terça-feira, 24 de abril de 2018

A ARTE DE MANIPULAR


O Secretário Regional de Educação tem demonstrado habilidade na arte da manipulação dos factos, pelo modo como os comunica e divulga a informação. Aliás, se não evita tomar ou adiar decisões, não assume a discordância e impopularidade das mesmas, quando as toma, optando por usar uma linguagem eufemística ou a manipulação informativa.


Um dos exemplos mais recentes, bem propalados, foi a questão da contagem integral do tempo de serviço docente para efeitos de progressão nas carreiras. Depois de muitas reuniões e compromissos, o Secretário assumiu publicamente, antes da greve e marcha marcadas pelo Sindicato dos Professores da Madeira, que os docentes recuperariam os mais de 9 anos de tempo de serviço congelado. Para alguns docentes, este período é maior, pois já não progridem desde 2004, por inércia legislativa. Todos criaram boas expetativas, naturalmente, mas passados quatro meses, nada se sabe de concreto. Ou seja, quando sai notícias da secretaria são sempre positivas, mas a realidade é bem diferente.
Outro exemplo, ainda mais atual, é a propósito da alteração ao regime de concursos na RAM. Os títulos noticiosos levam-nos a crer que as alterações aos diplomas foram bem recebidas pelas organizações sindicais, quando se veio a saber que era uma informação falaciosa e atentatória da credibilidade dos sindicatos. As propostas substanciais dos sindicatos não foram acolhidas, o que significa que pouco se alterou das propostas que foram a base de negociação.
As notícias dão conta que passará a haver apenas duas zonas pedagógicas, mas não diz que implicações isso terá, incluindo a dispensa de docentes contratados. Anuncia-se a eliminação da bolsa de substituições, mas não se diz que havendo apenas duas zonas e a criação de uma reserva de recrutamento, retira-se a necessidade da bolsa. Aliás, com a reserva de recrutamento, não se entende porque se reduz o número de zonas pedagógicas. O governo propõe mais uma vez fazer um concurso de vinculação extraordinária, quando o diploma de concursos prevê a vinculação dos docentes em funções durante 5 anos ininterruptos com horário anual e completo, pressupondo que se realizem concursos externos anuais. Para não se cumprir estes pressupostos, interrompeu-se a sucessividade de contratos a largas dezenas de docentes que se viram impossibilitados de vincular e agora, como benesse, vincula-se extraordinariamente. Fica melhor nos títulos.
Sr. Secretário, assuma as suas decisões, sem manipulação.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Artigo de opinião, da autoria da Drª Sofia Canha, publicado na edição de hoje do DN-Madeira.

sábado, 21 de abril de 2018

SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO DECLARA GUERRA


Carta do Leitor, publicada na edição de hoje do DN-Madeira, que pelo seu interesse aqui reproduzo


"Foi com muita estupefação que os professores receberam a proposta da Secretaria de Educação para o próximo ano letivo. Entre as inúmeras barbaridades destaca-se, de forma descarada, o fato de o Sr. Secretário da Educação (que infelizmente como tantos outros dos seus antecessores) esquecer-se completamente de que também já foi um professor e querer “despachar” professores contratados que desesperam há 15, 12, 10 anos pela ilusão de entrar numa carreira, que foram barbaramente injustiçados há 4 anos atrás quando lhes foi cortado, propositadamente, o vínculo (contratando-os apenas em Outubro em vez de Setembro) de forma a impedi-los de vincularem. Agora, e quando no Continente já é cumprida a vinculação aos 3 anos, como exige a lei, na Madeira mantém-se, inacreditavelmente, a vinculação aos 5 anos consecutivos, especialmente porque já está em ação um plano para voltar a tramar os mesmos professores que foram “roubados” e impedi-los de chegar de novo à vinculação necessária e merecida. Há quatro anos atrás, numa das maiores vergonhas feitas aos professores madeirenses, digna de um país de terceiro mundo, com regras ridículas feitas à medida para “amigos” e “sobrinhos”, impediu-se professores com dez anos de carreira de vincularem, enquanto outros, com o mínimo de anos possíveis de serviço entraram na carreira. Agora, essas mesmas pessoas, que inacreditavelmente continuam nos mesmos cargos (ou rodam entre eles), “cozinham” um novo atentado aos professores contratados, um plano que visa sobrecarregar os professores de quadro existentes e assim cortar o maior número possível de professores contratados e voltar a evitar que eles atinjam (de novo) os 5 anos consecutivos. Todo o país e os Açores vinculam aos três de serviço consecutivo, só a Madeira recusa-se a repor a legalidade. Mais uma vez de FORMA DESCARADA. O Sr. Secretário, repete, vez após vez, que os 400 contratados atuais apenas suprem necessidades temporárias mas nunca refere que esse número é sempre mais ou menos constante nos últimos 15 anos e que muitos desses professores suprem “necessidades temporárias” há mais de 10 anos. Apenas são mão de obra barata e precária? Como poderia explicar isso? Infelizmente deixa de dar aulas, deixa de ser professor e torna-se político profissional. Em vez de aproveitarem a oportunidade de reporem a injustiça feita há 4 anos, preparam-se para cometer de novo a mesma imoralidade. Sr. Presidente Miguel Albuquerque, não é assim com estas jogadas do seu Secretário que se ganham eleições. Relembro que as cores partidárias no Continente são outras e repuseram a legalidade dos 3 anos. Os professores, junto com seus familiares, valem muitos milhares de votos e têm boa memória. Seria bom ter isso em conta antes de tentarem fazer passar os professores por parvos. No dia 25 de Abril, dia de celebrar a liberdade, os professores contratados vão mostrar que têm voz. Apelo aos colegas que se juntem na manifestação junto à Assembleia. Chega de precariedade e injustiça ditada por aqueles que se eternizam na nossa secretaria com os mesmos vícios e jogadas de favorecimentos que para beneficiar alguns prejudicam muitos outros. Tem pessoas naquela Secretaria que deveriam ter-se demitido 4 anos atrás e continuam em cargos de realce. Acabem com esta vergonha. Reponham as injustiças que têm caído sempre em cima dos mesmos."
Dina A.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

GOVERNO, PARTIDOS, PROFESSORES E PAIS, OIÇAM TONY WAGNER


TONY WAGNER é Diretor do Laboratório de Inovação da Universidade de Harvard. "Os bons professores devem mudar o papel que desempenharam até agora para se tornarem a força motriz por trás do talento dos seus alunos. A curiosidade e a criação artística, diz ele, estão inscritas no DNA do ser humano, por isso devemos perguntar-nos o que fazemos de errado com as crianças para que percam essas inquietudes quando se tornam adultos". O Professor acaba por repetir a grande vaga pela mudança que deve consubstanciar uma educação para hoje com repercussões no futuro. Ao longo dos anos tenho assistido a tantas manifestações naquele sentido, são conferências, palestras, formações, gabinetes de estudo, eu sei lá, mas tudo permanece igual. Os mesmos que promovem as iniciativas são os mesmos que, no dia seguinte, nada fazem para alterar o sistema. É pena. Por isso, oiçam Tony Wagner.

     

segunda-feira, 16 de abril de 2018

SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO INCOMODADO... COM "URTICÁRIA" POR RESULTADOS QUE NÃO SÃO SEUS


Um político, com um mínimo de juizinho, desde que siga os pressupostos de uma boa liderança, resolve as questões das equipas com quem trabalha, através do diálogo e da persuasão, nunca através da perseguição e do peito cheio de ar. 


FACTO

A 20.03.2016 escrevi um texto a partir de um trabalho do jornalista Márcio Berenguer publicado no Jornal Público. Eis um excerto:
"(...) Na Escola Básica 123 do Curral das Freiras que há alguns anos se situava nos últimos lugares (1207º) do ranking nacional de escolas, saltou, no último, para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. O interessante é que “tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro”. Uma escola onde 92% dos alunos beneficiam da Acção Social Educativa (...)".

COMENTÁRIO

01. Na edição de hoje do DN-Madeira, o jornalista Élvio Passos, página 4, colocou em título: "Acusação a director da Escola do Curral prevê pena de suspensão". De facto, arrisca, porque o secretário da Educação anda incomodado e com sinais de "urticária" por resultados que não lhe pertencem.
02. A exposição mediática nacional que o "acusado" teve (em nome de toda a Escola), provocou a necessidade política de o travar, ao jeito de, "aqui, quem manda sou eu". Por exemplo, constou que a participação do Professor Joaquim Sousa, no programa da RTP "Fronteiras XXI", causou uma péssima digestão. 
03. Ao invés de gerar as condições para potenciar, ainda mais, uma escola tendencialmente diferente e com resultados, na perspectiva de multiplicar as boas práticas por toda a Região, a mesquinhez política começou a esgravatar com a ajuda da acéfala lupa da inspecção, para descobrir, aqui e ali, coisitas onde lhe pudessem cair em cima. 
04. Alegadas falhas administrativas serviram de mote para um processo disciplinar e condenação, para já, pública, onde até o presidente da Junta de Freguesia se arrogou no direito de meter a foice! 
05. Sobre tais falhas administrativas acresce questionar se, de facto, serão, ou se não será o sistema, em função dos resultados, que deve ser corrigido?
06. Significa este processo a confirmação que o secretário da Educação se apresenta como defensor da existência de docentes "mangas-de-alpaca", não de pensadores, criadores e inovadores, isto é, é uma entidade que repudia docentes que coloquem as crianças e jovens no centro da política educativa.

PERGUNTA

O que estará primeiro: os resultados da aprendizagem ou os procedimentos de natureza burocrática?

