quarta-feira, 21 de junho de 2017

PUBLICIDADE ENGANOSA QUE ESCONDE OUTRAS REALIDADES


Leio declarações de políticos embevecidos com alguns resultados académicos. O presidente do governo regional e o secretário regional da Educação aproveitaram a iniciativa da Escola Jaime Moniz para falar de mérito escolar e do "investimento" de 348 milhões de euros no sistema educativo. Confesso que este tipo de discurso tem o condão de me deixar triste, não só pela sua face repetitiva como também por aquilo que já alguém referiu: "se a educação é cara, experimentem a ignorância". O peso da Educação no conjunto do orçamento é significativo, de resto em qualquer país, tal como o é o sistema de Saúde. São pilares no campo civilizacional dos direitos humanos, pelo que se torna ridículo andar a repetir amiudadas vezes os respectivos encargos.


Mas ao invés de ver o copo meio cheio, isto é, alguns resultados, poucos, que tapam a floresta dos desencantos, dos professores aos alunos, bom seria que o governo visse o copo meio vazio, isto é, os milhares que abandonam o sistema, os milhares com insucesso, as taxas que colocam a Madeira em lugares desprestigiantes no panorama nacional. Quando se olha, apenas, repito, apenas, para o mérito de uns (todos os sistemas, mesmo os estruturalmente maus, apresentam sempre, qual metáfora, uma ponta do icebergue fora de água que esconde a enorme parte submersa) e não se consegue ver os milhões de euros anuais perdidos no escândalo dos números das retenções, não se me afigura sério. Não disponho de números actualizados, mas há dois ou três anos, foi público que 6.000 repeti(r)am o ano. Ora, se cada aluno custa, anualmente, cerca de € 3.500,00 (para mais e não para menos), significa que vinte e um milhões foram ou são completamente desperdiçados. E são esses que nos devem preocupar, se em conta tivermos o que se sabe ao nível da impreparação profissional, a todos os níveis, que acabam por reflectir consequências gravosas no crescimento e desenvolvimento da Região. Os números da estatística provam-no. Por outro lado, ignoram que existem estudos sobre os efeitos de uma intervenção pedagógica precoce, compaginada com um outro paradigma de organização escolar, curricular e programática. Sabe-se, hoje, o que significa, no futuro, o efeito multiplicador de cada euro investido nas idades mais jovens.
Mas há mais, compaginado com este problema. Em 2008 disse-o na Assembleia Legislativa, perante um coro de protestos vindos do lado da maioria, que a Acção Social Educativa era "manifestamente indecorosa". E justifiquei à luz dos 30% de pobres da Região. Nove anos depois vem o governo, quase como dádiva, sublinhar que as famílias vão pagar menos 7,5% nas mensalidades das creches. Paulo Freire Freire (1921/1997) tinha razão. O texto aqui ao lado diz tudo, isto para não falar do que a Constituição da República assume quanto à gratuitidade do acesso ao sistema educativo. Aos olhos  da pobreza, dos baixos salários, do actual custo de vida, constitui uma ignomínia o governo falar de alívio dos encargos das famílias. Propositadamente, esquecem-se ou fazem-se esquecidos que a JUSTIÇA FISCAL faz-se em sede de IRS. Pagar IRS e, depois, pagar a acessibilidade a um sistema que deveria ser gratuito, é, repito, indecoroso, para além de ser passível de ser interpretado como uma dupla tributação.

Uma peça jornalística, publicada na edição do Dn-Madeira de 06 de Setembro de 2008, sublinhava o seguinte:

"Manifestamente indecorosa". É desta forma que o Grupo Parlamentar do PS define a Portaria da Secretaria Regional da Educação que regula os escalões da Acção Social Educativa. Referindo-se à notícia do DIÁRIO de que metade dos alunos matriculados na RAM beneficia de apoio público para alimentação, transportes e manuais, o PS refere que este número explica a dimensão do fenómeno da pobreza, "e a necessidade de políticas integradas de família que não podem se esgotar num apoio de natureza caritativa". Até porque nestes 47%, que beneficiam de apoio escolar, não estão contemplados os agregados familiares com um rendimento 'per capita' igual ou superior a 261 euros. Valor que, à luz do actual custo de vida das famílias, significa "um evidente estado de pobreza". Com estes indicadores, o PS considera que o governo mostra-se cego à realidade económica e social, preferindo distribuir umas migalhas aos pobres e excluídos. "O governo aposta na obra física, em estádios, naquilo que não é socialmente relevante, e deixa de lado a obra educativa que é a base do futuro da Região", salientam os socialistas. Recordam, a propósito, que sempre que o PS defende o princípio de políticas integradas, tal significa a necessidade de um novo olhar para a estrutura familiar, para o modelo económico vigente, para a segurança no trabalho, para a exigente educação dos valores e respectiva co-responsabilização no projecto educativo de longo prazo, para a legislação regional de combate ao consumo de álcool, para o rigor e disciplina que devem nortear as condutas gerais e específicas, criminalizando o que for de criminalizar.Entendem os socialistas que todos deverão estar em pé de igualdade no tiro de partida para a vida. Neste pressuposto, dizem ser indecoroso o governo apresentar uma tabela de Acção Social Educativa quando sabe que os rendimentos familiares são baixos face ao alto custo de vida, e face ao crescimento do número de desempregados. "Há muita miséria escondida ou disfarçada que condiciona o sucesso escolar. Há, no meio de uma aparente vitalidade e bem-estar que os mais distraídos podem ser levados a percepcionar nos pátios das escolas, muita carência a todos os níveis. O telemóvel e o vestuário que trazem no corpo nada significam em relação ao mundo de carências, afectivas, económicas, sociais e culturais que transportam", salientam os socialistas. E é partindo deste pressuposto que dizem ser necessário que o governo tenha em atenção que as crianças e jovens não têm culpa do seio familiar onde nascem. Por isso "devem estar em pé de igualdade quando partem, neste caso, para o conhecimento, e a escola pública existe para garantir essa igualdade de oportunidades. O PS defende, por isso, que a acção social educativa, mais do que um apoio à família, constitui um apoio directo no enquadramento formativo do jovem. E aqui, sublinham, não deve haver lugar a dúvidas por razões orçamentais. "Exige-se rigor na atribuição dos apoios, bons resultados escolares mas, simultaneamente, a convicção da importância do investimento junto de quem teve a pouca sorte de nascer pobre". O que actualmente acontece é que "o Governo está resignado a ver crianças e jovens a viver da esmola e da caridade". Exemplo disso, diz o PS, são as 73 instituições de solidariedade social espalhadas pela Região e que constituem a prova dos constrangimentos familiares que urge combater. "A continuar assim, com este olhar do governo sem contemplações para a pobreza, a Região caminha no sentido da tragédia: abandono escolar e precoce, insucesso, ausência de qualificação profissional, comportamentos desviantes, crime, enfim, insegurança".

NOTA
Em 2008 eram 47% os apoiados pela Acção Social Educativa. Hoje, diz o governo, que dois em cada três beneficia de tal apoio. Isto pode significar que a pobreza está a se tornar paisagem, com efeitos negativos no sucesso escolar.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

RETENÇÃO: SIM OU NÃO?


“Aprender a Ler e a Escrever em Portugal” é o nome do supracitado estudo, coordenado pela ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, onde é referido também que há 907 escolas do 1ºciclo em que, no ano letivo de 2013-2014, todos os alunos foram bem-sucedidos. A incidência do insucesso é maior nos concelhos do Sul e também nos do interior, aparecendo muitas escolas de Lisboa na lista negra. O estudo aponta para uma grande diversidade de resultados, como os dados aqui apresentados podem deixar antever: de um lado, escolas paradisíacas e, do outro, “as ovelhas negras” que mancham a realidade nacional. Com este estudo por pano de fundo, o Governo define como objetivo tornar o insucesso no 1º ciclo “meramente residual”. E agora? Uma vez que os dados estão lançados, o que fazer com eles? 


Em primeiro lugar, ocorre-me dizer que “nem tudo o que brilha é ouro”. Será que há escolas em que os alunos são todos bem-sucedidos? Ou será que há escolas em que as orientações dadas aos professores vão no sentido de as retenções não existirem? A retenção é conotada negativamente: o estudo, por exemplo, caracteriza as escolas com elevada taxa de retenção como escolas de insucesso. Cada vez mais, as escolas querem ter alunos, ou melhor, bons alunos e, por isso, é fundamental que sejam percecionadas como escolas de sucesso. Como se viu, este atributo anda associado à passagem dos alunos, mesmo que, na verdade, eles não tenham feito as aquisições estipuladas para aquele ano de escolaridade. Cada vez mais o que importa são os números, mesmo que estes resultem de manobras de bastidores e não do sucesso real! Que medidas terão adotado as escolas ditas de sucesso para que os seus alunos sejam todos bem-sucedidos? Será que implementaram medidas promotoras dos tão desejados bons resultados ou será que os alunos que as frequentam integram, na sua maioria, famílias que valorizam a escola e que podem por seus próprios meios recorrer a apoio extraescolar, logo que surgem os primeiros sinais de insucesso? Ou outra hipótese qualquer… 
Uma vez identificadas, o que vai acontecer às escolas em que o insucesso parece ser a palavra de ordem? Serão encandeadas pelo desejo de “sucesso” e adotarão como medida a não implementação da retenção? Serão dotadas de meios e recursos para que, logo no primeiro ano de escolaridade, os alunos com dificuldades possam de imediato ter apoio suplementar na escola? Na verdade, e para quem trabalha nas escolas há muitos, muitos anos, é mais que evidente que o insucesso só se pode tornar verdadeiramente residual se alunos que se mostrem com dificuldades em adquirir competências de leitura e escrita sejam apoiados no momento imediato do seu surgimento. Espera-se que os alunos cheguem ao segundo ano para se lhes dar apoio, porquê? Mais uma vez, e para quem anda imerso no contexto escolar, é mais que lógico que se devem atalhar as dificuldades mais precocemente, logo à sua nascença. 
Ainda a propósito do estudo que tem vindo a ser citado, nele se diz que, para os professores, persiste a ideia de que “sempre existirá um número de crianças que não aprendem ou que aprendem mais lentamente” e que “repetir é uma melhor alternativa do que passar sem saber”. Na verdade, os professores gostariam de ter alternativas à retenção, como solução para o problema dos alunos que não fizeram as aprendizagem necessárias. No exercício das minhas funções de psicóloga escolar, tenho contactado com variadíssimos professores que sentem muita angústia sempre que têm de reter alunos. Reter não é uma solução que os professores do primeiro ciclo usem de ânimo leve. O que acontece é que há crianças que, no final dos dois primeiros anos de escolaridade, não adquiriram o mecanismo de leitura e escrita, e a distância a que se encontram dos outros colegas é imensa. Que fazer com estes alunos? Passá-los, contribuindo que a tal distância se acentue cada vez mais? Ou retê-los, na esperança de que essa distância se atenue e o restante edifício da aprendizagem não fique comprometido? Todos sabemos que a retenção tem muitos efeitos secundários e que deve ser uma medida a aplicar excecionalmente. O ideal seria que outras medidas preventivas fossem aplicadas, para que os professores não precisassem de chegar ao final do 2º ano de escolaridade dos seus alunos e terem de se deparar com o dilema de usar a retenção como potencial “tábua de salvação”, que muito frequentemente até acaba por não o ser!!!!
Fonte: Educare por indicação de Livresco/Blogue Incluso

NOTA
Não me revejo no essencial deste artigo, à excepção da parte que equaciona a intervenção precoce. Deixo a pergunta para reflexão: e se outra fosse a organização do sistema e se outro fosse o enquadramento pedagógico? 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O TEMPO DOS PROFESSORES DEVE SER OCUPADO NO PROCESSO DE ENSINO E NÃO EM BUROCRACIAS


A ESCOLA BUROCRÁTICA

O Conselho Nacional de Educação (CNE) defendeu (...) que para garantir o sucesso escolar dos alunos é necessário “recentrar a missão docente no essencial ou seja, no processo de ensino/aprendizagem”, em vez de se sobrecarregar os docentes, cada vez mais, com outras tarefas que nada têm a ver com aquele que deve ser o exercício da sua profissão. “Torna-se evidente que a condição docente não se compagina com a multiplicidade de tarefas que lhe são presentemente atribuídas, antes exige que beneficie de condições de trabalho e de aperfeiçoamento, permitindo-lhe cumprir melhor a sua missão e adaptar-se de forma contínua às novas situações”.


