segunda-feira, 22 de julho de 2019

"O delírio" de querer manter o "poder a qualquer preço"


Tem dia quase certo na semana para a secretaria regional da Educação tentar dizer que está viva. A imagem que acaba por transmitir é a de um acto de sobrevivência política. Os assuntos que estão na ordem do dia são, intencionalmente, secundarizados e brincam com números estatísticos, que têm muito que se lhe diga, sublinho, para tentar transmitir que o sistema está bem e recomenda-se! Não está e não se recomenda em uma região Autónoma. Mas os outros, os outros, os da oposição política e os que analisam o sistema, esses fazem "declarações sem nexo" "mentem" e caluniam". Os investigadores, os professores universitários, os professores em geral, os autores de livros e de artigos em revistas de pendor científico, coitados, têm posições "delirantes". Só um e apenas um sabe do que fala. Concluo, a que obriga a sobrevivência política!

Sistema Educativo
Não basta, todas as semanas, sem contraditório, político ou não, abastecer a comunicação social com trololós de circunstância. O sistema educativo é muito mais complexo do que um qualquer paleio balofo. O sistema contempla a arquitectura dos edifícios, os professores, os administrativos, os funcionários de acção educativa, o número de alunos por estabelecimento e por turma, os pais e encarregados de educação, os currículos amigáveis ou não, os extensos programas, repetitivos e desesperantes, o processo pedagógico, as razões da indisciplina, os projectos de escola e de vida, os tpc, a cultura, a autonomia administrativa e gestionária, a centralização vs descentralização, o financiamento, a bloqueante burocracia, a liberdade de organização diferenciada dos estabelecimentos, a acção social educativa vs pobreza, as fusões(!), o analfabetismo funcional, a inspecção transformada em "big brother" e quase vocacionada para a perseguição a docentes, as direcções tipo "duracel" que, castradas, encolhem os ombros à inovação, ou as que tentam são excluídas, as políticas de família a montante, o subtil condicionamento dos sindicatos, com veladas ameaças aos destacamentos, a importância das ligações a todos os outros sistemas que gravitam na sociedade, dando e recebendo, tudo isto e muito, muito mais conduz a uma outra conclusão: é que os tais considerados "indicadores positivos" não "animarão o próximo ano lectivo". E porque assim é recuo a Junho de 2018 e ao DN-Madeira, através da Jornalista Ana Luísa Correia, que publicou dados da Pordata:

"(...) 65% da população da Madeira, com 15 ou mais anos, tem apenas até o 9º ano de escolaridade. (...) A Madeira continua a estar pior do que a média nacional, naquela que é a taxa de abandono precoce de educação e formação (jovens dos 18 aos 24 anos que estão fora do sistema de ensino e sem o secundário): 23% na Região e 14% no País". 

Alguém acreditará que em um lapso de um ano, a Região, com uma ou outra fragilidade assumida, valha-nos isso, passou do inferno para o céu? Infelizmente, não, e o sistema não sobrevive à manipulação de dados estatísticos. 
O desastre incomoda-me, porque é o futuro que é colocado em causa. E incomoda-me porque o sistema político vive de mensagens que me fazem lembrar um antigo "patrão" da Coca-Cola ao se dirigir aos seus colaboradores: "nunca se esqueçam que estão a vender fumo". De facto, também há políticos com uma enorme habilidade para vender fumo!
Há um livro clássico "Como mentir com a Estatística", escrito por Darrell Huff, onde o autor sublinha: "(...) A linguagem secreta da estatística, tão atraente no quadro de uma cultura baseada em factos, é usada para causar sensacionalismo, para amplificar, para confundir e para simplificar o mais possível. Os métodos e termos estatísticos são necessários para comunicar um grande volume de dados sobre tendências socioeconómicas, condições de mercados, pesquisas de opinião e recenseamentos. Todavia, sem autores que usem as palavras com honestidade e sentido e sem leitores que saibam o que elas querem dizer, o resultado só poderá ser um completo disparate semântico (...) Como se fossem uns pozinhos de perlimpimpim, as estatísticas fazem muitos factos importantes parecerem aquilo que, de facto, não são (...)". 
O problema reside aqui, na ânsia de querer apresentar resultados de uma Legislatura que, de estrutural, nada adiantou, e, por isso, jogam-se uns números para mascarar a inoperância e a claríssima ausência de um projecto político portador de futuro. Foram mais quatro anos a orientar-se pelas estrelas quando existem tantos instrumentos de navegação ao dispor. Perguntem aos professores  se esta escola lhes dá prazer; perguntem aos alunos se esta escola lhes concede o prazer do conhecimento. Perguntem, vão lá, questionem, tentem descobrir se existe o sentimento traduzido pelo Físico português Alexandre Quintanilha: "eu vivo porque sou curioso". Averiguem se é verdade que só 11% dos rapazes e 14% das raparigas de 15 anos dizem gostar muito da escola", por extensão, se a escola "cativa ou é uma seca"; estudem se é ou não aceitável que do 1º ao 9º ano existam cerca de 900 metas curriculares; analisem se "os alunos contam e se têm voz nas aulas"; se o sistema segue ou não a lógica de uma linha de montagem; se os planos curriculares assentam nos interesses e talentos dos alunos; se as escolas são ou não "para inúmeras crianças e adolescentes, verdadeiras catedrais do tédio" - Ilídia Cabral, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa. Perguntem e estudem e aí, se existir inteligência e vontade política, talvez, enquanto leitor, desperte o meu interesse em seguir duas páginas que não sejam de estatística carnavalesca.
Com toda a razão, escreveu o Psicólogo Eduardo Sá: hoje "(...) um adolescente de sucesso é um "tecnocrata de mochila" aos 15 e um "ídolo" antes dos 30. É uma ideia gananciosa e vaidosa de sucesso que não devíamos reclamar para os adolescentes". É esta a mentalidade que existe e que a secretaria da Educação, insustentadamente, persegue. Daí a meritocracia e daí a luta por "cincos" e "vintes"! Daí um sistema de avaliação que, primeiro, radiografa ao pormenor o aluno, decompõe-no às postas, atribuindo-lhe percentagens para tudo e, só depois, se restar tempo, consegue olhar para o conhecimento: "o que resta depois de esquecido tudo o que aprendeu na escola" - Einstein. Deste Físico deixo, ainda, a assertiva frase: "a imaginação é mais importante que o conhecimento". Saberá o secretário o que isto significa no decorrer da formação?
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Publicado no blogue
www.gnose.eu

sexta-feira, 19 de julho de 2019

REPOSIÇÃO DA VERDADE, 18 ANOS DEPOIS!


Nota
Em todo este processo a Secretaria Regional da Educação não escapa ilesa. Independentemente da sua responsabilidade, o que para mim é chocante é o facto deste governo continuar com a sua partidarite (aguda), perseguindo professores, instaurando processos disciplinares, envolvendo-se na vida interna dos estabelecimentos de aprendizagem bloqueando a sua autonomia. Este é apenas um caso, mas outros estão a caminho. O do Curral das Freiras, por exemplo.

Texto publicado no JM:

"Os autores de uma ação judicial interposta por cinco professores da Escola Secundária Francisco Franco à Secretaria Regional da Educação ressaltam em comunicado que viram, a 4 de julho de 2019, o seu processo administrativo concluído. Uma notícia que faz hoje manchete no JM. "Desejamos que este caso sirva de estímulo a todos quantos lutam pelos seus direitos", vincam os docentes.
“Os quase dezoito anos decorridos justificam que os seus autores queiram divulgar largamente a decisão do tribunal”, começam por explicar em nota de imprensa.
O comunicado divulgado às redações é aqui citado na íntegra:
“Decorridos quase 18 anos sobre os factos, o Tribunal Central Administrativo Sul emitiu um acórdão, datado de 4 de julho de 2019, condenando a SRE a indemnizar os autores da ação judicial, José Luís Viveiros, Maria de Fátima Abreu, Margarida Menezes, José António Garcês Dias e Dulce Teixeira, professores do quadro da Escola Secundária Francisco Franco, no âmbito do recurso de contencioso relativo à homologação dos resultados do concurso para a direção executiva”, começam por referir.
“Com a garantia da aceitação do teor do acórdão, a tutela assume, finalmente, a responsabilidade do erro depois de confirmada pelos tribunais a nossa posição sobre os factos ocorridos, reforçada pelas sucessivas vitórias nas diferentes instâncias e processos, primeiramente constatando a viciação do concurso e a violação “de forma grosseira” das “mais elementares regras da isenção, imparcialidade e da transparência” (acórdão de 10 de abril de 2008) e, agora, reconhecendo os danos causados”, prosseguem.
Os mesmos docentes criticam ainda a ação da Comissão de Avaliação das Candidaturas: “No entanto, não podemos apenas apontar responsabilidades à tutela pois, embora “culpada objetiva” pela prática do ato ilícito, não é a principal responsável pela criação do facto. Os primeiros responsáveis são os três elementos da Comissão de Avaliação das Candidaturas (CAC) que ao longo do processo cometeram diversas irregularidades e arbitrariedades: mudança da data da reunião destinada a fixar os critérios de avaliação, definição destes, depois de entregues as listas concorrentes e os respetivos documentos de candidatura, e alteração desses mesmos critérios mais tarde, já no decurso do processo avaliativo, ajustando-os de forma habilidosa à medida de uma das listas. Igualmente responsável é o Conselho da Comunidade Educativa, então órgão de direção da escola (do qual faziam parte os referidos elementos da CAC), que deu cobertura a estas irregularidades e arbitrariedades”, lê-se.
Referem ainda que a “indemnização agora fixada pelo tribunal resulta apenas de causa legítima de inexecução, dada a impossibilidade de serem ressarcidos os autores pelos prejuízos de natureza profissional, pessoal, moral e psicológica, não quantificáveis”.
“Aliás, o valor da indemnização foi sempre secundário: o que nos moveu foi a VERDADE e, neste caso, procurámos fazer valer a obrigação da observância das regras disciplinadoras dos procedimentos administrativos. O erário público poderia deixar de ser beliscado uma vez mais se a VERDADE tivesse estado presente neste processo”, vincam.
“Desejamos que este caso sirva de estímulo a todos quantos lutam pelos seus direitos (sociais, laborais, administrativos) e que se traduza em mais e melhor controlo das ações praticadas pelas pessoas e pelas estruturas responsáveis que, por vezes, condicionam tais ações”, acrescentam.
Agradecem, por último, aos que os acompanharam e apoiaram ao longo de todo o processo, fazendo referência neste ponto aos advogados Simplício Mendonça e João Lizardo que prestaram todo o apoio jurídico, e não só, bem como todos os amigos."
Ilustração: Capa JM e foto DN-Madeira

