quarta-feira, 16 de setembro de 2026

"As provas PISA são o concurso de beleza da pedagogia"


Esqueçam as provas PISA. Não as sobrevalorizem. Se Portugal está acima ou abaixo da média europeia, tudo isso é, estruturalmente, uma treta. A aprendizagem é muito mais que uma prova que não prova. PISA (Programme for International Student Assessement) não prova nada, repito. As declarações de Pablo Gentili, ex-secretário executivo do "Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO) e Doutor em Educação pela Universidade de Buenos Aires, são evidentes: "(…) las pruebas PISA son el concurso de belleza de la pedagogia" (…) el PISA construye un mecanismo artificial, lo impone y nadie lo cuestiona, y luego compara (…) las pruebas PISA son "un verdadero desastre", se imponen por la fuerza que ejerce la organización poderosa que las realiza en los medios de comunicación (...)".



O Professor Pablo Gentili tem razão. Reparem na dicotomia entre o que diz Andreas Schleicher, conselheiro especial em política educacional do secretário-geral da OCDE, e o que esta instituição implementa:

"O desafio de Portugal é educar para as próximas gerações. Para o futuro e não para o passado. E isso significa dar às escolas mais protagonismo e mais flexibilidade, para alargarem o tipo de conhecimentos, aptidões e competências, mas ao mesmo tempo criar mais espaço aos professores e ambientes de aprendizagem inovadores, dando aos estudantes os meios para se preparem para o futuro". 

Ora, isto significa que Schleicher, de forma subtil e moderada, caracteriza o sistema educativo português como um dos que mantêm as traves mestras da Sociedade Industrial, portanto, critica a escola desadequada, relativamente aos tempos que estamos a viver.  E neste aspecto tem razão.  

Só que, a OCDE, pela voz de Schleicher, discursa de uma maneira, fala da necessidade de uma aprendizagem inovadora, todavia, depois, sem ter em consideração as múltiplas variáveis de cada país, as de natureza histórica e social, política, económica, financeira, cultural, as de natureza organizacional do mundo laboral e a própria organização estrutural do sistema educativo português, espeta com um teste que contraria tudo o que deve ser a tal aprendizagem inovadora e portadora de futuro. Parece-me óbvio, conclusão minha, que a OCDE não quer saber do talento e sonhos que cada aluno transporta, tampouco olha para a aprendizagem de acordo com o que a investigação científica tem evidenciado. E têm sido muitos os pensadores e investigadores a alertar! Compreendo, porque se trata de uma organização que tem por objecto a generalização do seu conceito de "desenvolvimento económico", eu diria, colonial, logo, interessa-lhe a tendencial padronização de todos os sistemas ao serviço dos seus interesses. Dir-se-á que, no âmago, caminha pela "(...) Educação vendida a metro" (é de Economia que estamos a falar) como sintetizou o inesquecível Padre José Martins Júnior, numa das nossas longas e proveitosas conversas. 

Para mim fica claro: a OCDE não está interessada em sugerir mudanças significativas. Sem se imiscuir nos países, era o que faltava, interessa-lhe, apenas, semear exigências e recolher os resultados das elites. Regresso a Gentili: "(...) La OCDE parte de un principio equivocado, de que hay una forma de pensar el desarrollo y el mundo, que es universal, de Shanghái hasta República Dominicana, todos los jóvenes con 15 años tienen que saber un conjunto de cosas que son fundamentales para sobrevivir y progresar en la vida". (...) El fundamento se basa en lo que piensan "un conjunto de burócratas" de una organización dedicada a la economía mundial de los países más poderosos del mundo y que se impuso como la visión dominante "a partir de la cual es posible pensar y presentar los objetivos de la educación".

Portanto, para a OCDE a escola não deve ser cultura e alicerçar-se no "conhecimento poderoso", como sublinhou o Professor Domingos Fernandes, ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação, antes prefere, deduzo, a resposta decorada e repetida até à exaustão às perguntas e formatos que interessam aos senhores que dominam a economia mundial. PISA é, de facto, um desastre! Como o são os "ranking´s" das escolas portuguesas ao compararem o incomparável. Conhecer o que PISA intencionalmente esconde e os princípios e valores da OCDE, seria bem mais proveitoso do que olhar de forma fria para o "ranking" de países no sector educativo.

Por outro lado, PISA (destinado a alunos com 15 anos), em síntese, acaba por assentar na grande falha da escola tradicional. Salman Khan, fundador da Academia Khan, assumiu que essa falha está "no conteúdo distribuído de forma fragmentada (por disciplinas), em temas autoconclusivos com todas as conexões cortadas. (…) A escola tradicional não responde ao funcionamento do cérebro, porque as redes neuronais funcionam com a associação de ideias, não com temas estanques (...) O outro problema das salas de aula, é a mentalidade de que é preciso seguir o programa, respeitar um calendário e, obcecadamente, avaliar a todo o momento. E não deve ser assim. Porque cada um, enalteceu Khan, tem um ritmo de aprendizagem diferente. E se não aprenderem no seu ritmo, acumulam lacunas". 

Ora, para a OCDE, entre muitos de pensamento estruturado, Jack Ma, empresário chinês, cofundador do Alibaba Group, certamente que não passa de uma figura com ideias insensatas, quando assumiu em Davos:  "(...) A educação é um grande desafio. Se não mudarem a forma como estão a ensinar, nos próximos 30 anos terão problemas. A maneira como ensinamos, as coisas que ensinamos aos nossos filhos são as coisas dos últimos 200 anos. Não podemos ensinar os nossos filhos a competir com máquinas. Eles são mais inteligentes. Os professores devem parar. (...) Temos que ensinar algo único. A máquina nunca pode sobrepor-se. Estas são as habilidades suaves que precisamos de ensinar: valores, o pensamento independente e o trabalho em equipa. Devemos ensinar aos nossos filhos: o desporto, música, pintura para fazer seres humanos diferentes. Tudo o que se ensinar deve ser diferente (...)". 

