domingo, 13 de agosto de 2017

A LIBERDADE DE APRENDER "SEM PROGRAMA, TESTES, TRABALHOS DE CASA E HORÁRIOS"


Foi manchete do Jornal de Notícias de ontem: "Triplicam as crianças que têm escola em casa - Aumenta o número de famílias a optar pelo ensino  doméstico.  Defendem que menores ganham tempo para outras actividades". Não se trata de qualquer leviandade por parte dos pais. Apenas uma opção que pode conduzir até ao "Doutoramento sem nunca ter ido à escola", conforme assume o Professor Álvaro Ribeiro. "Devemos ter a humildade para saber as necessidades de cada filho (...) a flexibilidade de horário revelou-se uma das maiores vantagens da modalidade (...) a escola é muito absorvente. Mobiliza muito o tempo social da crianças", assume a mãe Laura. "A maioria dos alunos, se tivesse opção não estaria na escola e isso é muito grave", salienta a investigadora em Psicologia da Educação Inês Peceguina. "O acesso à educação tornou as pessoas mais críticas e exigentes", depois, insiste, o sistema de ensino em sala de aula pouco mudou (...)". A questão é exactamente esta. A rotina que mata e afasta. O tempo perdido em generalidades, vulgaridades e na insistência em assuntos cujas abordagens surgem desfasadas do tempo que estão a viver.


As famílias destacam, por isso, a liberdade de aprender "sem programa, testes, trabalhos de casa ou horário". Tomamos o pequeno-almoço todos juntos. Não nos levantamos a correr, nem nos preocupamos com a hora de deitar. É uma liberdade completamente diferente. As famílias escolhem este tipo de enquadramento porque as crianças apresentam-se "desmotivadas e esgotadas com prolongadas jornadas de trabalho" escolar. São já 661 crianças inscritas no ensino doméstico e individual. Crianças que apenas têm de realizar provas de equivalência a todas as disciplinas no final de cada ciclo, realizadas pelas escolas. As provas de aferição só são feitas se os pais o desejarem e os exames no secundário se quiserem concorrer ao Superior. E o curioso, se se trata de curiosidade, é que desta opção resultam boas classificações. E aqui não são "contabilizados" os conhecimentos que estão muito para além dos manuais e tudo aquilo que a escola tradicional não dá nem pode oferecer: as vivências culturais de todo o género que, devidamente enquadradas, valem muito. Achei interessante, neste trabalho da jornalista Alexandra Inácio, um pai assumir que o filho "aprendeu a aprender", que a opção foi ler muito, os livros e não os excertos, a preocupação de desescolarizarem tendo por objectivo o desenvolvimento da criatividade e o hábito de pensar.
É claro que a formação dos pais é determinante. A grande maioria tem ensino superior e actividades profissionais independentes que lhes permite o tempo necessário para o acompanhamento. O processo não é, de forma alguma, generalizável. O significado desta opção e destas experiências é aquele que coloca em causa o sistema tradicional de aprendizagem. Melhor dizendo, perante isto, o que é que o actual sistema tem de fazer para que a Escola não seja, para muitos, a "catedral do tédio". É preciso que os alunos contem, como li na peça de Clara Viana, em Abril de 2016: "(...) pode parecer pouca coisa, mas esse pouco, que em Portugal será sempre muito, poderia curar o crescente desamor dos jovens face à escola. Basta começar por lhes "dar voz", permitir que até no ensino secundário sejam eles a escolher disciplinas em função dos seus "interesses e talentos". Missão impossível? "(...) Se outros países já o fizeram, nós também podemos, embora isso signifique uma grande transformação do ensino em Portugal", responde Manuel Magalhães, 20 anos, que está a estudar no Instituto Politécnico de Leiria. É um dos seis jovens, entre os 16 e os 20 anos, a quem o PÚBLICO perguntou: o que pode ser mudado nas escolas para que estas (e o processo de aprendizagem) se tornem mais atractivos para os alunos. O problema reside aqui.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 12 de agosto de 2017