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Por detrás dos Exames Nacionais



FACTO

"Carta do leitor" publicada na edição de hoje do DN-Madeira:

"Muito objetivamente: como se explica o desfasamento entre os resultados escolares – um longo percurso – e os resultados de um exame realizado em poucas horas? Certamente, não me compete a mim explicar; cabe-me, contudo, questionar enquanto mãe preocupada e indignada, onde residem as falhas? Pois, só podemos melhorar se identificarmos os erros. Não terão os alunos (aqueles que se aplicam o ano todo) estudado o suficiente? Não estarão os professores a ensinar de forma correta e adequada ao Programa exigido pelo Ministério da Educação? Não estarão as escolas direcionadas para um ensino de qualidade, correção e justeza? Que descalabro nacional foi este? E porquê somente em determinadas disciplinas? Urge uma análise séria, transparente e profunda! Alguém que a faça, por favor! (...)" - Filomena Costa.

COMENTÁRIO

Esta carta, por múltiplas razões, não só é oportuna como formula questões que deveriam ser objecto de profunda reflexão. Sobre esta matéria já aqui defendi a minha posição e, embora corra o risco de ser repetitivo, regresso ao assunto com algumas breves notas susceptivas de provocarem o debate. Sublinha a leitora: "(...) só podemos melhorar se identificarmos os erros". Aqui está o cerne da questão. O problema é que ninguém quer identificar os erros. Os políticos andam entretidos com as margens do problema e não com o âmago. Discutem, por exemplo, se o ano escolar deverá ter três trimestres ou dois "semestres", aspecto de somenos importância, mas não discutem as verdadeiras questões da autonomia gestionária, as questões da diversidade, os currículos, os programas e os paradigmas pedagógicos. O sistema está refém de uma mentalidade confusa e incongruente, que tem vindo a passar por gerações sucessivas, incapaz de, corajosa e paulatinamente, procurar novos caminhos. Os próprios pais e encarregados de educação, genericamente, sobrevalorizam este tipo de escola, claramente desfazada do tempo que estamos a viver, até porque nunca lhes ofereceram uma alternativa. Ninguém se mostra interessado em mexer no núcleo, onde quase tudo está por fazer, talvez no pressuposto infantil que se alicerça no receio de trocar o conhecido pelo desconhecido. Dá muito trabalho! E sendo assim, jogam com balofas meritocracias e com um "campeonato de vintes" enquanto espectáculo mediático. Fico por aqui nas considerações sobre as quais tantas vezes me tenho posicionado, mas deixo uma pergunta baseada em um cálculo simples e elaborado em números que apenas pretendem ilustrar a caricata situação dos exames:

Entre o 5º e o 11º medeiam 7 anos. Admitamos uma média de nove disciplinas por ano. Cada disciplina dispõe, em média, de três avaliações formais por período, o que significa nove por ano. Multiplique-se nove avaliações por nove disciplinas e obtemos o valor de oitenta e uma avaliações por ano. Em sete anos um aluno, neste sistema, é avaliado, em média, repito, 567 vezes pelos professores, afora outras avaliações, muitas, até, de natureza subjectiva. Grosso modo, é avaliado entre 500 e 600 vezes. Pergunto: em uma escola séria, honesta, de rigor e qualidade serão necessários exames?

Acrescem, ainda, as provas de 4º ano e os anos sujeitos a aferição do sistema. Para quê? Se desejam aferir o sistema, basta que, aleatoriamente, escolham, por ano, um determinado número de alunos e apliquem um teste. Se bem delineado, os resultados, com margens de erro pouco significativas, poderão ser extrapolados para a população geral.
Quanto ao 12º ano, ainda é necessário um exame de acesso. Mas convicto estou que, mais cedo que tarde, o formato será outro. 
Muito poderia discorrer sobre este posicionamento. Não se trata de quadros de facilismo, pelo contrário, não abdico de um sistema organizacionalmente pensado no conhecimento. E tudo é possível aprender! É, por isso, que me encontro nos antípodas deste sistema que não conduz ao saber, que não respeita vocações e projectos de vida e que se entretém em debitar matéria para avaliar e logo de seguida esquecer.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 16 de julho de 2019

A Cesta de Ovos


Por
DN-MADEIRA
16 JUL 2019 

Era uma daquelas cestas tradicionais, em vime natural, com uma pega para ser levada pela mão, da mesma forma como, já na altura, as senhoras usavam as malas de alça curta. Embora os manuais escolares viessem de Lisboa, aquela cesta, impressa a cores no livro da 1ª Classe, parecia o desenho fiel das que o meu avô fazia, no sítio da Ribeira Funda, em São Jorge, com as suas hábeis e firmes mãos (e pés, porque os usava, sempre, para manter os vimes em posição). Por baixo da cesta, numa letra redondinha e perfeita, como só os livros de instrução primária reproduziam, eu lia: ‘os ovos’. E dentro da cesta, acumulados em boa altura, justificava-se a legenda com as típicas formas brancas, estas imaculadas, ao contrário das do galinheiro lá de casa, que sempre denunciavam o orifício de onde provinham. 

As longas férias de verão já se arrumavam no baú das memórias, mas, naquele momento, os cheiros que a escola e o outono misturavam não me eram estranhos. Apesar de, com 7 anos feitos, estar perante o livro do primeiro ano de escola, aquele era o dia para iniciar a 2ª Classe. E coitado de quem não tem berço, coitado de quem não tem padrinhos (até os tinha, os de batismo, mas estavam na Venezuela, ou ainda na África do Sul).
A sala da 2ª Classe, no primeiro andar, estava demasiado cheia. Mas ainda havia folga na da 1ª Classe, no rés do chão. Ambos os professores conversaram e decidiram. A dedo, escolheram um grupo de alunos, de entre os novos da 2ª Classe, eu incluído. Descemos as escadas, e voltamos a entrar na sala de onde havíamos saído, com aprovação, no ano letivo anterior. O forte cheiro a tabaco denunciava a proximidade do professor, e recordava o tempo anterior às férias grandes. Abriu o livro, também familiar, e, apontando com o dedo, pediu que lesse. ‘Os ovos’, li. E a sentença veio imediata. ‘Viste pelo desenho’, disse, ‘ficas mais um ano na 1ª Classe’.
Nenhum de nós, os escolhidos a dedo, se safou naquela prova.

Uma criança pode não ter argumentos perante a autoridade de um adulto, mas tem sentimentos. E a injustiça pode ser sentida profundamente, como eu senti naquele momento. Tão profundamente que, hoje, continua bem gravada na minha memória. Foi o único ano que “perdi”, e embora não saiba o que efetivamente me foi roubado, pois desconheço o que teria sido o meu percurso escolar alternativo, sei que ganhei uma profunda intolerância perante as injustiças. 

Porque uma criança também pensa, mesmo quando nada diz, questionava-me o porquê de não me ter sido dada a ler uma palavra sem desenhos. Pensei até que, se tivesse lido pelo desenho, o mais provável seria mencionar a cesta e não apenas os ovos. Pensamentos que ficaram comigo, porque, naquela altura, as crianças também eram amordaçadas.
Anos depois, no fim da primária, apesar de bom aluno, o professor queria reter-me mais um ano, porque ‘eu era muito novo para mudar de escola’, dizia. Salvou-me a minha mãe, que dessa vez foi firme. A mesma sorte não teve o meu colega da carteira da frente, também bom aluno e de famílias sem grandes recursos, como eu, mas ainda mais franzino... E assim se produziam novos emigrantes. Assim se mantinha o status quo social. Naturalmente que os filhos de famílias mais ricas, como os desses mesmos professores, nunca ficavam retidos pela idade, ou por outro argumento irracional, e ilegal, qualquer.
Hoje as injustiças continuam. É no acesso ao emprego. É no acesso aos cuidados de saúde. É no acesso à educação. A competência importa pouco, continua a valer mais a influência económica, social e política. A cunha, essa instituição secular, e o preconceito, uma nódoa que se entranha na alma de todo um povo, continuam a minar o terreno que pisamos. E o pior é quando se arvoram novos tempos que se constroem em cima dos mesmos alicerces e das mesmas paredes-mestras. Estejamos atentos.

domingo, 14 de julho de 2019

O que uma escola portuguesa faz com as novas tecnologias


A escola tem rede sem fios, ligação segura por login aberta a todos os utilizadores. Cada aluno, do 1.º ao 4.º ano, tem um dispositivo pessoal que é usado em projetos, atividades e várias tarefas. Cada sala de aula do pré-escolar tem um computador e um quadro interativo. Cada aula tem um caderno digital e as lições e os conteúdos são enviados para o bloco de notas da turma. Professores e alunos criam os seus próprios recursos - textos, vídeos, músicas, jogos, apresentações, ideias, mapas mentais - que estão disponíveis em qualquer lugar, a qualquer hora.

As novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) fazem parte do quotidiano de crianças e jovens e já estão nas escolas. O seu papel na Educação tem sido reconhecido e é, aliás, destacado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como uma ferramenta que deve ser aproveitada para fortalecer os sistemas educacionais, disseminar o conhecimento, fornecer acesso à informação, promover qualidade e aprendizagem da maneira mais eficiente. No entanto, há evidências que demonstram que sistemas educativos e estabelecimentos de ensino raramente estão preparados para aproveitar as virtudes das TIC, das novas plataformas que estão em todo o lado. 
Esta realidade, a relevância do mundo digital, e a vontade de estimular ambientes inclusivos de aprendizagem, merecem atenção da UNESCO, organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. O caso do Colégio Monte Flor, em Carnaxide, é analisado e mostrado com uma referência pela UNESCO, que está atenta a práticas e modelos bem-sucedidos nas escolas, bem como na partilha desses exemplos.
O Colégio Monte Flor é uma escola privada do 1.º Ciclo, fundada em 1973, que defende uma aprendizagem individualizada, em que cada criança deve ser valorizada pelos seus talentos e aspirações. Neste momento, tem cerca de 200 alunos e 13 professores entre 35 funcionários. Em 2013, percebeu a importância das novas tecnologias. Em 2016, desenvolveu um modelo centrado nos alunos, fez mudanças na avaliação, passou a dar mais importância ao pensamento crítico, à criatividade, à comunicação e colaboração, ou seja, às habilidades sociais. E também a outras competências que se podem manifestar através de projetos realizados nas escolas. 
A abordagem está focada em projetos, combinou-se um currículo centrado no aluno com o programa nacional, e tudo se interliga. Todos os projetos começam com perguntas e questões feitas em conjunto, alunos e professores, para estimular a imaginação e discussão. Todos os meses há uma assembleia para discutir desafios e estratégias para a implementação de projetos. 
Os projetos duram, regra geral, um mês, mas podem ser mais curtos ou mais longos. Começa com uma questão. Por exemplo: Como podemos usar o nosso dinheiro? É feito um mapa numa parede com várias perguntas. O que aprender? O que fazer? Como fazer? Quando? Quem? As atividades são distribuídas e os alunos têm a palavra para dizer se concordam ou não quanto ao que farão no projeto. Se a ideia é, por exemplo, criar um mercado para falar de dinheiro, é preciso fazer etiquetas com preços, cartazes, decorar o espaço, organizar o local, dispor os produtos, pensar e criar publicidade. É então feito um calendário para organizar o trabalho e o projeto é executado. 
“A apresentação do projeto é uma celebração da aprendizagem. Os alunos fazem apresentações, teatro, vídeos, eventos”, lê-se no relatório da UNESCO. Depois é hora de avaliar, o que os alunos mais gostaram, o que menos gostaram, o que poderia ter sido diferente, o que se mudaria. É tempo de partilha no bloco de notas do OneNote, que está acessível a todos os alunos.

Autonomia, respeito, determinação

“A tecnologia não está no centro, mas é crucial para o sucesso do processo de aprendizagem, pois tudo depende disso”, lê-se no documento. A avaliação, os recursos, a comunicação, e o processo criativo, são feitos com dispositivos móveis, com novas tecnologias. E todos, alunos, pais, professores, estão interligados. Neste colégio português, valoriza-se a autonomia, a responsabilidade, a determinação, o respeito, a cooperação, porque há consciência de que o sucesso na vida depende dessas competências desenvolvidas na escola. 

Aprender a qualquer hora e em qualquer lugar. Explorar talentos, desenvolver habilidades, estar preparado para o século XXI. Tudo isso importa, tudo isso contribui para a educação. No início do ano letivo, explica-se a visão da escola e os projetos aos pais e encarregados de educação. O Colégio Monte Flor usa as plataformas digitais no dia-a-dia e sente que, nos últimos dois anos, há um maior comprometimento com a abordagem escolhida, ou seja, a utilização de tecnologia por parte dos alunos que vivem num mundo imerso em meios digitais. “A tecnologia está presente em tudo o que nos rodeia e a aquisição de competências digitais é a chave para o sucesso, não só no futuro, mas também no presente”. 
Por isso, a tecnologia faz parte da aprendizagem, 
do processo de aprender. 

Em 2009, o programa nacional E-Escolas proporcionou o acesso dos alunos a tablets a baixo custo ou, em alguns casos, de forma gratuita. O colégio aproveitou a oportunidade e viu mais além. Os professores receberam formação intensiva para massificar o uso de novas tecnologias na escola que assumiu o Office 365, aderiu à Escola Virtual e ao Weduc. O E-Escolas foi cancelado, mas o colégio continuou o caminho. “A escola tem hoje um modelo bem consolidado em que pais, professores e alunos sabem o que esperar da escola, mas a escola também sabe o que esperar de todas as partes envolvidas”. 
Os alunos podem adquirir conhecimentos em qualquer lugar e o colégio sabe disso. Nesse sentido, as crianças têm oportunidade de explorar o conteúdo de cada currículo através da Escola Virtual, uma plataforma de recursos digitais com matérias das várias disciplinas. Os alunos são encorajados a explorarem sozinhos a ferramenta, mas há um professor responsável por monitorizar e avaliar o progresso de cada um. “Aprender no seu próprio ritmo é a principal ideia no uso desta plataforma, onde os alunos podem explorar vídeos, atividades, documentos sobre todos os tópicos do currículo, podem avaliar os seus conhecimentos, e se alguma coisa não for entendida, a ferramenta sugere exercícios e outros recursos”. 
A tecnologia é importante, mas os alunos são sempre o centro da aprendizagem. “Hoje, mais do que nunca, a escola desafia os seus alunos a sonhar, pensar, discutir e, mais importante, criar”. Esta é uma premissa importante do Colégio Monte Flor. Os meios tecnológicos ajudam a comunicar com os colegas, a procurar informações, comparar dados, confrontar diferentes opiniões. A tecnologia é um poderoso aliado na educação. Faz parte da escola, faz parte da vida dos alunos. 
O percurso está traçado. Estratégias e metas em torno de um modelo de ensino que integra as TIC no processo de ensinar e de aprender. Avaliação e monitorização para acompanhar o trajeto escolar, verificar o que se pode melhorar. Uma escola em constante mudança e que não cruza os braços. Fibra ótica para aumentar a velocidade da internet, políticas e regras para a utilização dos dispositivos móveis. Mas as mudanças na pedagogia não foram alcançadas sem dificuldades. Os pais tiveram de adaptar novas formas de trabalhar com os filhos e a escola manteve-se atenta com explicações e reuniões. “O uso de plataformas digitais para se comunicar com os pais, o uso de vídeos na escola, ou vídeos tutoriais explicando procedimentos e conteúdos, são cruciais para uma melhor compreensão da maneira como o processo de aprendizagem ocorre na escola”. 

Ampla variedade de recursos

A escola tem rede sem fios, ligação segura por login aberta a todos os utilizadores. Cada aluno, do 1.º ao 4.º ano, tem um dispositivo pessoal que é usado em projetos, atividades e várias tarefas. Cada sala de aula do pré-escolar tem um computador e um quadro interativo. Cada aula tem um caderno digital e as lições e os conteúdos são enviados para o bloco de notas da turma. Professores e alunos criam os seus próprios recursos - textos, vídeos, músicas, jogos, apresentações, ideias, mapas mentais - que estão disponíveis em qualquer lugar, a qualquer hora.
Nos últimos três anos, 63 alunos estiveram envolvidos em atividades de codificação com Kodu e Lego Mindstorms e, desde 2015, mais de 150 partiparam no Dia da Internet Segura. Este ano, vários alunos estiveram em várias empresas e instituições, nomeadamente no Ministério da Justiça e na Siemens, a sublinhar quão importante é a alfabetização digital e a segurança no mundo da net. O colégio tem ainda um laboratório de aprendizagem com nove computadores, uma playstation, uma televisão, um projetor de alta definição na parede e um quadro interativo. Esta sala, inspirada no Future Classroom Lab em Bruxelas, é usada frequentemente. 
O corpo docente é estável, a faixa etária anda entre os 23 e os 63 anos. Todos os docentes e educadores são pós-graduados, têm vastos conhecimentos no uso de tecnologias no ensino. Há formações constantes, workshops para trocar ideias e refletir sobre estratégias. Os professores participam em eventos com outros docentes em várias partes do mundo para a partilha de experiências pedagógicas. Todos os professores do colégio são membros da Comunidade de Educadores da Microsoft. Em 2011, um dos professores do colégio foi reconhecido como um dos 18 professores mais inovadores no Fórum Global da Microsoft. Em 2013, o colégio foi considerado, pela Microsoft, com uma das 150 escolas de excelência no uso das TIC em todo o mundo. 
Desde o Natal de 2018, que os alunos preparam e apresentam uma peça num lar de idosos, com uma demonstração de Robótica, organizam jogos de tabuleiro, e apresentam danças interativas para promover a atividade física. “A ideia deste projeto não é complexa. No entanto, o projeto tem um grande impacto social, não só na vida dos idosos, mas também na forma como os alunos veem, sentem, e interagem com eles”. 
Os alunos do Colégio Monte Flor têm vindo a ganhar prémios nas áreas de Ciências, Matemática, Português, Desenho, Desporto. É uma escola inclusiva e acessível a todos. “Ao dar aos alunos a oportunidade de comunicarem e aprenderem a qualquer hora, em qualquer lugar, a escola está a respeitar ritmos diferentes de aprendizagem. Dar às crianças uma ampla variedade de recursos significa que os seus estilos de aprendizagem individual são respeitados, permitindo uma melhor compreensão dos assuntos. Os professores dão oportunidade aos alunos de realizarem os seus próprios projetos”, lê-se no relatório da UNESCO. 
O modelo do uso das novas tecnologias, como uma poderosa ferramenta para a aprendizagem no século XXI, está consolidado. O próximo passo da escola “é tornar o processo de aprendizagem ainda mais flexível, permitindo que os alunos aprendam com mais autonomia e mudem gradualmente aulas, assuntos, lições”. Um objetivo para alcançar até 2020. O caminho feito até agora é positivo. “O feedback que os professores vão tendo de ex-alunos e de pais é que o modelo os prepara para a vida, para a mudança, para o pensamento crítico e para se adaptarem a qualquer situação”. Uma escola portuguesa que é um exemplo para a UNESCO.

