quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Abertura do Ano Académico 2025/2026


Confesso que na preparação deste que se pretende seja um momento breve, tive uma sensação de nostalgia… Andei para trás no tempo, num tempo em que os brancos só existiam no cabelo dos outros e os abdominais ainda se contavam no plural… Saí da Madeira com 18 anos, para ir estudar Gestão em Lisboa. Nessa altura, mesmo querendo, não podia ter ficado na Madeira pois o curso que eu tinha escolhido não existia por cá.



Fui acompanhado pelo meu Pai que, no caminho, aproveitou para me explicar, bem à maneira dele, que se eu achava que ia embora com outro propósito que não o de estudar, estava bem enganado. E tratou de negociar, que é como se diz lá por casa impor, a mesada coincidente com esse objetivo…

Sou português e ilhéu, pelo que já se sabe que a imaginação e o desenrascanço não têm limites! Lá consegui, com maior ou menor dificuldade, juntar algum outro tipo de aprendizagens ao estudo, fazendo o caminho com poucos sobressaltos mas sem ponta de brilhantismo, um registo que aliás mantenho nos discursos que me pedem para fazer, lamento informar…

Olhando para trás, para esse tempo, percebo… Percebo-me melhor a mim e ao meu Pai. Percebo o drama de muitos filhos e pais desse tempo, pelas suas mais reduzidas opções. Percebo e agradeço a aposta entretanto feita numa Universidade aqui na Região, com uma oferta mais alargada e de qualidade. E percebo ainda a vontade de crescer, a necessidade de afirmar uma aposta. Percebo muito mais, muita coisa. Sinal de que estou a ficar velho, certamente…

Não me desviando, porque hoje gostava de falar sobretudo aos alunos e para eles, para me facilitar a vida vou pegar nas palavras de Sérgio Godinho, sem as cantar, estejam descansados: - “hoje é o primeiro dia do resto das Vossas vidas”!

Começam, os que agora iniciam o seu percurso académico, a plantar as sementes do conhecimento que vos permitirá continuar a crescer, enquanto pessoas e futuros profissionais.

Que possam daqui a uns anos, tal como eu hoje passado tanto tempo, ter este sentimento de gratidão pela Instituição onde estudei, pelos Professores que me aturaram e pelos colegas que o tempo e a intensa convivência transformaram em Amigos para a vida.

A todos Vós, pede-se que iniciem este ano escolar com uma forte predisposição: - Que consigam ser esponjas da sabedoria que Vos será transmitida pelos professores, colegas dos Vossos pares na verdadeira aceção da palavra. E que consigam, no meio dos estudos, lá ir fazendo uma ou outra pequena formação menos académica, mas das pequeninas, se faz favor, se não os Vossos Pais puxam-me as orelhas…

Vocês estão aqui para aprender, para adquirir conhecimento, para estudar! E não se esqueçam igualmente que frequentar uma Universidade é, ainda, infelizmente, um privilégio.

Quando lemos que cerca de 20% da população portuguesa vive abaixo do limiar da pobreza, temos de perceber isso. E de agradecer às famílias a oportunidade, trabalhando afincadamente para de alguma maneira retribuir esse esforço que é feito.

Mas o que isto, de tirar um Curso? Para que serve, num ambiente que às vezes até parece ser tão fácil, com discursos de pleno emprego, onde amanhã, se eu quiser, sem canudo e só a força de braços estou já a ganhar um bom dinheiro e tentando esquecer que a Economia funciona por ciclos, sendo sagrado como o destino que a um bom se segue um outro mau?

Tenho esta forte e fundada convicção: - tirar um curso é abrir horizontes, é ganhar a possibilidade de fazer escolhas, é condicionar o nosso futuro pela positiva.

Tirar um curso é beber do saber que nos é transmitido pelos professores, a grande maioria dos quais excelentes, dedicados e focados nessa passagem de conhecimento que, só pelos livros, nunca seria apreendido da mesma forma. É também, como já Vos disse e aqui entre nós que ninguém nos ouve, o beber umas cervejas, se possível com moderação, já se sabe…

Frequentar uma Universidade, tirar um Curso, é igualmente o melhor caminho que conheço para o que considero ser o valor primeiro de uma sociedade que se quer evoluída: - a liberdade responsável.

Com conhecimento vamos mais longe, sabemos mais, resolvemos mais questões, estamos mais preparados para o mundo, um mundo em cada vez maior mutação. E mais rápida!

A liberdade é, portanto, esse tal bem mais precioso. E tão desvalorizada tem sido ela, por todos nós, ao longo destas últimas décadas; já nem votar se vamos…

Em nome de uma suposta liberdade, parece que podemos tudo, temos direito a tudo. Fazemos também tudo sem cuidar de perceber que essa liberdade, a verdadeira, é aquela que tem limites e que acaba quando começa a liberdade dos outros.

Liberdade, a plena, é igualmente sinal de responsabilidade, faz-nos crescer enquanto indivíduos, vem da aprendizagem, assenta no conhecimento, nasce do respeito pelo próximo e pelas regras sãs da vivência em comunidade.

Este conceito de liberdade, que devia ser claro, transparente e constante, parece ser hoje percecionado de maneira distinta.

