domingo, 20 de novembro de 2016

MARIANA: "NÃO QUEREMOS SER JOVENS FORMATADOS, MAS SIM CIDADÃOS DO MUNDO"


Foi publicado no Jornal Público, por Clara Viana, a 04 de Novembro. Uma reportagem que mostrou, em síntese, um encontro do ministro Tiago Brandão Rodrigues com cem alunos oriundos de onze escolas. No sub-título: "Alunos do 1.º ciclo ao ensino superior foram dizer ao ministro da Educação o que fariam se estivessem no lugar que ele hoje ocupa. Sugestões serão tidas em conta na revisão dos currículos que o ministério está a preparar".

SE FOSSE MINISTRO, REDUZIA A CARGA HORÁRIA 
PARA TERMOS TEMPO PARA SERMOS CRIANÇAS. 


Mariana tem 16 anos, é aluna do ensino secundário, e tem à frente o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, para lhe dizer o que faria se estivesse no seu lugar. A seu lado há mais uma dezena de alunos, do 1.º ciclo ao ensino superior, com a mesma incumbência. “Se fosse ministro da Educação reduzia as cargas horárias para que tivéssemos tempo de ser crianças e jovens. Em vez de aulas com o professor a expor a matéria promoveria a aprendizagem por experimentação e observação, porque assim como é em 50 minutos de aulas com o professor a falar apenas retemos cinco a 10 minutos do que ele diz”, enumera Mariana.
Tiago Brandão Rodrigues pergunta-lhes se podem dar um exemplo de um professor que ensine assim. Ninguém levanta o braço. Mariana prossegue: “Os currículos são tão extensos que nas aulas nem temos tempo para pôr dúvidas. Os professores dizem logo que temos de passar à frente”. É uma das “revoltas” que, nesta sexta-feira, cerca de 100 alunos de 11 escolas de diferentes pontos do país descobriram ter em comum. A convite do Ministério da Educação reuniram-se em Leiria para debater a escola que têm e aquela que queriam ter. O ministério chamou ao encontro “A Voz dos Alunos” e eles não se fizeram rogados.

“Temos tanta coisa para dizer!”

Numa corrida contra o tempo, estiveram toda a manhã reunidos, cada nível de ensino na sua sala, para chegarem a diagnósticos e propostas comuns, que tanto o ministro, como o secretário de Estado da Educação, João Costa, garantiram que serão tidas em conta na revisão dos currículos que o ministério está a preparar. Para os alunos do secundário, o tempo é demasiado curto: “Temos tanta coisa para dizer!”
Entre os alunos do 1.º ciclo, a escola ainda é basicamente “fixe e divertida”, o que já não sucede com os mais velhos. Mas todos coincidem no retrato da escola que queriam ter: mais aulas práticas, mais debates, mais trabalhos de grupo, mais visitas de estudo, possibilidade no secundário de poderem escolher disciplinas em vez de áreas compartimentadas, mais arte, mais cidadania, maior ligação à prática, turmas mais pequenas, menos trabalhos para casa, professores motivados e que não desistam dos alunos.
“Precisamos de saber que há mais vida para além da escola e não estar ali só para ir passando de ano”, comenta Manuel, aluno do 9.º ano de escolaridade. Do grupo do secundário vem a seguinte constatação: “A pergunta que mais fazemos aos professores é saber se o que estão a dar vai sair nos testes”. Consideram que o peso destes e dos exames está sobrevalorizado e que por causa disso não se podem “dar ao luxo” de aprender o que gostavam. Seja por causa disto, da extensão das matérias, das metas curriculares, queixam-se de que “professores e alunos andam todos stressados”.

Falta espírito crítico

Não é isto que querem. Desejam uma escola que lhes “conceda as ferramentas necessárias para todas as esfera da vida”. Mais uma vez do grupo do secundário vem o recado: “Ainda há muito a fazer nesta matéria. Um aluno que acaba o secundário, aos 18 anos, não sabe como preencher o IRS, nem pensar por si próprio para decidir em que partido votar”.
Falta espírito crítico. E sobre isso Mariana tem mais um recado a apresentar: “Não queremos ser jovens formatados, mas sim cidadãos do mundo”. Para eles, a escola do futuro é feita destas grandes mudanças, mas também de coisas mais corriqueiras como algumas das que foram identificadas pelo grupo do 2.º ciclo: melhorar a comida do refeitório ou ter papel higiénico nas casas de banho.
João Costa, que assistiu à apresentação das conclusões, gaba a “qualidade da reflexão” que foi feita pelos alunos. Diz que tem 32 páginas de apontamentos com o que foi sendo dito por estes e que resume em três grandes áreas: articulação entre aprendizagem e cidadania; metodologias mais activas em sala de aula; alargamento do leque de opções no ensino secundário. Tiago Brandão Rodrigues destaca a novidade da iniciativa: “Nada disto tinha acontecido antes. Quando chegarem à altura de ter filhos vão saber que contribuíram para o que estão a aprender, para o que será o ensino no futuro”.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 19 de novembro de 2016

"QUEM PODE CRIA, QUEM NÃO PODE ENSINA"


Andava eu, nos meus arquivos, à procura de um texto que escrevi, faz algum tempo, e dei com um outro, recente, do período negro do ex-ministro Nuno Crato. Li-o com o desprendimento do tempo político. Partilho aqui uma parte desse texto, naquela linha de pensamento que sustenta a necessidade de mudar o sistema educativo. "(...) entre milhares ou milhões de homens e mulheres, "Ghandi, Picasso, Einstein, deixaram-nos um legado valiosíssimo, seguindo caminhos muito diferentes". Isto quer dizer que a Educação na escola não constitui a única forma de aprender. E se a Escola é importante, e é, o seu pensamento estratégico não pode quedar-se pelo pensamento de ontem. Andamos a trabalhar nas consequências e não nas causas, simplesmente porque predomina uma agenda e, mais do que isso, uma atitude política redutora que muitas vezes desconstrói alguns bons passos que são dados. 


Urge uma nova concepção de Escola. Alexandre Quintanilha é um doutorado em Física. Um cientista. Tem uma frase espantosa: “EU VIVO PORQUE SOU CURIOSO”. O problema é que nós andamos a matar a curiosidade nas nossas crianças. No nosso sistema, uma criança que coloca muitas perguntas, genericamente, perturba o "planeamento da aula"! E não deveria ser assim. Há outras formas de organização. Li, há que anos, em “Professores para quê”, de Georges Gusdorf: “O mais alto ensinamento do Mestre não está no que diz, mas no que não diz”. E no meu relatório de estágio pedagógico, em 1971, escrevi no preâmbulo, uma frase de Bernard Shaw. Lembro-me como se fosse hoje: “Quem pode cria, quem não pode ensina”. Uma escola de receptores e de não participantes é uma escola condenada. E Bernard Shaw nasceu em 1856. Portanto, despertar essa curiosidade só é possível com uma ampla autonomia e com um outro enquadramento pedagógico. Não é com exames. Não há volta a dar. É nesta esteira que Ariana Cosme e Rui Trindade questionam: “Uma Escola que define a qualidade do seu ensino por uma visão enciclopédica de um conhecimento cuja utilidade se esgota nos testes, serve, afinal, para quê? (...)".
Para reflectirmos e, obviamente, comentarmos. Quanto ao artigo que andava à procura, não sei em que arquivo está. Vou ficar, uma vez mais, a pensar na escola que temos e na escola que deveríamos ter.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

FORMATADOS PELA SOCIEDADE. UM EXCERTO PLENO DE ACTUALIDADE.


"Idealmente, o que deveria ser dito a todas as crianças, repetidamente, ao longo da sua vida escolar, seria algo como isto: "Estás no processo de ser doutrinado. Nós ainda não fomos capazes de desenvolver um sistema de EDUCAÇÃO que não seja um processo de doutrinação. 


Lamentamos, mas é o melhor que podemos fazer. O que te estamos a ensinar é uma amálgama dos preconceitos actuais e das escolhas desta cultura em particular. Uma pequena olhada na História vai-te mostrar o quanto estes são temporários. Estás a ser ensinado por pessoas que conseguiram acomodar-se a um regime de pensamento que foi desenhado pelos seus antecessores. É um sistema de auto-perpetuação. Aqueles de vocês que forem mais robustos e individuais que os outros serão encorajados a sair e a encontrar formas de se educarem a si próprios – a educarem os seus próprios julgamentos. Aqueles que ficarem têm que se lembrar, sempre, e para sempre, que estão a ser moldados e modelados para se encaixarem nas necessidades estreitas e particulares desta sociedade". 
Doris Lessing, (1919-2013) in 'The Golden Notebook'

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

EM CAUSA A EDUCAÇÃO - "QUEREMOS HOMENS COMPLETOS OU MEROS CIDADÃOS?"


"A educação actual e as actuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis. 


A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O actual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentámos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir." 
Aldous Huxley (1894/1963), in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

BRINCAR É A FORMA MAIS NATURAL DE APRENDER


As crianças passam pouco tempo no recreio da escola (10,8%). Brincar é um momento que perde fôlego à medida que os anos avançam no sistema de ensino. Mas as brincadeiras são importantes. Testam limites, confirmam capacidades, desenvolvem a autoconfiança e a autoestima. E ajudam a combater o insucesso escolar. “É importante que se explique que o recreio é um direito e é uma necessidade. É um espaço de sociabilidade fundamental para as crianças e os jovens.” Os adultos sabem o significado de um intervalo para café. Sabem que não é só para descansar. “Para as crianças e jovens é fundamental porque, de uma maneira geral, é no recreio da escola que eles conversam, brincam e criam novas brincadeiras e amizades. Cantam, fazem jogos, dançam, trocam informações, aprendem a cooperar e a estar uns com os outros, etc. Esta forma de se divertirem no recreio é fundamental para consolidar e recriar as suas culturas. É ainda fundamental para desenvolver a criatividade.” Não se trata de ir ao recreio recuperar energia. É mais do que isso. “É fundamental para cooperar com o seu grupo de pares, estabelecer redes e contactos, brincar e criar novos jogos e assim aprender. Na verdade, as crianças, enquanto atores sociais, sabem bem o significado do recreio e das brincadeiras de recreio. Basta perguntar-lhes.”