Fonte: Educare 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

EDUCAÇÃO - UM LOBO EM PELE DE CORDEIRO. CHEGA!


A “carta do leitor”, publicada na edição de hoje do DN-Madeira, enaltece quem a escreveu e mancha o político que, circunstancialmente, chefia a secretaria regional da Educação. Em causa está, de novo, o Professor Joaquim José Sousa, vítima de uma vergonhosa perseguição por parte do titular daquela pasta governamental que o “condenou” a seis meses sem salário. A citada carta deixo-a em baixo para que os leitores a possam ler. 

Parabéns Senhor Engenheiro Paulo Madeira pela manifestação pública de uma situação profissional e socialmente indecorosa. É verdade que não é a primeira vez que tal acontece, porém, tem sido evidente um enervante silêncio de tantos que deveriam se posicionar, exceptuando 499 cidadãos que assinaram uma petição pública (só professores trabalham na Região cerca de 6.500!). 
Até no plano político, as diversas forças, com algumas notas positivas aqui e ali, não têm exercido a necessária pressão no sentido de colocar um ponto final neste claríssimo “bullying”. Queixam-se que ele existe na escola entre alunos, mas o político faz o mesmo; queixam-se de alguma violência entre alunos, para isso criaram a “carta da convivialidade”, mas o político é o primeiro a gerar uma violência gratuita ou assédio moral a um Professor cujo “crime” foi o de sonhar com uma Escola diferente e amiga das crianças.
Pior, o secretário, comprovadamente, não foi nem sério nem honesto na Assembleia Legislativa da Madeira e o seu mal foram batatas! Continua lobo em pele de cordeiro a passear e a anunciar, não diria generalidades, mas autênticas banalidades, quando o sector da Educação exige respostas que saiam de uma comezinha gestão feita sem qualquer rasgo. Será por ciúme do Professor Joaquim ou será por incapacidade visionária? O futuro o dirá, embora esteja convicto que a maldade não passará no Tribunal.

JOAQUIM SOUSA

Conheci o Dr. Joaquim José de Sousa recentemente. Mostrou-se uma pessoa afável, educada e extremamente sabedora dos temas da educação e convicto da importância que a educação e que os profissionais da educação têm na construção duma sociedade melhor.
A pessoa que conheci em nada se assemelha aquela que o Senhor Secretário descreve. Perguntei ao professor Joaquim diretamente o que o secretário tinha contra ele e o mesmo, respondeu-me tranquilamente que não me podia responder porque ele mesmo não sabia.
Garantiu-me que nunca teve qualquer questão pessoal com o mesmo e que lhe fazia muita impressão um ódio tão vincado que levou a que a secretaria tenha feito tudo para o prejudicar a si e à sua família, seja no tipo de acusações que são lugar comum nas restantes escolas, seja na pessoa que conduziu o processo inspetivo, seja na pessoa que respondeu às dúvidas suscitadas (o próprio secretário Jorge Carvalho, seja na pessoa que lhe aplicou a sansão (também o mesmo Jorge Carvalho), que já lhe havia aberto o processo e que com este estratagema lhe retirou o direito de recorrer hierarquicamente.
Falamos sobre situações em escolas que passaram por gabinetes para renovações, 50 professores a mais numa escola com prejuízo para o estado de milhares de euros), ameaças de morte entre membros de uma direção, atestados rasgados, horas extraordinárias pagas nas férias processos em tribunal por desvio de fundos, mas nenhum caso de suspensão de 6 meses por enviar horários por email, anular matrícula de aluno que duplicou a inscrição, alterar os horários dos docentes ou abrir um curso do recorrente com autorização via 1º ciclo.

Não contente com as acusações estapafúrdias o mesmo (Jorge Carvalho) invocou o interesse público para manter o professor Joaquim suspenso, com recurso a mentiras infantis, expressou-me o Prof. Joaquim que teme verdadeiramente que a sua mulher seja colocada no Porto Moniz, a sua filha transferida para a escola da Ponta do Pargo 
e o filho transferido para o infantário do Arco de São Jorge.

Mostrou-me o Prof. documentos trocados entre a sua vice-presidente e o próprio gabinete do secretário com que depois o incriminaram.
Vi o regimento do conselho executivo que responsabiliza três pessoas colegialmente, mas apenas uma está suspensa e as outras duas vão ter o processo disciplinar, entretanto arquivado por prescrição.
Conheci um Homem com uma força tremenda e uma convicção social inabalável.
Sou grato Prof. Joaquim José Sousa, obrigado pelo seu exemplo de coragem e honestidade.

Paulo Madeira
(Engenheiro informático)

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A infância acaba aos 6!


Observador
7/7/2019

Se continuarmos por aqui, e se não cultivarmos mais as crianças para o brincar, a infância pode estar “à beira da extinção”.


A partir do momento em que a escola se tem vindo a transformar no “trabalho infantil” do século XXI, temos cada vez mais famílias a fazer com que os seus filhos entrem nela mais tarde – aos 7 – para que tenham direito a mais um ano de infância(!). Ou seja, no século XXI a infância parece terminar aos 6! Se, dantes, a escola se caracterizava como “O” indicador mais inequívoco das crianças com direito à infância, hoje, até porque todas elas vão (felizmente!) à escola, aquilo que distingue as crianças que têm infância daquelas que não a “têm” é o brincar. O tempo e a qualidade do brincar diários que os pais reservam para os filhos.
Como as crianças têm menos tempo de infância, menos irmãos e famílias menos alargadas, menos actividade física, menos recreio, menos convívio e menos relação com o ar livre, receio que tenhamos crianças cada vez mais quietas, mais apáticas e mais caladas. Crianças que não crescem aprendendo com o corpo mas contra o corpo. Crianças que convivem com famílias muito pequenas. Que não brincam tanto como deviam. Que vivem espartilhadas em compromissos escolares e confinadas a espaços reduzidos. Que, muitas vezes, mandam muito mais nos pais do que deviam. Que, por isso, se vão transformando em “novos chefes de família”. E que são tratadas como adultos de tamanho “S”. Restam-lhe os amigos. E os jogos! Até porque (já repararam?) as lojas de brinquedos vão morrendo, aos bocadinhos. Por outras palavras, a solidão no crescimento das crianças começa a ser assustadora. Se continuarmos por aqui, e se não as cultivarmos mais para o brincar, para a palavra, para a fantasia e para as histórias – de forma a minimizarmos a relação (cada vez mais hegemónica) que elas têm com as novas tecnologias – por mais que falemos das crianças como nunca o fizemos, a infância pode estar “à beira da extinção”.
É, portanto, urgente que se deixe de entender o brincar como um actividade de lazer. Ou como uma distracção. Ou quase como um proforme que entendemos conceder às crianças sempre que falamos da infância. Brincar é desconstruir mistérios. É intuir e analisar inúmeras hipóteses. É formular problemas. É discorrer sobre eles e resolvê-los. Brincar é, depois de entrar nelas, “desmanchar” as histórias. E entendê-las naquilo que elas nos querem dizer. E reconstruí-las de forma sempre mais simples, mais esquemática e mais sábia. Brincar é recolher imagens e, ao recombiná-las, cultivar e expandir a imaginação. Brincar não serve para distrair; serve para lavrar a atenção. (Aliás, não há nada que incentive mais a atenção do que o brincar!) Brincar é aprender. Brincar é melhor que fazer trabalhos de casa. Brincar educa para a intuição e para a interpretação. Brincar “puxa pela cabeça”, pelo corpo e pela “alma”. Brincar é “trabalhar”. E é pensar!
Ora, sejamos razoáveis, se continuarmos a estruturar o trabalho dos adultos, unicamente, pelas horas que eles lhe dedicam e nunca pelo realização das tarefas a que se comprometem, fazemos por ignorar que as horas que os adultos trabalham nunca correspondem aquelas em que eles conseguem estar, efectivamente, atentos e concentrados, e a produzir em concomitância com tudo aquilo de que são capazes. Trabalharmos muitas horas parece ser, às vezes, uma forma de expiarmos a culpa pela forma como reconhecemos que nunca conseguimos produzir tanto quanto trabalhamos. Aliás, quando distinguimos um emprego de um trabalho – e somos capazes de estabelecer a distinção entre ambos e a expressão que alguns tornam sua quando afirmam: “Agora que me divirto, já posso deixar de trabalhar” – parecemos assumir que trabalhar é uma actividade monótona, soturna e onde ninguém nos paga para nos divertirmos. Deve ser por isso que consideramos o trabalho como o contrário do brincar. Como se o nosso trabalho e o das crianças fosse sisudo, difícil e, até, penoso. E o brincar leve, descontraído e amigo do prazer. Mas o mais grave é que, com os nossos filhos, reproduzimos estes vícios de forma. E acabamos a considerar que trabalhar é – sempre! – mais importante do que brincar.
É por tudo isto que não podemos deixar que as crianças continuem a perder, como tem vindo a acontecer desde há vinte anos, horas de brincar. É por tudo isto que é urgente que elas brinquem duas horas por dia, todos os dias! É por tudo isso que não podemos continuar a permitir que, na escola, o brincar seja uma actividade sazonal, de Primavera/Verão, e que esteja quase extinta. E é por tudo isso que, em casa, brincar não pode ser, unicamente, uma actividade de fim-de-semana. Da mesma forma como as crianças ganham quando brincam, os pais ganhariam se brincassem. Aliás, é por não saberem brincar que os pais “desconfiam” da sua utilidade! Portanto, deixe-mo-nos de “brincadeiras” e assumamos que é urgente o brincar! Para que o “fim” da infância não coincida com o início da escola. E para que todas as crianças tenham direito ao brincar indispensável sem o qual pode haver crianças sem que haja infância.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Pensar “fora da caixa” em educação