Os que a não tiveram vivem-na de uma determinada forma, entre a intensidade plena ou com resquícios de um medo que teima em grassar.

A minha geração, nascida imediatamente antes ou depois do 25 de Abril, dá-a como garantida, parece que não tem de contribuir para a sua manutenção.

A geração que agora entra no mercado de trabalho entende-a como um direito individual, inalienável, egoísta.

Esta perceção, que admito possa ser errada, leva-me a valorizar ainda mais o papel que as Universidades podem e devem ter na construção do nosso futuro.

Temos de ser capazes de fomentar a discussão em vez de formatar o pensamento. De alimentar a divergência civilizada em detrimento do discurso a uma só voz. De viver com o erro, a experimentação e o risco, de contribuir para que os alunos saiam das suas zonas de conforto. De compreender que há muitas respostas certas para a mesma pergunta, desde que devidamente fundamentada. Temos, portanto, de aceitar e saber mudar porque não podemos esperar um resultado diferente se continuarmos a agir da mesma forma. Temos de trabalhar, hoje e sempre, porque a liberdade não pode nunca ser dada por garantida, nem muito menos deve ser egoísta.


Olhando um pouco mais para a frente com os pés assentes no presente, não gostaria de pensar que os alunos saídos das faculdades chegam ao mercado de trabalho com uma lista de direitos. O horário, o vencimento, a categoria, as regalias, o estatuto social; isso é que importa! E se for suficientemente sexy para se fazer umas publicações nas redes sociais, melhor ainda! Deveres, nem vê-los…

Não se pergunta sobre o projeto, não se interessam pelos valores que as empresas defendem ou pelo caminho que têm planeado. Vão querer ser puxados, promovidos por antiguidade, que o resto é uma grande maçada. E se for muito exigente, sairão à procura de algo mais fácil.

Claro que isto não pretende ser um retrato da situação actual, nem que seja porque não gosto de generalizações. Mas temos de ter cuidado com esta prevalência do “Eu” em detrimento do “Nós”. Não vale, não pode valer tudo nem nenhum indivíduo é maior do que o grupo em que se insere.
Se insistirmos em transformar as Universidades em fábricas de notas, onde se promove a competição e onde o critério de avaliação passa somente por exames, sem mais nada, não vamos lá.
Temos de acabar com esta cultura onde só se fala de excelência, desvalorizando todos os outros percursos que são feitos com igual sangue, suor e lágrimas e que têm igualmente muito mérito.
Temos de entender que deve existir uma relação entre aquilo que o mercado e as empresas procuram e os métodos que utilizamos para transmitir conhecimento. Que não se pense que evoluir é passar de um quadro a giz para um projetor de “powerpoints”!


Temos igualmente de olhar, sabendo integrar, esta realidade nova do hoje, a Inteligência Artificial, que não pode ser vista como forma inovadora de cabular, mas como um acesso a informação útil, rápida e, em muitas situações, bastante eficaz, mas que exige saber e ética na sua utilização. Por parte de alunos e de professores!

Sobretudo, temos de saber valorizar as diferenças, deixando de insistir numa padronização cujo resultado é a saída dos alunos todos formatados para uma determinada forma de pensar, dentro de um quadradinho de segurança e com a liberdade coartada pelas piores razões.

Fui bastante mais extenso do que queria inicialmente e peço desculpa por esse facto mas faltei a todas as aulas que tive sobre como ser sucinto. E interessante…

Antes de terminar, gostava ainda de poder deixar uma última reflexão em relação a este momento, de abertura solene do ano escolar, na nossa Universidade da Madeira.

Acho que devemos saber valorizar o caminho que a UMa já fez, o papel que hoje já tem na Região e o que pode ainda vir a ter, se dotada dos meios necessários e suficientes para fazer funcionar o elevador social.

Hoje já não somos obrigados a sair da Ilha para estudar. Temos oferta, temos qualidade, temos professores capazes, temos infraestruturas, embora talvez já não as suficientes, um recado que aproveito para deixar a quem de direito.

Temos de trabalhar e de continuar a fazer evoluir esta casa. Estamos longe, muito longe, de poder dar a tarefa por terminada mas, com empenho, dedicação e foco certamente que conseguiremos chegar onde desejamos.

Precisamos de todos para alcançar este desiderato, não esquecendo nunca o trabalho dos muitos reitores e das suas equipas que por aqui passaram e deram o seu generoso contributo, assim como de todos os professores e investigadores. E, neste todos, que se possa incluir o Governo da República e o Governo Regional.

Aos alunos desejo um ano memorável, sobretudo para aqueles que hoje têm o tal primeiro dia do resto das Suas vidas. Muitas felicidades e, não se esqueçam, estudem e divirtam-se!

Aos professores, desejo um período de muitas realizações e sucessos, com o foco sempre no superior interesse daqueles que são os clientes desta casa.

Ao pessoal, o docente e o não docente, um agradecimento antecipado, pois tenho a certeza da continuação do empenho no exemplar exercício das Vossas funções.

Que este seja mais um ano lectivo de afirmação da nossa UMa e do seu papel na nossa sociedade enquanto potenciadora de conhecimento, de estudo e de reflexão.

Muito obrigado pela Vossa atenção e paciência.

André Barreto
Funchal, 26 de Novembro de 2025

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