Entre estas tarefas que atualmente desviam os professores da sua “missão essencial”, figuram “a sobrecarga de reuniões e de múltiplas tarefas de natureza burocrática”, como por exemplo o preenchimento de aplicações instaladas em plataformas eletrónicas, que “poderiam ser desenvolvidas por assistentes técnicos”, destaca o CNE num parecer sobre a condição docente.
Segundo o CNE, recentrar a missão docente no processo de ensino/aprendizagem exigirá também que se defina “com clareza, as funções e as atividades que são de natureza letiva e as que são de outra natureza, substituindo os normativos vigentes sobre esta matéria por um diploma claro, conciso e completo”. "O estatuto dos professores já vai na 15.ª revisão", exemplificou, (...) a conselheira Conceição Ramos, que foi a relatora deste parecer, lembrando que estas mudanças “afectam o que faz o professor”.
O CNE (...) alerta que “nos últimos anos, as condições de trabalho dos docentes nas escolas têm vindo a tornar-se mais difíceis”, o que contribui para que se registem “processos de stress e burnout [exaustão] ”. Para o agravamento das condições de trabalho dos docentes têm pesado a existência de salas de aulas “que não respeitam a norma que limita a dois por turma os alunos com necessidades educativas especiais e o número elevado de turmas, alunos e níveis atribuídos a muitos docentes, designadamente os quem lecionam disciplinas com cargas horárias mínimas”.
Por outro lado, refere o CNE, “não deve ser esquecida a realidade gerada pelos agrupamentos que, amiúde, deu lugar a deslocações de professores entre escolas que, em alguns casos, distam dezenas de quilómetros entre si”. O conselho destaca também a “degradação da vida familiar e social dos alunos, que hoje está muito associada a situações de desemprego e empobrecimento”, que têm contribuído “para gerar um clima de conflitualidade na escola”.
O Conselho Nacional de Educação lembra neste parecer algumas das características do “perfil demográfico” atual do universo dos docentes, nomeadamente o seu “envelhecimento crescente e constante” e o “desequilíbrio quanto ao género em todos os níveis de ensino, sendo o corpo docente maioritariamente feminino”. (...)
Fonte: Público

terça-feira, 13 de junho de 2017

AFERIÇÃO DE QUÊ? AFERIÇÃO A UM PROCESSO QUE ESTÁ ERRADO?


A pergunta é esta: para que servem as provas de aferição de conhecimentos? No quadro do actual sistema, nem contam para o nível a atribuir ao aluno. Se não produzem qualquer efeito na reflexão programática ou no plano pedagógico, então, repito, para que servem? Depois, aferir o quê? Um sistema que está errado e que até o Ministério está a tentar reconverter? Não tem sentido. Portanto, das duas, uma: ou servem para "aferir" o trabalho dos professores ou, então, como fase política transitória que tende a amenizar qualquer contestação de pessoas menos esclarecidas. Não vislumbro outras razões.


Pura perda de tempo. Pior, ainda, submeter os alunos a provas de aferição corresponde à manutenção de um sistema que perverte a verdadeira aprendizagem. O acto repetitivo da pergunta que exige a resposta que se encontra algures no manual, nada acrescenta à aprendizagem. Nunca acrescentou. A aprendizagem tem de ser contextualizada, vivida e cruzada, globalmente, entre as múltiplas áreas do conhecimento. Porque lá virá o tempo da especialização, o qual, obviamente, não é este. Hoje, os aferidos, estão em uma idade de eles próprios questionarem e de procurarem respostas. Não estão no tempo de darem as respostas exigidas pelos adultos. A isso chama-se coarctar o pensamento baseado na dúvida, restringir as crianças a um inconsequente papaguear enciclopédico. O desenvolvimento infantil assenta em um enorme lastro (alicerce) que deve servir de suporte aos pilares do conhecimento superior, quer no âmbito da motricidade quer no do domínio embrionário das ciências.
O que é que as crianças ganham com todo o cerimonial feito de silêncio, de controlo à entrada da sala do "exame" disfarçado, com o cartão de cidadão em punho, de meticuloso preenchimento do cabeçalho da folha de prova, com todo o nervosismo que tal enquadramento suscita, com espaços medidos para que não copiem, com vigilantes junto ao quadro preto com olhos de coruja, com o deslocamento de crianças para outros zonas das infra-estruturas para que o silêncio seja de imaculada pureza, pergunto, para quê? O que é que isto resolve no plano da aprendizagem? E os adultos, governantes e professores, porque por isso passaram, talvez considerem que é deles a hora de fazerem aquilo que em outro tempo não gostaram que lhes tivessem feito. Pura perda de tempo. Para que serviram e para que servem estas aferições?
Ilustração: Google Imagens.  

sexta-feira, 9 de junho de 2017

UM OLHAR SOBRE A EDUCAÇÃO: A ESCOLA DO PRESENTE


Na nova sala de aulas todos ensinam, todos aprendem. As escolas do futuro já estão aí. O professor perde protagonismo, as carteiras não estão alinhadas, os alunos vão juntos à procura do conhecimento. Tablets e smartphones entram nas salas de aulas e aprender não se faz apenas dentro de quatro paredes.



BERNARDO MENDONÇA
ISABEL LEIRIA
EXPRESSO

Se as máquinas estão a roubar o emprego aos homens, então o melhor é parecermo-nos cada vez menos com elas. Em muitas circunstâncias, elas farão o trabalho melhor, mais rápido e com menos custos. Temos de saber dominá-las e usá-las em nosso proveito. Mas é preciso algo mais. Criatividade, pensamento crítico, competências sociais são argumentos cada vez mais valiosos no mundo do trabalho. E, se assim é, que sentido faz as escolas continuarem a ensinar alunos como se fossem máquinas de armazenar e debitar conhecimentos?
Justifica-se continuar a pedir a crianças e adolescentes que fiquem sentados numa sala de aulas, de forma passiva, enquanto o professor os inunda com saber enciclopédico debitado e factos a que podem aceder rapidamente em qualquer site ou vídeo na internet? Justifica-se que os alunos não possam falar uns com os outros para debater matérias?
“Enquanto adultos, somos bem-sucedidos através da colaboração com outros. Então porque é que se considera que uma ajuda entre colegas num teste ou exame é batota?”, interroga George Monbiot, colunista no “The Guardian”, num artigo recente intitulado “Na idade dos robôs, as escolas estão a formar as crianças para se tornarem redundantes”.
Monbiot pode estar a simplificar, a ser demagógico, a olhar apenas para a realidade que conhece. Mas um pouco por todo o mundo, governantes, professores, especialistas, investigadores estão a fazer a mesma pergunta. Num mundo em acelerada mutação, como deve a escola formar jovens que são diferentes das gerações anteriores e de quem se exigirá também algo de diferente? “Nos últimos anos, apareceu a realidade aumentada, as impressoras 3D, a biogenética, há carros elétricos e sem condutor. Mas continuamos a ensinar ciência da mesma forma”, diz Andreas Schleicher, responsável pelos testes PISA (Programme for International Student Assessment), a maior avaliação internacional educativa, realizada pela OCDE, em 88 países e regiões.
Por cá, a inquietação não é diferente. Será injusto dizer que nada mudou, que as escolas continuam a funcionar como no século XIX, quando pelas suas portas entram hordas de crianças nascidas no século XXI, que não sabem o que é um mundo sem internet e sem telemóveis.
A verdade é que, num modelo que permanece muito formatado e limitado pelas regras, despachos e circulares emanados da 5 de Outubro, há escolas e professores que põem em prática outras abordagens. Umas começaram há mais de duas décadas, outras dão os primeiros passos.
O Ministério da Educação promete agora dar mais liberdade às escolas para abordarem o currículo de outras formas, sem arriscarem uma inspeção de cada vez que fugirem à norma. Flexibilização, competências além de conhecimento, trabalhos de projeto que obriguem os alunos a irem eles próprios à procura da informação, atividades que juntem várias disciplinas são as orientações em cima da mesa. Porque na vida real é assim que se trabalha.
A simples desconstrução de uma sala de aulas tradicional pode ser o primeiro passo para algo novo. E tudo pode começar por uma cadeira. Ponham-lhe umas rodas, juntem-lhe uma minimesa e coloquem apenas 15 numa sala que acolhe turmas com 26 alunos. “Não havendo lugar para todos, o professor automaticamente vai ter de pensar a aula de maneira diferente”, exemplifica Luís Fernandes, diretor do Agrupamento das Escolas do Freixo, no concelho de Ponte de Lima.
O Espaço de Aprendizagem Personalizada é a mais recente novidade numa escola pública que se habituou a ganhar prémios pelos projetos inovadores que põe em prática e dinheiro para equipar a escola e ultrapassar a limitação das verbas transferidas pelo Estado. Este ano foi distinguida pela quarta vez consecutiva com o selo da Microsoft de ShowCase School, pelo uso inovador da tecnologia na educação.

UMA SALA À MEDIDA

Lá fora, veem-se vinhas e a serra. Dentro da sala, há um quadro e uma mesa interativos do mais moderno que existe no mercado, uma smart TV, tablets. As cadeiras azuis, verdes e vermelhas estão espalhadas aleatoriamente pelo espaço. O conceito de desarrumação não existe ali. Os alunos tanto tocam no ecrã do tablet como folheiam os velhos manuais escolares. Uma bancada amarela e outra azul, também com rodas, podem ser deslocadas para improvisar um auditório. Há carteiras altas para se trabalhar em pé. E uma prancha que parece um skate basculante a fazer de estrado, onde o professor dá a aula ou o aluno apresenta um trabalho. Ao lado fica a sala para gravação de vídeos. O espaço adapta-se à medida de cada aula.
Em Portugal, há pelo menos 23 salas assim — o Ministério chama-lhes Ambientes Educativos Inovadores —, número que duplicará até ao final do ano. Inspiradas na Future Classroom Lab, projeto europeu nascido em Bruxelas, têm como objetivo desafiar os professores a repensar o papel da pedagogia e da tecnologia nas salas de aulas. São todas diferentes entre si, mas com algo em comum: o centro da atividade é o aluno em interação com outros colegas e professores. Não é um espaço para ouvir matéria, mas para pôr os miúdos a investigar, interagir, criar, desenvolver, partilhar e apresentar.


Equipa. Na biblioteca da Escola Básica e Secundária Gama Barros, no Cacém, os alunos juntam-se em duplas para criarem um ebook sobre fadas e elfos. Resumir, interpretar, pesquisar imagens na internet e gravar uma leitura no iPad fazem parte deste desafio
Dada a proximidade do teste, a aula é de revisão da matéria de Físico-Química do 8º ano. Ouve-se uma música tipo concurso e um relógio a fazer a contagem decrescente de cada vez que é lançada uma pergunta no quadro interativo. O que mede um sonar? Os alunos tocam no ecrã do tablet para escolher uma de quatro opções possíveis. O tempo acaba. No quadro aparece o número de respostas certas e erradas. Logo de seguida, o nome das equipas que lideram o quiz. Os Blood Dragons do Miguel e do Luís dominam.
Surgem dúvidas quando à morfologia do ouvido. Há demasiadas respostas erradas. O professor, João Cunha, pede aos alunos que se virem para a televisão no canto oposto da sala. As cadeiras rodopiam em silêncio graças às tais rodinhas. A imagem de um modelo 3D de um ouvido surge no ecrã. Com os dedos, João Cunha roda-o 360 graus, amplia até se ver perfeitamente os ossos constituintes do ouvido interno, médio e externo. Mas também podia mostrar uma secção de um folículo capilar, a coluna vertebral ou um embrião com seis semanas.
“As empresas pedem cada vez mais soft skills (competências além do conhecimento técnico). Como é que um aluno pode ser criativo, por exemplo, se estiver sentado numa sala apenas a ouvir a matéria que tem de saber para o exame? Com estas novas abordagens, eles ganham uma facilidade em mostrar o que fazem e a comunicar que será sem dúvida uma mais-valia para eles”, argumenta João Cunha. Além do que ajuda a resolver um outro problema sentido por muitos professores. “Hoje em dia, é complicadíssimo dar uma aula de 90 minutos. Ao fim de 20, os miúdos desligam. Mesmo que estejam ali calados a olhar para nós.”