Por
DN-Madeira
05 JUL 2019

Temos um país onde 58% dos empresários tem habilitações ao nível da 4ª classe

Na sociedade atual, mercê do desenvolvimento tecnológico, nomeadamente da IA, vários estudos recentes (“Automação e o Futuro do Trabalho em Portugal”) e outros apontam para que até 2030, cerca de 1/5 dos portugueses, ficarão sem o seu trabalho, sendo substituídos por máquinas “inteligentes” de forma automatizada, por software ou robots especializados, que efetuarão trabalhos rotineiros e mesmo trabalhos que exijam algum nível de tomada de decisões. A formação que possuem, “adquirida na escola tradicional” é “estática”, pouco suscetível de adaptação a novas realidades.
1,8 milhões de trabalhadores terão de “reciclar-se” e aprender a trabalhar com estas novas tecnologias ou serão linearmente afastados do mercado de trabalho, originando um “exército de desempregados” com todas as consequências económicas e sociais e consequentes. Como pano de fundo temos um país onde 58% dos empresários tem habilitações ao nível da 4ª classe.
Em contrapartida serão criados de 600.000 a 1.200.000 novos postos de trabalho para os quais serão igualmente exigidas novas qualificações compatíveis com os ritmos de mudança cada vez mais acelerados.
2030 parece-nos uma data remota, porque fica a 11 anos de distância, mas se considerarmos um jovem que hoje frequenta o 5º ano e tem atualmente 11 anos, ele terá 22 anos em 2030, logo estará a “entrar” para o mercado de trabalho, sendo que o tipo de preparação que a escola lhe proporcionar será decisivo para essa integração.

A escola que hoje temos assenta predominantemente em modelos do Séc. XIX, herdeiras das Escolas Paroquiais e da Escolástica. 

As sucessivas alterações e reformas afetam mais a forma do que a substância do nosso sistema de ensino e mesmo a atual “gestão flexível do currículo” e a organização do ano letivo em dois períodos, bem como a introdução de tablets e de robótica, medidas globalmente positivas que, embora tornem a aprendizagem mais “interessante” e permitam ao estudante “compor” um elenco mais de acordo com o seu gosto, diluindo de algum modo o “saber atomístico e enciclopédico” e se pretenda deste modo que os saberes se consubstanciem. Estas medidas avulsas e “piedosas”, não alteram, porém, o facto de que, no paradigma atual, a tónica do binómio ensino-aprendizagem esteja ainda assente no ensino espartilhado em rígidas “fronteiras” disciplinares. Continua a ser frequente ouvir os professores falarem de “dar matéria”.
A fragmentação dos conteúdos em disciplinas de contornos herméticos, os conhecimentos teóricos descontextualizados, a forma de avaliação através de testes e exames que valorizam quase exclusivamente os conteúdos ministrados fazem parte do mesmo paradigma, que produz indivíduos possuidores do domínio duma certa quantidade de matérias e saberes, que mesmo que “bem” adquiridos, serão necessariamente finitos e perecíveis.
Tradicionalmente, o conhecimento adquirido na formação inicial, com mais algumas atualizações, era suficiente para fazer face às necessidades do cidadão ao longo da vida, bem como de uma profissão, porém, há cerca de 20 anos já se considerava que 75% do conhecimento adquirido no ensino superior, estava desatualizado passados 5 anos.

Hoje, para fazer face às necessidades atuais e presumivelmente futuras, o paradigma tem obrigatoriamente que ser alterado. O aluno não poderá mais “sair” do SE, tal como até agora com um conjunto limitado e finito de “saberes” perecíveis, mas, pelo contrário, terá de ser uma criatura pensante e aprendente capaz de se adaptar a contextos de mudança, cada vez mais acelerada ao longo de toda a sua vida. 

Os “saberes” são incontornáveis e estarão sempre “na base”, porém são insuficientes, pois não resolvem problemas, porque, para produzirem efeitos uteis, têm de ser “trabalhados” de forma a produzirem conhecimento e operacionalizados através dos métodos e processos adequados de forma a resolver um problema, suprimir uma necessidade ou consubstanciar uma ideia, ou seja, ultrapassam o domínio dos saberes, para entrarem no domínio das competências.
Os contextos mudam, e, do mesmo modo, os conhecimentos, as tecnologias e as necessidades também. Só criaturas pensantes e aprendentes estarão aptas a fazer face à mudança vertiginosa presente e expectável. Temos de estar conscientes de que estamos a formar pessoas para o exercício futuro de profissões que hoje ainda não existem.
O ensino obrigatório hoje já não prepara os alunos para o exercício duma cidadania efetiva. Os alunos hoje saem da escola sem terem a mínima noção de que impostos irão pagar, do plano nacional de vacinação, da organização administrativa do país, dos seus direitos e deveres enquanto cidadãos, capazes de ler a “chapa” ou a eficiência dum qualquer aparelho elétrico, de fritar um ovo, etc. Saem impreparados para o exercício duma cidadania informada, crítica e plena, civicamente empenhada, saem até sem preparação alguma para o exercício de qualquer profissão minimamente qualificada. Por outro lado, uma educação para a cidadania, será a única forma de evitar que Trumps, Bolsonaros, Edogans e outros que tais sejam eleitos.
A educação terá de ser “um orçamento de base zero”, ou seja, terá de ser repensada desde a raiz, para determinar, sem “pesadas heranças”, quais as competências efetivamente necessárias ao exercício duma cidadania plena, onde se inclui o exercício de uma profissão. Chega de “meias-solas”.
Por limitações de espaço, continua numa próxima oportunidade...
P.S. Este texto foi extraído dum trabalho anterior e mais extenso da minha autoria, que consubstancia uma visão de 40 anos sobre o “papel da escola na sociedade”.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

ESTARÃO TODOS ERRADOS?


Para a edição de ontem do DN-Madeira, rubrica RAIO X, escrevi este texto que aqui deixo. O meu agradecimento ao DIÁRIO pelo convite.

Entre muitos, Sócrates, Filósofo, 470 aC/399aC: “a educação tem por objectivo imediato o desenvolvimento da capacidade de pensar”; saltando na História, outro Filósofo, Nietzsche (1844/1900), falou da “moral do rebanho”, de uma educação contrária à ”verdadeira cultura”, submetida aos interesses dominantes; até aos pensadores dos nossos dias, são tantos, por exemplo, o Professor Joaquim Azevedo, “a escola mudou pouco e os adolescentes mudaram muito”. Três posições que se conjugam em uma síntese: pensamento, cultura e mudança. Ora, este sistema não tem como pressuposto fazer pensar, ignora a cultura e mostra-se avesso à mudança. 