Brincar. Brincar. Brincar. Dentro e fora da sala? Apenas nos primeiros níveis de ensino? Brincar para aprender? Brincar na escola? Brincar em casa? Brincar para conhecer os outros? Brincar para perceber-se a si? Brincar tem prazo de validade? Brincar tem tempo contado? Aida Figueiredo, investigadora do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, autora do primeiro estudo nacional sobre a interação das crianças com os espaços exteriores das creches e jardins de infância, analisou atentamente o assunto e concluiu que os mais pequenos passam 10,8% do tempo no recreio. E pouco desse tempo é dedicado ao jogo livre. “Quando falamos com educadores, professores e pais, eles afirmam e reiteram a importância do brincar como estratégia de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. Contudo, as suas práticas, na maioria das situações, não vão ao encontro destes testemunhos”, adianta ao EDUCARE.PT. 
Há, portanto, um longo caminho a percorrer. À medida que os anos passam, brincar perde estatuto no sistema de ensino. “As pressões para o sucesso académico, independentemente da faixa etária, são de mais evidentes. Nas idades mais precoces, pré-escolar e até mesmo na creche, há uma tendência para a escolarização, sendo frequente a manifestação de intenções para a aprendizagem precoce de conteúdos académicos e alguma ansiedade por parte dos pais para uma entrada precoce na escola, tendo por base a ideia ‘quanto mais cedo melhor’”, observa a investigadora. Depois do pré-escolar, os programas extensos e o ensino expositivo, sublinha, “não facilitam a integração do brincar como estratégia de aprendizagem e desenvolvimento, sendo este remetido para o espaço/tempo de recreio com características muito limitadas, ou seja, espaços estéreis e duração de aproximadamente 30 minutos”. 
Brincar implica interação da criança com o espaço e com o tempo. E permissão de um adulto que pode dizer sim ou não. Aida Figueiredo defende que o tempo dedicado ao brincar e o espaço e a atitude do adulto devem promover diferentes oportunidades como correr, saltar, trepar, escorregar, balancear. A possibilidade de explorar, de construir e reconstruir o espaço mediante os interesses da criança, “de brincar ao faz-de-conta, de ter espaços de intimidade e de poder escolher com quem brincar, sozinho ou em grupo, são igualmente importantes”. Até porque brincar é um alicerce essencial da cultura humana. É dar liberdade à criança para exprimir o que lhe vai na alma. É testar limites, confirmar capacidades, desenvolver a autoconfiança e a autoestima. “Contudo, atualmente, a ocupação do tempo livre da criança é, na maioria das vezes, regulada por atividades organizadas (não livres) e estruturadas pelo adulto, claramente com finalidades pedagógicas e de desenvolvimento de competências académicas”. “Os responsáveis pela ocupação do tempo/espaço da criança esquecem-se que o brincar é a melhor forma, e a mais natural, de as crianças aprenderem”, afirma. 
Brincar traz benefícios imediatos em diferentes domínios. “Considerando o aspeto socioemocional, a criança quando brinca expressa sentimentos e emoções como afeto, medo e agressividade e, em muitas situações, aprende a lidar com a frustração. Quando brinca com os pares, a partilha, a negociação, o estar em grupo, a liderança e a resolução de conflitos são uma realidade constante”. No domínio cognitivo, os benefícios são igualmente diversificados na autonomia, livre iniciativa, criatividade, imaginação e resolução de problemas. “Já no domínio motor e na saúde, o brincar pode promover o aumento da mobilidade, do movimento e da atividade física, contrariando a tendência para a obesidade e outras doenças associadas”, refere a investigadora, que acrescenta que o brincar permite “o desenvolvimento holístico das crianças com níveis elevados de bem-estar emocional”. 
Brincar também é desafio e risco. É experimentar novas emoções. É aprender para a vida. “Estas vivências experienciadas durante o brincar permitem, ao longo da vida, uma maior flexibilidade para lidar com situações mais complexas e desafiantes, ficando menos vulneráveis a problemas de ansiedade.” Quando o assunto é brincar, Aida Figueiredo avisa que é preciso parar para pensar. Pensar no que se pretende para os mais novos. “Temos de permitir que as crianças sejam crianças. Penso que é inevitável um questionamento, individual e coletivo, por parte dos agentes educativos - pais, educadores, professores, escolas superiores de educação, universidades e responsáveis políticos pela educação -, sobre que cidadão se pretende para o futuro – reprodutor ou crítico e empreendedor – e se o que estamos a fazer atualmente permite alcançar o que desejamos”. 

“O recreio é um direito”

Há uma frase que se perpetua. Que entra na cabeça e que não sai. “A sala de aula não é para brincadeiras.” Brincar é no recreio. “No entanto, a atividade lúdica como metodologia de trabalho, em sala de aula, é muito valorizada. Não são os professores que não entendem”, refere ao EDUCARE.PT Maria José Araújo, doutorada em Ciências da Educação, professora na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. E não é por estar ou não na escola que os mais pequenos precisam de tempo para brincar. “A criança precisa de tempo para brincar porque é criança.” Há tempo para tudo. Tempo para estudar. Tempo para atividades escolares. Tempo livre. Tempo para brincar. E todos os tempos devem ser respeitados. 
“Os adultos só têm que respeitar os direitos das crianças e criar condições para que elas possam exercer esse direito.” “Aliás, é obrigatório criar condições para que a criança vá à escola e é igualmente obrigatório criar condições para que as crianças brinquem. Está bem explícito na Declaração dos Direitos da Criança”, lembra. A questão é que as crianças passam muito tempo na escola e quando acabam as aulas ficam a fazer atividades ou a estudar. Ficam no mesmo ambiente, quase sempre espaços fechados. “De uma maneira geral, fazem atividades que são, maioritariamente, programadas numa lógica escolar: mesma metodologia, mesma intenção, mesmo objetivo, não deixando muito espaço de intervenção e exploração para a criança.” 
É essencial respeitar as brincadeiras no recreio da escola. Há professores que castigam as crianças que não fazem os deveres, impedem-nas de ir ao recreio porque sabem que elas valorizam esse momento. Castigam para obrigar a fazer os trabalhos de casa. “Mas, na verdade, isso é perverso e é um erro, pois é castigar as crianças com o conhecimento que elas deviam valorizar. E é injusto porque são quase sempre os mesmos a serem castigados”, afirma Maria José Araújo. Um castigo contraproducente, na sua opinião, que merecia um estudo aprofundado.
“É importante que se explique que o recreio é um direito e é uma necessidade. É um espaço de sociabilidade fundamental para as crianças e os jovens.” Os adultos sabem o significado de um intervalo para café. Sabem que não é só para descansar. “Para as crianças e jovens é fundamental porque, de uma maneira geral, é no recreio da escola que eles conversam, brincam e criam novas brincadeiras e amizades. Cantam, fazem jogos, dançam, trocam informações, aprendem a cooperar e a estar uns com os outros, etc. Esta forma de se divertirem no recreio é fundamental para consolidar e recriar as suas culturas. É ainda fundamental para desenvolver a criatividade.” Não se trata de ir ao recreio recuperar energia. É mais do que isso. “É fundamental para cooperar com o seu grupo de pares, estabelecer redes e contactos, brincar e criar novos jogos e assim aprender. Na verdade, as crianças, enquanto atores sociais, sabem bem o significado do recreio e das brincadeiras de recreio. Basta perguntar-lhes.” 
As crianças querem brincar, mas são os adultos que gerem os tempos. “A intensa atividade que se esconde por detrás do brincar não é percetível para muitos adultos. E como são os adultos que organizam a vida das crianças, fazem-no em função das suas lógicas de adulto.” O que fazer? Cumprir os direitos da criança. Acabar com as desculpas. Criar condições de prazer e de bem-estar. Maria José Araújo garante que brincar é fundamental para aprender a cooperar, a concentrar, e é o primeiro passo para combater o insucesso escolar. “As crianças que brincam têm mais sucesso escolar e está comprovado cientificamente.” 

Amizade e tolerância 

Para Adelina Pereira, professora reformada, distinguida com o Prémio de Mérito Liderança do Ministério da Educação em 2011, o pré-escolar valoriza e incentiva a brincadeira através de atividades que despertam para o quotidiano e desenvolvem a imaginação. “No 1.º ciclo, o ensino não privilegia o brincar nas aulas, mas há uma preocupação que a aprendizagem dos conteúdos seja realizada de uma forma mais lúdica, sendo mais atrativa para os alunos com o apoio de jogos relacionados com as diferentes temáticas, bem como a utilização de computadores e quadros interativos na execução das várias tarefas”, refere. 
O tempo de brincar é importante. As brincadeiras despertam descobertas, a escola promove a socialização, facilita o encontro e a descoberta do outro. Brincar é um caminho para a partilha de valores. “Brincar deve ser um estímulo à criatividade e à imaginação com o uso de novas linguagens que ajudam as crianças a pensar. Uma vez que o mundo infantil está, de certa forma, entre a fantasia e a realidade, as brincadeiras permitem-lhes ‘fantasiar a realidade’ de uma forma criativa. É a brincar e a jogar que a criança aprende a comunicar, a relacionar-se com os outros e a adquirir um sentimento de pertença em relação ao grupo de amigos”, diz. O brincar deve ser, sempre que possível, em grupo, na sala ou no recreio, com atividades de lazer. E a escola pode oferecer equipamentos que ajudem a realizar tarefas divertidas. 
“O brincar deve promover relações de convívio, de amizade e de tolerância. Deve incentivar a aceitação do outro como um ser diferente mas igual na sua realização pessoal.” Os atores educativos sabem que brincar é importante. No pré-escolar, há tempo para isso. Depois, o cenário altera-se. É preciso cumprir programas, ter bons resultados, a vertente lúdica acaba por ficar em último plano. “Os pais, atentos, querem que os seus filhos sejam os melhores e numa perspetiva de lhes dar uma educação mais abrangente, arranjam-lhes atividades que lhes ocupam o pouco tempo que lhes resta da escola e dos trabalhos de casa. Assim, os alunos do 1.º ciclo e seguintes aproveitam, por vezes, a sala de aula para brincar, demonstrando alguma dificuldade em se concentrarem nas temáticas propostas”, repara. 
Adelina Pereira defende que a brincadeira deve ser estimulada dentro e fora da sala no pré-escolar. Atividades ao ar livre, em contacto com a natureza, deixar que os mais pequenos criem as suas próprias brincadeiras. “Passado este nível de descoberta, de adaptação, de socialização e de muita brincadeira, as crianças deviam entrar no 1.º ano com alguma maturidade para poderem compreender o mecanismo da escrita, da leitura e da matemática. Para isso, era necessário que as nossas crianças entrassem neste nível de ensino com 7 anos. Assim, a transição seria mais serena e haveria, sem dúvida, tempo para uma aprendizagem mais lúdica e aprazível”. “Uma criança com 6 anos e, às vezes, 5 a fazer 6, dali a três meses, não está ainda preparada para perceber os conceitos abstratos da leitura e da matemática. Começa aí o insucesso e o desinteresse pela escola e esta não vai largar a criança, dando-lhe mais aulas de recuperação, mais trabalhos de casa e lá se vai o tempo da brincadeira”, conclui.
Publicado, por Sara R. Oliveira, no sítio educare.pt em Julho de 2016