O DESAFIO DE CRIAR UM EBOOK

Na biblioteca da Escola Básica e Secundária Gama Barros, no Cacém, estão mais de vinte miúdos do 5º ano mergulhados no mundo das fadas e dos elfos. Na verdade, parecem estar mesmo no fundo do mar, pelas imagens de peixes e algas coloridas que decoram as paredes. Divididos em pares, com iPads na mão, têm a desafiante tarefa de criar um ebook a partir de livros desse universo de fantasia. O desafio desta aula de Português é escreverem no iPad, pelas suas próprias palavras, resumos da história que cada livro conta, atribuindo-lhe um título, pesquisando imagens na internet para a ilustrar e respondendo a questões de uma ficha.
Cada aluno conversa com o parceiro do lado, em voz baixa, ajudando-se entre si, empenhados em chegar a bom porto. Os dois professores respondem às dúvidas de alguns. No final, cada dupla grava uma leitura em áudio do texto que acabam de escrever, com a ajuda da professora bibliotecária Filomena Lima, organizadora e mentora desta atividade. “Gana” e “Varinha” revelaram-se palavras difíceis para Rita, de 11 anos. “Nunca tínhamos ouvido a nossa voz gravada. Queremos repetir a leitura para a melhorar”, diz Yara, de 10. Na mesa ao lado, Ângelo, de 11 anos, está ansioso por ler a sua parte. “Este exercício puxa mais por nós, pela nossa autonomia. E é mais divertido”, explica.
“Nestes grupos de trabalho, há sempre um mais ágil do que o outro, e isso puxa por ambos”, defende Filomena Lima. Há cinco anos que este projeto é desenvolvido por ela na biblioteca da escola. Foi com a verba ganha no projeto Ideias com Mérito que Filomena conseguiu adquirir os iPads. Começou por dinamizar uma atividade com o guloso nome “Tablets de Chocolate”, em que dava a trabalhar textos ligados à temática do chocolate, como “Chocolate à Chuva”, de Alice Vieira, ou “Como Água para Chocolate”, de Laura Esquível, e os alunos tinham de pesquisar os temas através dos iPads. O projeto visa a promoção da literacia digital, a leitura e a motivação no contexto escolar. Mas não é fundamentalista. A professora acredita que é preciso que os alunos mantenham “o contacto com os livros em suporte papel”, ao mesmo tempo que vão desenvolvendo essa literacia digital.
“Isto dá um entusiasmo extra à turma, com resultados bastante positivos. Mas as escolas não têm qualquer capacidade financeira para adquirir estes equipamentos tecnológicos. Devia depender de uma política nacional que ainda não existe.” O que existe são projetos a que cada escola está livre de se candidatar, dependendo das ideias e motivação dos diretores e professores, lembra Filomena Lima. “Querer ensinar de forma diferente, com recurso às novas tecnologias, dá um trabalhão, exige mais de nós. O que me move a mim e a muitos professores que o fazem é um espírito de missão, o gosto por ensinar, de fazer melhor, de ver que com este projeto conseguimos motivar e obter resultados.”
O que é também claro para ela é que a sala de aulas tem de ser reinventada. “Estamos a ir ao encontro das capacidades e autonomia de cada um, dando-lhes para a mão os aparelhos que alguns já usam para jogar. Mas aqui usam-nos para aprender. Os miúdos estão diferentes. Não dá para usar métodos de há 10 ou 20 anos.” À saída, alguns comentam entre si que o exercício foi giro. “O mais complicado foi interpretar o texto e fazer o resumo.” Mas a dois tudo se torna mais fácil.
Não raras vezes, as crianças com mais dificuldades surpreendem quando são convidadas a trabalhar de forma menos tradicional e com recurso a outras plataformas, considera João Henriques, professor de Inglês no Colégio dos Plátanos (Sintra). Foi o que aconteceu com uma das suas alunas mais tímidas, de quem pouco tinha ouvido a voz. Desafiada a apresentar-se, em inglês, através de um vídeo caseiro, Catarina, aluna do 8º ano, deu a conhecer mais dela em dois minutos do que no resto do ano letivo.
“Há o mito de que se algo é divertido não dá trabalho, de que se é motivador não exige esforço”, critica João Couvaneiro, assessor no gabinete do secretário de Estado da Educação e que este ano integrou a short list dos 50 candidatos a ‘melhor professor do mundo’, atribuído pela Varkey Foundation — uma espécie de Nobel da Educação, que vale ao vencedor um milhão de dólares. School in a Box é o nome do projeto em que está envolvido e que pretende fazer chegar a tecnologia a regiões remotas de Moçambique como forma de melhorar a educação. Na caixa seguem iPads e painéis solares.
Não é que a tecnologia em si seja a solução, salvaguarda. Mas pode ser uma ajuda preciosa como “transformadora das práticas pedagógicas”. “A tecnologia não vem substituir nada. Vem acrescentar coisas. Com os tablets e dispositivos móveis, o processo de ensino não fica amarrado a uma sala específica. Permite levá-lo para fora das quatro paredes. E motivar os alunos”. O que é meio caminhado andado para que eles aprendam de forma efetiva e mais sólida. “Porque é que as crianças sabem os nomes dos dinossauros, que são complicadíssimos? É porque estão motivados para o saber.”
Durante dois anos, os alunos do Agrupamento do Freixo também saíram da sua escola e foram à descoberta de percursos pedestres possíveis de fazer ali à volta e com interesse histórico e cultural. Sinalizaram-nos, tiraram fotografias, estudaram o património, escreveram os textos e juntaram tudo numa aplicação para telemóveis chamada Trilhandando, feita com a ajuda de uma empresa de software local. E, claro, receberam mais um prémio.

O FIM DA SALA AUTOCARRO

A questão já não é saber se as tecnologias devem ou não entrar nas salas de aulas. É perceber de que forma podem trazer valor acrescentado. E é aí que tem de entrar o professor como orientador, argumenta Teresa Salema, mentora do CoderDojo, movimento internacional que promove a aprendizagem da programação junto dos jovens, usando a tecnologia de forma gratuita e segura.
“Quando temos o Estado a exigir que todos os cidadãos entreguem os seus impostos online e quase um terço dos portugueses tem iliteracia digital, estamos perante um problema. A educação já não pode excluir a tecnologia, e a sala de aulas não pode estar fechada num quadro, numa sebenta e num professor, no velho modelo do autocarro” — professor ao volante, alunos sentados nos bancos de trás. “A sala de aulas deve estar centrada no aluno, respeitando as suas capacidades, ritmos e limitações de cada um, e aberta ao mundo da internet, dotando os alunos de ferramentas digitais, essenciais no mundo em que vivemos”, defende.
É este apport tecnológico que faz com que muitas ideias, algumas com mais de um século, voltem agora a ser discutidas “com entusiasmo”, nota João Couvaneiro. Será relativamente consensual que há muito que a educação deixou de ter apenas a ver com os chamados três ‘r’— reading, writing, aryhtmetics (em português, ler, escrever e contar). A trilogia deu lugar à teoria dos quatro ‘c’ da aprendizagem — comunicação, colaboração, criatividade e pensamento crítico integram agora a cartilha.
Claro que sempre se ensinou nas escolas a comunicar. Mas, num mundo onde a comunicação, social mas também profissional, passou a fazer-se através do Skype, do Twitter, do LinkedIn, do e-mail, do Messenger e do WhatsApp, a escola deve limitar-se a ensinar como se escreve uma carta com o remetente colocado no sítio certo? Fazer trabalhos de grupo é outra das mais clássicas tarefas escolares. Só que as potencialidades são outras, já não limitadas nem no tempo nem no espaço.
“A reprodução do conteúdo disciplinar, algo em que os alunos portugueses são bastante bons, está a tornar-se menos importante. As coisas que são fáceis de ensinar e testar são também as que são fáceis de digitalizar e automatizar. No passado recebia-se a sabedoria dos professores. O futuro passa por cada um gerar o conhecimento. O passado era hierárquico, o futuro é colaborativo. O passado dividia as matérias por disciplinas e os alunos pelas suas expectativas. O futuro tem de integrar ambos. Precisamos de educar os jovens a criar o futuro e não apenas a aprender o passado”, defendia Andreas Schleicher, em entrevista recente ao Expresso.


 


O professor Horácio dá uma lição de Ciências na Escola Carlos Gargaté (em cima); a professora de Português ajuda os alunos do mesmo Agrupamento a interpretar o que está no blogue (ao meio); o novo Espaço de Aprendizagem Personalizada da Escola Básica do Freixo, que abriu em janeiro (em baixo)

Foi precisamente isso que observámos numa aula de Português de uma turma do 7º ano, na Escola Carlos Gargaté, na Charneca da Caparica (Almada). Os alunos formam grupos, podem usar o smartphone e o tablet para tirar dúvidas, acedem a um blogue onde estão as indicações para as tarefas da aula e é-lhes entregue uma ficha para preencherem. Desta forma, o professor é mais um orientador, mas são os alunos que se organizam para obter as melhores respostas. “Eu tento que eles sejam autónomos e que resolvam sozinhos os problemas, sob a minha supervisão. Na última aula dei-lhes 15 ferramentas digitais para trabalharem a biografia da escritora Alice Vieira: desde mapas a editores de vídeo, desenhos animados, jogos. Tudo isso é válido para contar a biografia da autora, e eles trabalham de forma mais motivada o conhecimento”, descreve Teresa Pombo.
A professora de Português é adepta do cruzamento de saberes e de disciplinas. Quando dá “Os Lusíadas”, usa o Google Earth para mostrar aos alunos onde decorre cada canto narrado por Camões. Como a passagem pelo Congo: “Por onde o Zaire passa, claro e longo/ Rio pelos antigos nunca visto.”
Por vezes, divide as suas aulas com o colega de Inglês ou com o de Matemática. “Para mim, é o que faz sentido, e não passar a matéria aos alunos de forma compartimentada. No primeiro caso foi uma aula bilingue, em que lhes apresentámos uma banda desenhada em inglês sobre a história de uma criança privilegiada e outra desfavorecida. Os alunos interpretaram o texto em inglês e depois discutiram o tema oralmente em português. Com o professor de Matemática celebrámos o dia do ‘pi’ e criámos frases coerentes com aqueles números.”
Na aula a que assistimos, Teresa repete inúmeras vezes a pergunta: “Mas vocês não leram o que está à vossa frente? Basta lerem. Não vou desistir do blogue e das instruções e matéria que lá coloco, vocês é que vão ter de mudar de atitude.” E depois comenta connosco que este é um dos principais males desta nova geração. Têm dificuldade na leitura e interpretação de textos, por estarem mais treinados para o clique e para o estímulo rápido e imediato.
A aula termina com um flashmob, com alguns alunos a irem ao quadro para gritarem o poema ‘Urgentemente’, de Eugénio de Andrade, que apresentariam horas mais tarde, com bandeiras e palavras de ordem, num pavilhão para todos os alunos da escola. “É urgente o amor”, escreveu Eugénio. É urgente a mudança, dizem os professores.
“Se eu fosse uma professora tradicional já tinha perdido dois dos meus alunos que têm défice de atenção. E, na verdade, perderia mais. Se a minha aula fosse só debitar, quem iria ouvir-me? Sou da opinião de que as tecnologias podem devolver algum encanto e motivação aos professores. E isso passa para os alunos. Mas a sensação que eu tenho é que a maioria dos professores ainda não está sensibilizada para estas novas formas de passar o saber. Seja através dos jogos ou das ferramentas digitais.”