O político fechou-se na torre de marfim, burocratizou, preferiu a rotina enciclopédica ao acto de fazer pensar, tornou-se um ignorante altifalante, não fecundou nem se deixou fecundar pelas ciências. Não estudou as correntes filosóficas e as concomitantes características do problema educativo ao longo dos séculos. Por aí perceberia o mundo de hoje e entenderia que uma “escola sempre igual não pode competir com a vida que é sempre diferente” (P. Brito, 1970). Perceberia que há muito passámos de uma sociedade da “manufactura para a da mentefactura” – L. Cardoso, 1997. Tem-lhe interessado a “moral do rebanho”, vocacionando os professores para a reprodução dos manuais, agora enfeitados no digital, quando se sabe que "(...) o bom ensino supera uma escolha tecnológica pobre, mas a tecnologia nunca salvará o mau ensino" – T. Bates/Microsoft. Tem-lhe interessado “a deriva transbordante” de natureza enciclopédica de que fala António Nóvoa e conservar o código oculto da Sociedade Industrial (Toffler): a maximização (um estabelecimento com 2000 alunos é uma fábrica, não uma escola), a especialização (trabalho segmentado por disciplinas) e a centralização (o poder em uma só pessoa), o que significa manter a escola nas traves-mestras do Século XIX, embora vivamos o tempo da 4ª Revolução Industrial.
Ora, quando hoje se operacionaliza de acordo com os pressupostos de ontem, quando a hierarquia política desdobra-se em ilusórias meritocracias, no mediatismo das festas, em “Pontos e Vírgulas”, quando pede respostas certas na idade das perguntas, quando mata a curiosidade, manipula estatísticas, confunde a absurda competição por “cincos” e “vintes” com o verdadeiro conhecimento, castiga o direito à diferença, quando a escola assume a característica de um pronto-a-vestir, de tamanho único para populações, culturas e ritmos de aprendizagem diversos, quando se torna em um espaço impessoal, por ausência de alma e arquitectura adequada, quando prevalecem actividades ritualizadas, legislação em catadupa, limitações orçamentais, ausência de autonomia pedagógica, nesta Escola, sintetiza Rubem Alves, "cumpre-se o ritual e o formal, porque para o burocrata o que interessa é o que vem no relatório. Não as crianças". 
Este sistema faliu. Foram mais quatro anos perdidos, repetindo o passado e plenos de insanas tropelias, com fusões que contribuem para a desertificação, perseguições, processos disciplinares e afastamento de colaboradores próximos. Por outro lado, é falacioso o argumento da quebra demográfica. Ela constitui uma oportunidade, não uma fraqueza.
Na aprendizagem básica a escola deve ser vista pelo ângulo da cultura. É um erro confundir-se edifícios com o sistema. Não se criam alicerces através de uma paranóica obsessão pela avaliação e pelos exames. Não é dividindo o ano em dois semestres que se encontrará a saída para um futuro desejável. Mais do que um nível, em causa deveriam estar projectos de vida. As questões são mais profundas, são de natureza organizacional, de rede escolar, curricular, programática e pedagógica, de mentalidade, de pobreza, formação complementar dos professores, de investimento no sector público em detrimento do privado, de políticas de família e de uma nova organização da sociedade. Há um processo transversal e em rede que o político ignorou porque não deseja outros protagonismos.
Portanto, o sistema precisa de estudo e utopia, dispensa a insciência e a rotina. A Educação não pode estar ao serviço de agendas pessoais e subordinada a cultos de personalidade. Dispensa a demagogia e as abstrusas manobras de silenciamentos vários. Precisa, sim, que os “muros” dos designados estabelecimentos de ensino sejam derrubados para que nasçam estabelecimentos de aprendizagem que rompam com os conceitos de aula e de turma. Existem outros formatos que conduzem ao conhecimento, com rigor, disciplina, exigência, cultura de responsabilidade e qualidade. Do aluno, agente passivo e obediente, torna-se necessário fazer despertar o aluno que mete a mão na massa. Porque “o João todos os dias entra na escola; a escola é que não entra no João”. A pergunta é: porquê? 
“O tempo, como o mundo, tem dois hemisférios: um superior e visível, que é o passado, outro inferior e invisível, que é o futuro” – Padre António Vieira, 1608/1697. Mesmo escapando à vista torna-se necessário trazê-lo ao presente, desenhando-o com a previsibilidade possível, das ciências às artes, ao desporto e à cidadania. E não é com “salas de aula do futuro” e com paleios sobre robótica que se concebe esse futuro. O sistema precisa “de um pensamento globalizante que não se feche nem nas fronteiras do imediato, nem na ilusão de um futuro mais-que-perfeito” – António Nóvoa. 
A Região poderia ser uma referência de excelência educativa, um laboratório, até pela sua pequena dimensão. Não é. Testemunham as arrepiantes taxas de insucesso e de abandono ("65% da população, com 15 ou mais anos, tem, apenas, até o 9º ano de escolaridade”), os níveis de escolaridade dos empresários, a conturbada formação profissional e o medíocre estado cultural. A excelência exige um novo paradigma que respeite os princípios da transformação graduada, a interacção sistémica, a optimização dos meios e a participação das pessoas. Criar futuro implica rebeldia, jamais acomodação, porque o sucesso surge quando se quebram regras tradicionais, fazendo da ousadia uma atitude. Exige-se pensamento inteligente dirigido para “um país, três sistemas educativos”. A Madeira Autónoma deve assumir essa luta em sede de revisão Constitucional, o que não obsta passos consistentes em todos os domínios que o Estatuto Político-Administrativo confere, no quadro das matérias de interesse específico. Se assim não acontecer, acabará por não se justificar a regionalização. Que enervante silêncio!
Disse Einstein: “não há maior sinal de loucura do que fazer uma coisa repetidamente, esperando a cada vez um resultado diferente”. Estarão todos errados?
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 2 de julho de 2019

O PÂNTANO DA EDUCAÇÃO

Não há ninguém, neste governo, que ponha mão na perseguição política e profissional? O caso do Professor Joaquim José Sousa, da Escola do Curral das Freiras já entrou na esfera de uma intencional acção tendente a prejudicá-lo. Eu diria, amesquinhá-lo, ofendê-lo, colocá-lo mais raso que um chinelo! Já não se trata sequer de olhar para o quadro de uma alegada, eu diria, inventada infracção das normas, mas do exercício de um poder que, julgava eu, as novas gerações já tinham intuido como desconforme as regras sociais entre líderes e subordinados. Eu sei que há uma diferença entre ser líder e ser chefe! 

Pelo Tribunal Administrativo do Funchal foi determinado o regresso imediato do Professor Joaquim Sousa à escola. Mal regressou, quatro dias depois, contrariando a decisão do Tribunal, assumida de acordo com a Lei, o docente foi novamente afastado. Em causa, a criação de um incidente jurídico junto do Tribunal (não sei se é assim que se designa, mas seja como for, a questão não é essa). Enquanto é analisado e não surge um acórdão, o professor continuará suspenso. É este incidicente que aqui me traz. Invocou o Secretário Regional de Educação que seria "gravemente prejudicial para o interesse público" o regresso do docente. Sustentou o secretario que tal regresso acarretaria "prejuízos para os alunos", na medida em que não havia tempo para construir "relações interpessoais", o que redundaria acima de tudo em uma penalização para o "pessoal discente, os pais e encarregados de educação, que são o cerne e a razão de existência do sistema educativo regional". O secretário destacou a Constituição da República Portuguesa, no seu artigo 266, ponto 1: "A Administração Pública visa a prossecução do interesse público, no respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos".
O mais curioso disto é o facto da escola, no seu regresso lhe ter atribuído um horário com horas de substituição e de acompanhamento e orientação. Portanto, não houve lugar a qualquer mudança no funcionamento (leccionação) das turmas da escola. O que significa que, para além de não cumprir um Acórdão do Tribunal, mentiu a esse Tribunal. Pergunto: neste contexto, em que base assenta o invocado interesse público?
Entretanto, o Professor Joaquim José Sousa, repito, voltou a estar suspenso sem vencimento com consequências penosas para a sua família. E de incidente em incidente o professor completará os seis meses de suspensão. 
Por outro lado, no âmbito de uma audição parlamentar da 6ª Comissão Especializada da Assembleia Legislativa, continuam por esclarecer algumas declarações do secretário regional que não coincidem com a realidade. Contradicções que pressupõem, também, que, alegadamente, não falou de forma verdadeira. Apesar disso, fez-se um silêncio que não abona a seriedade de um governo. 
Independentemente deste aspecto, o que me parece mais chocante é o facto de, perante a perseguição, não haver ninguém que trave a maldade, a mentira e que coloque um ponto final nesta novela de péssima qualidade. E os seis mil e tal professores não terão nada a dizer? Lamento, pois não é esta a classe a que pertenço. A minha é a luta contra as injustiças e contra a ausência de qualquer dignidade. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Ensino não é igual para todos. Alunos mais pobres ficam fora dos cursos com notas mais elevadas


O estudo intitulado "A Equidade no Acesso ao Ensino Superior", que é apresentado esta quarta-feira, analisou o corpo estudantil das universidades e dos institutos politécnicos portugueses, com base em dois indicadores: as qualificações dos pais dos alunos e o número de bolsas de ação social (destinadas aos alunos mais desfavorecidos) atribuídas.


As conclusões do Projeto EDULOG da Fundação Belmiro de Azevedo (...) revelam que os jovens com pais sem formação ao nível do ensino superior representam apenas 61% dos novos inscritos nas universidades e politécnicos. E dos 45.051 alunos que, no total, frequentam o Ensino Superior em Portugal, apenas 14.187 (31,5%) são bolseiros.
Os estudantes oriundos de famílias com menos estudos - que não têm possibilidade de pagar explicações ou frequentar colégios privados - são aqueles que, tendencialmente, mais vão estudar para os politécnicos, uma vez que não conseguem atingir as médias exigidas pelas universidades. Se nas universidades, a percentagem de alunos bolseiros é de apenas 28,1%, nos institutos politécnicos ascende aos 37,4%.
As diferenças sociais dos estudantes refletem-se não só nas instituições de educação mas também nos tipos de cursos em que ingressam. Se a Medicina e as engenharias são os cursos mais escolhidos pelos alunos das classes mais favorecidas, os alunos de famílias com menos estudos predominam nos cursos de Educação (onde 39% dos alunos têm pais com formação ao nível do ensino básico) e Ciências Empresariais (onde a percentagem é de 20%).