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

OIÇAM AS CRIANÇAS... O CONFRONTO ENTRE O QUE SENTEM E QUEM DECIDE POR ELAS


É todo o Sistema Educativo que está em causa. Esta sequência de declarações de crianças aplica-se a todas e não apenas às que, alegadamente, manifestam dificuldades na aprendizagem. Depois de as ouvir, interroguem-se! É chegado o tempo de compreender que, na idade das perguntas e da descoberta, não há lugar, apenas, para as respostas constantes dos manuais. Oiçam as crianças. Acrescentem-lhes jogo e vida. Não retirem o tempo para ser criança. Lembrem-se de Jean Chateau (1961): "se o jogo desenvolve as funções latentes, compreende-se que o ser mais bem dotado é aquele que mais joga" (...) 


A PROPÓSITO... 

ESCOLA DOENTE

Um artigo de Luís Goucha 

"Há milhares de crianças – e todos os dias o número aumenta – que iniciam o seu dia a tomar um comprimido para poderem assistir às aulas, a estar sossegados nas aulas, a estar com atenção nas aulas, a estar na Escola sem reacção, apenas para puderem lá estar! Devia isto ser um sinal de alarme, mas os pais e os professores fazem orelhas moucas como bons entendedores que são. Genericamente, as crianças tomam «ritalina» (palavra curiosa e duplamente feminina: Rita e Lina), medicamento caríssimo e de consequências devastadoras, que ao deixar de ser tomado deixa reaparecer toda a sintomatologia e um conjunto de efeitos secundários daí decorrentes: medo, pânico, insónias, tensão... A «ritalina» é prescrita para uma doença inventada: a PHDA, Perturbação de Hiperactividade e «Deficit de Atenção». Deu nome a esta «doença» um famoso psiquiatra americano, Eisenberg, que acabou por se retratar antes de morrer, por todos os males que provocou sem intenção, pois imediatamente a ter enunciado o «mal» os laboratórios apressaram-se a dizer que já tinham medicina para a cura. (...) A falta de emprego, a falta de habitação, a falta de felicidade, não se resolve com nenhum comprimido, apesar de algumas «aflições» poderem ser atenuadas, com eles. É urgente que a «teia» que envolve as crianças e implica os professores, que muitas vezes são parte deste processo errado de diagnóstico, seja desmantelada. É urgente que nos envolvamos, num processo educativo consistente, na resolução de um problema que estas substâncias agressivas apenas disfarçam, numa cura apenas ilusória. A nada ser feito, continuaremos a assistir ao «sucesso» e à «eficácia» de todas estas pastilhas mágicas, devastadoras, que todos procuramos para tudo, em detrimento da procura de solução do problema que, a maior parte das vezes porque tão simples e tão à vista, não conseguimos ver. (...)"

 

domingo, 13 de novembro de 2016

PENSAR EDUCAÇÃO, DESCONTRAIDAMENTE, NESTE DOMINGO...


Em outros espaços de comunicação, por diversas vezes, transcrevi parte de um artigo publicado na revista A Página da Educação. Trata-se de um estudo elaborado por Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, que trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. As referências a esse estudo foram publicadas na revista "Science" e divulgadas pelo Professor José Pacheco. A autora denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. 


E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Questiona o Professor José Pacheco: Irá o senhor ministro (referia-se a o ex-ministro Nuno Crato) contrariar dados científicos? E prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém". "(...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido".
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 12 de novembro de 2016

COMPORTAMENTOS DISRUPTIVOS E AS RECEITAS PARA QUEM FERE AS "NORMAS DO CONTEXTO"


Hoje, debrucei-me sobre um artigo, muito interessante, o paradigma de escola que deveríamos ter e aquele que é "oferecido" pelo sistema educativo português. O dia e a noite. Uma leitura de gozo pleno, não apenas porque se coaduna com o pensamento que estruturei ao longo de muitos anos, mas pela evidência dos argumentos em contraponto com a retrógrada missão da Escola. É capaz de se tornar fastidioso, mas hei-de repetir até à exaustão a necessidade de repensar tudo para de novo partir. A propósito, há dias escutei uma gasta justificação na abordagem aos "comportamentos disruptivos" por parte de alguns alunos. Isto é, aos comportamentos que acabam por "interromper o seguimento normal de um processo", concretamente, na sala de aula. É evidente que só escutei o que a peça enalteceu, pelo que desconheço o enquadramento geral da sessão. Porém, a ideia com que fiquei foi a de uma formação para professores no quadro dos jovens ditos "indisciplinados". 


A Psicóloga Clínica Dora Pereira sublinhou: "(...) estamos a falar de crianças e jovens cujo comportamento desafia as regras e as normas do contexto em que estão inseridos, quer pelo comportamento agitado, quer verbalmente agressivos, por vezes até provocador (...)". Ora, a questão que se coloca é exactamente essa, a das "regras e normas do contexto". Para uns, a criança ou o jovem deve ali estar convenientemente sentado, a ouvir o debitar de um dado programa do currículo, não se agitando e não questionando; para outros, onde me incluo, há "regras e normas do contexto" absolutamente ridículas e contrárias a uma pedagogia de sucesso. Li, no Público, tem já um certo tempo, um trabalho interessante embora com excessivas lacunas. A páginas tantas o jornalista questionava: "o insucesso dos alunos é maior porque eles são indisciplinados ou eles são mais indisciplinados porque têm insucesso? João Lopes, Doutorado em Psicologia da Educação, assumiu: "os alunos portam-se mal porque têm insucesso académico". Logo, a solução para o problema reside na promoção do sucesso escolar, concluiu. Como é que se consegue o sucesso, é a pergunta óbvia com uma resposta não menos óbvia: mudando o paradigma organizacional de escola e o paradigma pedagógico, sublinho eu. A indisciplina não se resolve com técnicas avulsas, como li algures, que "os professores têm de ser ensinados a gerir a indisciplina nas salas de aula", tampouco com o "estatuto do aluno", com "cartas de convivialidade" ou com o tão badalado reforço da autoridade dos professores.. Por essas vias, andarão sempre atrás do problema, ao jeito de bombeiros sofredores e angustiados perante o crescendo de fogos (focos) da dita "indisciplina". 
Curiosamente, ou talvez não, não se assiste a uma preocupação orientada e integrada para as causas dos problemas. Inclusive, os de natureza social, de mentalidade e de cultura que se encontram para além da escola. Não se fala da desestruturação da sociedade a todos os níveis. Assiste-se sim, a uma tentativa de colocação de pensos rápidos em feridas que são profundas e que necessitam de uma postura completamente distinta.
Nesse trabalho jornalístico do Público, li esta desenquadrada posição do Doutor João Lopes: bastam "meia dúzia de regras, que têm de ser deixadas claras logo no primeiro dia". Depois, perante um cenário em que um aluno insulta um professor, a reacção deve ser "rápida, directa e muito visível", do género expulsar da sala de aula e suspender o aluno, se for preciso. O que não se pode fazer "nunca, mas mesmo nunca", é deixar passar em claro, "porque é a acumulação de pequenas coisas que torna difícil a vida dos professores". A um doutorado, confesso, com o devido respeito pela pessoa, esperava que fosse muito mais além do que foi o pensamento há 50, 70, 80 anos. Só não falou da régua ou da "menina de cinco olhos". Porque esse é o círculo vicioso da indisciplina e a marca de um sistema desajustado do tempo que estamos a viver. O rigor, a disciplina, a aprendizagem séria e apaixonada não se conseguem por essas vias. Porque eles regressam e, naturalmente, farão o mesmo ou pior. 
Em contraponto, trago em memória o Professor José Pacheco de quem escutei mais ou menos isto: eu era um excelente professor. Preparava tudo ao pormenor e, um dia, questionei-me, se eu dou bem "as aulas" e muitos deles não aprendem, desinteressam-se e tornam-se indisciplinados, então não será que é pelo facto de eu "dar aulas" que eles não aprendem? Apenas este desabafo do Professor, não do Psicólogo, conduz a muitas interrogações, sobre os currículos, as disciplinas, os programas e os rotineiros actos pedagógicos. Eu sei que um outro caminho é muito mais difícil, porque abdica dos formatos impingidos pela hierarquia política, mas também sei que é o mais seguro e apaixonante para todos: o da reorganização de uma escola compaginada com os múltiplos interesses dos que lá vão para aprender, uma escola compaginada com as diversas ofertas educativas existentes fora do ambiente escolar e uma nova abordagem do estudo através do que já é comum se designar por "fenómenos complexos". Chegaremos lá, certamente, a formatos pedagógicos radicalmente diferentes, à autonomia de cada escola e à autonomia de cada aluno, à secundarização do manual, do sumário e do teste, a uma escola onde se aprenda para a vida e onde vigore o interesse pelo conhecimento e pela responsabilidade. 
Declarou o Professor Universitário Alexandre Quintanilha: "EU VIVO PORQUE SOU CURIOSO". É esta mensagem que deve ser incorporada nos alunos, mas que o sistema educativo teima em não permitir. Ilusão minha? Não, é o que já se vai fazendo por tanto lado. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

EDUCAÇÃO DESPORTIVA. NÃO É DE NOTAS, NA EDUCAÇÃO FÍSICA, PARA O ACESSO AO ENSINO SUPERIOR, QUE A SOCIEDADE PRECISA!