APRENDER ATRAVÉS DA PESQUISA

No Colégio Luso-Internacional do Porto (CLIP), que segue o currículo britânico, há muito que os alunos se habituaram a trabalhar de forma transdisciplinar. Tal como está a ser feito para o ensino público, também lá se definiram 21 competências para o século XXI que os alunos devem adquirir ao longo da escolaridade e que os professores devem trabalhar nas disciplinas tradicionais, mas não só.
Desde o pré-escolar até ao equivalente ao 9º ano, os alunos passam por uma unidade curricular que integra conteúdos programáticos de todas as cadeiras e que utiliza o método de Concept Based Learning. Ou seja, parte-se de um conceito e de um tema e a partir daí trabalham-se várias áreas, explica Isabel Morgado, um dos elementos da direção do CLIP. A unidade dura duas a três semanas e foi este ano letivo dedicada à liberdade e aos direitos das crianças.
Mas o expoente máximo desta articulação de saberes acontece nas aulas de Learning Through Research (Aprender Através da Pesquisa) e que integra o currículo do 6º, 7º e 8º , com uma carga de sete horas por semana. Os alunos são divididos em grupos de quatro, misturando turmas diferentes, mais novos e mais velhos, fortes, médios e com mais dificuldades. Quando se inicia um novo tema, que tem sempre associado uma disciplina base, mudam as equipas. A ideia é que todos aprendam com todos e trabalhem em conjunto.
Na sala, há um barulho e uma confusão controlados. Se as vozes sobem de mais, Andrea Reis, professora de História e uma das responsáveis por esta cadeira, bate três palmas secas. De imediato, todos os alunos imitam o gesto, e o silêncio instala-se. O tema chama-se “Lei e Criminalidade” e tem a disciplina de Inglês como base. Já criaram uma personagem, uma arma, um crime, um local (real e que os leva, por exemplo, a usar o Google Maps e a identificar uma rua) e um motivo. Já escreveram o guião e o storyboard e estão agora a decorar as falas para a representação à turma.
Na unidade anterior tiveram de estudar as matérias-primas de um país em desenvolvimento e pensar num produto final, passando por todo o processo, desde a extração dos produtos, circuito de distribuição, logística, até à venda, incluindo o custo por unidade e o marketing. No final, venderam-se no colégio velas de café, chocolates, sabonetes de mel. “São eles que têm de fazer toda a pesquisa. O professor é um facilitador, ajuda a tomar decisões”, afirma Andrea Reis.
Os temas escolhidos estão alinhados com a disciplina de Global Perspectives que terão no secundário e que desde há dois anos passou a ser obrigatória no 11º e 12º para obterem o diploma final que é reconhecido internacionalmente. Tal como o nome indica, a ideia não é trabalhar uma área isoladamente, mas analisar e refletir sobre um problema global, desde a energia ao emprego ou às mudanças demográficas.

UM MANTRA PARA LIMPAR ENERGIAS

Passam poucos minutos das 11h da manhã. Na sala de aulas da turma do 1º ano da Escola Básica Louro Artur (do Agrupamento Carlos Gargaté), os rapazes chegam do recreio agarrados às cadernetas de cromos e algumas meninas vêm acompanhadas de bonecas. A professora Ana Paula Figueiredo pede com voz serena que as crianças façam o mantra para ‘limparem’ as energias da rua. E, como num filme, toda a turma de pequenotes sobe para cima das mesas, de forma ordeira e em silêncio, sentando-se de pernas cruzadas. A professora põe a tocar uma música de relaxamento, e os meninos, como numa coreografia bem ensaiada, cerram os olhos e erguem o braço direito por cima da cabeça, enquanto o braço esquerdo faz um movimento circular no peito. Cinco minutos disto. A meio chega uma aluna atrasada, que arruma a sua carteira, sobe à mesa e junta-se ao mantra, sem precisar de qualquer instrução. Parece ficção ou impossível, mas acontece todos os dias naquela turma.
“Assim fazemos o trabalho melhor e concentramo-nos mais”, explica-nos uma menina. “E a mim tira-me as dores de barriga”, acrescenta outra. Logo depois a professora começa a aula e pede a quatro alunos para irem ao quadro para formarem com o corpo a palavra ‘cão’. Uma delas faz com o corpo o til. Outros formam a palavra ‘caramelo’. Tanto os que estão sentados como os que formam a palavra estão atentos e divertidos com a tarefa.
Ainda vemos as crianças a mimetizarem uma canção num vídeo com linguagem gestual. Isto porque naquela aula aprende-se o alfabeto de três formas: a clássica, em braille tátil e visual e em língua gestual portuguesa.
Ana Figueiredo recorda que foi depois de tomar contacto com as “Ekui Cards”, 26 cartas do alfabeto que incluem o braille, a dactilologia (alfabeto da língua gestual portuguesa) e o fonético, que adaptou a sua aula. “Este ano tive liberdade total. E posso dizer que com este método tenho obtido resultados muito positivos na aprendizagem da leitura e escrita destas crianças. As aulas são lúdicas e apelativas, porque interagimos brincando com as letras, sílabas e palavras. As crianças manifestam alegria e vontade de descobrir novas palavras dramatizando para os colegas.”
Como complemento, Ana Figueiredo introduziu o relaxamento orientado com músicas e respiração adequada, conseguindo desta forma que as crianças se acalmem depois do recreio e recuperem a sua concentração para as tarefas da aula.
A professora, que na escola anterior não teve o mesmo apoio, é agora uma referência na nova escola. E os pais agradecem. “De manhã utilizo mandalas e imagens de Miró para eles colorirem que os ajuda a descontrair. Valorizo os manuais como um complemento de consolidação. No entanto, num 1º ano, acho que há uma dependência exagerada, o que condiciona os professores a abrir a sua mente para novas estratégias mais inclusivas para todas as crianças.”



 


 


Inovação Na Escola Básica Louro Artur, as crianças do 1º ano fazem um mantra a seguir ao recreio para ‘limparem’ as energias da rua (em cima); na biblioteca da Escola Gama Barros, uma aluna prepara um ebook (ao meio); no Colégio Luso-Internacional do Porto, os alunos aprendem através da pesquisa e treinam várias disciplinas numa só aula (em baixo)
Nesta mesma escola assistimos a outra atividade singular. Conhecemos o professor Pardal de carne e osso. Na verdade, este professor primário chama-se Horácio, tem 60 anos e 37 de profissão. Há um ano as lágrimas corriam-lhe pelo rosto e estava a perder o gosto pelas aulas e pelos alunos. “Estava desmotivado. Estar mais de 30 anos a dar aulas deixa-nos saturados.”
Foi a direção da escola que o ouviu e apostou nele para um novo desafio. Deixaria de dar aulas a uma só turma e passaria a fazer o que sempre gostou de fazer, passar conhecimento científico de turma em turma. E é um gosto vê-lo de bata branca entre um monte de geringonças a explicar a magia do ar e as suas propriedades. “Se mergulharmos este recipiente fundo na água com um algodão na base, porque é que o algodão continua seco? É por causa do ar, pois é.” O ar é de todos, e o que este professor gostaria é que o bichinho pela ciência ficasse em todos aqueles alunos.
Em Portugal, decorria a década de 70 e uma escola pública começava a experimentar uma forma diferente de se organizar, de ensinar e de trabalhar com os alunos, na altura apenas da primária. Conhecida como Escola da Ponte, em Vila das Aves/São Tomé de Negrelos (Santo Tirso), foi buscar inspiração ao Movimento da Escola Moderna e durante anos tentou convencer o Ministério da razão de ser de alargar o seu projeto a todo o ensino básico, sem turmas, sem anos de escolaridade (os alunos estão integrados em três núcleos — iniciação, consolidação e aprofundamento — e podem transitar de um para o outro em qualquer momento do ano) e onde os alunos assumem um papel central na vida da escola.
São eles que definem com os professores os planos de aprendizagem, os momentos e a forma de avaliação, sendo que o trabalho é feito essencialmente em grupo, com três ou quatro colegas. São também eles que, em assembleia de escola, definem direitos e deveres e gerem conflitos entre colegas. Têm tarefas atribuídas, como a organização de eventos, cuidar do jardim, a produção do jornal ou guiar as visitas à escola. Objetivo: promover a autonomia e a consciência cívica dos alunos, explicam os elementos da direção.
Em 2005, já com autorização de funcionamento até ao 3º ciclo do ensino básico, a Escola da Ponte assinou o primeiro contrato de autonomia com o Ministério da Educação, ou seja, a diferença passou a ser reconhecida oficialmente. Hoje são cerca de 300 as escolas e agrupamentos que também têm um contrato de autonomia com o Ministério. Mas os constrangimentos continuam a ser muitos, lamentam os diretores.
E os resultados de tudo isto? Sem surpresas, os alunos são os primeiros a dizer que preferem trabalhar assim. Significa que vão passar todos a ter boas notas? Não há ilusões. “É difícil estabelecer um nexo de causalidade entre os projetos que desenvolvemos e esta nova forma de trabalhar e os resultados académicos. Mas o que sabemos é que os alunos estão a desenvolver competências que lhes vão ser úteis quando forem para o mercado de trabalho e que estão a aprender coisas que não vão esquecer. Isto para nós também é sucesso académico”, resume Luís Fernandes.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

EDUCAÇÃO DESPORTIVA, PRECISA-SE!


"O jogo da meia-final da Taça da Madeira de juniores, entre Nacional e Marítimo, que foi disputada na noite de terça-feira terminou com graves confrontos entre jogadores de ambas as equipas. Uma vez que nenhum dos conjuntos conseguiu alcançar os objectivos da época – Nacional desceu aos regionais e o Marítimo falhou a subida aos nacionais -, as duas equipas encararam o encontro da Taça como uma ‘tábua de salvação’ da época, que terminou com vitória do Nacional por 2-1, que foi seguido de cenas pouco dignas protagonizadas por jovens dos dois lados da ‘barricada’, num dos episódios mais negros da história recente do futebol jovem madeirense. O jogo foi, segundo apurámos, bem disputado, muito renhido e decorreu com lealdade até bem perto do final quando se deu início a cenas de pugilato entre jogadores que só a muito custo foram travadas pelas equipas técnicas e elementos da PSP presentes (...)" - DN-Madeira.


Educação Desportiva, precisa-se! Desde a mais tenra idade. Da escola ao clube, da baixa à alta competição. Lutar pela vitória e vencer deveria ser interpretado com generosidade, da mesma forma que a derrota deveria ser assumida com bom humor. Aprendi isto em idade muito jovem, porque souberam transmitir esse valor que o desporto encerra. O problema é que a formação está a falhar. E quando falha a formação é a cultura desportiva que se esvai. São inúmeros os factores que aqui não vou,  hoje,  dissecar. Apenas deixo aos formadores da juventude a Ode ao Desporto de Pierre Frédy, mais conhecido pelo seu título nobiliárquico de Barão de Coubertin (1863/1937). Leiam-na aos jovens e expliquem palavra a palavra.