NOTA FINAL

Um político, com um mínimo de juizinho, desde que siga os pressupostos de uma boa liderança, resolve as questões das equipas com quem trabalha, através do diálogo e da persuasão, nunca através da perseguição e do peito cheio de ar. É feio, muito feio, por isso, há colaboradores desencantados e que se afastam. Saberá o secretário o significado de "liderança partilhada"?
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 15 de abril de 2018

HAVERÁ CLASSE DOCENTE?


Colega que muito estimo, há dias, conversando, desabafei sobre o ambiente de desmobilização entre professores, a todos os níveis que se possa enquadrar. De pronto ripostou: sabe, não existe classe docente! De facto, para existir uma classe, não no sentido da estratificação social e de tudo o que daí decorre, mas de um corpo de pessoas, no âmbito em que falávamos, preocupadas no plano profissional (salvo excepções) necessário se torna que estejam imbuídas dos mesmos princípios, de pensamento crítico, livre e de valores solidários. Nesta linha de raciocínio não basta cumprir o horário e o programa, participar neste ou naquele projecto, elaborar todos os relatórios e preencher todas as minuciosas grelhas, embora inconsequentes, solicitadas pela hierarquia, enfeitando os documentos com palavras melosas, enaltecendo ou batendo palmas às chefias, como quem aguarda algum benefício na próxima curva. Para o êxito de uma Escola ou de um sistema, isso valerá zero. Existe sentido de classe quando se lança um olhar e é sensível que uma larga maioria sabe onde está e onde quer chegar, luta por tais desideratos, não se acobarda, antes, democraticamente, faz valer a sua voz nos sítios certos, desde o conselho de turma à assembleia de escola, demonstra conhecimento e argumenta, sem receio, seja lá com quem for. Mais, ainda, é solidário com os colegas, não silenciando injustiças e pressões várias.

Caros professores: a Escola não tem dono específico. A Escola brota da sociedade, logo, é pertença e responsabilidade de todos. Ninguém tem, no plano político ou de circunstancial gestão de um estabelecimento de educação ou de ensino, o direito de subverter ou condicionar o pensamento e os diversos posicionamentos, apenas para agradar e demonstrar subserviência de A a Z da hierarquia política. Uma coisa é cumprir, escrupulosamente, os deveres estatuídos, outra é gerar e, subtilmente, impor, pelos diversos canais, o silêncio e um ambiente de cega obediência a uma só cabeça. Como se ela fosse portadora de uma qualquer "verdade absoluta". Portanto, se o "vértice estratégico" está errado ou emperrado, uma classe que se dê ao respeito, enfrenta-o com determinação. Se o sistema educativo está errado, tantos o dizem, a classe tem o dever e o direito de corrigi-lo. Não afrontar porque se beneficia de teias criadas e de alguns euros, porque se está à espera de um sim financeiro ou de horas para o projecto x, y ou z, significa isso demitir-se das causas maiores. No essencial o que está aqui em causa é um dos princípios do desenvolvimento: o da participação. O que equivale dizer, ou as pessoas participam ou os processos morrem. Tão simples quanto isto.
Confesso que nunca me dei mal com esta forma de estar e com a frontalidade. Fi-lo porque a batalha da Educação não se faz com silêncios e tolas subordinações. Faz-se no respeito por ambas as partes. O saldo, pelo menos na minha leitura, foi positivo. Questionarão, se adiantou alguma coisa, uma vez que tudo continua na mesma? Talvez, considerando que o exercício da cidadania activa implica, no respeito pelos outros, o permanente questionamento. No mínimo, não atraiçoei a minha consciência. Houve quem não gostasse, obviamente, mas a coluna falou mais alto. Porque sempre entendi que a classe devia se livrar das amarras impostas, dos erros grosseiros que caiem em cascata por incompreensão da realidade; devia sobrepôr-se, com humildade, à incompetência alardeada, em voz baixa, nos corredores e à mesa do café, entre uma e outra aula; devia estudar os diversos dossiês como pressuposto fundamental para desenvolver a capacidade de saber dizer NÃO. Lamento dizê-lo, mas essa saudável luta, feita de paixão e amor aos outros e à profissão, está cada vez mais distante. Daí que regresse à pergunta inicial: haverá classe docente? Convictamente, NÃO. Talvez, por isso, estamos onde estamos.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

PELO MEU DISTINTO COLEGA JOAQUIM JOSÉ DE SOUSA


O Dr. Joaquim José de Sousa, director da Escola do Curral das Freiras, foi formalmente "acusado" pela Inspecção Regional de Educação. Eu diria, frontalmente, desde logo e sem rodeios, porque estou cansado de ver uma certa ignorância altifalante, que o professor foi visado pelos medíocres do costume. Aprenderam pela cartilha partidária, a tal que estabelece a hierarquia à qual todos devem curvar-se, daí que, nada melhor do que seguir o "chefe", não o líder, optar pela rotina e não pela inovação, pelo nariz junto ao joelho e não pela coluna erecta, pelos salamaleques de concordância e não pelas atitudes que demonstram paixão pela formação de todos os que frequentam a escola. Por isso, repetem a cartilha, qual argamassa feita de tolice, medo e insipiência. Apresentam-se, assim, como importantes no meio da vulgaridade, quando, se estivessem atentos, perceberiam que "a ignorância só se combate com educação", não com saloias perseguições.


E assim, pergunto, quem são, que sabem de Educação e de Sistema Educativo? Quem são essas figurinhas, que assinam por baixo, dando cobertura a situações marcadamente partidárias? E quais as razões do silêncio de todos quantos, há anos, por ali andam? E quem é essa "inspectora" que descobriu as acusações plasmadas na nota de culpa? Quais os seus passados, o que trouxeram de novo ao sistema, que livros ou artigos de ciência escreveram e que pensamento expressaram, que valores defendem, que escola desejam? Desconheço.
A caracterização que faço é a do "chefe" que caminha pelos corredores do poder, com a ambição inversamente proporcional à competência; a daqueles que fizeram toda a vidinha naquele espaço, saltitando de serviço em serviço conforme os interesses; e, já agora, da "inspectora", pasmo em saber, que esteve a contas com um processo disciplinar antes de ascender aos olhos e ouvidos do "chefe". O alegado "crime" foi compensado! De "ré" passou a "juíza". Está tudo dito.
É este quadro que me deixa triste e revoltado. Eu que, aposentado, mas com 40 anos dedicados à Educação, bem poderia estar caladinho, vendo a tristeza passar, borrifando-me para o que vejo, porém, confesso, não consigo. Porque entendo que, com a EDUCAÇÃO ninguém deve brincar no plano partidário. A Educação é um desígnio da comunidade, que deve ser politizada, sublinho, nunca partidarizada. Quando não se aproveita as pessoas de valor que estão no activo e, ao contrário disso, persegue-se e boicota-se o diálogo, talvez porque se sintam diminuídas pelo êxito de outros, patente no facto da Escola do Curral ter tido mediatismo nacional, tal denuncia uma sintomatologia de inveja e de provocação que atenta contra a dignidade profissional do(s) visado(s). Em um quadro destes só pode existir uma resposta, a da cidadania, a do combate sem tréguas contra a prepotência e a maldade disfarçada com sorrisos, para que não avancem, julgando que fazem aos outros o que querem e entendem.
A Escola precisa de serenidade e esse aspecto não é possível com atitudes centralizadoras, de perseguição e chantagem; a Escola necessita de plena autonomia e isso não se consegue como bem caracterizou o Professor Licínio Lima: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós"; a Escola precisa de financiamento para que as dívidas acumuladas não sufoquem o projecto educativo; a Escola tem de sair dos seus muros convencionais e projectar-se na vida real, interagindo, no meio de todos os outros sistemas, analisando-os e compreendendo-os com o necessário pensamento crítico; a Escola não pode ser a mera repetição que prepara exames, quando, hoje, os alunos interagem com o conhecimento de forma diferente das gerações passadas; a Escola não precisa de um fatinho de tamanho único, mas do respeito pela diversidade cultural, expectativas e potencialidades de cada um; a Escola não pode ser professores, por um lado, alunos, por outro, auxiliares que cumprem ordens, pais distantes, antes uma comunidade em aprendizagem permanente, onde todos dão e recebem; a Escola não deve caracterizar-se pela imensidão de pequenos projectos desarticulados no tempo, antes pela existência de um só projecto, aglutinador e portador de futuro; a Escola não deve ser conservadora e reprodutora de modelos sociais, com um currículo e disciplinas desconjuntadas no tempo, antes um espaço de criação, inovação, de cultura, de auto-estima e de afectos, capaz de gerar, paulatinamente, os pressupostos da curiosidade; a Escola não deve fundar-se na burocracia, nos papéis, muitos papéis que circulam e enervam, tarde ou cedo destinados ao arquivo morto, à prateleira final de circulares e normativos, a maioria repetitivos e desnecessários, mas que justificam os lugares que a hierarquia política ocupa; a Escola é muito mais que sumários e pormenorizadas grelhas de avaliação, com percentagens para tudo, encaixotando a diversidade social entre 0 e 100%, antes a disponibilidade para o conhecimento, produção de saberes consistentes e fermento para a vida; a Escola não pode ser um local triste e enfadonho, antes um espaço de prazer pelo estudo, pela descoberta e pelo desenvolvimento da curiosidade que conduz ao conhecimento sustentado; a Escola não pode caracterizar-se por um sentido individualista, quando as áreas de intervenção profissional fazem apelo ao trabalho em grupo; a Escola não pode assentar em exaustivos programas e conteúdos para esquecer, antes o foco da sua missão deve centrar-se no pensamento, questionamento de tudo e descoberta de caminhos. Ora, tudo isto dá muito trabalho, ora se dá! Romper com o passado e com as rotinas assentes na lógica do toca-entra-toca-sai, é complexo. Eu sei que é difícil, depois de dezenas de anos, de uma classe docente envelhecida, assumir que educar é muito mais do que transmitir conhecimento enciclopédico e que o papel do professor deve ser hoje a de mediador e potenciador da descoberta. Mas é por aí que o caminho tem de ser trilhado. Para que o êxito aconteça e baixem os números do abandono e do insucesso.
Li, já tem uns anos, uma posição que me cativou, a de Izabel Sadalla Grispino, hoje aposentada, que desempenhou funções de supervisora de ensino: "(...) antes de colocar a educação numa vala comum, é recomendável examinar cada indivíduo, cada anseio, cada desejo embutido na personalidade. Escola é um suporte pedagógico vital para o crescimento individual, crescimento de valores voltados ao ser singular (...)". A tal "inspectora" e acólitos percebem a dimensão deste pensamento?
É este o erro do Professor Joaquim Sousa e dos que o acompanham na Escola. O erro da comunidade educativa do Curral assenta na luta contra o marasmo, contra o deixa andar, descobrindo, precocemente, as fragilidades, os transtornos de aprendizagem e actuando em consonância. Daí terem chegado ao reconhecimento nacional. Há erros de percurso? Pois, quem dirige, sem excepção, não está isento de falhar. Até a "inspectora" já falhou. Houve documentos que não foram preenchidos? Pois, até pode ser verdade. Agora, será que os burocratas não entendem que tais alegados incumprimentos valem zero perante a grandeza de querer partir da escola real para a escola ideal?
Mudem de registo e parem com intervenções revoltantes, abusivas e que transmitem o sentimento da perseguição e da maldade. Revejam a vossa "gramática" de escola. Se não conseguirem, mudem de profissão.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