Por Manuel Sérgio - Professor aposentado da FMH/UTL.
(2006) - Nota: título da minha responsabilidade.

"(...) A substituição, na Escola, da disciplina de Educação Física pela de Educação Desportiva que, por sua vez, integraria o que hoje se pratica na Educação Física e no Desporto Escolar. A Educação Física “desportivizou-se” e, portanto, deixou de existir. Aliás, epistemologicamente, já há muito tempo que morreu. Criação da Educação Desportiva, como disciplina opcional, em todos os cursos universitários. É preciso, no meu entender, transformar o Desporto em Cultura e a Cultura em Desporto (...)"


"O neoliberalismo é o modelo que define a economia hodierna, a qual desta forma permite que alguns interesses privados controlem, com mão resoluta, a vida social, visando maximizar o seu lucro pessoal, sob a mão tutelar dos presidentes e governantes norteamericanos e britânicos, nomeadamente a partir de Ronald Reagan e Margareth Tatcher. O neoliberalismo, como doutrina, poucos a conhecem e, quando dele se fala, os “opinion maker’s” escondem a crítica, mesmo a civilizada e suave, no incenso da adoração à liberalização e flexibilização dos mercados, à competitividade e livre iniciativa empresariais, proclamando (neste caso, com razão) com exuberância emocional, a inutilidade de qualquer socialismo controlador da iniciativa privada e promotor de um movimento ininterrupto de nacionalizações. Demais, “o neoliberalismo actua melhor quando existe uma democracia eleitoral formal, mas desde que a população seja desviada das fontes de informação e dos debates públicos, que habilitam à formação participativa de uma tomada de decisão” (Noam Chomsky, Neoliberalismo e Ordem Global, Editorial Notícias, Lisboa, 2000, p. 9). E assim bem podem repimparse, nos seus fofos cadeirões, os que enriquecem à sombra do status quo. Depois de uns minutos de ciscunspecção, eles ficam a saber que muitos dos marginalizados, iletrados e acríticos, hipotecariam a alma, por meia dúzia de cêntimos... Após o colapso do “socialismo científico”, o neoliberalismo triunfou, sem outro modelo político que lhe desse luta. E assim a globalização (que não é necessariamente prejudicial) tornou-se o meio privilegiado de expansão da economia capitalista, se bem que “a liberdade das trocas, da circulação do capital e da especulação financeira, da competição selvagem e da fusão dos mercados num só mercado universal, sendo importantes” não sejam “as únicas dimensões do fenómeno” (António Almeida Santos, A Globalização, um processo em desenvolvimento, Instituto Piaget, Lisboa, 2005, p.44). A globalização, acompanhada da infoglobalização (ou da universalização das informações) chegaram à vida toda de cada um de nós e da sociedade em geral, originando uma crise de tamanha monta, a todos os níveis e estruturas, que não há por aí ninguém que, diante dela, seja capaz de remeter-se a um cómodo desdém. Os valores, sempre de pulso forte, que informavam a juventude; os laços comunitários que permitiam uma vida suave e sem solavancos; o patriotismo, como sentimento acrisolado, inultrapassável – tudo isto o vento da globalização levou, ao mesmo tempo que o capitalismo mundializado parece ser o “fim da História” (Fukuyama). Com os aplausos de Gorbachev, então dono do Kremlin, ao presidente Ronald Reagan – era caso para ponderar: estamos mesmo no “fim da História”? As democracias, onde o capitalismo actual viceja e onde, portanto, a ortodoxia neoliberal se instala, limitam-se a certos formalismos essenciais, mas que não pretendem desmantelar um mercado, uma publicidade, um marketing, sem escrúpulos. Correu mundo a afirmação de Margaret Thatcher: “diante da democracia neoliberal, não há alternativa”, retomada, no Brasil, por político de renome: “dentro da globalização não há alternativas e fora dela não há salvação”. Bichanava-lhes ao ouvido, de certo, o velho lema: What’s good for the General Motors, is good for the USA. Ora, se não há alternativa ao modelo dominante, vibra-se um golpe de morte na democracia, pois que esta manifesta um ostensivo debilitamento, diante do “pensamento único”. O processo democrático encontra-se reduzido ao ritual eleitoral, a decretos-lei e a periódicas e verbais contestações de rua. O povo nada sabe e nada pode, delegando o seu saber e o seu poder, nos governantes, nos deputados e na alta finança. E não lhe perguntem por que aumenta a desigualdade, a exclusão, a despolitização, o individualismo possessivo e competitivo, a violência urbana, precisamente em plena democracia neoliberal. À tona da sua resposta sobrenadará uma funda antipatia por um ou outro político e deixará incólume o sistema. A árvore não lhe deixa ver a floresta. 

II. Qualquer crítico pouco sagaz sabe hoje que o sistema educativo (e o sistema desportivo) é um subsistema do sistema social e assim a escola (e o desporto) está condicionada pelo que ocorre na sociedade toda. Mas também a escola (e o desporto) pode ser factor de transformação social, ajudando a formar especialistas e técnicos, que sejam cidadãos livres e libertadores. Também aqui há um corte epistemológico a fazer, ao romper com a ideia clássica, adveniente das obras de T.R. Malthus e D. Ricardo, de que os factores de produção decisivos, para o bem-estar das populações, seriam o espaço, a energia e a terra cultivável. T. W. Schultz sustenta, ao contrário, que “os factores de produção decisivos são a melhoria, na qualidade das pessoas, e os avanços no conhecimento (Invertiendo en la gente, Biblioteca Ariel, Argentina, 1985, p. 9). Portanto, os gastos com a educação, com a formação especializada, com a saúde, etc. representam investimentos em capital. A hipótese fundamental desta teoria consiste no facto de que a qualidade do capital humano é a “causa das causas” do progresso e do desenvolvimento. Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), traçados pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, no ano de 2000, pelos 189 Estados-Membros, apontam, como meta, entre outras, a atingir até 2015, “garantir que todas as crianças possam completar um ciclo do ensino básico”, já que “actualmente, existem 115 milhões de crianças, em idade escolar, que não frequentam a escola. Trata-se, na sua maioria, de crianças pobres, cujos pais não receberam também qualquer tipo de educação formal “ (A página da educação, Janeiro de 2006, p. 35). Na economia global do século XXI, a qualificação científica e profissional da força de trabalho (man-made comparative advantage) produz um efeito mobilizador , nas empresas e na sociedade. Só que a civilização do consumo pelo consumo, do crescimento pelo crescimento, da competição pela competição, incapaz de uma síntese entre a liberdade e a igualdade (os socialistas dizem potenciar a igualdade, os neoliberais inculcam pujança na liberdade) – reduziu o homo sapiens a homo oeconomicus e é lamentável a marginalização que grassa, mesmo entre os licenciados, mestres e doutores de países da Europa Ocidental. Se o ser humano não passa de coisa ou de simples objecto ao serviço do lucro, não surpreende o desemprego e o subemprego, onde se implantou um desenvolvimento sustentável, baseado no aumento da produtividade. Por outro lado, a concepção de Homem como ser essencialmente egoísta e egocêntrico, determinado, como besta selvagem, por estímulos de castigo ou recompensa, revivesce as velhas definições de Homem (homo homini lupus) e de Sociedade (bellum omnium contra omnes) e dá lugar ao surgimento de minorias dominantes e de um Estado como executor e zelador dos interesses do Big Business. Maurice Allais, Prémio Nobel da Economia em 1988, alerta-nos para o facto de vivermos sob o “livre-cambismo mundialista” mais conhecido por “globalização” confeccionada pela Administração dos Estados Unidos. Tal como analisa Bernard Perret: “Não se pode negligenciar que a lógica do capital coincide, em larga medida com os interesses e as estratégias da nação norteamericana” (Bernard Perret, Les nouvelles frontières de l’argent, Le Seuil, Paris, p. 117).. Nesta sociedade, que educação e que desporto? Tenho para mim que existe uma contradição insanável entre os dois pilares da sociedade actual: o liberalismo económico e a democracia. É que o liberalismo económico, se não gera regimes totalitários, produz “regimes globalitários”, na expressão de Ignacio Ramonet, os quais se fundam nos dogmas da globalização e do pensamento único. O capitalismo triunfante, sempre que resolve um problema, origina outro inevitavelmente, já que não põe limites à ganância privada. Aqui, os bens deixam de referir-se à reprodução da vida, porque se centram na reprodução do capital. Assim, há que criar um desporto que seja contra-poder ao poder da sociedade mercantil, em que tudo se compra e se vende. Como escreve Emir Sader, no seu livro A Vingança da História: o neoliberalismo não é só uma política económica, “trata-se de um projecto hegemónico internacional, que tem na supremacia norte-americana o seu agente fundamental e no livre comércio a sua ideologia” (Boitempo Editorial, S. Paulo, 2003, p.170). Ora, se este projecto hegemónico é factor de subdesenvolvimento para um quinto da humanidade – bem é que o desporto se transforme numa prática donde ressalte uma ideologia (para mim, um neo-socialismo que seja uma cultura do ser). Sugerimos assim um novo Desporto que resulte de uma nova Política e uma nova Política que resulte também de um novo Desporto. 