I Ó Desporto, prazer dos Deuses! Essência da vida (...)
II Ó Desporto, tu és a beleza! És o arquitecto deste edifício que é o corpo, que pode tornar-se abjecto ou sublime, se degrada na vileza das paixões, ou saudavelmente se cultiva no esforço. (...)
III Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita, em vão perseguida pelos Homens nas instituições sociais, estabelece-se, por si própria, à tua volta. (...)
IV Ó Desporto, tu és a audácia! Todo o sentido do esforço muscular se resume numa única palavra: ousar. (...)
V Ó Desporto, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm qualquer valor se adquiridos por meios diferentes da lealdade absoluta. (...)
VI Ó Desporto, tu és a alegria! Ao teu chamamento o corpo alegra-se, os olhos sorriem e o sangue circula. (...)
VII Ó Desporto, tu és a fecundidade! Por vias indirectas e nobres, encaminhas ao aperfeiçoamento. (...)
VIII Ó Desporto, tu és o progresso! Para bem te servir é necessário que o Homem se aperfeiçoe no corpo e na alma. (...)
IX Ó Desporto, tu és a paz! Estabeleces relações felizes entre os Povos, aproximando-os no culto da força dominada. (...)"
Ilustração: DN-Madeira/CDN Formação.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

POR FAVOR, APLIQUEM ALGUMA COISITA!


Já perdi a conta a tanta iniciativa. São seminários, encontros, jornadas, eu sei lá, todos os meses centenas de professores respondem às diversas iniciativas, todas no quadro de uma putativa formação. Há dias aconteceu mais uma. Encontros que registam a presença de nomes "sonantes" que transmitem conhecimentos para reflectir, porém, no dia seguinte, nas semanas, meses e anos seguintes, tudo continua igual. Como se nada tivessem escutado. Cumpre-se o curtíssimo ciclo: nasce e morre ali. Não cresce, não vive e, já agora, não se multiplica. De facto está a perpassar a ideia de estarmos a assistir a uma espécie de competição para ver quem mais e melhor organiza. Quem traz para figura de cartaz o nome mais publicitado. Cumprido o "calendário" volta tudo à estaca zero.

A Escola já não deve funcionar assim! Uns falam e outros escutam.
Na verdadeira Escola "todos ensinam e todos aprendem"....

Assisti, por exemplo, em Fevereiro de 2015, a uma importante iniciativa cujo conferencista foi o Professor José Pacheco. Com o anfiteatro a abarrotar, o Professor discorreu pensamento durante três horas. Feito o diagnóstico do sistema educativo, sobreveio a experiência de mais de 40 anos intensamente vividos e actualizados. De resto, com resultados. Foi aplaudido de pé, pela sensibilidade e coerência dos argumentos. José Pacheco "refugiou-se" no Brasil onde é acarinhado e distinguido. Por cá, passados dois anos, curiosamente, na mesma escola, no mesmo anfiteatro, no mesmo palco, foi anunciada uma iniciativa da responsabilidade da Associação Nacional de Professores. Não li qualquer reportagem sobre o evento mas presumo que, certamente, foi realizada com êxito. Porém, em Setembro, a escola, todas as escolas, reabrirão para mais um ano lectivo e tudo continuará exactamente igual. Pergunta-se, então, para quê tantas iniciativas sem que delas resultem qualquer coisa diferente? Uma janela de esperança, uma frestazinha por onde passe uma aragem de inovação!
E já que falo de uma janela de esperança, deixo-vos com um excerto de um texto que li recentemente. A páginas tantas interroga-se George Monbiot, colunista no "The Guardian", em um artigo intitulado "Na idade dos robôs, as escolas estão a formar as crianças para se tornarem redundantes". Escreveu o colunista: "Enquanto adultos, somos bem-sucedidos através da colaboração com outros. Então, porque é que se considera que uma ajuda entre colegas num teste ou exame é batota?" De facto, como li nesse trabalho de Bernardo Mendonça e Isabel Leiria, "que sentido faz as escolas continuarem a ensinar alunos como se fossem máquinas de armazenar e debitar conhecimentos?" No mínimo, dá para pensar!
Por favor, apliquem alguma coisita. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

OH ROTINA QUE MATAS E FAZES TANTA GENTE INFELIZ!


O ano escolar está a terminar. Mais do mesmo. Obviamente, cada estabelecimento de educação e de ensino tentou fazer pelo melhor, mas com o espartilho institucional, com as convenções que determinam, em síntese, se sempre foi assim, por que raio havemos de fazer de forma diferente? E este aspecto é extremamente condicionador. Sempre foi. Nem o governo, assumidamente, quer ou deseja uma mudança estrutural, tampouco existe mentalidade galvanizadora para romper com as amarras do passado. Contenta-se com acertos marginais. E a rotina mata, mas muitos preferem "morrer aos poucos" a dar passos em direcção a um paradigma sistémico que coloque a escola como centro de vida e de aprendizagens significativas. 


Qualquer sistema, por mais ultrapassado que esteja do ponto de vista do conhecimento científico, acaba sempre por produzir alguns resultados. Ora são as "olimpíadas" disto e daquilo, ora as distinções por mérito neste ou naquele concurso, outras vezes é "glória" de uma palavra de simpatia da OCDE (!) enfim, por variadíssimas razões, sempre houve quem se destacasse dos demais, o que leva a  confundir a árvore com a floresta. E isto conduz, inevitavelmente, à perversidade de julgar-se que o sistema funciona bem e que se recomenda.
Colocar em cima da mesa, em contraponto, as impressionantes taxas de insucesso, de abandono, de qualificação profissional e, com honestidade intelectual, procurar discuti-las para perceber as suas causas, a montante e a jusante, normalmente, pouca relevância acaba por ter. Os governantes fogem a sete pés! Convencido estou, por isso, que mais vale uma notícia ou um título que escorra, como mel, garganta abaixo do governante do que contextualizar as razões mais profundas da manutenção de um sistema que assenta, sem significativas alterações, desde o Século XIX aos nossos dias. Há políticos que vivem ou preferem sobreviver nesse quadro de poucas ondas. Essa mentalidade faz escola. Ruy Barbosa (1849/1923) escreveu um dia: "(...) De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto." É, de facto, um  problema de honestidade, neste caso, de desonestidade, querer meter, como escreveu Alvin Toffler, cito-o de cor, "o mundo embrionário de amanhã nos cubículos convencionais de ontem". 
Tenho quatro netos que me falam da escola. Subtilmente puxo-lhes pela língua e lá desatam a dizer o que pensam. As crianças são espontâneas. Ainda ontem tive um deliciosa conversa com um deles. A informação que dispõem e que lhes chega (a eles e a todos os outros), diariamente, pelos mais diversos canais, a capacidade que demonstram para discutir, questionar e interligar os temas conduz-me a (re)pensar a estrutura organizacional, curricular e programática da escola, completamente divorciada do tempo que estão a viver. Para as crianças deste tempo, a Escola não está para elas. Pode estar para os governantes (e está) e para os professores que têm de cumprir, no centro operacional, embora com sacrifício, o que o vértice estratégico determina. É mais fácil cumprir uma tarefa do que nela se envolver. Às crianças e aos jovens compete-lhes escutar e decorar mesmo que seja para esquecer. Decoram sem sentir e interiorizar. Decoram para responder o que está no manual. Decoram para o teste e para as percentagens convertidas em níveis ou notas. Vivem dentro de um fatinho, de tamanho único, quando a aprendizagem quer-se feita à medida de cada um. Confrontam-se com a escola pronto-a-vestir, sempre com o mesmo padrão. A diversidade e a possibilidade de desenvolver o acto de PENSAR e de, permanentemente, questionar, não existe. Olho para o mais novinho, de apenas dois anos, e observo-o a mexer no tablet e no telemóvel de tal forma que me leva a interrogar se esta criança não será mais uma desajustada quando estiver sentada, olhando para o quadro preto, enquanto o professor debita, debita e complementa a dita "sabedoria enciclopédica" com "trabalhos para casa", roubando-lhe o tempo para ser criança, tempo fecundante da vida. Ela e todas as outras. Há quem se esqueça que "brincar é um alicerce essencial da cultura humana". O panorama geral é este e aprender a desaprender, HOJE, não faz parte, grosso modo, do cardápio que lhes apresentam. Ah, a robótica... claramente, uma "casinha" construída do telhado para baixo. Em que paradigma sistémico se enquadra? Se alguém descortina as ligações sustentáveis, interligadas e transversais faça o favor de elucidar-me. Confesso a minha ignorância. 
Entretanto, a par do imenso trabalho burocrático (tarde ou cedo destinado ao arquivo morto) já começaram as ditas "festas" disto e daquilo, trabalhadas ao pormenor, com alguma competição entre escolas, ao jeito de "a minha foi melhor que a tua", tudo concebido para uma função político-mediática, porque o governante faz questão de estar presente. Festas de enaltecimento do trabalho dos adultos, porém, de resultados pouco convincentes para o futuro das crianças e jovens. As estatísticas são o algodão que prova a mancha negra, melhor dizendo, o desajustamento do sistema educativo em função do presente e do futuro.
Este ano está a terminar. O próximo está aí ao virar da esquina. A estrutura será, obviamente, a mesma, aqui e ali com mais pincelada menos pincelada de cores garridas. Oh rotina que matas e fazes tanta gente infeliz! 
Ilustração: Google Imagens. 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A CRIANÇA NÃO TEM SIDO A PRIORIDADE. SE FOSSE...



Hoje seria o dia ideal para um debate na Assembleia Legislativa da Madeira sobre a CRIANÇA. Discutiram-se temas requentados e um debate de oportunidade nem pelas intenções ficou. Os estabelecimentos de educação cumpriram o ritual, levando-as para a rua, melhor dizendo, deram-lhes folga. Aqui e ali falou-se de direitos, com laivos de hipocrisia, porque o essencial, uma vez mais, não foi discutido. E o essencial é, paulatinamente, repensar e mexer em toda a organização social e no que se esconde a montante no que concerne à estrutura familiar (direitos e deveres), para que a criança beneficie de um saudável crescimento. Sem distinções de famílias onde foram geradas. Enquanto faltar a coragem para pensar como resolver a desorganização social na busca de novos equilíbrios; enquanto alguns políticos viverem o momento que mais jeito dá aos seus interesses; enquanto muitos pensarem que a este quadro de referências não existem alternativas, é óbvio que se continuará a falar do dia da criança no plano das margens e não dos muros que a comprimem. Sejamos claros: a criança não tem sido a prioridade. Se fosse, como vulgarmente se diz, outro galo cantaria. Desde os estabelecimentos de educação, onde entra aos primeiros meses de vida, porque os pais têm de trabalhar horas a fio sem uma recompensa salarial digna, até ao cumprimento do pré-escolar onde são submetidas, desde logo, a um quadro programático, de onde saltam para a escolarização a "tempo inteiro" que as "condena" a 40/50 horas semanais de actividades (internas e externas), isto quando os adultos reclamam 36/40 de trabalho, fica claro que o sistema político prefere manter o existente do que dar passos na perspectiva de uma sociedade defensora da construção do seu próprio futuro. Disse a Professora Rachel Niskier: "se você não cuida da infância e da adolescência, que tipo de cidadão você terá? 

terça-feira, 30 de maio de 2017

ESCULTOR FRANCISCO SIMÕES FOI DIRECTOR DE UMA ESCOLA SEM INSTALAÇÕES


No  decorrer do último congresso do Sindicato de Professores da Madeira tive a oportunidade e um enorme prazer de voltar a conversar com o notável Escultor Francisco Simões, personalidade que conheci nos idos anos de 1974/75. Foi uma conversa deliciosa, marcada pela memória do apaixonado trabalho realizado nesse tempo de abertura à democracia (e mesmo antes), mas também pela caracterização dos actuais e conturbados momentos que vivemos. Soube-me reencontrá-lo e dialogarmos sem que, em qualquer momento, tivéssemos abordado a vergonhosa perseguição política que lhe moveram e que esteve na origem da sua saída da Madeira, terra que, apaixonadamente, adoptou. Precisávamos dele e foram alguns madeirenses que o "despacharam". Um Homem de cultura e que vive para a cultura.