POLÍTICA EDUCATIVA - MADEIRA APRESENTA O PIOR NÍVEL DE ESCOLARIDADE DA PENÍNSULA IBÉRICA


Fonte DN-Madeira: "entre a população dos 25 aos 64 anos, apenas 16,6% tinham escolaridade média" - conclusão do estudo Península Ibérica em Números - 2017. Curiosamente, dita o estudo que, em Espanha, o valor mais alto foi atingido nas Ilhas Baleares com 28,5%. Interessante a diferença entre as duas comunidades autónomas. Na parte ibérica, a área Metropolitana de Lisboa apresenta o melhor resultado, com 27,3% e, em Espanha, o mínimo foi verificado na Extremadura com 17,2%. A Região da Madeira apresentou resultados piores que em 2015, no que concerne à escolaridade média, de acordo com os níveis 3 e 4 da classificação ISCED (ensino secundário e pós-secundário não superior - 12º ano ou profissionalizante. Uma situação que se reflecte no emprego, obviamente. Salienta o excelente trabalho do jornalista Francisco José Cardoso: "Na Madeira, actualmente, entre 17.300 desempregados inscritos, 62,3% têm, no máximo, o 3º ciclo do Ensino Básico (...) por grupos etários, 65,4% têm idades compreendidas entre 25 e 54 anos".


Se analisarmos esta síntese, uma palavra pode caracterizar a situação: desastre. É um desastre na política educativa, económica, social e cultural. Desastre que já estamos a pagar, face a um mundo global, competitivo e exigente. Aliás, estes resultados não são fruto do acaso. Há uma história de causas sectoriais na estrutura de construção da sociedade, onde tudo, ao invés de se encontrar interligado, mostra-se desarticulado, portanto, sem uma linha orientadora e portadora de futuro. É, também, a derrota da centralização. Quatro estruturas em falência explicam a situação: a familiar, a laboral, a escolar e a mentalidade de governantes e de governados. Podemos aduzir ou compaginar outras, mas, talvez estas, constituam o núcleo central do problema.
Durante os últimos 40 anos a prioridade não foi o ser humano como "obra" prioritária, esse investimento capaz de enfrentar os desafios de um futuro que, sublinho, sabíamos vir a tornar-se de uma enormíssima complexidade. Prevaleceu, exageradamente, como se não houvesse amanhã, a obra física, como designou Edgar Silva, a "fúria inauguracionista", que tomou conta da consciência de quem foi governo. A percentagem de cimento ou de carros vendidos caracterizou o crescimento. Hoje, qualquer cidadão atento sabe que essa política foi mortal para o desenvolvimento equilibrado, feito de acordo com a  cadência do tempo. Corolário: a eleição seguinte foi sempre fonte prioritária relativamente à geração seguinte. Perderam-se no labirinto dos interesses e de uma visão estrábica do desenvolvimento, onde a qualidade deveria ser a pedra de toque a todos os níveis. E assim criaram duas sociedades, a endinheirada, capaz de possibilitar aos filhos uma formação de topo; a pobre, tendencialmente escrava dos contratos a prazo, dos recibos-verdes e do salário escasso. Se isto não foi intencional, então, qual a outra justificação para aqueles pobres resultados?
E falam, de boca cheia, do sucesso, acenam com o empreendedorismo, com os incentivos à robotização, do Brava Valley, de projectos e mais projectos que encantam os distraídos, esquecendo-se, como há anos me disse o meu Amigo Engº Arlindo Oliveira, ao longo de uma cavaqueira, que permanecemos "vestidos de smoking, mas descalços". Não falam, nem desejam equacionar as grandes questões, a empresarial e laboral (há um estudo, que já tem uns anos, que prova o desequilíbrio, por ausência de planeamento, entre uma oferta para um milhão de habitantes, quando por aqui somos 250.000); não falam nem desejam equacionar as questões a montante de uma sociedade com mais de 30% de pobres e uma larga percentagem em pobreza persistente; não falam nem desejam falar da estrutura escolar, completamente ultrapassada na sua organização geral, no plano curricular, programático e pedagógico; não falam nem desejam falar sobre as características idiossincráticas que marcam, negativamente, o povo (nada tem a ver com aspectos de natureza cultural). Tudo isso tem sido paleio, abstração, porém, o resultado é aquele. Pergunto: por este caminho haverá futuro? Bastará chutar para Lisboa, como alívio da consciência, todos os erros estratégicos de uma terra Autónoma, com Estatuto Político-Administrativo próprio, com uma Assembleia Legislativa própria, com  um governo próprio e um Orçamento próprio?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

NÃO DEIXAR ALUNOS PARA TRÁS?


Não deixar ninguém – mas ninguém mesmo – para trás é agora, como há 17 anos, um objetivo desafiante e que precisa de visão e apoios para se poder cumprir.



Em 2001 foi aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos uma lei designada por “No Child Left Behind” que se poderia traduzir em português por: “Não deixar nenhum aluno para trás.” Não cabe aqui evocar as muitas avaliações que foram feitas desta lei, mas sobretudo evocar o seu propósito maior de organizar o sistema educativo de forma a que pudesse servir – e bem – a qualquer e a todos os alunos. Basicamente, este programa procurou identificar um conjunto de conhecimentos e competências básicas que todos os alunos deveriam desenvolver ainda que eventualmente em graus diferentes.
Este propósito de organizar o sistema educativo de forma a servir todos e cada um dos alunos continua a ser – passados que são 17 anos da publicação desta lei – um objetivo ambicioso e um “estaleiro de obras”. Entende-se bem porquê: existem muitos alunos que não conseguem ter sucesso na escola e, por este motivo, reprovam ou abandonam precocemente a escola e a hipótese de a terminar com sucesso. Tem sido repetidamente demonstrado que a escola serve melhor uns alunos do que outros e não se encontra preparada para servir todos, para conduzir todos, sem que muitos sejam deixados para trás. Por este motivo, continua a ser muito radical e ambiciosa a meta que noutro contexto até poderia parecer óbvia e evidente: uma escola deve ensinar e educar todas as crianças que a ela recorrem. Ninguém ignora – professores, pais, comunidades, políticos – que o desenvolvimento da escola a afastou e afasta muito deste objetivo de educar todos os alunos. A forma unificada de transmissão de conteúdos resulta em benefícios para os alunos que aprendem da forma como a escola ensina e em prejuízo dos que precisariam de outras estratégias e metodologias para aprender. Por outro lado, a complexidade e a extensão dos programas leva a que muitos alunos não sejam capazes de acompanhar o galope implacável da cadência dos programas. E, se algum leitor tiver dúvidas sobre isto, passe algum tempo a ler os manuais que são feitos para os alunos do ensino básico e depois pense como é que uma criança de dez ou 13 anos pode entender e responder ao que é pedido.
Perante esta dificuldade da escola para ensinar programas complexos a populações muito diversas, procurou-se instituir nas escolas um sistema de apoio pedagógico. Este apoio procuraria compensar, recuperar os alunos que só por ação das aulas regulares não seriam capazes de atingir a fasquia – lá em cima – que o sistema instituiu; seria, assim, a forma de diminuir o fosso entre o desempenho dos alunos com mais dificuldades e os ambiciosos objetivos dos programas. Muitas expectativas se geraram sobre estes apoios: seriam eles certamente que poderiam fazer com que “nenhum aluno fosse deixado para trás”. Mas o certo é que estes apoios, se quiserem ser efetivamente úteis, têm de ser concebidos e organizados de forma bem diferente do que são feitos agora. Sinteticamente esta diferença poder-se-ia conceber em três pontos:
Em primeiro lugar, um apoio não deve ser uma pura extensão das aulas regulares. O apoio não é para voltar a dizer e a fazer exatamente o mesmo que se pede na aula regular. O apoio, pelo contrário, tem de explorar a sua potencialidade de personalizar a aprendizagem e identificar formas de aprender que devem que ser respondidas com diferentes estratégias de ensino. Conceber um apoio como “mais do mesmo” só serve, em muitas situações, para aumentar o tédio e a desmotivação para aprender. Depois, é importante que o apoio não seja um recurso que é acionado sem que tenham sido exploradas outras formas de o aluno aprender e estar incluído no ambiente de aprendizagem comum a todos os colegas. A primeira frente para combater o insucesso é a própria aula: o seu interesse, a motivação que implica, as estratégias que usa, os diferentes níveis de participação que implica, as diversas formas de trabalho que podem confluir para a aprendizagem de todos os alunos. Remeter alunos para o apoio sem esgotar todas as possibilidades que são exequíveis na sala de aula não contribui, por certo, para que todos os alunos possam aprender. Uma última questão sobre o apoio prende-se com o facto de todos os alunos precisarem de apoio. Muitos alunos usufruem de um apoio “invisível” (pais, centros de estudos, explicações) e outros têm um apoio “visível”, aquele que está no horário e é proporcionado pela escola. Todos os alunos podem precisar em algum momento da sua vida académica de apoios e isso é parte integrante do seu percurso.
Construir uma escola em que nenhum aluno seja deixado para trás é uma questão de Direitos Humanos. Ninguém ignora as dificuldades que se enfrentam para cumprir este desiderato: as escolas confrontam-se com dificuldades que muitas vezes – e no melhor da sua vontade e competência – não conseguem resolver. Por isso é tão importante insistir na relevância das condições de trabalho, na presença de recursos materiais e humanos, na centralidade do trabalho da escola na aprendizagem e na educação de todos os alunos.
Não deixar ninguém – mas ninguém mesmo – para trás é agora, como há 17 anos, um objetivo desafiante e que precisa de visão e apoios para se poder cumprir.