III. Eis aí a nossa proposta: 
1. Um Desporto que não seja apenas uma actividade física (refiro-me a qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos, que resulte em dispêndio de energia) mas também social e política. Uma abordagem sistémica do Desporto atribui de facto grande importância ao esforço físico, mas não esquece que o ser humano só se realiza, quando o ter se orienta em direcção ao ser. Ter saúde é pouco, se nela não há significação e sentido, para além de um conformismo massificador, fazedor de proezas físicas bestiais. A relevância “que o desporto assume na sociedade actual requer um maior investimento da classe política e dos partidos, para o estudarem e compreenderem” (Gustavo Pires, Gestão do Desporto – desenvolvimento organizacional, apogesd, Porto, 2005, p.182). Mas como fazer do Desporto um aspecto da luta necessária por uma sociedade mais equitativa? Fazendo do Desporto uma construção cultural, onde o conhecimento científico apareça como um compósito de princípios epistemológicos, sociológicos e políticos. É de lastimar, por exemplo, que, por interesses pessoais e institucionais, a epistemologia e a política ainda não figurem, como disciplinas, nos cursos de Ciências do Desporto, nas nossas universidades. Uma prioridade científica há-de ter sempre uma justificação epistemológica e o apoio político. Só que o neoliberalismo não é simplesmente um modelo, é uma ideologia total que penetrou na própria universidade. 
2. O Desporto deve considerar como um dado a ter em conta a questão dos valores. “Os valores do mercado penetraram em sectores da sociedade a que anteriormente presidiam condições de não mercado” (George Soros, A Crise do Capitalismo Global, Temas e Debates, Lisboa, 1999, p. 105). Ora, a vocação do Desporto é Ética, antes do mais. O Desporto (repito-me) não radica, unicamente, em princípios biológicos. A prática desportiva parte de uma zona de sobrevivência (a motricidade humana como factor de desenvolvimento), para uma zona do ter (ter condições para uma vida plena), acabando numa zona do ser (do Desporto ao Homem, na sua plenitude). A primeira missão da Educação é promover a formação de valores. Ora, o Desporto não é apenas um saber-fazer, próprio da especialização técnica dos profissionais, mas também um saber-agir, decorrente do cuidado ou do cuidar. H.-G. Gadamer, no livro O mistério da saúde – o cuidado da saúde e a arte da medicina (Edições 70, Lisboa, 1997) acentua a diferença fundamental entre saber fazer e saber agir. Diz o filósofo, em diálogo com o médico Vitor von Waisacker, que as sociedades contemporâneas vivem sob o império do saber fazer operatório. Para ele, a acção divide-se em teoria, em técnica e em práxis e é precisamente no agir (onde há teoria e técnica e práxis) que realizamos e nos realizamos, sempre com solicitude e amor. Donde o concluir-se que os licenciados em Desporto e os técnicos desportivos não poderão desprezar nem a teoria, nem a técnica, nem a práxis, desde o jogo e o lazer despor- tivos até à alta competição. Não será de repensar, por isso, os cursos de treinadores das várias modalidades e... as licenciaturas em Ciências do Desporto? É que, na esteira de Gadamer, o Desporto, porque é acção, deverá entender-se como uma ciência que jamais poderá interpretar-se, como puro comércio ou simples técnica. 
3. “Método e teoria são interdependentes. A metodologia, por simples ou básica que seja, depende de um conjunto de su- postos teóricos. Por exemplo, a recolha de dados sobre o desporto requer (...) uma definição de desporto de modo que, antes do mais, ela esteja presente em tudo o que se faz. Sem esta orientação conceptual, não há parâmetros, nem fronteiras, nem limites” (Kendall Blanchard y Alice Cheska, Antropologia del Deporte, ediciones bellaterra, s.a., Barcelona, 1986, p.43). Para mim, o Desporto, como motricidade humana e como moral em acção, é epistemologicamente um dos aspectos de uma nova ciência humana e politicamente poderá visar o nascimento de um novo socialismo (que se confunde com uma democracia participativa e uma economia distributiva), ou de uma nova cultura do ser. Para tanto, há que rejeitar qualquer política reformista que pretenda “humanizar” o que não tem humanização possível: um desporto ao serviço do neoliberalismo, promotor da sociedade de mercado que, por sua vez, se funda na exploração e alienação como fonte de acumulação do capital. E rejeitar também o Desporto como actividade (ou educação) física porque, quando se trabalha o físico tão-só, ajuda-se ao nascimento de máquinas a-desejantes e a-céfalas. O próprio treino desportivo deverá significar vontade de transcendência ou superação – o que supõe a criação de espaços, onde a transcendência seja possível, ou seja, de uma sociedade diferente. Como saber agir, o Desporto comunica um mundo novo! Comunica, na Escola, na Saúde, no Trabalho, no Lazer. O Desporto, como competição-diálogo e não competição-hostil, estabelece uma comunicação baseada na verdade, na coragem, na solidariedade. Por isso, na Escola, o professor de Desporto deve educar educando-se e conduzir sem impor e guiar sem dirigir. É evidente que, no desporto de elites (ou de alta competição, ou de alto rendimento), o treino prepara para um combate supremo mas em que a firmeza e a coragem não signifiquem ódio ou até antipatia pelo adversário. 
4. “O jogo é menos um divertimento que uma atitude fundamental e talvez mesmo específica da existência humana (...). Com efeito, como já o mostrou Huizinga, quase tudo é jogo na existência humana” (Nicolas Grimaldi, Traité de la banalité, PUF, Paris, 2005, pp. 155/156). Ora, porque o desporto é jogo, depressa é possível concluir-se que a Educação Desportiva, na Escola, afirmará a pessoa do educando como fim último de todo o processo educativo e radicará, solidamente, na sua liberdade e autonomia. Mas a Educação Desportiva deverá estar presente também na Universidade não só como prática extra-curricular, mas também como paradigma que se estuda e investiga, em colaboração, se possível, com outras instituições, tendo em conta que a Universidade deixou de possuir o exclusivo da investigação e produção do conhecimento científico. O clube desportivo poderá contribuir também ao desenvolvimento do desporto, procurando uma incontroversa mudança social. Mas será isso possível, quando para ele se canalizam dinheiros públicos e o Desporto se considera “um direito que o Estado deve procurar assegurar, na medida do que é justo e legítimo” (Gustavo Pires, op. cit., p.328)? Mas será isso ainda possível quando os clubes desportivos se encontram, tantas vezes, nas mãos de pessoas interessadas na manutenção do capitalismo vigente, ou incapazes de um questionamento da democracia puramente representativa, onde o cidadão só decide sobre uma oferta previamente estabelecida de nomes e programas? Na sociedade actual, a Educação Desportiva chega às pessoas, pelos mídia e pela internet, destituídos de preocupações éticas, bem mais do que pela Escola e pela Família (instituição, aliás, em crise). E sabemos o que isso representa! 
5. Substituição, na Escola, da disciplina de Educação Física pela de Educação Desportiva que, por sua vez, integraria o que hoje se pratica na Educação Física e no Desporto Escolar. A Educação Física “desportivizou-se” e, portanto, deixou de existir. Aliás, epistemologicamente, já há muito tempo que morreu. Criação da Educação Desportiva, como disciplina opcional, em todos os cursos universitários. 

IV. Por fim, cabe a Educação Desportiva, na racionalização das escolhas, em matéria de política desportiva? Tem o Desporto, na Escola, uma atitude problematizadora, diante do Desporto, da Escola e da Sociedade? Entendem os praticantes e os espectadores que o Desporto pode ser um factor de comunicação, emancipação e realização do ser humano? O Desporto tomou da cultura helénica a ideia de rivalidade, num campo de igualdade de oportunidades e ainda de espaço inigualável de êxito pessoal. Só que, quando se procura o êxito, pode chegar-se ao risco. E, em situação de risco, somos tentados a não olhar aos meios para conseguir os fins. Nesta circunstância, seria bom que o Desporto surgisse como um saber agir, ou seja, como teoria e técnica e práxis, nos termos em que o propõe Gadamer. O que vem sendo difícil, pois com uma tecnocultura electrónica que desvaloriza o pensamento e a teoria, o livro e a leitura, promovendo em sua substituição as opiniões de jornalistas e de locutores, ao serviço do mercado e da alienação das pessoas – o Desporto perde o seu carácter de moral em acção, deixa de ser instância normativa, dissolvendo-se numa prática inteiramente física e até tecnológica, absolutamente acrítica! Não se esconde que os atletas dos grandes desempenhos, ao identificarem-se com a sua Pátria, exercem funções importantes de consciência e unidade nacionais. No entanto, para quem vê no Desporto um subsistema do sistema Motricidade Humana, não pode centrar-se unicamente no espectáculo, no mercado, nos mídia, no poder da técnica, num certo magma pseudoteórico da ideologia biomédica, onde espectadores, praticantes, educandos são vistos como uma espécie de “tábua rasa” (John Locke) e, portanto, onde se legitima todo o tipo de autoritarismo dos dirigentes, dos treinadores, dos professores, do próprio Estado. Dizia o Lenine que “nada é mais prático do que uma boa teoria”. Assim, em nome de um Desporto e uma Sociedade diferentes, invoco a necessidade de uma Educação Desportiva que se transforme numa Educação Problematizadora (Paulo Freire) e, por consequência, através de uma teorização constante da prática desportiva, na Escola, no Clube, na Reabilitação, no Espectáculo, na Universidade. A propósito, poderemos escutar Manuel Ferreira Patrício: “Valorizar ou não valorizar a prática é em si mesmo um dilema pouco interessante, se não definirmos convenientemente a prática, nem a posicionarmos num sistema de pensamento que lhe dê sentido” (Lições de axiologia educacional, Universidade Aberta, Lisboa, 1993, p.85). De facto, o que o costume consagra precisa de ser, periodicamente, interrogado por critérios de ordem científica, ética e política. Porque sabemos que o Desporto é um dos ramos de uma nova ciência humana; porque sabemos que um currículo nunca é neutro, emergindo dele valores de toda a ordem; porque, em Portugal, a Educação Desportiva ainda não é uma Educação Problematizadora – propõe-se, por fim, a criação da disciplina de Epistemologia da Motricidade Humana e a revisão curricular, em todos os cursos universitários de Desporto e que os programas do Ministério da Educação, para esta área do conhecimento, sejam revistos também – é que a Educação Desportiva é Educação e esta deverá decorrer de um conhecimento-emancipação, que se transforme em cidadania científica, em cidadania cognitiva e em cidadania política (servindome de palavras de Boaventura de Sousa Santos). Que o mesmo é dizer: o Desporto não é só uma actividade física é, sobre o mais, humana. Importa retirar daqui todas as consequências, rejeitando qualquer dualismo, designadamente o que separa a alma do corpo como reflexo do antagonismo senhor-servo, explorador-explorado. Dir-se-á que a Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto nada tem a ver com o que se adianta, neste texto. Permito-me discordar, dado que o Desporto, como sistema, não é igual à soma das partes, não é compartimentável, é um todo coerente nas várias dimensões da vida em sociedade e no universo da pluralidade dos saberes. É preciso, no meu entender, transformar o Desporto em Cultura e a Cultura em Desporto, dois elementos da mesma complexidade – a democracia participativa, o neo-socialismo, onde tudo é política, porque tudo é pensado e vivido!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

REVISITAR FREINET - "NADA É RÍGIDO, PARA QUEM ALTERNADAMENTE PENSA E SONHA" (Bachelard)


"Ando a revisitar Freinet. Entusiasma-me em função das minhas concepções organizacionais e pedagógicas. Para mim é tão clarividente a sua proposta. Há quem dela desconfie, que a coloque na prateleira dos livros e documentos para esquecer, pois é muito mais fácil a rotina de séculos. Porém, para muitos, Freinet foi prospectivo nas dinâmicas entre a escola e a vida. Aspecto que estamos longe de concretizar. 