A sua conferência encheu-me. Francisco Simões foi, indiscutivelmente, um dos percursores de uma Escola assente em pressupostos diferentes. Em 1973, foi indicado para Director da Escola Preparatória Padre Manuel Álvares da Ribeira Brava. Solucionou o problema do quadro docente e com precários espaços a escola começou a funcionar. As primeiras actas que aqui reproduzo são muito interessantes e relevantes no que concerne às preocupações enunciadas. Tudo aquilo foi o que se designa por partir do zero para uma aprendizagem contextualizada com a vida real. Os conceitos que, hoje, sumariamente, são defendidos no quadro das aprendizagens, Francisco Simões desenvolveu-os por convicção e também em função dos contextos da época. 
A escola saiu, assim, dos parâmetros socialmente produzidos e aceites como normais na época, facto que viria a ter custos políticos e de natureza pessoal, sobretudo a partir de Abril de 1974.
Lê-se no historial da escola: "(...) o arranque inicial desta Escola fez-se com muitas dificuldades, por causa da falta de instalações adequadas, de equipamentos e de mobiliário, de Professores e de Funcionários. As aulas eram leccionadas em espaços abertos, ao ar livre, facto que obrigou à implementação de um método de ensino inovador. 
Verdadeiramente a Escola era todo o espaço, o mercado, as ruas, a igreja, a praia, a esplanada, os muros. Aí, Alunos e Professores faziam a sua aprendizagem. Mais tarde, construíram-se os edifícios, secretaria, sala de professores, sala de trabalhos manuais, gabinete, papelaria e laboratório, sem que quase nada obedecesse a um rigoroso plano arquitectónico. Só em 1973 a Escola Básica e Secundária Padre Manuel Álvares adoptou a sua designação legal, segundo a portaria nº 664/73 de 4 de Outubro, tendo entrado oficialmente em funcionamento no ano lectivo de 1973 – 1974.
Tendo como lema pedagógico a obra de Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota, interpretada como a história dos Alunos e dos Professores, o seu objectivo era “voar mais alto, saber mais e ir mais longe”.
O nome do Escultor Francisco Simões está, indelevelmente, associado a esta escola, como o Professor que rompeu com as dificuldades de nem espaço existir para o funcionamento da mesma, mas que nem por isso a aprendizagem deixou de ser realizada. E com resultados.
A sua intervenção terminou com esta frase: "Ética, Estética e Poética, sem estas três concepções nada tem sentido". Que bom foi rever este Amigo! Está por ser concretizada uma verdadeira e genuína homenagem a este PROFESSOR. Através da Escola e pela Região. Espero que dele se lembrem.
NOTA
O seu nome foi atribuído, em 1996, à Escola Secundária do Laranjeiro, hoje Escola Secundária Francisco Simões.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A FESTA ANUAL É UM EQUÍVOCO QUANDO FALHAM OS PRINCÍPIOS ORIENTADORES DA EDUCAÇÃO DESPORTIVA


O problema não reside em montar uma festa, neste caso, do desporto escolar, embora poucos se apercebam do trabalho que isso dá. É muito complicado, sublinho, mesmo existindo uma experiência acumulada, quando os meios são cada vez mais escassos. Sei do que falo, porque pertenci ao grupo dinamizador dos primórdios do desporto na escola. A dimensão é que nada tem a ver com a desse tempo. Portanto, repito, a questão não está na "festa", na "cor", no "tema", no "espectáculo" (se assim deve ser considerado!) e até no número de participantes no acto inaugural e nos jogos que se seguem. Pessoalmente, respeitando múltiplas outras posições, entendo que mais importante é a determinação da sua importância no quadro de um desporto entendido como bem cultural para a vida. O problema, sustento eu, reside aí. E nesse aspecto julgo que não bastam os números e o efeito mediático do tal dito "espectáculo". Interessa-me muito mais as questões de conteúdo, portanto, se o designado "desporto escolar" constitui ou tem constituído o fermento de uma prática prolongada para além da escola.


E a resposta é, claramente, não. Há tantos anos que a semana do desporto escolar acontece, o que deveria pressupor a consequência de um profundo e transversal trabalho ao longo de um ano, articulado nos anos que se passam, com efeitos duradouros, mas a verdade é que, no plano estatístico, os madeirenses se enquadram na média nacional de um péssimo índice de participação desportiva. Mais de 70% entre os 15 e os 74 anos demonstram não ter uma prática física e ou desportiva regular. São, tendencialmente, sedentários. Há estudos sobre esta matéria, inclusive, europeus, que nos deixam, por múltiplas razões, na cauda dos povos. Por outro lado, tenhamos presente, o preocupante estado das crianças obesas ou com sobrepeso, por inactividade e deficiente alimentação, as chamadas de atenção das instituições médicas, algumas que avisam que os os filhos destas gerações correm o risco de morrerem antes dos pais. Salienta a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI): "Em Portugal, uma em cada três crianças tem este problema de saúde. Segundo o estudo 2013-2014 da APCOI que contou com 18.374 crianças (uma das maiores amostras neste tipo de investigação): 33,3% das crianças entre os 2 e os 12 anos têm excesso de peso, das quais 16,8% são obesas. De acordo com a Comissão Europeia, Portugal está entre os países da Europa com maior número de crianças afectadas por esta epidemia." De onde se conclui o aumento das co-morbilidades, problemas sociais e psicológicos. Um dado curioso: "os jovens gastam, aproximadamente, 60% do seu tempo acordado, sentados."
Ora, muito se poderá dizer sobre isto, sobre a organização escolar, onde não deixa de ser curioso, muito curioso, que, teimosamente, se fale de Educação Física e não de Educação Desportiva, e, depois, sejamos confrontados com uma "festa do desporto escolar". O desporto na escola deveria ter, não uma "festa" anual, mas ser uma festa mensal, semanal, diária e de "aula". Deveria constituir-se como a festa da participação séria, opcional, distante do rigor disciplinar em igualdade com outras disciplinas e espartilhada em conteúdos programáticos que negam a livre participação de acordo com vontade dos jovens. Jovens que são sujeitos a aprenderem a teoria das modalidades, as suas regras e a realizar testes de avaliação de conhecimentos, tóricos e práticos, sujeitando-se, depois, à atribuição de níveis ou de notas. Até conta para o cálculo de admissão ao ensino superior. Desde sempre que me manifestei contra esta situação. Não é na igualdade com as outras disciplinas que deve assentar a sua práxis, mas sim na diferença. Obviamente que não é por ali que se ganha o gosto e o sentimento da obrigatoriedade do movimento, seja ele qual for, ao longo da vida. O resultado de assim não acontecer está espelhado na estatística geral e nos aterradores números da obesidade e do sedentarismo com nefastas consequências futuras. Por mim, respeitando o trabalho dos profissionais da Educação e dos seus organizadores, sinceramente, dispenso este tipo de "festa", mas não prescindo de uma EDUCAÇÃO DESPORTIVA que prossiga os interesses do nosso tempo. Não me interessa a "festa" durante quatro dias, mas interessa-me a "festa do desporto para a vida".
Como nota final: "(...) a médio prazo é expectável que 30% a 50% das crianças se tornem obesas na idade adulta, uma realidade possível que se deve à redução do número de horas de actividade física nas escolas do ensino básico, às crianças passarem cada vez mais tempo em frente à televisão ou ao computador e à crise económica que afectou a alimentação. “É necessário aumentar a actividade física das crianças (...) porque uma criança activa é um adulto activo”, acrescentava, há três anos, o presidente da SPEO. Porém, nada continua a ser feito para contrariar esta situação. Pelo menos no campo da actividade física e desportiva. A "festa" é boa para os adultos e para os governantes, já nem tanto para o processo educativo das crianças. Porém, se lhes perguntarmos, obviamente que dirão que foi fantástica!
Ilustração: Google Imagens. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

ENCERRAMENTO DO XII CONGRESSO DO SPM MARCADO PELA EXCELENTE INTERVENÇÃO DO SENHOR REPRESENTANTE DA REPÚBLICA PARA A MADEIRA, JUIZ CONSELHEIRO IRENEU BARRETO


"(...) Entre pais omnipresentes e pais omniausentes, que papel é legítimo à sociedade esperar do professor? Num mundo em convulsão, que substitui facilmente referências e valores, exige-se à escola a capacidade de se regenerar. Mas, para que tal seja possível, é necessário atribuir-lhe meios que permitam a constituição de equipas multidisciplinares, turmas ajustadas, em dimensão, aos desafios propostos e formação contínua atualizada. Mais do que isso, urge restaurar o prestígio e o respeito pela condição de professor, frequentemente, uma condição de completa entrega em nome de fazer melhor pelo Outro e pela sociedade. E o poder político tem de se envolver nesta campanha, pois são infinitos os frutos a colher em prol do bem-estar comum. Um poder político que desvaloriza a função de professor reflete uma sociedade doente e inconsciente relativamente ao seu futuro. E, finalmente, os desafios tecnológicos na sociedade de informação. Hoje, quando a informação de massas parece querer ocupar o espaço do conhecimento e da cultura, quais serão os paradigmas de eficiência na Educação? Que novo modelo de aula? Que conteúdos? Que currículos? Sei bem que são problemas de difícil resposta, e seguramente que o Sindicato, enquanto instituição comprometida com o progresso, se envolve nesta reflexão urgente. Provavelmente, a escola não poderá continuar a ser perspetivada como um conjunto de disciplinas espartilhadas quando tudo à sua volta é global e quando há muito as soluções são multidisciplinares, entre outros paradigmas cuja mudança se impõe. Mas partilho convosco uma certeza: são questões que só poderão ter resposta com o contributo fundamental de professores e educadores valorizados, motivados e com capacidade para sonhar e fazer sonhar. (...)"

Um discurso excepcional que os governantes devem ter em consideração.