NOTA
Artigo de opinião de David Rodrigues
Público - 4 de Abril de 2018.
O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O SISTEMA EDUCATIVO DEVE LIBERTAR-SE DA CARGA IDEOLÓGICA


Li, no DN-Madeira, edição de ontem: "24 escolas da Região com futuro incerto" (...) "Ensino privado compete com o público: o primeiro tem excedente de alunos e para o segundo não restam estudantes". O trabalho do Diário é fundamental para percebermos os contornos da política educativa regional. A 24 de Novembro de 2017, o mesmo matutino divulgou: "(...) os 25 milhões de euros que o Governo Regional reserva para apoio aos 69 estabelecimentos de ensino não públicos da Região, dominaram a sessão plenária de ontem, na Assembleia Legislativa". O que isto significa, na prática, é a crescente desresponsabilização do sector público nas políticas educativas. Daí que aquelas duas situações acabem por ser compagináveis, isto é, se, por um lado, atravessamos uma fase de saldo natural negativo (embora se assista a uma ligeira recuperação), por outro, o governo investe no sector privado, logo a incerteza quanto ao futuro de muitas escolas públicas.


A solução não está, por exigência Constitucional, no encerramento de escolas públicas e na dispensa de professores, mas no reajustamento da rede e na limitação dos subsídios ao privado. Estes  só devem beneficiar apenas nos casos onde o sector público não consegue dar resposta. Trata-se de um princípio, repito, Constitucional. E se, para alguns, a nossa Lei Fundamental está errada, então atrevam-se a mudá-la! Do meu ponto de vista, com o devido respeito que tenho pelo sector privado, enquanto direito à livre opção das famílias, não pode sobrepôr-se ao que a Lei determina. E não tem fundamento o argumento que, para o Estado, tanto faz onde se realizam as aprendizagens. Porque subsiste o interesse público e até uma lógica de escala. Não sendo assim, os impostos acabam por suportar os encargos derivados de ambos os sectores. Este é um aspecto, porventura o principal, mas existem outros. Por exemplo, não creio, até prova em contrário, que, na Madeira, os financiamentos ao sector privado, sejam desvirtuados nas suas aplicações. Mas, ainda hoje, o Jornal de Notícias, trazia em primeira página: "Colégios, cada gestor chegou a gastar € 824,00 por refeição". Isto a propósito do grupo GPS cujos alegados desvios estão a ser investigados pelo Ministério Público. 
No sistema educativo regional, obviamente, os que desempenham cargos políticos dirão que a rede escolar está bem e recomenda-se. Dirão, também, que no plano curricular, programático e pedagógico não há volta a dar. Dirão, ainda, que os subsídios ao funcionamento da rede privada se justificam, para além dos compromissos em obras de construção e ou manutenção dos estabelecimentos. Para esses, o processo não merece reparos. O que serve de base à argumentação são princípios ideológicos. E aí só as eleições poderão resolver. Mas há quem pense o contrário, que com a Educação em geral e o sistema educativo, em particular, não se deve brincar, até porque é o futuro que está em causa. E andam a brincar, claramente! 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 31 de março de 2018

POR GPS FORAM DIREITINHOS AO POTE


Ponto prévio: obviamente que há gente muito séria enquanto proprietários ou meros administradores/gestores dos estabelecimentos de educação e ensino privados. Não é isso que está em causa. A questão é de princípio. A Constituição da República Portuguesa é muito clara sobre esta matéria: se, por um lado, garante a liberdade de aprender e ensinar (Art. 43º), por outro, no Artigo 73º define que "Todos têm direito à educação e à cultura" e, no Artigo 74º, que o Estado "promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades (...)", e que "Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: a) Assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito; b) Criar um sistema público e desenvolver o sistema geral de educação pré-escolar; c) Garantir a educação permanente e eliminar o analfabetismo; d) Garantir a todos os cidadãos, segundo as suas capacidades, o acesso aos graus mais elevados do ensino, da investigação científica e da criação artística; e) Estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino (...)". O Artigo 75º sublinha que o "Estado reconhece e fiscaliza o ensino particular e cooperativo, nos termos da lei".


Ora, reconhecer é uma coisa, pagar é outra. Ao Estado compete-lhe, apenas, a educação e ensino de natureza pública. O ensino de natureza particular é, neste contexto, alternativo, no quadro da legítima opção das famílias. E sendo assim, só é compreensível a existência de contratos de associação com os estabelecimentos de natureza privada, quando não existe resposta pública em um determinado local. Aí sim, porque ninguém pode ficar excluído do acesso, o Estado tem o dever de contratualizar. Esta é, portanto, a questão de princípio. 
Por aí se evitaria a vergonhosa situação do Grupo GPS que "(...) segundo o MP, os agora arguidos terão alegadamente feito uso indevido de 30 milhões de euros dos mais de 300 milhões pagos pelo Estado no âmbito deste contrato. O dinheiro entregue pelo Estado aos colégios foi ainda usado para pagar férias, carros (65 apreendidos), bilhetes para o mundial de futebol de 2006, jantares, vinhos e até seguros pessoais dos arguidos administradores (...)". Mais: "(...) Os arguidos administradores conseguiram obter do Estado, no âmbito dos contratos de associação (horas fictícias) celebrados com os colégios e nos anos lectivos descritos, a quantia total de 803.519,80 euros", lê-se na acusação. Os arguidos, cinco administradores "estão acusados de crimes como corrupção activa, peculato, falsificação de documentos, burla qualificada e abuso de confiança qualificado".
Há muito que o assunto é conhecido, envolvendo ex-governantes, deputados e outras figuras. O GPS (Gestão de Participações Sociais) foi por GPS direitinho ao pote. Isto revolta, por um lado, pela ausência de honestidade, por outro, quando tanta falta faz o dinheiro à escola pública a braços com crónicas carências financeiras. 
Na Região Autónoma da Madeira, onde essas carências também são evidentes, o governo entrega de bandeja cerca de 26 milhões anuais ao sector privado. Isto significa a crescente desresponsabilização pelo sector público. Pessoalmente, respeito, totalmente, a livre opção das famílias, um direito inalienável, mas não à custa dos impostos de todos os contribuintes. A população goza do direito Constitucional à Educação e esse tem de ser universal, de qualidade e inclusivo. Onde há resposta pública não devem existir contratos de associação. Trata-se de uma questão de princípio, apesar, repito, de não ter dúvidas quanto à existência de pessoas, no sector privado, de comportamento gestionário irrepreensível. 
Fonte: Público.
Ilustração: Google Imagens.  

quarta-feira, 28 de março de 2018

ORGANIIIIIIIZEM-SE! HÁ GATO ESCONDIDO COM O RABO DE FORA


Há dias deixei aqui um texto enquadrando políticas no sector da Educação. Terminei com uma pergunta deixada ao presidente do governo: "será verdade que o seu secretário afastou a equipa que iria trabalhar junto das escolas as questões relacionadas com a política social na educação? E porquê? Não deixa de ser interessante que, hoje, a JSD, dizendo-se preocupada com "a violência e o bullying na escola", veio junto do Grupo Parlamentar do PSD Madeira (Drª Rubina Leal) apresentar uma proposta para que seja equacionado um Plano Regional de Prevenção da Violência no Meio Escolar - Fonte DN-Madeira.