Freinet (1973) defende a ideia de que não é necessário sufocar as crianças com matérias para que elas consigam aprender. O papel da escola e dos professores é o de proporcionar situações por meio das quais as crianças sintam necessidade de agir, ou seja, fazer com que elas se dediquem intensamente à descoberta de algo que conseguiu despertar o seu interesse. (...) Michele Costa.  

      


domingo, 6 de novembro de 2016

PERGUNTA A PROFESSORA: "QUANTAS PATAS TEM UM ARTRÓPODE?"


"Está tudo definido. Não há nenhuma instituição na sociedade com mais prescrições do que a Escola. Se não há autonomia também não há responsabilidade".

Foi em Abril de 2011 que escrevi um texto subordinado àquele título. Circunstancialmente, hoje, voltei a ler uma parte. Considerei interessante (e importante passados cinco anos de inércia) uma parte da entrevista ao Professor Miguel Santos Guerra, Catedrático na Universidade de Málaga. Regresso a essa entrevista e a uma pergunta do Jornalista de A Página da Educação: "Esta edição inclui uma reportagem sobre a pobreza infantil. É um dos muitos problemas e das realidades sociais com que os professores se deparam. As escolas estão preparadas para lidar com estas questões?" Respondeu o Professor:
"Há aqui um problema - a Escola está separada da vida, está distante dos problemas da realidade. Eu vejo aí um problema: os livros, os conhecimentos inertes que, por vezes, não têm que ver com a realidade. A Escola não pode permanecer separada dos problemas da vida, porque a Escola é para a vida. Há um artigo que conta a história de uma professora de Biologia que pergunta a uma adolescente quantas patas tem um artrópode. E a adolescente, suspirando, diz-lhe: ai senhorita, quem me dera ter os problemas que a senhora tem...
Isto é um exemplo muito certeiro. Para mim, para a minha vida, isso das patas dos artrópodes, o que significa? A Escola tem de ser uma escola de vida e para a vida. É preciso entender a realidade: porque há pobres e ricos, como se evitaria essa diferença, porque uns estão condenados a ter tudo e outros não. A Escola tem de reflectir sobre isso e sobre o que se pode fazer. Não entendo uma escola que esteja afastada da vida, dos seus problemas, das suas realidades. (...) Por isso digo que a Escola tem de melhorar, tem de avançar, tem de abrir-se à realidade que está lá fora. A Escola está carregada de inércias, pressionada deste cima por um programa que os professores têm de desenvolver com pouca autonomia. Penso que as escolas têm de ter mais autonomia, mais autonomia curricular, naquilo que se faz lá dentro, mais autonomia organizativa, mais autonomia económica, porque está demasiado prescrito o que faz, o que têm os alunos de estudar, os horários, os exames... Está tudo definido. Não há nenhuma instituição na sociedade com mais prescrições do que a Escola".
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 5 de novembro de 2016

A ESCOLA DEVERIA SER A FESTA DIÁRIA DO PENSAMENTO


Fui aluno do Professor Doutor Salvato Trigo. Infelizmente não pude estar presente na conferência que decorreu ontem no Funchal. Tive pena, porque dele guardo várias intervenções que assisti no Porto. Gravei-as todas, transcrevi-as e distribuí pelos colegas de então. Muitas vezes a esses textos regresso, porque passados muitos anos, há ali sempre qualquer coisa que sinto necessidade de ter presente. Da sua intervenção de ontem, cujo resumo escutei em uma rádio, não estou certo qual, ficou-me, cito de cor, a sua preocupação na universidade que, hoje, parece predestinada a fazer investigadores, quando deve gerar nos professores uma acrescentada capacidade para PENSAR. O pensamento como pressuposto fundamental do mister da função docente. 


Por partes. Aborrece-me a expressão "dar aulas". É comum ouvir-se "dou aulas na escola tal...". O "dar aulas" traz no seu bojo, pelo menos para mim, o sentimento de qualquer coisa que se enquadra no repetitivo de um horário profissional, preparado para ser debitado, hora após hora, quase mecanicamente. Muitas vezes, pela existência de níveis diferentes, apenas o "chip" muda, mas a essência está lá toda. Quanto mais jovens são os alunos, mais me entristece esta postura docente. 
É assim, pois manda o currículo, o programa, o conselho pedagógico, o departamento, o grupo e, eventualmente, a inspecção pedagógica. Fica tudo documentado no sumário. Debita-se, avalia-se, juntam-se os pozinhos de outras "avaliações", dez por cento disto e daquilo e pronto, lá vem a reunião de conselho de turma e a nota para a pauta. Não ter estas preocupações torna-se perigoso, porque o sistema, tendo uma raiz burocrática, por si próprio, bloqueia o pensamento. Bloqueia o dos professores e bloqueia, obviamente, o dos alunos. Li, em tempos, uma passagem de Rubem Alves: "para o burocrata o que interessa é o que vem no relatório, não a criança". Tiro no alvo.
Conduzir o processo no sentido de fazer do conhecimento a festa do pensamento constitui, no nosso sistema, aspecto secundaríssimo. Criança que coloque muitas perguntas perturba o que foi "planeado". Preferível para um docente que tem de cumprir o que está determinado é a "doçura" do aluno, a quietude ao invés do questionamento. Conduzi-las para a estrada do pensamento, para a descoberta, para a liberdade de não subordinação ao manual, parece-me estar a muitas léguas do sistema que vigora em Portugal. Talvez, por isso, quebrar a espinha ao essencial da expressão "dar alas" é complicado, pela ausência, até, de vontade política. Os estabelecimentos de ensino olham para cima, para o determinado, para a circular, para os normativos, alguns que se contradizem, portanto, torna-se em diminuta fresta a possibilidade de olhar para baixo, para o aluno, para o grande desígnio da Educação, prepará-los para pensar.
Tenho presente um texto que escrevi em 2015. "(...) São palavras do Filósofo Immanuel Kant (1724/1804): "Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida. Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública." - In Ensinar a Pensar.
Obrigado Professor Salvato Trigo por ter trazido esta questão, a da necessidade de pensar, para o centro do debate. Será que alguém aproveitará?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ESPANHA E A GREVE CONTRA OS TPC


Inevitável. Começou em Espanha e, certamente, vai alastrar. "A Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães de Alunos (Ceapa), que representa cerca de 12 mil associações, instou as famílias das várias comunidades autonómicas espanholas a recusarem-se a fazer (...) os trabalhos de casa pois "invadem o tempo das famílias" e "violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas atividades artísticas e culturais", tal como vem descrito no artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança". (...) "Também queremos que o modelo mude e que se dê um salto qualitativo no sistema educativo. Escolas de outros países funcionam sem trabalhos de casa, sem livros de texto e sem exames e obtêm resultados magníficos".


Ainda há poucos dias foi aqui publicado um texto sobre a obsessão pelos TPC. Não bastam as intermináveis horas que as crianças passam na escola para, complementarmente, serem infernizadas com trabalhos "escolares para casa", gerando profundos desconfortos no seio das famílias e das crianças que, dessa forma, ficam cerceadas do direito de poderem viver um tempo que não volta. Por estas e muitos outros aspectos a organização escolar tem de mudar. 
Uma coisa é o sentido de responsabilidade pelo conhecimento, esse despertar que, paulatinamente, pode crescer nas crianças e jovens que as levem à necessidade de procurar ir mais longe nos diversos saberes; outra, absolutamente desconforme com a investigação já produzida, a de considerar que os TPC resolvem os diversos problemas designados por "défice de aprendizagem". A pergunta que governantes e professores deveriam fazer a todo o momento, talvez seja esta: através de um conjunto de estratégias eu ensino e ele não aprende. Porquê? Ora, na ausência da pergunta e de uma consistente resposta, a solução tem estado no massacre com tarefas que não resolvem os tais défices, apenas aliviam a consciência de quem as promove.
Em Portugal calcula-se que sejam cerca de cinco horas semanais o tempo destinado aos TPC. Maria José Araújo, pertence ao Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto. Em um dos seus estudos concluiu que "uma criança pequena em idade escolar trabalha em média nove horas por dia, o equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto". (...) "Essas nove horas são sempre em função da matéria escolar. E mais: há pessoas que, quando eles têm um comportamento menos próprio, ainda os castigam com contas e cópias e fazer isto é o mesmo que dizer-lhes que o conhecimento é uma chatice". (...) "Os adultos trabalham sete horas e meia e chegam ao fim cansados. Levam trabalho para casa? Não levam!" (...) "há mais de 20 anos que se denuncia este excesso de trabalho e os consequentes malefícios físicos, psicológicos e morais para as crianças". Leio: Os Trabalhos para Casa (TPC) de Catarina, sete anos, mudaram a vida de Vanda que deixou de ter actividades com os dois filhos e amigos após o trabalho, para chegar a casa o mais rapidamente possível para a criança, diariamente, "escrever, por extenso, 30 números, duas ou três cópias, escrever três vezes uma determinada tabuada e ainda duas frases do dia, por exemplo" (...) "Um exagero. Entrava na escola às 09:00, chegava a casa às 18:00 e ainda ficava uma hora, uma hora e meia a fazer trabalhos. Às vezes eram dez da noite e a miúda a fazer trabalhos". Alguém de bom senso pode aceitar uma situação destas?
O sistema educativo tem de passar por uma completa ruptura com o passado. Ninguém aprende com trabalhos de casa. A escola é que tem de mudar, radicalmente, a perspectiva pedagógica. O que significa, também, ter de mudar de paradigma curricular, programático e organizacional. É o que está acontecer um pouco por todo o lado. E os governantes, neste contexto, não podem ser meros administrativos. A sua postura política terá, necessariamente, de enquadrar-se no campo visionário baseado no conhecimento científico. Parece-me que lhes falta essa componente. Daí que saúde a greve dos pais e estudantes em Espanha. É um bom sinal.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