E dentro das mesmas áreas de estudo também há diferenças. Na Saúde, os alunos das classes mais altas vão para os cursos de Medicina das universidades - em que 73,2% dos alunos têm pais com o ensino superior e onde há um menor número de estudantes a necessitar de bolsa de ação social. Já os alunos mais desfavorecidos ingressam nos cursos de Enfermagem e Tecnologias da Saúde dos politécnicos - em que 73% dos alunos têm pais com formação abaixo do ensino superior.

O estudo conclui que estes resultados vêm contradizer o que seria esperado perante a expansão do sistema educativo: que fossem reduzidas as desigualdades de acesso dos estudantes provenientes de diferentes níveis socioeconómicos. "Isso não se verificou", constata o relatório.
Em vez disso, confirma-se que os estudantes com origens mais favorecidas têm mais hipóteses de tirar proveito das oportunidades que lhe são oferecidas. As classes mais baixas só podem tirar vantagem da expansão do sistemas de ensino depois das necessidades das classes mais altas estarem já completamente satisfeitas.
A tendência, contudo, não se verifica apenas em Portugal. Os académicos internacionais classificaram este fenómeno pela designação "maximally mantained inequality" ("desigualdade máxima mantida").
Para tentar combater o problema, o Governo decidiu que, no próximo ano letivo, os cursos com notas de acesso iguais ou superiores a 17 valores terão de aumentar o número de vagas em pelo menos 5%. O coordenador do estudo da EDULOG, Alberto Amaral, não considera, no entanto, que a medida seja suficiente para resolver a desigualdade no acesso ao ensino superior em Portugal.
Fonte: TSF por indicação de Livresco/Incluso
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O sector educativo vive de fases orgásmicas


FACTO

"Ano lectivo com dois semestres" (...) "depois da revolução dos manuais digitais (...)" - anuncia a secretaria regional da Educação. Fonte: edição de ontem do DN-Madeira.

COMENTÁRIO

É caso para dizer... "cada cavadela sua minhoca". Não sei se será falta de jeito ou um intencional paleio de quem está na parada a marcar passo. Ou, no cruzamento, sem saber por onde seguir! Ora, a questão essencial não é (nunca foi) o ano lectivo ter três trimestres, dois semestres ou, apenas, um período. A questão central situa-se no paradigma que se pretende para uma aprendizagem que vise o conhecimento sustentado, articulado e portador de futuro. Se o "modelo", organizacional e pedagógico, assenta nos mesmos pressupostos de sempre, ter um, dois, três ou quatro períodos, obviamente que tal corresponde a uma incessante chuva no molhado. Como me dizia um ilustre professor, é "timex", não adianta nem atrasa! 
Só através de uma mudança  no pensamento estrutural que tudo o resto se deve encaixar. É uma alteração a esse nível que poderá determinar, por exemplo, que não se justificam avaliações trimestrais ou semestrais; que os exames, por enquanto, ainda podem ter alguma justificação apenas no 12º ano (no futuro duvido que seja assim); que a obsessão pela avaliação não deve estar em primeiro lugar, relativamente ao verdadeiro CONHECIMENTO; que a avaliação (dos alunos) deve assentar em uma perspectiva contínua e bi-lateral, completamente distinta do habitual decora, debita e avalia, complementado com itens de uma assustadora subjectividade; que o sistema deve caminhar no sentido de uma "escola por aluno", que respeite tempos e capacidades de aprendizagem; que os actuais conceitos de ciclo, aula e de turma não se adequam aos tempos que estamos a viver; por outro lado, poderá determinar o papel e a posição do professor face ao aluno, enquanto mediador da aprendizagem; se fazem ou não sentido ter os manuais em papel, agora em formato digital, se tivermos presente o manancial de informação disponível na internet (digitei a palavra "filosofia" e, em 0,39 segundos, surgiram-me 224.000.000 de hipóteses de consulta) e que tudo isto implica uma profunda revisão dos currículos e dos programas. Mais, determinará, certamente, a necessidade de exigentes políticas de família, a montante da escola, susceptíveis de garantirem interesse pela escola e elo respectivo sucesso. Ora, nada disto está definido, tudo é balofo e circunstancial, e sendo assim, não faz sentido que se apregoe a existência de uma REVOLUÇÃO, até porque, a secretaria da Educação, desde sempre pegando de empurrão, nada mais está a fazer do que copiar e mal o que, no próprio país, outros já avançaram. 
Fico com a certeza que não existindo um pensamento estruturado relativamente ao que pretendem criar na Região Autónoma, infelizmente, o sistema educativo na Região continuará a viver de fases orgásmicas ou picos de êxtase que logo desfalecem. 

Preferível seria que o secretário político fosse um revolucionário, no sentido de vanguardista e reformador. Isso implicaria um sentido de "reengenharia", próximo de Michael Hammer, que envolvesse quatro ideias-chave: "posicionamento para a mudança, identificação dos processos, recriação dos processos e transição para o novo sistema". Sabe-se que as instituições que criam futuro são rebeldes e subversivas, pois o sucesso só surge quando se quebram as regras tradicionais, fazendo da ousadia uma atitude. Li, em Tom Peters (2002), um guru da gestão e da excelência: "bem-vindos ao mundo do soft, da massa cinzenta, das ideias e do conhecimento". É isso que falta, quando o activo de mais valia é a imaginação humana. 
É na escola que ela deve ganhar asas. Mas é nesta escola que cortam as asas!

Torna-se, portanto, necessário um saudável choque, um rompimento com o passado e jamais determinados acertos (embelezamentos) marginais que, no essencial, a nada conduzem. É fundamental romper com ideias preconcebidas. O sistema precisa de visão e de previsão, de estudo transversal e integrado, devidamente suportado com o sentido de alguns princípios do desenvolvimento: o da prioridade estrutural, da teleologia funcional, da transformação graduada, da continuidade funcional, da interacção, da integração, da optimização dos meios e da não menos importante, participação das pessoas. Ou elas participam ou os processos morrem. Ora, semanalmente, alimentar a comunicação social com alguns tiros pretensamente sonantes e coloridos, neste caso, correspondem a disparos de fumo. Caso para dizer que o secretário, desde que tomou posse, "vende" fumo. Não consegue surpreender os políticos, os professores, os pais, os empresários, muito menos os jovens. 
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Artigo, da minha autoria, publicado no blogue
www.gnose.eu

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Professores portugueses entre os que gastam mais tempo de aula a controlar presenças e comportamento dos alunos


Tarefas administrativas, como a distribuição de formulários ou a verificação de presenças, e o controlo do comportamento dos alunos ocupam, em média, um quarto da duração total das aulas no ensino básico. Esta proporção coloca Portugal entre os países e economias da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde se despende menos tempo em actividades de ensino e aprendizagem (73,5%). A média da OCDE é 78,1%. Os professores que mais dizem usar o tempo de aula para esse propósito estão na Rússia, Estónia e Vietname.

Os números fazem parte do inquérito TALIS (Teaching and Learning International Survey) 2018, produzido pela OCDE. O primeiro volume da terceira edição do relatório, que dá voz a professores e diretores das escolas sobre as suas perceções e opiniões em relação ao sistema de ensino em que estão integrados, foi publicado nesta quarta-feira. O segundo volume, sobre a valorização da profissão, será conhecido em 2020.
(...) João Costa, secretário de Estado da Educação e presidente do órgão de governação do TALIS, reconhece a questão do comportamento em sala de aula (e do tempo gasto a geri-lo) é uma dimensão “preocupante”. É algo que “tem de ser cruzado” com outras questões como “o envolvimento dos estudantes, as questões de disciplina, as questões de valorização geral dos professores e a relação com encarregados de educação”.
A utilização do tempo de aula para as tarefas ditas de aprendizagem está a diminuir. Nos últimos anos, esse tempo “diminuiu em cerca de metade dos países e economias participantes no TALIS”, adianta a OCDE. Em Portugal, a redução foi de dois pontos percentuais.
E o que explica esta tendência? Em parte, o número de alunos por turma. Ao analisar os dados do TALIS, a OCDE conclui que “quando os professores têm turmas maiores, tendem a gastar menos tempo de aula nas atividades de ensino e aprendizagem”. Os professores portugueses reportam uma média de 22,2 alunos por turma, um valor próximo da média da OCDE. A redução do número de alunos por turma, primeiro nas escolas TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) e depois nos diferentes graus de ensino, tem sido colocada em prática pelo Ministério da Educação.



Controlar o mau comportamento 

Mesmo assim, os professores portugueses (97,8%) são os que mais se dizem capazes de controlar comportamentos disruptivos na sala de aula. A média da OCDE fica-se pelos 85%. E também estão entre os que mais dizem que frequentemente acalmam alunos com esse tipo de atitudes.
O tempo gasto em atividades relacionadas com o ensino também está a mudar. “De um modo geral, os docentes tendem a ocupar mais horas em aulas do que na sua preparação”, lê-se no relatório. Mas, se na maioria dos países, o tempo despendido em aulas aumentou nos últimos cinco anos, em Portugal diminuiu. É quase menos uma hora por semana. A preparação das aulas também ocupa menos duas horas aos professores portugueses.

Quanto à avaliação dos estudantes e à comunicação dos resultados, 90% dos professores nacionais dizem que avaliam frequentemente os alunos e transmitem de imediato os seus comentários (a média da OCDE é 79%).

Mais formação para necessidades especiais

Num outro capítulo, a OCDE foca-se na formação da classe docente. Em Portugal, cerca de 33% dos professores do básico trabalham em escolas onde mais de 10% dos alunos têm necessidades educativas especiais. No secundário o número é ainda menor: 21%.