Ora, isto significa uma evidente desarticulação política. Se, por um lado, o secretário, com o apoio do director regional de Educação, eliminou a divisão de politicas sociais de educação, onde me parece lógico que a prevenção fizesse parte das suas atribuições e preocupações, alterando a lei orgânica da Direcção Regional de Educação, refira-se, ainda, a meio do mandato, vem agora a JSD solicitar que seja "implementado através da Secretaria Regional da Educação, em parceria com outras entidades, uma equipa multidisciplinar e na qual se integrem elementos da sociedade civil. Para a JSD, um plano desta índole deve assentar em cinco pilares fundamentais: Protecção, Prevenção, Intervenção precoce, Estratégias e Mecanismos de Resposta e Responsabilização e punição dos agressores". 
Ora, na política o que parece é. Se uma equipa foi afastada e, agora, a JSD solicita a constituição de outra, obviamente que há gato escondido com o rabo de fora.
Independentemente de outras leituras, significa isto uma evidente desarticulação política. Já agora, o que é feito da "Carta da Convivialidade Escolar, iniciativa da Secretaria Regional de Educação (SRE/DRE) que visava proporcionar um ambiente escolar seguro, inclusivo, respeitador e propício às aprendizagens", sobre a qual tanto alarde foi feito? 
Um comentário final: organiiiiiiiiizem-se!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 22 de março de 2018

SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO AUSENTE OU PERDEU A CONFIANÇA POLÍTICA?



Uma  brevíssima nota. Pelas últimas notícias e comportamentos políticos fico com a sensação que o secretário regional da Educação está ausente da Região ou perdeu a confiança política do presidente do governo. Tem sido o Dr. Miguel Albuquerque que tem assumido decisões, irrelevantes para o sistema, é certo, de qualquer forma, a solo, tem sido ele a falar de questões do sector educativo.  Um caso a esclarecer. 


Porém, mais importante que esses tiros esporádicos, já agora, o senhor presidente do governo deveria comunicar aos 6.500 professores da Região qual a posição que irá assumir, relativamente aos encargos com a contagem de todo o tempo de serviço congelado e que foi prometido pelo seu secretário. Também, já agora, se tem conhecimento da trapalhada dos últimos três diplomas remetidos aos sindicatos para elaboração de parecer e que contou com o repúdio do principal sindicato de professores da Madeira (SPM), por tratar-se de matéria absolutamente lesiva dos interesses da classe docente.
Só mais uma pergunta: será verdade que o seu secretário afastou a equipa que iria trabalhar junto das escolas as questões relacionadas com a política social na educação? E porquê?
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 20 de março de 2018

A INVERSÃO DE PRIORIDADES



FACTO

Li: "O governo madeirense fez uma parceria com uma empresa que se dedica ao desenvolvimento de kits e programas educativos, nas áreas das artes e tecnologias. O executivo de Miguel Albuquerque quer ver os novos conhecimentos a chegar a mais 4 mil alunos nas escolas e nos centros sociais, através das atividades extracurriculares". Fonte - RTP-Madeira/Política.

COMENTÁRIO

O Senhor Presidente do Governo e o seu secretário da Educação não acertam na política educativa. Eu percebo o interesse pela iniciativa privada, demonstrada no caudal financeiro anual para a rede de escolas privadas (directamente, cerca de 26 milhões de euros ano) quando o sector público constitui a prioridade CONSTITUCIONAL e dever dos governos, e o privado, um direito à livre e legítima opção das famílias. O financiamento dos dois, em simultâneo, quando não existe falha na oferta, é que está completamente errado. É, por isso que, ainda há dias, um professor de uma escola pública me dizia que não tinham dinheiro para nada e que até o "papel higiénico era racionado". Quando falha para isso, imagino as necessidades relativamente ao processo pedagógico! Ora, no que aqueles dois governantes deveriam concentrar as suas atenções, não é no apoio a uma empresa de "kits e programas educativos, nas áreas das artes e tecnologias", mas sim na reorganização do Sistema Educativo, onde tais conteúdos, obviamente, têm lugar com os professores que fazem parte do corpo docente. Portanto, esta iniciativa, para além de constituir uma certa ou total desconsideração pela classe docente, equivale a um penso rápido em uma ferida profunda. Espero, ainda, que o presidente do governo saiba, enquanto adulto, quantas horas efectivas trabalha por semana e qual o horário, também semanal, das crianças e adolescentes, entre o cumprimento do currículo, actividades escolares, estudo e outras (muitas) fora do ambiente escolar. Pergunto, se será de bom senso sobrecarregá-las com mais uma actividade extracurricular?
Finalmente, quanto custa esta "brincadeira"?
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 19 de março de 2018

BERTRAND RUSSELL (1872/1970) IDENTIFICOU O PROBLEMA



"São eles quem mais intimamente conhece as necessidades dos jovens. São eles que, por intermédio de um contacto diário, mais acabam por cuidar dos jovens. Mas não são eles que decidem o que deve ser ensinado ou quais os métodos de ensino a adoptar. Nesse sentido a profissão de professor deveria ter muito maior liberdade. Deveria haver mais oportunidade de autodeterminação, mais independência, face à interferência dos burocratas e fanáticos. (...) Como o artista, o filósofo e o homem de letras, o professor só pode realizar o seu trabalho, adequadamente, se se sentir um indivíduo dirigido por um impulso criador interno e se não estiver dominado e acorrentado por uma autoridade exterior"

In As Funções de um Professor - 1950

quinta-feira, 15 de março de 2018

ESTUDAR COM TABLETS AUMENTA O SUCESSO ESCOLAR


"Vá meninos, peguem no telemóvel que eu quero começar a aula", escreveu Alexandre Henriques, no blogue "comregras". Naquela frase, embora compreenda, só o pormenor "aula" é que me parece estar a mais. Pelo menos na formação básica. O conceito de "aula" traz consigo um posicionamento, já por outros caracterizado, como o de autocarro! Professor à frente na condução e alunos/passageiros nos bancos de trás. Hoje, esta imagem já não se coaduna com os novos formatos de aprendizagem. De resto, aquela frase é tiro no alvo. Peguem no telemóvel, no tablet ou em qualquer outra tecnologia e vamos a isto... vamos aprender. E aqui, o professor, torna-se, inevitavelmente, um moderador, um incentivador, um jogador, um provocador que desperta interesse em uma sala, saliento, sem a disposição convencional do "autocarro". 


Escreve o articulista: "(...) é apenas uma questão de tempo, mas acredito que esta expressão será um dia realidade na maioria das escolas. A escola como a conhecemos está a mudar e mais depressa do que nos apercebemos. Qualquer escola, qualquer professor, que mantenha a aposta no modelo tradicional vai simplesmente ficar para trás. Existe uma nova religião, a religião tecnológica e esta tem muitos, muitos crentes, dependentes e até fanáticos. A escola apesar de laica terá de aprender a conviver com ela, aceitá-la e acima de tudo orientá-la. Mas temos um problema! Os adultos que habitam nas escolas… A incapacidade que temos de acompanhar estes novos ritmos e os seus benefícios, fruto da nossa natural ignorância, é limitadora da sua implementação. Não é fácil entrar numa sala de aula em que o aluno se torna professor e o professor se torna aluno (...)".
Nada de novo, apenas a constatação da realidade. Há muito que tantos defendem essa mudança de paradigma. Não há volta a dar. O processo está irreversivelmente em marcha. O Diário de Notícias de Lisboa, na edição de ontem, puxou para primeira página: "Estudar com tablets aumenta o sucesso escolar". E adianta: "97,4% dos alunos que participaram nos dois anos do projeto Tablets no Ensino e na Aprendizagem, da Fundação Calouste Gulbenkian, passaram de ano. Uma experiência em duas turmas de uma escola secundária de Lisboa. "(...) O A., que era uma pessoa que não se interessava nada e, no final, melhorou imenso, fazia tudo e aplicou-se e motivou-se… Este aluno, neste projecto, encaixa muito bem. Eu dei-lhe 5, ele mudou imenso. Mudou da noite para o dia." (...) "Os professores tiveram a percepção de que a abordagem TEA desenvolveu competências do século XXI nos alunos, nomeadamente a aprendizagem independente, pensamento crítico, resolução de problemas do mundo real e reflexão; comunicação e colaboração; criatividade; e literacia digital." Os professores salientaram que os papéis dos alunos na sala de aula mudaram: "Tornaram-se avaliadores e tutores dos seus pares, formadores de professores, codesigners da sua aprendizagem." Explicam também que a participação nas atividades em sala de aula com uso de tablets tiveram um impacto positivo na motivação dos alunos. "O professor universitário José Luís Ramos, um dos autores do livro A Sala de Aula Gulbenkian: Entender o Presente, Preparar o Futuro, sublinhou que tinha notado uma "maior motivação e uma atitude mais positiva para com a escola e a aprendizagem" entre a maioria dos alunos. Regra geral, diz, os alunos que mais utilizaram os tablets foram também os que mais aprenderam".  
Concluo: o problema está naqueles que têm responsabilidades de governo. A Região da Madeira, por exemplo, há muito o digo, poderia estar na dianteira dos processos de aprendizagem. E não está. Fico pasmado, ou talvez não, ao ver políticos que olham para isto como "boi a olhar para um palácio". Isto é, sem apreço e sem manifestar importância. Simplesmente porque não basta dotar as escolas com computadores, muitas vezes para reproduzirem o manual, mais importante é (re)organizá-la em todos os aspectos, de tal forma que, no quadro da sua autonomia, ela possa gerar caminhos organizacionais e pedagógicos distintivos na forma de aprender. Porém, o que a secretaria regional da Educação faz é, exactamente, o seu contrário. Fico a olhar para os comportamentos diários, para os discursos de circunstância e para toda aquela meritocracia balofa e fico com este sentimento: "nada de modernices". Os dias passam-se sem uma palavra portadora de futuro, remetidos às tarefas burocráticas dos gabinetes que tresandam a mofo no que aos conceitos diz respeito. Tenho pena, pelas crianças, pelos jovens e pelos professores. 
Em poucas palavras: estamos a ficar para trás! Porque não sabem ou porque não querem?
Ilustração: Arquivo próprio.

