quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A MÁQUINA, OS PINGOS DE CHUVA E A FERRUGEM!


Em uma apreciação ao comportamento político dos actuais secretários regionais da Madeira, escreveu o jornalista Vítor Hugo, do DN (e bem), relativamente ao secretário regional da Educação: "A sua discrição tem valido com que passe entre os pingos da chuva sem que se molhe muito." Excelente síntese. Eu apenas acrescentaria na observação política que faço: "sem se molhar". E aqui é que reside o verdadeiro problema. Um político tem de expor-se e tem de molhar-se. Só assim será possível acrescentar alguma coisa ao pré-existente. Quando mantém o fatinho político impecável, engomadinho e impermeabilizado, obviamente, que está a repetir o passado, ou melhor, significa que existe apenas para deitar óleo na máquina velha e ferrugenta. E a máquina, peça antiga da Sociedade Industrial, retocada aqui e ali, digna de figurar em um museu da História da Educação, continua a arrastar-se na engrenagem de ontem, por ausência de uma vontade política em encontrar outras mais adequadas aos tempos que correm. Não por ausência de cabimentação orçamental, mas por negligência, para não dizer outra coisa.



Espantoso é o facto dos homens e mulheres de hoje, olharem para essa máquina que percorreu mais de duzentos anos, e não lhes suscitar uma interrogação, uma inquietação: que faz ela aqui? Por que não substituímos esta sucata em função dos novos paradigmas do desenvolvimento? Por que teimam em manter uma engenhosa estrutura que olha para trás e não para o futuro? Uma máquina que, insensível, repete e repete, que não sabe fazer mais do que repetir, mecanicamente, o passado, pode ter lugar no mundo organizacional, neste caso, curricular, programático e sobretudo pedagógico de hoje?
Há uma ausência de questionamento sobre a máquina. Há silêncios a mais. Há braços caídos e até mesmo uma sensação de que não vale a pena. Ou melhor, é mais fácil manter a rotina do que molhar o fato perante a chuva de críticas que a todo o momento cai. A insatisfação existe. A angústia dos trabalhadores é evidente. O Síndrome de Burnout alastra-se ao longo do ano, a baixa médica acontece com frequência, os "serventes" dizem que aprendem mais de 60% fora da fábrica, mas a máquina continua a funcionar, repito, mecanicamente, alheia a tudo, surda e muda ao mundo e aos apelos dos vários sistemas que, hoje, para ela olham com desdém. A chuva cai, cada vez com mais intensidade, impiedosamente, mas o óleo permite-lhe que funcione! As fábricas abrem às oito, o patrão chega às nove, olha para os relatórios e manda disponibilizar mais óleo ou WD 40. Tal qual um relógio suíço e à semelhança da Sociedade Industrial, toca para entrar e toca para fechar e, no dia seguinte, a roda dentada volta a funcionar, cada vez mais lentamente, mas funciona. Com mais ou menos "projectos".
Há dias escutei, de passagem, alguns debates sobre o funcionamento da fábrica. Todos os gerentes das sucursais por aí espalhadas, genericamente, deram-se por satisfeitos com o patrão, com o funcionamento e com a produção. O patrão manda, nós obedecemos e paga no dia certo. Isso é que interessa. Percebi-os, a todos. Apenas um que quis explicar a máquina, um que mais parecia uma caterpílar com parafusos soltos tal o ruído produzido, fez-me mudar de canal, por não aguentar tanta torrente de disparates. Em contraponto, escutei um ou outro com alguma mensagem subtilmente dirigida ao patrão da fábrica. 
Ora, eu sei que meter o pauzinho na engrenagem da máquina necessita de conhecimento e sobretudo coragem para enfrentá-la. Acredito que, em alguns casos, existindo conhecimento (existe com certeza), a coragem é reprimida. Tenho pena, porque todos vamos continuar a pagar cara a produção, porque tal como sublinhou o jornalista, a discrição faz com que o patrão passe "entre os pingos da chuva sem que se molhe muito". Lamento, pelos trabalhadores da fábrica, pelos "serventes" e pela produção futura. A aquisição do conhecimento (produção) já não se faz com "peças" de museu. Deve-se apreciá-las, mas não segui-las.
Ilustração: Google Imagens.

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