo, de acordo com o que estudei sobre o desenvolvimento motor e a importância do jogo, deixou-me a reflectir. Isso levou-me a reler um texto que publiquei há muitos anos: "(...) entrávamos na escola a 7 de Outubro, agora um mês antes, e havia tempo para o jogo em um sentido lato, tempo para brincar de forma muito séria. Como sublinhou Jean Chateau (1961), "se o jogo desenvolve as funções latentes, compreende-se que o ser mais bem dotado é aquele que mais joga" (...) "para ela quase toda a atividade é jogo, e é pelo jogo que ela descobre e antecipa as condutas superiores". Para Claparède, in Psychologie de l'enfant e pédagogie expérimentale (não tinha eu ainda nascido), "o jogo é o trabalho, o bem, o dever, o ideal de vida. É a única atmosfera em que o seu ser psicológico pode respirar, e, consequentemente, pode agir" (...) Perguntar por que joga a criança, é perguntar por que é criança". Ou então, na palavra de Schiller "o Homem não é completo senão quando joga". 
Ora, isto desperta-me duas reflexões complementares: "fazer riscos" entendo como uma preocupação pela motricidade fina que antecipa, por exemplo, a escrita, só que isso deve ser concretizado no leque das múltiplas actividades do estabelecimento de aprendizagem. Não em casa. Outra, que trago como preocupação maior, é a crescente tendência, que começa muito cedo, para a desestruturação social que conduz a uma certa escravização do mundo da criança, levando-a a passar horas a mais em um mundo que não deve ser o seu. O seu mundo é o jogo. Hoje, menos "ipad" e mais, muito mais, o tal jogo onde possa "descobrir e antecipar as condutas superiores". 
Este dado deveria ser motivo de reflexão: relativamente a Portugal, as crianças finlandesas passam, na escola, menos 40% do tempo e, no entanto, conseguem melhores resultados. Fazem menos "riscos", digo eu!
Mas que achei graça ao sentido de responsabilidade, claro que achei!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O MAIOR "TIRO" DA SEMANA... DO MÊS... DO ANO!


Um artigo 
do Padre José Martins Júnior 
Blogue Senso&Consenso - 21 de Setembro de 2018

Ocupe-se quem queira com os badalos macroeconómicos do PIB, preocupe-se quem entenda com as quezílias da nomeação das Procuradora Geral da República ou entretenha-se, nas franjas domésticas do burgo, com o “Armas” cargueiro todo o ano. Hoje não vou por aí. Nem tão-pouco me comovem os abraços norte-sul coreanos nem me abalam as bombas pneumáticas que saem da bocarra ‘russa’ da Casa Branca.


Desde a última segunda-feira, ocupa-me e preocupa-me, transcende-me e galvaniza-me o “tiro” que assinala a partida para um Outono que traz consigo todo o fulgor da Primavera. É do regresso às aulas que hoje escrevo, para completar a emoção expressa em A Criança de Mochila(17.IX.18). Não imaginam quanto me enternece e, paradoxalmente, me transtorna a imagem de uma criança posicionada no mini-rectângulo da sua mesa de aula! Vejo-a ali, dona da sua pista, atleta no seu estádio, soberana do seu trono.
Diante dela, o Mestre, os Mestres, mãos cheias do ouro da ciência, braços de todas as latitudes, enfim, o mundo todo pré-fabricado para enchê-la, vesti-la, calçá-la e armá-la na visão estratégica dos embates futuros. Magnânimo, inexcedível o caudal de quem ensina para quem recebe!
Para quem recebe!... É aqui, na foz, no destinatário último da sua acção que o Magister descobre a nascente da sua intuição. Porque o “pequeno-grande ser” que tem à sua frente “não é uma massa disforme (ou informe) a ser moldada pelo Professor” (Jean Piaget). Não é o Livro em Branco nem a praia virgem de uma Ilha Encantada.
Ousarei dizer, sem hipérbole alguma, que se o Pedagogo traz o manual na mão, o aluno (criança ou jovem) traz uma biblioteca no coração. Se o Docente oferece um dicionário, o Discente tem a sua enciclopédia. Recorro a Fernando Pessoa: “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente a dar por isso”. No regresso às aulas, dentro da própria sala, diante do petiz (tenha ele o tamanho que tiver) o que é preciso é “dar por isso”.
Alvíssaras, cânticos e poemas aos Professores que intuem o ADN dos seus pupilos, que os transfiguram descobrindo-lhes a sua real dimensão, o seu olhar, o seu sentir, o seu pulsar. Quantas vezes na penumbra de um silêncio de criança se esconde e se reprime um vendaval de traumas e convulsões! E outras tantas vezes, num lampejo aparentemente intempestivo se anuncia uma onda de optimismo construtivo! “O que há é pouca gente a dar por isso”. Na vida quotidiana e no currículo escolar.
É este o “tiro” da semana, do mês, do ano, da vida. Porque dos bancos da escola sairão os caminhos do futuro. Os trabalhadores oficinais, os servidores públicos, os orçamentos, as engenharias nucleares, os presidenciáveis, os magistrados, os santos e os demónios. Agora, penso Louis Pasteur: “Diante de uma criança (um aluno) sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é, mas cheio de respeito por aquilo que poderá vir a ser”.
A minha efusiva e entusiástica saudação aos Homens e Mulheres, mediadores entre dois mundos: o da Ciência e o da Inocência, querendo com isto significar o Mestre Emissor e o Discípulo Receptor. Sejam quais a idade, o lugar e o volume de teres e saberes.
Por isso também é que me consola olhar e ver que hoje, no “21 de Outono” recomeça a Primavera de Abril!
21.Set.18
Martins Júnior