quarta-feira, 14 de março de 2018

SEJA CURIOSO


"Lembre-se de olhar para as estrelas e não para baixo dos seus pés. Tente entender o que você vê e pergunte a si próprio sobre o que faz o universo existir. Seja curioso. Mesmo que a vida possa parecer difícil há sempre algo que você pode fazer e ter sucesso. É importante que você não desista" 

Morreu, hoje, aos 76 anos, o famoso astrofísico britânico Stephen Hawking.

terça-feira, 13 de março de 2018

SINDICATO DE PROFESSORES - 40 ANOS VIVOS E ACTUANTES


O que daqui resulta, repito, é que o sistema vai mudar em busca de um paradigma integrado. E temos de estar preparados para essa mudança, a todos os níveis, inclusive, na oferta formativa do sindicato. Aquilo que hoje acontece, o debitar, disciplina a disciplina, como se o ensino fosse uma linha de montagem de uma fábrica, ignorando a capacidade que os alunos transportam através de uma informação e vivências acumuladas, fora do ambiente escolar, por via do acesso aos mais variados meios, está a colocar em causa o formato enciclopédico a que, religiosamente, nos submetemos ao longo de dezenas de anos. O próprio espartilho da avaliação de desempenho que encosta os professores à parede da submissão, inexoravelmente, será mudado. E nós, SPM, temos de estar atentos e na dianteira deste processo.

Intervenção da minha responsabilidade na cerimónia comemorativa dos 40 anos do Sindicato de Professores da Madeira.

Caríssimo Coordenador do SPM 
Caríssimos membros da Direcção 
Caríssimos membros da Comissão Organizadora dos 40 Anos 
Caros Colegas 
Minhas Senhoras e Meus Senhores 

Quarenta anos. 
Não venho aqui falar nem do passado nem de sindicalismo. 
Sobre esse tempo apenas algumas sentidas palavras. 
Todos conhecem as traves-mestras da luta sindical ao longo de todo esse tempo. E conhecem, também, as figuras de proa que por aqui passaram. Muitos aqui estão. Colegas que, pelos outros, muito sacrificaram as suas vidas pessoais. Colegas que, vendo longe, bastas vezes foram incompreendidos, gerando-lhes sentimentos de alguma mágoa. Colegas que fizeram opções, sabendo que as conquistas eram milimétricas em função dos quilómetros a desbravar pelos direitos de todos e no sentido da dignificação da classe docente. Curvo-me e curvemo-nos perante essas mulheres e homens de mão-cheia que abriram portas e raramente encontraram terrenos fofos para cavar, antes feitos com a pedra da incompreensão. Paulatinamente, conseguiram, transcendendo, até, a mera defesa dos interesses corporativos. A defesa da escola pública com tudo o que daí resulta, a montante e a jusante, constitui uma marca, eu diria, inigualável no plano do sindicalismo. O capital de credibilidade e de notoriedade social constitui, hoje, um património que toda a classe docente se deve orgulhar. Porque, entre batalhas perdidas e ganhas, entre momentos internos serenos, face a outros de alguma ou muita tensão, o saldo é claramente positivo. 
Por todos fica, portanto, uma gratidão sem fim. Inclusive, aos colaboradores do SPM parte importante deste processo. 
Mas esse foi um tempo que passou. Tratou-se de uma fase de um processo. E porque se trata de um processo não deve parar. Esse alargado grupo de bravos professores fizeram o alicerce sobre o qual temos o dever de edificar os pilares do futuro. A herança deixada pelos que antecederam nesta casa, permite ter esperança, embora esta esperança necessite de ser alimentada, sempre, de forma “viva e actuante”. Tenhamos isto presente. 
O que implica dois desafios centrais: 1º “não esmorecer” face a tantos dossiês que estão por resolver, alguns de longa data, outros cíclicos e que atentam contra as expectativas, contra o direito inalienável da dignidade e respeito pela função que exercemos. Tenhamos presente o permanente jogo de toca e foge dos sucessivos governos. Irradiam simpatia, podem até prometer soluções adequadas, racionais e de bom senso, mas, depois o verbo eternizar é conjugado em todos os tempos e modos. “Não esmorecer” deve constituir-se como expressão que dê sentido à luta, no sector público, no particular e cooperativo e no superior. “Não esmorecer” na luta, quando se assiste a um crescente desinvestimento no sector público, os indicadores provam-no, desde as muitas inexplicáveis e unilaterais fusões de escolas, sem audição prévia e de consequências devastadoras, até à indisfarçável situação de carência financeira dos estabelecimentos de educação e ensino públicos. “Não esmorecer” quando a economia e o elitismo estão a tomar conta da política. “Não esmorecer” quando somos vergastados nos direitos salariais e na progressão na carreira, querendo agora, uns, oferecer umas migalhas compensatórias, outros que falam mas não encontraram tempo para assumir, preto no branco, o agendamento dos compromissos. “Não esmorecer” perante diplomas sobre concursos, vagas e outros que constituem não só um retrocesso, mas também uma ofensa a todos os que, há anos, fazem da docência a sua profissão. “Não esmorecer” perante o medo, hábil e subtilmente integrado no sistema, de natureza vertical e a todos os níveis, por vezes com manchas de perseguição, castrador das mais elementares regras de vivência e convivência democráticas e absolutamente desmotivador para quem escolheu ser docente. Há, caros colegas, uma luta a fazer para que não se assista à morte da autonomia das escolas, para que ela não se torne apenas de papel, já é, pior, ainda, à própria morte da autonomia dos professores. Nós não precisamos de elogios e de salamaleques, precisamos de acções concretas. 
Segundo: Temos de adoptar uma outra expressão que dê sentido à missão do Professor: há que dar “sentido prospectivo” ao nosso trabalho. A par do estrictamente sindical, a nossa “Carta Ética” abre portas a uma discussão séria sobre o sistema educativo regional. O sistema com o qual nos confrontamos tem como referência o passado, tem duzentos anos, incapaz de olhar para o presente e para o futuro, trazendo os traços desse futuro aos dias que estamos a viver. Os professores estão, hoje, embrulhados em um sistema centralizado, errado e penoso para eles e para os alunos. E ambos, professores e alunos, têm o direito de serem felizes no que fazem. Desbravar, tal como os de ontem fizeram, obviamente, trará inevitáveis consequências na nossa própria actividade sindical. É uma questão de tempo. 
Há dias li, a propósito, um texto brilhante e de grande exigência no sentido da sua decodificação inter-textual. Hoje, sabe-se, sublinha o texto, que “a actividade cerebral de um aluno, onde o aluno é apenas um receptor de informação, é semelhante ao que vê televisão (…) porque a fórmula é sempre a mesma: os professores no controlo e os estudantes não são pró-activos. Esta fórmula deve mudar, tendencialmente irá mudar, porque estudantes e professores devem aprender juntos e desenvolver os mesmos interesses (…). Reparem, doravante, o professor deve ensinar o que ele não conhece. É aí que a inovação começa”. Curiosamente, porque este não é tema novo, li, no início dos anos 70, um livro do Filósofo francês Georges Gusdorf. A páginas tantas fui confrontado: “O mais alto ensinamento do mestre não está no que diz, mas no que não diz”. Decorreram quase 50 anos, mas isto continua a fazer toda a diferença. Como faz a diferença, um professor visionário que tive, por essa altura, nos ter dito: como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O desencontro é inevitável. Não me canso de trazer em memória activa este posicionamento que acabou por orientar a minha vida profissional. 
Uma coisa é certa, colegas, como estão, “as escolas tornam-se, para inúmeras crianças e adolescentes, verdadeiras catedrais do tédio”, síntese com a qual me revejo, de Ilídia Cabral, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa. Ora, isto implica, necessariamente, mudanças de pensamento estrutural, não apenas no plano organizacional do sistema, no plano curricular e programático, mas, fundamentalmente, no processo pedagógico. Porque, hoje, muitos se queixam, cito o Professor Joaquim Azevedo: "(...) a escola mudou pouco, os adolescentes mudaram muito", pelo que "a indisciplina cresce, cresce, cresce", cada vez mais. Saberão os governantes as razões mais substantivas, quer a montante, nas famílias, quer a jusante, na escola? 
O que daqui resulta, repito, é que o sistema vai mudar em busca de um paradigma integrado. E temos de estar preparados para essa mudança, a todos os níveis, inclusive, na oferta formativa do sindicato. Aquilo que hoje acontece, o debitar, disciplina a disciplina, como se o ensino fosse uma linha de montagem de uma fábrica, ignorando a capacidade que os alunos transportam através de uma informação e vivências acumuladas, fora do ambiente escolar, por via do acesso aos mais variados meios, está a colocar em causa o formato enciclopédico a que, religiosamente, nos submetemos ao longo de dezenas de anos. O próprio espartilho da avaliação de desempenho que encosta os professores à parede da submissão, inexoravelmente, será mudado. E nós, SPM, temos de estar atentos e na dianteira deste processo. 
Corolário disto, já não é, apenas, a Síndrome de Burnout que a muitos invade, esse estado depressivo, o esgotamento físico e mental intenso que marca a vida de muitos docentes. A caminho vem uma sintomatologia associada, tendencialmente mais complexa, por inadaptação. No tempo que estamos a viver, sublinho, em aceleração constante, vão associar-se, de forma agravada, outras variáveis, face às quais, a maioria dos professores não me parece que esteja preparada. 
Cruzo-me com colegas que se dizem exaustos, cansados da vivência da escola, que sentem a necessidade da tal mudança, porém, invariavelmente, perguntam-me: mas como fazê-la? Começa aí a pescadinha de rabo na boca! Um círculo vicioso preocupante e doentio. Se, por um lado, há uma tomada de consciência que o caminho deverá ser distintivo, por outro, não sabem que rumo operacionalizar. Confrontam-se com o sistema político, com as regras impostas, com os normativos, com a arrepiante burocracia, com a rotina e com o natural sofrimento interior de quem sabe que este já não é chão que produza felicidade, para uns e para outros. O problema é que o prazer da curiosidade, o prazer de fazer pensar está a ceder ao sofrimento. Enalteceu o Professor Alexandre Quintanilha, cito: “Eu vivo porque sou curioso”. Ora, não se desenvolve a curiosidade e, já agora, o pensamento, com os conceitos de aula e de turma que já não fazem sentido, nos tempos que correm, tampouco com o toca-entra-toca-sai! 
Tenhamos consciência que, hoje, estamos a ensinar para empregos que tendencialmente não existirão ou serão diferentes. Estamos a ensinar de forma segmentada quando a vida é um todo de respostas exigentes, complexas e adaptáveis. Estamos a ensinar individualmente, para depois, nas profissões, exigirem trabalho em grupo. Não bate certo. 
E assim regresso ao segundo ponto, à necessidade de termos de adoptar a tal expressão que dê sentido à missão do Professor: embora se faça tarde, há que dar “sentido prospectivo”. Trazer o futuro ao presente. Esse sentido está lá, subtilmente, repito, na “Carta Ética”, quer na relação com os alunos, quer na relação com os pares de profissão quer, ainda, na relação com outros membros da comunidade educativa, com os pais e com a comunidade externa. 
São estes dois pontos, por um lado, “não esmorecer”, por outro, ter “sentido prospectivo”, os pontos que devem animar o próximo futuro. Estes quarenta anos constituíram o alicerce. Tenhamos, agora, a coragem e o discernimento de edificar os pilares onde assentará uma espécie de laje para a construção do futuro e tenhamos o bom senso de nos prepararmos para os novos desafios e lutas no plano sindical que as mudanças trarão no seu bojo e que serão cada vez mais complexas. 
A terminar, deixo-vos com um parágrafo que li em um texto do Professor Emanuel Oliveira Medeiros que alimenta a esperança: "(…) Temos de despertar e acordar para a nossa vocação ontológica de "ser mais". É tempo de ser, para respirar, existir e coexistir. É tempo de questionar. É urgente renovar a Escola: o currículo e as práticas pedagógicas têm de ser espaços e tempos para cultivar valores maiores que contribuam para a afirmação da Verdade, da Justiça, do Bem, do Belo, da Solidariedade, da Fraternidade (entre tantos outros), fazendo regenerar a saúde nessa sociedade doente e corroída pelo individualismo ganancioso, pela mentira, pela inveja, pela maldade, onde se multiplicam tantas formas de pobreza e exclusão (...)" 
Obrigado pela vossa atenção. 
Viva o SPM.