NEM LIÇÕES NEM MANUAIS ESCOLARES - FREINET


Este é um dos textos mais emblemáticos de Freinet, aquele em que preconiza o fim dos manuais escolares e das lições ex-cátedra. Data de 1937 este “manifesto”. Foi durante algum tempo uma obra decisiva para aqueles que escolhiam a Escola Moderna, (1) como modelo de trabalho, nas suas salas de aula. Os manuais escolares eram na altura, quer em França, quer em Portugal, os livros únicos adoptados pelo Ministério da Educação, o que significa que em todo o território e durante décadas, todos os alunos do mesmo ano estudaram pelos mesmos livros. Não existiam os manuais que hoje existem, esta profusão editorial meramente mercantil. Sem se questionar o valor pedagógico, ou a sua utilidade, escolhem-se arbitrariamente manuais que custam demasiado dinheiro aos pais, ou ao erário público. Em vez de auxiliar das aprendizagens, estes manuais são frequentemente adoptados como “programas” que as crianças cumprem preenchendo diariamente fichas sem sentido, com frequência deslocadas do sentido verdadeiro das aprendizagens. As editoras ganham milhões, numa relação custo benefício desequilibrada em desfavor do aluno. Logo o propósito de acabar com os Manuais Escolares, tem ainda hoje toda a actualidade. Quanto às lições, estas são a consequência de todo este “sistema”, ainda organizado e baseado no manual escolar, e no princípio de que, para aprenderem, as crianças têm de ouvir o professor na escola e estudarem pelo manual em casa. Erro demasiado grosseiro e óbvio, que as ciências da educação vêm demonstrando. Luis Goucha.

PELO FIM DAS LIÇÕES E DOS MANUAIS ESCOLARES


O grande erro é, a meu ver, a lição e os trabalhos escolares que dela resultam. É toda a técnica da escola tradicional que tentamos demolir. É um passado de ilusões, por vezes interessantes, mas que não receamos denunciar. Não iremos fazer uma crítica teórica desta técnica. Seria interessante mas não o vamos fazer; é preferível tentar resolver o mais premente, procurando expor os nossos pontos de vista, na proposta de uma prática. Diremos simplesmente para examinarem com atenção a técnica sem lições e sem exercícios escolares impostos, que já experimentámos há algum tempo. E depois com cautela, passo a passo, suprimindo lições e exercícios, para um assunto, primeiro, em seguida para dois e assim sucessivamente. Constatarão, de imediato, uma alteração no funcionamento da sala de aula. Acabem com as lições! Deixem de utilizar a voz e a vossa impaciência para explicar às crianças, que não têm nenhum interesse em vos ouvir, as matérias decorrentes dos programas que preenchem os vossos horários. Ireis deixar de vos enervar com as constantes chamadas de ordem à turma, com os alunos que falam com os companheiros, que fazem barulho com as mesas e cadeiras e nunca são capazes de responder às vossas perguntas inesperadas. Deixem de os obrigar a decorar definições, ou textos. Acabem com os fastidiosos exercícios e trabalhos de casa, acabem com os castigos que decorrem do não acatamento destas ordens.
Resultado: descanso para todos e, sobretudo, a possibilidade de criar entre os alunos e os professores uma intimidade e uma fraternidade, sem as quais será impossível existir uma verdadeira educação; acabem, de uma vez por todas, com esta hostilidade milenar que coloca os alunos contra os professores, numa espécie de opressão permanente de amos contra escravos. A supressão das lições e dos exercícios é uma das condições essenciais à criação de um ambiente educativo novo, que julgamos indispensável. (2) E ao fim de algum tempo podeis comparar os resultados ao nível das aquisições. Garantimos, aos mais renitentes, um sucesso no mínimo equivalente, sobretudo se tivermos em conta de que é possível fazer sentir nas crianças a necessidade de algumas conquistas e de as incentivar a conseguir, por elas mesmas, aquisições escolares que, no passado, só se obtinham com castigos. Basta que recordemos o pouco proveito que tirámos das lições que nos impuseram e dos exercícios que nos demoliram durante a juventude. Pensamos que não será difícil chegar, pelo menos, aos mesmos resultados, mas agora por caminhos bem mais estimulantes. A questão é querer fazer melhor. Para isso não basta abandonar uma técnica; é preciso substituir uma coisa por outra que lhe seja superior. Acreditámos e conseguimos.
Como já dissemos, a Imprensa na Escola está no centro das nossas actividades, é a partir dela que contamos animar o nosso pequeno universo, e levar as crianças a tomar consciência das suas possibilidades e a exteriorizá-las. Insistimos no valor excecional, hoje indiscutível, desta técnica. Com as trocas interescolares, consequência da sua utilização, obtivémos a motivação natural para a escrita, a leitura e gramática. (3) Proponho-me lançar aqui as bases duma técnica de trabalho sem lições, no que diz respeito a outras disciplinas: história, geografia, ciências… Podemos, como em muitas escolas novas, (4) exibir trabalhos, mostrando como é que o interesse pelo trabalho pode suscitar aquisições determinantes em diversas disciplinas. Mas este pensamento só é válido para uma escola de turmas reduzidas. Na prática, nas nossas escolas públicas [com efetivos de 40 ou mais alunos de diferentes níveis escolares] a técnica, por si só, revela-se insuficiente. São precisas regras. E estas regras não serão de certeza autoritárias. Há uma capacidade no espirito das crianças que desprezamos, porque as crianças mataram-na com tais práticas. E depois, aqui chegados, por vezes é difícil o regresso às origens.
Outra consideração importante: a criança, como o adulto, não tem nenhum interesse por um trabalho no qual não veja uma finalidade, o que acontece quase sempre na escola. (5) Para quê impor a um aluno um trabalho longo, destinado a ser sujo pelas correções a vermelho do professor, e só por este avaliado e classificado? Conseguimos que a criança que trabalha sinta sempre que está a servir uma comunidade. Quando escreve, quando imprime, não é para o professor, mas para os seus colegas e para os correspondentes. Quando estuda um problema de história, ciências ou geografia, terá de ter a sensação que o seu esforço vai servir a comunidade a que pertence. Conseguimos isso por dois meios: os Planos de Trabalho e as Conferências.
A Escola tradicional impõe a todas as crianças de uma classe o mesmo trabalho. É preciso que cada criança estude por si todas as matérias do programa. Se dividirmos todos os pontos do programa pelas horas de trabalho das crianças, ao longo do ano, verificaremos que o tempo disponível não permite aprofundar nenhum deles. Esta é a maior loucura da Escola. E se quisermos aprofundar alguma matéria, teremos de negligenciar outras igualmente importantes.(6) A Escola tradicional revista pelos professores da escola nova, é uma anarquia capitalista em que cada um vai para onde o leva o seu interesse individual e a sua fantasia, sem nenhuma consideração pelo interesse geral. É como se um grupo financeiro acreditasse enriquecer a construir automóveis para uma população que precisa de máquinas e tratores. De certa forma, é esta perspectiva que procuramos combater, quando organizamos o trabalho nas nossas salas de aula. Para cada uma das disciplinas do programa, estabelecemos planos de trabalho anuais que comportam, por assim dizer, a lista dos temas que as crianças têm de dominar. Esta lista é simplesmente a matéria do programa, que reproduzimos quase textualmente. As crianças, algumas vezes, irão mais longe, se soubermos manter intacta a sua curiosidade, a sua vontade de aprender, em vez de as obrigarmos a assimilarem conteúdos apenas para debitar. Esta é a nossa pedra de toque. Lamentamo-nos sempre que as crianças não querem estudar, deixando os assuntos pela rama, sem os aprofundar. Mas esquecemo-nos de nos interrogarmos sobre as suas razões: métodos demasiado escolásticos, exercícios a baterem sempre na mesma tecla, a monotonia das lições repetidas que não deixam tempo para mais nada. Pela nossa parte, sabemos que se procurarmos as técnicas e os materiais mais adequados a cada tema de estudo, poderemos esperar tudo das crianças. Observem se as crianças em liberdade, ainda não condicionadas pelo modo de fazer da escola, a andar pelos campos, a agarrar e a olhar uma pedra, um tufo de flores ou ervas, um insecto ou qualquer outro animal… o voo dos pássaros, e veremos logo que a necessidade de aprender faz parte da sua natureza. (7) (…) No dia em que a escola tiver descoberto as [nossas] técnicas, que em vez de aborrecerem as crianças, lhe permitirão ousadamente a conquista dos conhecimentos, não diremos mais que os programas são demasiado ambiciosos