O SENTIDO DA OPORTUNIDADE E O PRINCÍPIO DA PRIORIDADE ESTRUTURAL


Olho para o cartaz e leio: "Um futuro para ti". Entusiasmei-me pela leitura da notícia do DN-Madeira e, infelizmente, defraudaram-se-me as expectativas. "Um futuro para ti" esgota-se em um intercâmbio de jovens, dos 18 aos 30 anos, entre as regiões da Madeira, Açores e Canárias. Designa-se por Academia do Jovem Voluntário e visa a participação em acções de apoio social e comunitário, desportivo, de saúde, defesa do ambiente e do património. Enalteceu o secretário da Educação: "(...) a noção de que o conhecimento, sendo hoje algo facilmente acessível, é importante que o tenhamos também de forma presencial. É importante conhecer lugares, pessoas e instituições (...) Esta é a geração das oportunidades. Nenhuma teve tanta oportunidade, teve tantos desafios como a vossa. Hoje, os jovens têm todas as condições para preparar o ingresso na vida activa. Não deixem passar ao lado estas oportunidades". Declarações destas não me fazem tirar do sério, mas deixa-me perplexo pelo sentimento que me envolve de um edifício construído pelo telhado.


Não condeno a iniciativa, obviamente, eu que defendo uma escola que ultrapasse os seus próprios muros. Uma escola que seja vida, vivência e convivência. Uma escola de cultura universal que rompa com estruturas ultrapassadas, fechadas nos currículos e programas, como se tudo aí começasse e terminasse. Não é, por isso, a iniciativa que está em causa (existem outras de natureza semelhante), mas o facto de constituir um "tiro" isolado, uma iniciativa desfasada de uma ideia maior de escola e sobretudo de aprendizagem que garanta futuro para os jovens. O que condeno é o desrespeito pelo princípio da prioridade estrutural e do aproveitamento sensato dos escassos recursos. 

A prioridade estrutural, no essencial, deveria, desde logo, obrigar a sair mesmo estando cá dentro.

Quando se olha para o sistema educativo e se detecta tanta fragilidade, insucessos e abandonos que envergonham, quando se olha para um mundo de absurdos em função do tempo que estamos a viver e da preparação que o futuro exigirá, quando se olha para as dificuldades de natureza financeira que limitam os projectos educativos escolares mais ambiciosos, (mesmo que esta iniciativa seja comparticipada) confronto-me com uma iniciativa que se dirige aos jovens entre os 18 e os 30 anos no quadro de um "Um futuro para ti". De que futuro estão a falar? Da emigração?
Ora, o futuro não se constrói com iniciativas isoladas, limitadas a um grupo(s) que, por força do orçamento, nunca será abrangente à maioria dos estudantes e dos outros que, pela idade, já se encontram fora do sistema. muitos no ensino superior ou já na vida activa. A prioridade estrutural, no essencial, deveria, desde logo, obrigar a sair mesmo estando cá dentro. Isso obrigaria a mudar tudo no sistema, garantindo a universalidade do PENSAMENTO que não se esgota, desde as primeiras idades, na resposta dita certa à pergunta constante do manual. De forma integrada, este é outro princípio do desenvolvimento que convém ter presente, então sim, as iniciativas têm o seu interesse e oportunidade. Desta forma, não, mostra-se desarticulada de qualquer ideia portadora de futuro. Porque "um futuro para ti", jovem, tem, necessariamente, outros contornos que não partem de uma "Academia do Jovem Voluntário". Não acredito e, certamente, poucos acreditarão em políticas que sobem os degraus de três em três!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

FINALMENTE, ESTÁ DADO O PRIMEIRO PASSO. AINDA MUITO DISTANTE DO DESEJÁVEL, MAIS DE 20% DAS ESCOLAS VÃO PODER ESCOLHER COMO ENSINAR


Projecto-piloto arranca em Setembro e abrange 171 escolas públicas 61 privadas e quatro das sete escolas portuguesas no estrangeiro. Experiência só abrange os anos iniciais de cada ciclo de escolaridade. Por Clara Viana, Público, 10.08.2017.  


O segredo foi finalmente desvendado. No próximo ano lectivo serão 230 as escolas que irão testar as mudanças propostas pelo Ministério da Educação (ME) no âmbito do projecto-piloto da flexibilidade curricular, segundo revelou a tutela ao PÚBLICO. Deste total, 171 são escolas públicas o que corresponde a 21,1% da rede de oferta existente, que é constituída por 713 agrupamentos e 95 escolas não agrupadas.
No projecto estarão ainda envolvidas 61 escolas privadas e quatro das sete escolas portuguesas no estrangeiro. Segundo o ME, a lista com os nomes dos estabelecimentos de ensino envolvidos deverá “ser publicada nos próximos dias” no site da Direcção-Geral de Educação.