Começo por agradecer o amável e honroso convite para aqui estar entre vós, no Encerramento do 12º Congresso dos Professores da Madeira, que uma vez mais o SPM leva a efeito. Trata-se, aliás, de um regresso feliz.
Aqui estive convosco há três anos, em novembro de 2014, em idêntica cerimónia de encerramento, e recordo vivamente a participação e a dinâmica que então encontrei entre os congressistas. Características que se repetiram, não tenho dúvidas, ao longo destes dois dias de trabalho, intensos e seguramente produtivos, que agora terminam. Pelo que a minha primeira palavra, de reconhecimento, vai para o Sindicato dos Professores da Madeira.
No âmbito do SPM, existe um amplo espaço de debate democrático, e um grande esforço de reflexão sobre esta missão de serviço público fundamental que é o Ensino e o ofício de ensinar. É, portanto, para este exercício de reflexão que tentarei também contribuir.
Minhas senhoras e meus senhores;
A minha segunda palavra é para um elogio, imenso e sincero, ao papel fundamental que os professores e educadores tiveram no desenvolvimento da Região Autónoma da Madeira nas últimas décadas, a partir da instauração da democracia. Relembre-se, porque nunca é demais fazê-lo, que a Madeira e Porto Santo tinham, antes da Primavera de 1974, uma taxa de analfabetismo superior a 30%; hoje essa percentagem será já inferior a 6%. Esta evolução do saber e do conhecimento, que trouxe consequências positivas a todos os níveis, desde as qualificações profissionais ao ambiente cultural, das competências parentais à consciência cívica, tem atores principais e palcos.
Os palcos foram as salas de aula, desde os estabelecimentos do pré-escolar às escolas secundárias, e os atores principais foram os educadores e professores de todos os graus de ensino. Também graças ao contributo dos professores se pode hoje afirmar que a Educação é uma das áreas onde os órgãos próprios da Autonomia Política Regional, trazida pela Constituição da República de 1976, mais longe foram no desenhar de soluções próprias para a Madeira e Porto Santo. 
Se é verdade que há sempre alternativas às soluções legislativas encontradas, parece-me inquestionável que se criaram na Região caminhos próprios e inovadores em muitas áreas da Educação. Certamente que muito se poderá ainda fazer e, no que foi feito, haverá sempre ajustes a introduzir, pois, como escreve Tolentino de Mendonça, “o caminho trata de corrigir o caminhante”.
Mas é justo realçar a responsabilidade assumida na nossa comunidade pelos professores e educadores, que deve ser reconhecida por todos porque todos dela beneficiam. 
A este propósito, reafirmo o meu empenho neste reconhecimento, tendo, nos seis anos do meu mandato como Representante da República, tido ocasião de propor, e ver aceites pelo Senhor Presidente da República, nomes de educadores e professores desta Região Autónoma para serem distinguidos na atribuição de ordens honoríficas nacionais. 
Minhas senhoras e meus senhores,
Apesar de tudo isto, passam também pela Madeira as mesmas nuvens carregadas que ensombram o Ensino e a profissão de professor um pouco por todas as paragens. A reflexão sindical, enquanto representativa do professor como verdadeiro ator e mentor social, não se podendo dissociar deste contexto, tem de procurar respostas alternativas, transformando os obstáculos em vitórias coletivas, que se traduzam em ganhos para a Região e para o País. 
Antes de mais, uma dessas nuvens será a quebra demográfica, que se tem imposto e adquire contornos preocupantes, apesar de uma recente, mas ténue evolução favorável. Um desafio para todos, devendo os governos proporcionar condições para que a estabilidade e a confiança permitam a renovação de gerações e a não estagnação. Neste sentido, há que estimular e prosseguir o desenvolvimento de competências por parte da população ativa, criando e reforçando parcerias entre a educação e o mundo profissional, com evidentes benefícios em várias frentes resultantes da sinergia entre os múltiplos saberes. Os professores podem e devem protagonizar, também, este elevador social que é a aquisição de competências como condição para a competitividade, aspetos essenciais para o progresso e para o encontro de soluções eficazes e duradouras.
Depois, a relação entre escola, família e comunidade, hoje uma preocupação central e inegável.
Entre pais omnipresentes e pais omniausentes, que papel é legítimo à sociedade esperar do professor?
Num mundo em convulsão, que substitui facilmente referências e valores, exige-se à escola a capacidade de se regenerar. Mas, para que tal seja possível, é necessário atribuir-lhe meios que permitam a constituição de equipas multidisciplinares, turmas ajustadas, em dimensão, aos desafios propostos e formação contínua atualizada. 
Mais do que isso, urge restaurar o prestígio e o respeito pela condição de professor, frequentemente, uma condição de completa entrega em nome de fazer melhor pelo Outro e pela sociedade. E o poder político tem de se envolver nesta campanha, pois são infinitos os frutos a colher em prol do bem-estar comum. Um poder político que desvaloriza a função de professor reflete uma sociedade doente e inconsciente relativamente ao seu futuro.
E, finalmente, os desafios tecnológicos na sociedade de informação.
Hoje, quando a informação de massas parece querer ocupar o espaço do conhecimento e da cultura, quais serão os paradigmas de eficiência na Educação? Que novo modelo de aula? Que conteúdos? Que currículos?
Sei bem que são problemas de difícil resposta, e seguramente que o Sindicato, enquanto instituição comprometida com o progresso, se envolve nesta reflexão urgente. Provavelmente, a escola não poderá continuar a ser perspetivada como um conjunto de disciplinas espartilhadas quando tudo à sua volta é global e quando há muito as soluções são multidisciplinares, entre outros paradigmas cuja mudança se impõe. Mas partilho convosco uma certeza: são questões que só poderão ter resposta com o contributo fundamental de professores e educadores valorizados, motivados, e com capacidade para sonhar e fazer sonhar. 
E estou confiante. 
Temos hoje uma classe docente formada em instituições modernas, a par dos mais elevados patamares e os resultados estão à vista, com os nossos alunos e jovens a alcançarem lugares de inquestionável apreço nas várias dimensões em que se projetam. Portugal e a Região têm protagonizado uma evolução que é hoje visível aos olhos de todos, da qual a educação será o motor primordial.
Minhas senhoras e meus senhores,
O Sindicato dos Professores da Madeira em boa hora organizou este Congresso propondo olhar a docência na perspetiva da Ética, do dever ser. Permitam-me contribuir para esta reflexão com uma referência a Sebastião da Gama, professor e poeta maior da língua portuguesa, de vida breve e obra perene, a partir de cujo “Diário” Miguel Real resume as dez características do perfeito professor, das quais gostaria de salientar duas:

“Aquele que, na sala de aula, reclama uma exigência de rigor ético cujo objetivo último residirá na maior amplidão da lucidez do aluno, isto é, da capacidade crítica da razão do aluno”, e “Aquele que faz da sua aula um espaço de transgressão estética, de desmando cultural, de provocação analítica”.
Na verdade, a profissão docente deve ser encarada e vivida como uma profissão de vanguarda. Ou seja, os professores desempenham, a par da função de fundadores e promotores do conhecimento, um indispensável “mandato social”, de verdadeiro “poder do homem sobre o homem”, como sublinha Agostinho Reis Monteiro.

É no exercício deste poder que se constrói a matriz da profissão docente: despertando as crianças e jovens para o conhecimento e para o saber, alimentando a sua criatividade imensa, incutindo-lhes valores de tolerância e de civismo, nomeadamente o direito à diferença e à não-discriminação.
A Escola deve ser um espaço aberto numa sociedade plural, aberto ao mundo e à vida, onde todos têm lugar, respeitador de todas as opiniões e correntes aceites na sociedade onde se insere.
É que, em rigor, a Escola deve ser um lugar neutro de ensino e aprendizagem, estando estas características protegidas pelo próprio texto da Constituição. Assim, o progresso não pode fazer-se sem a observação destes pilares e a alquimia da mudança residirá precisamente na congregação entre a revolução tecnológica, naturalmente necessária, e a perenidade do aprender a ser, que distinguirá sempre o Homem. 
E este desafio só se construirá com uma classe docente prestigiada, preparada e motivada. 
Estou certo de que o SPM comunga desta minha convicção e que continuará empenhado em pugnar por uma escola de qualidade, inerente a uma sociedade evoluída e crente no seu futuro.
Caros Professores,
É tempo de terminar.
Deixo-vos a minha admiração por tudo o que têm feito por esta comunidade. E espero que mantenham a motivação para continuar a fazer crescer e sonhar as próximas gerações. Na verdade, vós sois atores desta renovação. Desejo-vos todo o sucesso porque o vosso é também o nosso sucesso coletivo.
Muito obrigado.
Ilustração: SPM - Jackeline Vieira

segunda-feira, 22 de maio de 2017

"HOJE ESTAMOS DE ALMA CHEIA" - Francisco Oliveira, Coordenador do SPM


Digo-o, não por ser há muitos anos sindicalizado, não por ser, circunstancialmente, presidente da Assembleia Geral de Sócios, mas porque esta é a minha leitura sincera da actividade do Sindicato de Professores da Madeira (SPM): somos um grande sindicato com cerca de 3.000 associados, com uma enormíssima acção em variadíssimas áreas, com um sentido organizacional modelar e uma capacidade de mobilização para múltiplas causas, factos que me deixam com uma incontida satisfação. Sempre foi assim, desde os primórdios da sua fundação, há 40 anos. É extensa a lista de professores que dedicaram muito da sua vida à luta sindical. Tantas foram as suas batalhas, algumas perdidas, a maioria, porém, ganhas pela força dos argumentos e do bom senso. Se alguém pensa que os professores estão a perder força sindical, engana-se. Pelo contrário, o crescente número de sindicalizados, embora em um tempo de dificuldades financeiras e de congelamento da carreira, provam o reconhecimento pelo mérito do SPM.


O XII Congresso, realizado nos dias 19 e 20 de Maio, subordinado ao tema "Ética, Docência e Sindicalismo - sentidos, razões e consequências", que contou com a presença de 200 delegados, constituiu a prova do seu dinamismo e da força dos seus saudáveis desígnios. Foram dois dias de conferências com figuras de reconhecidíssima qualidade científica e também política, que ali deixaram, não apenas conhecimento, mas também as palavras de incentivo aos professores na sua cada vez mais difícil missão docente.
Desde Congresso elejo a aprovação da "Carta  Ética do SPM". Um documento que constitui o corolário de muitos anos de intervenções nesse sentido e que, agora, figura como o primeiro entre todos os sindicatos do Norte ao Sul do País. Ficou claro que não se trata de um ponto de chegada, porque, naturalmente, com o decorrer do tempo, novas actualizações serão feitas, de acordo com as experiências vividas e com os contributos que a classe docente entenda por necessários. Claro também ficou que não se trata de um código deontológico, uma forma de fiscalizar professores, ou de persegui-los na sua função, antes constitui um referencial de que os ajude na nobre missão que desempenham. Os seus princípios estruturantes são sete: Dignidade, Integridade, Autonomia, Responsabilidade, Equidade, Justiça, e Participação.
Aqui deixo a "Carta Ética do SPM" embora com a ressalva que não se trata da versão final, uma vez que se verificaram três alterações de pormenor no decorrer da Assembleia Geral.

CARTA ÉTICA DO SPM

As preocupações relativas à ética profissional docente encontram-se, desde sempre, inscritas no projeto sindical do Sindicato dos Professores da Madeira (SPM), em conformidade com o seu compromisso com a dignificação da profissão e com uma educação pública de qualidade. Para o SPM, a ética representa uma dimensão intrínseca à profissionalidade, funcionando, nessa medida, como uma exigência interna à comunidade profissional e não como uma imposição externa. Neste sentido, o SPM tem vindo a promover ao longo das últimas décadas um debate sistemático e exigente, contando para tal com o contributo de autores de referência, em congressos, jornadas pedagógicas, fóruns de discussão, seminários temáticos e ações de formação contínua. De tal modo que o SPM possui já um património de reflexão especialmente rico sobre as questões de ética e deontologia profissional estruturantes da docência, seja qual for a modalidade de educação ou de ensino em causa. 

Considerou-se, assim, que tinha chegado a hora de sistematizar, explicitar e divulgar esse património através de um documento próprio, a Carta Ética do SPM. Corporizando o compromisso individual e coletivo dos professores e educadores, esta Carta Ética constitui-se como o instrumento de regulação ético-deontológica do nosso sindicato, devendo suscitar a adesão esclarecida e motivada dos seus membros e de todos aqueles que se identificam com uma profissão pautada por elevados padrões de conduta, uma profissão prestigiada, relevante e autónoma.