sábado, 10 de março de 2018

QUO VADIS EDUCAÇÃO: "EXAMES NACIONAIS, MÉDIAS, RESULTADOS E RANKING'S: EIS OS NOVOS COMANDOS DO ENSINO"


A declaração é do Professor Diamantino Santos, presidente do Clube de Ecologia Barbusano. Um clube que, lamentavelmente, definha. Dá que pensar o excelente trabalho apresentado, na edição de hoje do DN-Madeira, pelo jornalista Ricardo Duarte Freitas. Leio: a culpa é do modelo do sistema de ensino que não permite contextualizar o conhecimento. Diz o professor: "além de dar a conhecer os sítios, o objectivo das saídas de campo é olhar, reflectir, analisar e interpretar os sinais da paisagem, fisicamente e na forma como tem evoluído, juntamente com os cursos de água, as formas de relevo e a intervenção humana no espaço (...) na última saída, entre o Santo da Serra e a Ribeirinha (Camacha), que contou com cerca de 60 participantes, nós encontrámos eiras velhas, cerca de 10 a 11 casas abandonadas e colonizadas pelo silvado. Isto corresponde ao abandono do mundo rural, à saída dos jovens, à fraca acessibilidade dos locais" (...) É um pouco como ler a paisagem, encontrar lixo e ver os impactos negativos, as águas que deviam estar canalizadas e não estão, percursos que não estão cuidados, levadas entupidas".

Fico perplexo como é que, nos dias de hoje, se secundariza tamanha vivência de aprendizagem. Pois, percebo: "as actividades do clube não entram no ranking" (...) "As saídas são parte integrante da formação, da cidadania, mas não saem no exame de físico-química”, ironiza o professor. Nem mais.
Leio e exclamo: oh escola quanto errada estás! Hoje, os clubes, como o Barbusano, estão assim, "tipo satélite em órbita. À espera que alguém tenha tempo de retomá-los".
Continuo a ler: o foco do ensino está centrado na sobrecarga horária e no próprio edifício da escola. "É tudo muito teórico, tudo para exame" (...) "Antigamente a dinâmica era diferente, havia mais participação dos alunos. Era mais fácil a participação deles. Desde que começaram os exames nacionais o foco dos alunos é diferente. É trabalhar para as notas”, salienta o Professor Agustin Freitas. “Falo pelo que vejo nos meus alunos: as saídas de campo são sempre aos sábados e eles chegam a sexta-feira já esgotados. Eu também estou esgotado. E é claro que a motivação é outra”, acrescenta.
Nota final: "O clube de ecologia é auto-suficiente. Vive das quotas dos cerca de 60 sócios pagantes que se destinam inteiramente às actividades. Não recebe qualquer comparticipação financeira do governo, do município ou da escola". Voltei atrás e reli partes do trabalho e exclamei: que raio de sistema que se interessa tanto pela "bandeira verde" aqui e ali, como acto de propaganda política, mas que, qual paradoxo, directa ou indirectamente, bloqueia a contextualização do conhecimento. Tudo teórico... tudo manual... tudo exames, mesmo que seja para esquecer. Que pobreza!
Professor Diamantino Santos e todos os outros, não deixem que o Barbusano morra. Têm a palavra o secretário da Educação e a secretária do Ambiente e dos Recursos Naturais. Entendam-se.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 7 de março de 2018

FUMO NEGRO?


Não é preciso relembrar o calendário que nos trouxe até aqui no que respeita a dispor de um novo diploma que organize as respostas que são necessárias para que a escola possa acolher todos os alunos e em particular aqueles que têm condições de dificuldades. É um processo que se inicia com a consulta pública de 4 de julho de 2017 e que prossegue ainda hoje, dia 5 de março de 2018. 


A publicação de uma nova lei suscitou fundadas expectativas. Estas expectativas prendem-se com dois aspetos: antes de mais o processo de auscultação e de discussão pública que permitisse um maior alargamento da base de decisão e influência sobre esta lei; por outro lado, esperava-se que esta lei permitisse um avanço mais decisivo na construção de uma “escola para todos e para cada um” assinalando um maior esforço – talvez uma nova etapa – no aprofundamento do percurso inclusivo das escolas. 
O texto que foi dado a conhecer para discussão pública, cumpriu, na minha perspetiva, estes dois desideratos e no seguimento das numerosas sugestões que foram feitas para a sua melhoria, criou fundadas esperanças que iria influenciar a curto prazo a organização inclusiva das escolas. Sabemos que nem tudo se resolverá com uma nova lei, mas, o certo é que estas expectativas têm um papel determinante na motivação, no compromisso de virar uma nova página e inspirar novas formas de atuação. Desvalorizar este efeito sobre as comunidades educativas seria um erro. 
O certo é que não temos ainda lei publicada. E está a fazer falta. Criou-se a expectativa e agora começa a crescer um certo desapontamento. Por todo o país as ações de formação e de informação que se solicitam é sobre “a nova lei”. Tanta e tão grande expectativa rompe a ideia de continuidade de um documento que digeriu as propostas que foram feitas e que naturalmente lhes deu resposta. Aquilo que sido apresentado como sequencial: publicação da lei, seguida de ações de formação sobre a implementação e clarificação das alterações que ela implicava, acabou por ser não sequencial. Temos agora a decorrer estas ações de formação sem que a lei tenha sido publicada. 
A Pró–Inclusão está preocupada com este atraso e com este descompasso e na mesma lógica colaborativa que temos tido com a Tutela, apelamos uma vez mais para que todo este processo seja clarificado, que seja feita uma informação sobre o que se está a passar e o que se planeia para que os professores sejam tratados - até ao fim deste processo – como parceiros válidos, conscientes, construtivos e conhecedores. Aqui fica o apelo. 
David Rodrigues

sábado, 3 de março de 2018

O SISTEMA EDUCATIVO REGIONAL SOFRE DA POLÍTICA DO INTERRUPTOR


Ainda bem que o assunto "processo de inquérito" ou "processo disciplinar" (desconheço a fase e pouco isso me rala) continua a mexer. Pela minha banda a procissão "Curral das Freiras" ainda nem ao adro saiu. O que significa dizer que continuarei a combater a centralização e todas as ameaças, subtis ou descaradas, contra os professores, desde que se me afigurem injustas. Continuarei a defender, por extensão, um sistema educativo enquadrado com as exigentes respostas dos tempos que estamos a viver. Daí que, por uma questão de princípio, sustento que a Educação deve ser POLITIZADA, mas nunca PARTIDARIZADA. E pelo andar da carruagem, está! Existe muita falinha mansa, muita conquista política das pessoas com palavras envoltas em mel, "nomeações políticas" a carecerem pormenorizada explicação (vide edição de hoje do DN-Madeira) porém, o sistema, velho e gasto, tresanda e deixa rabinhos de fora à mercê de quem deseje analisar.