Aliás, a OCDE não está preocupada em estudar, profundamente, os vários sistemas educativos, olhando-os de uma forma multifactorial conducentes a apresentar contributos que possam tornar a aprendizagem mais robusta e consistente. Ela deseja, subtilmente, influenciar para padronizar. Ela não entende que o acto pedagógico consequente implica um rompimento com a postura tradicional de "ensino". Ela apenas coloca PISA no eixo da questão e espera reajustamentos. Pessoalmente, estou mais preocupado em analisar a rede escolar e a tipologia dos estabelecimentos de aprendizagem; preocupado com os transbordantes currículos e programas que infernizam alunos e professores; com a escola a tempo inteiro e pais a meio tempo; com o número de alunos por estabelecimento de aprendizagem; com o ingresso e enquadramento dos alunos estrangeiros; com os conceitos de aula, sala de aula e de turma; com as causas da indisciplina geradas a montante da escola; com a agressão que está a ser perpetrada às crianças e jovens através da ocupação do tempo de infância e exigências descabidas (diariamente, estão mais assoberbadas que os adultos); com o seu desenvolvimento motor; com as múltiplas iliteracias; com a organização estrutural das escolas, a sua autonomia real, financiamento e mentalidade do corpo docente; com a formação inicial dos professores; com a situação caótica entre docentes, onde o envelhecimento, o Burnout e a desmotivação alastram; com a excessiva e enervante burocratização do sistema que impede que os professores se dediquem à aprendizagem; com os alunos com necessidades educativas especiais; com a resposta à pergunta: temos professores a menos ou sistema educativo a mais?; com a utilização da tecnologia enquanto indutor fundamental do conhecimento; com a tendencial privatização do sistema educativo e a clara "desequidade educativa" na feliz expressão do Professor David Rodrigues; com a doentia obsessão pela avaliação e não pelo "conhecimento poderoso"; estou preocupado com as políticas de família, porque se a sociedade está doente, a escola não pode estar melhor; estou preocupado com o silêncio dos professores, com a ausência de diálogo com os jovens numa espécie de come e cala-te... por aí fora! Portanto, não é PISA que resolve o "genocídio educacional" de que falou José Pacheco. Definitivamente, não é. PISA, sejamos claros, rejeita que "uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia" - Michael Montaigne (1533/1592). A OCDE não se dá conta que há estudos transversais que evidenciam que "este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes" - Deborak Stipek. 


Nos longos debates e comentários que tenho assistido nos últimos dias, todos centrados nas margens dos verdadeiros problemas, uma jornalista, valha-nos isso, foi assertiva. Sandra Felgueiras olhou para o Ministro da Educação e perguntou: "O Senhor é pai de três filhos. O que é que diz aos seus filhos quando lhe dizem... oh pai, a escola é uma chatice. Eu vou lá aprender uma série de coisas que não interessam para nada.(...) Por que é que temos tantas disciplinas e uma carga horária tão elevada (...) o modelo de ensino que existe hoje é atrativo para os alunos? Não existirá aqui uma completa dissonância entre aquilo que se aprende na escola e a forma como os alunos gostam?" Certamente que a jornalista queria se referir à dissonância entre a escola e a vida. O Ministro, que me parece pouco experiente e dotado para o cargo que exerce, andou às voltas e não respondeu. Contornou e fugiu. E aquelas eram perguntas chave. Eram o fio da meada enquanto ponto de partida para o debate que urge. 

Ora bem, não se é reformador pela digitalização dos exames de 12º ano. Reformar o sistema é uma tarefa exigente porque é multifactorial, exige paciência, por isso mesmo leva muitos anos, onde deve persistir o princípio da continuidade funcional (princípio do desenvolvimento), independentemente da cor política que governe. A propósito, na Página da Educação, nº 227, edição de Verão de 2026, pág. 61, li um artigo de Maria Lopes de Azevedo. Começa assim: "Se a Escola fosse uma peça de mobiliário, seria aquele armário de carvalho maciço, herdado da bisavó que ocupa a sala toda. É imponente, é estruturante, mas está cheio de gavetas que emperram (...) estou cansada de ver tanta roupa boa escondida em gavetas que ninguém abre, enquanto os nossos alunos saem para a rua, metaforicamente falando, vestidos apenas com uma manga de cada cor. Está na hora de deitar o armário velho fora e desenhar um closet onde a aprendizagem respire. E, de preferência, que não precise de uma chave mestra que ninguém sabe onde parou". Trata-se de um artigo notável: "Das gavetas ao closet no ecossistema educativo". 

Se assim defendo é porque sustento a minha posição no rigor, na disciplina, na liberdade, na ciência, na cultura, na descentralização e porque edificar um ser humano, feliz na escola e na vida, necessita de outros olhares geradores de efectiva aprendizagem, distante da ideia que os jovens são recipientes, ou gavetas, onde se introduzem matérias, muitas, muitas mesmo, para esquecer. Tal como naquela notável série televisiva Merli, concluo: "há qualquer coisa de podre na educação". E mais, senhores da OCDE: "não há conhecimento útil, se não nos fizer melhores pessoas" - investigador Miguel Santos Guerra. Esqueçamos PISA e, debatendo, caminhe-se no sentido de uma escola de qualidade.

Ilustração: Google Imagens.