OS MANUAIS ESCOLARES

Manuais escolares ou Pedagogia moderna? Não é um mero jogo de palavras ou uma questão de moda. É todo um comportamento pedagógico e até psicológico que está em causa. Os Manuais escolares nasceram, tal como os conhecemos, numa época em que as crianças tinham tudo a aprender de um mundo que ignoravam. No começo do seculo XX, a escola tinha um livro de leitura, mera coletânea de textos, áridos e vazios, e não existiam manuais para as ciências, a geografia etc. O professor ditava os resumos feitos por si, que os alunos aprendiam de cor, para recitarem de seguida. Era a cultura que tínhamos. Evidentemente fraca e insuficiente. E o manual escolar foi a resposta possível. Não criticamos o manual escolar em si, mas o uso que dele se faz. E se a sua utilização já foi benéfica, hoje está ultrapassada como auxiliar privilegiado. Os Manuais Escolares eram, pois, a expressão de uma forma de ensino destinado a crianças que não tinham outras formas de se instruírem, outras formas de acesso ao conhecimento. Aprendiam o que estava no manual, quisessem ou não. (8) O corolário desta forma de ensino, é a lição do professor: o professor explica, traz os conhecimentos que julga indispensáveis, faz as demonstrações necessárias, e depois dita os resumos para os alunos estudarem em casa. O manual escolar apoia o professor, permite ao aluno rever e estudar a lição, mas o processo é o mesmo: não existe nenhum recurso às iniciativas das crianças. É apenas o professor, ajudado pelo manual, que traz o conhecimento. Em muitos casos, cada vez mais frequentes, o professor toma o manual como a base de ensino, mas tenta melhorá-lo com trabalhos e pesquisas, que são um início de pedagogia moderna. Aliás, muitos manuais escolares têm em conta estas tendências dos professores e apresentam, no final das lições, perguntas e exercícios a fazer, a tal ponto que certos manuais podem mesmo ser considerados como uma base válida para uma pedagogia renovada. É uma etapa pela qual passaram numerosos dos nossos companheiros. Contudo, através desses manuais, continuam as lições em que os alunos ouvem e obedecem, em vez de agir e criar, seguindo todos ao mesmo ritmo, negando os princípios básicos de uma educação autêntica. Cada um tem necessariamente as suas capacidades e o seu ritmo, cada aluno trabalha para si, com o seu livro, onde faz os seus exercícios, mas trabalha distante do trabalho em equipa, de experimentação e pesquisa. É por isso que afirmamos que os manuais escolares, tal como existem, são um travão a uma boa educação, e que é rumo a um outro tipo de escola que é preciso orientar-nos, sem manuais e sem lições «doutorais».

O QUE FOI VÁLIDO NO PASSADO NÃO O É HOJE

Dissemos que no começo do século XX não havia nenhuma outra forma de conhecimento para além da experiencia expressa verbal ou materialmente pelos professores. As coisas mudaram. As fontes do conhecimento multiplicaram-se a ponto de se tornarem invasoras: profusão de revistas científicas ilustradas, inúmeras revistas para as crianças, a rádio, as viagens. (9) Até aos 13 anos, por exemplo, eu nunca tinha saído da minha aldeia … Hoje, com essa idade, há crianças que já quase deram a volta ao mundo! (10) Praticamente já nada temos para ensinar às crianças, eles já viram e ouviram tudo. Mas o excesso faz-se, muitas vezes, em detrimento do aprofundamento dos conhecimentos. A criança não conhece nem os elementos, nem as causas e consequências do que vê. São como as peças de um puzzle que se vem intrincar sobre uma natureza, às quais não consegue aderir, nem incorporar. É como lançar um punhado de sal na comida e nada se alterar no sabor. Melhor, este excesso de conhecimentos monopolizará uma parte das funções intelectuais, em detrimento das que anteriormente influenciavam o comportamento e a compreensão dos indivíduos. Estamos na era em que um excesso de conhecimento tende a bloquear a compreensão e a cultura. Resulta, pois, que os métodos de ensino, considerados válidos desde há muitos anos, são hoje deficientes. Precisamos de procurar uma pedagogia de integração, de cultura, (11) que permita aos alunos, no decurso da sua formação, a compreensão da complexidade que caracteriza, hoje, o mundo.
Freinet 1937

Sérgio Niza fala de Freinet como autor de referência, capaz de inspirar muitas acções pedagógicas mas que, «(…) deixando de ser actor para o diálogo real, se torna, por isso, interlocutor impossível dos potenciais leitores». E, no entanto, o que somos hoje foi, em boa parte, construído no diálogo com interlocutores impossíveis. Não no diálogo que procura soluções práticas em respostas de ontem para problemas de hoje, como se de projecções proféticas se tratassem, mas no diálogo com a história que busca a narrativa que nos fez chegar aqui. O saber não é estático, fixo no tempo, indiferente ao tempo que por ele passa. Como refere Paulo Freire, todos os saberes, uma vez detidos, são sempre saberes passados. Embora tendo uma história que garante a sua autenticidade, só adquirem um sentido actual na utilidade que para eles buscamos. Então, ao aceitarmos a herança de Freinet, aceitamos um saber fazer que podemos investir [actualizado] nas nossas práticas presentes, sem aquela «declaração em nosso desfavor», ou «mágoa pelo que somos e não fizemos como profissionais de educação», de que nos fala Sérgio Niza.


NOTAS

1. Escola moderna identifica o movimento pedagógico criado por Freinet, na 1ª metade do século XX. Trata-se de uma expressão que Freinet tomou do pedagogo Francisco Ferrer i Guàrdia, um catalão notável, que desenvolveu o método racional, privilegiando a educa- ção integral. Acusado de ser um dos instigadores dos acontecimentos sangrentos, que ficaram conhecidos por «semana trágica», é dado por culpado e, à conta disso, condenado à morte. Freinet escolhe a expressão Escola Moderna, demarcando-se da Escola Nova, «porque insistimos muito menos no aspecto novidade do que no da adaptação às necessidades do nosso sé- culo. Uma técnica da escola tradicional pode perfeitamente integrar-se nas nossas concepções, se permitir e facilitar as formas de trabalho que preconizamos» [Freinet e Salengros. «Modernizar a Escola». Lisboa Dinalivro, 1977: p. 9].

2. À ideia de lição está subjacente uma ideia de poder, o poder de quem dá a lição: «levou uma lição que nunca mais esqueceu». Uma lição dá-se sem perguntar a quem se dá se a quer ou não. Claro que libertar o aluno da lição não significa libertá-lo da obrigação trabalhar certos conteúdos do programa, mas permitir-lhe chegar a eles por outras vias.

3. O «Método natural», proposto por Freinet, alimentase destas técnicas. 

4. A «escola nova» ou «escola activa» foi um movimento de renovação pedagógica nascido em finais do séc. XIX, expandindo-se na 1ª metade do séc. XX. Freinet, inicialmente entusiasmado pelas suas propostas, rapidamente perde todo o seu fervor: «nenhuma das teorias podia ser transportada para a minha aldeia. As realizações só eram válidas em certas escolas novas da Alemanha ou da Suiça que, com um número reduzido de alunos e uma enorme profusão de educadores escolhidos, funcionaram em condições que não tinham nada de comparável àquelas em que eu tinha pela frente» [Freinet, citado por A. NUNES, “Freinet, Actualidade pedagógica de uma obra”. Edições ASA, 2002: p. 72].

5. Obviamente, todo o trabalho tem uma finalidade. A questão está em fazer com que a criança a perceba e a sinta como sua. Por vezes [muitas vezes mesmo], o prazer não está na realiza- ção desta ou daquela tarefa, mas no que espero alcançar. O trabalho comporta, tantas vezes, algum tipo de sacrifí- cio, que aceito pelo bem maior que lhe está associado. Daqui decorre a importância dos projectos educativos que implicam as crian- ças desde o momento da sua concepção. 

6. Está hoje na ordem do dia, o tamanho dos programas, que a generalidade dos professores consideram muito extensos, não permitindo o aprofundamento de certas matérias. O problema levantado pela extensão dos programas escolares não é novo. E a manter-se o modelo que obriga todos os alunos a caminharem ao ritmo marcado pelas aulas do professor, teremos sempre temas tratados pela rama. «Não gosto da maneira como nos limitam, em termos de aprendizagem – desabafa um aluno do 9º ano – em que tenho de seguir um processo de aprendizagem igual ao dos outros. Nós fazemos aquilo que a ‘stora’ diz, talvez em um terço do tempo que os outros fazem. Quando nós queremos saber mais e não nos deixam, nós acabamos por nos desinteressar» [in «A escola, o futuro e o 9º H». Grande reportagem SIC]. 

7. Houve tempo em que para sair da escola bastava avisar os pais no dia anterior, pedindo-lhes o seu consentimento, e colocar na porta da escola um aviso, com a indicação do lugar onde estávamos. Hoje isso não é mais possível: somos obrigados, no início do ano, a prever o imprevisível.

8. Hoje o conhecimento está em todo o lado, ao alcance de um clic, de uma forma bem mais aliciante do que a que é apresentada nas aulas. O problema não está no acesso ao saber mas no que fazer com ele, em saber separar o que é verdadeiramente importante, do que é lixo apenas. Num tempo em que o que hoje é, pode não ser amanhã, o domínio dos instrumentos de aprendizagem, tornou-se fundamental. Como diria Roland BARTHES «Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas surge em seguida uma outra em que se ensina o que se não sabe: a isso se chama procurar» [in «Lição». Lisboa, Edições 70, 2007: p.37]. 

9. E hoje, a televisão e todos os conteúdos que podemos consultar e descarregar da web e que nos colocam, num instante, em qualquer parte do mundo. 

10. Há notícia de crianças francesas nas colónias [Vietnam por exemplo], outros que tinham ido à América de barco. Para além de que a sua escola recebeu crianças espanholas de pais refugiados. 

11. Em Portugal, o «Movimeto da Escola Moderna», de certa forma herdeiro da pedagogia de Freinet, tem-se revelado como uma das instituições que mais tem investido nesta procura. 

Uma Nota Final 

O Método natural: os sentidos (não) naturais, no sentido de Freinet. in António NUNES e Daniel LOUSADA, «Do Método Natural ao Texto Livre». Porto, Euedito, 2012: pp. 19-21

A versão portuguesa e texto introdutório de Luís Goucha com notas de: Daniel Lousada, pode ser seguido AQUI. Sítio da Internet: 
https://sites.google.com/site/agoragaia/opiniao-artigos
Publicado exactamente como o original.