Há, indiscutivelmente, uma perseguição política ao Professor Joaquim José de Sousa da Escola 1,2,3 do Curral das Freiras. Na minha página de Facebook, a propósito de um texto que publiquei, quatro pessoas deixaram os seguintes comentários:

Flavio Sousa O Joaquim José Sousa é uma personalidade pública brilhante e incómoda, não acredito que as acusações sejam verdadeiras. Só um psicopata ou um mentecapto poderia falsear rankings, favorecer professores amigos na distribuição de horários ou inscrever alunos em cefs sem o seu conhecimento e depois culpar os professores.
Mony Trindade Grande pessoa! Grande ser humano! Excelente diretor! Se algum dia me senti verdadeiramente útil, acarinhada e valorizada foi sob a sua chefia na escola do Curral da qual guardo excelentes recordações e estará eternamente no meu coração!
Orlanda Santos Muito Bom o post. Política suja! Deixem o homem trabalhar e com bons resultados! Parabéns a este professor pelo seu trabalho de ajudar a formar alunos com bons resultados!
Daniela Silva Enquanto uns tentam manchar a imagem da escola e do próprio director, ele está lá na escola a trabalhar e a nos incentivar a sermos cada vez melhores! Sem dúvida uma grande pessoa e um grande exemplo a seguir.

Comentários livres e espontâneos. Para o secretário da Educação e os que o rodeiam tais comentários não são preocupantes, certamente. A norma é mais importante que o desejo de fazer diferente e melhor. A circular é muito mais relevante que qualquer dinâmica do e para o aluno. O preceito é muitíssimo mais importante do que desenvolver o pensamento e a criatividade. O modelo, tipo pronto-a-vestir, tamanho único, deve sobrepôr-se a qualquer tentativa de inovação. O padrão, do Porto Santo à Ponta do Pargo é para ser aplicado sem questionamento. É a política do interruptor: alguém liga e todos cumprem. Tudo o resto é pura fantasia.
Aliás, nesta Legislatura, a caminho de três anos de governo AUTÓNOMO, quando existe tanto, mas tanto texto e posições sobre a construção do futuro, talvez a ignorância seja minha, não consigo descobrir uma linha de pensamento (só uma) sobre o futuro. Apenas rotina, burocracia, visitas de circunstância, muita pose e "ponto e vírgula", dando aso a que se pense que quem manda nisto somos nós! Ora bem, será que ninguém consegue ver o erro estratégico? Será que, nesta grande parada, quem está com o passo trocado são todos quantos se opõem, desde a OCDE, aos investigadores e autores?
Por favor, não partidarizem isto, porque isto é o nosso futuro colectivo. Percebam uma coisa: pode-se apresentar 100% de "sucesso" nesta ou naquela escola, atenção, no quadro deste sistema educativo, porém, o problema não reside aí, ele está em um sistema estruturalmente desadequado. Logo, os tais 100%  podem corresponder a 100% de insistência no erro. Quando outro é o processo e os resultados satisfatórios, aí sim, podemos, então, falar de sucesso.  
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 2 de março de 2018

A ESCOLA MATA A CRIATIVIDADE


Este vídeo foi publicado há três anos. Continua actual. Julgo, até que já o partilhei no meu blogue "comqueentao". Voltei a visioná-lo a propósito de alguns comentários que recebi, relativamente a um texto a que dei o título: "O sistema educativo actual falhou porque matou a criatividade". Da minha parte não tenho a menor dúvida: matou e continua a matar. A escola que temos não apenas mata a criatividade, como mata a curiosidade. Sir Ken Robinson, é um autor, palestrante e consultor internacional em Educação. Tal como outros insiste na necessidade de romper com o passado. 

 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O AGRAVAMENTO DA SÍNDROME DE BURNOUT


Estou a lembrar-me, entre muitos outros, do Professor Sérgio Niza, de quem ando a reler uma colectânea de documentos, docente que desde há 50 anos luta por uma mudança nas características do ensino-aprendizagem que enformam o Sistema  Educativo Nacional. Tenho presente os textos do Professor António Nóvoa e a luta de um outro, o Professor José Pacheco, por uma escola que rompa com o formato criado há duzentos anos que, embora com dezenas de projectos, mantém todas as suas traves-mestras essenciais. Tenho presente investigadores, autores com diversas formações académicas, intervenções, textos em revistas de especialidade e vídeos publicados, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutoramento, sobretudo nas Ciências da Educação que, no essencial, alertam para a absoluta necessidade de mudança de paradigma. Quem governa não aprende? Repito, aqui, sintetizando, o que já por diversas vezes divulguei: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O desencontro é inevitável" - Professor Paula Brito, em uma aula de Psicopedagogia que assisti, em 1970! Tratou-se, aliás, da frase que daí em diante marcou o rumo do meu pensamento. Mais recentemente, ouvi José Pacheco, hoje "refugiado" no Brasil onde é respeitado, dizer uma coisa tão simples quanto esta: "se eu preparava com rigor pedagógico as minhas aulas e os alunos não aprendiam, então não aprendiam porque eu dava aulas". 


Não me quero afastar ao que venho. Os professores vivem, hoje, um drama, por tudo aquilo e onde se juntam as profundas desigualdades sociais: 1. a infernal e paranóica burocracia profissional associada ao processo ensino-aprendizagem; 2. a "indisciplina" de causas e contornos múltiplos. Relembro o Professor Joaquim Azevedo, da Universidade Católica, que foi muito claro sobre o sistema: "(...) a escola mudou pouco, os adolescentes mudaram muito", pelo que "a indisciplina cresce, cresce, cresce", cada vez mais. Saberão os governantes as razões mais substantivas? Uns não sabem e outros fingem não saber, é a minha convicção; 3. os programas que têm de debitar, disciplina a disciplina, ignorando a capacidade que os alunos transportam através de uma informação e vivências acumuladas, fora do ambiente escolar, por via do acesso aos mais variados meios; 4. finalmente, o espartilho da sua própria avaliação de desempenho que os encosta à parede da submissão. Dir-se-á: ou obedeces às imposições da hierarquia, ou estás liquidado! Corolário disto, já não é, apenas, a Síndrome de Burnout que a muitos invade, o estado depressivo, o esgotamento físico e mental intenso que marca a vida de muitos docentes. A caminho vem uma sintomatologia associada, tendencialmente mais complexa. Se a luta de muitos, ao longo de dezenas de anos, por uma mudança paradigmática do sistema, foi lenta, mas teoricamente sustentada e assertiva, baseada no conhecimento e na experiência, porém, distante da recente envolvência tecnológica, no tempo que estamos a viver, sublinho, em aceleração constante, estão a associar-se, de forma agravada, outras variáveis, face às quais, a maioria dos professores não está preparada. Pela idade e pela rotina, qual metáfora, do autocarro: professor conduz e alunos atrás como passageiros. São tempos que exigem paulatinas mudanças em contexto integrado, algumas, até, radicais, na estrutura organizacional e no pensamento pedagógico. Tempos que exigem dizer não ao passado, assumindo, como ainda ontem aqui deixei que "(...) o professor do século XXI deve ensinar o que ele não conhece. É aí que a inovação começa (...)". "Estudantes e professores devem aprender juntos e desenvolver os mesmos interesses".
A consequência previsível do marcar passo será (já é) esta: por um lado, alunos que rejeitam um sistema educativo contrário aos seus interesses e expectativas, porque desajustado da realidade e do conhecimento que transportam com origem diversa, portanto, desmotivador e gerador de perturbação nas relações entre docentes e discentes; por outro, professores, a quem lhes é pedido o cumprimento de programas acompanhados da perniciosa obsessão pelas avaliações, incapazes de agarrar o fio à meada das exigências das novas gerações, nascidas na plenitude da era da informação, da comunicação e dos meios que o desenvolvimento tecnológico colocou à disposição. É um dilema, reconheço, que não se resolve com o palavreado político da robótica, dos diplomas e com prémios meritocráticos! 
Cruzo-me com professores que se dizem exaustos, cansados da vivência da escola, que só aparentemente se dizem felizes com aquilo que fazem, que sentem a necessidade da tal mudança, porém, invariavelmente, perguntam-me: mas como fazê-la? Começa aí a pescadinha de rabo na boca! Um círculo vicioso preocupante e doentio. Se, por um lado, há uma tomada de consciência que o caminho deverá ser distintivo, por outro, não sabem que rumo operacionalizar. Confrontam-se com o sistema político, com as regras impostas, com os normativos, com a rotina e com o natural sofrimento de quem sabe que este já não é chão que produza felicidade, para uns e outros. E seria bom que a secretaria regional da Educação tomasse consciência que estes problemas são estruturais e não se resolvem com projectos localizados, tipo "penso rápido", como o "mindfulness". Há dias, no meio de uma conversa sobre "... o que fazer", exprimi o que aprendi, embora em um outro contexto, com a leitura de Peter Drucker: no futuro só haverá lugar a dois tipos de gestores: "os rápidos e os mortos". Isto é, ou se adaptam ou sobrevirá o sofrimento por inadaptação. Compreendeu a aproximação e ficou-me a olhar. É isso. O "Burnout profissional que pode ser entendido como um estado emocional persistente e permanente que conduz a exaustão física, emocional e psicológica" (Pines & Aronson, 1988), será mais grave porque é impossível manter um sistema em completo desencontro com a vida. Depois queixam-se de haver tanto atestado médico.
Ilustração: Google Imagens.