As diferenças entre o básico e o secundário têm uma explicação possível, segundo João Costa: “No ano em que os professores foram inquiridos, em 2018, estávamos a viver no secundário uma lei que empurrava os alunos [com necessidades especiais] para o profissional. Este ano [há um novo regime de educação inclusiva] estamos a reduzir o número de alunos por turma também no científico-humanístico. Pode ser por isso que há essa representação.” 
Mesmo assim, no que diz respeito à preparação para lidar com estes alunos, os professores portugueses ainda ficam aquém. E são os próprios a admiti-lo. Só 30% tiveram formação sobre como lidar com estudantes com necessidades especiais no último ano e cerca de 27% dizem que é algo que lhes faz falta.


Os diretores também o reconhecem. Metade dos inquiridos diz que a qualidade do ensino nas suas escolas é prejudicada pela falta de docentes com formação específica direcionada para crianças com necessidades especiais. Um número que está muito acima da média da OCDE: 32%.
“O TALIS é o único estudo a nível internacional que é apenas a voz dos professores e dos diretores. Não há dados fornecidos por governos. É um olhar sobre os sistemas educativos que vem dos profissionais”, refere o secretário de Estado. Por isso, a referência dos professores à necessidade de formação em necessidades especiais é importante. “Alegra-nos”, diz João Costa, porque “é um investimento que temos feito em termos de formação contínua”. 
“Estamos a creditar a formação em educação inclusiva para todos os grupos de recrutamento. O TALIS ajuda-nos a definir prioridades de investimento. Agora, com turmas a funcionar em todo o país, continuamos a perceber que é das áreas em que temos de investir mais”, esclarece. 

Classe docente envelhecida

A OCDE volta a frisar que os professores portugueses estão entre os mais envelhecidos. Têm, em média, 49 anos — mais cinco do que a idade média dos docentes dos outros países e economias que participam no TALIS.
A organização sublinha ainda que, em 2018, 47% destes profissionais tinham 50 anos ou mais. Algo que se agravou desde 2013 e 2018, quando esta proporção se ficava pelos 28%. “Significa que Portugal vai ter de renovar cerca um em cada dois membros da sua classe docente durante a próxima década”, diz a OCDE.
“O rejuvenescimento do corpo docente tem de ser um tema a inscrever nas agendas que aí vêm”, admite João Costa. Sobre a substituição dos professores reformados, o secretário de Estado da Educação avança que está a ser feito um “trabalho conjunto com o secretário de Estado do Ensino Superior e com a secretária de Estado Adjunta e da Educação no sentido de fazer uma previsão das aposentações até 2025”. O objetivo é usar a informação para iniciar “um diálogo com o Conselho Nacional de Reitores e com o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos” para passarem a mensagem de que “vai haver emprego para os professores”.
Mesmo assim, há boas notícias: 84% dos professores do básico dizem que a profissão foi a sua primeira escolha de carreira. Portugal é o quarto país onde mais docentes afirmam isto — a média da OCDE fica-se pelos 67%. Mas há diferenças quando se olha para as escolhas por género e tempo de carreira. Há mais mulheres (86%) a dizer que a escolha pela carreira docente foi a primeira opção do que homens (79%). E há mais profissionais que têm cinco ou mais anos de carreira (85%) a desempenhar a profissão que realmente desejavam do que os que têm cinco anos ou menos (71,4%). 
A análise da distribuição dos professores por género mostra que as mulheres estão em maioria: são três em cada quatro. Mas há muitas menos a assumir a liderança das escolas (só 43%).

O TALIS dá "voz aos professores"

O que é o TALIS? 
O Teaching and Learning International Survey (TALIS) é um inquérito de grande dimensão, que se foca principalmente no ensino básico (também há participantes do ensino primário e secundário), criado “para gerar informação comparável ao nível internacional relevante para o desenvolvimento e implementação de políticas focadas nos diretores, professores e ensino, com um foco nos aspetos que afetam o ensino”. João Costa, secretário de Estado da Educação, é o presidente do conselho de direção do TALIS, um órgão que, segundo o governante, “não contribui para a produção do relatório, mas tem impacto na definição dos domínios [abordados]”.

Com que frequência é realizado o inquérito?
O TALIS foi aplicado pela primeira vez em 2008, em 24 países. A segunda edição decorreu entre 2013 e 2014 e incluiu 38 países. Na edição de 2018 participaram 48 países e economias.

Qual é o tamanho da amostra?
O ponto de partida da amostra são 200 escolas por país. Respondem ao inquérito 20 professores e o diretor de cada escola. Os questionários são apresentados separadamente aos docentes e responsáveis pelas escolas. Responder a todas as questões demora entre 45 e 60 minutos. Em Portugal, 7227 professores e 395 diretores de escolas do ensino básico e secundário participaram.

Quando é que foram aplicados os questionários?
Nos países do hemisfério Norte, os professores responderam entre Março e Maio de 2018. No caso do hemisfério Sul, as respostas foram dadas entre Setembro e Dezembro de 2017.

Que tipo de informação é que o TALIS nos dá?
No relatório, a OCDE sublinha que “os resultados do TALIS se baseiam exclusivamente nos relatos de professores e diretores e, portanto, representam suas opiniões, perceções e crenças relacionadas com a sua atividade”. E acrescenta que “dar voz aos professores fornece conhecimento sobre como estes profissionais percecionam os ambientes onde trabalham e como determinadas políticas são postas em prática”. Uma vez que são dados reportados pelos próprios professores, a informação é subjetiva.

Fonte: Público por indicação de Livresco / Blogue Incluso

domingo, 16 de junho de 2019

Quanto enganado está o Presidente do Governo da Madeira!


Afirmou, recentemente, o Presidente do Governo Regional da Madeira: o que conseguimos na Educação da Madeira "é extraordinário" (...) temos “dos melhores professores e das melhores escolas do país". Eu diria, quanto enganado está. Enfim, em tempo de campanha eleitoral, vale tudo. Interessa é estar ao lado e com todas as frentes da governação. Da minha parte convidava-o a seguir a intervenção do Professor David Rodrigues (2015), porque talvez aí encontre matéria para perguntar ao seu secretário da Educação: olha lá, o que andaste a fazer nestes quatro anos?

sábado, 8 de junho de 2019

O PROFESSOR JOAQUIM JOSÉ SOUSA, A NOVA SUSPENSÃO E A CLARA PERSEGUIÇÃO DO SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO


É óbvio que está no carácter político de um certo tipo de pessoas, os comportamentos inapropriados, que causam repulsa e, pela repetição, geram pena. Gandhi, em uma simples frase, disse tudo: "O dinheiro faz homens ricos, o conhecimento faz homens sábios e a humildade faz grandes homens". Ora, só é grande quem é humilde. Sendo assim, este secretário da Educação, se é rico não sei nem me interessa saber, agora, sábio não é, e quanto à humildade está para além do horizonte. 


A não observância da humildade traz no seu bojo outras características extremamente negativas, a de sentir-se dono de qualquer coisa, a arrogância, a inveja, a perseguição e a intolerância. Isto para dizer que, segundo a edição de hoje do DN-Madeira, o Tribunal Administrativo do Funchal decidiu mandar reintegrar o Professor Joaquim José Sousa, na sequência de uma providência cautelar. O Professor apresentou-se na sua escola, porém, através de um qualquer estratagema o secretário voltou a suspendê-lo. Compete agora ao Tribunal Administrativo e Fiscal do Funchal voltar a apreciar a contestação apresentada. Entretanto, o docente, "condenado" pelo secretário a seis meses de suspensão, fica impedido de receber o seu salário.
O leitor que, eventualmente, não esteja por dentro do assunto, sugiro que leia os motivos da vergonhosa acusação no seguinte endereço:


O texto pertence à Jornalista Bárbara Reis - Jornal Público. Está lá tudo. E como se isso não bastasse, o leitor que tenha em consideração a frontalidade, sensatez, lucidez e honestidade intelectual e política da ex-Deputada do PSD-M, Drª Sara André:

"(...) Sobre o caso do professor Joaquim da escola do Curral das Freiras, tanto por dizer que se resume a isto, em “bom” madeirense: “deixem-se de p***********, já mete nojo”. Quem deve ter bom senso, acabe com esta novela que já é nacional e só nos envergonha. Para além dos editoriais, artigos de opinião, intervenções na TV ao nível nacional, até motivo de gozo somos pelos humoristas de referência, tendo em conta o ridículo da situação".

Ora, o secretário não ouve ninguém. Pouco lhe interessa que dele e da Educação façam chacota. Para ele, fundamentalmente, perigoso é que alguém brilhe, mostrando-se capaz de realizar sonhos. Mantém um desejo de estar no pódium do quero, posso e mando. Pessoas como o Professor Joaquim constituem uma ameaça. Por isso, é incapaz de entender as palavras de um outro pensador que terá dito: "seja humilde, pois, até o Sol com toda sua grandeza se põe e deixa a Lua brilhar".
No plano político este secretário fica na História pelos piores motivos. Nada de relevante pela Educação fez, não deixa uma ideia estrutural para o futuro, tendo passado quatro anos mergulhado em "pontos e vírgulas", em prémios e diplomas de uma balofa meritocracia, em perseguições, fusões, estéreis guerras sindicais e outras situações que me dispenso fazer alusão. 
O pior é que vejo uma classe profissional em silêncio. E isso tem um significado que se resume em uma palavra: mordaça.
Ilustração: Google Imagens.