Escolas vão ter cinco horas por semana para inovar métodos de ensino


O novo modelo só será aplicado no primeiro ano de cada ciclo de escolaridade (1.º, 5.º, 7.º e 10.º). Às escolas foi deixada a decisão de fixar quantas turmas destes anos irão participar na experiência, o que por esta altura já deverá ser conhecido uma vez que as listas com a constituição de turmas foram afixadas no dia 28 de Julho, indicou o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima.
O agrupamento de que é director (Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia) é um dos que integra o projecto-piloto. Tem cinco escolas e há 8 turmas que foram seleccionadas para o efeito: cinco do 1.º ano, uma do 5.º e duas do 7.º. No caso destes últimos dois anos, as turmas foram seleccionadas “com base no que foi a percepção do trabalho desenvolvido no ano anterior ou seja, tendo em conta as características dos alunos e os hábitos de trabalho dos alunos que lhes foram incutidos pelos seus professores”, esclareceu Filinto Lima, adiantando que reuniu antes com os pais das crianças.
O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascenção, mostrou-se “apreensivo” pelo facto de nem o ministério nem as escolas estarem a informar os encarregados de educação sobre quem será abrangido por estas mudanças. “Os pais têm o direito de saber o que vai acontecer no próximo ano lectivo e isso não está a acontecer."
As escolas que vão inaugurar a experiência de flexibilidade curricular têm apenas uma obrigação: a integração na matriz curricular de duas novas áreas. São elas Cidadania e Desenvolvimento e Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). É o que se encontra estipulado no despacho que regulamenta o novo modelo, que foi publicado no início de Julho.
Mas, se assim o entenderem, vão ter também 25% do tempo de aulas para tentar levar por diante novas formas de ensinar. O que passará pela constituição de novas disciplinas, mas também por várias outras soluções já apresentadas pelo Ministério da Educação. Uma possibilidade: a fusão de disciplinas em áreas disciplinares, em que dois ou mais professores “trabalham em equipa” na preparação das aulas, que podem ser dadas à vez por cada um ou em conjunto. Por exemplo: em vez de trabalhar de forma separada as disciplinas de Físico-Química e Ciências Naturais, a escola pode juntá-las com a carga horária equivalente à soma das duas.
Pode-se optar também pela alternância entre tempos de estudos tradicionais e semanas em que toda a escola trabalha em conjunto, numa perspectiva multidisciplinar, um só tema. Por exemplo, “a Europa” ou “a crise dos refugiados”. Esta é uma experiência que está a ser seguida na Finlândia.
O ME tem garantido que a nova experiência não implicará uma revisão curricular e que os actuais programas se manterão em vigor, mas os alunos abrangidos pela flexibilidade curricular terão novos documentos de referência, que se intitulam aprendizagens essenciais, e que irão, na prática, substituir as metas curriculares elaboradas durante o mandato de Nuno Crato. As escolas podem ainda optar por transformar disciplinas anuais em semestrais e os alunos do 10.º ano terão a possibilidade de trocar uma disciplina do seu curso por outra de um curso diferente.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A URGÊNCIA DE UMA EDUCAÇÃO PELO DESPORTO


"No futebol jovem há agressões e ameaças a treinadores e pancadaria entre os pais das duas equipas. Todos querem ter o seu Cristiano Ronaldo para orgulho pessoal e sustento da família"


Esta síntese e as seguintes são do ex-árbitro internacional de futebol Duarte Gomes. 
"Regra geral a cultura desportiva dos miúdos é resultadista. É ganhar, ganhar, ganhar. Já não há um rival em campo, há um inimigo" (...) Isto está completamente desvirtuado em relação  ao que deve ser o crescimento competitivo de um jovem, que deve privilegiar valores como o respeito pelo adversário, o saber aceitar a derrota, mesmo com o erro do árbitro, assim como saber ganhar (...) Os pais estão formatados com a tal cultura de vitória a todo o custo e incutem-na nos filhos (...) Os pais colocam uma pressão tremenda nos miúdos, quando nestas idades se deve fomentar apenas o prazer de jogar (...)".
Pergunto: e por que está isto a acontecer? O que tem sido feito no sentido de alterar esta atitude, desde a escola ao clube?
Ilustração: Google Imagens. Revista Visão, 1274, 3 a 9 de Agosto de 2017.