Funchal, (data da aprovação)
A Direção do SPM

PREÂMBULO

O exercício da docência refere-se a uma atividade humana complexa, multidimensional e eminentemente relacional, respeitante à intervenção intencional e qualificada nos processos de desenvolvimento de outras pessoas: crianças, jovens e adultos. Detentores de uma formação própria, os professores e os educadores exercem esta enorme responsabilidade a partir de uma autoridade profissional particularmente exigente que, consequentemente, requer respeito, autorização, valorização e reconhecimento, tal como preconiza a Recomendação da Organização Mundial do Trabalho e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (OIT/UNESCO,1966).
Independentemente da especificidade dos perfis académicos ou da diversidade dos contextos de trabalho, os professores e educadores partilham o mesmo conhecimento profissional, a Pedagogia, um saber teórico-prático, posto quotidianamente à prova em situações educativas muito diferenciadas e desafiantes, onde as virtudes de ponderação e a capacidade de decisão crítica se revelam cruciais; o que nos leva a situar as exigências de ética profissional docente no âmbito das chamadas éticas aplicadas, enquanto éticas contextualizadas que, por definição, apelam à reflexividade dos próprios professores e educadores, que se assumem como intelectuais críticos, enquanto autores e atores. 
Assim, acreditando que só uma profissão autónoma e socialmente estimada poderá servir eficazmente os desígnios da escola pública, enquanto alicerce basilar de uma sociedade justa, inclusiva e solidária, opta-se por um modelo de autorregulação profissional que contraria as lógicas punitivas e prescritivas, assentes numa conceção negativa e elitista da profissão docente. 
Com estes pressupostos como referência e tendo por base os resultados dos processos de discussão desenvolvidos pelos professores e educadores da Região Autónoma da Madeira nas últimas décadas, a Carta Ética do SPM foi elaborada em alinhamento com a Declaração da Internacional da Educação (IE) sobre Ética Profissional, subscrita pela Federação Nacional dos Professores (FENPROF). 
Considerando que a explicitação dos compromissos referentes à ética profissional são parte integrante da identidade de uma comunidade profissional e sindical como o SPM, enquanto organização representativa dos professores e educadores da região autónoma da Madeira, a Carta Ética do SPM:
· Expressa o compromisso ético-deontológico dos educadores e professores, em conformidade com uma visão ampla de educação, de profissionalidade docente e de sindicalismo;
· Constitui-se, acima de tudo, como um suporte para a ação esclarecida e autónoma de cada professor/educador, numa perspetiva de desenvolvimento, afirmação e dignificação do seu desempenho profissional;
· Contempla a explicitação dos princípios fundamentais da docência, consequentemente traduzidos num conjunto de compromissos referentes à relação com os alunos, à relação com os pares/profissão, à relação com outros membros da comunidade educativa, à relação com os pais e encarregados de educação e à relação com a comunidade externa.

1. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

A educação pública de qualidade, pedra angular de uma sociedade democrática, tem o dever de proporcionar a todas as crianças e jovens as mesmas oportunidades educativas e é fundamental para o bem-estar da sociedade ao contribuir para o seu desenvolvimento económico, social e cultural.

Preâmbulo da Declaração da Internacional da Educação IE (2004) 


Enquanto atividade profissional qualificada, a docência inscreve-se num quadro de respeito pelos valores que configuram os processos de desenvolvimento humano nas sociedades democráticas, designadamente os que se encontram consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), na Declaração Universal do Direitos da Criança (1959) e nas recomendações internacionais sobre educação e ensino produzidas no âmbito da UNESCO. 


Adotando um paradigma de consideração pelos direitos humanos, pelos valores democráticos, a Carta Ética do SPM assume uma linha de complementaridade com os documentos que, no plano nacional, enquadram as missões da escola pública, como a Constituição da República Portuguesa, a Lei de Bases do Sistema Educativo e os Estatutos de Carreira Docente em vigor, referentes a todos os graus de educação e ensino, elegendo como princípios estruturantes da identidade ética dos professores e educadores, os seguintes: Dignidade; Integridade; Autonomia; Responsabilidade; Equidade; Justiça; Participação. 
Estes princípios são equacionados de forma articulada, segundo uma lógica de respeito e, simultaneamente, de promoção, e traduzidos através da formulação de compromissos concretos, relativos a cada patamar de relação profissional.

2. COMPROMISSOS

2.1. Na relação com os alunos
2.1.1. Reconhecer, respeitar e valorizar a dignidade pessoal de cada aluno, enquanto ser único, portador de uma identidade e de uma história singulares, promovendo condições para o seu desenvolvimento integral e encorajando comportamentos autónomos e responsáveis. 
2.1.2. Exercer a autoridade pedagógica de forma ponderada, justa e coerente, favorecendo condições para um clima de aprendizagem respeitoso e a adoção de comportamentos pessoais positivos, num quadro de respeito pelas regras necessárias à vida em comum. 
2.1.3. Colocar o conhecimento profissional ao serviço do sucesso escolar de todos os alunos, sem exceção, promovendo oportunidades de aprendizagem diferenciadas e avaliando segundo critérios de rigor, isenção e objetividade. 
2.1.4. Promover a integração e a socialização de cada aluno, combatendo todas as formas de iniquidade e discriminação e colaborando na prevenção e deteção de situações de risco pessoal ou social.
2.1.5. Promover a segurança e bem-estar dos alunos, evitando e combatendo todas as situações que possam representar uma ameaça para a sua integridade física, psicológica ou moral, atuando de forma ponderada e prudente em situações de indisciplina ou conflito.
2.1.6. Respeitar o dever de reserva e discrição relativamente ao processo individual de cada aluno, usando com contenção e sentido de oportunidade pedagógica as informações pessoais consideradas relevantes no âmbito do processo formativo.
2.1.7. Reconhecer e promover o direito de participação dos alunos na vida escolar, valorizando a sua condição de atores sociais num quadro de exercício responsável das suas competências de cidadania.
2.2.Na relação com os pares /profissão
2.2.1. Reconhecer, respeitar e valorizar a dignidade pessoal de cada colega, favorecendo práticas de valorização recíproca e de consideração pela sua integridade física, psicológica ou moral. 
2.2.2. Exercer a sua profissionalidade com sentido de responsabilidade e autonomia, dispondo-se a desenvolver práticas de autoavaliação, de formação e inovação pedagógica, numa perspetiva de desenvolvimento constante dos seus conhecimentos e competências. 
2.2.3. Estabelecer relações interpares pautadas pelo espírito de partilha, solidariedade, confiança e reconhecimento, dispondo-se a participar ativamente em dinâmicas de trabalho cooperativo, promovidas em contexto de comunidade educativa ou no seio da comunidade profissional.
2.2.4. Respeitar o dever de reserva e discrição de carácter colegial, evitando situações de desautorização e dispondo-se a defender colegas maltratados ou injustiçados no âmbito da sua atividade profissional. 
2.2.5. Apoiar e promover processos de socialização profissional e de integração de outros colegas, dispondo-se a colaborar positivamente com colegas em dificuldade.
2.2.6. Apoiar e promover processos de avaliação do desempenho profissional desenvolvidos numa lógica formativa, de autorização mútua e de estímulo ao desenvolvimento do conhecimento profissional. 
2.2.7. Colaborar com os processos de implementação, discussão e divulgação da Carta Ética do SPM, numa perspetiva de promoção de boas práticas e de desenvolvimento da consciência ética dos professores e educadores. 
2.3.Na relação com outros membros da comunidade educativa
2.3.1. Estabelecer relações profissionais solidárias e de respeito mútuo com todos os membros da comunidade educativa, independentemente da categoria profissional ou das funções desempenhadas. 
2.3.2. Colaborar ativamente com todos os membros da comunidade educativa, numa perspetiva de corresponsabilização pelas tarefas educativas e de promoção de uma cultura de bem-estar.
2.3.3. Apoiar e promover dinâmicas de formação e avaliação interna orientadas para a melhoria das práticas educativas e para o desenvolvimento profissional e organizacional. 
2.3.4. Apoiar e promover processos diversificados de participação democrática e de compromisso partilhado, favorecendo o sentido de pertença à comunidade e combatendo todas a formas de discriminação, fanatismo e sectarismo. 
2.3.5. Respeitar o dever de reserva e discrição em relação à vida interna da comunidade, salvaguardando e defendendo a imagem pública da instituição.
2.3.6. Pugnar pela defesa de condições de trabalho adequadas e dignas, que permitam assegurar a qualidade do exercício profissional, o bom funcionamento da instituição e o cumprimento pleno das missões educacionais.
2.4.Na relação com os pais e encarregados de educação
2.4.1. Reconhecer, respeitar e valorizar as diferenças culturais, combatendo todas as formas de exclusão e discriminação em relação à nacionalidade, à pertença étnica, ao nível social, às crenças religiosas ou às posições políticas.
2.4.2. Colaborar o mais estreitamente possível com os pais e encarregados de educação, reconhecendo a sua autoridade parental e atuando conjuntamente em prol do bem dos educandos, das crianças e dos jovens. 
2.4.3. Estabelecer uma comunicação sensível e eficaz, dispondo-se a prestar informações reconhecidas como relevantes no âmbito do processo educativo dos alunos.
2.4.4. Respeitar o dever de reserva e discrição em relação a todas as informações facultadas pelos pais ou encarregados de educação, favorecendo um clima de confiança, proximidade e diálogo.
2.4.5. Apoiar e promover iniciativas orientadas para o desenvolvimento dos laços de cooperação entre a escola e a família, estimulando a participação dos pais ou encarregados de educação na vida da escola.
2.5.Na relação com a comunidade externa
2.5.1. Projetar uma imagem positiva da profissão, salvaguardando a honra e a dignidade dos professores e educadores, enquanto profissionais detentores de elevados padrões de conduta ética, de profissionalidade e profissionalismo. 
2.5.2. Apoiar e promover iniciativas de caráter socioeducativo que visem o estreitamento de laços entre a escola e a comunidade, numa perspetiva de contributo para os projetos educativos no âmbito da comunidade em que se inserem. 
2.5.3. Respeitar e promover os valores que norteiam a escola pública, enquanto pedra angular da sociedade democrática. 
2.5.4. Apoiar as opções do seu Sindicato, dispondo-se a participar e a divulgar as decisões consideradas relevantes numa perspetiva de salvaguarda e de promoção dos direitos de todos os professores e educadores.

3. ÂMBITO DE APLICAÇÃO

Enquanto documento que expressa o compromisso individual e coletivo dos professores e educadores, a Carta Ética do SPM funciona como um instrumento de regulação ético-deontológica, aplicando-se a todas as atividades profissionais desenvolvidas pelos professores e educadores vinculados sindicalmente ao SPM.
Contudo, tratando-se de um instrumento de afirmação identitária, construído de forma amplamente participada pelos professores e educadores da Região Autónoma da Madeira, a Carta Ética do SPM poderá igualmente funcionar como um quadro de referência ética para os restantes membros da comunidade docente. 

4. DIVULGAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E REVISÃO

A Carta Ética do SPM constitui-se, acima de tudo, como um instrumento de suporte ao exercício esclarecido e contextualizado da autoridade profissional docente, ajudando a sustentar os processos de reflexão profissional numa perspetiva de continuidade com os debates desenvolvidos ao longo dos últimos anos sob o enquadramento do SPM. 
O processo de divulgação, implementação, e possível revisão da Carta Ética do SPM, será da responsabilidade da Direção do Sindicato que para tal contará com o apoio de um Conselho Consultivo, integrado por especialistas convidados, reconhecidos como autores de referência no âmbito das éticas profissionais e das ciências da educação. 

OBSERVAÇÕES FINAIS

A Carta Ética do SPM que agora se apresenta não abrange, nem poderia abranger, todas as dimensões de compromisso ético referentes à profissão docente. Mais do que prescrever, sinalizar ou punir, pretende-se sobretudo fomentar a concretização de boas práticas num quadro de valorização da autoridade e dignidade da profissão docente.
A Carta Ética do SPM deverá ser tida em linha de complementaridade com outros documentos enquadradores da atividade profissional, sublinhando-se a este respeito a diferença entre o que é legal e o que é ético.
A Carta Ética do SPM funciona como referência interna numa perspetiva de desenvolvimento, afirmação e consolidação de cultura reflexiva da própria comunidade docente, mas também como referência externa, contribuindo para a valorização e credibilização pública da profissão. Salientando, no entanto, que a adesão à Carta Ética, correspondendo a um compromisso coletivo, apela, antes de mais, ao envolvimento e à adesão consciente de cada um.

ALTERAÇÕES PROPOSTAS E APROVADAS

2.1.8 – Possibilitar aos alunos contactos frequentes com atividades de caráter artístico e cultural, permitindo o desenvolvimento de uma consciência artística e cultural, seja na observação e fruição, seja na participação ativa e integrada, dentro e fora da escola.
2.5.4 - Participar ativamente nas decisões do seu Sindicato e, sempre que possível, apoiá-las, numa perspetiva de salvaguarda e de promoção dos direitos de todos os professores e educadores.
Ponto 4 – acrescentar CRIATIVIDADE aos princípios fundamentais (p.4)