segunda-feira, 4 de março de 2019

APENAS UM FRAGMENTO DE UMA ENTREVISTA: "A ESCOLA TEM DE SE REMODELAR"



A edição de hoje do DIÁRIO traz uma interessante entrevista com o médico pediatra Mário Cordeiro. Ele é autor de vários livros, entre os quais destaco o último, "Pais apressados, filhos stressados". A determinada altura, a jornalista Ana Luísa Correia, questiona-o sobre o actual sistema educativo. A resposta, óbvia para quem pensa os assuntos da Educação, veio célere: 

"(...) Sou extremamente crítico relativamente ao sistema educativo. Não quero adiantar muito porque isso dava pano para mangas. A escola tem de se remodelar. Os objectivos de Passos Manuel, do Marquês de Pombal ou de João de Deus - escrever, ler e contar - já passaram de moda. Hoje a escola tem de dinamizar talentos; ensinar a arte, estética, ética; formar cidadãos, pessoas solidárias e empáticas, voluntárias, frugais; incentivar o relacionamento do aluno com o ambiente e com o espaço físico, dinamizar o corpo,  exercitar o raciocínio, o querer, a criatividade e a autonomia. As restantes matérias, ditas "académicas", virão por acréscimo. O sistema de educação em que, supostamente, alguém "abre" a cabeça do aluno e despeja matéria que, no fundo, só dura até ao teste seguinte, tem de ser substituído por um sistema educativo, pluridisciplinar, em que o aluno partilha o que sabe com os outros e o professor é um moderador do conhecimento, com alguma informação, obviamente, mas dando a sabedoria (que resulta da experiência), que só professor tem... apenas porque está cá há mais tempo. O sistema educativo tem de mudar. Uma hora e meia a ouvir uma "matraca" a despejar "matéria" é de fugir... e isso contribui para o desinteresse dos alunos relativamente à escola - o professor é uma "seca" e a escola só vale pelos amigos. É pena. Onde está a música, a arte, a pintura, a escultura, a ética, os debates e dilemas sobre o bem e o mal, o voluntariado, a cidadania? Onde? (...)"

O Dr. Mário Cordeiro é um Pediatra, mas é sobretudo um PENSADOR. Assume, publicamente, aquilo que, embora em vão, tantos andam a dizer há 50 anos. Estou a reler textos, por exemplo, os do Professor Sérgio Niza, que há meio século luta por uma aprendizagem assente em bases diferentes. Nesta entrevista, a jornalista, e muito bem, subtilmente, questionou a "utopia" das suas palavras. Uma palavra devidamente enquadrada para fazer soltar o seu pensamento. E ele, em síntese, exprimiu o pensamento que é transversal a tantos autores. Já aqui escrevi e, hoje, volto a repetir, o que escutei de um professor em uma aula de Psicopedagogia. Faz agora 50 anos: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O desencontro é inevitável". Cada vez mais o desencontro acontece. Infelizmente.
O problema é que a estrutura de governo não está para aí virada. Vive e sobrevive do mediático, de uma agenda política, enferma de um distúrbio que se designa por centralização: nós definimos e vocês obedecem, ou como disse o Professor Licínio Lima: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós". Depois vêm falar de robotização, de salas de aula do futuro e de outras paranóias quando o problema é, antes de tudo, organizacional, curricular, programático e pedagógico. 

NOTA

TPC para governantes: escrever 50 vezes a declaração do Dr. Mário Cordeiro. 

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